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domingo, 16 de dezembro de 2018

Leituras leves de um domingo pre-natalino - Paulo Roberto de Almeida

Leituras leves de um domingo pré-natalino

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: notas de leituras; finalidade: prazer intelectual]
  
Domingo pede cachimbo, diz o velho ditado. Eu, que já abandonei o cachimbo há muito tempo, até antes do casamento, que já dura quarenta anos – neste domingo 16 de dezembro, justamente –, prefiro fazer outras coisas, quando não estamos com os netos. Domingos, como quaisquer outros dias da semana, do mês, do ano, das décadas, são dedicados às leituras, à reflexão, à escrita. Passei o sábado na companhia áspera de livros de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, para redigir dois textos que estou devendo há pelo menos três meses, digamos assim. Mas, isso virá, a seu tempo. Como eu digo sempre: o texto está pronto, só me resta escrevê-lo, o que não é o mais difícil. Com efeito, eu costumo ler muito antes de qualquer trabalho, fazer a minha acumulação primitiva, e algum estoque moderno de leituras, pensar um pouco, eventualmente redigir um esquema, e depois, plim!, o texto acaba saindo quase pronto, ainda que naquele estilo prolixo, rebarbativo, que horrorizaria escritores como Graciliano Ramos ou Hemingway, que diziam que escrever é a arte de cortar palavras.
Pois bem, neste domingo de casamento, ainda não escrevi nada de particularmente inteligente, apenas me dediquei aos afazeres domésticos, a comprar vinhos para o fim de ano, e acabei caindo, ou eles caíram sobre mim, em alguns livros daqueles esquecidos, que guardamos um dia para ler, e esse dia nunca chega. Pois bem, chegou hoje, e se lê daqui, percorre de lá, abre ao acaso, folheia um, folheia outro, e, de repente, plim!, se cai numa frase memorável, que nos faz sorrir, e aí dá vontade de compartir com os outros aquilo que de mais agradável se encontrou nessas leituras dominicais, com a peculiaridade, agora, de que se trata de um domingo pré-natalino, com árvore já montada – graças aos cuidados de Carmen Lícia –, presépio instalado – idem –, presentes para os netos já escondidos – ibidem –, tutto a posto– só falta a roupa de Papai Noel e uma barriga apropriada –, e aí finalmente sentamos no computador para transcrever os trechos mais saborosos.
Ei-los aqui, se me permitem a mesóclise, se isto é uma mesóclise.


Primeiro um romance de Jean-Christophe Rufin, de quem, muitos anos atrás resenhei uma obra contestadora da ordem internacional – pois ele foi da organização humanitária Médecins Sans Frontières–, um libelo contra o que se poderia chamar de “negligência malévola”, cujo título era L’Empire et les Nouveaux Barbares(1991; existe edição brasileira). Mas agora é um romance que Carmen Lícia e eu compramos alguns anos atrás em Paris, e que depois ficou na estante, chamado L’Abyssin(Gallimard Folio, 1997, mas o livro é de 1977, prix Goncourt e prix Méditerranée). Carmen Lícia já me tinha dado de presente um outro romance do mesmo autor, chamado Rouge Brésil, que ganhou o prêmio Goncourt (2001), falando sobre os índios do Brasil e seus déboirescom os portugueses, que eu nunca terminei de ler. Prometo fazê-lo num desses domingos com poucos afazeres.
Mas, este romance, histórico, mas baseado num personagem real – o subtítulo é: Relation des extraordinaires voyages de Jean-Baptiste Poncet, ambassadeur du Négus auprès de Sa Majesté Louis XIV–, trata realmente de negociações diplomáticas, e é por isso que eu transcrevo um simples trecho, extraído do capítulo 1 da parte III: “La Lettre de Créance”, ou seja, uma carta de acreditação, como carregam os diplomatas, quando se apresentam a um soberano estrangeiro (neste caso, o da Abissínia, tristemente célebre, bem mais tarde do que o século XVII, pela derrota imposta em Sadowa, em 1895, aos invasores italianos, e depois ao massacre brutal imposto por Mussolini ao único país africano independente e membro da Liga das Nações, que não fez nada, como de hábito). Bem, chega de conversa, vamos à primeira citação:


La diplomatie est un art qui requiert une si constante dignité, tant de majesté dans le maintien, tant de calme, qu’elle est fort peu compatible avec la précipitation, l’effort, bref, avec le travail. M. de Maillet [o personagem principal deste romance, com o já referido Poncet, cônsul francês muito maltratado pelo bey do Cairo, sob dominação otomana], en diplomate avisé, ne remplissait jamais sib bien son rôle que dans ces moments où, n’ayant positivement rien à faire, il pouvait s’y consacrer tout entier. Ce rien, il parvenait alors à l’élever à la dignité d’une grâce d’État, nimbée comme il se doit de secret et parfumée de mépris à l’endroit de tous ceux qui auraient eu l’audace de lui demander des comptes sur l’emploi de son temps. Depuis le départ de la mission en Abyssine et après les fâcheux désagréments que lui avaient causé les intrigues ecclésiastiques, le consul avait enfin repris le cours ordinaire du service de l’État : il lisait les gazettes, qui lui parvenaient avec du retard, tenait un compte précis des avancements et mutations dans la carrière et cherchait à définir la direction dans laquelle il pourrait orienter sa légitime ambition. Enfin, il rendait, selon un ordre prévu de longue date, des visites à un nombre considérable de personnages turcs et arabes à qui il n’avait rien à dire, dont il ne consentait à rien entendre et auprès desquels la conversation atteignait souvent la finesse, le ciselé des bas-reliefs orientaux chargés de mille chantournements, qui attirent l’œil et le charment sans lui laisser cependant distinguer aucune forme particulière, aucun signe, rien. (p. 317-18)

É evidente que Jean-Christophe Rufin, que conviveu bastante com diplomatas franceses, e estrangeiros, modernos, contemporâneos, usa aqui de un recurso literário, as aventuras de um diplomata do Ancien Régime, para dizer que, em todos os tempos, os diplomatas não servem para grandes coisas, que tudo o que lhes ocupa é remoção, promoção, postos agradáveis, se possível sem nada para fazer, e pedindo que, sobretudo, não lhe cheguem instruções para nada, qualquer coisa que lhes perturbe a calma, o savoir-vivre, a non-chalance, a imperturbável placidez dos postos sem problemas, onde se pode ler os jornais tranquilamente, jogar bridge, tomar um cognaccom os amigos, fumar um havana, e fazer plaisanteriessem consequências. Esse Rufin é, decididamente um gozador, e merece os seus Goncourt, porque ele sabe fazer com toda a graça de um espírito cultivé,un homme d’expérience, un grand voyageur.
Enfim, passemos ao segundo livro.

Quando eu morei sete anos na Europa, num autoexílio forçado pelos anos de chumbo em nosso querido país, eu costumava ler o Le Monde todos os dias, senão os que eu comprava, pelo menos os que eu encontrava na biblioteca, ou lia furtivamente no quiosque da universidade de Bruxelas. Pois bem, antes de ler qualquer artigo sério de política internacional – André Fontaine, por exemplo –, eu primeiro dava uma olhada no cartoon do Plantu e depois no box com as pequenas frases de Robert Escarpit, o homem da palavra, o espírito galhofeiro do dia, o gozador impecável, num Francês elegante, algumas vezes erudito, mas sempre com aquela tournure d’espritque me deixava pasmo de admiração. Pois bem, caiu-me também nas mãos, neste domingo dominical, um Livre de Poche de 1973, chamado Les contes de la saint-glinglin(Paris: Magnard).

Hilariante, a maior parte dos contos, inclusive porque ele explica (ou inventa) a origem de famosas frases em Francês – la belle Lurette, la poudre d’Escampette–, algumas até passadas para o Português, e aproveitadas por Monteiro Lobato, por exemplo. Vocês sabiam que o famoso “pó de Pirlimpimpim”, usado para viagens no tempo e no espaço pela Emília e seus colegas do sítio do Pica-pau amarelo, é na verdade, uma artimanha do Père Limpinpin? Pois é! Mas não é disso que eu quero falar. É justamente no conto 8 desse livro, chamado “La poudre du Père Limpinpin”, que eu encontro uma frases memoráveis, não mais contra os diplomatas, mas contra os militares, nossos irmãos de paz e de guerra, nossa corporação-espelho, feita do mesmo patriotismo entranhado, dos mesmos valores e princípios – a ordem, a disciplina, a hierarquia, a marcha unida, a obediência cega, o respeito aos superiores –, enfim, essas coisas que só os servidores do Estado podem exibir orgulhosamente. E o que diz Robert Escarpit desses militares sempre tão rigorosos? Isto (é também uma história do século XVII): 

À cette époque, les Suisses avaient pour coutume de gagner leur vie, et souvent de la perdre, en s’engageant comme mercenaires au service de princes étrangers. L’usage a presque disparu maintenant, et c’est dommage, car les Suisses étaient des beaux soldats qui portaient joliment leur uniforme. Le pape est le dernier client qui leur reste, mais il a rarement l’occasion de faire la guerre. (…)
La vie militaire en temps de paix, cela peut être agréable quand on sait s’y prendre. Mais vienne la guerre, cela peut devenir très dangereux surtout quand elle est longue. (…) Autrefois, on savait faire durer les guerres. On économisait les soldats pour en avoir jusqu’au bout. On faisait des guerres de sept, de trente ou de cent ans, selon les cas. (…)
Or, un beau jour, la guerre était presque terminée et les généraux auraient même immédiatement arrêté le combat s’ils avaient pu se mettre d’accord sur le gagnant. (pp. 104-5, 106-8, 109)



Bem, chega de guerras e de diplomatas, ou pas tout à fait. O terceiro livro que me caiu nas mãos, também em Francês, foi Montaigne: Que Sais-Je?, de Jean-Yves Pouilloux, para a coleção Découvertes Gallimard, pequenos-grandes livros de bolso, mas ricamente ilustrados, da qual temos vários, Carmen Lícia mais do que eu. 
O Montaigne que eu conheço é obviamente o dos Essais, dos quais eu tenho os três livros, de bolso (o primeiro da Gallimard-Folio, com prefácio de André Gide; o terceiro da Gallimard-Classique, com prefácio de Maurice Merleau-Ponty, ambos com edição anotada por Pierre Michel; e o segundo livro que me desapareceu na minha biblioteca escandalosamente desarrumada), e uma seleção anotada dos três livros, que eu vi há poucos dias no emaranhado de outros livros, em cujas estantes eu me perdi, não achando nem um, nem outro, como tampouco agora. O outro Montaigne que eu li, pouco tempo atrás, foi o de Stefan Zweig, terminado em Petrópolis pouco tempo antes de seu suicidar, já na angustia que ele também sentiu – como Montaigne durante as guerras de religião na França – ao contemplar o seu mundo europeu completamente destruído pela loucura genocida daquele austríaco psicopata que se julgava alemão. 

