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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

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segunda-feira, 22 de maio de 2017

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Livros, livros, livros: uma selecao de leituras (de 2014)

Minha biblioteca tem... não sei quantos livros, mas sempre estou adquirindo ou recebendo muitos mais, sem contar os que eu retirava das bibliotecas públicas de Harford, entre 2013 e 2015, antes de voltar ao Brasil no final desse ano. Os livros abaixo foram lidos por mim em 2014. Fiz pequenas notas sobre cada um deles, e penso que ainda são atuais.
Eu gosto particularmente do Maquiavel de Lauro Escorel, um jovem secretário brasileiro, trabalhando na embaixada do Brasil em Roma, nos anos 1950, refletindo sobre o "segretario" do serviço diplomático da antiga Toscana, trabalhando em Firenze (ou Florença), mas tendo feito missões diplomáticas junto a vários reinos (os estados papais, outras repúblicas ou ducados italianos, reino da França, etc.) e, sobretudo, refletido sobre as paixões e loucuras dos homens políticos quando estão no poder, ou fora dele (como era o seu próprio caso, quando escreveu O Príncipe, em desgraça relativa).

Paulo Roberto de Almeida


Algumas recomendações de leituras: lista seletiva

Paulo Roberto de Almeida


Sergio Florencio: Os Mexicanos (São Paulo: Contexto, 2014, 240 p.)
            Você sabia que os mexicanos têm uma lista dos mais amados (Benito Juarez e Pancho Villa, entre eles), mas também dos mais odiados (Cortez, obviamente, e também Porfírio Díaz) personagens da sua história? Sabia que somos parecidos com eles? Este livro, por quem foi embaixador no México, apresenta uma história diferente do país que é apresentado como competidor do Brasil; de fato é, mas não como esperado: buscam os dois a prosperidade, a partir de bases sociais e comportamentos econômicos similares. Uma análise exemplar, feita do ponto de vista de um brasileiro que é fino observador das qualidades e idiossincrasias de um povo dotado de uma rica história de realizações, mas também de frustrações. Os desafios parecem semelhantes; serão também as soluções? Descubra um México diferente num livro em que o Brasil está presente.

Paulo Estivallet de Mesquita: A Organização Mundial do Comércio (Brasília: Funag, 2013, 105 p.)
            Parece difícil resumir em menos de 100 pequenas páginas a teoria do comércio internacional, a evolução prática do próprio, o estabelecimento do sistema multilateral de comércio, desde o Gatt e seus caminhos tortuosos, até chegar na OMC e todos os seus acordos e funcionamento. Uma proeza realizada por este engenheiro agrônomo que se fez diplomata, e que aplica o rigor da sua ciência de origem à análise dos problemas das relações econômicas internacionais, com ênfase no comércio e nos seus conflitos. O sistema parece uma bicicleta: é preciso avançar, pois qualquer parada pode significar retrocesso, não estabilidade. A interrupção da Rodada Doha, o recuo no protecionismo em alguns grandes países (alguns até próximos) são desafios graves, mas os acordos de livre comércio não são a resposta ideal. Só faltou a bibliografia para uma obra perfeita.

Lauro Escorel: Introdução ao Pensamento Político de Maquiavel (3a. ed.; Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, FGV, 2014, 344 p.)
            Escrito em 1956, publicado pela primeira vez em 1958, novamente em 1979, este clássico da maquiavelística brasileira é agora apresentado por um acadêmico e complementado por uma conferência de 1980 do autor, que se tornou “maquiavélico” ao servir na capital italiana em meados dos anos 1950. Para Escorel, “as observações de Maquiavel sobre a política externa dos Estados continuam a apresentar... uma extraordinária atualidade”. O florentino foi o primeiro grande teórico da política do poder.  Mas no plano interno também, Escorel segue Maquiavel em que a política é um “regime de precário equilíbrio entre as forças do bem e as forças do mal, em que estas muitas vezes superam aquelas...”. Os dois colocam o “problema cruciante das relações da política com a moral”, que está no centro da obra do italiano.

