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quarta-feira, 15 de maio de 2019

Diplomacia bolsonarista: nunca antes vista no Brasil - Roberto G. Ferreira

A Desconstrução do Itamaraty

por Roberto G. Ferreira, especial para A Voz do Interior

O Itamaraty está vivendo um momento único e sem precedentes. Sob a batuta do chanceler Araújo, uma mudança de proporções bíblicas está sendo colocada em prática. Trata-se de uma ruptura em relação às linhas mestras da política externa, casada com uma nova diplomacia. Novos objetivos perseguidos por métodos nunca antes testados. Em uma palavra, vive-se uma desconstrução da forma e da substância da política externa.

Quem diz isso é o próprio chanceler. Em sua aula magna aos alunos do Instituto Rio Branco, declarou que a política externa brasileira teve três ciclos. O primeiro, que foi predominantemente positivo, vai da luta pela Independência até o período do Barão do Rio Branco à frente do Itamaraty. É o momento da consolidação do sentimento nacional e das fronteiras do país.

O segundo ciclo, bem mais longo, começa logo após a morte do Barão e se estende, pasmem, até a eleição do Bolsonaro, em 2018. Esse ciclo, na avaliação do chanceler, foi predominantemente negativo, com uma política externa que, em diversos momentos, deixou de contribuir para o desenvolvimento ou, pior, agravou a dependência de parceiros equivocados, gerando prejuízos aos interesses do país. Teríamos dado as costas aos Estados Unidos e adotado modelo econômico estatista e fechado, além de privilegiar relações com países distantes e com valores muito distintos. A isso no chanceler atribui as crises econômicas e o baixo crescimento no século XX e uma diminuição da influência do Brasil no mundo.

O terceiro ciclo, inaugurado com o governo Bolsonaro, pretende resgatar, com as devidas atualizações, os valores nacionais genuínos, que estiveram na base do sucesso do primeiro ciclo. Para isso, a promessa é alinhar o Brasil com seus próprios valores, rejeitar a imposição “globalista” de padrões de fora e apostar em relações com países afins, ou seja, aqueles com os quais a convergência de visão de mundo – derivada de nossa matriz cultural judaico-cristã – permitiria construir parcerias mais vantajosas.

O chanceler não esconde que a intenção é destruir o que vinha antes e colocar algo novo no lugar. Na prática, a parte da destruição tem predominado sobre a formulação da alternativa que se pretende colocar no lugar. Entusiasta das batalhas no que considera ser uma guerra para libertar o Brasil e o Itamaraty do marxismo cultural, o chanceler escreveu uma ode à polarização em seu blog pessoal.

As ideias lá vertidas explicam muito do que está acontecendo: a prioridade não é o debate plural de ideias, mas a libertação em relação às ideias equivocadas e perigosas. Vivíamos na caverna, mirando as sombras projetadas na parede. Agora, a luz nos libertará, teremos enfim acesso à verdade, superaremos a ideologia para mergulhar no mundo das ideias, a reais e não as ilusórias. Nessa guerra, a única alternativa é a vitória completa, por isso não pode haver composição, transação ou negociação. A polarização, dessa perspectiva, ajuda na identificação do inimigo: todo aquele que se verga diante do marxismo cultural e que, portanto, acaba se tornando um esquerdista. Ecos de Carl Schmitt e de sua visão da política como a distinção amigo/inimigo não parecem ser mera coincidência.

Daí considerar PT, PSDB ou MDB como partes de um mesmo esquema regido pelo marxismo cultural. E daí a necessidade de uma mudança mais radical, embalada pelo maniqueísmo da luta do bem contra o mal. Essa filosofia, como ressaltou o chanceler em diversas ocasiões, é a chave para entender a política externa atual: a aliança incondicional com os EUA (o que explica a mimetização da política externa norte-americana no tema da Venezuela); a aproximação de Israel realizada via abandono da tradicional defesa do direito internacional na questão palestina; o antagonismo aberto e agora mal disfarçado à China; a oposição ao Acordo de Paris, visto como instrumento do “climatismo”; o esboço de alinhamento com Israel e EUA no tema do Irã.

Em todas essas vertentes, não importa a consideração sobre eventuais prejuízos econômicos e comerciais, nem tampouco raciocínios tidos como “globalistas” a respeito da incapacidade do Brasil, por razões de poder e de preferência pelas soluções negociadas (inclusive por força do mandamento constitucional), de impor soluções acordes com seus interesses por meio de alianças apenas com parceiros considerados ocidentais. Mais grave, excluem-se a priori as avaliações, perfeitamente aceitáveis e necessárias em países normais, quanto aos riscos e potenciais prejuízos de tomar partido em conflitos que não são nossos. Mas para a atual gestão do Itamaraty, talvez eles sejam...