Tive o prazer, há poucos meses de assumir a direção do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (IPRI), do Itamaraty, de promover um evento, a propósito do 75o. aniversário da morte de Stefan Zweig, com a participação do ex-chanceler Celso Lafer, como introdutor de uma edição multilínguas – feita pela Casa Stefan Zweig de Petrópolis, dirigida por Kristina Michahelles, e pela Memória Brasil, de Israel Beloch, o tradutor – da conferência feita por Stefan Zweig no Rio de Janeiro, em 1936, na primeira vez em que ele esteve em nosso país, chamada “A Unidade Espiritual do Mundo”, um tema que lhe era muito caro, para quem já tinha feito biografias de Erasmo – lutando contra Lutero – e de Castelio – lutando contra Calvino – e que se angustiava com a dominação da Europa pelos novos bárbaros do totalitarismo. O anúncio desse evento foi feito antecipadamente por mim numa postagem do blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2017/02/stefan-zweig-o-escritor-que-sonhava-de.html), sendo que dois anos antes eu já transcrevia uma matéria do ex-repórter do New York Times no Rio de Janeiro, Larry Rohter (famoso pela sua matéria anterior sobre as bebedeiras de certo presidente brasileiro), sobre a nova mania em torno de Stefan Zweig (vejam aqui: http://www.nytimes.com/2014/05/29/books/stefan-zweig-austrian-novelist-rises-again.html), e também uma outra matéria sobre uma nova biografia do escritor austríaco por Benjamin Moser, antes do filme Adeus Europa(aqui: https://diplomatizzando.blogspot.com/2014/06/stefan-zweig-por-benjamin-moser.html). O relato sobre o evento Stefan Zweig, com a presença de Celso Lafer, e reproduzindo algumas ilustrações, eu coloquei na plataforma Academia.edu em 12/03/2017 (link: http://www.academia.edu/31826161/Stefan_Zweig_e_o_Brasil).
Pois bem, o Montaignede Jean-Yves Pouilloux é primoroso, pelo recorte magnífico que ele faz dos Essais, com trechos destacados e entremeados de ilustrações as mais significativas, mas também pela seleção final de “témoignages et documents” (pp. 129-169), sendo que a última homenagem é justamente retirada do livro de Stefan Zweig sobre Montaigne, em palavras que poderiam ser aplicadas ao próprio escritor austríaco, ou a qualquer homem de consciência, lutando contra os demônios do fanatismo, da intolerância, da prepotência, do furor destruidor, o que ainda encontramos em nossos tempos, infelizmente, mesmo se sob formas mais amenas. Certas formas de fundamentalismo, religioso ou político, pertencem à mesma família dos dogmas, dos verdadeiros crentes, dos ideólogos animados pelas suas verdades exclusivas (e muitas vezes excludentes), que ainda podem ser encontradas por aí, vagando ao sabor das mudanças políticas e dos fervores transformistas. 
Os trechos que Pouilloux selecionou de Zweig sobre Montaigne merecem que os transcrevemos, inclusive porque eu não fiz notas dessa leitura de um livro derradeiro do grande Stefan Zweig, como tampouco fiz do Erasmo, de Castelio, ou do Fernão de Magalhães, essas figuras trágicas das quais Zweig amava retraçar a vida e os pensamentos. Mas fiz, por exemplo, do execrável Fouché, cujas notas eu transcrevi em meu blog: “Zweig sobre Fouché: biografia primorosa de uma figura execrável”, Brasília, 4 junho 2018, 11 p. Leitura e notas do livro de Zweig, Stefan (1881-1942): Joseph Fouché: retrato de um homem político; tradução de Kristina Michahelles; Rio de Janeiro: Record, 1999, 304 p; título original: Joseph Fouché: Bildnis eines politischen Menschen (1929). 

Divulgado no blog Diplomatizzando (5/06/2018; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2018/06/fouche-por-stefan-zweig-resenha-artigo.html). 

Vamos, finalmente, ao Montaigne, de Stefan Zweig: 
Seul celui qui, dans le bouleversement de son âme, est contraint de vivre un époque où la guerre, la violence, la tyrannie des idéologies menacent la vie même de chacun et, dans cette vie, sa substance la plus précieuse, la liberté de l’âme, put savoir combien il faut de courage, de droiture, d’énergie, pour rester fidèle à son moi le plus profond, en ce temps où la folie s’empare des masses. Il faut d’abord avoir soi-même douté et désespéré de la raison, de la dignité de l’homme, pour pouvoir louer l’acte exemplaire de celui qui reste debout dans le chaos du monde. (…) On a voulu voir en lui un homme qui se détache de tout, qui n’est lié à rien, qui doute de tout, e vit dans le vide – c’est ainsi que l’a décrit Pascal. Rien n’est plus faux : Montaigne aime démesurément la vie. (…)
Il n’est qu’une erreur et qu’un crime : vouloir enfermer la diversité du monde dans des doctrines et des systèmes. C’est erreur que de détourner d’autres hommes de leur libre jugement, de leur volonté propre, et de leur imposer quelque chose qui n’est pas en eux. Seuls agissent ainsi ceux qui ne respectent pas la liberté, et Montaigne n’a rien haï tant que la « frénesie », le délire furieux des dictateurs de l’esprit qui veulent avec arrogance et vanité imposer au monde leurs « nouveautés » comme la seule et indiscutable vérité, et pour qui le sang de centaines de milliers d’hommes n’est rien, pourvue que leur cause triomphe. 
Ainsi l’attitude de Montaigne face à la vie comme celle de tous les libres penseurs, aboutit à la tolérance. (…)
Il est important de voir cela, parce que c’est une preuve que l’homme peut toujours être libre, à n’importe quelle époque. (…) Même aux temps fanatiques, à l’époque de la chasse aux sorcières, de la « Chambre Ardente » et de l’Inquisition, les hommes humains [sic] ont toujours pu vivre ; pas un seul instant cela n’a pu troubler la clarté d’esprit et l’humanité d’un Erasme, d’un Montaigne, d’un Castellion. (…)
Celui qui pense librement pour lui-même honore toute liberté sur terre. 
(Montaigne : que Sais-Je ?,Gallimard, 1987, pp. 167-169).


Alguns desses pensamentos, curiosamente similares, me vieram outra noite à mente, a partir da leitura (no Kindle), de um livro de Eric Hoffe: True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements,uma obra publicada pela primeira vez em 1951, que tem a ver justamente com esses fanáticos que infernizaram a vida de Erasmo, de Castélio, de Montaigne, de Stefan Zweig, e que continuam a infernizar as nossas vidas, com esses chamamentos ao “pensamento correto”, à punição dos desviantes, à condenação dos dissidentes, à perseguição dos livre pensadores. 
O livro de Hoffe me remeteu à leitura de um outro livro, de 1941, de um jovem americano graduando em história, que fez sua tese de doutorado sobre os românticos alemães, mas que terminou com sua culminação em Hitler, num momento em que ele se encontrava no ápice do seu poder, já tendo conquistado a França, e se lançado à conquista da União Soviética (mas antes de Pearl Harbor, quando Hitler também declara guerra aos Estados Unidos, três dias depois, num dos maiores erros estratégicos de toda a sua patética, e destrutiva, carreira de genocida psicopata). O livro, de Peter Viereck,se chama, prestem atenção: Metapolitics: From Wagner and German Romantics to Hitler(edição original: New York: Alfred A. Knopf, 1941; edição aumentada: New Brunswick: Transaction Books, 2003; disponível na Amazon). 
O termo metapolítica foi cunhado pelos seguidores de Richard Wagner, um antissemita admirado por Hitler – tanto que suas músicas foram tocadas até depois de seu suicídio, em sua homenagem – e vem associado a uma ideologia da qual Peter Viereck identifica os elementos mais distintivos: romantismo (incorporado sobretudo no ethosWagneriano), a pseudociência racial, o endeusamento de um Fuehrer, um vago socialismo econômico, e a força alegadamente supernatural e inconsciente dessa coletividade chamada de Volk. Juntos, esses elementos engendraram uma ênfase na irracionalidade e na histeria, e a crença de uma missão especial da Alemanha para dirigir a trajetória da história mundial. Digamos que, com exceção da ideologia racial, os demais elementos podem ser sempre encontrados nas mensagens de certos fanáticos religiosos ou políticos. O que é extremamente preocupante.

