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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Venezuela: quase calote com o Brasil, e novo calote se aproximando


Venezuela paga US$ 262 milhões ao Brasil e evita calote

MARIANA CARNEIRO, DE BRASÍLIA

Folha de S. Paulo, 10 de janeiro de 2018


A Venezuela pagou a parcela de US$ 262 milhões (cerca de R$ 850 milhões) da dívida com o Brasil, vencida em setembro, com isso, evitou a formalização de um calote.
O pagamento foi acertado nesta segunda-feira (8) e ocorreu por meio da transferência de valores que a Venezuela tem como cotista do FMI (Fundo Monetário Internacional) para o Brasil.
Todos os países que são membros do Fundo —casos de Brasil e Venezuela— têm cotas, que representam uma parcela financeira do capital total do FMI.
Essa foi a alternativa encontrada pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central para viabilizar o pagamento, uma vez que a Venezuela tem contas bloqueadas nos EUA e também tem pagamentos a fazer para China, Rússia e Japão.
Na noite desta terça-feira (9), o governo brasileiro esperava superar as últimas dúvidas técnicas levantadas pelo Fed (banco central dos EUA) para consumar a transferência e, assim, trazer os recursos para o país.
Com o dinheiro, o governo pagará parcelas devidas ao BNDES, ao Credit Suisse e ao Bank of China por financiar operações de exportadores brasileiros ao vizinho, principalmente construtoras.
E, dessa maneira, evitará que os bancos acionem o FGE (fundo garantidor de exportações), obrigando o Tesouro Nacional a honrar os pagamentos da Venezuela, como já está ocorrendo com Moçambique.
No dia 15 de dezembro, o governo pagou R$ 124 milhões ao BNDES a título de ressarcimento pelo calote da primeira parcela, de US$ 22,4 milhões, de Moçambique. O total da dívida do país africano é de US$ 483 milhões (R$ 1,5 bilhão).
No caso da Venezuela, embora tenha evitado a configuração do calote neste momento, o país está longe de uma solução permanente. A segunda parcela venceu nesta segunda-feira (8) e não foi paga. Os recursos do país no FMI não são suficientes para bancar a dívida total com o Brasil.
O BNDES e bancos privados têm a receber US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões) da Venezuela —mais da metade desse valor em 2018.
Caso o país não pague, a dívida recairá sobre o Tesouro Nacional, que é o fiador das exportações por meio do FGE.
A Venezuela foi o segundo principal destino de financiamento público a obras de construtoras no exterior, executadas por empreiteiras envolvidas na Lava Jato, como Odebrecht e Andrade Gutierrez. O primeiro destino foi Angola, cuja dívida total com o Brasil soma US$ 1,97 bilhão.
Todas essas operações foram seguradas pelo FGE.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Venezuela, no desastre completo; invasao militar? - Ricardo Hausmann


Vou ser muito claro quanto ao que pretende Ricardo Hausmann, um venezuelano que se desespera de ver o seu povo morrer de fome: a Assembleia Nacional não tem poderes para destituir Maduro, e mesmo que tivesse, não aconteceria absolutamente nada, pois as rédeas do poder continuariam com quem estão atualmente: com os chavistas no poder, apoiados em maciças forças repressivas, a começar pelo Exército (mas não só ele). E mesmo se esse milagre da destituição por acaso ocorresse, não haveria um governo com legitimidade suficiente para chamar uma "invasão" estrangeira, que seria contra quem? Contra o Exército venezuelano? Haveria sérios problemas nos planos militar, social, político, logístico, humanitário, e a situação passaria de uim para pior. Mas imaginemos que tudo isso ocorra, que viria para essa "invasão armada estrangeira"? Não vejo NENHUM vizinho em condições políticas, militares, diplomáticas de fazê-lo, e não creio que os EUA de Trump poderiam montar um exército à la Rangers de Theodore Roosevelt, ou mesmo de marines, para "libertar" a Venezuela do governo narcotraficante (essa seria a rationale, não seria?). Esqueçam a ONU, que não serve para essas coisas, não por culpa da ONU, mas dos membros do CSNU.
Infelizmente, a Venezuela e os venezuelanos estão dramaticamente sós, para enfrentar a fome, a repressão, a desesperança, a morte...
Paulo Roberto de Almeida  
 
