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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

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domingo, 10 de fevereiro de 2019

Intelectuais e diplomacia: coletânea - Paulo Roberto de Almeida


Trajetórias intelectuais: uma coletânea de escritos

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11 de fevereiro de 2019, 3 p.
Compilação dos escritos a propósito de intelectuais na diplomacia.

704. “Nosso homem no Itamaraty”, Brasília, 18 agosto 1999, 2 p. Elementos de informação sobre os “intelectuais” do Itamaraty, como subsídio a matéria de Paulo Moreira Leite, então na revista VEJA. Não aproveitado no momento, em virtude da transferência de PML para Washington, para trabalhar no jornal Gazeta Mercantil.

1054. O Sociólogo Aprendiz: reminiscências de um outro século, Washington, 26 mai. 2003, 202 p. Compilação linear das listas de trabalhos, bem como das introduções e prefácios preparados para os volumes encadernados de trabalhos originais e publicados (1968 a 1997), agregados de prefácio, como forma de subsidiar a preparação de livro de memórias intelectuais, de um século a outro. Relacionar ao esquema preparado no trabalho n. 1040 (“Mania de Brasil”: livro social-biográfico).

1642. “Economia política do intelectual”, Brasília, 20 julho 2006, 11 p. Uma visão cética sobre alguns dos mitos da nossa época. Espaço Acadêmico (ano 6, n. 63, agosto 2006). Relação de Publicados n. 690.

1781. “Perguntas a um Espectador Engajado”, Brasília, 12 agosto 2007, 1 p. Questões formuladas ao personagem idealista que teima em desenvolver atividades intelectuais paralelas aos afazeres profissionais normais e às lides acadêmicas mais comuns.

1790. “PIB potencial e disponibilidade intelectual”, Brasília, 26 agosto 2007, 4 p. Considerações sobre minha trajetória intelectual e meu “não-aproveitamento” funcional.

2000. “Um balanço da produção e seu sentido...: reflexões livres por ocasião do trabalho n. 2000”, New York, 28 abril 2009, 9 p. Comentários a propósito de minha produção intelectual, na passagem do trabalho (devidamente identificado) número 2000; dispensando o balanço contábil (com estatísticas a respeito), efetuei uma avaliação qualitativa e uma reflexão livre sobre meus textos como complemento às atividades didáticas. Publicado no blog Diplomatizzando (em 28.04.09; link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2009/04/1086-por-ocasiao-do-trabalho-nr-2000.html#links).

2039. “Um intercâmbio acadêmico sobre a responsabilidade do Intelectual”, Brasília, 21 agosto 2009, 2 p. Intercâmbio com Antonio Ozai sobre Marx e os marxistas, a propósito de seu post “Marx e os marxismos” (Blog do Ozai: http://antonio-ozai.blogspot.com/2009/06/marx-e-os-marxismos.html). Circulado na lista Diplomaticas e postado em meu blog Diplomatizzando (21.08.2009; link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2009/08/1302-um-intercambio-academico-sobre.html). Serviu de base à elaboração do trabalho n. 2103: “Sobre a responsabilidade dos intelectuais: devemos cobrar-lhes os efeitos práticos de suas prescrições teóricas?”, Brasília, 19 janeiro 2010, 12 p. Argumentos de natureza política e histórica sobre a falência do marxismo aplicado. Espaço Acadêmico (vol. 9, n. 105, fevereiro 2010, p. 149-159). Postado no blog Diplomatizzando (4/09/2017; link: https://diplomatizzando.blogspot.com.br/2017/09/sobre-responsabilidade-dos-intelectuais.html).

2052. “Memórias Intelectuais: Uma biografia das ideias que permearam a minha vida”, Brasília, 18 outubro 2009, 8 p. Começo do que pretende ser uma história das ideias, ou uma biografia intelectual, consistindo numa pequena introdução que se poderia chamar de metodológica a uma obra mais vasta e gradual. Inédito em versão integral; feita versão resumida em 22.12.2009. Postado no blog Diplomata Z (1.01.2010; link: http://diplomataz.blogspot.com/2010/01/29-memorias-intelectuais.html).

2063. “Etapas cronológicas (mais uma) e sentido da vida (se é que existe):, Brasília, 19 novembro 2009, 5 p. Considerações sobre minhas orientações intelectuais e produção acadêmica. Postado no blog Diplomatizzando (19.11.2009; link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2009/11/1520-proposito-de-mais-um-aniversario.html) e no blog DiplomataZ (http://diplomataz.blogspot.com/2009/11/22-mais-um-aniversario.html).

2103. “Sobre a responsabilidade dos intelectuais: devemos cobrar-lhes os efeitos práticos de suas prescrições teóricas?”, Brasília, 19 janeiro 2010, 12 p. Argumentos de natureza política e histórica sobre a falência do marxismo aplicado, elaborado com base no trabalho 2039: “Um intercâmbio acadêmico sobre a responsabilidade do Intelectual”. Revisto em 3.02.2010. Espaço Acadêmico (vol. 9, n. 105, fevereiro 2010, p. 149-159; ISSN: 1519-6186; link: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/9275/5252). Postado no blog Diplomatizzando (4/09/2017; link: https://diplomatizzando.blogspot.com.br/2017/09/sobre-responsabilidade-dos-intelectuais.html). Relação de Publicados n 952.

2388. “Os diplomatas e a cultura brasileira”, Antuérpia, 28 Abril 2012, 3 p. Comentários sobre as relações entre os diplomatas culturais, ou intelectuais, e o Itamaraty. Postado no blog Diplomatizzando (http://diplomatizzando.blogspot.com/2012/04/diplomacia-e-cultura-uma-relacao-sempre.html).

