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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Livros, livrarias, leituras: suplemento do jornal Valor - Joao Luiz Rosa (2/06/2017)

Um enredo de suspense
Por João Luiz Rosa | De São Paulo
Valor Econômico, 2 junho 2017

  

 Equipe da Todavia: de baixo para cima, Flavio Moura (editor), Ana Paula Hisayama (diretora de direitos autorais), Andre Conti (editor), Alfredo Setubal (editor), Leandro Sarmatz (editor) e Marcelo Levy (diretor comercial)

Para muita gente, ir à livraria tornou-se um programa recorrente nas grandes capitais. As pessoas caminham por entre as estantes, folheiam os livros, se deixam encantar pelas capas coloridas. Às vezes, aproveitam para tomar um café ou fazer um lanche rápido. Amigos conversam, casais se encontram, pais distraem os filhos. Parece o pano de fundo ideal para o negócio de qualquer editor ou livreiro, não fosse por um detalhe: boa parte desses consumidores sai sem comprar nada.
O fenômeno explica, pelo menos em parte, por que tantas lojas de livros continuam cheias, embora as vendas estejam em queda. Existem mais leitores que compradores de livros no Brasil. Em 2015, 56% da população se declarava leitora - ou seja, havia lido pelo menos um livro nos últimos três meses -, mas só 26% dissera ter comprado algum livro nesse período, segundo a pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil". O descompasso se explica pelo fato de que, para ler, há quem procure bibliotecas ou peça livros emprestados. Também é preciso levar em conta o papel da Bíblia. Lida por 42% da base de leitores (o que a torna o gênero favorito no país), ela não exige compras frequentes.
A falta de consumidores preocupa, claro, a cadeia editorial. No ano passado, o faturamento das editoras brasileiras caiu 5,2% em relação a 2015, levando em conta a inflação do período, de 6,3%, segundo levantamento da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Em termos nominais, sem considerar a inflação, ocorreu um aumento de 0,74%. Houve uma melhora em relação ao resultado anterior, que apresentara retração de 12,6% em termos reais, mas esse alívio não foi sentido por todo o setor. Isso porque o crescimento veio praticamente de uma única área - as vendas ao governo, que aumentaram 13,8%. "As compras governamentais ajudaram a equilibrar o desempenho geral, mas são capturadas por um número pequeno de editoras [aquelas que produzem livros didáticos e de referência]. Além disso, não passam pelas livrarias", diz Marcos da Veiga Pereira, dono da editora Sextante e presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel).
As livrarias, aliás, são o nervo mais exposto do mercado em queda. Desde que o comércio eletrônico começou a ganhar força, anos atrás, muitas redes passaram a investir no conceito das superlojas - espaços imensos e bem localizados capazes de abrigar cafés, restaurantes, auditórios, minilojas de eletrônicos etc. A princípio, a tendência parecia irreversível. O filme "Mensagem para Você" já brincava com o tema em 1998. Na história, Meg Ryan é a dona de uma pequena livraria em Nova York que se sente ameaçada pela chegada de uma grande rede comandada por Tom Hanks - uma referência clara à rápida expansão de grupos como Borders e Barnes & Noble.
Agora, os tempos são outros. A Borders faliu em 2011 e a Barnes & Noble reduziu de 798 para 640 o número de suas lojas entre 2008 e 2016. Em contrapartida, o número de livrarias independentes, fora das grandes redes, aumentou de 1.401 para 1.775 nos Estados Unidos de 2009 até o ano passado. Será que o modelo da superloja está perto do esgotamento?
No Brasil, algumas redes estão diminuindo o tamanho de suas lojas. A Livraria da Vila, com dez unidades no país, recentemente reduziu o espaço de duas delas em São Paulo - as dos luxuosos shoppings Cidade Jardim e JK Iguatemi. A primeira tinha 2,5 mil m2. A segunda, 1,7 mil m2. As lojas ficaram com pouco mais de 400 m2 cada uma. A Livraria Saraiva, com 110 lojas no país, está fazendo ajustes nas que estão com mais de 1,2 mil m2. Em São Paulo, uma loja de 1,4 mil m2 foi reduzida para 600 m2.
Mas é cedo para dizer que Meg Ryan tinha razão. Para os executivos das livrarias, cada rede tem seus próprios motivos para reduzir o tamanho das lojas - e seria um erro interpretá-los como uma tendência de mercado.
Na Saraiva, a redução tem atingido principalmente as seções de filmes e música, que foram muito afetadas pela concorrência dos meios digitais, como os serviços de streaming, diz Marcelo Ubriaco, vice-presidente da livraria. "Ainda somos relevantes nas duas áreas e não vamos tomar nenhuma atitude drástica, mas precisamos nos adaptar. Não dá mais para abrir espaços de 500 m2 para CDs e filmes."
   