D-Day Venezuela

Project Syndicate, Jan 2, 2018 


As conditions in Venezuela worsen, the solutions that must now be considered include what was once inconceivable. A negotiated political transition remains the preferred option, but military intervention by a coalition of regional forces may be the only way to end a man-made famine threatening millions of lives.
CAMBRIDGE – The Venezuelan crisis is moving relentlessly from catastrophic to unimaginable. The level of misery, human suffering, and destruction has reached a point where the international community must rethink how it can help.
Two years ago, I warned of a coming famine in Venezuela, akin to Ukraine’s 1932-1933 Holomodor. On December 17, The New York Timespublished front-page photographs of this man-made disaster.
In July, I described the unprecedented nature of Venezuela’s economic calamity, documenting the collapse in output, incomes, and living and health standards. Probably the single most telling statistic I cited was that the minimum wage (the wage earned by the median worker) measured in the cheapest available calorie, had declined from 52,854 calories per day in May 2012 to just 7,005 by May 2017 – not enough to feed a family of five.
Since then, conditions have deteriorated dramatically. By last month, the minimum wage had fallen to just 2,740 calories a day. And proteins are in even shorter supply. Meat of any kind is so scarce that the market price of a kilogram is equivalent to more than a week of minimum-wage work.
Health conditions have worsened as well, owing to nutritional deficiencies and the government’s decision not to supply infant formula, standard vaccines against infectious diseases, medicines for AIDS, transplant, cancer, and dialysis patients, and general hospital supplies. Since August 1, the price of a US dollar has added an extra zero, and inflation has exceeded 50% per monthsince September.
According to OPEC, oil production has declined by 16% since May, down more than 350,000 barrels a day. To arrest the decline, President Nicolás Maduro’s government has had no better idea than to arrest some 60 senior managers of the state-owned oil company PDVSA and appoint a National Guard general with no industry experience to run it.
Rather than taking steps to end the humanitarian crisis, the government is using it to entrench its political control. Rejecting offers of assistance, it is spending its resources on Chinese-made military-grade crowd-control systems to thwart public protests.
Many outside observers believe that as the economy worsens, the government will lose power. But the organized political opposition is weaker now than it was in July, despite massive international diplomatic support. Since then, the government has installed an unconstitutional Constituent Assembly with full powers, deregistered the three main opposition parties, sacked elected mayors and deputies, and stolen three elections.
With all solutions either impractical, deemed infeasible, or unacceptable, most Venezuelans are wishing for some deus ex machinato save them from this tragedy. The best scenario would be free and fair elections to choose a new government. This is Plan A for the Venezuelan opposition organized around the Mesa de la Unidad Democratica, and is being sought in talks taking place in the Dominican Republic.
But it defies credulity to think that a regime that is willing to starve millions to remain in power would yield that power in free elections. In Eastern Europe in the 1940s, Stalinist regimes consolidated power despite losing elections. The fact that the Maduro government has stolen three elections in 2017 alone and has blocked the electoral participation of the parties with which it is negotiating, again despite massive international attention, suggests that success is unlikely.