2594. “Uma vida através dos livros: minhas memórias intelectuais”, Hartford, 24 março 2014, 10 p. Registro parcial dos livros mais importantes publicados no mundo e no Brasil, ao longo de minha vida. Para desenvolvimento futuro com comentários sobre os autores e suas obras, ano a ano.

2753. “Minhas memórias intelectuais”, Hartford, 17 janeiro 2015, 2 p. Apenas títulos, conceitos, símbolos de uma vida pensada, atravessa, refletida, produzida, para servir como base de futuras memórias sobre as ideias, e situações, que permearam uma vida de produção intelectual.

2911. “Uma vida entre dois séculos: um balanço retrospectivo”, Anápolis, 26 dezembro 2015, 9 p. Reaproveitamento do trabalho 2877, para fins de avaliação do itinerário intelectual percorrido e de parte da produção realizada, nos terrenos profissional e acadêmico, mas de modo qualitativo. Postado no blog Diplomatizzando (link: http://www.diplomatizzando.blogspot.com.br/2015/12/uma-vida-entre-dois-seculos-um-balanco.html), disseminado no Facebook.

3018. “Breve nota biográfica: Paulo Roberto de Almeida”, Brasília, 2 agosto 2016, 2 p. Pequena nota sobre meu itinerário intelectual, e sobre o que apreciaria ser lembrado como contribuição social. Postado no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2016/08/breve-nota-biografica-paulo-roberto-de.html).

3045. “O prazer intelectual como objetivo de vida”, Brasília, 8 outubro 2016, 2 p. Mini-reflexão sobre a importância do conhecimento em minha vida. Postado no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2016/10/mini-reflexao-sobre-o-significado-da_8.html), disseminado no Facebook (https://www.facebook.com/paulobooks/posts/1284854741577973).

3282. “Diplomatas intelectuais: uma elite do conhecimento no Itamaraty”, Brasília, 5 junho 2018, 2 p. Projeto de nova edição da obra O Itamaraty na Cultura Brasileira (2001); correspondência enviada aos novos colaboradores, com exceção do capítulo sobre Sérgio Corrêa da Costa: Roberto Campos: Paulo Roberto de Almeida; Lauro Escorel: Rogério de Souza Farias; Sergio Corrêa da Costa: Antonio de Moraes Mesplé; Wladimir Murtinho: Rubens Ricupero; Vasco Mariz: Mary Del Priore; e José Osvaldo de Meira Penna: Ricardo Vélez-Rodríguez. Em preparação.

3333. “Da quantidade à qualidade: o significado dos números coincidentes”, Brasília, 23 setembro 2018, 5 p. Digressão sobre a produção intelectual, listas de originais e de publicados, a propósito do trabalho 3333. Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2018/09/na-oportunidade-do-meu-trabalho-3333.html), Facebook (link: https://www.facebook.com/paulobooks/posts/2104838996246206).

3349. “De volta ao meu quilombo de resistência intelectual: resistir, perdurar, continuar o debate de ideias”, Rio de Janeiro, 18 outubro 2018, 4 p. Comentários sobre as próximas etapas de minha postura contrarianista. Divulgado no blog Diplomatizzando (22/10/2018; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2018/10/de-volta-ao-meu-quilombo-de-resistencia.html).


Preparatório a algum trabalho sobre o tema.


domingo, 8 de abril de 2018

A neoliberalização e os seus descontentes (2003) – Paulo Roberto de Almeida

Em novembro de 2003, recém retornado ao Brasil depois de 4 anos no exterior, encontrei um ambiente muito confuso entre os tradicionais apoiadores do partido da reforma integrantes da minha "classe", ou seja, a dos acadêmicos engajados. Desde o início do governo Lula, em janeiro de 2003, como o governo confirmasse as políticas cautelosas, prudentes, "neoliberais", do governo anterior, essa classe autodenominada de "intelectuais" começou a publicar manifesto atrás de manifesto condenando essas políticas e exigindo uma "política desenvolvimentista", no velho estilo daquilo que já tinha sido praticado no Brasil antes e durante o regime de 1964, e que resultaram naqueles desastres que todos conhecemos: hiperinflação, dívida externa, desvalorização, crise de balanço de pagamentos, recessão, desemprego, etc.
Sem qualquer mandato do governo, escrevi alguns textos criticando, não o governo – o que eu também fiz, aberta e "secretamente" –, mas esses intelectuais desmiolados (e muitos sairiam do PT, batendo a porta, para se abrigar no PSOL, outros foram expulsos, por recusar reformas que o governo estava promovendo, acusadas de serem "neoliberais").
O texto abaixo é um retrato dessa luta solitária que mantive durante bastante tempo, de um lado contra as inconsistências do governo – que eu considerava, ao início, serem apenas resultado da incompetência dos companheiros, de sua inépcia administrativa, e que mais adiante eu descobri que eram deliberadas, medidas e políticas criminosas, feitas expressamente para roubar – e, de outro lado, contra as loucuras dos intelectuais de academia.
Como atualmente, essa mesma classe retorna para apoiar agora o personagem a quem acusou de se render aos capitalistas e neoliberais (o que é verdade, diga-se de passagem), e que se revelou o maior bandido da história política do Brasil, considero ser interessante republicar esse meu texto de crítica à minha "classe" (mas que não deve considerar que eu pertenço às suas fileiras, por sectarismo, claro). Toda a esquerda e grande parte da academia progressista juntou-se aos "mortadelas" – os militantes voluntários ou os mercenários pagos para gritar em prol do meliante corrupto – e denuncia o julgamento "político" do chefe da quadrilha, inclusive um ex-chanceler que vive pateticamente repetindo mentiras e atuando contra o Brasil.
Eis o artigo, escrito no final de 2003.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 8 de março de 2018