Paulo Roberto de Almeida: Nunca Antes na Diplomacia...: a política externa brasileira em tempos não convencionais (Curitiba: Appris, 2014, 289 p.)
            Tudo o que você sempre quis saber sobre a diplomacia companheira e nunca teve a quem perguntar? Agora talvez já tenha, sobre quase tudo. Em todo caso, figura aqui uma avaliação do que representaram, para a política externa, os anos do lulo-petismo, com a independência de um acadêmico que também integra a diplomacia. Existem episódios que ainda vão requerer pesquisa em arquivos para saber como foram exatamente decididos, e provavelmente lacunas subsistirão, tendo em vista justamente as características especiais de uma diplomacia que não partiu essencialmente de sua casa de origem, mas andou combinada a outros estímulos, não arquivados. Parece que ela foi ativa, altiva e soberana, como nunca antes tinha acontecido. Outros traços emergirão num futuro balanço, ainda sem data. A História a absolverá? A ver...

Rogério de Souza Farias: A palavra do Brasil no sistema multilateral de comércio (1946-1994) (Brasília: Funag, 2013, 885 p.)
Uma coletânea, de alta qualidade, dos mais importantes pronunciamentos feitos por representantes brasileiros desde as negociações que precederam a constituição do Gatt (1946-47), passando pela Unctad (1964), até a criação da OMC (1994). O livro representa um repositório de grande relevância para todos os pesquisadores da história econômica brasileira, uma vez que compila documentos originais e outros materiais de referência (fotos, resumos biográficos dos negociadores brasileiros, etc.), mas constitui, igualmente, um instrumento de trabalho para os negociadores diplomáticos de nossos tempos. O livro vem acompanhado por informações e fotos dos representantes e de notas de rodapé explicativas de cada contexto negociador. O denso prefácio e a longa introdução merecem leitura atenta; os temas abordados em cada capítulo constituem matéria prima indispensável para conhecer a história econômica e diplomática brasileira no plano do comércio internacional. Parece que pouco mudou...

Eugênio Vargas Garcia: Conselho de Segurança das Nações Unidas (Brasília: FUNAG, 2013, 133 p.)

Carlos Márcio B. Cozendey: Instituições de Bretton Woods (Brasília: FUNAG, 2013, 181 p.)
            Cada linha da obra está impregnada de um triplo conhecimento: histórico, teórico e prático, sobre as origens, o desenvolvimento, nas décadas seguintes, e sobre o funcionamento atual dos dois irmãos de Bretton Woods, o Banco e o Fundo, que foram criados em 1944 na pequena cidade do New Hampshire para presidir à ordem econômica do pós-guerra. O autor é o secretário de Assuntos Internacionais da Fazenda, e como tal segue, no G20 e em outras instâncias, as negociações para a reforma do sistema monetário, que já passou por fases melhores do que a atual. Depois das paridades cambiais estáveis, o regime de flutuação não ajuda a manter a estabilidade mundial, mas o maior perigo advém dos desequilíbrios fiscais nacionais, um tema que todavia foge do escopo deste livro.

Harvey J. Kaye: The Fight for the Four Freedoms: What Made FDR and the Greatest Generation Truly Great (New York: Simon & Schuster, 2014, 292 p.).

O livro foi feito a partir dos papeis deixados por Franklin Delano Roosevelt em seus arquivos de Hyde Park: o eixo central é dado pelas quatro liberdades que Roosevelt proclamou no State of the Union de janeiro de 1941, logo após conquistar o seu terceiro mandato, antes, portanto, que os Estados Unidos fossem atacados e entrassem na guerra. Roosevelt, que já vinha procurando superar as resistências isolacionistas do Congresso, para converter os EUA no “Arsenal da Democracia”, insistiu na tecla de que seria ilusório tentar esconder-se atrás de muralhas defensivas. Os quatro grandes conceitos, em torno dos quais os americanos deveria estar unidos, não apenas para si mesmos, mas para todo o mundo, foram os seguintes: liberdade de expressão, de religião, da penúria e do medo. Esses princípios seriam inscritos na Carta do Atlântico, que Roosevelt assinou com Winston Churchill, em agosto de 1941, nas costas do Canadá, e foram consagrados no ano seguinte na Carta das Nações Unidas, uma espécie de “New Deal for the world”, que seria a base da Carta da ONU, assinada em San Francisco, em 1944.