A domestic military coup to restore constitutional rule is less palatable to many democratic politicians, because they fear that the soldiers may not return to their barracks afterwards. More important, Maduro’s regime already is a military dictatorship, with officers in charge of many government agencies. The senior officers of the Armed Forces are corrupt to the core, having been involved for years in smuggling, currency and procurement crimes, narco-trafficking and extra-judicial killings that, in per capita terms are three times more prevalent than in Rodrigo Duterte’s Philippines. Decent senior officers have been quitting in large numbers.
Targeted sanctions, managed by the US Office of Foreign Assets Control (OFAC), are hurting many of the thugs ruling Venezuela. But, measured in the tens of thousands of avoidable deaths and millions of additional Venezuelan refugees that will occur until the sanctions yield their intended effect, these measures are too slow at best. At worst, they will never work. After all, such sanctions have not led to regime change in Russia, North Korea, or Iran.
This leaves us with an international military intervention, a solution that scares most Latin American governments because of a history of aggressive actions against their sovereign interests, especially in Mexico and Central America. But these may be the wrong historical analogies. After all, Simón Bolívar gained the title of Liberator of Venezuela thanks to an 1814 invasion organized and financed by neighboring Nueva Granada (today’s Colombia). France, Belgium, and the Netherlands could not free themselves of an oppressive regime between 1940 and 1944 without international military action.
The implication is clear. As the Venezuelan situation becomes unimaginable, the solutions to be considered move closer to the inconceivable. The duly elected National Assembly, where the opposition holds a two-thirds majority, has been unconstitutionally stripped of power by an unconstitutionally appointed Supreme Court. And the military has used its power to suppress protests and force into exile many leaders including the Supreme Court justices elected by the National Assembly in July.
As solutions go, why not consider the following one: the National Assembly could impeach Maduro and the OFAC-sanctioned, narco-trafficking vice president, Tareck El Aissami, who has had more than $500 million in assets seized by the United States government. The Assembly could constitutionally appoint a new government, which in turn could request military assistance from a coalition of the willing, including Latin American, North American, and European countries. This force would free Venezuela, in the same way Canadians, Australians, Brits, and Americans liberated Europe in 1944-1945. Closer to home, it would be akin to the US liberating Panama from the oppression of Manuel Noriega, ushering in democracy and the fastest economic growth in Latin America.
According to international law, none of this would require approval by the United Nations Security Council (which Russia and China might veto), because the military force would be invited by a legitimate government seeking support to uphold the country’s constitution. The existence of such an option might even boost the prospects of the ongoing negotiations in the Dominican Republic.
An imploding Venezuela is not in most countries’ national interest. And conditions there constitute a crime against humanity that must be stopped on moral grounds. The failure of Operation Market Garden in September 1944, immortalized in the book and film A Bridge Too Far, led to famine in the Netherlands in the winter of 1944-1945. Today’s Venezuelan famine is already worse. How many lives must be shattered before salvation comes?
Writing for PS since 2001 
58 Commentaries
Ricardo Hausmann, a former minister of planning of Venezuela and former Chief Economist of the Inter-American Development Bank, is Director of the Center for International Development at Harvard University and a professor of economics at the Harvard Kennedy School.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Venezuela: mortes infantis por fome se acentuam

