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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Rumores sobre fascismo no Brasil são altamente exagerados - Paulo R. Almeida

Tenho acompanhado com razoável constância e amplitude não só o noticiário “normal” - se ele merece alguma credibilidade — assim como, e sobretudo, o colunismo desenfreado, isto é, os artigos de opinião, sobre as eleições no Brasil, tanto da imprensa nacional quanto da internacional.
As perspectivas parecem aterradoras: fascismo, autoritarismo, misoginia, homofobia, racismo, destruição das “conquistas sociais”, dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, dos negos, dos gays, fim das florestas tropicais e degradação completa do meio ambiente, submissão ao império, enfim, algo como a antessala do inferno, começando pela intervenção militar e o fim da democracia.
Daí o meu título irônico, baseado em Mark Twain.
Os paranóicos já estão antecipando o desastre.

Posso dizer que estou absolutamente tranquilo: nem 10% das catástrofes anunciadas vai efetivamente acontecer, embora desgastes, fricções e contradições parecem prováveis.
Por isso mesmo, tendo votado, no primeiro turno, para o candidato que me parecia o melhor preparado para colocar o Brasil numa rota correta, pretendo abster-me no segundo turno.

Mas, eu comecei o ano com uma consigna: “não reelejam ninguém “.
Acho que fui largamente recompensado pelos resultados eleitorais.
O resto são hipóteses, e pretendo esperar pela realização dos desastres anunciados.
Boas eleições a todos, minha solidariedade aos derrotados: o eleitorado está bem mais educado do que se esperava.

Paulo Roberto de Almeida
Rio de Janeiro, 18/10/2018

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Paulo Roberto de Almeida sobre Chateaubriand (julho de 2016)

Na verdade, não tive posse no IPRI, sequer apresentação aos funcionários, e não tive, portanto, discurso de posse ou qualquer outra cerimônia formal.
In lieu et place da cerimônia, que nunca ocorreu – e depois da qual já coloquei meu cargo à disposição duas ou três vezes – eu sempre registro, para mim mesmo, eventos e fatos, mesmo efêmeros, não tanto para informar terceiros, mas para gravar, para mim mesmo, minhas reflexões do momento.
Paulo Roberto de Almeida
Paris, Aéroport Charles De Gaulle, 17 de outubro de 2018


Considerações sobre o caráter efêmero das memórias, e das funções públicas 
(inspiradas em Chateaubriand)

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 27 de junho e 7 de julho; São Paulo, 21 de julho de 2016.
Divulgado anteriormente no blog Diplomatizzando (03/08/2016, link: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2016/08/nomeacao-para-ipri-in-lieu-of.html).

Andei lendo, no período recente, uma seleção de trechos das “Memórias de Além-Túmulo” de François-René Auguste de Chateaubriand, numa compilação feita por Georges Readers, antigo diretor do Lycée Franco-Brésilien de São Paulo, já autor de um livro saboroso sobre Gobineau, O Inimigo Cordial do Brasil. No Avant-Proposdessa compilação,Les Plus Belles Pages des ‘Mémoires d’Outre Tombe’ (Rio de Janeiro: Americ=Edit., 1945), Georges Readers relembra que Chateaubriand, Chevalier de France, mais tarde Visconde, havia começado a redação de suas memórias entre 1803 e 1809, mas que ele a interrompeu em 1814, quando ingressou na vida política, sob a Restauração. Ele retomou sua escrita entre 1821 e 1822, durante o lazer que lhe proporcionavam as embaixadas em Berlim e em Londres, mas outras partes foram escritas bem mais tarde, abordando as carreiras literária e política, além de suas viagens pela Europa, já mais perto do final esperado de sua vida, nos anos 1840 (p. 7). 
Chateaubriand, em um trecho de suas memórias, disse mais ou menos o que eu mesmo poderia dizer, se por acaso tivesse o seu estilo, a sua pompa, suas pretensões à glória e à imortalidade, ou se me sentisse, como ele, perto de um projetado túmulo: 
“J’écris principalement pour rendre compte de moi-même... Aujourd’hui que je regrette encore mes chimères sans les poursuivre, que parvenu au sommet de la vie je descends vers la tombe, je veux avant de mourir remonter mes belles années, expliquer mon inexplicable cœur...”
François-Auguste de Chateaubriand, Mémoires d’Outre Tombe.

