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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

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domingo, 10 de junho de 2018

Ricardo Bergamini e as relacoes econômicas internacionais do Brasil

Recebido de Ricardo Bergamini em 10/06/2018:

Nosso comércio internacional (saldo da conta de transações correntes) sempre foi deficitário, conforme abaixo colocado, consequentemente sempre estamos vivendo no “fio da navalha” de crises cambiais, dependendo do humor do mercado externo.

Saldo de Transações Correntes

Série história do saldo das transações correntes com base na média/ano foi como segue: Governo FHC (1995/2002) – deficit de US$ 23,4 bilhões = -3,31% do PIB; Governo Lula (2003/2010) – deficit de US$ 6,6 bilhões = -0,52% do PIB; Governo Dilma/Temer (2011/2017) – deficit de US$ 53,0 bilhões = -2,37% do PIB. 

Saldo da Conta de Capital e Financeira 

Série história do saldo da conta de capital e financeira com base na média/ano foi como segue: Governo FHC (1995/2002) – superavit de US$ 23,8 bilhões = 3,37% do PIB; Governo Lula (2003/2010) – superavit de US$ 36,8 bilhões = 2,89% do PIB; Governo Dilma/Temer (2011/2017) – superavit de US$ 62,3 bilhões = 2,79% do PIB. 

A crise atual não é apenas pelo deficit no saldo de transações correntes, inclusive muito abaixo do que no período do governo FHC. Os motivos são diversos, tais como:

- Insegurança politica e jurídica.

- Baixo nível de aprovação do governo (hoje Datafolha de 3%).

- Sem reservas em moeda estrangeira.

- Rebaixamento do Brasil de “Grau de Investimento”, conquistado no governo Lula, para “Grau de Especulação” conquistada no governo Temer, tendo em vista seu crime de responsabilidade fiscal que inviabilizou o ajuste fiscal no curto prazo, em função do parágrafo abaixo:

A tragédia econômica promovida pelo governo Temer (réu confesso, aguardando as algemas) foi responsável pelo rebaixamento das notas do Brasil no mercado financeiro internacional. Tendo sido o aumento de gastos concedidos aos servidores públicos até o ano de 2019 que inviabilizou o ajuste fiscal necessário para a recuperação da economia. Cabe lembrar ter sido o descontrole dos gastos com pessoal a fonte primária que provocou a maior crise fiscal da história econômica do Brasil. 

- Com o objetivo de fazer média para concorrer ao “Oscar de Efeitos Especiais” reduziu, de forma artificial, o ganho real dos investidores da média de 5,59% ao ano no período de 2011/2017, com o país operando em “Grau de Investimento”, para ganho real de 3,64% ao ano em maio de 2018, com o Brasil operando em “Grau de Especulação”, com queda de 34,88%, conforme explicado no parágrafo abaixo:
                                                                                                                         
Cabe lembrar que de 2011 até 2017 a média do ganho real dos investidores foi de 5,59% ao ano, e o ganho real apurado em maio de 2018 foi de 3,64% ao ano, ou seja: 34,88% menor. Se a inflação continuar em ascendência e o estoque de dívida continuar aumentando de forma desordenada somente restarão ao Banco Central retornar o caminho de volta, aumentado à taxa de juros SELIC. Não creio que para um país que opera em “grau de especulação” seja a atual, uma taxa de retorno atrativa. Já estamos observando uma fuga de capitais desvalorizando o real em relação ao dólar. Cabe lembrar que o IPP (Índice de Preços ao Produtor) que nada mais é do que o IPCA futuro teve aumento de 8,03% em doze meses até abril de 2018.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Brasil: crescimento sem investimento - Ricardo Bergamini

Crescimento sem investimento é gerado do pó e ao pó voltará
Ricardo Bergamini
(Recebido em 5/06/2018)


A taxa de Investimento no primeiro trimestre de 2018 foi de 16,0% do PIB. No primeiro trimestre de 2000 foi de 20,5% do PIB. Redução de 21,95% em relação ao PIB em 18 anos. 