Até quando a América Latina suportará esse espetáculo propriamente "africano" num país que já foi, outrora, o de maior renda per capita da região?
Até quando crianças morrerão de fome na Venezuela, na total indiferença dos países vizinhos?
Até quando teremos de assistir realidades brutais como essa, ao lado do Brasil?
Paulo Roberto de Almeida

Crise se agrava e crianças morrem de fome na Venezuela

O Estado de S. Paulo, 18/12/2017

 

 Nos últimos cinco meses, ‘New York Times’ visita 21 hospitais em 17 Estados e constata a falência do sistema de saúde venezuelano
CARACAS - O problema da fome assola a Venezuela há anos, mas agora a desnutrição está matando as crianças em ritmo alarmante. Por cinco meses, o New York Times acompanhou o cotidiano hospitais públicos venezuelanos e, segundo os médicos, o número de mortes por desnutrição é recorde.
Desde que a economia da Venezuela começou a ruir, em 2014, protestos por falta de comida se tornaram comuns. Também virou rotina ver soldados montando guarda diante de padarias e multidões enfurecidas saqueando mercados.
As mortes por desnutrição são o segredo mais bem guardado do governo de Nicolás Maduro. Nos últimos cinco meses, o New York Times entrevistou médicos de 21 hospitais em 17 Estados. Os profissionais descrevem salas de emergência cheias de crianças com desnutrição grave, um quadro que raramente viam antes da crise.
“As crianças chegam em condições muito graves de desnutrição”, disse o médico Huníades Urbina Medina, presidente da Sociedade Venezuelana de Pediatria. De acordo com ele, os médicos venezuelanos têm se deparado com casos de desnutrição semelhantes aos encontrados em campos de refugiados.
ara muitas famílias de baixa renda, a crise redesenhou completamente a paisagem social. Pais preocupados ficam dias sem comer, emagrecem e chegam a pesar quase o mesmo que seus filhos. Mulheres fazem fila em clínicas de esterilização para evitar bebês que não possam alimentar.
Jovens que deixam suas casas e se juntam a gangues de rua para vasculhar o lixo atrás de sobras carregam na pele cicatrizes de brigas de faca. Multidões de adultos avançam sobre o lixo de restaurantes após os estabelecimentos fecharem. Bebês morrem porque é difícil encontrar e pagar pela fórmula artificial que substitui leite materno, até mesmo nas salas de emergência.
“Às vezes, eles morrem de desidratação nos meus braços”, afirmou a médica Milagros Hernández, na sala de emergência de um hospital pediátrico na cidade de Barquisimeto. Ela diz que o aumento de pacientes desnutridos começou a ser notado no fim de 2016. “Em 2017, o aumento foi terrível. As crianças chegam com o mesmo peso e tamanho de um recém-nascido.”
Antes de a economia entrar em colapso, segundo os médicos, quase todos os casos de desnutrição registrados nos hospitais públicos eram ocasionados por negligência ou abusos por parte dos pais. Quando a crise se agravou, entre 2015 e 2016, o número de casos no principal centro de saúde infantil da capital venezuelana triplicou.
Nos últimos dois anos, a situação ficou ainda pior. Em muitos países, a desnutrição grave é causada por guerras, secas ou algum tipo de catástrofe, como um terremoto”, disse a médica Ingrid Soto de Sanabria, chefe do departamento de nutrição, crescimento e desenvolvimento do hospital. “Mas, na Venezuela, ela está diretamente relacionada à escassez de comida e à inflação.”
O governo venezuelano tem tentado encobrir a crise no setor de saúde por meio de um blecaute quase total das estatísticas, além de criar uma cultura que deixa os profissionais com medo de relatar problemas e mortes ocasionados por erros do governo.
As estatísticas, porém, são estarrecedoras. O relatório anual do Ministério da Saúde, de 2015, indica que a taxa de mortalidade de crianças com menos de 4 semanas aumentou em 100 vezes desde 2012, de 0,02% para pouco mais 2% - a mortalidade materna aumentou 5 vezes no mesmo período.
Por quase dois anos, o governo venezuelano não publicou nenhum boletim epidemiológico ou estatísticas relacionadas à mortalidade infantil. Em abril, porém, um link apareceu subitamente no site do Ministério da Saúde conduzindo os internautas a boletins secretos. Os documentos indicavam que 11.446 crianças com menos de 1 ano morreram em 2016 - um aumento de 30% em um ano.
Os dados ganharam manchetes nacionais e internacionais antes de o governo declarar que o site tinha sido hackeado. Em seguida, os relatórios foram retirados do ar. Antonieta Caporale, ministra da Saúde, foi demitida e a responsabilidade de monitorar os boletins foi passada aos militares. Nenhuma informação foi divulgada desde então.
Os médicos também são censurados nos hospitais e frequentemente alertados para não incluir desnutrição infantil nos registros. “Em alguns hospitais públicos, os diagnósticos clínicos de desnutrição foram proibidos”, afirmou Urbina.
No entanto, médicos entrevistados em 9 dos 21 hospitais investigados mantiveram ao menos algum tipo de registro. Eles constataram aproximadamente 2,8 mil casos de desnutrição somente no último ano - e crianças famintas regularmente sendo levadas para a emergência. Quase 400 delas morreram, segundo os pediatras. “Nunca na minha vida vi tantas crianças famintas”, afirmou a médica Livia Machado, pediatra que oferece consultas grátis em uma clínica particular.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Venezuela: um pais empobrecido e sem dinheiro - John Otis (The Guardian)


