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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

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sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Coruja de Minerva, a ave da sabedoria - Instituto de Quimica da UFRJ

Por acaso, ao buscar uma informação para me certificar sobre a frase exata de Hegel sobre a coruja de Minerva, deparei com este belo texto não atribuído, ou seja, sem nome de autor, no Instituto de Química da UFRJ.
Nem tudo está perdido na universidade brasileira, pelo menos quanto aos conhecimentos humanísticos: até entre químicos sobrevive a boa filosofia.
Fiquem com este texto singelo e esclarecedor.
Paulo Roberto de Almeida

A Coruja e a Sabedoria

Descomplicando a Química
Instituto de Química da UFRJ, sem data (link)
Não é por acaso que a Coruja é tida como um símbolo de sabedoria em diversas culturas, pois ela pode ver o que os outros não conseguem: a essência da verdadeira sabedoria. Onde outros se iludem, a Coruja percebe com precisão o que realmente ali se encontra, já que é uma excelente conhecedora dos segredos da noite.
A coruja da filosofia é a Coruja de Minerva. Minerva é uma deusa romana e seu equivalente grego é Athena. Athena, a deusa grega da sabedoria, possuía uma Coruja de estimação que permanecia sempre em seu ombro e lhe revelava as verdades invisíveis. Essa Coruja tinha o poder de iluminar o lado obscuro da deusa, capacitando-a a perceber toda a verdade e não apenas aquela parcela da verdade que podia discernir sem seu auxílio. Em função disso a coruja ficou associada à deusa da Sabedoria. Eis a ave da deusa da Sabedoria e da Justiça: atenta coruja, cujo pescoço gira 360º, possuidora de olhos luminosos que, como Zeus, enxergam “O todo”.  Devido a todos esses atributos, a Coruja simboliza também a Filosofia, os Professores e nossa proposta de Conhecimentos Sem Fronteiras: integrar todas as formas de conhecimento com o olhar para O Todo.
Uma outra característica que a associa com a sabedoria é a sua alta capacidade de ver no escuro, como se ela conseguisse ver o que os outros não vêem.
A coruja tem a capacidade de ver uma quantidade de luz 100 vezes a mais que o ser humano. Ela também tem uma ótima audição. A disposição de seus olhos permite uma ótima percepção do relevo e da distância.  A coruja é capaz de piscar um olho e também girar a cabeça até três quartos da rotação total, para poder enxergar as coisas que estão ao seu lado. Assim como muitas aves, são animais muito fiéis ficando juntos até o fim da vida. 
Em latim é Noctua, “ave da noite”. Noturna, relacionada com a lua, a coruja incorpora o oposto solar. Observem que Athena é irmã de Apollo (Sol). É símbolo da reflexão, do conhecimento racional aliado ao intuitivo que permite dominar as trevas. Apesar de haver uma forte associação desta ave à escuridão e a sentimentos tenebrosos, o que é natural a um ser noturno, o fato de ela ter sido (devido a suas específicas características) atribuída à deusa Athena também a tornou símbolo do conhecimento e da sabedoria para muitos povos.
Na introdução de sua obra Filosofia do Direito, o Filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1830), escreve o seguinte:
Quando a filosofia pinta cinza sobre o grisalho,
uma forma de vida já envelheceu e, com o cinza
sobre cinza não se pode rejuvenescer, apenas reconhecer;
A coruja de Minerva alça seu vôo
Magia
Presságios
Espaço e tempo.
A verdade emergirá
Da luta silenciosa
Dissipando a ilusão?
Pássaro da Cura Sagrada.
[PS: Autor, se apresentar...]

domingo, 20 de novembro de 2011

E por falar em koala (mais um texto sugestivo, esquecido nos arquivos...) - Paulo Roberto de Almeida