Prefiro ficar com Montaigne, com Erasmo, com Zweig, com minhas leituras.
Bom domingo a todos...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 16 de dezembro de 2018

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

A era dos paradoxos, agora ou mais adiante? - Paulo Roberto de Almeida

Não sei se já vivemos, e estamos deixando de ter, paradoxos, ou se ainda vamos viver uma nova era de paradoxos.
Difícil dizer.
Em todo caso, vários meses atrás, convidado por uma faculdade para falar sobre "paradoxos" na atualidade, acabei compondo o trabalho que vai abaixo, esperando que ele nos reconforte, ou angustie, segundo o entendimento de que eles já ficaram para trás, ou se ainda teremos muitos pela frente. Você decide...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 14 de dezembro de 2018

As relações internacionais numa era de paradoxos

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: notas para palestra pública; finalidade: debate com estudiosos da área]

Introdução: o que são paradoxos, e quais seriam alguns exemplos corriqueiros?
Paradoxo, segundo os dicionários, constitui o contrário de uma opinião admitida como válida, ou contrária ao que se espera do ponto de vista do senso comum. Também pode significar ausência de nexo ou de lógica. Seus sinônimos seriam: contra senso, incoerência, contradição, divergência, ambivalência ou indecisão (Cf. “Dicionário inFormal”: https://www.dicionarioinformal.com.br/paradoxo/). 
Paradoxos não são exclusivos de nossa era de, uma vez que eles podem ser encontrados em praticamente todas as épocas, já que esse tipo de contradição é implícito às decisões dos governantes, está presente em todas as atividades políticas e é próprio de todas as ações humanas. Do ponto de vista da política externa dos países, paradoxos representam decisões políticas cujos efeitos ou consequências são contrários ao pretendido inicialmente. 
Vamos dar, imediatamente, um exemplo corriqueiro: um dirigente nacionalista, ou populista, provavelmente ignorante em economia, pretende reduzir ou eliminar um eventual saldo comercial negativo nos planos bilateral ou multilateral, e adota medidas protecionistas, com a intenção declarada de preservar emprego e renda de sua clientela eleitoral. O que ele provavelmente acaba recolhendo, ao contrário, é aumento dos preços internos, possível deslocamento de empresas nacionais para o exterior (em vista dos níveis mais elevados de salários com que teriam de trabalhar no país), e eventual desvalorização da moeda dos parceiros comerciais assim prejudicados temporariamente, o que torna suas exportações ainda mais atrativas para as mesmas empresas que se dedicam à fabricação daquele produto objeto de salvaguarda ou aumento de tarifa. 
Vocês podem estar pensando que eu estou me referindo a algum líder falaz de um poderoso país avançado, mas o próprio Brasil se encaixa numa série de paradoxos, em sua política externa, ou em várias políticas macroeconômicas e setoriais. Outro exemplo corriqueiro logo vem à mente: o órgão arrecadador de impostos está sempre prioritariamente visando um aumento constante das receitas, por todos os meios cabíveis, imprimindo maior eficiência à máquina arrecadadora, independentemente da criação de novos impostos ou aumento das alíquotas dos existentes. O paradoxo, neste caso, é que a administração das receitas pode provocar elisão ou evasão fiscal, gerar mais informalidade, fechamento de empresas na jurisdição em causa e deslocamento de atividades para paragens fiscalmente mais amenas. Um outro paradoxo, conhecido dos economistas como sendo a “curva de Laffer”, diz o seguinte: a partir de um determinado ponto da carga tributária as receitas começarão a cair, em lugar de aumentar.
Vamos, no entanto, tratar dos paradoxos em política externa, onde eles podem ser tão frequentes quanto no mundo da política e da economia. Antes dos paradoxos atuais, façamos um retrospecto do que tem sido o mundo nos últimos dois séculos.

Nos últimos duzentos anos, o mundo conheceu nações e impérios: 
1) Conflitos napoleônicos que, ao atingir os reinos ibéricos, precipitaram as independências das colônias nas Américas, já agitadas pelas ideias iluministas do século XVIII, pela independência americana e pela revolução francesa.
2) Ocorreu a segunda grande restruturação das relações internacionais, depois da primeira guerra de trinta anos e dos acordos de Westfália do século XVII, no quadro do Congresso de Viena, que no entanto nem se abriu, uma vez que as principais questões foram resolvidas em conciliábulos entre as quatro grandes potências cristãs – Reino Unido, Áustria, Prússia, Rússia – com alguma tolerância em relação à França restaurada em sua legitimidade monárquica, e aos interesses de atores secundários (como Portugal, Espanha e alguns outros).
3) Nesse ambiente ocorreram as independências latino-americanas, seguidas de avanços europeus sobre novas áreas de colonização ou de submissão imperial na África e na Ásia. Não ocorreu, no entanto, nenhuma mudança significativa dos padrões de inserção desses novos Estados na economia crescentemente global, uma vez que eles permaneceram, em sua maior parte, exportadores das mesmas commodities que já transacionavam no período colonial.
4) No cenário europeu e no de seus descendentes diretos, ocorreram revoluções democráticas, em 1830 e em 1848, por exemplo, que ampliaram franquias eleitorais e reforçaram o princípio de governos constitucionais, com alguma resiliência no caso dos regimes autocráticos – como os da Santa Aliança: Prússia, Áustria e Rússia –, ao passo que o avanço da burguesia triunfante era contrabalançado pelo sindicalismo operário e pelo surgimento de partidos socialdemocratas, já na segunda revolução industrial.
5) A partir de meados do século XIX, amplia-se a dominação europeia sobre o mundo, geralmente em direção da África e da Ásia, com reforço dos impérios coloniais e a lenta conformação de uma economia global, feita de centros avançados e periferias formal ou informalmente vinculadas aos primeiros; trata-se da consolidação do mundo norte-atlântico, que dominou o mundo entre os descobrimentos e o século XXI.
6) Esse mundo de nações e impérios herdado do século XIX seria desmantelado no meio século seguinte, que corresponde a uma “segunda Guerra de Trinta Anos”, ao longo da qual o sistema europeu de dominação universal seria destruído por obra e graça dos próprios impérios europeus, com a ajuda dos nacionalismos emergentes e a emergência da Ásia em formatos variados (primeiro o Japão, depois a China e os novos atores da economia mundial a partir da segunda metade do século XX.
7) De Sarajevo a Hiroshima estamos no próprio coração dessa “segunda Guerra de Trinta Anos”, que não é o “breve século XX” de que falou Eric Hobsbawm, nem o “longo século XX” de que falou Giovanni Arrighi: trata-se da transformação das guerras nacionais do século XIX, ainda de estilo napoleônico em guerras globais, duas, nas quais toda a capacidade técnica do industrialismo da segunda revolução industrial é colocada a serviço de uma dinâmica de guerra total, envolvendo todo o potencial dos beligerantes. Sarajevo ainda é século XIX, ou se quisermos, uma guerra feudal, como bem caracterizado por Arno Meyer em seu estudo sobre a persistência do antigo regime nos impérios centrais europeus, que foram os responsáveis pela carnificina dos quatro anos seguintes, cujo centenário de conclusão vai ser “comemorado”, se é possível dizer, no dia 11 de novembro de 2018. Mas Hiroshima já a impossibilidade prática de uma guerra total, já que ela significaria a virtual destruição da vida civilizada no planeta.
8) O que temos, no longo, ou no breve, século XX, é um duplo movimento, do lado econômico e do lado político de um dos períodos mais mortíferos da história humana. Por um lado, a interrupção da segunda onda de globalização em 1914, e sua retomada já na última década do século, com um poderoso desafio às economias de mercado e às democracias constitucionais lentamente formadas no período precedente pela via de ideologias desafiadoras da ordem global, os coletivismos econômicos e os autoritarismos políticos sob a forma de opostos aparentes, mas gêmeos de fato: os fascismos e os socialismos, que foram, segundo Raymond Aron, duas religiões seculares, num século que deveria ser o da técnica, mas também foi o das ideologias. 
9) Outubro de 1917, o putsch bolchevique, vai se encerrar em outubro de 1989, a queda do muro de Berlim, seguido pouco tempo depois pela dissolução do império soviético, segundo Vladimir Putin, a “maior catástrofe geopolítica do século XX”. Pode-se concordar totalmente com o significado dessa implosão quase sem mortos, para dizer que foi a catástrofe mais benigna que poderia ter acontecido ao cabo de um dos séculos mais devastadores que tivemos desde as invasões bárbaras no Ocidente. Mas a Rússia não deixa de ser um ator relevante na geopolítica mundial, devido justamente à posse de armas atômicas e a um sentido nacional imperial que permanece o mesmo, desde Pedro, o Grande, desde Catarina, desde os neoczaristas bolcheviques, atualmente representados pelo próprio Putin. Mas a China também emerge lentamente de seu longo sono declinista, de quase dois séculos, com alguns anos significativos marcados em 9.
10) Temos uma revolta estudantil em 1919, quando jovens modernizadores pós-arranjos de Versalhes manifestam seu descontentamento com o novo quadro imperial então constituído, que dava novas credenciais ao Japão, enquanto deixava a China reduzida a um estatuto semi-colonial. Esta é a condição que a Terceira Internacional, o Komintern reconhecia na China, quando os comunistas orientados desde Moscou, a nova Meca do comunismo mundial, tentam uma tomada frustrada do poder, apenas para serem esmagados pelas forças do Kuomintang, o partido nacionalista chinês criado em 1912, logo após a revolução republicana de 1911 que derrocou um império de mais de dois mil anos. Os estudantes voltaram a se revoltar em 1989, sob o signo da estátua da Liberdade, apenas para serem esmagados pelos novos mandarins da República comunista, criada por Mao Tsé-tung em 1949. Em 1979, após décadas de delírio maoísta, atravessando o período das “mil flores”, o “grande salto para a frente” de 1959 e a revolução cultural de meados dos anos 1970, temos o retorno de Deng Xiao-ping ao poder, o homem que completaria o retorno da China ao capitalismo, e que colocaria as bases de um novo império, agora presidido por Xi Jin-ping. 
11) A paz belicosa da Guerra Fria geopolítica, como a classificou Raymond Aron, na caracterização genial feita desde 1948 – paz impossível, guerra improvável –, é seguida agora, segundo minha própria caracterização, por uma nova Guerra Fria geoeconômica, após um breve interlúdio de unipolarismo arrogante por parte dos Estados Unidos, levado ao máximo de seu poderio imperial pela implosão da União Soviética e pelo fato da China estar ainda engatinhando na sua inserção econômica na terceira onda da globalização e em seu retorno político à diplomacia planetária. Já não mais temos impérios coloniais como até ainda os anos 1960, mas tivemos a chamada “grande divergência”, que foi a nítida divisão do mundo entre nações avançadas, o “clube dos ricos” da OCDE, e países subdesenvolvidos, depois chamados de nações em desenvolvimento, e mais recentemente de economias emergentes. Esta é a problemática do desenvolvimento, agora que estamos numa “lenta convergência” entre essas duas metades do planeta, o que nos leva ao mundo atual e futuro. 

