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terça-feira, 7 de maio de 2019

Otaviano Canuto: entrevista sobre economia mundial e brasileira - Panorama Mercantil

Entrevista para Panorama Mercantil

Center for Macroeconomics and Development, May 6, 2019

Professor, qual a importância de instituições como o Fundo Monetário Internacional para a economia global?
FMI foi estabelecido para preservar a estabilidade monetária internacional. Desde sua criação há 75 anos, muitas coisas mudaram. No início dos anos 70, o sistema monetário internacional abandonou o regime cambial fixo e ajustável cuja tutela havia estado sob a guarda e vigilância do Fundo. Nas décadas seguintes, com o aumento da mobilidade internacional de capitais, a capacidade de socorro a países com seus recursos de curto prazo encolheu, a não ser em casos de pequenos números de economias em desenvolvimento com necessidade de caixa em divisas. O FMI tornou-se um observador da economia mundial, um administrador de crises e gestor dos programas de resgate dos países que recorrem aos recursos da instituição.
Já sua instituição gêmea também criada na mesma Conferência em Bretton Woods, o Banco Mundial, foi criada para financiar e fornecer apoio técnico para projetos de investimento na reconstrução de países devastados pela Segunda Guerra Mundial e para países em desenvolvimento. Com o tempo, a “graduação” de países de renda mais alta os tirou da carteira de clientes e estes passaram a ser doadores de recursos. O Grupo Banco Mundial ampliou seu foco na intermediação de recursos concessionais – em condições favoráveis – para as economias de baixa renda. Países de renda média – como o Brasil, classificado como de renda média-alta – ainda recorrem a empréstimos, quando custos ou vantagens na obtenção de conhecimento via operações são atraentes, mas sua proporção na carteira do Grupo Banco Mundial é declinante. Em termos relativos, o tamanho do Banco Mundial também encolheu como proporção dos fluxos globais de capital privado para as economias em desenvolvimento.
As instituições gêmeas, além de serem fontes de recursos para países com déficits de curto prazo e/ou necessidades de financiamento de longo prazo, em conjunto com bancos regionais de desenvolvimento, também começaram a desempenhar papel de assessoria quanto a políticas públicas, de catalisadores de fluxos financeiros e investimento privado, de gestores de conhecimento e coletores de dados, bem como na advocacia e apoio para a oferta de bens públicos globais. Desde um ponto de vista monetário-financeiro, sua importância para a economia global não é mais como no passado, mas continuam importantes como observadores, aconselhadores quanto a políticas e como câmaras de coordenação multilateral.
Como se encontra atualmente a solidez do sistema monetário-financeiro internacional?
O sistema monetário-financeiro internacional passou por mudanças relevantes desde a crise financeira global, em parte como resultado das respostas de políticas nacionais a esta. Os bancos das economias no centro da crise – norte-americanos e europeus – encolheram suas exposições além de suas fronteiras nacionais. Em parte, por terem queimado seus dedos, já que, por exemplo, bancos europeus cumpriram papel-chave na formação de bolhas de ativos nos EUA e dentro da zona do euro e, mesmo se beneficiando direta ou indiretamente de programas de resgate, não saíram ilesos. Também porque os reguladores bancários aumentaram requisitos de segurança e impuseram menores níveis de alavancagem e maiores reservas de liquidez.
Assistiu-se a enorme ampliação das carteiras de ativos de bancos centrais, como parte das “políticas monetárias não-convencionais”, com aumento das parcelas de ativos financeiros privados por eles adquiridos. Isto acentuou a “volta para casa” dos bancos privados. Bancos de países emergentes compensaram apenas parcialmente o encolhimento de europeus e norte-americanos.
O volume de recursos financeiros transfronteiras não declinou porque a emissão de títulos de dívida e os fluxos de capitais de portfólio preencheram a lacuna… A intermediação financeira não-bancária cresceu em termos relativos, inclusive através das fronteiras nacionais.
Por um lado, dado que bancos constituem o elo mais vulnerável a corridas e crises na cadeia de intermediação financeira, por conta da natureza de seus balanços com passivos de curto prazo, seu encolhimento vem implicando menor vulnerabilidade sistêmica a choques e a seu desdobramento em crises. Por outro lado, isto pode simplesmente ter significado a transferência de riscos para esferas não-bancárias.
