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sábado, 6 de agosto de 2016

O golpe de 1964 e os academicos de 2013: persistem os maniqueísmos - Paulo Roberto de Almeida


O golpe de 1964 e os acadêmicos de 2013: persistem os maniqueísmos

Paulo Roberto de Almeida

Leio, num dos trabalhos apresentados no VI ENABED, Sexto Encontro Nacional da Associação dos Estudos de Defesa (2013), esta frase, emblemática do pensamento de acadêmicos atuais, sobre o golpe de 1964:
As novas gerações de oficiais ainda são formadas com a ideia de que o golpe de 1964 foi um bem para o país! Nada mais revelador da subordinação da sociedade ao falso e vão orgulho corporativo. A grandeza está no reconhecimento da verdade, não em sua obtusa negação. Esse passo é fundamental para que as corporações [militares] se abram efetivamente ao diálogo amplo com a sociedade.

A razão desse texto encontra-se num parágrafo anterior, no qual o mesmo acadêmico diz o seguinte:
Muitos brasileiros concordam que é premente a necessidade de equipar as corporações militares em consonância com as aspirações do Estado brasileiro no que diz respeito à presença no cenário internacional. (...) Mas é intrigante o silêncio quanto a algo fundamental para a legitimação das instituições militares: o pedido de desculpas pelos crimes praticados contra comunistas, patriotas e democratas durante a sangrenta ditadura militar.

O autor acredita que:
Esse assunto é tabu até em certos ambientes acadêmicos, pretensamente mais livres para a expressão do pensamento. (...) A simples menção de fatos do passado recente é tida como provocação desajuizada. O fato de mencionar que brasileiros... foram torturado em estabelecimentos militares é tido como 'revanchismo de derrotado'. Ora, os derrotados não foram os que lutaram contra a ditadura, mas os que a sustentaram!

Meu comentário a partir do que li. O autor parece acreditar que o golpe de 1964 foi um mal para o país, ou pelo menos para pessoas como ele, que se opuseram ao golpe e foram provavelmente submetidas a tratamento rigoroso por parte da repressão policial e militar, eventualmente tortura. Esse fato, essa realidade, a da repressão e da tortura, são o resultado de um desenvolvimento ulterior do movimento militar que derrubou o governo Goulart que não estava necessariamente inscrito na lógica do “golpe” enquanto tal, ou seja, o ato de derrubada de um governo e a instalação de um governo autoritário, que pretendia corrigir certas “mazelas” do sistema político brasileiro, para depois tentar voltar à “normalidade”, isto é, um regime democrático civil, mas expurgado daqueles “elementos subversivos” que os militares identificavam como responsáveis pela deterioração da governança sob o regime Goulart.
O autor fala de “crimes praticados contra comunistas, patriotas e democratas durante a sangrenta ditadura militar”, mas esquece de mencionar que esses crimes foram perpetrados depois que a esquerda armada deu início a uma ofensiva contra o regime e o governo, num projeto de luta pelo socialismo no Brasil. Em outros termos: esses “crimes” teriam ocorrido se a oposição política ao regime e ao governo fosse apenas limitada ao terreno político civil, sem as tentativas de guerra de guerrilhas, urbana ou camponesa? Ele também esquece que o golpe não foi dado por uma motivação de seus principais atores no sentido de instaurarem um regime de exceção, autoritário, ou de imediato comprometido com a eliminação física de seus oponentes. Esses traços da ditadura militar são uma consequência ulterior de um longo processo político que viu o governo Goulart entrar em virtual colapso, no plano do parlamento e dos movimentos civis, quando forças aparentemente majoritárias na sociedade pressionam os militares para intervir mais uma vez no cenário político, que vivia praticamente em colapso nos momentos finais desse governo.
Com todos os equívocos de julgamento sobre o “golpe de 1964”, o autor em questão representa uma communis opinio de grande parte, senão da maioria, da comunidade acadêmica brasileira, que parece desempenhar o papel dos historiadores jacobinos da revolução francesa, ou seja, uma visão comprometida com uma versão peculiar da história, feita mais de ideologia do que de exposição objetiva dos fatos.
A trajetória do Brasil sob o regime militar merece uma avaliação menos passional e mais equilibrada de uma deterioração política que deve tanto à esquerda armada quanto à direita radical o fato de ter enveredado por caminhos tortuosos e desenvolvimentos dramáticos, que provavelmente não teriam ocorrido caso a oposição, a resistência e a luta contra a ditadura tivesse assumido formas essencialmente políticas, ou seja pacíficas, de expressão.
Vou escrever a respeito, aliás já estou escrevendo. Divulgarei no momento oportuno.

Paulo Roberto de Almeida 
Brasília, 6 de agosto de 2016
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