Sabedores que somos há mais de duzentos anos que: (poupança = Investimento = crescimento) podemos afirmar, de forma cabal e irrefutável, de que o Brasil não cresceu no período de 2003 até 2014 com base sólida dos investimentos, mas sim através da ilusão monetária do crédito. 

Em vista do acima exposto poderíamos afirmar que o crescimento de 40,90% ocorrido no período 2003 até 2014 foi uma ilusão monetária provocada pela alta liquidez de dólares falsos emitidos pelos Estados Unidos para financiar as guerras do Afeganistão e Iraque. 

Em 2002 o volume de operações de crédito era de R$ 378,0 bilhões (25,35% do PIB), em 2014 o volume de operações de crédito era de R$ 3.021,8 bilhões (54,73% do PIB).  .

O volume de crédito cresceu em termos reais em relação ao PIB em 115,90%, para um crescimento do PIB de 40,90% no período. Esse desequilíbrio gera uma ilusão monetária de crescimento.

Gostaria de fazer a sua regressão de R$ em US$ que será efetivamente como seremos avaliados junto a ONU e ao FMI, conforme quadros demonstrativos abaixo que em 2017 retornamos ao ano abaixo de 2010 e acima de 2009. Sem investimentos não tem como crescer de forma saldável. O Brasil Avança para o abismo.

PIB A Preços Correntes

Fonte IBGE

Ano
R$ Bilhões
US$/R$
US$ Bilhões
2002
1.488,8
2,9296
508,2
2003
1.717,9
3,0705
559,5
2004
1.957,7
2,9247
669,4
2005
2.170,6
2,4335
892,0
2006
2.409,4
2,1763
1.107,1
2007
2.720,3
1,9475
1.396,8
2008
3.109,8
1,8369
1.693,0
2009
3.333,0
1,9927
1.672,6
2010
3.885,8
1,7585
2.208,5
2011
4.376,4
1,6739
2.614,5
2012
4.814,8
1,9453
2.470,5
2013
5.331,6
2,1738
2.475,1
2014
5.778,9
2,3599
2.448,8
2015
5.995,8
3,3856
1.772,4
2016
6.266,9
3,4538
1.814,5
2017
6.559,9
3,1930
2.054,5 

PIB Per Capita

Fonte IBGE

Ano
R$ 1,00
US$/R$
US$ 1,00
2002
8.350
2,9296
2.850
2003
9.511
3,0705
3.097
2004
10.703
2,9247
3.659
2005
11.723
2,4335
4.817
2006
12.862
2,1763
5.910
2007
14.359
1,9475
7.373
2008
16.237
1,8369
8.839
2009
17.222
1,9927
8.642
2010
19.878
1,7585
11.303
2011
22.171
1,6739
13.237
2012
24.165
1,9453
12.399
2013
26.520
2,1738
12.165
2014
28.498
2,3599
11.538
2015
29.329
3,3856
8.670
2016
30.407
3,4538
8.804
2017
31.930
3,1930
10.000



Ricardo Bergamini

domingo, 27 de maio de 2018

O balanco desastroso das estatais - Ricardo Bergamini

Ricardo Bergamini, um crítico feroz da irresponsabilidade política e econômica dos governantes, investe aqui contra as estatais, usando os dados oficiais do próprio governo. Ele tem razão, inteiramente, completamente, absolutamente. TODAS as estatais, sem exceção, devem ser privatizadas, o mais rapidamente possível, mas num regime regulatório de concorrência, num ambiente competitivo o mais amplo possível. A Petrobras, por exemplo, pode ser desmembrada em uma dúzia, ou mais, de empresas privadas, todas complementares entre si, mas concorrendo com diversas outras empresas privadas, nacionais e estrangeiras, em toda a cadeia produtiva, de distribuição e de assistência técnica nos ramos de exploração, refino, venda de derivados de petróleo e todos os demais bens e serviços associados.
O mesmo com os bancos estatais e TODAS as demais.
O Brasil e os brasileiros pagam muito caro o desperdício estatal.
Paulo Roberto de Almeida