Para Sergio Herz, presidente da Livraria Cultura, o que resta à loja física é proporcionar experiência ao consumidor


A situação é diferente na Livraria da Vila. "No nosso caso, foi uma decisão de voltar às origens, com lojas menores, mais aconchegantes", diz Samuel Seibel, proprietário da companhia, cuja primeira unidade, no bairro paulistano de Pinheiros, tem cerca de 700 m2. "Percebemos que as duas lojas [Cidade Jardim e JK] eram grandes demais, o que não fazia parte do nosso conceito. É preciso ser coerente com seu modelo [de negócio]. Saber de quanto espaço precisa para caber o que você quer oferecer."
Esse é, exatamente, o dilema das superlivrarias. Grandes lojas requerem gastos maciços com estoque, mão de obra, treinamento, aluguel, energia elétrica e uma longa lista de custos. Reduzir o tamanho pode ajudar a economizar no curto prazo, mas não no fim das contas não vai desestimular a frequência do consumidor? Por outro lado, vale a pena manter uma superestrutura apreciada pelos frequentadores, mas que não se traduz em vendas à altura?
A internet tem muito a ver com isso. "O cliente não precisa mais da loja física. O futuro das vendas está no comércio eletrônico", diz Sergio Herz, presidente da Livraria Cultura, com 18 unidades no país. "O nível de inteligência do mundo digital é tão alto que deixou o ponto físico praticamente acéfalo. O que resta à loja física é [proporcionar] experiência [ao consumidor]."
   

Para Otávio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras, o hábito de leitura mudou, mas não é um processo consolidado

Por experiência, explica o empresário, está a prestação de serviços. É o caso do Teatro Eva Herz, na loja da avenida Paulista, ou do restaurante Manioca, cujo acesso, no shopping Iguatemi, é feito por meio de uma loja da rede. Ambas as unidades estão em São Paulo. A estratégia da Cultura é dobrar as vendas de livros no site - dos atuais 30% da receita para cerca de 60% -, deixando aos pontos físicos a tarefa de fortalecer os vínculos do consumidor com a marca e proporcionar fontes adicionais de receita.
A dificuldade para o setor é como, em meio a uma das crises mais severas da história, aumentar o número de leitores em um país onde 30% das pessoas confessam não gostar de ler e outros 43% dizem "gostar um pouco", quase como uma concessão à literatura. Há consenso de que a crise é do varejo em geral, não só dos livros, embora o setor seja mais duramente atingido porque tem comportamento de mercado maduro - com evolução lenta ou retração - mas público pequeno, típico de mercados jovens.
Formar público não é fácil, nem rápido. Depende da adoção de políticas educacionais e de incentivo à leitura, que são responsabilidade do governo em suas várias esferas. Também é, em grande medida, uma questão de família. A mãe, ou a responsável do sexo feminino, é apontada como a principal influência no gosto pelo ato de ler, seguida pelo professor.
   

