O que é este blog?

Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Debate sobre o Free Trade nos EUA: esclarecendo posicoes -

Eu havia reagido (https://www.facebook.com/paulobooks/posts/1115225561874226), dias atrás, à carta de um leitor, pinçada na internet, questionando a validade do livre comércio do ponto de vista dos trabalhadores, mas não havia ainda lido o artigo original sobre essa questão, que me havia escapado. Agora leio o artigo e posto aqui, junto com minhas observacões feitas antes e depois de ter postado no Facebook.
Vejamos o que diz o artigo, e, depois, eu agrego meus comentários que foram feitos, é preciso dizer, PREVIAMENTE à leitura deste artigo, e baseado apenas num comentário de leitor.
Paulo Roberto de Almeida

What Americans really think about free trade

For decades, the benefits of free trade have been something that both political parties have agreed on. Eliminating tariffs, proponents said, would reduce the cost of goods for U.S. consumers and put more people to work in exporting industries.
Recently, though, some economists have concluded that the costs of free trade have been greater than expected, and both Democratic candidate Sen. Bernie Sanders and Republican Donald Trump have run successful presidential primary campaigns on protectionist platforms. Many of their supporters are now rejecting more than half a century of bipartisan economic consensus.
Outside of Sanders's and Trump's coalitions, however, there is little evidence of a broad reaction against free trade. Americans are deeply conflicted about the issue, as shown in two recent polls that came to opposite conclusions about public opinion on free trade.
One was a Gallup poll published last month, which found that a majority of Americans — 58 percent — see foreign trade as an economic opportunity. Just 33 percent said foreign trade was an economic threat. The share of respondents who are optimistic about trade has increased since the financial crisis. Perhaps as Americans are seeing the country as more economically secure, they've become less worried about competition from abroad.
Seven years ago, at the beginning of 2009, just 44 percent of those polled said that trade presented an opportunity. Among Democrats — who are more optimistic about the state of the economy under President Obama — the number seeing economic opportunity in trade increased even more sharply, from 43 percent in 2009 to 63 percent today. The figure among Republicans shifted from 45 percent to 50 percent.
That finding — overall optimism about trade, with partisan divisions — contrasted with the conclusion of a poll published Thursday by Bloomberg. "Opposition to free trade is a unifying concept even in a deeply divided electorate," the authors wrote.
Some of the Bloomberg poll's more striking findings seem to suggest a deep skepticism of international economic exchange. For example, Americans are overwhelmingly resistant to the idea of foreign ownership of factories on U.S. soil. Sixty-eight percent said they'd prefer a domestically owned factory in their communities to a Chinese-owned plant offering twice as many jobs.
Likewise, nearly two-thirds said that there should be more restrictions on imported goods, and 82 percent said they'd be willing to pay "a little more" for domestically produced goods in order to protect domestic workers from foreign competition.
These contrasting results show that Americans see both sides of the debate over trade. They also suggest that politicians can win over voters by focusing on either the costs or the benefits, Frank Newport, the editor in chief at Gallup, said in an interview.
"Americans are very much looking for guidance" on complex economic issues, he said. "You can shift people one way or the other. They’re open to argument."
For example, Newport noted, the Bloomberg poll asked about restrictions on imports, but not on exports, which would mean fewer opportunities for U.S. workers. Americans even have different feelings about imports depending on the industry. They are comfortable with the idea of imported electronics but want to protect American agriculture, Gallup has found.
A Pew poll last year revealed even more contradictions. Respondents were more likely to say that free trade had helped their families' finances than that free trade had made them worse off. When asked about the economy in general, though, they were more negative. The poll found that Americans were equally divided on the question of whether free trade improved economic growth, and much less likely to say that trade created opportunities for employment than that it reduced wages and put Americans out of work.
Previously, economists had argued that workers displaced because of competition with manufacturers overseas would quickly find work in other sectors. That hasn't happened, wrote economists David Autor, David Dorn and Gordon Hanson in a paper earlier this year. The costs of trade in the labor market have been higher than predicted, and they've been concentrated in particular sectors and regions of the country.
Those consequences for particular groups aren't clearly reflected in the overall polling data. As Newport said, there are some people in both parties who vehemently oppose trade, maybe because they have been affected by globalization themselves. Those are the groups that Trump and Sanders hope will help mobilize their campaigns.
These candidates might be able to win over some voters if they can focus on how competition from imports has negatively affected those workers, Newport said. "Jobs," he added, is "a magic word."
"There are a few words out there that Americans react very strongly to," he said. "They're willing to sanction almost anything to bring in more jobs."
Max Ehrenfreund writes for Wonkblog and compiles Wonkbook, a daily policy newsletter. You can subscribe here. Before joining The Washington Post, Ehrenfreund wrote for the Washington Monthly and The Sacramento Bee.
 
