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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Argentina: parada no tempo, dificil retomada - Orlando J. Ferretes (La Nacion)

Cesar Maia transcreve em seu blog diário (17/02/2017), traduzindo (com diversas imperfeições no texto), artigo de Orlando J. Ferretes (La Nación, 15/02/2017) sobre a difícil situação argentina, que enfrenta uma tentativa de retomada de políticas econômicas de boa qualidade, depois de anos, décadas, de destruição progressiva dos fundamentos do país por elites ineptas e corruptas (tanto quanto no Brasil, mas lá nem os militares conseguiram modernizar o país).
Basta dizer que um século atrás, os argentinos exibiam 73% do PIB per capita americano, à frente de vários países europeus, e hoje mal chegam a 30% disso, quando nós, que partimos de 11% apenas, chegamos no máximo a 28% nos tempos do "milagre econômico brasileiro" (1968-1979), e hoje temos menos de um quinto da renda dos americanos.
Estive recentemente na Argentina e o que pude observar é que, à parte da modernização superficial (internet, celular, essas coisas), a Argentina parou no tempo, vítima, como explicado no artigo, dos confiscos de poupança feitos por vários governos (com destaque para os peronistas) e de uma inflação impressionante, que destruiu qualquer esperança no país, tanto é que existe pouca bancarização e o argentino mantém seus ativos em dólares.
Instrutivo essa leitura, mas já sabemos o que aconteceu na Argentina em termos de destruição de valor.
Aqui tivemos um peronismo de botequim, sem doutrina, sem qualquer racionalidade, mas os nossos "peronistas" também conseguiram destruir o Brasil...
Paulo Roberto de Almeida

SITUAÇÃO DA ARGENTINA!

(Orlando J. Ferretes - La Nacion, 15)

1. Estamos em um período de transição de um país decadente para um país que pode ser recuperado. De fato, a Argentina é o país que mais diminuiu em relação a outros países desde 1910, ainda que isso seja mais percebido a partir de 1930. O mais inaceitável para um habitante da Argentina é ter passado do oitavo lugar mundial, naqueles anos com valores semelhantes aos do Canadá, Austrália e Nova Zelândia, para os números atuais, onde estes países têm cerca de 45.000 dólares de renda per capita e a Argentina cerca de 12.000 dólares per capita.

2. O que aconteceu conosco? Não investimos o suficiente. Atualmente existem mais de 30 países que investem mais de 30% do PIB, incluindo a China, Coréia e muitos outros, enquanto nós estamos apenas em um esforço de investimento de 14,8% do PIB, quando entre 1880 e 1910, investíamos 42% do PIB. Sei que é muito difícil de investir esse montante de forma permanente, mas tampouco se pode explicar por que reduzimos a um valor de investimento tão baixo.

3. Confirmado o fato de que o nosso esforço de investimento tem sido muito baixo, temos de encontrar as causas desse comportamento. Por um lado temos incentivado o consumo de forma adequada, mas não temos o equipamento para sustentar essa produção. Por outro lado, temos expropriado a poupança dos argentinos e estrangeiros com uma inflação média anual de cerca de 70% desde 1944 e periodicamente temos tido um padrão de hiperinflação. Isso fez com que ninguém queira ter suas economias em pesos argentinos.

4. No máximo o necessário para se observar como temporariamente se incrementava nosso saldo bancário acima de um valor mínimo. Superado esse valor, já nos preparávamos para salvar essa economia em divisas fortes, seja na Argentina ou no exterior, mas sempre fora do sistema bancário ou financeiro do nosso p aís.

5. Houve duas expropriações de poupança em 1990 e 2002, onde substituíram todos os depósitos por títulos estatais de 10 anos e os argentinos não se esqueceram daqueles terríveis momentos. Agora, com o plano de anistia fiscal proposto pelo governo, que pode atingir 150 bilhões de dólares, está acontecendo uma reversão das expectativas de confisco por 10 anos. Não se acredita que o atual governo se atreva a expropriar novamente a poupança em troca de um bônus estatal de 10 anos, como aconteceu naquelas oportunidades.

6. Ainda não há muito investimento físico, mas esse processo leva pelo menos três anos para se consolidar desde que não existam ruídos macroeconômicos e que tudo funcione bem para investir. Nós que estão infectados com o vírus populista, que queremos resultados imediatos naquilo que estamos tentando alcançar, precisamos saber que esses resultados não vão acontecer. Vai demorar mais do que um ou dois anos para que nos recuperemos do nosso baixo investimento, pois é um processo que está em andamento há mais de oitenta anos desde 1930, quando a grande crise global começou.     

7. Outros países se remodelaram e mudaram significativamente sua orientação, mas decidimos continuar da mesma forma, exceto em raros momentos de raciocínio. Mauricio Macri, que é engenheiro, tem vários objetivos a alcançar e trabalha em função dos mesmos, mas sabe que não se podem alcançar todos esses objetivos simultaneamente. A Argentina precisa de tempo para ver os resultados e, enquanto isso, precisa que trabalhemos.
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