Seibel, da Livraria da Vila: de volta às origens

No dia a dia, o preço é frequentemente apontado como principal vilão das vendas. Nas rodas de amigos, alguém sempre comenta que livro custa caro no Brasil. Essa percepção, porém, é desmentida pelos números. Em uma década, entre 2006 e o ano passado, o preço médio do livro caiu de R$ 25,97 para R$ 17,09, em valores corrigidos pela inflação. Os dados se referem aos preços pagos pelas livrarias às editoras, não ao que sai do bolso do consumidor. Mas nesse caso também houve queda nos preços, até mais pronunciada dependendo do caso. Em 2004, um best-seller como "O Código Da Vinci" era vendido a R$ 39,90, diz Pereira, da Sextante. Com a inflação, um livro com características e tiragem semelhantes teria de custar, hoje, R$ 79,80, mas sai por cerca de R$ 50, uma perda de 40%, compara o empresário.
Fixar o preço de um livro é uma tarefa complexa. Há diversos custos incluídos - do papel ao pagamento dos direitos autorais, o que, dependendo do caso, requer fazer adiantamentos de três ou quatro anos para o escritor. Em geral, o preço é definido pela editora e vale para todo o território nacional, independentemente do custo do frete para o produto chegar às regiões mais distantes.
Com a estabilização econômica, anos atrás, o mercado passou a fazer correções discretas de preço ou, simplesmente, não repassar os custos para o leitor, diz Luís Antônio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL). A expectativa era aproveitar o bom momento para ampliar a base de leitores. Nas livrarias, o acirramento da competição levou muitas redes a conceder descontos cada vez maiores. Quando a crise chegou, os preços estavam reprimidos e o espaço para aumentá-los desaparecera. "Foi uma armadilha", afirma Torelli.
Uma das possibilidades para aliviar a situação é a chamada lei do preço fixo. De autoria da senadora Fátima Bezerra (PT/RN), o projeto de Lei nº 49/2015, em tramitação no Senado, estabelece que, durante um ano, os preços de capa não podem receber descontos superiores a 10%. Com o PL, o objetivo é criar condições de competição mais parecidas entre livrarias independentes, com poder de negociação menor, e as grandes redes. "Em vários países onde foi aplicada, [esse tipo de lei] alcançou resultados muito positivos, com redução do preço médio, aumento do número de livrarias e da diversidade cultural", diz Rui Campos, fundador e sócio da Livraria da Travessa, rede com oito unidades, sete no Rio e uma no interior de São Paulo. Muitos profissionais do setor veem a legislação com simpatia, mas ainda não há consenso sobre sua aplicação no país.



Outra questão é o modelo de consignação. Enquanto na maior parte dos setores os varejistas compram os produtos dos fabricantes para revendê-los ao consumidor, no mercado editorial prevalece a consignação - as livrarias recebem os livros, mas só pagam as editoras quando os vende. O restante é devolvido à editora. "É um modelo de posse, mas não de propriedade", diz Eugênio Foganholo, diretor da Mixxer Consultoria, especializada em varejo. Sob essas regras, o risco diminui, mas também a margem. A ameaça é que a administração das empresas não seja tão inovadora ou agressiva quanto poderia, porque o risco envolvido é menor. "Não se pode generalizar, mas esse é um gene da cadeia que acabou se voltando contra toda ela", diz o especialista.
Esse risco de acomodação é especialmente perigoso diante das novas gerações, marcadas pelo uso contínuo da tecnologia. Com a disseminação da internet, especialmente dos acessos móveis via smartphone, o público passou a ter muito mais opções de lazer e comunicação, o que abriu uma guerra pelo tempo das pessoas, especialmente dos mais jovens, que se acostumaram a fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Serviços de música e vídeo, jornais, revistas, redes sociais - todos disputam a atenção do usuário. O livro enfrenta um agravante: sua leitura exige dedicação exclusiva, um hábito contrário à tendência predominante de fragmentação.
  