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Meus comentários (PRA) feitos previamente à leitura deste artigo:
(https://www.facebook.com/paulobooks/posts/1115225561874226

Livre comércio só interessa às corporações?

Sou um leitor compulsivo, doentio. Leio não apenas as matérias objetivas -- os "reports", como se diz na linguagem do jornalismo americano, que se distinguem das "analysis", quando o jornalista elabora sobre a matéria -- como também os artigos de opinião, que por vezes contém dados ou argumentos que não estão nos dois primeiros. Mas leio também, por incrível que pareça, cartas de leitores e reações virtuais nas colunas de opinião, que são reveladoras do que vai pela cabeça do público em geral, que é um pouco a opinião da média da população (claro, tem muito ativista de causas determinadas, mas eu sei distinguir isso também).
Pois, o que encontro na minha versão eletrônica do Washington Post? Esta diatribe de um leitor contra um artigo anterior que eu não li (mas isso não importa muito, pois importa a tese):

"Free trade is a myth; all we have is managed trade. The question is for whom? In practice, only corporations benefit. Why not workers also?" -- Bruce Bartlett

Concordo inteiramente com o leitor em que não existe Free Trade, apenas Managed Trade, uma espécie de mercantilismo bem comportado, supervisionado de forma muito ineficiente por essa tia gorda (quase 170 membros) e complacente que se chama OMC.
Mas a pergunta dele é absolutamente equivocada: seja free, seja managed, o trade é para consumidores, e para empresas que se abastecem no mercado, ou seja, não é, nunca foi, um jogo de soma zero como sua última afirmação tenta fazer crer.
Não são apenas as corporações que se benficiam do comércio livre. Se esse comércio não fosse livre, esse leitor, Bruce Bartlett, nunca poderia comprar o seu microondas por apenas 80 dólares; se fosse fabricado nos EUA, ou na Europa, não saíria por menos de 180 ou 200 dólares. Não sei se vou convencê-lo, mas as pessoas precisam tomar consciência que, independentemente das formas mais ou menos liberais que regulam o comércio internacional, ele sempre se faz, em última instância, em benefício dos consumidores. No meio, as corporações lucram, o que é óbvio, mas o que pretende esse leitor? Mágica? Ele quer um microondas a 80 dólares feito no seu Arkansas natal? Esqueça...

Addendum: Agrego o que acabo de postar num debate com um amigo de velhas negociações comerciais:
"... eu acho que os grandes problemas, as maiores alienações dos tecnoburocratas como nós (e eu me incluo nessa tropa) é sempre olhar a realidade pela ótica dos nossos materiais privilegiados: relatórios e informações de outros burocratas, documentos de organizações internacionais e livros e artigos de acadêmicos. Isso é uma distorção. O mundo lá fora, o das grandes corporações, das empresas, das pessoas, está se movimentando, e o que quer que façam os governos, estes vão ter em algum momento de se adaptar aos movimentos reais das economias de mercado."

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Depois, sustentei um debate na sequência desta postagem no Facebook, que transcrevo aqui porque ele é instrutivo para todos: 

Marcos Fernandes Não, a todos.....mas que mal faz se sim!? Cadeia de valor diversificada regionalmente...
Paulo Roberto de Almeida
Paulo Roberto de Almeida Sim, qual é o problema das cadeias de valor diversificadas regionalmente? Você pode me indicar qual é, exatamente, o problema? Existe um complô de forças poderosas contra os interesses dos consumidores? Me explique isso direitinho...
Paulo Roberto de Almeida
Write a reply...