O koala e a coruja
Paulo Roberto de Almeida
( 23 de dezembro de 2005)
            Os chineses têm o curioso costume de batizar, segundo um ciclo que se repete após um determinado período, cada ano do calendário com o nome de um animal, existente na natureza ou pertencente à mitologia: ano do macaco, do cachorro, da cobra, da lebre, do dragão, e por aí vai.
            Não sei se existe algum ano do koala e outro da coruja, mas agora me deu vontade de batizar, não o ano que começa, mas o ano que acaba de passar, como o ano do koala e da coruja, assim mesmo, com dois animais ao mesmo tempo. Explico porque e dou logo as minhas razões, para ninguém pensar que eu fiquei louco ou que estou, de repente, adquirindo manias chinesas. Se isso virar um hábito, assim seja: no ano que vem, invento dois outros animais (ou mantenho esses mesmos).
            É que eu tenho a maior simpatia por esses dois animais, que deveriam ser erigidos à categoria de ícones da paciência e da sabedoria, respectivamente (ou vice-versa). Já tive a oportunidade de escrever sobre “minha vida de koala”, e não vou repetir o prazer que senti em me imaginar um koala, desses bem normais, comendo suas folhas de eucalipto e descendo vagarosamente de galho em galho para ir se acomodando a uma vida tranqüila e modorrenta (na verdade, eu estava imaginando usar dois terços do meu tempo útil para ler, não para dormir, como faz o koala, mas isso não vem ao caso agora). Também admiro as virtudes “hegelianas” da coruja que, segundo aquele filósofo dialético, sempre acompanhava Minerva – Palas Atena para os gregos –, a deusa da sabedoria.
Pois bem, o que me faz introduzir esse novo hábito estranho de pretender batizar, duplamente e retrospectivamente, o ano que se passou com o nome desses dois animais? Acho que este ano de 2005 foi particularmente rico para mim, em dois sentidos: primeiro adquiri uma tranqüilidade e uma satisfação com a vida que não tinha conhecido em muitos anos; depois porque adquiri mais alguns grãos de sabedoria, que acho que têm a ver mais com a sensibilidade do que propriamente com o conhecimento.
Por um lado, parei de ter aquele frenesi de sempre escrever e publicar (talvez um livro por ano), essa terrível mania de estar sempre sentado na minha mesa de trabalho, lendo algum livro ou escrevendo algum texto. Passei a contemplar mais a vida, a ver as coisas com outros olhos, a caminhar pensando no muito que já fiz e no muito que ainda tenho por fazer. Nem tudo é uma questão de produtividade: aliás, se formos aplicar esse conceito ao koala, ele entra no Guinness dos recordes da improdutividade, vagabundagem e preguiça. A sua produtividade deve ser marginal ou próxima do zero: ele é a própria “teoria da classe ociosa” – a famosa leisure class, copyright do Thorsten Veblen –, a imagem mesmo do dolce far niente, um monumento ao droit à la paresse, como diria o Paul Lafargue, uma completa oisiveté, ou como diria o douto Bertrand Russell, in praise of idleness. Agora, me dou ao luxo de não fazer nada, ou melhor, contemplar a natureza e as coisas belas da vida, de preferência algo que combine beleza interna e externa, forma e conteúdo, caráter e substância.
Por outro lado, adoro a coruja, pelo que ela tem de simbolicamente profundo, de sensível, de olhos inteligentes e argutos, sempre atentos e prontos para entrar em ação no melhor momento de fazê-lo. Ela é, ao mesmo tempo, contemplativa e ativa, silenciosa e altaneira, expansiva e retraída, triste e alegre, aberta e fechada, enfim, “filósofa” e “normal”, digamos assim. Ter uma coruja como companhia é uma garantia de reflexão ponderada, mas também de raciocínio rápido, impecável na lógica, mas dotado de rara sensibilidade, como se ela nos transmitisse, de uma só vez, certezas e dúvidas, segurança e inquietação. Acho que todas essas características contraditórias são próprias do pensamento curioso, animado de um ceticismo sadio, das almas sensíveis aos desígnios da criação inovadora, mas também da preservação da boa tradição. É a coruja quem fica por cima do ombro do filósofo, provavelmente assoprando-lhe ao ouvido o que ele poderia cogitar sobre uma dada situação na vida, ou sugerindo-lhe alguma solução genial a um problema inesperado.
Por tudo isso, e também pelo prazer que essas figuras mais do que simbólicas me deram ao introduzir um novo significado em minha vida neste ano de 2005, não hesito um só instante em batizar, retrospectivamente, este ano que se encerra como o ano do koala e da coruja. Espero que esses simpáticos animais venham me visitar novamente em 2006, e que esta situação possa durar até onde a vista alcança...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, Sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