Cash crunch: how Venezuela inadvertently became a cashless economy

John Otis in Caracas

The Guardia, December 1, 2017


Venezuela's currency, the bolívar, is named after Simón Bolívar, the 19th-century hero revered across South America for leading the fight for independence from Spain. But the recent history of the banknote he inspired is far less glorious: low-value notes have been rendered practically worthless – and now Venezuela is running out of them.
The cash crunch is so acute that ATMs now provide a daily limit of 10,000 bolívars, enough to buy just a few cups of coffee. Black-market money changers charge commissions of up to 20% to score paper money for small business people who pay their workers in cash. Banks are running out of banknotes.
"Sometimes, bank tellers will only pay you half of your pension and suggest that you come back later for the rest," said Marta Milano, who was waiting in a long line outside a state-run bank in Caracas hoping to collect her pension.
Although many nations are moving away from paper money in favor of electronic payments – for convenience and to reduce street crime – critics contend that Venezuela is inadvertently turning into a cashless society thanks to economic blunders by President Nicolás Maduro's socialist government.
Out-of-control state spending, government currency controls and other policies have led to what many describe as hyperinflation, as well the collapse of the bolívar – which now trades at about 107,000 to the pound on the black market.
Now, there is not enough cash in circulation to keep up with soaring prices.
Jean Paul Leidenz, a senior economist at the Caracas thinktank Ecoanalítica, says there are about 13bn banknotes in circulation in Venezuela. But about half of these are 100-bolívar notes, each worth a small fraction of one penny.
The central bank has introduced higher-denomination bills, including a 100,000-bolívar note. But these new banknotes are printed in Europe and the government, which is dealing with falling production of oil – its main export – and massive foreign debt, lacks the money to import enough of them to meet demand.
"Prices are doubling around every two months. So at that rate of price increases you can't keep up with inflation even if you start importing bills," Leidenz says.
He and other analysts are calling for market reforms, including the lifting of government currency controls, to help combat inflation and boost national production amid Venezuela's worst economic crisis in modern history. But the Maduro government has made no effort to change tack.
President Maduro blames the cash shortage on private bankers who he claims are working in cahoots with President Juan Manuel Santos of neighbouring Colombia, who has criticized Maduro for cracking down on democratic freedoms.
Maduro insists that bankers are smuggling cash across the Venezuelan-Colombian border as part of an elaborate conspiracy to sabotage the economy and bring down his government.
"Juan Manuel Santos of Colombia along with the [border] mafias are leading this attack against Venezuela. They are stealing 50- and 100-bolívar banknotes to take them out of the country," Maduro said in a recent speech.
He did not, however, explain why smugglers would covet nearly worthless banknotes or why spiriting them out of the country would threaten the Venezuelan economy.
Instead, Maduro tried to paint the cash crisis as an opportunity for Venezuela to ditch cash altogether. He said that by next year, up to 95% of all payments in Venezuela should be done electronically.
That's already starting to happen, though critics point out that the transition stems from a dearth of cash rather than ahead-of-the-curve planning by the Maduro government. These days, Venezuelans pay for the smallest purchases – from a pack of gum to newspapers – with credit or debit cards.
At an outdoor produce market in Caracas, electrician Edinson Sua whipped out his debit card to pay for a few kilos of potatoes and carrots. He said he saves his scarce bolívar notes for bus fares and other transactions that require cash.
"I almost never use cash except in a real emergency," he says.
But paying with plastic creates new problems. The rising number of electronic transactions can cause internet connections for card readers to collapse. Empty shelves at supermarkets prompt many Venezuelans to seek out black-market vendors who sell milk, rice and other basic staples but accept only paper money.
What's more, about 40% of Venezuelans do not have bank accounts. For them the daily scramble for cash continues.

Venezuela: o que falta para decretar intervencao humanitaria?

Onde andaria o tal de R2P? Ou mesmo o RWP? Ou simplesmente um SOS mundo?


Metrô para por falta de luz e diabéticos morrem sem insulina na Venezuela

O Estado de S. Paulo, 1/12/2017

 