En 1846, dois anos antes de sua morte, Chateaubriand submeteu suas memórias, o trabalho de toda uma vida, a uma última revisão, mas como lhe faltavam recursos, ele concedeu entregar os originais a editores para aliviar suas agruras financeiras. Como ele mesmo escreveu, ele “hipotecou sua tumba” a uma sociedade de acionistas por uma soma de 250 mil francos, e uma ‘pension viagère’ (ou seja válida até sua morte) de 20 mil francos anuais (p. 8, p. 43). De minha parte, não tive ainda necessidade, graças a meu trabalho paralelo de professor, de hipotecar qualquer escrito vivo ou póstumo, não só porque não escrevi, até o momento, minhas memórias, apenas depoimentos esparsos, mas também porque nenhuma sociedade de acionistas se disporia a comprar alguns dos meus escritos, pelo estilo pesado que é o meu, falando de coisas totalmente aborrecidas.
Chateaubriand passou boa parte do regime do Terror, sob o Diretório, refugiado em Londres, onde ele começou, em 1796, a redigir um “Ensaio sobre as revoluções”, publicado no ano seguinte sob o título de Essai historique, politique et moral sur les Révolutions anciennes et modernes, considérées dans leurs rapports avec la Révolution Française, livro que dedicou “a todos os partidos” que dividiam então a França (p. 11). 
Em 1799, Napoleão, então “primeiro cônsul” da França, retirou-o da lista dos emigrados impedidos de voltar, os banidos, e Chateaubriand retorna à França. Três anos depois, Napoleão se torna “cônsul eterno”, nomeando Chateaubriand Secretário de Embaixada em Roma, mas, um ano depois, como reação ao assassinato do Duque de Enghien, sequestrado a mando de Napoleão no exterior, Chateaubriand renuncia ao seu posto, mediante uma carta de demissão enviada diretamente ao primeiro cônsul. 
Em 1804, Napoleão se autodesigna imperador hereditário dos franceses, título ao qual ele agregou o de rei da Itália. Chateaubriand viaja novamente ao exterior, notadamente à Terra Santa, e publica livros, além de reedições de suas primeiras obras. Em seu retorno à França, em 1807, o exército de Napoleão invade Portugal e provoca a fuga da família real para o Brasil. Pouco tempo depois, Chateaubriand começa a redigir as suas memórias; eleito para a Academia Francesa em 1811, não lhe dão posse no entanto. Quando Napoleão é derrotado pela primeira vez, por uma coalizão de exércitos europeus em 1814, Chateaubriand publica De Buonaparte et des Bourbons.Luis XVIII entra triunfalmente em Paris, e nomeia Chateaubriand embaixador na Suécia, mas ele não assume o posto, devido à saída do rei de Paris, no seguimento da fuga de Napoleão da ilha de Elba, ao mesmo tempo em que o Congresso de Viena iniciava seus trabalhos. 
Depois de ser nomeado embaixador em Berlim (em 1820) e em Londres (1822), Chateaubriand é designado ministro plenipotenciário no Congresso de Verona, no qual desempenha um papel importante, quando se decide restabelecer no trono da Espanha o absolutista Fernando VII, contra a vontade dos espanhóis, revoltados em face de uma nova intervenção armada estrangeira. No final de 1822, Chateaubriand se torna ministro dos negócios estrangeiros, mas por pouco tempo, pois já em 1824 ele cai novamente em desgraça, assumindo uma posição liberal. Ele passa quatro anos escrevendo livros e publicando suas obras, antes de ser nomeado embaixador em Roma, em 1828. No ano seguinte, no entanto, descontente com o ministério Polignac, as querelas sobre o ensino e o restabelecimento da censura à imprensa na França, ele se demite de seu posto. Em 1830, defensor da legitimidade dinástica, ele se demite igualmente da Chambre des Pairs, protestando contra a revolução de 1830 e a posse de Louis-Philippe d’Orleans como novo rei. Condenado por complô contra o Estado em 1832, ele consegue a anulação da sentença e retorna à França, se instalando em Paris, voltando a escrever livros que confrontam o novo regime. Em 1836, ele vende suas memórias a uma sociedade comercial, sob promessa de que elas só seriam publicadas após sua morte. Em 1848, logo após a revolução de fevereiro e a queda de Luis Felipe, as Mémoires d’Outre Tombecomeçam a ser publicadas sob a forma de folhetim no jornal La Presse. Chateaubriand morre em 4 de julho, aos 80 anos, em Paris, unanimemente reconhecido como um dos maiores escritores da língua francesa em todos os tempos.