Á medida que as políticas monetárias não-convencionais, com juros baixos e provisão de liquidez mediante aquisição de ativos pelos bancos centrais, se estenderam no tempo, tem-se assistido à emergência de focos de preocupação quanto a possíveis áreas de vulnerabilidade, por conta de excesso de alavancagem de credores e endividamento de tomadores. O endividamento corporativo chinês frequentemente aparece entre eles, mas o fechamento financeiro relativo do país e a capacidade de resgate por seu setor público mitiga a percepção de riscos.
O endividamento de empresas não-financeiras dos EUA também aparece nessa lista. Há, porém, fatores que atenuam a probabilidade de alguma catástrofe no futuro próximo, pelo menos enquanto durarem os baixos juros. Durante a expansão dos últimos anos, os gastos com investimentos fixos pelas empresas norte-americanas estiveram abaixo de seus lucros e muitas dispõem de reservas. Em parte, a emissão de dívidas foi para recompra de ações e, neste caso, resultado de reestruturações de balanço planejadas e não por necessidade de caixa. Margens de lucro empresarial declinaram recentemente, mas permanecem elevadas. Finalmente, o mercado de empréstimos alavancados e seus derivativos não têm proporções equivalentes às de seus antecessores.
O fato é que, como destacado no Relatório sobre a Estabilidade Financeira Global do FMI divulgado há algumas semanas, a vulnerabilidade em diversos setores – dívida soberana, empresas não-financeiras e instituições financeiras não-bancárias – está elevada em várias economias com peso na economia global. Surpresas negativas – reavaliação súbita de riscos por parte de credores, desacelerações inesperadas no crescimento mundial, acirramento de tensões comerciais, um Brexit caótico – podem expor tal vulnerabilidade e elevar riscos de instabilidade financeira no médio prazo.
A resposta então é: o sistema monetário-financeiro não está à beira de colapso, mas exibe vulnerabilidades crescentes em alguns pontos, especialmente em relação a mudanças de postura em relação a riscos por parte de agentes privados.
Vamos falar um pouco do Brasil. Quais erros devem ser evitados na política macroeconômica neste momento?
As direções da política macroeconômica anunciadas pelo Governo vão na direção de enfrentar dois problemas básicos da economia brasileira, a saber, a trajetória fiscal insustentável e a anemia nos aumentos de produtividade. Há necessidade de cortes permanentes nos gastos públicos para tornar exequível o cumprimento do teto de gastos estabelecido constitucionalmente, para o que será fundamental uma reforma previdenciária. Na mesma linha, implementar um programa de privatização pode funcionar como forma de obtenção de receitas extraordinárias e de focalização no escopo de operações de empresas públicas. Adicionalmente, será possível melhorar o ambiente de negócios e reduzir os desperdícios de recursos que este impõe sobre o setor privado mediante reforma que simplifique o sistema tributário.
Um programa de abertura comercial pode abrir oportunidades de melhoria de produtividade. Além disso, o reforço da participação privada na infraestrutura poderia impulsionar decisões de investimento, com efeitos sobre a demanda agregada e sobre a produtividade, negativamente afetada na história recente pela carência de investimentos em infraestrutura no país.
Por outro lado, confiança na materialização dessa agenda será condição necessária para que agentes privados contem com alguma melhora no dinamismo de mercados num horizonte para além da lenta e tíbia recuperação econômica em curso e, assim, resolvam assumir riscos e investir. Tais investimentos e outros gastos privados serão fundamentais para a revitalização do crescimento e estabelecer algum tipo de círculo virtuoso à frente, posto que a política fiscal não poderá ser expansiva, o consumo baseado no crédito passou há pouco por um ciclo de alta e queda e a dinâmica de emprego e salários continua deprimida. Condições monetárias e financeiras para apoiar tal ciclo de investimentos privados são hoje favoráveis, mas, parafraseando John Maynard Keynes, a distância entre a taça e a boca pode ser grande e vai depender de confiança.
O maior erro a se evitar, portanto, é dar margem de desconfiança quanto à coesão do executivo em torno da agenda econômica e quanto a sua capacidade de obter resultados no Congresso. Componentes não estritamente econômicos da agenda do Governo que possam gerar ruídos e reações, nos âmbitos doméstico e externo, também podem atrapalhar.
O senhor está vendo com bons olhos a reforma previdenciária que foi levada ao Congresso pelo presidente Bolsonaro?
Como dissemos, a reforma previdenciária será essencial para se esperar exequibilidade do ajuste fiscal nos próximos anos. A estimativa anunciada pelo Governo quanto a ganhos substantivos em termos de cortes de despesa pública, apesar de graduais ao longo dos próximos anos, está em linha com necessidades, embora não suficiente por si só para o cumprimento da exigência do teto de gastos. Visivelmente a proposta contém elementos que podem ser descartados ao longo da negociação congressual sem afetar em muito o resultado. Mas a prova do pudim está em comê-lo, como dizem os ingleses.