Em dia caótico, apagões interrompem partida de beisebol, escassez de combustível afeta transporte público, médicos reclamam de epidemia de malária e de surto de doenças já erradicadas; OMS reconhece que país vive crise humanitária
A Venezuela viveu ontem um dia caótico. Algumas estações do metrô de Caracas fecharam por falta de luz. Houve queda de energia em várias regiões. Em 17 Estados, a gasolina está no fim. Em Vargas, médicos anunciaram que 24 diabéticos morreram nos últimos quatro meses por falta de insulina. A Organização Mundial de Saúde (OMS) admitiu, pela primeira vez, que o país passa por uma crise humanitária.
“Nos últimos quatro meses, 24 pacientes diabéticos morreram em razão da falta de insulina e amputamos cinco pessoas em um mês.” A frase de Monica Conde, médica do Estado de Vargas, no norte da Venezuela, é um retrato da crise. “Alguns tipos de insulina até chegam às farmácias particulares, mas custam muito caro”, disse Monica ao jornal La Verdade de Vargas.
“No hospital, não temos como tratar os pacientes e estamos fazendo vaquinha para comprar alguns produtos básicos.”
Diante da escassez de remédios, a OMS admitiu ontem que há uma crise humanitária no país. Desde 2014, faltam pelo menos 100 remédios essenciais. Segundo a Federação Farmacêutica da Venezuela, 85% dos medicamentos necessários à população sumiram das farmácias. Quando se trata de doenças crônicas, como diabetes e câncer, a escassez é de 95%.
Doenças como a difteria, erradicada havia 24 anos, reapareceram, assim como a tuberculose e o sarampo. A Venezuela enfrenta uma epidemia de malária, com 200 mil casos até outubro, metade dos casos de todo o continente americano.
A desnutrição em crianças menores de 5 anos aumentou de 54%, em abril, para 68% em agosto. Segundo um estudo da ONG Cáritas da Venezuela, vinculada à Igreja Católica, 35,5% das crianças pobres do país, com idade de 0 a 5 anos, estão desnutridas. A mortalidade infantil na Venezuela aumentou 30,12% no ano passado, em relação a 2015, com 11.466 mortes de crianças de 0 a 1 ano.
Não foram apenas os alimentos e os remédios que desapareceram das prateleiras. A escassez de métodos contraceptivos e de preservativos causou um aumento drástico do número de doenças sexualmente transmissíveis, como gonorreia, sífilis e herpes, além de uma epidemia de abortos caseiros – o aborto na Venezuela é proibido, a não ser em casos de risco de vida para a mãe. Segundo ONGs, em 2015, foram 2.366 atendimentos médicos em decorrência de abortos improvisados. Em 2016, o número aumentou para 3.430.
Para os médicos, a escassez de métodos contraceptivos é a causa do aumento de casos de aids e de outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), como gonorreia, sífilis e herpes. Este ano, mais de 6,5 mil pessoas contraíram o HIV na Venezuela. Em 2016, foram 5,6 mil. Em 2014, 3 mil.
A ginecologista do Hospital Universitário de Caracas, Vanessa Diaz, afirmou ao jornal Washington Post que o número de pacientes com outras DSTs também aumentou. “Dos pacientes que atendi, a cada dez, seis tinham alguma DST. Dois anos atrás, esse número não passava de dois”.
O caos na Venezuela começou a afetar também questões mais prosaicas – do fornecimento de gasolina à energia elétrica. Nos últimos três dias, estações de metrô de Caracas tiveram de ser fechadas por falta de luz. Os apagões são cada vez mais frequentes. Em Caracas, nos horários de pico, a interrupção das linhas de metrô por queda de energia costuma durar até duas horas. O principal jogo de beisebol da rodada de ontem, entre Magallanes e Águilas, disputado em Maracaibo, foi interrompido por mais de duas horas em razão de um blecaute na cidade.
Mesmo tendo as maiores reservas de petróleo do mundo, em várias regiões a gasolina está no fim. Dos 23 Estados da Venezuela, 17 enfrentam escassez de combustível. O problema reduziu a circulação de táxis e ônibus, afetando o transporte público em várias cidades do país.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Venezuela: a confusa situacao de sua divida externa (Financial Times)


EUA, Rússia e China fazem suas apostas na crise da Venezuela

John Paul Rathbone e Robin Wigglesworth | 
Financial Times, de Miami e Nova York
Valor Econômico, 23/11/2017