De minha parte, nunca tive qualquer pretensão de ser um novo Chateaubriand, certamente não pela política, e menos ainda pela literatura, a despeito de que, como ele, eu sempre me coloquei contra as tendências do momento, ao afirmar minhas opiniões e argumentos, mesmo quando eles podem provocar desconfortos ocasionais, ou até perda de posições possíveis na corporação que é a minha. Como ele, também enfrentei meus exílios, aliás dois: minha formação superior foi toda feita em francês, ainda que eu não tenha conhecido, como Chateaubriand, un séjour instructif dans un pays de langue anglaise, o que teria certamente ajudado a melhorar meu inglês, que, até hoje, permanece um tanto quanto déplorable.
Mas como Chateaubriand, eu me dediquei, ferozmente, às artes da escrita, não nos diversos gêneros literários que ele cultivou, sem exibir, em qualquer momento, sua crença romântica em algum “gênio do Cristianismo”, mas voltado unicamente aos temas da política, da economia e da sociologia. À diferença dele, entretanto, nunca pretendi vangloriar-me da beleza do meu estilo, que é terrivelmente pedante, em vez da elegância empolada das frases de Chateaubriand. Paul Hazard, da Academia Francesa, que introduziu a compilação das mais belas páginas das Memórias de Além Túmulo, não hesita em dizer que o escritor confundia, frequentemente, “verité avec beauté” (p. 32). 
Como sabem os que acompanham minha atividade de escrevinhador, passei os quase três lustros do regime dos companheiros numa situação de ostracismo absoluto, sem qualquer cargo na Secretaria de Estado, ganhando aproximadamente o que ganhava um Secretario (já que sem qualquer “ajutório”), e fazendo da Biblioteca meu escritório de preferência, de fato compulsório. Foi, digamos assim, o meu segundo exílio, mas que durou o dobro do primeiro, que tinha sido de “apenas” sete anos e meio, passado na Europa, durante a fase mais dura do regime militar. Ao contrário de Chateaubriand, no entanto, eu não preciseihipotecar a minha tumba para sobreviver. Aliás, eu nem teria memórias para vender ou hipotecar; a quase totalidade do que escrevo é gratuitamente colocada à disposição dos interessados através de meu site pralmeida.org (atualmente em fase de reconstrução) ou por meio do blog Diplomatizzando. Para compensar o prejuízo salarial derivado da falta de alguma função na SERE, eu me exerci como professor, o que aliás eu sempre fiz, com grande prazer e muita satisfação intelectual. 
Em todo caso, foram 13 anos e meio de travessia do deserto, durante os quais aproveitei para ler muito mais do que eu teria feito se inserido na máquina burocrática da diplomacia profissional durante os anos de dominação companheira sobre a política externa. Tal situação de ostracismo me poupou, aliás, do desprazer de ter de defender causas enviesadas e iniciativas míopes, ou ter de representar um governo totalmente inepto, notoriamente corrupto, literalmente podre, ao nível do patrimonialismo de tipo gangster, como infelizmente só descobrimos bem tarde. Aproveitei esse tempo de lazer totalmente involuntário para escrever vários livros e muitos artigos, assim como para reforçar o que eu chamei de meu “quilombo de resistência intelectual”, que é o blog Diplomatizzando, mesmo se muitos da Casa não gostem e achem que eu exagerei ou que ataquei demais a política externa dos companheiros, essa diplomacia partidária, medíocre, falsamente altiva e mentirosamente soberana, de fato, submissa a ditaduras. 
Num dos muitos tournantsde uma carreira diplomática razoavelmente feliz, na qual pude desempenhar funções profissionais, ou funcionais, durante muitos anos, temporariamente interrompidos por circunstâncias alheias à minha vontade, e combinar essas atividades com lides acadêmicas igualmente gratificantes, exclusivas no período recente, retomo agora o curso normal de atividades corporativas. Desde meu quilombo de resistência intelectual a desvios em algumas das políticas públicas que constituem o foco principal de meus estudos, reflexões e escritos, pude perceber, algumas semanas atrás, traços de terra na beira do oceano, vestígios de vegetação e de habitat humano ao final do deserto. Ao assumir o IPRI, espero poder oferecer à Casa algum retorno pelos bons momentos que desfrutei no serviço exterior, antes da chegada dos companheiros.
Tenho alguns, poucos, bons hábitos, e muitos outros maus, um dos quais, talvez péssimo, que é o de nunca pedir nada a ninguém, sequer audiências à administração, para cuidar, ou pedir, por exemplo, cargos ou funções, promoção, postos; nada, quase jamais. Sempre considerei que a Casa contasse com burocratas conscienciosos, que saberiam desempenhar suas avaliações de desempenho em total independência, sem interferências políticas externas e sem a influência nefasta dos chamados “pistolões” e sem o famoso “quem indica”. Durante todos esses anos, apenas tratei de fazer o meu trabalho, geralmente de maneira silenciosa, embora por vezes estridente, mas bem mais pela pluma do que pela voz. Posso contudo orgulhar-me de uma característica, talvez essencial em meu itinerário profissional, para o bem e para o mal: jamais deixei o meu cérebro em casa, quando saia para trabalhar, e nunca o depositei na portaria, quando ingressava no trabalho. Existem riscos nesses hábitos, porém, como se tornou evidente.