 Em São Paulo, a Saraiva reduziu uma loja de 1,4 mil para 600 metros

"A cada época, cada geração, é preciso entender quem são seus leitores, quem vai comprar o livro", diz Jorge Oakim, dono da editora Intrínseca. A posição contrasta com uma corrente de pensamento mais pessimista, quase apocalíptica, segundo a qual o livro e o leitor estariam com os dias contados. "Hoje, uma criança de 13 anos assiste a séries de TV com inúmeras tramas paralelas, personagens secundários importantes, uma complexidade que não existia antes. É o tipo de coisa que pode ajudar a desenvolver uma forma de inteligência que não era estimulada até então", afirma Oakim.
A mudança de hábitos não significa, necessariamente, que haverá menos leitores. "As pessoas, hoje, estão mais aparelhadas para lidar com a dispersão. Elas leem mais, mesmo que de maneira fragmentada, entrecortada, nos intervalos", diz Otávio Marques da Costa, publisher da editora Companhia das Letras. "Não é um processo consolidado, mas o hábito de leitura mudou."
No exterior, muitas empresas têm investido em alternativas como o audiobook, na tentativa de criar espaços de introspecção em um mundo que estimula a dispersão. "[O audiobook] pode ser um complemento. Enquanto faz outra coisa, a pessoa 'escuta' um livro", afirma Costa. Só no ano passado, as vendas de audiobooks somaram US$ 2 bilhões nos EUA, com mais de cem editoras disputando o público.
   

“Criar um catálogo adequado é parte essencial do trabalho”, diz Palermo

No Brasil, muitos editores dizem que vêm encontrando, em bienais e feiras, um público jovem até mais interessado em literatura que as gerações anteriores. O setor tenta captar esse interesse. Nos últimos meses, vários livros escritos por "youtubers" chegaram aos primeiros lugares nas listas dos mais lidos. Há muitas dúvidas sobre se esse tipo de leitura serve de condutor para obras mais densas, mas a influência tem sido considerada um saldo positivo, tanto do ponto de vista comercial como de atração do público.
A Saraiva começou a testar, em algumas lojas, espaços destinados aos jovens. "Em vez de poltrona para leitura, estamos instalando mesas com tomadas", diz Ubriaco. A ideia é que eles se sintam à vontade em um ambiente onde seja fácil compartilhar informações e conectar seus dispositivos. A rede também não quer brigar com o comércio eletrônico. "Nossa visão é que são canais complementares. A ciência é acertar a complementariedade", afirma o executivo. A companhia percebeu, por exemplo, que muitos consumidores que faziam compras em seu site moravam na zona leste de São Paulo, o que a levou à decisão de abrir uma loja no Shopping Itaquera, que fica na região.
Transferir conceitos da web para as lojas físicas está no coração da estratégia da Livraria Cultura. A rede começou a aplicar um sistema de preço dinâmico no horário do almoço, quando muitas pessoas passeiam pelas lojas sem, necessariamente, comprar alguma coisa. Quando o cliente se identifica a um atendente, o sistema verifica seu perfil de compra e oferece preços promocionais. Com isso, o preço pode variar de loja para loja, de horário para horário e até de cliente para cliente. Os testes incluem 70 mil clientes por mês e vem rendendo bons resultados - a conversão média, ou seja, o número de pessoas que concretiza a compra, é de 3,5% e o valor médio da compra aumentou 40%. Além disso, a Cultura testa um site de livros usados (os valores se transformam em créditos para a compra de novos livros) e começou a negociar dados captados sobre o comportamento dos clientes - sem revelar, claro, quem são as pessoas - para outras empresas, como fazem as grandes companhias de internet.
  