Empresas estatais: uma aberração econômica
Ricardo Bergamini
A existência das estatais é por si só uma aberração econômica, sendo dominada pela CUT e pelo PT para manter a orgia. Os ingênuos e/ou estúpidos comemoram o aparente fracasso do PT, se esquecendo de que sua principal fonte de contribuição legal advém dos dízimos dos empregados das estatais. 
Vide abaixo o balanço das estatais federais. Uma das maiores usinas de gastos públicos da história do Brasil.
LAMENTO JAMAIS TER LIDO ALGUMA MATÉRIA NA IMPRENSA, OU MESMO NA INTERNET, SOBRE O ASSUNTO. SE ALGUÉM CONHECER FAVOR DE ENVIAR.  
Destaques do estudo:
- São 146 empresas estatais federais (elefantes brancos) e suas centenas de subsidiárias onde existem algumas curiosidades, tais como: empresas com patrimônio líquido (PL) negativo e outras empresas dependentes exclusivas do tesouro nacional. Por que não iniciar a privatização ou extinção das empresas com PL negativo e dependentes exclusivas do tesouro nacional?
Esses “elefantes brancos” somente servem para gerar deficit público e empregos para apadrinhados de políticos, além de ser o principal ninho petista. E o mais grave é que o “prostíbulo BNDES” financia muitas delas. Uma imoralidade sem precedentes. No Brasil é proibido ser normal (anexo 2.1).
- Em 2017 o tesouro nacional colocou R$ 18,2 bilhões na lixeira das estatais dependentes exclusivas do tesouro nacional, mais R$ 3,4 bilhões nas empresas não dependentes. Com desperdício fiscal  inútil da ordem de R$ 21,6 bilhões (anexos 3.8 e 3.9).
- Em 2009 a dívida das estatais era de R$ 142,0 bilhões (4,26% do PIB), em 2017 a dívida das estatais era de R$ 412,0 bilhões (6,28% do PIB). Crescimento real em relação ao PIB de 47,42%. (anexo 4.1).
- Em 2015 as empresas com patrimônio líquido negativo totalizaram passivo a descoberto da ordem de  R$ 24,5 bilhões. Em 2016 totalizaram passivo a descobeto de R$ 33,3 bilhões. (anexo 6.7).
- Em 2006 existiam 431.259 servidores ativos nas estatais, já em dezembro de 2017 saltou para 504.444, cujo crescimento foi de 16,97% em relação ao ano de 2006 (anexo 6.10). 
- Em 2006 somente nas empresas dependentes exclusivas do tesouro nacional tinha um efetivo de 34.616 servidores ativos, já em dezembro de 2017 saltou para 74.364 servidores ativos, cujo crescimento foi de 114,82% (anexo 6.10).

Balanço das Estatais Federais – Fonte MP
Base: Quarto Trimestre de 2017







Arquivos oficiais do governo estão disponíveis aos leitores.
Ricardo Bergamini

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Eugenio Gudin: sintese de uma vida - O Globo

Gudin, engenheiro, pai dos economistas brasileiros e floricultor em Petrópolis
Fonte: Acervo O Globo, 24/10/2016
Criador da primeira faculdade de Economia no país, na atual UFRJ, e enviado do Brasil a Bretton Woods, o carioca, que morreu há 30 anos, inspirou políticos e ministros. 
O homem que recebe a alcunha de “pai da economia brasileira” começou a vida como engenheiro, foi economista autodidata, ministro, professor, literato, jornalista, cantor de óperas amador e morreu, no dia 24 de outubro de 1986, como floricultor de Petrópolis. Em seus 100 anos, Eugênio Gudin, oráculo do pensamento liberal, atravessou dois séculos e viveu como poucos a História do seu tempo. Ajudou a criar o primeiro curso universitário de Economia no Brasil, esteve na delegação brasileira que participou da Conferência de Bretton Woods, nos Estados Unidos, em 1944, quando foram criados o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (Bird), e participou ativamente da política do país como ministro da Fazenda no governo Café Filho e como inspirador de políticos, ministros e economistas brasileiros e estrangeiros, que o procuravam em seu apartamento em Copacabana, na Zona Sul do Rio, para ouvir opiniões e conselhos.