Neill Lochery: Brazil: The Fortunes of War, World War II and the Making of Modern Brazil (New York: Basic Books, 2014, 314 p.)
O autor é um historiador britânico, professor de Mediterranean and Middle Eastern Studies do College University of London, e seu livro está dedicado ao envolvimento do Brasil na guerra, o que é feito de maneira minuciosa e competente. A introdução da obra já começa destacando o famoso documento-guia que Oswaldo Aranha preparou para as conversas de Vargas com Roosevelt, no encontro que ambos tiveram no Rio Grande do Norte, em janeiro de 1943, uma lista de objetivos de guerra que o Brasil declarava aos EUA, mas que também podem ser vistos como uma espécie de planejamento estratégico feito pelo grande chanceler para assegurar uma posição de realce para o Brasil na ordem internacional que estaria sendo desenhada pouco mais à frente para assegurar a paz e reconstruir o mundo. Oswaldo Aranha acreditava, pragmaticamente, que a política tradicional do Brasil, de apoiar os Estados Unidos no mundo, em troca do seu apoio na América do Sul, deveria ser mantida “até a vitória das armas americanas na guerra e até a vitória e a consolidação dos ideais americanos na paz.” Os Estados Unidos iriam liderar o mundo quando a paz fosse restaurada e seria um grave erro se o Brasil não estivesse do seu lado. Ambas nações eram “cósmicas e universais”, com características continentais e globais. Ele tinha plena consciência de que o Brasil era uma “nação economicamente e militarmente fraca”, mas o seu crescimento natural, ou as migrações do pós-guerra, lhe dariam o capital e a população que o fariam tornar-se, “inevitavelmente um dos grandes poderes políticos do mundo”. Pena que Oswaldo Aranha não se tornou presidente do Brasil.

Henry Kissinger: World Order (New York: Penguin Press, 2014, 433 p.)
Trata-se, provavelmente, do último livro, de tipo conceitual, de um dos mais destacados intelectuais americanos (de origem germânica), acadêmico de longa carreira, que também se destacou em atividades executivas, primeiro como conselheiro de segurança nacional, depois como Secretário de Estado, ator de primeiro plano das relações exteriores dos Estados Unidos e das próprias relações internacionais, consultor de quase todos os presidentes americanos desde os anos 1950 e de alguns governos estrangeiros também. Frustrante para os leitores de nossa região, o livro não devota nem mesmo um capítulo, sequer uma mísera seção, à América Latina ou ao Brasil, nas dez grandes unidades da obra, todas elas dedicadas aos grandes atores ou aos problemas percebidos como relevantes para o estabelecimento ou a preservação de uma ordem que de fato não existe. Após uma introdução de tratamento conceitual da questão título, ele dedica dois capítulos à ordem europeia surgida com a paz de Westfália e o sistema de balanço de poder daí resultante, um ao mundo islâmico e às desordens do Oriente Próximo, outro voltado exclusivamente para as relações entre os Estados Unidos e o Irã, dois outros sobre a Ásia (sua multiplicidade e a emergência de uma ordem “asiática”), dois capítulos inteiros sobre a diplomacia dos Estados Unidos (a ideia de uma ordem internacional na tradição wilsoniana e o seu papel atual como “superpotência ambivalente”) e, finalmente, dois capítulos finais voltados para questões tecnológicas e de informação e de proliferação, e sobre a evolução provável de uma ordem mundial ainda largamente indefinida. Para ser mais preciso, a América Latina não aparece sequer no índice remissivo do livro, embora nele exista a entrada western hemisphere. O Brasil só é mencionado duas vezes, ambas en passant e de maneira irrelevante: a primeira para falar sobre o impacto mundial das revoluções europeias de 1848, a segunda na companhia da Índia (que recebe tratamento mais amplo nos capítulos asiáticos da obra) como exemplo de nações emergentes. Fora isso, um grande livro.