Acredita que o ambiente de negócios no país irá melhorar se a reforma previdenciária for aprovada?
Poderá reforçar a confiança não apenas no ajustamento fiscal, mas também na aprovação dos itens da agenda que dizem respeito a produtividade.
Quais outras reformas adicionais são necessárias para restaurar a sustentabilidade fiscal da nação?
Mesmo que uma reforma previdenciária com resultados substantivos seja obtida, haverá necessidade de outras medidas, já que os ganhos com a reforma previdenciária não ocorrerão no futuro imediato. Itens óbvios no caso seriam uma revisão de subsídios e isenções tarifárias vigentes, bem como redução em termos reais de gastos públicos com pessoal.
O ex-diretor do FMI
Instituições Globais: O ex-diretor do FMI, Otaviano Canuto (Foto: Divulgação/AP)
Por que a economia do Brasil ainda é tão fechada?
No Brasil, como em outras partes do mundo, grupos de interesse tendem a se estabelecer em defesa de políticas que os privilegiem, mesmo quando se possa mostrar a possibilidade de seu ônus sobre os demais. O Brasil recorreu historicamente a proteção e fechamento comercial com intensidade acima até de outras experiências comparáveis. O tipo de “governança” – ou seja, de relação entre setores público e privado – só fortaleceu e se beneficiou desse fechamento. A saída poderia ser um programa de abertura gradual, desde que acompanhada de confiança de que os problemas usados como justificativas para a proteção comercial estejam sendo solucionados (ambiente de negócios desfavorável, infraestrutura, etc.).
Também diminuiria a resistência caso o Governo apresentasse programas de suporte e adaptação a regiões e trabalhadores que sofreriam o impacto imediato da abertura, tornando possível que os ganhos dos “vencedores” com a abertura compensem em parte os “perdedores”. Aliás, esse ponto se aplica ao conjunto das políticas públicas.
O Governo Dilma é o principal culpado pela nossa piora fiscal?
É um grande culpado, mas não o único. Desde os anos 90 tem-se uma máquina legal – constitucional e infra-constitucional – em operação, mandando quem quer que esteja no executivo aumentar gastos ano após ano. Vinculações de receitas, pisos de gastos, privilégios previdenciários e outros, em parte com boas intenções distributivas, mas também sem revisão de privilégios, implicaram gastos públicos ascendentes em termos reais ao ritmo médio de 6% ao ano entre 1992 e 2014. Não por acaso, apesar dos anos de crescimento econômico acima de 4% na década passada, a proporção de gastos públicos elevou-se substancialmente como proporção do PIB. Além disso, o percentual de orçamento disponível para infraestrutura e outros gastos públicos discricionários foram encolhendo. Nada disso se transfigurou em crise fiscal antes porque, dada a incorporação de trabalhadores e a tributação com base em seu consumo, a carga tributária também subiu em termos reais. O fim da onda de crescimento via incorporação de mão de obra e por conta do super-ciclo de preços de commodities mostrou que o setor público estava sem calção de banho.
A parcela de culpa do Governo Dilma diz respeito à fantasia que tentou realizar quando aquele padrão de crescimento brasileiro dos anos prévios à crise financeira global deu sinais de exaustão a partir de 2011. Tentou usar a dívida pública para disparar gastos e investimentos privados que pudessem iniciar um novo ciclo de crescimento, através do financiamento subsidiado via bancos públicos e outras generosidades fiscais. O resultado acabou sendo deterioração fiscal sem contrapartida de investimentos privados suficientes. Verdade seja dita, porém, que o Governo Dilma apenas acentuou uma trajetória já dada estruturalmente.
Como analisa as fintechs no cenário econômico-financeiro, afinal o senhor é um grande entusiasta das novas tecnologias?
Fintechs oferecem um enorme potencial de redução de custos de intermediação financeira e de aumento na concorrência na oferta de serviços. Ao mesmo tempo, trazem nova gama de riscos e há necessidade de ajuste – com aprendizado – na regulação financeira.
Em algum momento da sua existência, o Brasil deixará de ser um país tão “apegado” ao Estado?
Essa será provavelmente a grande questão no futuro econômico do país. Em que medida será capaz de abandonar um padrão de governança – ou seja, de relação entre setores público e privado – em que a busca de “extração de rendas” predomina sobre a busca de eficiência e da “inclusão” que torne sempre possível a contestação de posições de quem já estiver instalado. Por um lado, a agenda econômica do Governo aponta nessa direção. Por outro, a ausência de “inclusão social” como objetivo paralelo é uma fragilidade.