Colunista do GLOBO desde 1958 até o ano de sua morte, em 1986, Eugênio Gudin era ferrenho defensor do liberalismo econômico, sendo respeitado por economistas de diferentes correntes de pensamento. Apesar de ter como endereço durante décadas um prédio da Avenida Atlântica — com entrada pela Rua Miguel Lemos, para pagar IPTU menor —, em que recebia visitas de políticos e ministros, Gudin nasceu em outro bairro da Zona Sul, o Cosme Velho, no dia 12 de julho de 1886. Ao fazer cem anos, ganhou uma placa em sua homenagem, afixada na casa onde passou o início da vida, na Rua Cosme Velho 829. Nos dias que antecederam o aniversário, Gudin recebeu centenas de telegramas, entre eles o do diretor-gerente do FMI, Jacques de Larosière.

— Quando ele era criança, adorava esperar o carro de moer cana, puxado por burros, e que tinha um realejo. A garotada da rua corria atrás do carro. Era uma festa todo o dia. Mas pelo que sei, o professor nunca teve muito tempo para ser criança. Foi uma pessoa seriíssima, tanto que se formou engenheiro aos 19 anos de idade — disse ao GLOBO, em 14 de julho de 1986, o historiador e ex-goleiro da seleção brasileira e do Fluminense Marcos Carneiro de Mendonça, vizinho do economista, ao inaugurar a placa.

A formação precoce, em 1905, na Escola Politécnica, hoje pertencente à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), dava uma pista da capacidade de Gudin. Ele trabalhou em grandes empresas, entre elas a Great Western of Brazil Railway, que construía ferrovias no Nordeste, da qual foi diretor-geral por quase 30 anos. Ele também construiu represas em Pernambuco e Ceará. Ajudou ainda a erguer a Represa de Ribeirão das Lajes, destinada a fornecer luz elétrica para o Rio de Janeiro. Porém, foi nas ciências econômicas que deixou seu maior legado, ao ser um dos responsáveis por idealizar o primeiro curso de Economia do Brasil, na opinião do professor Luiz Roberto Cunha, decano da PUC-Rio e neto de Gudin.

— Ele era um pessoa séria, mas também muito alegre, que gostava muito de conversar, especialmente com pessoas mais jovens. Ele dizia que os jovens são muito importantes para os mais velhos, e que eles ajudam a gente a viver mais. Ele também não gostava de beber água, só vinho. E brincava que todas as pessoas que morreram tinham uma coisa em comum: tomavam água — contou Cunha ao Acervo O GLOBO na última quinta-feira, acrescentando que passou a conviver com Gudin a partir dos 14 anos, depois que o economista casou-se com sua avó, Violeta. Sem filhos naturais, Gudin teve três casamentos, o último com Violeta, que lhe deu o prazer da vida em família e até bisnetos.

Gudin marcou gerações de economistas com o livro “Princípios de economia monetária”, de 1943 e hoje um clássico. Um dos seus discípulos, que bebeu na fonte da obra, foi o ex-ministro Mário Henrique Simonsen, que comandou o Ministério da Fazenda do governo Geisel, de 1974 a 1979. Gudin, cinco anos antes de escrever o livro, com Gustavo Capanema no Ministério da Educação de Getúlio Vargas, tornou-se um dos criadores da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas do Rio de Janeiro (FCEARJ), em 19 de dezembro de 1938. Incorporada à antiga Universidade do Brasil (hoje UFRJ) a partir de 1946, foi a primeira a oferecer um curso de Economia no Brasil. Gudin deu aula na instituição até 1957, quando se aposentou. A vida e obra de Gudin são contadas no documentário “Eugênio Gudin - o homem de dois séculos”, de 1986, dirigido por Silvio Lanna, Hillton Kauffman e Júlio Wolgemuth. Em 2012, sua vida ganhou as páginas do livro “Eugênio Gudin, inventário de flores e espinhos”, de autoria do historiador Márcio Scalercio (PUC-Rio) e do jornalista Rodrigo de Almeida (editado pela Insight Comunicação).

