Segundo esse estudo genético, ou seja, dotado de todas as garantias que a ciência pode fornecer atualmente, os supostos (como diriam os jornalistas) afrodescendentes brasileiros têm tanta herança genética europeia quanto africana. Ou seja, somos mais iguais do que parece.
Isso destrói, quase completamente, uma das bases legitimadoras da campanha viciosa e viciada de militantes da causa racialista (e racista) negra em favor de políticas de ação afirmativa com base unicamente num corte "racial", ou fenotípico, em favor da comunidade em causa.
Acho que não vai detê-los, pois vão continuar argumentando sobre a dívida histórica, a injustiça da discriminação social, etc.
Mas pelo menos acaba com essa coisa de afrodescendente...
Paulo Roberto de Almeida
DNA de negros e pardos do Brasil é muito europeu
Reinaldo José Lopes
Folha de S.Paulo, 18/02/2011
No Brasil, faz cada vez menos sentido considerar que brancos têm origem europeia e negros são “africanos”. Segundo um novo estudo, mesmo quem se diz “preto” ou “pardo” nos censos nacionais traz forte contribuição da Europa em seu DNA. O trabalho, coordenado por Sérgio Danilo Pena, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), indica ainda que, apesar das diferenças regionais, a ancestralidade dos brasileiros acaba sendo relativamente uniforme. “A grande mensagem do trabalho é que [geneticamente] o Brasil é bem mais homogêneo do que se esperava”, disse Pena à Folha.
De Belém (PA) a Porto Alegre, a ascendência europeia nunca é inferior, em média, a 60%, nem ultrapassa os 80%. Há doses mais ou menos generosas de sangue africano, enquanto a menor contribuição é a indígena, só ultrapassando os 10% na região Norte do Brasil.
QUASE MIL
Além de moradores das capitais paraense e gaúcha, foram estudadas também populações de Ilhéus (BA) e Fortaleza (compondo a amostra nordestina), Rio de Janeiro (correspondendo ao Sudeste) e Joinville (segunda amostra da região Sul). Ao todo, foram 934 pessoas. A comparação completa entre brancos, pardos e pretos (categorias de autoidentificação consagradas nos censos do IBGE) só não foi possível no Ceará, onde não havia pretos na amostra, e em Santa Catarina, onde só havia pretos, frequentadores de um centro comunitário ligado ao movimento negro.
Para analisar o genoma, os geneticistas se valeram de um conjunto de 40 variantes de DNA, os chamados indels (sigla de “inserção e deleção”). São exatamente o que o nome sugere: pequenos trechos de “letras” químicas do genoma que às vezes sobram ou faltam no DNA. Cada região do planeta tem seu próprio conjunto de indels na população -alguns são típicos da África, outros da Europa. Dependendo da combinação deles no genoma de um indivíduo, é possível estimar a proporção de seus ancestrais que vieram de cada continente.
O que é este blog?
Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Afro-euro-descendentes? Acho que nao vai "colar"...
Assinar:
Postar comentários (Atom)
3 comentários:
Danilo Pena e Telma Birchal escreveram artigo publicado na Revista da USP:
"A inexistência biológica versus a existência social de raças humanas: pode a ciência instruir o etos social?"
http://www.usp.br/revistausp/68/02-sergio-telma.pdf
Transcrevo a passagem que apresenta o artigo:
Neste artigo abordaremos aspectos do conflito entre as visões biológica e social de “raça”, inicialmente mostrando as evidências científicas que suportam a tese de que, do ponto de vista biológico, raças humanas não existem (AAA, 1998). Em seguida, examinaremos a situação peculiar dos brasileiros, nos quais a ampla mistura de genes entre três diferentes grupos continentais fundadores – ameríndios, europeus e africanos – produziu uma fraca correlação de cor (um correlato de “raça”) com ancestralidade. Conseqüentemente, no Brasil, a cor, socialmente percebida, tem pouca ou nenhuma relevância biológica. Passaremos, a seguir, à discussão do relacionamento entre ciência e ética e à defesa da seguinte tese: embora a ciência não seja o campo de origem dos mandamentos morais, ela tem um papel importante na instrução da esfera social, pois, ao mostrar “o que não é”, ela liberta, ou seja, tem o poder de afastar erros e preconceitos. A seguir, pensaremos o problema da incorporação, pelo etos da sociedade, dos ensinamentos da genética. Sobre esse ponto, argumentaremos a favor da idéia de que o fato científico da inexistência das “raças” deve ser absorvido pela sociedade e incorporado a suas convicções e atitudes morais, no sentido de reforçar a oposição às afirmações de diferentes formas de hierarquia entre povos ou grupos humanos. Terminamos sugerindo que uma postura coerente e desejável seria a valorização da singularidade de cada indivíduo em substituição à sua identificação como membro de grupos “raciais” ou “de cor”.
Lindo o comentário acima. Mas quando um contratante prefere contratar um branco a um negro para qualquer tarefa, exceto limpar banheiros - esse preconceito é feito baseado na cor, na aparência externa ou fenótipo, não no genótipo. Portanto, independente do que diz a genética, o racismo existe sim, e negros não aparecem na propaganda do Banco na Avenida Paulista nem na propaganda de carro importado, nem nos cargos de direção, e assim por diante.
Rodrigo,
Nenhuma pessoa sensata nega a existência de racismo ou discriminação, não exatamente no Brasil, mas em toda em qualquer sociedade humana que tenha uma determinada dominância "racial" e na qual os "dominantes" expressam reservas quanto aos aspectos fenotípicos da "alteridade". Isso existe na Europa, no Japão, nos EUA, everywhere.
Quanto à propaganda, ouso discordar: ela é feita com base numa determinada percepção dos mercados, segmentados em termos de renda, mas já se pode notar uma presença negra, e mulata, crescente em todas as áreas, até para ser politicamente correto.
Em qualquer hipótese, o "racismo" só vai sobreviver enquanto a sociedade for justamente separada em raças, sendo absolutamente superado numa mistura total de todas as "etnias" da população.
Donde se conclui que a propaganda e a ação racialistas, baseadas na promoção de valores negros, africanos, ou seja lá o que for, é especialmente nefasta para esse ideal de mistura racial.
Quem são os racistas, afinal de contas? A sociedade em geral, ou os promotores do afrobrasileirismo?
Paulo Roberto de Almeida
Postar um comentário