                                                                                  Um vídeo do economista Otaviano Canuto

sábado, 13 de abril de 2019

Meu primeiro artigo em búlgaro: economia brasileira na revista Europa 2001

A convite da embaixadora do Brasil na Bulgária, Ana Maria Sampaio Fernandes, preparei um pequeno artigo sobre a economia brasileira, para ser inserido, junto com vários outros artigos de colegas diplomatas e acadêmicos, em um número especial da revista búlgara Europa 2001, dedicada ao Brasil.

Reproduzo abaixo os dados relevantes dessa publicação, uma vez que se trata de meu primeiro, e até agora único, texto publicado em búlgaro, portanto em alfabeto cirílico. Mais abaixo transcrevo o original do artigo em português.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 13 de abril de 2019

Estes são dos dados editoriais deste número especial da revista búlgara.

Aqui o sumário da revista: 

Aqui a introdução ao número especial pela embaixadora Ana Maria Sampaio Fernandes:


Aqui o início de meu artigo publicado: 



E aqui, finalmente, o original escrito em português: 


Economia brasileira: desenvolvimento histórico e perspectivas

Paulo Roberto de Almeida
Diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI) da
Fundação Alexandre de Gusmão (MRE); professor no Centro Universitário de Brasília.

1. A economia brasileira em perspectiva histórica
A economia brasileira tem uma longa trajetória de desenvolvimento desde a fase colonial, passando pela independência – que preservou as mesmas estruturas produtivas, baseadas nas plantações extensivas de produtos agrícolas de exportação e no trabalho escravo – até o intenso processo de industrialização desde meados do século XX. No último meio século o Brasil conheceu um processo bem-sucedido de fortalecimento de sua base industrial, ao mesmo tempo em que a revolução agrícola nas terras centrais sustentou a constituição de uma potente agricultura comercial.
O Brasil é um dos poucos países do mundo perfeitamente habilitados a fornecer alimentos – carnes, grãos, possivelmente lácteos – à ainda crescente população mundial, ao mesmo tempo em que o agronegócio investe pesadamente em energias renováveis com base na biomassa. Junto com as demais energias alternativas – eólica e solar –, o Brasil promete sustentar igualmente a demanda futura nessas duas vertentes do abastecimento estratégico: a segurança energética e a segurança alimentar.