 Pereira diz que compras do governo ajudaram a equilibrar o desempenho

A mudança nos hábitos do público tem levado a uma diversificação editorial, diz Daniel Mazini, diretor de livros impressos da Amazon no Brasil. "Trata-se de um reflexo da sociedade e não se aplica apenas aos livros. Hoje, as pessoas têm muito mais opções sobre o que querem consumir."
A Amazon lançou seu marketplace - um site no qual pessoas físicas e companhias podem vender livros novos ou usados - no início de abril. Desde então, mais de mil vendedores ingressaram na plataforma. "Há muitos livros de editoras que não conhecíamos e obras mais antigas", diz Mazini. O estoque da Amazon deu um salto. Em 2014, quando a companhia chegou ao Brasil, havia 90 mil livros em depósito. Mais recentemente, esse número aumentou para 150 mil. Com a criação do marketplace, o total aumentou para 250 mil quase da noite para o dia.
Criar um catálogo adequado é parte essencial do trabalho. "No caso de autores internacionais, você precisa avaliar se ele é adequado ao seu mercado. Em caso positivo, pode comprar [o título] antes ou depois de o autor fazer sucesso em seu país de origem", diz Mauro Palermo, diretor-geral da Globo Livros. A editora publica a obra da italiana Elena Ferrante, uma das autoras mais comentadas dos últimos tempos. "Compramos a Elena no meio do caminho, quando começava a ganhar importância na Itália e na Europa." Os livros se tornaram best-sellers, mas se isso não tivesse ocorrido, entraria no catálogo de qualquer jeito, diz Palermo. "A primeira avaliação é se o texto é bom." 
   

"A cada geração, é preciso entender quem são seus leitores", diz Oakin

Nos últimos meses, algumas notícias deixaram o mercado alarmado. A Livraria Cultura abriu negociações com fornecedores para estender os prazos de pagamento, o que deu origem a notícias de que a rede poderia ser comprada pela Saraiva. Ambas as empresas vieram a público na época negar que o assunto estivesse em discussão. Depois, a Fnac Darty publicou um relatório no qual os negócios no Brasil apareciam como "operação descontinuada", o que foi interpretado como uma saída iminente da rede. Dias depois, a companhia informou que procura sócios no país.
A despeito dos problemas do setor, profissionais da área estão otimistas com a retomada do negócio tão logo a economia se recupere um pouco. Novas iniciativas mostram que existe espaço para ocupar. Uma revista dedicada exclusivamente a livros - a "Quatro Cinco Um" - foi lançada, e a Livraria da Travessa vai abrir uma unidade na nova sede do Instituto Moreira Salles, na avenida Paulista, sua primeira unidade na capital paulista.
A maior novidade é a fundação da Editora Todavia. Criada por um grupo de profissionais experientes, vindos da Companhia das Letras, a empresa tem o apoio de três investidores de peso: Alfredo Setubal, presidente da holding Itaúsa; Guilherme Affonso Ferreira, do fundo Teorema; e Luiz Henrique Guerra, do fundo Indie. Os investimentos são pessoais, não das empresas.
"Sabemos dos percalços do mercado, mas a Todavia é um projeto de longo prazo", diz Flávio Moura, um dos sócios. "Não se pode olhar só para a conjuntura." Os primeiros quatro títulos da editora, mantidos em segredo, estão previstos para sair em agosto. Depois, o plano é lançar mais dois livros por mês até o fim do ano. Na segunda leva está previsto o lançamento de uma biografia do cantor Belchior, que morreu em abril.
Dado como morto várias vezes, não parece que o réquiem do livro vá ser tocado agora, seja por conta da crise ou de mudanças de comportamento do consumidor. O futuro, talvez, até convide mais gente à leitura. "Quem sabe com o carro autônomo, sem motorista, as pessoas usem o tempo das viagens para ler um livro", brinca Seibel.