Aqui chegamos, enfim, e depois de anos e anos – na verdade os treze anos e meio da gestão lulopetista, quando fiz da Biblioteca, quase todos os dias, meu escritório de trabalho –, volto a exercer uma função na instituição diplomática, ainda que não de natureza executiva, simplesmente acadêmica, talvez decorativa, como disse certa vez o vice-presidente, hoje guindado à presidência interina. O cargo assumido não é porém isento de riscos, pois um antigo diretor foi ingloriosamente defenestrado, como se sabe, em pleno ancien régime“tucanês”. Achei francamente exagerada, e muito autoritária, aquela decisão, contra quem, aliás, não exercia nenhuma função executiva, certamente não relevante do ponto de vista das principais definições de política externa, no caso, na política comercial envolvida na questão das negociações em torno do projeto americano para um acordo de livre comércio hemisférico. 
Na ocasião eu me solidarizei imediatamente, com o defenestrado, para ser por ele reciprocado poucos meses depois ao ser, por minha vez, sancionado pela mesma administração por ter concedido uma entrevista sem a devida autorização prévia, que na época respondia à indecorosa circular da censura prévia, apropriadamente conhecida como “lei da mordaça”. Minha entrevista, ao contrário das tomadas de posição do ex-diretor do IPRI, se conformava inteiramente à política oficial do Itamaraty, mas ainda assim a administração resolveu me sancionar, sob a justificativa dúbia de que, tendo “punido um”, não poderia “deixar de punir outro”. Essa é a lógica da Inquisição, se me permitem a comparação totalmente indevida, nos efeitos práticos, mas creio que similar em espírito, senão em intenção intimidante ou dissuasiva. 
A despeito de minha solidariedade com o primeiro punido pela “lei da mordaça” – que, ao sê-lo, converteu-se imediatamente num dos mártires da causa justiceira, e como tal manipulada pelos propagandistas do partido companheiro – tive a frustrante surpresa de ser vetado, um ano depois (já no início de 2003), para um cargo no Instituto Rio Branco, de coordenar o programa de mestrado, do qual eu já era professor orientador, desde 2001, programa que só funcionou durante dez anos apenas. O veto ocorreu quando o mesmo ex-diretor do IPRI, convertido em uma espécie de porta-voz das causas petistas em matéria de política externa, justamente em virtude de sua ejeção pelos “neoliberais”, foi guindado (depois de uma mudança nas regras em vigor) ao cargo real de “oficial-maior” e virtual de ideólogo-mor da diplomacia lulopetista. Essa diplomacia estranha e exótica, complacente com as ditaduras e desdenhosa das grandes “potências hegemônicas”, se encontra hoje felizmente desativada, mas provavelmente não de todo; como os irredutíveis gauleses, ela resiste, encore et toujours, nos corações e mentes dos gramscianos de academia. De fato, a julgar pelos manifestos divulgados recentemente por quase todas as entidades acadêmicas a propósito de um “golpe” em curso no Brasil, acredito que o lulopetismo diplomático ainda esteja plenamente ativo e altivo no plano das mentalidades gramscianas. 
Fui vetado muitas outras vezes, ao longo do longo período lulopetista, pois nunca deixei de exercer meu direito de expressar minha opinião sobre as loucuras cometidas nestes anos bizarros, tempos de diplomacia não convencional e de exaltação exagerada da figura do “nosso Guia”. Não tenho porque esconder nada neste momento que poderia ser classificado de um “renascimento profissional”; todo o meu itinerário pessoal a longo desses anos, que eu chamei de um segundo exílio, apenas sobrevivendo no plano intelectual, encontra-se perfeitamente documentado em minhas listas de trabalhos, tanto as de originais quanto os publicados, disponíveis no meu site. Aliás, em apêndice a este texto, vou listar os trabalhos mais contundentes a esse respeito.
Não tenho ainda um programa de trabalho, meu, para o IPRI, mas existe um, já aprovado oficialmente, para secundar a diplomacia do governo, atuando como um canal de interação com a comunidade acadêmica. Vou pensar em agregar algumas outras coisas, talvez um pouco diferentes do programa que é desenvolvido oficialmente, ou dos debates que ocorrem normalmente na academia, apenas com certo comedimento, provavelmente. A razão da cautela é que, paradoxalmente, o ambiente universitário não parece ser um exemplo de isenção e de equilíbrio, se justamente medirmos os ânimos por todos esses manifestos divulgados nos últimos tempos, em “defesa da democracia”, contra o “golpe”, e outras bobagens do gênero. Vou tentar fazer algo em defesa dos valores e dos princípios da diplomacia brasileira, tão lamentavelmente conspurcados, ambos, sob o regime inacreditável dos companheiros. Digo inacreditável porque ainda não descobrimos ou desvelamos todas as patifarias cometidas ao longo desses anos, talvez mesmo no âmbito da política externa (não da diplomacia, cabe bem distinguir). Existe, certamente, muita coisa a ser feita, num país que passou mais de uma década num regime de mentiras constantes, propaganda fantasiosa, para nada falar dos crimes – econômicos, políticos, comuns – praticados ao longo desses anos bizarros.
Não precisa ser uma repetição de projetos já feitos anteriormente, mas pode-se pensar na continuidade do que foi feito em 2013, na obra em 3 volumes Pensamento Diplomático Brasileiro, 1750-1964(disponível no site da Funag), que resultou de um projeto original meu (embora não exatamente da forma em que foi desenvolvido). Nessa obra assinei um primeiro capítulo, metodológico, e um outro sobre Oswaldo Aranha, feito a partir de um texto do embaixador João Hermes Pereira de Araújo, recentemente falecido. Começo agora a desenhar a continuidade cronológica desse projeto, cujos contornos exatos não estão ainda perfeitamente definidos. Mas já elaborei um projeto sobre os valores e princípios da diplomacia brasileira, que pode resultar num trabalho de reflexão sobre o que fizemos, na República, em matéria de formulação e de execução da diplomacia governamental, por meio das ações e escritos de alguns dos profissionais e intelectuais que se desempenharam nesta arena. Divulgarei quando possível.