2. Características atuais e desenvolvimentos futuros
A despeito de crises ao longo das últimas décadas – dívida externa nos anos 1980, inflação até meados dos anos 1990, e crise fiscal no período recente –, a economia brasileira apresenta solidez em seus principais componentes: agricultura, indústria, serviços. O processo de modernização ocorrido desde os anos 1960, trouxe o Brasil de uma posição secundária entre as grandes economias – entre 30a e 40a naquela década – para um papel de maior relevo nos últimos vinte anos, sempre situado entre as dez maiores do mundo. Tal posição deve se manter no futuro, apesar de a renda per capita colocar os brasileiros numa posição menos invejável: entre a 60a e 70a classificação. A distribuição de renda também apresenta indicadores muito negativos, basicamente devido a uma negligência histórica das elites com a educação de massa, que recém supriu carências seculares no campo das taxas de escolarização no ensino básico; a proporção de jovens no ciclo universitário também é insuficiente para garantir uma taxa sustentada de crescimento da produtividade nos dias atuais, o que representa um dos principais, e dos mais graves, desafios à economia brasileira.
O desempenho econômico nas três últimas décadas foi irregular: depois da estabilização macroeconômica conduzida pelo Plano Real (1994-99), a economia do país se beneficiou com a enorme demanda chinesa pelos seus produtos de exportação – basicamente soja e minério de ferro –, período no qual o crescimento das receitas de exportação e do crédito interno permitiu incluir num mercado em expansão largos extratos dos setores mais pobres da população. Equívocos nas políticas econômicas implementadas ao início da segunda década – expansão dos gastos públicos, intervencionismo do Estado no setor privado, uso de bancos públicos para financiamentos não diretamente produtivos – levaram o Brasil a uma enorme crise fiscal. A gestão da economia está sendo corrigida por uma orientação mais liberal da política econômica, com abertura, liberalização comercial e maior integração do país às cadeias produtivas de valor. Na conjuntura de 2017-2018, o PIB do Brasil se situava num nível pouco acima de 2 trilhões de dólares, o que reverte num PIB per capita – para uma população superior a 209 milhões de habitantes – de cerca de US$ 10 mil.