Os paradoxos da modernidade: globalização macro e micro, soberanias resistentes
12) A despeito da evolução do sistema de relações internacionais, com a criação da ONU e de todas as suas agências especializadas, ainda temos velhas nações e novos impérios, mas também, e isso é inédito, os blocos de integração. A modernidade da qual estamos falando começa, na verdade, logo ao início da Guerra Fria, e à sua sombra. Enquanto Estados Unidos e União Soviética se acomodavam aos esquemas de divisão do mundo traçados em Ialta – a segunda grande divisão do mundo entre impérios, depois de Tordesilhas, no final do século XV –, os europeus decidiram encerrar a sua “segunda Guerra de Trinta Anos”, iniciada em 1914 e terminada em 1945, por meio de um mecanismo absolutamente inédito no plano dos arranjos determinados em Westfália, baseados na soberania absoluta dos Estados nacionais. 
13) Começou, então, o esquema comunitário da integração europeia, na verdade iniciada em 1951, pelo Tratado de Paris criando a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, e completada pelos tratados de Roma, de 1957, criando o Euratom e, sobretudo, o Mercado Comum Europeu. Não se tratava mais de um simples acordo interestatal, mas de uma explícita cessão de soberania, sob a forma de direito comunitário, isto é, um mecanismo pelo qual estados soberanos transferem uma parte de sua soberania a um ente supranacional, ou pelo menos supostamente desnacionalizado. Esse foi o preço a pagar para que a França não fosse invadida uma quarta vez pela Alemanha, economicamente mais poderosa e dotado de um militarismo prussiano altamente eficiente. Muitos outros acordos foram negociados subsequentemente, até chegarmos na atual União Europeia, que comporta igualmente uma moeda comum, o euro.
14) Países latino-americanos tentaram replicar o modelo europeu de integração, primeiro pela Associação Latino-Americana de Livre Comércio (1960), depois pelo Pacto Andino (1969), depois pela Associação Latino-Americana de Integração (1980) e, finalmente, pelo Mercosul (1991), mas nunca conseguiram ir além de meros esquemas de preferências tarifarias e liberalização comercial ao estilo mercantilista, de forma que o bloco europeu permaneceu rigorosamente solitário como o único exemplo exitoso de uma união econômica funcional, ainda que estressado por tendências centrifugas e permanência de assimetrias políticas e culturais que também refletiam condicionantes geopolíticos do teatro europeu. O Mercosul, enquanto união aduaneira incompleta, avançou de modo razoável em seus primeiros anos, mas depois sofreu retrocessos, em especial sob os regimes populistas de Lula e Kirchner, que se desviaram de seus objetivos comercialistas originais, passando a adotar uma orientação puramente política, o que limitou suas possibilidades de inserção na economia global.
15) O traço mais óbvio do sistema de relações internacionais contemporâneo é a relativa dominância da diplomacia multilateral sobre antigas formas de relacionamento bilateral ou plurilateral, o que se reflete, por exemplo, no sistema multilateral de comércio, mas que ainda assim possui seus desvios “minilateralistas”, sob a forma de acordos bilaterais ou plurilaterais de livre comércio, que derrogam explicitamente à cláusula de nação-mais-favorecida. Este é um dos paradoxos do sistema multilateral de comércio, um dos muitos que existem, e que precisam ser avaliados em sua dimensão própria. O antigo Gatt, o Acordo Geral de Tarifas Aduaneiras e Comércio, criado em 1947 e atualmente incorporado ao quadro institucional da Organização Multilateral de Comércio, é considerado como sendo um promotor do livre comércio, e como tal é objeto de críticas dos chamados antiglobalizadores, uma tribo de militantes totalmente equivocados, o que não deixa de ser um desses paradoxos: o Gatt, na verdade, assim como as instituições de Bretton Woods, não são, a despeito do que se crê, promotores dos livres mercados e do liberalismo irrestrito. Eles são, sim, o reflexo de rupturas econômicas graves na economia mundial e como tal promovem o intervencionismo, o mercantilismo e a regulação estatal, uma vez que o protecionismo, tradicional nos estados soberanos, o dirigismo crescente das burocracias contemporâneas se refletem inteiramente nas instituições do multilateralismo econômico e em outras esferas.
16) A Carta da ONU reconhece expressamente o princípio da igualdade soberana das nações – tal como defendeu Rui Barbosa na II conferência internacional da paz, em Haia, em 1907 –, mas na prática, e no direito, existe a realidade de conviverem nesse sistema quase universal os “iguais”, e os “mais iguais”, ou seja, as cinco grandes potências que são os membros permanentes do Conselho de Segurança, o decisor em última instância das questões de paz e segurança no planeta (com os problemas decorrentes de seus desacordos também permanentes). Esse é talvez o maior dos paradoxos existentes no atual sistema de segurança internacional: certas guerras civis, determinados conflitos dentro ou entre estados soberanos podem, sim, ser objetos de resoluções do CSNU e entrar em alguma missão de manutenção da paz ou até de manutenção da paz (peace keeping, ou peace making), sendo que o Brasil participou de várias missões na primeira categoria, mas de nenhuma na segunda. 
17) O outro grande paradoxo nesse campo é oferecido pelo próprio Brasil, cujas tentativas de aceder a uma cadeira permanente no CSNU são sempre classificadas como sendo com o objetivo de “democratizar o sistema internacional de defesa da paz e da segurança”, tornando-o mais representativo do mundo atual. Ora, o argumento é falho, pois tal pretensão nada mais representa do que o seu ingresso num clube restrito, apenas expandindo moderadamente o sistema oligárquico tal como ele existe desde 1945. O outro argumento defendido pelo Brasil, o de tornar o processo decisório do CSNU mais representativo da diversidade política e econômica do mundo, é também um paradoxo, pois parece que claro que um Conselho ampliado para refletir essa diversidade irá inevitavelmente redundar em sua menor eficiência e em possíveis entraves a uma decisão sempre difícil no plano dos equilíbrios geopolíticos. 
18) Seguindo no mesmo terreno, um terceiro paradoxo, sempre oferecido pelo Brasil, foi o de criar um grupo, o G-4, supostamente para reforçar essa pretensão, mas que pode ter atuado, ao contrário, no sentido de complicar ainda mais a candidatura do país, uma vez que reunindo países – Japão, Índia e Alemanha – que possuem “vetores de bloqueio” provavelmente muito mais poderosos e consistentes do que aqueles que o Brasil encontra em sua própria região. O Japão, por exemplo, encontra sérias objeções do lado da China, fruto dos terríveis crimes contra a humanidade cometidos contra o gigante asiático na primeira metade do século XX. A Índia também pode encontrar resistências por parte da mesma China, e adicionalmente do Paquistão. A Alemanha, por sua vez, enfrenta restrições por parte de seus próprios parceiros do continente europeu, o que torna particularmente difícil a aceitação de propostas do G-4. Ainda um quarto paradoxo, o governo da “diplomacia ativa e altiva” dos companheiros no poder – uma designação pelo menos pretensiosa, e provavelmente enganosa – proclamou em altos brados esse seu objetivo de fazer o Brasil aceder a essa cadeira permanente, o que não deixou de afetar a autoestima de vizinhos que se julgam tão merecedores quanto este candidato. Por fim, um quinto e último paradoxo, mas que também simboliza uma expressão da concepção primária dos amadores que comandaram a diplomacia do Brasil nesses anos, a ampliação desmesurada das representações diplomáticas do país ao redor do mundo, como se a decisão sobre a reforma da Carta da ONU e a eventual ampliação dos membros permanentes do seu Conselho de Segurança fosse ser resolvida apenas pelo número de votos obtidos na Assembleia Geral. 
19) A terceira onda da globalização deveria, supostamente, produzir uma “nova ordem mundial”, caracterizada pela ausência de oposições radicais entre modelos dicotômicos, como tinha sido o caso durante a vigência do comunismo na União Soviética e a de sua extensão mundial, seja na primeira metade do século XX, com a existência do Komintern – a terceira Internacional, a Comunista, criada por Lênin em 1918, extinta por Stalin em 1943 –, seja na segunda, a época da Guerra Fria, primeiro com o Cominform – o órgão de coordenação dos partidos comunistas criado por Stalin em 1947 – e depois com a expansão agressiva do movimento comunista em diversas regiões do planeta, bem como o próprio fortalecimento militar da alternativa comunista às democracias de mercado. Tudo isso acabou entre 1989 e 1991, com a débâcle e depois a implosão final do comunismo – que no entanto sobrevive em dois pequenos países miseráveis nas antípodas –, mas a “nova ordem mundial”, feita de cooperação, de convergência dos modelos políticos e econômicos, de ampla abertura aos intercâmbios e relações de todos os tipos entre povos, nações, estados, movimentos sociais e pessoas. Não é isso, infelizmente, o que tivemos na sucessão de uma curta fase de acomodações tentativas entre os Estados nacionais, ainda separados pela história, pela cultura, pelas tradições políticas e que, finalmente, voltaram a se afirmar em seus exclusivismos nacionais, em seu mosaico de expressões políticas, em seus níveis desiguais, por vezes opostos, de desenvolvimento econômico, enfim, em vários casos de restrições estatais às liberdades (amplamente assimétricas) concedidas aos indivíduos. Este é mais um paradoxo da contemporaneidade: o fim da “cortina de ferro”, a queda do muro de Berlim, a supressão de várias “prisões dos povos”, não significou a disseminação de sistemas abertos como se esperava. Em alguns casos, a implantação de sistemas formalmente democráticos deu lugar a experimentos recorrentes na história política da humanidade, como o bonapartismo, o cesarismo, o democratismo plebiscitário, quando não as autocracias, que não são tiranias abertas apenas porque espaços para esses tipos de experimentos diminuíram, não por falta de vontade de certos dirigentes.
20) Um outro paradoxo, ainda mais preocupante, é o fato de, a despeito de toda a disseminação do conhecimento, da elevação dos padrões educacionais um pouco em todas as partes, do amplo acesso à informação, praticamente instantânea e global nos dias que correm, os eleitores continuam a se render à demagogia política e ao populismo econômico, deixando se seduzir por propagandistas superficiais que se instalam no poder pela via democrática e contribuem na sequência a deteriorar a qualidade dos sistemas democráticos ou a de suas políticas econômicas. Por vezes, esses retrocessos se devem a fatores circunstanciais, como crises econômicas, ou afluxo excessivo de levas de imigrantes, refugiados econômicos de países pobres ou vítimas de conflitos graves em seus locais de origem. O populismo é uma deformação da democracia de qualidade, e um desvio quanto ao suposto itinerário de elevação constante dos padrões de governança política, ao, inevitavelmente, produzir respostas simplistas, geralmente equivocadas, aos problemas sociais e culturais existentes. Ele começa pela divisão do país entre povo e elite, pela deformação das políticas no sentido de estimular uma sensação fugaz de melhorias sociais, e termina invariavelmente por uma crise fiscal e por eventual recessão econômica, quando não deriva para regimes autoritários, e mesmo celerados, como foi o caso, não raramente, na história da América Latina.
21) Finalmente, o grande paradoxo das relações internacionais contemporâneas constitui, em minha visão, o caráter duplo da globalização, um processo irrefreável em sua essência, mas eventualmente contido, limitado, desviado de seu curso natural pela ação de governos e de organismos internacionais. Costumo distinguir, a esse propósito, entre uma globalização microeconômica e uma outra, que podemos chamar, talvez, de macroeconômica, mas que não é exatamente uma globalização e sim, no fundo, uma antiglobalização. A primeira é aquela feita pelos inovadores individuais, pelos pequenos e grandes “gênios” das novas tecnologias, das soluções práticas aos problemas da vida corrente, ou aqueles inventores de coisas com as quais sequer sonhávamos antes, e que introduzem, individualmente pela internet, ou por meio dos mercados com o suporte de empresas – grandes, médias, pequenas, físicas ou virtuais – novos produtos e novos serviços, ou transformam velhos produtos e serviços com a ajuda dos processos por eles inventados, modificados, remodelados e em seguida disseminados nas redes sociais, nas lojas online, nas simples comunicações entre indivíduos, dando até uma aparência de free lunch ao que, na verdade, traz todo um marketing acoplado a esses novos intrusos em nossa vida cotidiana. Essa globalização, de origem e natureza essencialmente microeconômica, pois que feita por indivíduos e empresas, é praticamente irrefreável, pois ultrapassará todas as barreiras que governos autocráticos insistem em erigir para defender seus sistemas fechados e antidemocráticos. Ela é a verdadeira essência da globalização, e a ela devemos toda a modernidade que consumimos avidamente todos os dias. 
22) A outra globalização, a que eu chamei de macroeconômica, constitui na verdade uma contrafação da globalização, e se expressa nos foros multilaterais, nas grandes conferências internacionais, nos exercícios de regulação nessas organizações interestatais, nas negociações bilaterais ou plurilaterais, que pretendem, alegadamente, “normatizar”, estabelecer padrões uniformes, disciplinar o uso, coibir práticas tidas como nocivas ou deletérias à saúde, à segurança, à paz social das nações, quando no mais das vezes representam os esforços de burocratas nacionais e internacionais para enquadrar e controlar a primeira globalização, que é espontânea e que pode, na verdade, ser usada para fins diametralmente opostos. Pensemos, por exemplo, no caso das moedas virtuais, que fogem ao monopólio emissionista dos governos, ao controle das autoridades monetárias e das respectivas administrações fiscais, mas que também podem servir para a lavagem de dinheiro e para a prática de crimes ainda mais graves. Essa “globalização”, feita de acordos, protocolos e outros atos internacionais, ou ainda, de medidas nacionais – leis, decretos, portarias regulatórias, estatutos, etc. – tenta enquadrar processos espontâneos de inovação tecnológica, ou até comportamental, uma vez que essa é a missão dos governos nacionais, mesmos os mais democráticos: eles querem sempre tutelar a vida dos indivíduos, dizer o que eles podem e, sobretudo, o que eles não podem, fazer, uma vez que as burocracias nacionais (ou as internacionais) adquirem vida própria e se exercem em seu próprio mundo circular. O que faria um burocrata senão emitir normais, guias, regulamentos, para controlar os súditos?