Francis Fukuyama: The Origins of Political Order: From Prehuman Times to the French Revolution (New York: Farrar, Straus and Giroux, 2011, 620 p.) e Political Order and Political Decay: From the Industrial Revolution to the Globalization of Democracy (New York: Farrar, Straus and Giroux, 2014, 660 p.)
            Dois volumes que resumem o pensamento de um dos mais influentes cientistas políticos dos EUA, que retoma o trabalho seminal que tinha sido conduzido por um de seus mestres, o finado autor do “conflito de civilizações” (não um de seus melhores livros), Samuel Huntington, em seu clássico Political Order in Changing Societies (New Haven: Yale University Press, 1968), que tinha sido traduzido no Brasil por Heitor Ferreira Lima, um dos assessores do “guru” do regime militar no Brasil, Golbery do Couto e Silva em seus esforços de distensão e de transição política para uma ordem pós-autoritária durante a presidência Geisel. Os dois livros valem por um tratado de política, mas que praticamente confirmam um tese pré-concebida: o “fim da história”, se existir, se parece muito com o modelo político americano, que é a culminação das possibilidades democráticas nas sociedades liberais e avançadas de mercado. Mas o próprio Fukuyama reconhece que a democracia americana está sendo gradualmente conduzida a impasses institucionais pela rigidez do sistema bipartidário polarizado atualmente existente.

Hartford, 2782: 16 dezembro 2014
Divulgado, com reprodução das capas dos livros, no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2014/12/recomendacoes-de-leituras-para-curiosos.html).

Um ano atrás, eu não media palavras em relação à capacidade dos homens públicos de honrar nossas instituições.
Paulo Roberto de Almeida

terça-feira, 15 de março de 2016

A crise institucional brasileira e a mediocridade dos homens publicos - Paulo Roberto de Almeida


O deserto: a derrocada institucional do Brasil

Paulo Roberto de Almeida
[escrito improvisadamente numa postagem de Facebook]

Em todas as crises brasileiras anteriores, todas elas, econômicas ou políticas, por indução externa ou institucionais (podem colocar desde 1930 até 1999, mas não vou detalhar agora), a despeito da mediocridade dos arranjos feitos, da conciliação entre os dirigentes (mesmo nas grandes rupturas), o Brasil pode contar com alguns nomes, poucos homens, que atuaram para apontar o caminho, aplainar as diferenças entre os atores políticos, líderes militares, alguns estadistas, outros menos do que isso, mas em todo caso, personagens da política que souberam operar uma transição razoável, mesmo quando se tratou de coonestar, legalizar, legitimar rupturas e golpes militares (que sempre foram "legalizados" por atos institucionais).
Agora, na crise terminal do lulopetismo, que é, ao mesmo tempo do regime petralha e do Estado Mafioso Cleptocrático Lulopetista, não se pode dizer que tenhamos, não digo estadistas, mas simples personagens políticos que poderiam encaminhar alguma solução institucional.
Não há nada, nem ninguém, só terra arrasada.
Os que ocupam o centro do Poder Executivo atualmente, ou que estão em volta dele (e são de fato os mandantes, como o chefão mafioso) fazem parte de uma ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA.
Os que estão no Congresso fazem parte de um esquema comprado pelo Executivo, mas que também se dedicam a chantagear o Executivo (apenas porque este é o dono do cofre), e o Legislativo foi comprado, prostituído, castrado e colocado a serviço dos bandidos do poder, sendo que os seus dois chefes são eles mesmos bandidos de alto coturno que já deveriam estar na cadeia.
As cortes superiores, finalmente, foram lotadas e aparelhadas pelos bandidos do partido totalitário com seus meninos amestrados, alguns magistrados medíocres, outros que nem magistrados eram, apenas advogados do partido totalitário, e outros juízes que receberam favores diretamente ou por meio de familiares, e também aqueles que atuam por ideologia, os idiotas que acreditam no programa do partido neobolchevique e nos propósitos "sociais" e distributivistas do mafiosos travestidos de políticos.
As cortes superiores são justamente o último recurso da nação contra a ilegalidade e o crime. Quando a Corte Suprema aprova medidas INCONSTITUCIONAIS, como a questão do rito do impeachment, estamos em face, portanto, de juízes IDIOTAS, ou aliados objetivos da causa totalitária.
E isso é preocupante.
Não existe nenhuma solução à vista, a não ser o afundamento do Titanic governamental.
Eu apenas espero que afunde com TODOS os personagens medíocres dos TRÊS PODERES.
Como sempre, assino embaixo do que escrevo.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 15/03/2016