3. Desafios da economia brasileira: equilíbrio fiscal, investimentos, produtividade
A economia brasileira enfrenta três problemas conjugados, que requerem soluções diferenciadas. Em primeiro lugar, uma grave situação de desequilíbrio fiscal: até a década anterior, a principal rubrica dos gastos públicos era constituída pelo pagamento de juros da dívida pública, agora largamente suplantado pelas despesas previdenciárias, em crescimento alarmante nos anos recentes, sobretudo no regime especial dos funcionários públicos, em total desproporção com o regime geral do setor privado. Os gastos com salários e funcionamento da máquina do Estado são elevados: o Judiciário, por exemplo, representa um gasto total de cerca de 2% do PIB, o que representa mais do que o dobro para a média desse tipo de gastos na maior parte dos países. Os salários no Legislativo também estão em flagrante contradição com a média para funções equivalentes ou similares no setor privado. Mais do que aumentar a arrecadação, cabe reduzir as despesas públicas, o que significará desestatização de diversos serviços públicos, privatização de companhias estatais e um regime de concessões e de venda de ativos para reduzir o peso do Estado sobre a economia e a própria sociedade brasileira.
Em segundo lugar, existe um problema de médio prazo relativo ao volume, notoriamente insuficiente, dos investimentos, tanto privados quanto públicos. A taxa de poupança é historicamente modesta no Brasil – entre 15 e 17% do PIB –, sendo que o nível dos investimentos públicos vem caindo a cada ano, tanto em razão do crescimento das despesas correntes, quanto em função da crise orçamentária dos últimos anos e da redução das receitas pela recessão criada pelas próprias políticas do governo. Reformas estruturais nos mercados de capitais, na concentração do setor bancário, no regime previdenciário, bem como um programa radical de abertura econômica, com flexibilização nos regimes regulatórios setoriais, permitiriam elevar a taxa de investimentos a níveis compatíveis com uma média de crescimento sustentado acima de 2,5% ao ano.
A questão da baixa produtividade geral da economia é, justamente, o terceiro grande problema do Brasil. As razões são complexas e têm tanto a ver com deficiências de infraestrutura e de ambiente de negócios quanto com a má qualidade dos sistemas de ensino no Brasil, o que acaba se refletindo na baixa produtividade da pesquisa aplicada conduzida nas universidades. Em média, um trabalhador brasileiro é cinco vezes menos produtivo do que trabalhadores de países membros da OCDE, o que se explica pelo diferencial dos anos de estudo (geralmente o dobro nestes do que no caso do Brasil).
De forma geral, indicadores bem conhecidos da maior parte dos especialistas em desenvolvimento econômico permitem identificar claramente as principais deficiências da economia brasileira comparativamente não apenas aos países líderes da economia mundial, mas também a emergentes partindo de patamares semelhantes de desempenho produtivo e no mundo dos negócios. Relatórios anuais do tipo Doing Business, do Banco Mundial, o de competitividade, do World Economic Forum, e das liberdades econômicas, do Fraser Institute oferecem, numa leitura combinada, um panorama negativo do ranking geral da posição brasileira em indicadores de desempenho, assim como uma postura modesta em indicadores setoriais, como carga tributária, protecionismo comercial, custos de transação derivados da burocracia pública, ausência de infraestrutura, custos de comunicação e transportes, e vários outros índices setoriais.
De modo geral, apesar de um bom volume de investimentos diretos estrangeiros no Brasil, comparativamente a outros países emergentes, esse nível é bastante modesto quando visto em proporção do PIB, e também no direcionamento atribuído a grande parte desses investimentos, muitas vezes visando mais o mercado interno – que é, compreensivelmente, bastante amplo no Brasil – do que as exportações, uma vez que o país é bastante introvertido em termos de coeficiente de abertura externa, a mais reduzida de todos os membros do G20, em média inferior à metade da média mundial. O Brasil e os demais membros do Mercosul – o bloco de integração regional integrado ainda pela Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia – registram uma participação diminuta nas cadeias globais de valor, o que também explica os baixos níveis de competitividade internacional – praticamente reduzida à exportação de produtos de base – apresentados pelo grupo em face de outros países ou blocos (como a Aliança do Pacífico, por exemplo, formada por México, Colômbia, Peru e Chile, na perspectiva de se integrarem ao grande espaço econômico da Ásia Pacífico).
Outro grande desafio da economia, e da sociedade, do Brasil reside nos níveis elevados de desigualdade distributiva, com índices de Gini gradualmente cadentes, mas ainda muito elevados para países de renda per capita similar. Em geral, menos de 10% da população se apropria de quase a metade da renda nacional, restando pouco menos de 10% dessa renda para mais de 40% da população. O desemprego cresceu bastante em função da crise – mais de 13% da população economicamente ativa –, mas os níveis de informalidade são também muito elevados, em função de uma legislação laboral muito rígida para as características da força de trabalho e dos níveis de produtividade. Finalmente, a dívida externa já não é mais um problema, como foi em décadas passadas, mas sim o crescimento preocupante da dívida doméstica, não tanto em função de seus níveis absolutos, mas simplesmente em razão dos níveis elevados dos juros correspondentes, o que aumenta o peso do seu serviço no conjunto dos gastos públicos.
Não obstante, o Brasil apresenta condições favoráveis a novos surtos de crescimento sustentado nos anos à frente, uma vez implementadas reformas estruturais e administrativas necessárias. Sua base energética é notoriamente limpa, com um grande componente de renováveis – hidráulica e biomassa, mas também um grande impulso nas fontes alternativas, sobretudo eólica e solar –, ao lado das imensas jazidas de óleo do pré-sal, o que garante investimentos e exportações satisfatórios por muitos anos no futuro. Uma população perfeitamente multirracial, aberta a todos os credos religiosos e tradições culturais, receptiva às modernidades tecnológicas, uma diplomacia atuante nos planos bilaterais e multilateral, o estrito respeito ao direito internacional e a outros princípios das relações internacionais, junto com o reforço das instituições democráticas nacionais e a defesa ampliada dos direitos humanos nos mais diferentes recantos do país, também constituem fatores amplamente positivos no futuro que se desenha para o Brasil no médio e no longo prazo. O encaminhamento de todas essas questões depende basicamente da capacidade do povo brasileiro em encontrar respostas adequadas aos principais desafios, o que é totalmente compatível com o otimismo inerente à sua gente.
Brasília, 23 de janeiro de 2019

terça-feira, 2 de abril de 2019

100 anos de história do Brasil – e o futuro de Bolsonaro - em 1 gráfico (InfoMoney)