Na semana passada, a convite do presidente Nicolás Maduro, um grupo de credores internacionais esteve em Caracas para iniciar o que vem sendo classificado de a mais complicada reestruturação de dívida do mundo, além de uma das maiores e certamente uma das mais estranhas.
Ressaltando o contraste de uma economia amparada pelas maiores reservas de petróleo do mundo, mas à beira do colapso, o governo Maduro estendeu um tapete vermelho para seus convidados e posicionou uma guarda cerimonial.
A Venezuela busca uma solução que seja boa para todos, disse o vice-presidente, Tareck El Aissami, aos investidores. O país continuará pagando a sua dívida externa, de US$ 150 bilhões, assegurou, embora agências de classificação de risco estivessem emitindo alertas de calotes enquanto ele falava. O pronunciamento terminou meio hora depois. Os participantes saíram com presentes, como pacotes de café e chocolates finos, mas sem nenhum esclarecimento. O governo declarou a reunião um sucesso.
"Estamos todos tentando descobrir se há um método nessa loucura da Venezuela", diz Peter West da consultoria EM Funding. "Se você estiver um pouco confuso... não se sinta mal", acrescentou Russ Dallen da Caracas Capital, um especialista na dívida da Venezuela.
A confusão deriva, em parte, da complexidade das obrigações da Venezuela, que foram emitidas por várias entidades, com várias cláusulas legais, para múltiplas partes. O país deve US$ 64 bilhões a detentores de bônus, mais de US$ 20 bilhões aos aliados China e Rússia, US$ 5 bilhões a credores multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), e dezenas de bilhões a importadores e firmas de serviços que mantêm a crucial indústria do petróleo funcionando e o regime respirando.
As incertezas resultam da noção de que a Venezuela embarcou num "plano de reestruturação" clássico. Caracas não está iniciando um exercício de reescalonamento da dívida, sustentabilidade e outras medidas que geralmente marcam uma renegociação. Em vez disso, o país começou um jogo de pôquer sem limite de apostas.
Com exceção dos detentores de bônus, para outras cinco partes interessadas- governo, oposição, EUA, Rússia e China - o prêmio vai muito além do dinheiro. Está em jogo a sobrevivência política de um governo, o destino de 30 milhões de cidadãos venezuelanos e os interesses geopolíticos conflitantes de três superpotências.
"É um jogo complexo com muitos jogadores, e que poderá ter um resultado ruim", diz Robert Kahn, ex-funcionário do Fundo Monetário Internacional (FMI) e veterano de outras crises de dívidas soberanas. "Além disso, muitos dos jogadores não conhecem nem entendem as motivações dos demais."
O governo Maduro quer apenas sobreviver. Ele teme que os detentores de bônus, que querem apenas ser pagos, possam confiscar suas cargas de petróleo no caso de um default, tirando de Caracas a sua única fonte de receitas. Entre as superpotências, Washington quer abreviar um regime envolvido com o tráfico de drogas, que possui reservas de petróleo avaliadas em US$ 15 trilhões e distante só três horas de avião dos EUA.
Moscou tenta transformar Caracas numa base avançada nas Américas. Os interesses da China são mais comerciais: por ter emprestado a Caracas mais de US$ 60 bilhões na última década, Pequim quer manter acesso às enormes reservas de energia da Venezuela.
Contribuindo para a complexidade estão as regras - ou ausência delas. Todos os bônus da Venezuela no mercado externo estão submetidos às leis de Nova York. Mas a presença da Rússia e da China no jogo é um complicador a mais numa reestruturação que será, ao menos parcialmente, conduzida fora do FMI ou do Clube de Paris.
Depois, há o fato de os dois venezuelanos encarregados de conduzir o processo, El Aissami e Simon Zerpa, o ministro de Economia, serem alvos de sanções dos EUA acusados de tráfico de drogas e de casos de abusos dos direitos humanos. A nomeação dos dois indica que Caracas se imagina operando num universo legal paralelo - como demonstra o jogo de pôquer que se desenrola.
Uma das poucas coisas que estão claras nesse exercício de blefes é que a Venezuela não pode mais arcar com sua dívida. Há dez anos, em meio ao boom dos preços das commodities, a Venezuela recebeu de um fluxo extraordinário de petrodólares estimado em US$ 1 trilhão. Com ajuda de Wall Street, Caracas emitiu mais de US$ 50 bilhões em bônus. Junto com o dinheiro dos chineses e outros empréstimos, isso quadruplicou a dívida externa. Grande parte do dinheiro se perdeu ou foi roubado - até US$ 300 bilhões, segundo ex-ministros. Agora, Caracas está sem recursos.
As reservas internacionais estão abaixo de US$ 10 bilhões, perto do menor patamar em 20 anos. As importações caíram 85% em cinco anos, algo muito pior que o mais austero dos programas do FMI. No mercado paralelo, a taxa de câmbio está 7.000 vezes acima da taxa oficial, e a produção média diária de petróleo - a única fonte de divisas estrangeiras - encolheu 20% em relação ao ano passado.
Além disso, a Venezuela sofre com a hiperinflação, com os preços subindo mais de 50% só no mês passado. Nenhuma economia consegue sobreviver à hiperinflação por muito tempo. Com o calote da dívida à vista, mudanças podem estar chegando para a Venezuela.