In praise of an owl (tergiversando) - Paulo Roberto de Almeida

Adoro a coruja, pelo que ela tem de simbolicamente profundo, de sensível, de olhos inteligentes e argutos, sempre atentos e prontos para entrar em ação no melhor momento de fazê-lo. Ela é, ao mesmo tempo, contemplativa e ativa, silenciosa e altaneira, expansiva e retraída, triste e alegre, aberta e fechada, enfim, “filósofa” e “normal”, digamos assim. Ter uma coruja como companhia é uma garantia de reflexão ponderada, mas também de raciocínio rápido, impecável na lógica, mas dotado de rara sensibilidade, como se ela nos transmitisse, de uma só vez, certezas e dúvidas, segurança e inquietação.
Acho que todas essas características contraditórias são próprias do pensamento curioso, animado de um ceticismo sadio, das almas sensíveis aos desígnios da criação inovadora, mas também da preservação da boa tradição. É a coruja quem fica por cima do ombro do filósofo, provavelmente assoprando-lhe ao ouvido o que ele poderia cogitar sobre uma dada situação na vida, ou sugerindo-lhe alguma solução genial a um problema inesperado.

Paulo Roberto de Almeida
(extrato de um texto de 23/12/2005)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Corujas produtivas (em Nova York)

Não sou executivo e não vivo em Nova York, mas costumo também ser mais produtivo a noite. No entanto, prefiro trabalhar de forma solitária, acompanhado de Carmen Lícia, que também é uma coruja norturna (e que lê muito mais do que eu...).
Penso melhor na solidão da noite, sem apelos externos, sem demandas extras...
Paulo Roberto de Almeida

TENDÊNCIAS MUNDIAIS
'Corujas' produtivas se unem na noite de NY
Grupo promove colaboração "high-tech" na madrugada
Por JENNA WORTHAM
The New York Times, 2 de agosto de 2010 (FSP)