A neoliberalização e os seus descontentes:
os órfãos do old-PT e os filhos (confusos) do new-PT

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 27 de novembro de 2003

A sociedade brasileira, na interpretação de muitos intelectuais, estava pronta para grandes mudanças no decurso do processo eleitoral de 2002. Mais do que isso, ela exigia mudanças, cansada que estaria da “mesmice” dos oito anos de tucanato, ou pior, das velhas receitas de política econômica do Consenso de Washington, com o apoio dos políticos fisiológicos dos partidos aliados, a começar pelo PFL mas também pelo PMDB. Como resultado desse grande movimento para a frente, eis que surge um novo poder, liderado pelo partido que tinha prometido mudanças durante toda a sua vida de lutas em direção ao poder. Mais do que isso, ele era a própria encarnação das mudanças, ou pior, um partido em mudanças constantes, apenas que muito mais para dentro do que para fora de si mesmo.
Pois bem, quando esse partido finalmente mudou, a começar pelos compromissos assumidos pelo candidato a presidente em carta ao povo brasileiro, divulgada em junho de 2002, e depois novamente ao assumir finalmente o poder, em janeiro seguinte, os mesmos intelectuais fingem se surpreender e reagem indignados às muitas mudanças que o, agora, maior partido do Ocidente passou a defender, em defesa de teses tão antigas quanto legítimas, como a justiça e a inclusão sociais, a correção das enormes e gritantes desigualdades da sociedade brasileira e a decisão de colocar o Estado a serviço da maioria da população, e não apenas dos privilegiados de sempre. Estas reações parecem evidentes, a partir da gritaria em torno da reforma da Previdência – aprovada com o apoio de grande parte do PFL e da maioria do PMDB -- e em função das principais medidas de política econômica defendidas pela equipe dirigida pelo ministro da fazenda. Por que tudo isso?
Com efeito, enquanto a economia bate recordes de recessão, ou de estagnação, e a população economicamente ativa soçobra gradualmente no desemprego, a academia jamais apresentou níveis tão elevados de produtividade intelectual e de pleno emprego de suas forças produtivas, ainda que na redação de simples manifestos, abaixo-assinados e outras manifestações de “horror econômico”. O motivo? Os acadêmicos protestam contra essa realidade tão prosaica quanto chocante: o mundo mudou, o Brasil mudou e o PT também mudou, como o provam as medidas econômicas, as alianças políticas e o novo discurso social. Quem não mudou, finalmente, foram os acadêmicos, que continuam onde sempre estiveram: no alto de suas cátedras, escrevendo manifestos e assinando cartas ao presidente nos quais exigem mudanças na política econômica do governo.
Em face de um novo manifesto em prol de mudanças na política econômica de Lula, recentemente dado a luz com a fanfarra de sempre, pode-se perguntar: estaríamos em presença de uma nova traição dos clérigos? Ou se trata apenas de um velho cenário que já começa a cansar pela mesmice aborrecedora dos propósitos e argumentos?: os acadêmicos de sempre, “surpreendidos” e “frustrados” com as medidas do governo, lançam mais um “abaixo-assinado” para alertar contra a gravidade da situação e pedir mudanças na política econômica oficial. Déjà vu all over again

Eles só tem a perder os grilhões mentais…
O que terá acontecido com os acadêmicos brasileiros? A Nação vive um momento político sem precedentes em sua história republicana mas eles não parecem se dar conta da importância das mudanças ocorridas no partido governista, que se prepara agora para mudar o País a partir de novas bases conceituais. Bye byevelhas receitas estatizantes e dirigistas e bem-vindas sejam as novas parcerias público-privadas e a reorientação dos gastos sociais do governo. É o novo PT em ação.
Isso, entretanto, não parece impressionar os acadêmicos, encerrados como de hábito em sua torre de marfim, mas que pretendem ainda assim falar em nome da Nação: sem ter obtido nenhum voto popular, nenhum mandato executivo, sem arriscar cargos ou posições, eles pretendem encarnar a vontade do povo e promover, por indução própria e pela enésima vez, as mudanças que eles imaginam ser necessárias na condução da política econômica do País. Eles ainda não conseguiram se libertar de velhos grilhões mentais que os prendem a antigas receitas econômicas, que só falam de controle de capitais, gastos públicos, câmbio administrado, “administração” estatal da dívida pública e outras coisas do gênero.
Quem mudou, na verdade, foi o presidente: um líder operário que no passado prometia mudanças radicais na política econômica assumiu a presidência, tomando então consciência dos problemas que deve enfrentar todo líder político investido de um cargo dessa natureza. A “revolução pelo voto” com que sonhavam os acadêmicos teve de se confrontar aos constrangimentos por que passam todos os que assumem cargos dotados de tais responsabilidades: limitações orçamentárias, constrangimentos fiscais, ausência de base congressual adequada, fragilidade financeira externa, demandas sociais e setoriais em muito superiores às disponibilidades efetivas, enfim problemas com que se defronta todo presidente responsável, o que só parece fugir à compreensão dos acadêmicos. Estes se permitem falar em “elite financeira nacional e internacional” porque têm dela uma noção puramente abstrata e não se consideram, eles mesmos, como parte da “elite financeira nacional”, com suas aplicações em banco. Eles querem nos convencer que vivem, como a maioria do povo brasileiro, apenas de seus salários, mês a mês, e que não possuem sequer uma única aplicação bancária. Eles pretendem falar em “racionalidade econômica abstrata”, mas vivem de abstrações, não da racionalidade concreta dos números do orçamento.

