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sábado, 11 de maio de 2019

Demetrio Magnoli e nossos militares "gregos" - como Lenin, eles perguntam "O que fazer?"

Demetrio Magnoli parece acreditar que os militares que se encontram atualmente no governo possuem algum acordo consensuado entre eles sobre o que fazer com essa administração maluca na qual se meteram, um pouco por preocupação real com a coisa pública no Brasil – desde muitos anos dominada por uma corja de corruptos oportunistas –, outro tanto por terem entendido, com base em conversas de um período recente, que poderiam convencer (ou até obrigar) o personagem que hoje ocupa a presidência a se comportar de maneira conveniente, de maneira a retirar o Brasil da trajetória desastrosa na qual se meteu (ou na que foi metido) tanto antes, no regime mafioso do lulopetismo, quanto no regime de transição do vice-presidente e, atualmente, no regime confusionista que reina no governo e em torno dele.
Considero que Demetrio Magnoli está equivocadamente otimista quanto à capacidade dos militares graduados em postos chave do governo de entender adequadamente o que se passa, realmente, nas entranhas e nas mentes desse governo dirigido por aloprados fundamentalistas, e de formular estratégias e táticas ajustadas às necessidades do momento e da conjuntura histórica de transformação.
Sempre é interessante, para o público leitor, ler histórias cativantes sobre grandes feitos militares e políticos do passado, como essa "teoria" da "retirada tática" (supostamente para aplicar a "estratégia correta" de ocupação de terreno e de manobra bem-sucedida, permitindo aos "homens bons" alcançar a vitória nessa atmosfera contaminada como parece ser o governo bolsonarista-olavista. Mas, permito-me discordar. Essas analogias não servem para muita coisa; aliás, nenhuma analogia histórica serviu para qualquer coisa, a não ser para encher folhas de papel e depois publicações apreciadas pelo distinto público leitor, feito de acadêmicos com algum sentido e conhecimento da história.
Os militares tinham sim um acordo com o personagem em questão, mas os filhos do capitão não entraram nesse pacto informal, e continuam escapando ao controle dos adultos da sala.
Por outro lado, os militares sabiam o que não queriam – a continuidade do caos anterior, com seu festival de bandalheiras e de corrupção, de estagnação e desprestígio do Brasil, aqui dentro e no exterior – mas não tinham ainda um planejamento adequado sobre o que queriam exatamente, ou não tinham ainda formulado o seu plano de governo pós-vitória eleitoral. Agora fica difícil obrigar todos os personagens a se encaixarem nos seus cenários mais ou menos racionais.
Enquanto não tiverem claro o que desejam, vai ser difícil corrigir o caos do atual governo, supondo que consigam ver claro e que tenham os métodos adequados para enquadrar os guris que estão perturbando o ambiente.
Paulo Roberto de Almeida 
Brasília, 11/05/2019 


Retirada tática
Demétrio Magnoli
Folha de S. Paulo, 11/05/2019

É provável que a 'revolução' bolsonaro-olavista provoque a implosão do governo.

A vitória de Temístocles em Salamina (480 a.C) preservou o mundo grego ameaçado pela Pérsia. O triunfo do macedônio Filipe 2º em Queroneia (338 a.C) unificou as cidades gregas e assentou as bases para a difusão cultural do helenismo. A invasão normanda foi concluída por William, o Conquistador na batalha de Hastings (1066), fonte mítica da moderna Britannia. Segundo uma interpretação exagerada, a civilização ocidental deve sua existência a esse trio de batalhas icônicas. Os generais do alto escalão do governo Bolsonaro certamente as estudaram —e, com elas, aprenderam o valor militar da retirada tática. É hora de aplicar a manobra à política.
O pacto dos generais com o capitão reformado nasceu de um equívoco fatal: os primeiros não entenderam a natureza do segundo. Bolsonaro jamais deixou de ser o fanfarrão estéril, turbulento e indisciplinável, afastado da corporação em 1988. A novidade é que, na curva final rumo ao Planalto, acercou-se de correntes populistas de extrema direita fundamentalmente hostis às mediações institucionais da democracia. Os generais pretendiam participar de um governo "normal", enquadrado na moldura do Estado de Direito. De fato, participam de um governo cujo núcleo almeja subverter o Estado de Direito.
Na rua ao lado, uma faixa da vovó Jurema promete trazer seu amor de volta. A "filosofia política" do Bruxo da Virgínia vale tanto quanto os búzios da vovó —e sua pregação era, até há pouco, um mero golpe de charlatanismo, com implicações exclusivas para seus seguidores ignorantes. Desde a ascensão de Bolsonaro, converteu-se em programa de governo. Os generais começam a entender que o conflito não é com o espalhafatoso bobo da corte, mas com o presidente e seu clã familiar. Falta-lhes, ainda, entender que a conciliação é impossível.
O bolsonaro-olavismo deplorou o "impeachment parlamentar" de Dilma Rousseff. Naquela hora, eles clamavam por uma "intervenção militar" definida não como golpe de Estado clássico mas como uma "marcha sobre Brasília" do povo e dos militares. Hoje, sonham transformar o governo Bolsonaro no ato inaugural de um Estado-movimento: um poder estatal não submetido ao limite das leis e consagrado à luta política permanente. Nessa ordem tresloucada de ideias, a barragem de artilharia virtual sobre o STF, a imprensa e os generais destina-se a preparar a "marcha sobre Brasília" —isto é, a ruptura do Estado de Direito.
Os populismos certamente são capazes de matar as democracias por dentro (Turquia, Hungria, Venezuela). No Brasil, porém, mais provável é que a "revolução" bolsonaro-olavista provoque a implosão do próprio governo Bolsonaro. Se os generais não querem aparecer como cúmplices do desastre, resta-lhes apelar à retirada tática.
Salamina foi uma simulação de retirada, que atraiu os barcos persas ao estreito da armadilha. Em Queroneia, uma breve ofensiva seguida por retirada da ala direita das forças macedônias abriu a cunha fatal entre as falanges gregas. Hastings tem algo de Queroneia, mas é difícil saber se a decisiva retirada temporária das forças normandas foi uma manobra planejada ou o resultado de um insucesso na ofensiva inicial. De qualquer modo, para os generais brasileiros, a solução não requer excessiva inventividade.
O governo Bolsonaro sustenta-se sobre o tripé formado pela equipe econômica, o superministério de Moro e a chamada "ala militar". A remoção do terceiro pilar, pela entrega coletiva dos cargos, destruiria a estabilidade do edifício. A queda encerraria o levante dos extremistas, que confundem os ecos de seus tuítes com a voz do povo. Depois dela, ainda sobraria Mourão --e, portanto, a chance de construção de uma vereda política para o futuro.
Generais, mirem-se em Temístocles, o ateniense, Filipe 2º, o macedônio, e William, o normando. Retirem-se, antes que seja tarde.
*Demétrio Magnoli, sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP.


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