Uma conclusão pouco conclusiva: a eterna disputa entre duas lógicas
23) Termino pelo paradoxo maior em nossas vidas, que não é contemporâneo, nem sequer traduzível numa expressão única da vida em sociedade, uma vez que ele é da própria essência da vida em sociedade. Existe uma contradição básica, irredutível, um paradoxo insuperável entre a vida econômica e a atividade política, e essa divisão radica na própria natureza desses processos sociais. Vou estender-me, para finalizar, sobre uma e outra.
24) A vida econômica será tanto mais dinâmica, viva, criadora de prosperidade, de bem estar, talvez de felicidade humana, quanto mais livre ela for, quanto mais estiver desimpedida pelos entraves regulatórios que são criados pelos governos para corrigir supostas “falhas de mercado”. Ora, para mim não existem “falhas de mercado”, pois eles são uma impossibilidade prática. Os mercados não entes dotados de vontade própria, que se movem como se obedecendo a ordens superiores, ou comandos unificados. Mercados, na verdade, não são espaços físicos, e sim interações momentâneas entre indivíduos e organizações, uma relação que se estabelece entre um ofertante e um demandante, entre um vendedor e um comprador, que decidem livremente concluir uma transação entre si. Sendo a expressão da vontade soberana de indivíduos conscientes e companhias organizadas, de milhões desses agentes atuando livremente – ou assim deveria ser em mercados dignos desse nome –, tais interações não podem ter falhas, ou deformações que sejam derivados de outra coisa que não a soma dessas interações fugazes, ou até estáveis, entre indivíduos e empresas. Numa sociedade democrática, nenhum indivíduo ou qualquer companhia podem ser levados a contrair uma relação que não expresse suas vontades soberanas. Numa economia aberta, os mercados farão exatamente o que a vontade individual ou coletiva desses agentes de mercado desejará fazer, como que guiados por uma “mão invisível”, na feliz expressão de Adam Smith. Por isso, uma sociedade será tanto mais próspera quanto mais livre forem os mercados, o que significa que eles serão necessariamente atomizados, dispersos, virtuais ou físicos, temporários ou estáveis segundo a vontade das pessoas. Esta é a lógica da vida econômica, ou pelo menos assim deveria ser nas sociedades abertas, não necessariamente libertárias, mas pelo menos liberais.
Outra é a lógica da política, que é sempre, segundo as lições weberianas, a expressão de um sistema de dominação. Para que uma sociedade não se consuma no arbítrio dos mais fortes, que se transformam em tiranos, num esquema hobbesiano do Leviatã todo poderoso, os arranjos sociais levam a um contrato coletivo pelo qual se estabelece uma entidade, o Estado, que passa a deter o monopólio da força, para, a partir daí administrar a segurança e a justiça em favor do súditos ou cidadãos. O problema está, justamente, em que essa lógica leva à concentração do poder, o contrário do que se deveria esperar de um sistema econômico pujante, dinâmica, baseado precisamente na livre disposição dos indivíduos, transformados em agentes econômicos, sobre o seu patrimônio, sobre os seus bens, sobre a sua capacidade produtiva (e acumulativa). O poder político geralmente não tolera essa dispersão de fontes de poder que está implícito à lógica econômica, e pretende tudo concentrar em poucas mãos, se preciso for pelo meio da força, da coação, da violência. Nas sociedades democráticas conhecidas, um sistema contratual (constitucional), dispondo sobre pesos e contrapesos, os famosos checks and balances, organizado pelos princípios de harmonia e equilíbrio entre os poderes do Estado, permite que não se chegue aos extremos do arbítrio e da violência. 
O grande problema, para a vida em sociedade, é quando essas duas lógicas se misturam de forma indevida entre ambas, por uma promiscuidade indesejável entre o poder econômico e o poder político, quando agentes poderosos da vida econômica conseguem transformar o seu papel econômico de produtores e ofertantes de bens e serviços num regime de concorrência aberta em um regime de monopólios ou de concessões exclusivas, garantidas por um poder político que, por sua vez, extrai recursos criados no terreno econômico para aumentar seus ganhos também exclusivos e monopólicos. A colusão entre o poder econômico e o poder político, a promiscuidade entre capitalistas e líderes políticos está na origem da corrupção e da perversão dos sistemas democráticos, e deve ser combatida institucionalmente pelos próprios agentes do Estado encarregados de assegurar a resiliência de uma sociedade aberta, ou se necessário pelos cidadãos conscientes em defesa de seus próprios interesses individuais.
Como se diz habitualmente, o preço da liberdade é a eterna vigilância. Se queremos viver em sociedades livres, prósperas, abertas aos talentos individuais, em bases meritocrática e de responsabilização dos agentes públicos devemos estar sempre atentos a que esse tipo de colusão indesejável não se estabeleça e não se perpetue. Por isso mesmo, devemos imprimir, até mesmo ao Estado, a mesma lógica que prevalece na vida econômica: a liberdade dos mercados, a atomização das ofertas, a livre disposição dos seus bens, a defesa da propriedade contra a intrusão dos donos do poder, o controle permanente sobre a regulação excessiva, a responsabilização dos agentes públicos num sistema aberto e transparente. Dessa forma evitaremos o supremo paradoxo que possa haver em nossas vidas: a total liberdade de que possam dispor os agentes políticos para disciplinar, enquadrar e tosquiar os agentes econômicos que somos todos nós. 
Lembremos sempre: o Estado não cria um grama de riqueza, não produz nenhum tipo de renda que não seja aquela que extrai dos produtores primários, que são todos os indivíduos da sociedade. Não deixemos a lógica da concentração de poder que é inerente ao Estado asfixie a lógica da dispersão de poder que é próprio da vida econômica. A liberdade começa por uma sociedade economicamente livre, cuja primeira missão é justamente a de evitar a colusão entre a dominação política e a atividade econômica. 