A herança imaginária e a miséria da filosofia acadêmica

A “herança maldita” de que falam os acadêmicos – e mesmo muitos defensores do governo atual – constitui uma bela construção mental, feita metade de problemas reais, estruturais da economia e da sociedade brasileira, a outra metade tendo sido o resultado do próprio processo eleitoral, que, aceitem ou não os promotores dessa tese fragilíssima, provocou uma deterioração geral dos indicadores econômicos relevantes, processo que o governo atual apenas agora está conseguindo reverter. Os atuais indicadores voltam a ser o que eles eram em abril de 2002, e em alguns casos em meados de 2000, depois de superada a crise da desvalorização. Isso parece evidente a qualquer observador isento, mas os acadêmicos insistem em não olhar para os números.
A despeito dessa extraordinária produtividade escrevinhadora demonstrada pelos acadêmicos na produção de “manifestos econômicos” (de vários tamanhos, estilos e conteúdos), eles falharam miseravelmente, até aqui, em oferecer contorno, substância ou coerência ao que eles mesmo chamam de “política econômica alternativa” (que só parece existir na mente abstrata dos que assim escrevem). Em nenhum momento, eles expuseram a factibilidade de uma tal política econômica, não com base na retórica habitual, mas em números, relações de causa a efeito e sobretudo em condições de sustentabilidade fiscal e de adequação orçamentária. Uma avaliação correta dos custos e benefícios de uma “outra política econômica” nunca foi de fato tentada pela nomenklatura da academia. Essa política econômica “alternativa” é aventada, sugerida, invocada, clamada, exigida e até implorada nesses manifestos, mas nunca exposta de forma clara e coerente, com todas as limitações e constrangimentos efetivamente existentes na realidade econômica brasileira.
Pode-se perguntar: qual o mandato concedido aos acadêmicos para fazerem tais tipos de exigências? Que autoridade política possuem eles para pretender que suas idéias sejam implementadas? Aliás, em uma frase: quem avalia as propostas acadêmicas? Ou eles pretendem que seus requerimentos de política econômica alternativa sejam aceitos sem discussão no parlamento, sem exame dos responsáveis pelas contas públicas, por aqueles que, finalmente, foram investidos de tais responsabilidades pelo voto popular ou por decisão presidencial?
O novo Brasil está assistindo, infelizmente, ao velho espetáculo de acadêmicos sem responsabilidade executiva que se dedicam a fazer circular papeis abstratos como se eles fossem dotados de uma legitimidade intrínseca para que seus conceitos vagos e idéias alternativas fossem imediatamente aceitos pela sociedade e incorporados por aqueles que detêm a responsabilidade de conduzir a Nação.

Velhas alternativas e novas mudanças

Afinal de contas, o que pretendem os clérigos acadêmicos? Eles desejam, segundo um desses manifestos abstratos, “promover o desenvolvimento econômico, estabelecer condições para o pleno emprego e empenhar-se pela inclusão social, até que o ciclo de desenvolvimento alcance a totalidade dos brasileiros”. Trata-se, sem dúvida alguma, de uma bela invocação de um estado ideal, com o qual sonham brasileiros e brasileiras. A essa invocação não corresponde, infelizmente, nenhuma descrição mais precisa dos meios, instrumentos, mecanismos ou modalidades de políticas setoriais e medidas administrativas que permitiriam atingir tal nirvana de felicidade bruta nacional. Não há, sobretudo, nesse meio etéreo em que flutuam os acadêmicos, nenhum constrangimento fiscal, nenhuma limitação orçamentária, nenhuma fragilidade externa, nada que possa opor-se, de fato, à concretização da cornucópia idealista na qual eles parecem se comprazer.
O que dizer, por outro lado, desta invectiva dirigida ao próprio presidente, numa dessas peças da imaginação acadêmica?: “(ele) sabe que terá que abandonar este modelo e lançar as bases de um novo paradigma. E a mudança a ser empreendida não admite meio termo.” Tanta certeza e segurança poderiam fazer pensar que os acadêmicos descobriram o Santo Graal do desenvolvimento econômico por moto-contínuo, a felicidade social a custo zero, a prosperidade de todos como um manancial dos céus, e a distribuição de riquezas sem limites na realidade.
Na verdade, eles oferecem algumas vias para o nirvana: o “abandono das metas de elevadíssimos e desnecessários superávits fiscais primários”, o “controle seletivo sobre o fluxo de capitais externos”, a “recuperação do controle estatal sobre a administração da dívida pública” e outras fórmulas do gênero. Qualquer semelhança com políticas econômicas de um passado não muito distante poderia ser mera coincidência, mas não é: são os mesmos personagens de sempre, voltando a velhas fórmulas de um passado que insiste em não passar.
E como se poderia conseguir o capital político e econômico para ter êxito nessa missão hercúlea? Pasmem os leitores, mas segundo os acadêmicos à custa de força moral, do apoio de todos os brasileiros, da mobilização política nacional, enfim do que eles chamam de “opinião pública mobilizada”, tendo à sua frente os mesmos acadêmicos que sempre nos prometem facilidades mas não conseguem conviver com a realidade.
O que se deve esperar, desse tipo de atitude, é que, mais uma vez, os acadêmicos conseguem se auto-excluir, totalmente, de um debate responsável sobre os rumos da política econômica no País. Este deveria idealmente ser feito com base em argumentos racionais, em evidências empíricas, em dados concretos da situação econômica do País, não a partir de julgamentos apressados, politicamente motivados e de natureza subjetiva, como aqueles que lemos em manifestos e abaixo-assinados universitários. Eles constituem, literalmente, abaixo-assinados, não propostas de alto significado econômico ou político.
Como já ocorreu tantas vezes, trata-se de uma manifestação de protesto de pessoas ressentidas com o fato de que suas “propostas” – de fato um confuso emaranhado de receitas antigas -- não foram acatadas pela equipe dirigente e não foram, portanto, convertidas em políticas públicas. De resto, sua aplicação teria constituído um rápido itinerário em direção ao descontrole inflacionário, à fuga de capitais, ao descalabro fiscal e ao estrangulamento externo, situações já conhecidas por essa mesma geração de acadêmicos que ainda insiste em tentar promover idéias ultrapassadas e propostas surrealistas de política econômica. 
Tudo indica, felizmente, que aqueles que assumiram responsabilidade governativas em janeiro de 2003 possuem bom senso suficiente para não arriscar um mandato duramente conquistado na arena da irresponsabilidade econômica e do aventureirismo político. Como diria o técnico Parreira, “cada macaco no seu galho”. Os dirigentes com mandato exercem sua responsabilidade no comando da Nação, e os acadêmicos escrevem manifestos para deleite dos mesmos crentes de sempre.