Tatiana Salem Levy busca resistência ao pessimismo

Por Jacilio Saraiva | Para o Valor, de São Paulo
   

"Acreditar num mundo melhor é uma questão vital", diz a escritora Tatiana Salem Levy

Um mundo melhor passa pela leitura, literatura e pelo pensamento, segundo a escritora Tatiana Salem Levy, que lança "O Mundo Não Vai Acabar" (José Olympio, 182 págs. R$ 34,90), coletânea com mais de 30 crônicas. Colunista do Valor no caderno "EU&Fim de Semana" há três anos, a autora reúne no livro textos publicados no jornal entre maio de 2014 e janeiro de 2017, revistos e modificados, além de trabalhos inéditos. "Como a situação política no Brasil e no mundo está particularmente alarmante, achei importante selecionar escritos que relacionassem a literatura, a filosofia ou a antropologia com a política", afirma a escritora.
A obra é dividida em três partes. A primeira, "Tudo Nos Leva a Crer que Sim", trata de questões atuais, como o Brexit, a eleição do presidente americano Donald Trump, os atentados terroristas e o cenário nacional. A segunda parte, "Sem Memória, Não Há Presente", fala do tempo e do resgate de lembranças. Uma das maiores incapacidades do nosso país é conseguir ler e interpretar o passado, diz.
"Nunca conseguimos fazer um balanço do que foi a escravidão. Ao mesmo tempo, a ditadura aconteceu há pouco tempo, mas parece que nunca existiu", afirma. "A Argentina e o Chile souberam nomear e condenar suas ditaduras de uma forma que a gente nunca sonhou em fazer. Então, acho que o Brasil só vai melhorar o presente, apostar em ser de fato o país do futuro quando conseguir, antes, olhar para trás e ler o próprio passado."
A terceira parte do livro é centrada na literatura e na utopia. "Ouvimos cada vez mais que o mundo está acabando. Ou porque volta dois séculos na moral e fecha suas fronteiras, ou porque destruímos a natureza a tal ponto que acabaremos vítimas da nossa própria ambição", afirma Tatiana. "Mas, da mesma forma que a destruição faz parte da natureza humana, o sonho também faz. A capacidade de imaginar um mundo melhor e lutar por ele. Esse livro é uma resposta ao pessimismo que vem tomando conta de todos nós."
Autora dos romances "A Chave da Casa" (2007), "Dois Rios" (2011) e "Paraíso" (2014), além dos livros infantis "Curupira Pirapora" (2012) e "Tanto Mar" (2013), Tatiana tem obras traduzidas em mais de dez países, inclusive na Índia, Croácia e Suécia. Também é dela o ensaio "A Experiência do Fora: Blanchot, Foucault e Deleuze", fruto do mestrado em estudos de literatura na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).
Nascida em Portugal, onde os pais se exilaram durante a ditadura militar brasileira, ela retornou ao país aos nove meses de idade. Há quatro anos, mora entre Lisboa e o Rio de Janeiro. "Mas, agora, do jeito que a coisa anda por aqui, provavelmente ficarei mais tempo em Portugal. Nunca tinha visto o Rio num estado tão calamitoso e Lisboa tão efervescente."
Para a ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura 2008, morar longe não influencia tanto no resultado do seu trabalho. "O que trago em mim do Brasil dá para muitos livros e é sempre a ele que volto quando escrevo", diz. "A diferença entre estar numa cidade ou em outra é que em Lisboa a vida é menos estressante, o tempo é mais qualitativo, rende mais. E isso é muito importante para a escrita. O tempo alargado de lá me ajuda a escrever."
Tatiana diz que tem outros projetos no cinema e na literatura, como um novo romance. "Mas está tudo ainda no começo", diz. "Segui carreira acadêmica durante anos, mas decidi largá-la. A coluna [no Valor ] foi uma forma de voltar ao que mais gostava de fazer na universidade: ler, pesquisar e escrever sobre o que leio", diz a autora, que estudou na Brown University, nos Estados Unidos, e na Universidade Paris III, na França. As experiências no exterior também a levaram a traduzir grandes obras. É dela e de Marcelo Jacques a elogiada versão para o português de "Nos Passos de Hannah Arendt", biografia de uma das mais importantes pensadoras do século XX, escrita pela francesa Laure Adler.
Na folga do trabalho de colunista e escritora, diz que tenta ler o terceiro volume da tetralogia de Elena Ferrante, "História de Quem Foge e de Quem Fica" (2016). "Falei tão bem sobre os dois primeiros livros, mas não estou conseguindo engrenar nesse terceiro", comenta. Também descobre mais sobre o autor carioca Victor Heringer. É com um texto que fala de um romance dele, "O Amor dos Homens Avulsos" (2016), que ela encerra a nova coletânea. "Além de escrever com muito domínio, Heringer propõe uma literatura do afeto, da ternura. Acredita que, onde há apocalipse, só o amor salva."
Sobre o título imperativo do livro, "O Mundo Não Vai Acabar", Tatiana defende que se trata de um grito de indignação com o presente, mas também com o derrotismo. "Acreditar num mundo melhor é uma questão vital", diz. "Talvez eu seja uma náufraga em pleno oceano, que fica falando de literatura enquanto o mundo agoniza. Mas fazer o quê, se acredito na capacidade da literatura de nos levar a imaginar, pensar e, a partir desse impulso, não deixar o mundo morrer?"