Neste momento, cabe uma palavra final aos que não esmoreceram na defesa de um serviço profissional, em condições por vezes adversas de manutenção dos princípios permanentes da política externa brasileira, e que lutaram pela preservação dos valores da carreira diplomática, por parte deste colega que, por acaso, é também acadêmico, e que sempre levou um duplo combate, nas duas frentes, em prol de valores tão simples como a ideia de honestidade intelectual, ademais do princípio do interesse nacional. A minha palavra é apenas esta: vale perseverar...
Talvez eu possa terminar com uma frase atribuída a Talleyrand, contemporâneo quase exato de Chateaubriand: Quand je me regarde, je me désole. Quand je me compare, je me console… Mas o próprio Chateaubriand fez uma avaliação final de sua vida, nas páginas finais das Mémoires d’Outre Tombe
Ainsi la vie publique et privée m’a été connue. Quatre fois j’ai traversé les mers ; (…)Pauvre et riche, puissant et faible, heureux et misérable, homme d’action, homme de pensée, j’ai mis ma main dans le siècle, mon intelligence au désert ; l’existence effective s’est montrée à moi au milieu des illusions, de même que la terre apparaît aux matelots parmi les nuages. Si ces faits répandus sur mes songes, comme le vernis qui préserve des peintures fragiles, ne disparaissent pas, ils indiqueront le lieu où est passé ma vie.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 27 de junho e 7 de julho; São Paulo, 21 de julho de 2016.