Isso fica evidente quando nosso chanceler faz périplo pela Itália, Hungria e Polônia e dá recados claros que indicam solidariedade ao discurso xenófobo da extrema-direita europeia. O que ganhamos com isso? O que ganhamos com o apoio, ainda que indireto, a políticas de retorno de refugiados, fechamento de portos e culpabilização de outras religiões pelos males das sociedades europeias? Em tempos normais, as relações com países europeus seriam regidas pela busca de oportunidades econômicas e comerciais ou parcerias em áreas que ajudem ao desenvolvimento, como educação e ciência e tecnologia. Os resultados nessas áreas, como não esconde o chanceler, estão hoje subordinados à filosofia que tudo orienta: o resgate do Ocidente de sua decadência, por meio da aliança com Trump e com os demais lideres que encarnam esse ideal.

O chanceler insiste também em bater na tecla de que a diplomacia é método, não se confundindo com política externa. Tem razão ele, ao menos em parte. De certo, a diplomacia é um instrumento para executar uma política externa, que pode variar de acordo com a orientação do governo e sofrer ajustes em resposta à conjuntura interna e internacional. No entanto, a noção ou o conceito diplomacia inclui seu corpo de funcionários profissionais, encarregados não apenas de executar a política externa consagrada nas urnas, mas também assessorar na tradução prática das orientações e postulados em geral fluidos que frequentam programas e discursos de candidatos no campo das relações exteriores.

No raciocínio enviesado de nosso chanceler, a maioria da população brasileira votou a favor de uma postura que beira a aventura na Venezuela, aprovou essa aproximação atabalhoada com Israel, assumindo o custo de eventual prejuízo para relações com países árabes, e endossou o alinhamento automático com os EUA, até mesmo em temas como terrorismo, mudança do clima e temas migratórios. Ora, sabemos bem que nenhum desses temas foi discutido nesse nível de profundidade na campanha e que os eleitores tiveram inúmeras outras razões, nem sempre tão claras, para votar em Bolsonaro.

Isso não significa que o governo não tenha direito de perseguir uma política externa diferente, mais conservadora e voltada para avançar a agenda de reformas econômicas liberalizantes. O problema é que a tradução dessas linhas gerais em política efetiva requer humildade, respeito à cultura institucional, debate constante e plural com a sociedade e, não menos importante, a incorporação no processo decisório da capacidade de análise e da experiência acumulada do próprio corpo diplomático. Infelizmente, isso requer uma humildade que os atuais donos da verdade não estão dispostos a demonstrar, o que tem acarretado a centralização e a imposição autoritária de cima para baixo do que deve ser feito e dos novos dogmas da política externa.

Apesar de seu anticomunismo, o chanceler parece ter adotado uma atitude que o aproxima perigosamente da ideia de desconstrução de autores marxistas como Derrida. O que está em curso é uma destruição deliberada de um patrimônio diplomático acumulado. Aí patrimônio diplomático significa a um só tempo política e método, substância e forma, objetivos do país e corpo de funcionários especializados, os nossos diplomatas. Hoje, prevalece o medo, a imposição autoritária de uma verdade única. Em um corpo de funcionários qualificados, como é o caso do Itamaraty, isso significa sufocar a criatividade, expulsar o dissenso, perseguir a divergência, desprezar a experiência.

É isso que tem acontecido, com a caça às bruxas de diplomatas considerado demasiado identificados com o ancien régime, mesmo quando não fizeram nada além de um trabalho profissional. A inversão da hierarquia, por sua vez, introduz outro elemento disruptivo, ao dar um sinal equívoco sobre a importância de que o mérito seja combinado com a experiência. Os menos experientes e ávidos por uma promoção, porém, são mais maleáveis e menos inclinados ao livre pensamento, até por amor à própria carreira. O clima de assédio moral vem para completar, é a cereja do bolo.

Prepostos do chanceler, afeitos a excentricidades são conhecidos na Casa de Rio Branco. Resultado: diplomatas e outros funcionários chorando e buscando atendimento médico, gente se recusando a ser lotado do gabinete do ministro, rotinas desumanas sendo instituídas e causando desmotivação geral, clima de medo e perseguição. É uma pena que se tenha chegado a esse ponto, mas esses episódios, que podem ser confirmados em conversas com diplomatas da ativa em Brasília, apenas confirmam a tese de que uma política externa autoritária, que se considera portadora da uma verdade quase transcendental, requer um controle do pensamento e do comportamento que exige do Itamaraty tornar-se não o Ministério do Tempo, como sugeriu o chanceler em seu discurso de posse em alusão a uma série espanhola, mas o Ministério da Verdade, tão bem retratado na distopia de Orwell.

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