Paulo Roberto de Almeida é sociólogo e diplomata e autor do livro A Grande Mudança: conseqüências econômicas da transição política no Brasil(Editora Códex).
Brasília, 27 de novembro de 2003
(www.pralmeida.org)


quarta-feira, 21 de março de 2018

Conservadorismo teocrático - Carlos Pozzobon

Um longo texto, mas que vale ler, e que suscitou estes meus comentários após leitura, mas acho que não fui suficientemente claro em algumas passagens...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 21 março 2018

Estes os meus comentários ao final do texto: 

Paulo Roberto de Almeida

Há um segundo  -  Compartilhada publicamente
 
Nossa tendência, como intelectuais de gabinete, de qualquer tendência que seja, sempre é a de super-valorizar os conceitos, as ideias, os livros, os argumentos gerais, em lugar de observar as tendências fortes na sociedade, os dados empíricos, [ficando mais n]os combates de ideias, as disputas entre escolas filosóficas. Este ensaio, primoroso, complexo (quase prolixo), inverte o procedimento, demonstrando como os intelectuais, de quaisquer tendências, estão afastados dos processos reais, das dinâmicas da sociedade, dos movimentos econômicos e sociais, para se refugiar nos espaços acarpetados dos gabinetes, nas mesas recheadas de livros e cercadas por estantes, e praticamente esquecendo o movimento real à nossa volta. Isso vale para a esquerda e para a direita, seja ela saudosista ou teocrática conservadora. Agradeço a oportunidade de ler ensaio tão esclarecedor, tão rico de observações que poderiam se desenvolver em dezenas de páginas adicionais, tão aberto a novos caminhos na interpretação do movimento real das sociedades, em lugar do itinerário imaginário dos intelectuais de gabinete, como talvez seja o meu caso. Agradeço sobretudo pelo prazer intelectual que me deu leitura tão rica. Sinto-me tentado a corrigir um texto que acabo de fazer sobre o marxismo cultural, mas vou aguardar mais um pouco para refinar meus pensamentos à luz do que acabo de ler. O abraço do leitor bissexto, 
Paulo Roberto de Almeida (21/03/2018)

Blog Ensaios
Carlos U. Pozzobon

16 de março de 2018

Conservadorismo teocrático brasileiro

A insuficiência do pensamento conservador deveria ser objeto de atenção do mundo liberal brasileiro. Isto não acontece porque o debate intelectual desapareceu ou só aparece muito fragmentado em argumentos isolados no cenário nacional.
A inserção de Olavo de Carvalho como o pontífice da liderança organizadora de um movimento cujas raízes estão no Centro Dom Vital e seus apêndices, criando um número expressivo de seguidores em sua escola de pensamento através do aliciamento de críticos independentes espalhados pelos diversos movimentos liberais do país, conseguiu o raro fenômeno de produzir debates tão somente entre eles. 
A principal característica de tantos quantos seguiram as pegadas do seu “grande mestre”, consiste na lamentação quase unânime de terem sido rejeitados pelo mundo acadêmico e intelectual brasileiro, seja pelo silêncio, seja pelo desdém. 
Se o fracasso da esquerda mundial pós-muro de Berlim tem sido objeto de incontáveis análises críticas por parte de seus membros, não existe uma análise sequer – e digo isso com a atenção de quem se dedica ao rastreamento de ideias, sobre o fracasso do movimento militar de 64 do qual os conservadores foram parte atuante e que terminaram se condenando ao silêncio pelo excesso de despudor com que a corrupção grassava em todo o período. Não existem análises sobre esse passado que condenou o conservadorismo a uma cacofonia impotente de lamentações acusatórias contra a esquerda, como se esta desfrutasse de onipotência divina para excluir seus adversários do debate intelectual. 
O que se conhece do pensamento conservador do período consiste na alusão a uma reunião entre Lula e o general Golberi, que teria negociado apoio do regime a Lula para se contrapor à influência dos velhos comunistas nos sindicatos.
Quando Bolsonaro apareceu na cena política, com um discurso meramente reducionista tratando o passado como se fosse apenas uma luta entre guerrilheiros e policiais, esperava-se que o conservadorismo crítico pudesse reagir a tal impostura, e colocar as ideias na mesa, mas, novamente, o que se revelou foi um silêncio brutal sobre o período, seguido pela falsificação do passado pela direita nacionalista com uma propaganda sistemática sobre as virtudes do regime militar que não consegue explicar nem mesmo tartamudeando o fracasso espetacular e, mutatis mutantis, de todos os grupos que assumiram o poder para manter o sistema que vem saqueando a nação sistematicamente desde a formação da República.