Paixão que chega ao fim

Por Cadão Volpato | Para o Valor, de São Paulo
   

O cenário da Nápoles do pós-Segunda Guerra Mundial, nos anos 50 e 60, é o pano de fundo da história de Lenu e Lila nos primeiros livros da "Série Napolitana", de Elena Ferrante

Para uma autora reclusa como Elena Ferrante, tem sido uma exposição e tanto. Quase ao mesmo tempo em que se conclui a publicação no Brasil de sua tetralogia napolitana, um repórter mais abusado resolveu desvendar o mistério que cerca a autora, cuja identidade real estava escondida até agora.
O repórter seguiu o clássico caminho do dinheiro, checou para onde iam os pagamentos da editora e aparentemente matou a charada, chegando ao nome de uma antiga tradutora da casa, cujos ganhos elevados seriam incompatíveis com a profissão. O nome real por trás de Elena Ferrante seria Anita Raja, mulher do escritor napolitano Domenico Starnone -acusado de ser Elena Ferrante ao longo dos anos.
O curioso é que isso acabou despertando a fúria dos fanáticos "ferrantistas", não muito interessados em deixar de acreditar na própria imagem mental que construíram da escritora tão amada. Na cabeça dos leitores fiéis mora mais do que uma figura, mora uma voz poderosa que se impõe sem remédio.
Uma vez, dizem por aí, submetidos ao feitiço da autora, os leitores caem no vício extremo, do qual não conseguem mais se recuperar. Ler Elena Ferrante acaba virando um vício que não tem cura. Os desavisados, aqueles que tentam se aproximar com cautela da mitológica escritora napolitana, apelam para um de seus romances mais fininhos, "Dias de Abandono" (Biblioteca Azul). Descobrem que cometeram um erro, pois o livro de 2002 é tão potente quanto os piores venenos, aqueles que costumam vir em pequenos frascos.
"Dias de Abandono" promove um mergulho abissal na alma de uma mulher ferida. Não dá para sair incólume da sua leitura. E aí será tarde demais. Aqueles que começaram por "A Amiga Genial" (também da Biblioteca Azul, como os demais volumes), já perderam as esperanças logo de cara: tiveram que aguardar a publicação de cada um dos outros livros, mesmo porque o conjunto se transforma em algo indivisível, e não resta outra saída a não ser esperar.
A coisa toda tem características de uma novela à moda antiga, em que um capítulo aponta para o outro e dele não se separa. Quem acompanhou desde o princípio essa história de amizade entre duas mulheres italianas - ou napolitanas, para ser mais preciso, já que Nápoles, assim como outras cidades da Itália, parece um outro país - foi capturado por uma voz de sereia incomum, a voz de um escritor de primeira grandeza, da espécie que se conecta com as nossas almas.
A amizade entre essas mulheres é feita de mel e fel, é humana como poucas vezes o leitor já encontrou na literatura, até mesmo aquela que pretende ser mais realista do que o rei. Ainda que seja tudo mentira, o que acontece entre Lenu, a narradora, e Lila, a personagem que de certa forma a espelha, é de uma honestidade brutal. Elas se amam e se odeiam, ficam juntas e separadas, e ainda assim mantêm-se próximas como um corpo único.