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 18 de maio de 2018

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

1968-2018: 50 anos do AI-5: como impactou o Itamaraty - Paulo Roberto de Almeida

Dez anos atrás, aos 40 anos do Ato Institucional, fui convidado a escrever um capítulo sobre o AI-5 e seu impacto no Itamaraty. Ao princípio recusei-me, pois não sou da geração impactada por esse Ato da ditadura militar, e na verdade eu estava na oposição ao regime, e por isso passei sete anos num exílio voluntário, a partir de 1970, para ingressar no Itamaraty em 1977, ainda na oposição ao regime militar. Eu não tinha a memória daqueles anos, inclusive porque era muito jovem e não havia ainda ingressado num curso universitário, o que faria no mesmo ano do AI-5. Aliás, eu resolvi deixar o Brasil, logo em seguida, por que o AI-5 do regime militar cassou metade dos meus professores do curso de Ciências Sociais da USP.
Acabei fazendo esse texto porque NENHUM dos diplomatas seniores, da época, que eu contatei, se ofereceu para faze-lo. Fiz uma pesquisa bibliográfica e documental, além de falar com vários dos diplomatas contemporâneos daqueles anos de chumbo.
O resultado está aqui:


O texto completo encontra-se disponível, em princípio, na plataforma Academia.edu:

https://www.academia.edu/5794095/066_Do_alinhamento_recalcitrante_à_colaboração_relutante_o_Itamaraty_em_tempos_de_AI-5_2008_

Se não estiver disponível, podem me pedir, pelo número do trabalho: 1847.

Aqui o sumário e os agradecimentos devidos aos diplomatas que colaboraram com sua redação:

Do alinhamento recalcitrante à colaboração relutante:
o Itamaraty em tempos de AI-5


Paulo Roberto de Almeida 
In: Oswaldo Munteal Filho, Adriano de Freixo e Jacqueline Ventapane Freitas (orgs.),
'Tempo Negro, temperatura sufocante': Estado e Sociedade no Brasil do AI-5
(Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, Contraponto, 2008; 396 p.;
ISBN 978-85-7866-002-4; p. 65-89). 

Sumário:
1. Introdução: uma Casa conservadora, dotada de pensamento avançado
2. Pré-história: o Itamaraty nos tempos da Guerra Fria
3. Política Externa Independente: uma vocação recorrente
4. O realinhamento de 1964 a 1967: um interregno incômodo
5. Revolução na revolução: o Itamaraty na tormenta
6. Segurança e desenvolvimento: colaboração, ainda que relutante
7. Pós-história: os efeitos de longo prazo 
Referências bibliográficas


[As opiniões expressas neste ensaio são de exclusiva responsabilidade do autor, não representando posições ou políticas das entidades às quais o autor se encontra vinculado. Agradecimentos especiais são devidos aos diplomatas Amaury Banhos Porto de Oliveira, Claudio Sotero Caio, Flavio Marega,Geraldo Egidio da Costa Holanda Cavalcanti, Gonçalo de Barros Carvalho e Mello Mourão, Guilherme Luiz Leite Ribeiro, Marcelo Raffaelli, Márcio Dias, Rubens Ricupero, Sebastião do Rego Barros e Sérgio Bath, pelos seus comentários, correções e sugestões a uma primeira versão deste texto, sem que eles obviamente respondam pelos argumentos desenvolvidos neste ensaio.]


1. Introdução: uma Casa conservadora, dotada de pensamento avançado
As desventuras do Itamaraty e de seus diplomatas com o instrumento por excelência da ditadura militar, o AI-5, representam apenas um curto capítulo – talvez não o mais importante – na trajetória moderna desse órgão de Estado, de uma longa história de confrontos de idéias e de acomodações pragmáticas entre os partidários de diferentes correntes de opinião que perpassam e dividem a agência diplomática, como de resto sempre foi o caso com diversas outras instituições do Estado e com a própria sociedade brasileira. A luta de idéias sempre esteve presente em várias épocas de debate nacional: escravistas e abolicionistas, metalistas e papelistas, industrializantes e agraristas, liberais e protecionistas, estruturalistas e monetaristas, interdependentes (conhecidos também como “associados” ou “entreguistas”) e nacionalistas e outras combinações ocasionais. Embates dicotômicos não foram raros na moderna história brasileira, colocando pessoas e grupos que defendiam posições antagônicas na agenda política em confronto direto, redistribuindo cartas nos jogos de poder que inevitavelmente acompanham esses enfrentamentos e provocando cisões na elite – e apenas na elite – como resultado desses confrontos, de resto mais ruidosos do que verdadeiramente ruinosos, mais ideológicos do que materiais, num país bem mais propenso à conciliação do que à ruptura, na interpretação de historiadores como José Honório Rodrigues.
Com o AI-5 foi talvez diferente, na medida em que se tratou não de um debate no seio da sociedade, mas de uma imposição vinda do alto, de uma cisão no próprio grupo de poder, que provocou profunda rejeição na elite ilustrada que sempre esteve envolvida com a política exterior do Estado, como é o caso do Itamaraty e da comunidade de política externa. Havia, obviamente, uma divisão subjacente na política externa e no corpo funcional do Itamaraty entre, de um lado, os partidários (dentro e fora do Itamaraty) da orientação alinhada e anticomunista da política internacional do Brasil e, de outro lado, os propugnadores de uma nova postura, não alinhada, independente e progressista, para as relações exteriores do país. Os fatos mais relevantes, em termos de seleção de “alvos esquerdistas” no Itamaraty, precederam, na verdade, a “edição” do AI-5, que não trouxe, a rigor, consequências de maior relevo para o ministério ou para seu corpo funcional. As consequências mais importantes, talvez, foram as que incidiram sobre a própria política externa, mas ainda aqui o profissionalismo do Itamaraty atuou para reduzir ao mínimo os “ruídos” e interferências sobre a diplomacia profissional. No âmbito geográfico específico do imediato entorno regional, poder-se-ia talvez falar, nesses anos, de uma “diplomacia militar”, em certo sentido mais importante do que a sua versão tradicional, mais bem comportada, pelo menos no que se refere à colaboração informal com as demais ditaduras militares.

(...)

Ler a íntegra nos links acima...

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Celso Amorim: o mentiroso contumaz continua mentindo - Paulo Roberto de Almeida

Celso Amorim: o mentiroso contumaz continua mentindo

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: comentários a artigo; finalidade: restabelecer a informação correta] 

No sábado 8 de dezembro de 2018, a Folha de S. Paulo publicou um artigo do ex-chanceler dos dois primeiros mandatos do regime (sim, do regime) lulopetista, o responsável pela diplomacia Sul-Sul, que ele chamava de "ativa e altiva", no qual ele continua praticando o que ele mais fez durante os seus oito anos de mandato, e um pouco mais em função de sua anterior gestão no governo Itamar Franco. Permito-me primeiro transcrever por inteiro o seu artigo, para depois comentar cada uma das partes que me parecem mentiras deslavadas, deformações infames da realidade, consoante, aliás, com sua constante atitude em face de fatos históricos: mentir, mentir, mentir.