100 anos de história do Brasil – e o futuro de Bolsonaro - em 1 gráfico

"É a economia, estúpido!", diz um famoso bordão da política americana, segundo o qual o bem-estar material da população é mais importante do que o falatório que rodeia a política. Com um gráfico, é possível mostrar como a política também tem regido a política na história do Brasil. O clichê dos americanos é muito útil para prever o que acontece por aqui. E o futuro de Bolsonaro não deve fugir à regra.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.
Jair Bolsonaro
Eu já escrevi textos sobre gráficos aqui no blog, mas nunca sobre um gráfico só. Mas acho que esse vale a pena. Com uma imagem, é possível entender uma das principais engrenagens da história brasileira – e, ao mesmo tempo, compreender o que mais importa para o futuro de Bolsonaro. Numa imagem, há mais informação do que em muitas páginas de livros. 
Se você é craque em ler gráficos, basta prestar atenção e boa parte do texto será dispensável. Caso o leitor tenha dificuldade com o assunto, fique tranquilo: a comunicação escrita resiste bravamente e, nas linhas abaixo, explico o gráfico e a relevância dele em maiores detalhes.

O gráfico

O PIB per capita, a renda média produzida num país num dado ano, é uma das melhores métricas que temos para o bem-estar material de uma nação. Portanto, o crescimento do PIB per capita é uma espécie de velocímetro do bem-estar nacional médio, um medidor dos avanços (ou retrocessos) num ano.
Pena que não dá pra entender muita coisa a partir de um gráfico da taxa anual de crescimento. Em 2009, o PIB per capita brasileiro caiu 1,34%; em 2010, cresceu 6,2%. Variações bruscas ano-a-ano tornariam o gráfico da taxa anual simples muito poluído, com uma linha subindo e descendo e atrapalhando a visualização dos padrões que importam.
Por isso, usei a taxa média de crescimento do PIB em 5 anos. Para o ano de 2018, por exemplo, o eixo y mostra a taxa anualizada de crescimento entre 2013 e 2018 – matematicamente, é a raiz quinta do crescimento total em 5 anos. Assim, é possível suavizar o gráfico e a análise fica mais precisa.
O gráfico vai de 1923 a 2023, abarcando 100 anos de história do Brasil - 95 anos do passado e 5 de projeções para os próximos anos. As projeções se baseiam num estudo do Ministério da Economia, que explico melhor na última parte do texto.
Resumindo: a variável-chave do gráfico é o avanço ou retrocesso da renda média do brasileiro nos anos anteriores. E, como ficará claro na próxima parte do texto, essas idas e vindas são muito valiosas para entender a história política do Brasil.
Sem mais enrolação, eis:
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É a economia, estúpido: todos os “vales” de crescimento dos últimos 100 anos levaram a grandes mudanças jogo do poder