São mulheres em situações-limite. São personagens femininas num país corroído pelo machismo e dominado pelo crime dos homens. São mães devotas, mas também desnaturadas (mais desnaturadas que devotas). São invejosas e raivosas, egoístas e generosas, tudo isso reunido em parágrafos aliciantes, dos quais é impossível se desvencilhar.
Há quanto tempo não líamos histórias tão bem contadas e tão bem conduzidas, num ritmo elástico, ágil ou lento, reflexivo, introspectivo e ao mesmo tempo cheio de movimento e crueza? Talvez sejam esses alguns dos segredos desse romance dividido em quatro livros compridos, nos quais a palavra Camorra nunca aparece escrita com todas as letras, apenas o seu sombrio e poderoso significado de máfia napolitana. Neles, não há esquemas narrativos, mas figuras humanas, personagens com os quais é possível estabelecer conexões multifacetadas, sem as platitudes do "bem" e do "mal".
É um banho narrativo. Ninguém esperava, nessa altura do século XXI, que um Balzac desse as caras. Isso levando em conta a mais óbvia das constatações de quem se deixa expor ao universo belo e espinhoso de Elena Ferrante, seja ela quem for: não há a menor chance de a autora ser um homem. A Elena desse romance em quatro tomos é uma pessoa do sexo feminino que aprendemos a conhecer muito bem.
Seguindo pela ordem, a série começou a sair em 2011, com "A Amiga Genial", e prossegue com "História do Novo Sobrenome" (2012), seguida de "História de Quem Foge e de Quem Fica" (2013). As duas crescem juntas e seguem caminhos diferentes. Lenu sai de Nápoles, conhece outra vida e vira escritora, enquanto Lila permanece na cidade natal. Em "História da Menina Perdida" (Biblioteca Azul; trad. Mauricio Santana Dias; 476 págs.; R$ 49,90), o último volume, um fio de afeto e amor verdadeiro une e afasta as duas vidas.
Chegar às últimas linhas costuma ser um processo adiado, e a sensação final é a de que nos separamos de pessoas que aprendemos a amar. Pode-se, então, voltar ao começo desse quarto e último volume: "A partir de outubro de 1976 até 1979, quando voltei a morar em Nápoles, evitei restabelecer uma relação estável com Lila. Mas não foi fácil. Ela procurou quase imediatamente entrar mais uma vez à força em minha vida, e eu a ignorei, a tolerei, a suportei". Vão-se os maridos, os filhos e os amantes, uma vai embora e volta, a outra nunca sai do lugar, e mesmo assim a amizade permanece, disfarçada em desconforto e desprezo.
Lenu deixa Nápoles, mas Nápoles, a cidade da Camorra, da devastação do pós-guerra, do machismo indomável, da bagunça que remete ao caos do universo, não sai de dentro dela. Temos aqui o final de seis décadas de história da filha de um funcionário público e da filha de um sapateiro, um romance de formação de mais de 1,5 mil páginas que bate em diversas teclas, uma delas, talvez uma das principais, a da identidade.
Eis aí uma viagem surpreendente para os leitores de nosso tempo, desacostumados a grandes cargas de concentração. E aí nos vemos, de repente, imersos num "romanção" como já não se esperava mais: profundo, movido por ideias desafiadoras e imensos contrastes narrativos. Tarde demais. A voz misteriosa e familiar de Elena Ferrante já nos arrastou para dentro do céu e do inferno de Nápoles, sem perdão.
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