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Apêndice sobre fontes e leituras adicionais: 

As obras de Chateaubriand encontram-se disponíveis na seguinte Wikisource, embora eu tenha retirado excelentes edições na biblioteca do Itamaraty, como esta informada ao início deste texto:

Georges Readers (org.), Les Plus Belles Pages des ‘Mémoires d’Outre Tombe’ (Rio de Janeiro: Americ=Edit., 1945)
Chateaubriand, François-René Auguste de, obras, em francês: https://fr.wikisource.org/wiki/Auteur:Fran%C3%A7ois-Ren%C3%A9_de_Chateaubriand.


Almeida, Paulo Roberto de:
Trabalhos sobre a política externa e a diplomacia lulopetista (em ordem cronológica inversa de elaboração):

3004. “Crônica final de um limbo imaginário?”, Brasília, 1 julho 2016, 2 p. Reflexões sobre o encerramento de uma etapa e o início de outra. Divulgado no blog Diplomatizzando(link: (http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2016/07/cronica-final-de-um-limbo-imaginario.html). 
2991. “Uma seleção de trabalhos sobre a política externa brasileira na era Lula: Paulo Roberto de Almeida, 2002-2016”, Brasília, 6 junho 2016, 13 p. Listagem seletiva, na ordem cronológica inversa, dos trabalhos mais importantes, inéditos e publicados, produzidos no período em apreço em temas da diplomacia e do sistema político brasileiro. Disponível no blog Diplomatizzando(http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2016/06/a-politica-externa-brasileira-na-era.html) e na plataforma Academia.edu (link: http://www.academia.edu/26393585/Trabalhos_PRA_sobre_a_politica_externa_brasileira_na_era_Lula_2002-2016_(versão revista e atualizada); http://www.academia.edu/25901782/Trabalhos_PRA_sobre_a_politica_externa_brasileira_na_era_Lula_2002-2016_).
2983. “O renascimento da política externa”, Brasília, 25 maio 2016, 14 p. Publicado na revista Interesse Nacional(ano 9, n. 34, julho-setembro de 2016, link: http://interessenacional.com/index.php/edicoes-revista/o-renascimento-dapolitica-externa/).



terça-feira, 16 de outubro de 2018

Fim de uma travessia do deserto? - Paulo Roberto de Almeida

Fim de uma travessia do deserto? Reflexões antecipadas

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: texto reflexivo; finalidade: depoimento sobre um período especial] 