Certamente é isso que a oposição espera. Embora abalada e dividida, ela é uma carta potencialmente forte nesse jogo. Sanções impedem instituições dos EUA de negociar emissões da dívida refinanciada da Venezuela, o que efetivamente torna impossível uma reestruturação. A única exceção é se a dívida for autorizada pela Assembleia Nacional, controlada pela oposição.
Em tese, isso abre a possibilidade de uma barganha política que poderia resultar numa mudança mais profunda. A oposição poderia aprovar um refinanciamento da dívida. Em troca, o governo permitiria eleições presidenciais livres, justas e monitoradas internacionalmente no ano que vem.
Se o governo está preocupado, até agora não deu muitos sinais disso. Além disso, Maduro tem bons motivos para achar que pode blefar com os EUA, com a oposição e com os detentores de bônus.
Aconselhado pela inteligência cubana, que por sua vez foi instruída pelos soviéticos, Maduro exerce um domínio "orwelliano" sobre o país. À parte a Assembleia Nacional, todas as demais instituições estão o sob seu controle - incluindo a Suprema Corte, a imprensa, a autoridade eleitoral e os militares.
Há escassez de alimentos - e grande parte do que está disponível é distribuído por meio de um programa estatal subsidiado, que Maduro pode usar para coagir o apoio público. A oposição está exausta depois que as manifestações em massa deste ano não produziram mudanças, apesar dos mais de 100 mortes. Começa até mesmo a surgir uma "oposição fiel", cooptada pelo governo.
"Tudo isso deixar o presidente Nicolás Maduro numa posição confortável" e também "reduz significativamente as chances de uma mudança de regime", escreveu Risa Grais-Targow, da consultoria de risco Eurasia.
Deve ser por isso que Maduro iniciou as discussões sobre a dívida em primeiro lugar. Mesmo um calote não seria necessariamente o fim. Ele poderia usar os US$ 9 bilhões previstos de serviço da dívida em 2018 para dobrar a importação, aumentando assim suas chances na eleição do ano que vem. Enquanto isso, seus advogados trabalhariam para rebater as queixas dos investidores nos tribunais.
"O governo jamais irá negociar se não achar que essa será a sua melhor operação", diz um analista a par da situação. "E esse momento ainda não chegou."
Apesar da escassez de divisas, Caracas continua pagando os credores privados, ainda que de maneira irregular, graças à generosidade de Moscou e Pequim.
Na semana passada, a Rússia reestruturou sua dívida bilateral de US$ 3,5 bilhões com a Venezuela, liberando recursos para Caracas pagar outros credores. A China, embora relute em aumentar sua exposição de cerca de US$ 20 bilhões à Venezuela, também parece preferir o status quo político.
"A Venezuela é um atoleiro para a China", diz Margaret Myers, uma especialista em China do instituto Inter-American Dialogue, de Washington. "Mas a sensação geral é que Pequim vai desembolsar outros US$ 4 bilhões ou coisa parecida para a Venezuela neste ano, por meio do fundo estabelecido em joint-venture pelos dois países. Mas a China não irá além disso."
Este promete ser um jogo de pôquer exaustivo. Mas haverá um ajuste de contas. A hiperinflação venezuelana e a contínua queda na produção de petróleo serão responsáveis por isso. Nem Moscou, nem Pequim continuarão reestruturando a dívida da Venezuela indefinidamente enquanto investidores em bônus continuam sendo pagos. Quando esse momento chegar, os outros jogadores terão de arriscar tudo, ou ceder.
Os EUA poderão ser os primeiros a subir a aposta. O país poderá ampliar a proibição de viagens e o congelamento de ativos de autoridades venezuelanas. Também poderá emitir sanções secundárias contra companhias de petróleo russas e bancos chineses que negociam com a Venezuela, assim como tem feito com empresas que têm negócios com a Coreia do Norte. A maior sanção de Washington seria a "opção nuclear" de proibir a importação de 600 mil barris de petróleo/dia da Venezuela.
Quanto aos detentores de bônus, em algum momento eles terão de decidir se vão esperar para receber propostas de reestruturação do governo da Venezuela ou elaborar suas próprias propostas.
Em caso extremo, isso significaria o confisco de cargas de petróleo. Se essa estratégia for bem-sucedida, Maduro enfrentaria uma escolha difícil. Ele poderia desistir e fugir para o exílio em Cuba - uma saída já sugerida a Havana por diplomatas latino-americanos. Ou, ele poderia resistir e reprimir uma instabilidade social crescente. O papel dos militares seria então crucial: eles continuam leais a Maduro, mas isso pode não durar para sempre - como mostrou o Zimbábue recentemente.
As apostas foram feitas. O jogo será difícil, mas os retornos são potencialmente altos. Isso se aplica especialmente àqueles investidores dispostos a suportar uma batalha como a que produziu lucros descomunais para vários "fundos abutre" que compraram títulos da dívida da Argentina na reestruturação de US$ 100 bilhões em bônus do país, e então entraram com processos buscando o reembolso integral ao preço nominal.
"No fim, eles vão ganhar mais dinheiro na Venezuela do que ganharam na Argentina", diz Hans Humes, presidente da Greylock Capital, que está formando uma comissão de investidores. As consequências geopolíticas e humanitárias deverão ser ainda maiores. 

(Tradução de Mario Zamarian)