As economias costumam funcionar em ciclos de crescimento, como o do Brasil nos anos 2000, seguidos por pioras, como a crise recente. A taxa média de crescimento cai até atingir um piso, depois sobe até um pico, cai de novo e assim sucessivamente, de modo que o gráfico final parece ser formado por várias letras “v”, lado-a-lado, cada qual com uma forma.
Todos os “vales” de crescimento – ou seja, na parte de baixo de cada letra “v”, os maus momentos na economia – estão associados a grandes acontecimentos históricos que mudaram, ainda que parcialmente, os donos do poder.
É a visualização de um famoso bordão da política, muito bem resumido pela famosa frase de James Carville, estrategista da campanha vitoriosa de Bill Clinton à presidência dos EUA em 1992: “É a economia, estúpido!”. O grande determinante da força política seria o dinheiro, as variações na renda do cidadão médio.
É possível contar boa parte da história do Brasil com o gráfico.
Nos primeiros 10 anos entre 1923 e 1933, a taxa média de crescimento do PIB brasileiro cai de quase 6% para menos de 0,5%. Não por acaso, a elite política naqueles tempos sofreu duros golpes. Os anos 20 começaram com revoltas contra a República Velha, como o tenentismo e a coluna Prestes. Após a crise de 1929, veio a Revolução de 1930 liderada por Getulio Vargas, que depôs os antigos donos do poder.
Os primeiros anos de Vargas foram de crise econômica e revoltas como a de São Paulo em 1932. Mas a economia voltou a crescer, aproximando-se novamente dos 6% ao ano entre 1932 e 1937. O ano de 1937 não representa apenas o auge econômico do primeiro Getúlio: naquele ano, ele aproveitou a popularidade conquistada com os anos de crescimento para implantar a ditadura do Estado Novo.
Mas a economia voltou a desacelerar na nova ditadura, chegando a um novo piso em 1942, o mais baixo do gráfico até o momento, chegando pela primeira vez a valores negativos. Foi também o início do fim para Vargas, que se enfraqueceu e saiu do poder assim que a Segunda Guerra Mundial permitiu.
O suicídio de Getúlio em 1954, assim como o golpe preventivo que garantiu a posse de JK em 1955, aconteceram num ‘vale’ de crescimento econômico, embora o nível do crescimento tenha sido bem alto no período.
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A situação começa a melhorar até 1959, mas então piora rapidamente. O PIB per capita brasileiro cresceu 7,5% em 1958 e caiu -2,5% em 1963. Essa rápida deterioração econômica nos conturbados anos de Jânio e Jango, que também vinha acompanhada por inflação crescente, foi fundamental para o golpe de 64.
A partir da ditadura, o padrão fica ainda mais claro. Desde o pico em 1973, a taxa média de crescimento em 5 anos teve quatro pisos: em 1985, 1992, 2001 e 2018. São os anos do final da ditadura, do impeachment de Collor e da eleição de Bolsonaro, além do ano que precedeu a derrota tucana contra Lula em 2002. Não pode ser coincidência.

O futuro de Bolsonaro

Como já disse, 5% do gráfico se refere a anos ainda incompletos, de 2019 e 2023. Só é possível falar do PIB per capita em anos futuros por conta de um estudo do Ministério da Economia sobre os impactos da reforma previdenciária no crescimento do PIB. Por isso, as linhas estão tracejadas e em outra cor: tratam-se de outros dados, com outras fontes e outra natureza.
Mesmo que se discorde frontalmente das conclusões e premissas adotadas, os resultados podem ser vistos como os cenários otimista e pessimista para a economia brasileira.
No cenário da linha azul, a reforma da previdência é aprovada, as contas públicas voltam rapidamente ao superávit, os juros caem, investimento e emprego voltam. A linha vermelha representa o cenário oposto.
A grande conclusão que se pode tirar, na minha opinião, é que polêmicas vazias da ministra Damares, dos filhos do presidente ou de outros suspeitos habituais serão irrelevantes para o futuro político do presidente. O que importa é Paulo Guedes e a agenda de reformas.
Nenhuma estratégica de comunicação ou apelo a valores morais será eficaz caso o desemprego volte a subir. É isto o que importa.
Repare, leitor, em algo que quase não falei sobre o gráfico: os momentos de rápida aceleração. Grandes subidas levam a grandes personagens da história brasileira: Médici, Getúlio, JK, Lula e os outros recordistas de fotos em livros de história. O Bolsonaro da linha azul teria tudo nas mãos para entrar na lista.
Já a linha vermelha seria o puro fracasso. Time de Dilma e Collor, que saíram por impeachment. Também o time de Sarney, Temer e FHC, que terminaram seus mandatos com a economia em queda e se tornaram tóxicos na eleição. Sem reforma, esse será Bolsonaro em 2022.
Não importa quanto os olavistas falem em resgatar a identidade moral do brasileiro, eles são secundários para o sucesso do presidente. Pelo contrário, é a reforma que se mostra fundamental para o sucesso deles. É a economia, estúpido!
Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.