Ainda arrastando os pés na areia – paisagem talvez incontornável nas atuais circunstâncias –, parece que estou aproximando-me do limiar do deserto. Este não é o deserto dos tártaros, como sugerido no romance de Dino Buzzati – pois o dele era o do prenúncio da chegada iminente dos bárbaros, quando no nosso caso os bárbaros já vieram, arrasaram tudo e tiveram de se retirar sob as vaias dos residentes da fortaleza –, mas foi o que se me apresentou como inevitável, quinze anos atrás, ao ter persistido na defesa de certas ideias, um deserto ao qual fui empurrado contra a minha vontade e mesmo a despeito de ter tido uma pretensão absurda: a de tentar educar nossos bárbaros.
Foram longos treze anos e meio de um deserto aparentemente interminável, que quase tinha sido delimitado quatro anos atrás – sem saber o que nos reservava sua eventual interrupção –, e que no entanto continuou no meu caso por mais dois anos e meio, apenas parcialmente compensado por um pequeno oásis nesse último período, mas sempre com a ameaça de nova expansão dominadora do deserto, com sua cota habitual de velhos e novos bárbaros, e vários salteadores dessas paragens inermes.
Agora que o deserto parece ter acabado, posso novamente olhar o horizonte, parar de sonhar com miragens, imaginar florestas na minha frente, e recomeçar a viver a vida mais movimentada das cidades e das aglomerações ruidosas e confusas. Isso não quer dizer que vida no deserto era de todo desagradável e impossível de se viver, longe disso. Uma das vantagens – se elas existem – de estar no deserto é aquela sensação de quase absoluta liberdade, a faculdade de poder andar a esmo, escolher o seu próprio itinerário, e vagar pela imensidão do deserto sem ter de prestar contas a ninguém, a não ser a si mesmo, e à sua consciência. Uma liberdade relativa, porém, pois além do deserto só tinha mais deserto, aquelas colinas arenosas onde se perder é obrigatório, assim como a noção do tempo também se torna relativa.
Pode-se fazer de tudo no deserto, e de tudo um pouco, desde que as pretensões sejam modestas: escolher uma sombra para ler, um outro canto mais confortável para escrever, uma reentrância discreta para refletir, e a certeza de poder se expressar impunemente, uma vez que o banimento para o deserto já representou uma condenação ao isolamento e à falta completa de eco. Se não fosse pela preservação dos escritos, poucos traços teriam restado dessa longa estada, se não fosse pela constância dos registros não teriam sobrevivido algumas reflexões contrarianistas, alertas feitas ao vento, vento que ainda assim carregou alguns desses manuscritos para além do deserto, folhas esparsas que alcançaram pequenos oásis perdidos naquela imensidão, outros quilombos de resistência intelectual durante a longa dominação dos bárbaros sobre todas as planícies e até sobre algumas montanhas. Se eu não tivesse levado papel e lápis para o meu exílio no deserto, não teria agora a recordação de algumas memórias para documentar essa longa jornada ostracismo adentro, dias infindos, meses incontáveis, anos seguidos. 
Devo a meus hábitos juvenis de leitura da história, às minhas incursões precoces nos livros de filosofia, às leituras maduras de história econômica, às minhas observações de política prática, essa minha certeza longamente mantida de que o deserto teria fim um dia, essa minha confiança de que o isolamento a que fui relegado na paisagem arenosa seria enfim superado, o meu absoluto otimismo quanto a que o meu exílio conheceria o seu término, de uma maneira ou de outra. Aparentemente chegou, ainda que eu não possa determinar exatamente as circunstâncias desse fim.
Talvez não tenha sido exatamente como eu teria, ou tivesse, gostado, com pleno reconhecimento da injustiça do ostracismo. Como já disse alguém, num livro que, aliás, se tornou um clássico, os homens fazem a sua própria história, mas não como eles gostariam que fosse, como eles imaginavam que pudesse ser, e sim segundo forças poderosas que eles nem sempre controlam, segundo circunstâncias cujas condições eles não conseguem determinar, um processo que ocorre por vezes fatalmente, e que é construído independentemente das ideias e até mesmo das ações da maior parte dos membros de uma determinada sociedade. Curiosamente, esse famoso livro foi escrito no momento mesmo em que começava uma nova ditadura, a de um líder bonapartista, obra que foi profética ao antecipar a relativa durabilidade, 18 anos da dominação carismática que se apoiava no apoio das massas incultas, mas sedentas pelos apelos de um discurso populista, ávidas pela demagogia habitual dos anunciadores de novos tempos radiantes, que acabam sendo, ao fim e ao cabo, apenas a preparação de novos desastres, o anúncio antecipado de frustrações garantidas a partir dos equívocos desse tipo de regime. 
Essas minhas leituras de clássicos da literatura política amenizaram em grande medida minha longa jornada no deserto, assim como reforçaram a minha crença em que, como das vezes anteriores, essa nova ditadura dos bárbaros também teria fim algum dia, e que eu poderia voltar ao convívio dos citadinos. Aproveitei, aliás, o ostracismo arenoso para escrever algumas peças que podem ter ajudado a manter na memória de alguns, uns poucos colegas de corporação, muitos outros em ambientes que eu sempre tinha frequentado, quando ativo na cidade dos homens, o que talvez tenha evitado um eclipse definitivo do que eu tinha a dizer. 
Agora que o deserto parece ter acabado, posso olhar para trás, não sem certo orgulho, ao ter sabido preservar o essencial de meu contrarianismo habitual. Nunca pedi água aos que me relegaram ao deserto, nunca lhes dei a satisfação de dizer que estavam certos, sempre reafirmei minha independência, e creio ter deixado bastante claro quais ideias, quais princípios e valores, quais posturas profissionais me separavam irremediavelmente deles. Nunca me considerei um dissidente, porque isso seria admitir que eu dissentia de alguma doutrina válida, de um conjunto de preceitos que seriam basicamente corretos, e aos quais eu me opunha apenas pela vontade de ser um contestador sem razão de ser, pela lógica dos bárbaros. Por mais desconforto e solidão que eu pudesse sentir no deserto, nunca experimentei o desprazer de servir aos bárbaros naquela que era a minha carreira profissional, o que certamente me poupou de muitos aborrecimentos, e a eles de constrangimentos adicionais, dada a minha postura. Por isso mesmo não ocorreram punições tópicas, como em ocasiões anteriores, além da própria condenação ao ostracismo, o que já deveria servir de exemplo e de alerta para outros eventuais incautos ou contestadores potenciais.
Minhas atividades de formiga do deserto não devem ter incomodado em nada a continuidade do regime, mas podem me ter dado o orgulho talvez egoísta de terem incomodado alguns dos responsáveis pelo meu exílio. Pelo menos não conseguiram me silenciar por completo, uma vez que, como garrafas jogadas por um náufrago ao mar, ideias também tem esse poder de voar com o vento, e até de alcançar as fímbrias do deserto.
Ao emergir agora dessa longa estada involuntária em terreno não demarcado – algo como o limbo das antigas crenças religiosas –, cabe não alimentar novas ilusões, não ser otimista demais quanto ao que vem pela frente, pois cidades e aglomerações, à diferença dos desertos, são lugares manifestamente confusos, contraditórios, até sujeitos a disputas, animosidades, enfrentamentos. O que cabe, sim, é fazer um diagnóstico realista da situação, examinar as fontes desses conflitos, determinar um modo de atuação em face da situação existente e traçar um plano mental quanto às melhores formas de atuação nos quadros do novo regime. Depois de tantos anos de desconstrução institucional, de erosão moral e de profunda deterioração ética, o trabalho reconstrução será tanto mais duro quando as principais dificuldades talvez não se situam exatamente no plano material, mas essencialmente no terreno da arquitetura mental e espiritual da sociedade. Tal compreensão da divisão da nação deve balizar, em meu entendimento, os esforços de soerguimento dos escombros deixados pelos bárbaros, que ainda estão à espreita, e precisam ser desativados basicamente pelas ideias, novas ideias.
De minha parte, sem qualquer pretensão quanto a desempenhar um papel de ator cênico, minha aspiração estaria, como é meu hábito, no oferecimento de reflexões e de sugestões no terreno pedagógico, que sempre foi o meu, um trabalho de análise, de diagnóstico e de iniciativas prescritivas que se encaixem no novo espírito da época. Aliás, não existe exatamente um novo Zeitgeist, apenas um panorama devastado e desolado por anos e anos de pregação divisionista, de doutrinas tortuosas, de propostas e medidas viciadas e viciosas, que levaram a nação à maior crise de sua história, uma recessão gigantesca, que condenou milhões à inação e ao desespero, sentimentos que, por sinal, alimentaram a rejeição dos bárbaros pela maioria dos cidadãos.
Sem ter tido qualquer papel – senão muito marginal, ao continuar alimentando a chama da resistência intelectual – na inversão da trajetória finalmente alcançada, posso agora, ao limpar os últimos traços de areia nas vestes, olhar com alguma confiança o futuro de médio prazo, sempre mantendo a mesma atitude básica que foi a minha com relação aos modos alternativos de organizar a política e a economia da nação: um ceticismo sadio, como compete a um contrarianista iluminista. Minha atitude, diga-se de passagem, nunca deixou de ser a mesma: a observação atenta da realidade ambiente, consulta demorada aos precedentes históricos, reflexão comparativa com outros casos de sucesso, ou de fracasso (mais instrutivo, neste caso), no encaminhamento de soluções aos problemas de toda e qualquer organização social. Com base nessa análise preliminar pode-se partir para a formulação de algum diagnóstico sobre os desafios detectados de maneira empírica, e com isso, finalmente, propor uma ação pedagógica – eventualmente complementada por alguma atuação executiva elementar – na direção das melhores respostas aos dilemas e desafios a serem superados.
Três lustros no deserto, sem ser eremita e sem ter vocação para anacoreta, também constituem boas oportunidades para o fortalecimento do caráter e para, longe da poluição citadina, ver um pouco mais claro, e mais longe, o caminho a ser seguido. Por isso sou finalmente grato aos responsáveis pelo meu exílio: eles me deram uma oportunidade que eu não teria no burburinho de um trabalho inserido em suas enormes contradições teóricas e práticas. 
Como disse alguém: a luta continua...