Se o leitor já percebeu, o surgimento dos neocons tem uma causa mobilizadora que não está latente no mundo das ideias, porém na derrota fulminante do lulopetismo em todos os campos da atividade político-cultural de atuação institucional. Foi o vexame petista que forjou as aspirações para um outro tipo de pensamento, do qual o movimento liberal prosperou e o conservadorismo cruzadista olaviano se enraizou com as mesmas técnicas da calúnia petista contra adversários situados fora de seus mitos fundadores.
Assim, o pêndulo da governabilidade oscila a cada 20-30 anos para um lado do espectro ideológico, e o resultado sempre termina no mesmo fracasso. Mas, os perdedores, estes sim, são os grandes depositários da esperança de um Brasil novo, que termina derrapando em alguma curva da estrada e se espatifando outra vez no mesmo precipício de seus antecessores. 
E isto sempre acontecerá enquanto os conservadores virarem as costas para a realidade nacional e viverem anaerobicamente das ideias conservadoras anglo-americanas, que por sua vez já se mostraram impotentes para entender nossa realidade além meramente da história política, comprovada pela perplexidade de um Samuel Huntington quando afirmou que a América Latina não pertencia à civilização ocidental. Pois é... nunca se averiguou em nenhum artigo conhecido, o porquê desta intrigante conclusão.
O que eu pretendo mostrar é que o conservadorismo brasileiro não tem explicações teóricas para essa obviedade que tomou como zombaria.
No livro “O que você deve ler para não ser um idiota”, Olavo de Carvalho apresenta uma coletânea de autores que serviram de inspiração intelectual para suas ideias, com um princípio organizador inaceitável: o livro não tem índice de autores, e quero crer que isto não tenha sido um lapso de Felipe Moura Brasil que o organizou, porém uma intenção óbvia de não mostrar as lacunas que podem ser encontradas facilmente em uma lista. Como expliquei em meu ensaio Você é Aquilo que Lê:
“Alguém que tenha lido 1000 livros, acha-se no devido direito de recomendar a seus leitores sobre a importância do que sabe, do que lhe parece o melhor de nossas letras e pensamento, e chamar a frivolidade existente de imbecilidade geral. Mas, se no quadro geral da cultura encontramos um conjunto de 4 a 5 mil livros igualmente importantes, e muito além da disponibilidade de leitura do comum dos mortais (pois estou falando apenas da cultura nacional), como afirmar que se conhece “tudo” de mais importante, se todo o dia encontramos autores e livros esquecidos ou desconhecidos de altíssimo conteúdo estético e moral?” 
Aqui cabe uma observação entre parênteses. “Os livros e autores esquecidos e mesmo desconhecidos de altíssimo conteúdo estético e moral” são resultado de duas coisas: a primeira, da nossa desordem institucional que dispensa comentários; e a segunda, do fato desses autores não seguirem o mainstream do mundo acadêmico cativo do nacionalismo em frente ampla com o socialismo, e não da conspiração de um segmento ideológico. As pessoas não conspiram contra o pensamento: elas simplesmente desprezam o que não se enquadra em seus esquemas mentais. Este é o meu argumento de retomada do assunto em pauta.
O livro de Olavo-Felipe causa perplexidade pela ausência de livros essenciais ao pensamento brasileiro. Meu propósito não é encher este ensaio com nomes de autores e livros, porém apontar para as mesmas deficiências do resto dos nossos intelectuais com formação exclusivamente no quadro das ciências humanas: são autores que não falam do Brasil profundo, do Brasil que se autodestrói, do país surrealista, jurássico, anticapitalista, alérgico à modernidade, e que consegue levar na parolagem as interpretações bizarras sobre si mesmo. Quem não se aprofundou no tema Brasil, nunca vai perceber que por aqui vingou uma Ciência Jurídica contra a justiça, uma Ciência Econômica contra o desenvolvimento, uma Ecologia contra o ser humano. A crise brasileira é muito mais profunda do que se imagina, e pretender que a abordagem pomposa da realidade seja reveladora de sua essência não ultrapassa o limiar do meio-saber.