Paulo Roberto de Almeida 
Brasília, 15 de março de 2016

sábado, 6 de maio de 2017

Globalizacao micro e antiglobalizacao macro: minha palestra na UDF

Não exatamente um artigo, apenas notas para uma palestra feita em Brasília, na última quarta-feira, como registrado e transcrito abaixo: 

“A globalização micro e a antiglobalização macro: contentes e descontentes com um processo indomável”, Brasília, 1 maio 2017, 3 p. Notas para palestra na Semana de Relações Internacionais da UDF, sobre o tema das “Relações Econômicas Internacionais e Negócios Internacionais: perspectivas e reflexões sobre uma nova configuração mundial”, no dia 3 de maio de 2017, entre 19h30 e 21h00 no Auditório do Ed. Sede do UDF; a convite do coordenador do curso de graduação em Relações Internacionais, Professor Carlos Nogueira. 
Paulo Roberto de Almeida 


A globalização micro e a antiglobalização macro:
contentes e descontentes com um processo indomável

Paulo Roberto de Almeida
 [Notas para palestra na Semana de Relações Internacionais da UDF, sobre o tema das “Relações Econômicas Internacionais e Negócios Internacionais: perspectivas e reflexões sobre uma nova configuração mundial”, no dia 3 de maio de 2017, entre 19h30 e 21h00 no Auditório do Ed. Sede do UDF; a convite do Prof. Carlos Nogueira.]

Não pretendo fazer uma exposição ex-cathedra. Vou apenas enunciar algumas notas, talvez provocadoras, mas que expressam meu posicionamento contrarianista a muito do que vai pela academia brasileira sobre os temas da globalização e seus efeitos sobre os países e sociedades, e talvez até muito do que vai pelos governos nacionais em diferentes partes do mundo, inclusive, e muito provavelmente, o que vai pelo próprio governo brasileiro sobre os temas desta semana. Não sou exatamente um antagonista, mas sou um contrarianista, ou seja, exercendo um ceticismo sadio sobre tudo.

1) Os cães ladram, mas a globalização passa...
Inanidade das críticas, por parte de sociólogos e outros antiglobalizadores, contra esse processo impessoal, incontrolado e incontrolável. Os fatos falam por si...

2) A globalização que conta é a globalização micro, não detectável pelos governos.
Ela se passa ao nível das empresas e dos indivíduos, milhares de pessoas, de pequenas, grandes e médias empresas, que agem de forma absolutamente autônoma, independente, imprevisível.

3) A globalização macro é tentativamente controlada por governos estúpidos.
Políticos, tecnocratas nacionais e de organismos governamentais tentam exercer um direito normativo sobre a globalização, atrapalhando seu caminho imprevisível.

4) Globalização assimétrica? Sim, como o mundo, o comércio, as relações sociais.
Por assimetria, os críticos ou descontentes com a globalização, querem dizer que o processo é desigual, desequilibrado, distribuindo benefícios e prejuízos de forma não controlada, causando perdas setoriais, temporárias.

5) A globalização é perversa? Absolutamente não: ela não tem nenhum foco moral.
Nada, absolutamente nada do que é feito pela e na globalização visa prejudicar grupos ou sociedades nacionais. Tudo sempre foi concebido, feito, implementado para beneficiar trabalhadores, sempre visando substituir trabalho manual, ou penoso, pela automatização, mecanização, redução de tarefas e atividades exercidas diretamente por trabalhadores, ou executivos. Continuará assim, a despeito dos latidos dos descontentes.