Paulo Roberto de Almeida
Paris-Rabat, em voo, 15 de outubro de 2018

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Minha pequena ONU de acessos em Academia.edu - Paulo Roberto de Almeida

Computando os acessos a meus trabalhos na plataforma Academia.edu, constatei que a maioria de meus leitores é um imenso grupo de DESCONHECIDOS!
O que quer dizer isso? Não sei. São acessos não identificados, por qualquer motivo que seja, e o mais provável é que sejam robôs informatizados na busca de determinados conceitos ou palavras chave.
Esses acessos partem de algum lugar, e portanto aumentariam um pouco mais a cota dos principais países, dentre os 162 devidamente identificados por origem geográfica na relação abaixo.
No mais, não existem muitas surpresas quanto à origem dos acessos: suponho que sejam estudantes universitários, pesquisadores (muitos deles brasileiros nesses países), curiosos que mantêm algum interesse sobre temas que constituem o fulcro de meu trabalho: relações internacionais, política externa e diplomacia do Brasil, história diplomática, política e economia do Brasil, da América Latina, temas culturais em geral.
Em todo caso, a minha "pequena ONU" cobre 162 países, dos mais populosos e importantes, aos mais pequenos e aparentemente pouco relevantes em termos de política mundial.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 12 de outubro de 2018

Acesso aos trabalhos de Paulo Roberto de Almeida
na plataforma Academia.edu
(verificação em 11/10/2018)



Country
All-Time Views
1)    Unknown
95,327
2)    Brazil
60,906
3)    United States
5,730
4)    Portugal
1,406
5)    France
1,006
6)    Mozambique
781
7)    Argentina
546
8)    United Kingdom
537
9)    Angola
459
10) Germany
351
11) Spain
342
12) Belgium
328
13) Canada
299
14) Italy
254
15) Russian Federation
244
16) Mexico
225
17) Uruguay
205
18) Colombia
192
19) Netherlands
176
20) Ecuador
168
21) Peru
162
22) Switzerland
161
23) Japan
152
24) India
129
25) Paraguay
114
26) Chile
110
27) Romania
99
28) Australia
99
29) Turkey
93
30) Venezuela
89
31) China
79
32) Indonesia
74
33) Korea, Republic of
69
34) Ukraine
64
35) South Africa
64
36) Poland
58
37) Egypt
50
38) Sweden
49
39) Cape Verde
46
40) Denmark
46
41) Côte D'Ivoire
44
42) Greece
43
43) Belarus
41
44) Senegal
40
45) Morocco
40
46) Nigeria
33
47) Israel
32
48) Ireland
32
49) Pakistan
30
50) Czech Republic
30
51) Guatemala
29
52) Lebanon
28
53) Viet Nam
27
54) Bolivia
27
55) Dominican Republic
27
56) Norway
26
57) Hong Kong
26
58) Austria
25
59) Cuba
25
60) Philippines
23
61) Hungary
23
62) Malaysia
22
63) Slovakia
21
64) Sao Tome and Principe
20
65) Nicaragua
20
66) Guinea-Bissau
20
67) Algeria
20
68) New Zealand
19
69) Kenya
18
70) Thailand
17
71) Puerto Rico
17
72) Timor-Leste
16
73) Singapore
16
74) Bosnia and Herzegovina
16
75) Taiwan
16
76) Zambia
15
77) Serbia
15
78) Namibia
15
79) Sri Lanka
15
80) Ethiopia
15
81) Moldova, Republic of
14
82) Haiti
14
83) Bulgaria
14
84) Costa Rica
13
85) El Salvador
12
86) Panama
12
87) Honduras
12
88) Togo
11
89) Luxembourg
11
90) Tunisia
10
91) Madagascar
10
92) Iran, Islamic Republic Of
10
93) Finland
10
94) Oman
9
95) Croatia
9
96) Zimbabwe
8
97) Slovenia
8
98) Gabon
8
99) Cameroon
8
100)                Congo, The Democratic Republic Of The
8
101)                United Arab Emirates
8
102)                Kuwait
7
103)                French Guiana
7
104)                Bangladesh
7
105)                Macedonia, the Former Yugoslav Republic Of
7
106)                Macao
6
107)                Kazakhstan
6
108)                Iraq
6
109)                Trinidad and Tobago
5
110)                Saudi Arabia
5
111)                Jamaica
5
112)                Guadeloupe
5
113)                Guinea
5
114)                Ghana
5
115)                Tanzania
4
116)                Nepal
4
117)                Malta
4
118)                Mali
4
119)                Benin
4
120)                Burundi
4
121)                Palestinian Territory, Occupied
4
122)                Lithuania
4
123)                Sudan
3
124)                Rwanda
3
125)                Réunion
3
126)                Mauritius
3
127)                Martinique
3
128)                Mongolia
3
129)                Montenegro
3
130)                Liberia
3
131)                Kyrgyzstan
3
132)                Belize
3
133)                Armenia
3
134)                Yemen
2
135)                Uganda
2
136)                Somalia
2
137)                Qatar
2
138)                Papua New Guinea
2
139)                Malawi
2
140)                Latvia
2
141)                Cambodia
2
142)                Jordan
2
143)                Iceland
2
144)                Estonia
2
145)                Bahrain
2
146)                Azerbaijan
2
147)                Albania
2
148)                Saint Vincent And The Grenedines
1
149)                Uzbekistan
1
150)                Swaziland
1
151)                Suriname
1
152)                Mauritania
1
153)                Myanmar
1
154)                Guyana
1
155)                Equatorial Guinea
1
156)                Georgia
1
157)                Fiji
1
158)                Cyprus
1
159)                Congo
1
160)                Burkina Faso
1
161)                Aruba
1
162)                Afghanistan
1
163)                Andorra
1