Em sucessivos artigos Olavo de Carvalho apresenta uma argumentação totalmente maniqueísta utilizando suas ferramentas críticas para inverter as consequências como causas. Seu pensamento pode ser esboçado da seguinte forma: o mundo evolui pelo pensamento de seus principais intelectuais e pela capacidade destes de influenciar os seguidores de uma corrente de pensamento. Nada existe fora do pensamento dos grandes filósofos. Não existe lugar para a intuição humana, para os sucessivos agregados tecnológicos e para os saltos produzidos pela sociedade – no que se chama espírito da época.
Sabemos que a mudança humana se deve sobretudo a fatores como o comércio, à itinerância do homem no espaço geográfico, à abertura de estradas e meios de transporte, à implantação do serviço de correios, à descoberta da imprensa a partir de Gutenberg, ao desenvolvimento da ciência, ao avanço dos meios de comunicação, à inserção da população à educação escolar, à invenção do rádio, TV e Internet. A tecnologia tem um papel determinante no modo de pensar e se comportar, mas funciona apenas como parte de um agregado. Ortega y Gasset explorou esse tema na passagem do regime absolutista para a liberal democracia. Ocorre que, ignorando o instinto humano, o conservadorismo teocrático reduziu a ação humana à obediência a líderes políticos e intelectuais. Assim sendo, o fenômeno da geração de 68 foi causado pelas obras de Marcuse, como se este não fosse um mau intérprete de seu tempo, porém o teórico que tivesse jogado a juventude no desregramento. Como testemunha daquela época posso dizer que a maioria dos que mencionavam Marcuse não o tinham lido, e pouco interesse demonstravam aos bonzos além das manifestações. Foi a época em que a TV pela primeira vez entrou em cena para influenciar o mundo com as cenas nada edificantes da guerra do Vietnã. Mas isso não conta. O que importa para os neocons sãos os livros de Marcuse.
Este mesmo método bookish ocorre na construção intelectual do gramscismo. Não se trata de que o instinto socialista consista em buscar abrigo no aparelho de estado porque à revelia de Gramsci, o PC já entendia que era preciso dominar o aparelho estatal para preparar o terreno para a virada ao socialismo. Qualquer grupo sedicioso sabe que para tomar o poder precisa dominar o aparelho de estado. Prestes, depois de ter sido torturado por Getúlio, manteve firme seu apoio ao ditador no pós-45 exatamente porque este abrira as porteiras do estado para um número espetacular de novos funcionários, entre os quais seus militantes. A partir desta acomodação de quadros, o PC passou a ser influente no Rio de forma permanente. Porém, segundo os neocons, o socialismo não nasce das oportunidades criadas na realidade social, mas surge da pena de seus teóricos. 
O mesmo vale para o próprio socialismo. Para os conservadores, o socialismo existe através de seus autores que foram os inventores e não produto da evolução histórica da humanidade. Uma análise mais aprofundada revela claramente que o socialismo nasceu do casamento do cristianismo com o romantismo. O nascimento ocorre no século XIX, mas tem seus precedentes dentro da Igreja na Contrarreforma do século XVI, como na rebeldia de Thomas Müntzer contra a ordem papal e sua aventura insurrecional para a destruição das classes sociais em seu tempo. Foi o primeiro comunista de nossa Era que organizou seus paroquianos para uma insurreição armada objetivando a sociedade sem classes. Não surpreende que ele tenha tomado inspiração nos evangelhos.
A prova de que o romantismo está presente no socialismo é fácil de verificar. Não é necessário esforço mental para entender que o coitadismo foi a principal alavanca ideológica da ascensão do petismo. 
Porém, onde entra a Contrarreforma na construção do socialismo? A pervasiva noção de que cabe ao estado tudo prover para a realização do bem comum leva à corrupção dos sentimentos cristãos. Assim, a solidariedade não é devida aos seres humanos, mas a uma ação do estado. A compaixão não é uma obrigação moral dos indivíduos bem situados para com os desvalidos, mas um dever do estado. A caridade não é um ato individual de ajuda dos que possuem para os necessitados, porém uma obrigação do governo. Quando a pobreza é muito grande, e resultado direto do açambarcamento da espontaneidade social pela burocracia paralisante, a solidariedade se torna infrutífera dada a quantidade imensa de necessitados, e a razão humana não tem outro recurso senão apelar para um sistema social que coloque os pobres na tutela do estado, e isto não é nada mais do que o socialismo da teologia da libertação. Portanto, a fusão do cristianismo com o romantismo, ancorada nos valores da Contrarreforma, produziu a bagagem cultural de um estado centralizador e onipresente, que continuará a ser a raiz vivificadora do socialismo, a menos que se reduza substancialmente o tamanho do estado por um processo progressivo ainda não esclarecido, exatamente pela pobreza do debate.
Mas, se o conservadorismo teocrático não toca sequer tangencialmente na realidade do estatismo, dos privilégios de castas, de um estado voltado para o benefício de suas corporações, que legado pode deixar para a cultura brasileira? Como pode um pensamento ignorar as similaridades entre as oligarquias estatais e a nomenklatura? Para que serve um pensamento que não reconhece que os melhores postos de trabalho e a melhor proteção previdenciária (esta um verdadeiro apartheid), a cultura da malandragem e da transigência com os padrões morais estão no aparelho estatal!? Como pode um povo rejeitar o socialismo, se a elite estatal é e sempre foi um simulacro do socialismo!? O que dizer do espírito de um povo, quando frente a uma vaga mais banal no serviço público, milhares de pessoas se perfilam para competir pelo direito de entrada no paraíso!? Que tipo de moralidade pretende difundir o pensamento conservador teocrático se ele nega a importância de um estado em que grande parte de seus funcionários fingem que trabalham como se conhecia na antiga União Soviética!? Que lições morais se pode difundir em meio a professores que se fazem de incapacitados, servidores que se aposentam precocemente sob o disfarce de doenças contraídas, acidentes de trabalho, outros que conseguem 3 ou 4 empregos simultâneos, e assim por diante? 
Não encontrando eco do verdadeiro Brasil, o que se nota é um tom desesperador de constatar que o avanço das esquerdas tem sido obra de um espírito implacável de militantes no sentido de ocuparem todos os espaços do poder... graças à teoria de Gramsci! Não sobra nada para avaliar a boa conduta dos militares em prol do socialismo, ao criarem duzentas estatais em seus vinte anos de regime. Como se não fosse esta a principal causa do fracasso do regime e da inflação de seis dígitos dos anos 80.
Não se entende neste pensamento a completa ausência de atenção para o fato de nossa bagagem cultural atávica estar enraizada no imaginário popular como o governo capaz de resolver todas as coisas, que a intervenção estatal representa nossa salvação, e que, mais do que isso, basta termos um governo bom para que as coisas funcionem perfeitamente. 