Um não à subserviência
8 de dezembro de 2018 

Ao longo dos últimos 30 anos após a queda da ditadura – excetuados os dois ou três últimos –, o Brasil se foi firmando como uma potência independente, com papel aglutinador na América Latina e no mundo em desenvolvimento, em particular em relação à África e com peso nas relações internacionais, inclusive junto às grandes potências.
Com a democratização, a estabilização financeira e a eleição de um líder oriundo das camadas mais pobres da população, profundamente engajado com a diminuição da desigualdade social, foram sendo sucessivamente criadas as condições objetivas e subjetivas para o exercício de um papel próprio e afirmativo do nosso país no cenário internacional.
Como ministro de Itamar Franco e embaixador de Fernando Henrique Cardoso, vivenciei alguns dos processos que prepararam o grande salto dado no governo do presidente Lula. No curto período Itamar, institucionalizamos o Mercosul e não permitimos que fosse "engolido" pelo projeto de dominação da Alca.
Como embaixador na ONU no governo FHC, atuei, sem que Brasília objetasse, em favor de uma solução pacífica para a questão do Iraque, buscando introduzir certo grau de racionalidade no sistema de inspeção de armamentos e procurando pôr termo ao regime de sanções que penalizava o povo (e não o governo) iraquiano.
Como embaixador em Genebra e com o apoio do então ministro da Saúde, José Serra, negociei, em nome do Brasil, a Declaração de Doha sobre propriedade intelectual e saúde pública, até hoje um marco de referência na busca de soluções adequadas e acessíveis para enfermidades como a aids, a malária e a tuberculose.
Não há espaço aqui para recapitular as posições e iniciativas tomadas pelo Brasil durante o governo Lula e que levaram o Brasil ao centro do tabuleiro das grandes negociações internacionais. Na Alca, paramos uma negociação injusta, que nos privaria da capacidade de desenvolver políticas sociais e econômicas necessárias ao nosso desenvolvimento.
Na OMC, o Brasil, junto com a Índia, se tornou um ator incontornável na defesa dos interesses dos países em desenvolvimento. Não obtivemos o que queríamos na Rodada de Doha, em virtude da obstinação dos países ricos em manter injustos e nocivos subsídios à agricultura, mas impedimos um acordo que teria tornado ainda mais desequilibradas as regras do comércio internacional.
Na área da paz e segurança, fomos um dos pouquíssimos países de fora da região a serem convidados para a Conferência de Annapolis, nos EUA, que, por algum tempo, pareceu dar uma chance real à paz no Oriente Médio. Juntamente com a Turquia, concluímos com o Irã uma negociação sobre seu programa nuclear, que abriu caminho para o acordo que Obama assinaria alguns anos mais tarde (com mais cinco países) com Teerã.
Tudo isso – em diferentes governos e em distintos graus – só foi possível em razão do respeito que só uma atitude de altivez e independência propicia. Excetuados certos espasmos de curta duração, foi somente no início do governo militar, entre 1964 e 1966, que o Brasil se deixou conduzir pelo alinhamento acrítico com os EUA.
Foi a época das "fronteiras ideológicas", refutadas de forma explícita no período Geisel/Silveira. É essa política subserviente, que em nada aproveita ao país, que se pretende reeditar agora, justamente no momento em que Washington se isola do mundo, adota atitudes protecionistas no plano econômico e abandona os instrumentos multilaterais que os próprios EUA ajudaram a criar ao final da Segunda Guerra.
Alinhamento automático com Washington (ou com quem quer que seja) nunca foi boa política. Com Trump, além de um desastre político, será uma tragédia econômica e moral.
Celso Amorim
Ex-ministro das Relações Exteriores (2003-2010, governo Lula) e da Defesa (2011-2015, governo Dilma)

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Comento agora o que me parecem ser as mentiras do ex-chanceler, condizentes com sua personalidade doentia, capaz das piores falcatruas em detrimento da verdade.

Ao longo dos últimos 30 anos após a queda da ditadura – excetuados os dois ou três últimos –, o Brasil se foi firmando como uma potência independente, com papel aglutinador na América Latina e no mundo em desenvolvimento, em particular em relação à África e com peso nas relações internacionais, inclusive junto às grandes potências.
PRA: Se a exceção foram “os dois ou três últimos”, isto quer dizer que o ministro da Defesa de Dilma Rousseff, ele mesmo, exclui a sua ex-chefe de uma postura “independente”, o que quer dizer que ele também a acusa de subserviente. Talvez seja verdade, mas acredito que Madame Pasadena diria que Amorim está mentindo...

Com a democratização, a estabilização financeira e a eleição de um líder oriundo das camadas mais pobres da população, profundamente engajado com a diminuição da desigualdade social, foram sendo sucessivamente criadas as condições objetivas e subjetivas para o exercício de um papel próprio e afirmativo do nosso país no cenário internacional.
PRA: Democratização e estabilização financeira foram conquistas do “ancien régime” tucanês, que o ex-chanceler não cessou de agredir e de deformar as posturas, em políticas internas e sobretudo na política externa, que antes ele implicitamente disse que tinha sido defensor da independência nacional. O PT sempre lutou contra as medidas econômicas do PSDB, votou contra a Constituição, e nunca foi especialmente favorável ao regime democrático, uma vez que pertencente à mesma linha de partidos totalitários responsáveis pela morte de milhões de pessoas ao redor do mundo, e que ainda hoje respondem pela opressão de vários povos, entre eles o cubano. Quando Lula foi eleito para a presidência ele era tudo, menos representante das “camadas mais pobres da população”, já que começou a roubar desde que se elegeu, de forma oportunista, líder sindical, quando começou a trair a classe trabalhadora, em conluios com os patrões (que ele mentirosamente atacava nas portas das fábricas). Segundo um conhecedor de sua antiga carreira, Tuma Jr., foi um informante do DOPS, contra outros líderes sindicais e os comunistas em particular. Esse líder, supostamente “profundamente engajado com a diminuição da desigualdade social”, criou as condições objetivas e subjetivas para a produção da pior crise social e a maior recessão econômica de toda a história do Brasil, os piores índices de desemprego e de desmantelamento institucional do Brasil, corrompendo e roubando todo o Brasil e os brasileiros.

Como ministro de Itamar Franco e embaixador de Fernando Henrique Cardoso, vivenciei alguns dos processos que prepararam o grande salto dado no governo do presidente Lula. No curto período Itamar, institucionalizamos o Mercosul e não permitimos que fosse "engolido" pelo projeto de dominação da Alca.
PRA: Mentira duas vezes: a “institucionalização” do Mercosul estava prevista desde o início do bloco, inscrita no próprio tratado fundador, que previa exatamente uma conferência diplomática ao final do processo de transição (1991-94), justamente com essa finalidade. Ou seja, a menos que Amorim pretendesse impedir a conferência, ele não teve NENHUMA iniciativa nessa passagem da fase de transição para a moldura que o bloco deveria ter ao cabo de sua primeira fase. Outra mentira explícita e mesmo vergonhosa é essa de não permitir que o Mercosul “fosse ‘engolido’ pelo projeto de dominação da Alca.” O Mercosul era, ainda é, uma união aduaneira, ou seja, uma etapa superior à simples zonas de livre comércio, e como tal negociava conjuntamente um acordo de livre comércio hemisférico. Mesmo que o projeto da Alca fosse realizado, o Mercosul não seria “engolido” por ela, uma vez que o bloco simplesmente teria assinado, conjuntamente, um acordo de livre comércio, apenas isso. Se o ex-chanceler quer que lhe seja explicado o diferencial entre os dois esquemas eu posso explicar.

Como embaixador na ONU no governo FHC, atuei, sem que Brasília objetasse, em favor de uma solução pacífica para a questão do Iraque, buscando introduzir certo grau de racionalidade no sistema de inspeção de armamentos e procurando pôr termo ao regime de sanções que penalizava o povo (e não o governo) iraquiano.
PRA: Ou seja, o chanceler não fez mais do que cumprir suas obrigações como representante na ONU, de acordo com a postura tradicional do Brasil, de alinhamento impecável com o multilateralismo e o respeito total do direito internacional. Se ele pretende dizer que só ele, não o Itamaraty, defendiam tal posição, é mais uma mentira. 

Como embaixador em Genebra e com o apoio do então ministro da Saúde, José Serra, negociei, em nome do Brasil, a Declaração de Doha sobre propriedade intelectual e saúde pública, até hoje um marco de referência na busca de soluções adequadas e acessíveis para enfermidades como a aids, a malária e a tuberculose.
PRA: Mais um pouco de demagogia pessoal, para posturas e posições que eram objeto de instruções do governo brasileiro, não uma iniciativa individual. Um diplomata precisa, minimamente, estar de acordo com o seu governo. Ele quer a glória por isso?

Não há espaço aqui para recapitular as posições e iniciativas tomadas pelo Brasil durante o governo Lula e que levaram o Brasil ao centro do tabuleiro das grandes negociações internacionais. Na Alca, paramos uma negociação injusta, que nos privaria da capacidade de desenvolver políticas sociais e econômicas necessárias ao nosso desenvolvimento.
PRA: Mentira duas vezes, novamente. Negociação, por definição, defesa de interesses nacionais, para qualquer uma das partes. Injusta seria se uma das partes fosse capaz de impor posições unilaterais, o que nunca ocorreu: o Brasil sempre defendeu posições de acordo com certo consenso nacional, reduzindo, muito antes que Amorim assumisse responsabilidade pelas negociações, o escopo das posições dos EUA. Não foi, portanto, injusta, pois tanto EUA quanto Brasil, e os demais países, defendiam suas posturas nacionais. Essa afirmação de que a Alca privaria o Brasil de desenvolver suas políticas necessárias ao desenvolvimento nacional é uma alegação mentirosa dos petistas, aliás pré-fabricada e servindo de legitimação para o que sempre pretenderam fazer: implodir o processo negociador em função de uma postura totalmente ideológica, sem qualquer fundamento técnico, pois jamais conseguiriam provar que uma zona de livre comércio impediria o Brasil de estabelecer e implementar políticas nacionais de desenvolvimento. Acreditar que um acordo de livre comércio poderia ter tal impacto sobre políticas mais gerais de desenvolvimento seria acreditar que um “rabo” comercial possa abanar o “cachorro” do desenvolvimento, o que é absurdo. Só mesmo um petista para acreditar em tamanha bobagem.

