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terça-feira, 21 de maio de 2019

Diplomacia não tem ideologia - André Motta Araújo

Diplomacia não tem ideologia

País algum com uma diplomacia organizada opera fora de seu projeto geopolítico que não tem cor. Valem os interesses do País e nada mais.

Diplomacia não tem ideologia

por André Motta Araújo

A proclamação da República em 15 de novembro de 1889 enfrentou um grave problema de reconhecimento externo do novo regime. O Império era respeitabilíssimo na Europa, muito mais que qualquer outra República da América Ibérica. Os republicanos tinham fundados receios de resistência ao reconhecimento do novo regime pelas monarquias europeias, especialmente pela Inglaterra. O Império Britânico estava no seu apogeu, a soberana era a Rainha Vitória e o Primeiro Ministro era o irascível Lorde Salisbury (Robert Gayscone Cecil). Como Londres iria reagir à deposição do soberano Dom Pedro II, aparentado com os Habsburgos e Bourbons, um monarca sólido, muito respeitado, com reputação impecável, modernizante e progressista?
O primeiro Ministro de Relações Exteriores da República, Quintino Bocaiuva tinha essa como sua maior preocupação, a República dependia do reconhecimento fundamental do Império Britânico, maior parceiro comercial do Brasil e principal financiador do Estado brasileiro desde a Independência.
O grande historiador Rocha Pombo, em sua básica HISTÓRIA DO BRASIL, em cinco volumes, dedica dois capítulos longos a esse tema.
Como o Império Britânico reagiria ao novo regime, sendo esse Império símbolo das monarquias reinantes no planeta?
Rocha Pombo mostra o extraordinário pragmatismo do Foreign Office em Londres. O telegrama de Lorde Salisbury, que acumulava os cargos de Primeiro Ministro e Secretário de Relações Exteriores ao Embaixador inglês no Rio de Janeiro era direto e simples: “O novo regime controla o território? Se a resposta for afirmativa, reconheça-o”.  A maior monarquia do planeta não se prendia a simpatias e sim ao realismo pragmático.
Décadas depois o mesmo império Britânico dava provas de seu pragmatismo, fruto de séculos de experiência e história. Em 1917 a Revolução Soviética liquida com a monarquia russa, cujo titular, Nicolau II, era primo-irmão do Rei da Inglaterra, Jorge V, ambos netos da Rainha Vitória, fuzilado pelos bolcheviques em Ekaterimburgo.
Em 1929 Londres reconhece o novo regime no que era o antigo Império Russo, agora a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS, o mesmo regime que assassinou o primo do monarca reinante, o mesmo Jorge V. Em Moscou mandava o arqui-inimigo Stalin. Mas Londres não vive de lágrimas.
O reconhecimento tinha como objetivo para o Império Britânico a abertura do imenso mercado suas máquinas, locomotivas, caminhões. A URSS tinha como pagar. Enquanto o mundo inteiro entrava na grande crise do capitalismo de 1929, a Rússia não sendo capitalista estava imune.
A Rússia tinha ouro, petróleo, madeiras, tinha vastos recursos financeiros que lhe permitiram abrir em Londres, como parte do reconhecimento britânico, um grande banco, o Moscow Narodny Bank Ltd., para financiar o comércio exterior soviético.
Abriu em Londres também uma grande empresa de comércio, a Arcos Trading Ltd. O Império Britânico não podia querer mais, ganhou novo parceiro comercial de peso, passando por cima dos cadáveres da família imperial Romanoff, parentes de sangue do Rei.
Nenhuma ideologia, rancor, vingança, apenas interesse geopolítico e econômico. Assim é a diplomacia britânica, com sua secular experiência.

A DIPLOMACIA DA REPÚBLICA DE 1946
O Brasil construiu sólida base de pragmatismo diplomático a partir de sua marcante participação no bloco dos Aliados na Segunda Guerra. Essa participação não foi somente pelo envio de uma divisão completa ao teatro de guerra da Itália. Foi especialmente pela liderança brasileira nas duas cruciais conferências de 1942, a de Havana e a do Rio, quando o Brasil liderou a América Latina ao lado do bloco anglo-americano. Não foi pouca coisa.
Havia no continente forte corrente de neutralidade, liderada pela Argentina, que o Brasil venceu, levando todas as nações latino-americanas, com exceção de Argentina e Chile, para o lado dos Aliados, pela extraordinária liderança do chanceler Oswaldo Aranha, depois figura de proa na criação das Nações Unidas.
Desde então a diplomacia brasileira ganhou peso e importância máxima como instrumento de pragmatismo diplomático, cujo ponto alto foi o Governo Geisel que, representando um regime de direita, reconheceu em primeiro lugar os regimes marxistas de Angola e Moçambique, seus antípodas ideológicos, para com isso ganhar influência e projeção de poder nessas ex-colônias portuguesas, capital infelizmente destruído pela cruzada moralista brasileira.
Esse pragmatismo sem ideologia foi a marca da diplomacia brasileira desde o fim da Segunda Guerra até 2018.

A DIPLOMACIA PRAGMÁTICA DA FRANÇA
País símbolo da diplomacia por um dos seus maiores construtores, o Príncipe de Talleyrand (Charles Maurice de Talleyrand Perigord), a França vende a alma para não perder o negócio. Conseguiu uma proeza extraordinária em manter seus laços culturais, econômicos e políticos com suas ex-colônias africanas, com uma diplomacia de primeiríssima qualidade. Levou ao Ministro na França dois grandes líderes africanos, Leopold Senghor e Felix Houphouet Boigny, este último membro da Academia Francesa e deputado à Assembleia Nacional em Paris, enquanto Felix Boigny foi Ministro da Saúde da França, depois Presidente da Costa do Marfim, uma costura diplomática extraordinária., lembrando que o General De Gaulle, detestado por Roosevelt, se aliou a Stalin como contra-vapor, sendo De Gaulle um direitista convicto mas as alianças não tem cor e nem lado.
O Presidente da França, Valery Giscard d Éstaing , assistiu impassível à coroação do Imperador Bokassa para manter esse território sob o guarda-chuva francês, sendo Bokassa um bárbaro.

DIPLOMACIA NÃO TEM LADO
País algum com uma diplomacia organizada opera fora de seu projeto geopolítico que não tem cor. Valem os interesses do País e nada mais.
Visão e operação fora da realidade nada significam a não ser puro amadorismo cujo preço pode ser o infinito, um País não é um brinquedo.

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