Thiago D'Ávila
Thiago D'Ávila Paulo Roberto de Almeida, só um detalhe: o comentarista da notícia não falava em consumidores. A pergunta dele foi outra: "Why not workers also?" Ele está perguntando sobre workers...
Paulo Roberto de Almeida
Paulo Roberto de Almeida O que são trabalhadores, Thiago D'Ávila, se não consumidores? Vc já se deu conta que seus salários de mercado valem muito mais, compram muito mais graças ao livre comércio? Ou vc acha que sobraria muita coisa se eles tivessem de comprar aqueles enormes televisores made in America?
 Thiago D'Ávila Bem, aí teremos uma infinidade de assuntos interligados. Primeiro, nem todo consumidor é trabalhador (gente rica que não trabalha, criança, idoso aposentado, adulto desempregado, doentes, etc). Trabalhador é uma categoria e consumidor é outra, ainda que em Economia ocorram interligações na análise. Segundo, consumidor beneficiado com baixo preço nem de longe significa trabalhador beneficiado. Se você compra, a preço de banana, uma camisa feita por trabalhador escravo na Ásia, você é um consumidor beneficiado por um trabalhador claramente prejudicado. A pergunta dele é sobre WORKERS. Ele está claramente falando em benefícios trabalhistas.
Paulo Roberto de Almeida
Paulo Roberto de Almeida Acho que vc ainda não pegou o espírito da coisa Thiago D'Ávila: o trabalhador asiático que você diz ser "prejudicado" (em quê, exatamente?, explique) estaria em muito pior situação se não fosse pelo livre comércio, já pensou nisso? Gente rica que não trabalha, doentes, desempregados, etc, estariam EM MUITO PIOR SITUAÇÃO se não fosse pelo livre comércio. É muito difícil entender isto? Benefícios trabalhistas são uma convenção social, um contrato, uma regra; não tem nada a ver com livre comércio, que é, sempre foi, sempre será infinitamente melhor que todas as situações de mercantilismo, de comércio administrado, de restrições. Acho que qualquer pessoa medianamente aberta aos fenômenos de mercado pode perceber isso, não é?
Thiago D'Ávila
Thiago D'Ávila Paulo Roberto de Almeida, ok. Essas são as ideias nas quais vc acredita. Essas podem ser até as ideias comprováveis empiricamente. Essas podem ser as tão buscadas verdades universais.

O que eu estou apontando, pura e simplesmente, é que o comentaris
ta a quem você critica (ELE) está insinuando que o livre mercado não existe de fato (afirmação com a qual você inclusive concordou acima) e ELE está perguntando em relação a benefícios para trabalhadores, não a consumidores. EU estou dizendo apenas e tão somente que trabalhadores e consumidores são categorias distintas.EU não estou dizendo que livre mercado não possa trazer benefícios a trabalhadores e consumidores.

Isto tudo esclarecido, VOCÊ no fundo concorda com o comentarista a quem crítica, porque assim como ELE, você está dizendo que livre mercado não existe de fato, a situação real (de NÃO livre mercado apenas beneficia algumas empresas). E eu ouso supor que você também concorda com ele de que a atual situação (de NÃO livre mercado) prejudica trabalhadores.

Por fim, EU estou dizendo que sua crítica está errada (porque no fundo você concorda com ele), não a sua ideia.
Esse é o espírito da coisa. smile emoticon
Paulo Roberto de Almeida Meu caro Thiago D'Ávila, desculpe o atraso, mas volto a este debate importante. Acho que você ainda não capturou minha posição, mas independependente da minha posição, você não capturou o espírito da coisa que anda, ou seja, o princípio do livre comércio. Se eu estou concordando com o comentarista de que o livro comércio não existe, isso NÃO QUER DIZER que ele não seja possível, ou que ele é IMPOSSÍVEL. Basta que um país, unilateralmente (como aliás já fez a Inglaterra em 1846, até o início do século XX) decrete o livre comércio para si, para que ele comece a existir na prática. Ou que algum dia ele seja implementado como regra universal (o que ainda está longe), e que restrições, tarifas, normas e outras barreiras sejam a exceção, não a regra. A humanidade estará muito melhor, como estaria se a Declaração Universal dos DIREITOS DO HOMEM fosse implementada na prática, efetivamente (mas ela é NORMA UNIVERSAL, e EXISTE, e os países que se desviam dela são DESVIANTES, não a norma escrita ou não escrita, como é o mercantilismo atual do sistema multilateral de comércio, Gatt-OMC). Não é o livre comércio que prejudica trabalhadores, pois ele apenas desemprega setorialmente ALGUNS trabalhadores, beneficiando TODOS OS DEMAIS, como consumidores e como trabalhadores (e são categorias distintas apenas na teoria, pois na prática são exatamente as mesmas pessoas), pois o NÃO LIVRE COMÉRCIO prejudicará aqueles trabalhadores temporariamente protegidos, pois o setor, o ramo industrial, o país ficará isolado das pressões competitivas do resto mundo e DIMINUIRÁ A RENDA de todos os seus habitantes, não apenas os trabalhadores de um ou outro setor.  
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