Na OMC, o Brasil, junto com a Índia, se tornou um ator incontornável na defesa dos interesses dos países em desenvolvimento. Não obtivemos o que queríamos na Rodada de Doha, em virtude da obstinação dos países ricos em manter injustos e nocivos subsídios à agricultura, mas impedimos um acordo que teria tornado ainda mais desequilibradas as regras do comércio internacional.
PRA: Mentira, mais uma vez. O tal G20 comercial, criado no início do processo negociador da Rodada Doha, na conferência ministerial de Cancun (novembro de 2003), integrava dois notórios protecionistas e subvencionistas agrícolas, a Índia e a China, que estava na ponta oposta dos exportadores não subvencionistas de produtos agrícolas. Ora, todos sabem que os principais mercados para os produtos agrícolas brasileiros estão bem mais nos mercados emergentes do que nos mercados avançados dos países ricos, que são, sim, protecionistas e subvencionistas, mas não mais, nem piores, do  que os dois gigantes do mundo em desenvolvimento, que SEMPRE se opuseram às posturas do Brasil e de outros membros do G20. Ou seja, o ex-chanceler demonstra aqui ser tão esquizofrênico quanto o próprio G20 comercial, contraditório nos seus próprios termos. Quem torna ainda mais desequilibradas as regras do comércio internacional são, justamente, os dois gigantes “aliados”, que sempre sabotaram não só um acordo agrícola, como também uma liberalização mais ampla na área comercial e de serviços. 

Na área da paz e segurança, fomos um dos pouquíssimos países de fora da região a serem convidados para a Conferência de Annapolis, nos EUA, que, por algum tempo, pareceu dar uma chance real à paz no Oriente Médio. Juntamente com a Turquia, concluímos com o Irã uma negociação sobre seu programa nuclear, que abriu caminho para o acordo que Obama assinaria alguns anos mais tarde (com mais cinco países) com Teerã.
PRA: A conferência de Annapolis foi um exercício inócuo, como têm sido todos os demais exercícios em torno de uma solução ao problema Israel-Palestina, e o fato de o Brasil ter sido convidado foi para dar uma tintura de abertura e legitimidade a esse novo exercício, fracassado desde o início. A “declaração” sobre o programa nuclear do Irã, com a Turquia, foi uma das maiores fabulações da dupla Amorim-Lula, pois jamais cumpriu qualquer um dos requisitos estabelecidos durante dez anos pelo P5+1 para uma solução aceitável à nuclearização do país persa, deixando-o inteiramente livre das inspeções intrusivas que o grupo pedia desde o início, e compromissos firmes de cessação da proliferação. Essa “declaração” inócua JAMAIS abriu o caminho para o acordo negociado na sequência pelo P5+1, pois era uma simples declaração, não um acordo, en bonne et due forme, não tinha garantias, e deixava o Irã inteiramente livre para prosseguir com o seu programa. Quando Amorim afirma que ele fez o que os EUA, e Obama em especial, estavam pedindo, ele mente deslavadamente, e sabe disso. Mas quer continuar enganando os incautos. 

Tudo isso – em diferentes governos e em distintos graus – só foi possível em razão do respeito que só uma atitude de altivez e independência propicia. Excetuados certos espasmos de curta duração, foi somente no início do governo militar, entre 1964 e 1966, que o Brasil se deixou conduzir pelo alinhamento acrítico com os EUA.
PRA: Duas mentiras, outra vez. A “altivez e independência” dos governos lulopetistas não combinam com a subserviência ante os comunistas cubanos e os demais bolivarianos. O indecente Celso Amorim bloqueou qualquer análise pela OEA dos crimes cometidos pelos seus mestres cubanos contra simples “balseros” pretendendo fugir da ilha-prisão, assim como se apressou, com seu cúmplice da Justiça, o infame Tarso Genro, em “expelir” – contra tratados internacionais de refúgio e asilo político dos quais o Brasil é signatário – dois pugilistas cubanos que também tentavam fugir da horrível ditadura castrista, autorizando, em tempo recorde, a vinda de um avião a jato, particular, enviado pelo ditador Hugo Chávez, da Venezuela, para “exportar” os dois infelizes esportistas de volta para a ilha-prisão: isso é um crime humanitário. No caso da nacionalização dos hidrocarburos bolivianos, a cumplicidade e a traição à pátria da dupla Amorim-Lula ficou mais uma vez patente, pois permitiram que o governo de Evo Morales rasgasse um tratado bilateral com o Brasil e um acordo com a Petrobras, sem qualquer reclamação – ao contrário, com o assentimento – por parte do Brasil: nunca protestaram contra a INVASÃO MILITAR das instalações brasileiras na Bolívia, e não negociaram as indenizações devidas. Pior: o infame Lula impediu a Petrobras de reclamar seus direitos ao abrigo do acordo Bolívia-Holanda sobre investimentos estrangeiros, e a companhia tomou um enorme prejuízo com toda a operação. Pior: na primeira negociação bilateral pós-expropriação ilegal, o outro infame do PT, e servo dos cubanos, Marco Aurélio Garcia, defendeu as posições bolivianas, não brasileiras, num acordo ainda mais infame e vergonhoso do ponto de vista da soberania brasileira. Os três foram traidores à pátria, não só nesse episódio, como em muitos outros, a exemplo da entrada ilegal do ex-presidente Zelaya na embaixada do Brasil em Tegucigalpa, que foi aceita num acordo clandestino entre Chávez e a diplomacia lulopetista: Amorim não deixou traços escritos de sua subserviência, pois deu ordens por telefone para que o “chapeleiro maluco” de Honduras fosse aceito na embaixada, transformando nossa representação diplomática num palanque chavista, ao arrepio total de disposições constitucionais que proíbem interferência nos assuntos internos de outros países. 
Também se engana Amorim ao pretender que no início do governo militar, “o Brasil se deixou conduzir pelo alinhamento acrítico com os EUA”: nem da parte dos militares e dos diplomatas esse alinhamento ocorreu, com exceção, talvez, do episódio da República Dominicana, que foi uma decisão examinada cuidadosamente no governo brasileiro. Na mesma época, os EUA solicitavam do Brasil sua “colaboração” para sua aventura militar no Vietnã, como a feito a Colômbia no caso da guerra da Coreia, e como alguns outros países estavam fazendo no caso do Vietnã: o governo  Castelo Branco rechaçou qualquer possibilidade de envolvimento nessa triste história.

Foi a época das "fronteiras ideológicas", refutadas de forma explícita no período Geisel/Silveira. É essa política subserviente, que em nada aproveita ao país, que se pretende reeditar agora, justamente no momento em que Washington se isola do mundo, adota atitudes protecionistas no plano econômico e abandona os instrumentos multilaterais que os próprios EUA ajudaram a criar ao final da Segunda Guerra.
PRA: Amorim se antecipa aqui à política externa do futuro governo Bolsonaro, que ele classifica, ex-ante, de subserviente. Cabe esperar um pouco para constatar se tal postura se materializará. Uma coisa é correta: os EUA se isolam do mundo, ao adotar “atitudes protecionistas no plano econômico”, e ao abandonar o multilateralismo. Resta ver se a futura diplomacia do Brasil fará o mesmo. Uma coisa já somos: protecionistas, sem precisar ser subservientes aos EUA, pois praticamos isso de nosso próprio alvitre, uma postura que a equipe econômica do próximo governo pretende mudar. 

Alinhamento automático com Washington (ou com quem quer que seja) nunca foi boa política. Com Trump, além de um desastre político, será uma tragédia econômica e moral.
PRA: Poucos países no mundo praticam alinhamento automático com os EUA, e parece duvidoso que o Brasil o faça. Em todo caso, cabe esperar. Mas Amorim parece ter aqui uma de suas certezas antecipatórias, de forma bastante maniqueísta por sinal. 

Celso Amorim
Ex-ministro das Relações Exteriores (2003-2010, governo Lula) e da Defesa (2011-2015, governo Dilma)
PRA: Isso é totalmente verdade: ele carrega uma grande parte de responsabilidade pela diplomacia subserviente aos cubanos e aos bolivarianos durante esses anos todos. Sempre carregará esse fardo: o de ter colocado a diplomacia brasileira e o próprio nome do Brasil a serviço das ditaduras mais execráveis do planeta, e dos regimes mais deploráveis, ademais de ter, provavelmente, acobertado a imensa, a gigantesca roubalheira que seus chefes, especialmente o líder da quadrilha, praticaram contra o Brasil e os brasileiros durante todos esses anos. Amorim carregará para a história essa pecha: o de ter sido o mais subserviente chanceler de toda a história da diplomacia brasileira, o de mais mentiroso também. Até hoje aliás. Ele tampouco se envergonha por estar defendendo um bandido comprovado, já condenado e cumprindo pena de prisão por ter roubado vergonhosamente o povo brasileiro e, com a conivência de ditadores estrangeiros, outros povos também. O futuro chanceler disse que “mandará investigar as falcatruas” de Amorim: algumas certamente encontrará, mas não todas, pois o chanceler megananico, como apelidado pela imprensa, soube esconder muitas das patifarias praticadas durante os períodos em que foi ministro. 
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 12 de dezembro de 2018