Os Nightowls (corujas noturnas) de Nova York são uma espécie de grupo de estudos para empresários, profissionais independentes e desenvolvedores de software que se reúnem todas as terças-feiras das 22h às 4h em busca de ideias criativas e espíritos similares.
"O objetivo é vir, inspirar-se, conhecer novas pessoas e trabalhar", disse Amber Lambke, consultora criativa que formou o grupo em abril com Allan Grinshtein, diretor de design de produtos no site de vídeo Blip.tv.
"São seis horas de um período produtivo e ininterrupto em que você está cercado de outras pessoas criativas fazendo coisas incríveis", acrescentou Lambke.
O conceito está pegando. Grupos já se formaram em quase uma dúzia de cidades, como San Francisco, Boston, Estocolmo (Suécia) e Melbourne (Austrália).
Johan Hedberg, consultor de relações públicas de 33 anos de Estocolmo, se interessou por coordenar uma versão local depois que ele viu uma publicação sobre o grupo na internet.
"Tenho muitos amigos e colegas que escrevem livros e trabalham em projetos da web e que ficam sozinhos em casa", disse. "Há muito a ganhar trabalhando com outras pessoas."
Mas trabalhar à noite pode ir além da necessidade de fugir das distrações. Algumas pessoas são "programadas" para ter um melhor desempenho durante a noite, disse Michael Thorpy, diretor do Centro de Distúrbios do Sono e Vigília no Centro Médico Montefiore, no Bronx, em Nova York.
"Nosso ritmo circadiano de sono é afetado pela genética, e todas as pessoas são diferentes", ele disse. Em Nova York, cerca de duas dúzias de pessoas armadas de notebooks e bebidas cafeinadas se reúnem semanalmente na cobertura de um prédio de escritórios em Chinatown. Alguns, como Grinshtein, trabalham em projetos preferidos e empreitadas colaterais. A maioria passa o tempo mergulhada em pensamentos sobre uma tela reluzente.
Os participantes dizem que um espírito de colaboração e camaradagem se infiltra durante a noite, o que pode ser difícil de conseguir durante as horas de trabalho normais.
"Eu não codifico muito bem, e um desenvolvedor trabalhando aqui poderia ser capaz de resolver em 30 segundos um problema que para mim levaria três horas", disse Jonathan Wegener, que cria aplicativos para celulares. "É muito mais fácil conseguir a ajuda de alguém neste ambiente, e é realmente valioso."
O grupo começou em uma noite de abril passado, quando Grinshtein enviou uma mensagem para o Twitter perguntando se alguém queria formar um grupo de trabalho informal. "Em casa eu durmo, fico adiando as coisas e não faço nada", disse. "Eu pensei: 'Deve haver alguém aí fazendo a mesma coisa'."
Lambke, que não conhecia Grinshtein, ficou imediatamente interessada. "Eu vi o 'tuite' e pensei: 'É exatamente do que eu preciso'", ela disse. Uma semana e vários e-mails depois, estava formado o New York Nightowls.
As reuniões são gratuitas, e Lambke e Grinshtein tentam limitar o tamanho do grupo a cerca de 30 pessoas. Eles pedem que os participantes marquem uma visita por meio do Meetup, um serviço que organiza eventos.
Tony Bacigalupo, que dirige um espaço de trabalho compartilhado chamado New Work City, que atende a profissionais autônomos e outros tipos de personalidades independentes, se ofereceu para deixar os Nightowls usarem o escritório sem custo.
"Já existe uma cultura de realizar trabalhos aqui", disse Bacigalupo. "Podemos colocar a música em volume um pouco mais alto à noite, abrir algumas cervejas, mas acho que as pessoas sabem que vêm aqui para se concentrar e produzir coisas."
E há menos distrações do que durante o dia. Até a web fica tranquila. As pessoas se sentem menos instigadas a verificar o Twitter, o Facebook ou as mensagens instantâneas.
"Quando você não tem seus colegas constantemente a interrompê-lo e menos amigos entediados no trabalho e no MSN é mais fácil fazer as coisas", disse Montana Low, o principal cientista da RescueTime, que faz software para produtividade.
"Muita gente tem problemas com esse tipo de distração, e todo o mundo procura maneiras de produzir um pouco mais durante um dia."
Em uma jornada de trabalho média no escritório, a maioria das pessoas visita cerca de 40 websites, que vão de redes sociais a portais de compras e entretenimento, segundo a RescueTime, que estuda os hábitos de 200 mil pessoas que baixaram seu software.
A frequência com que as pessoas saltitam na internet desacelera quase pela metade durante as primeiras horas da manhã, disse Low. Segundo Thorpy, muitas pessoas experimentam surtos de atividade duas ou três horas antes de dormir.
"Se isso combinar com seu estilo de vida, pode dar muito certo", ele disse. "Uma grande parte do início do dia para elas é quando as coisas se acalmam."
As sessões dos Nightowls duram enquanto houver pessoas trabalhando. "Ficamos abertos até eu me cansar", disse Grinshtein.
Lambke, que admite que na maioria das semanas não fica além de 1h ou 2h da manhã, disse que qualquer pessoa que precisar de um cochilo rápido pode se retirar para uma cadeira-saco muito confortável. "Talvez sejamos meio louco", ela disse. "Mas é divertido."
"Somos nova-iorquinos", acrescentou Grinshtein. "De qualquer jeito não dormimos muito."