Ferino polemista, Gudin criticou a criação da Petrobras, em 1953, que na época não produzia uma gota de óleo, e condenou qualquer tipo de dirigismo estatal em um debate histórico com Roberto Simonsen, então presidente da Fiesp, nos anos 40. Na ocasião, um ano antes de embarcar para a Conferência de Bretton Woods, convocada pelo presidente americano Franklin Roosevelt para discutir a nova ordem econômica mundial após a Segunda Guerra, o economista participou do primeiro Congresso Brasileiro de Economia, em 1943.

Muitas vezes em sua vida levantou a voz contra o desperdício de dinheiro público e defendeu a importância da educação para o desenvolvimento nacional. Gudin fez sua estreia como colunista do GLOBO em 23 de maio de 1958, escrevendo artigos até o ano de sua morte, em 1986. Dublê de economista e jornalista defendia teses que só décadas depois vingaram no Brasil, entre elas o controle da inflação, o equilíbrio fiscal e o câmbio flutuante. Alertou, em seu primeiro artigo para o jornal, sobre riscos da política de investimentos, conhecida sob o slogan de "50 anos em cinco" do então presidente Juscelino Kubitschek. Certa vez, afirmou sobre JK: "O Juscelino era um bom rapaz, bem intencionado, mas muito playboy. Ele criou uma capital que não produz nada".

As medidas da era JK eram opostas às de estabilização econômica — baseada no corte das despesas públicas e na contenção da expansão monetária e do crédito — que Gudin havia adotado, em meio a uma crise financeira, quando foi ministro da Fazenda do governo Café Filho, pouco antes, entre agosto de 1954 e abril de 1955. Durante sua passagem pelo ministério também foi decretada a Instrução 113 da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), que facilitava os investimentos estrangeiros no país e acabou sendo muito utilizada no governo JK, segundo o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Foi ele também quem determinou que o Imposto de Renda passasse a ser descontado na fonte.

Em suas colunas publicadas no GLOBO, Gudin criticou também o então presidente João Goulart e apoiou o golpe militar de 1964, por acreditar que colocaria o país nos eixos. No final da década seguinte, porém, alfinetou o “milagre econômico” do regime militar comandado por Delfim Netto, que fez o Produto Interno Bruto brasileiro (PIB, conjunto de bens e produtos produzidos no país) passar dos dois dígitos, entre os anos de 1968 e 1973.

No final da década de 70, O GLOBO publicou uma série de 13 entrevistas com o economista, em que revisitava a História do Brasil desde a República Velha até o governo Geisel. A primeira delas saiu na edição do jornal em 14 de outubro de 1979, alinhando também memórias do ex-ministro e passagens de sua vida. Gudin foi ainda vice-presidente da FGV, entre 1960 e 1976, instituição com a qual mantinha vínculos desde a década de 40. Na Fundação, ele foi um dos responsáveis pela implantação do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) e da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE), das quais se tornou diretor.

Na última vez em que escreveu no GLOBO, em 19 de março de 1986, elogiava o Plano Cruzado e o “sucesso do combate à inflação” naquela altura, atribuída por ele à “obra do povo brasileiro, que respondeu ao apelo” do então presidente José Sarney. A inflação mensal em março daquele ano, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do IBGE, era de -1,31%, após cinco meses seguidos atingindo a faixa dos dois dígitos. No ano seguinte, entretanto, os preços voltaram a ficar fora de controle e chegaram aos mesmos patamares vistos antes das políticas de controle implementadas por Sarney.

Apreciador de bons vinhos, bons pratos e da música clássica, Gudin costumava almoçar com a família fora de casa aos domingos. Um dos restaurantes que frequentava era o Alpino, no Leblon, na Zona Sul carioca. Entre os seus prazeres, conta o neto e economista Luiz Roberto Cunha, estavam as flores e o sítio em Petrópolis. Com frequência, Gudin se refugiava na sua casa de dois pavimentos plantada na Serra Fluminense, com vista para a catedral da cidade, cercada por quaresmeiras, lírios e begônias.

— Antes de tudo, sou um floricultor em Petrópolis — afirmou em entrevista ao GLOBO, publicada em 12 de julho de 1981, quando completou 95 anos.

Pela transcrição: 
Ricardo Bergamini