6) Vivemos uma desglobalização? Provavelmente não; apenas mais alguns latidos...
Alguns consideram que a fase atual, pós-Grande Recessão, seria a de certo refluxo na globalização, com a emergência ou reforço de tendências nacionalistas e protecionistas. É um fato que vários novos líderes políticos, demagogos e oportunistas, insistem na introversão como resposta a desafios colocados pela globalização, enquanto outros recorrem ao populismo econômico para compensar efeitos setoriais adversos.

7) Os governos nacionais vão perder soberania? Ótimo, eis uma excelente notícia.
Westfália representou um pequeno progresso para a humanidade: o mútuo reconhecimento recíproco de governos exercendo uma jurisdição legítima sobre um determinado território, desde que pacificado e respeitando regras mínimas de convivência internacional. Viena (1815) avançou um pouco mais na normalização das relações entre Estados soberanos, codificando o envio de representantes pessoais dos chefes de Estado ou governo para a solução pacífica das controvérsias. Versalhes (1919) avançou um pouco mais, tentando construir uma estrutura multilateral para regular essas relações, criando algumas barreiras ao surgimento de conflitos, mas infelizmente falhou. São Francisco (1945) introduziu novos constrangimentos, mas como Versalhes deixou um sistema oligárquico dividindo o mundo entre “iguais” e “mais iguais”, o que não é uma garantia de resolução de conflitos, sobretudo porque não há um entendimento consensual em torno de valores e princípios que possam unir as grandes soberanias, que deveriam ser os da democracia e dos direitos humanos, o que implica, igualmente, as mais amplas liberdades econômicas, o único regime social compatível com a globalização. Este processo, no entanto, é o que destrói progressivamente as soberanias nacionais. Isso é uma ótima coisa, pois são os governos, como já dito, que tentam barrar a globalização, e são alguns governos aqueles que perpetram violações aos direitos humanos e deformam a qualidade da democracia.

8) A reciprocidade, nas relações econômicas internacionais, é boa coisa? Depende.
Países em desenvolvimento já defenderam, com vigor, como ainda defendem, a não reciprocidade, desde que seja para diferenciar países desenvolvidos e países em desenvolvimento, o que é uma grande ilusão. Outros defendem a reciprocidade nos acordos comerciais internacionais, o que pode ser uma outra grande ilusão. Cabe examinar o assunto com base em dados verificáveis, não em suposições teóricas.

9) O protecionismo é um mal. A liberalização unilateral é o melhor caminho.
Todo economista sensato seria, ou deveria ser, contra o protecionismo e a favor do livre comércio. Políticos sensatos dizem concordar, mas na prática a teoria é outra. Mas mesmo economistas sensatos consideram que se deve “negociar” a abertura econômica e exigir compensações para a liberalização comercial, o que demonstra apenas incompreensão quanto aos efeitos do livre comércio sobre os povos. A proteção é sempre feita contra os seus próprios nacionais, em prejuízo dos consumidores e dos produtores nacionais, convertidos em avestruzes condenados à extinção.

10) Como o Brasil se situa nos processos de globalização e de liberalização?
Mal, muito mal. O Brasil é um país que se descolou do mundo, e que insiste em continuar descolado. Pequenos períodos de abertura sempre foram combatidos por novos movimentos em favor do retraimento, da introversão, da defesa e da proteção. O Brasil é um país totalmente preparado para não aproveitar nada, ou quase nada, dos grandes fluxos e intercâmbios que integram a economia global, pois dela está destacado desde muitos anos, apenas recebendo efeitos secundários e limitados, sempre trazidos por indivíduos e empresas, não pelos governos ou establishment político, ou até pelos acadêmicos (que conseguiram colocar na Constituição de 1988 a proibição de se contratar professores estrangeiros para as universidades brasileiras, o que é de uma estupidez monumental).

Voilà, creio que já temos material suficiente para discussão...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 1 de maio de 2017.

Minha "ficha" no Instituto Millenium





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