Os neocons não compreendem que quem ofereça os melhores empregos, quem compactua com a lassidão contra a disciplina, quem transija em matéria de moralidade, quem deboche da probidade, não possa ser um alicerce praticamente indestrutível da cultura nacional da malandragem, do espírito zombeteiro e da mistificação mentirosa. Não se pode falar em estatismo sem mencionar a carga monstruosa de tutelagem legisferante que se impõe ano após ano ao brasileiro como dever do Estado. Quem conhece as relações de poder em Cuba, especialmente das castas sociais, não tem absolutamente nenhuma dúvida que nosso sistema social, independentemente do petismo, já é um socialismo disfarçado. Levando em consideração a opinião do celebrado Bertrand de Jouvenel de que o avanço do socialismo corresponde ao crescimento do estado, e a constatação do historiador Jorge Caldeira de que, na proclamação da República o estado constituía 3% do PIB, passando a 6% sob Getúlio, para avançar a 20% no regime militar e hoje estar beirando os 50%, pode-se dizer que o socialismo vem crescendo até mesmo pelas mãos de seus inimigos.
Deste caldo de confusão intelectual brotou o manancial de um conservadorismo postiço nas redes sociais que prega incansavelmente a intervenção militar batendo no peito como se fosse a verdadeira vertente conservadora, sem que se encontre um só autor em 250 anos de ciência política que associe o conservadorismo com a defesa de um governo arbitrário. Mas, no Brasil do vale tudo, fizeram um rodopio assombroso no conhecimento e passaram a defender o golpe como salvação da moralidade. Como se o apaziguamento dos escândalos escolares por si só fosse capaz de nos reconstituir como nação próspera e livre.
No quarto volume da História da Inteligência Brasileira, Wilson Martins, analisando os textos do primeiro dirigente do movimento conservador, Jackson de Figueiredo, do recém criado Centro Dom Vital no final dos anos 20, afirmou que o inimigo do conservadorismo católico era muito mais o liberalismo que o socialismo. Ele se referia ao conhecimento do Syllabus, e do impacto que a democracia do Império causou à Igreja Católica. Martins demonstra que no descortinar da ascensão do fascismo, seus líderes ingressaram no Integralismo, pois culpavam o liberalismo pela anarquia constante de nossa primeira República. Esta opinião permanece em nossos tempos como um relicário dos autores que conhecem nossa realidade com a canga das ideologias prête-a-porter.
Todos sabem que o socialismo se fortaleceu a partir do desenvolvimento de sentimentos niilistas na sociedade. No final do século XIX, as advertências de Nietzsche, e depois de Gustave Le Bon confirmaram que a democracia estava em perigo ao permitir o desenvolvimento de sentimentos negativos tais que seriam motivadores da destruição do Ocidente se portadores de líderes que assumissem o poder. O século XX foi o laboratório do niilismo expresso no socialismo, no fascismo e no nazismo. O niilismo latino-americano, nunca foi (e talvez nunca será) suficientemente analisado e conhecido. Está na raiz da conduta do negativismo praticado pela burocracia estatal, na desconfiança do estado com a sociedade e de sua compulsão por regulação, na negação do indivíduo como ser social livre e responsável, e na exclusão social pela pilhagem racionalizada do estado em dispositivos legais. Se verifica nas crises populistas recorrentes, na política expressa como o desejo do bem e contra a legitimidade da riqueza, e na moral do estatismo.
Se a sociedade está socializada como tal, o que se pode esperar do mundo institucional e acadêmico senão a servidão ao socialismo? 

O fator mais relevante da negatividade do homem enquanto agente produtor se encontra no ambientalismo que, no Brasil, trata-se de uma variante do coitadismo aplicado à natureza e aos animais. O ambientalismo brasileiro foi o criatório de aberrações incontáveis sobre a proteção à natureza e sobre a relação entre a vida humana e o meio ambiente. Quando nos anos 90, a duplicação da rodovia Regis Bitencourt foi interrompida na altura da cidade de Registro, por um ano, pelo fato de uma equipe de inspeção ter descoberto um ninho de araras junto a uma pedreira – que inevitavelmente seria dinamitada para a obtenção de brita necessária à continuidade das obras – , revelou que estava em andamento uma doença moral nos órgãos ambientais capaz de priorizar um ninho de pássaros em uma rodovia que causava 2 mil mortes anuais. 
O que se segue é um acúmulo de imposturas, mentiras sistemáticas e a consolidação de um pensamento contra a livre iniciativa e o desenvolvimento econômico. A última besteira que ouvi de um biólogo no sul da Bahia é que um pé de eucalipto consome 420 litros de água por dia, produzindo portanto consequências nefastas para o entorno vegetal. Levando a afirmação para os cálculos, isto significa que, para um cilindro de 30 cm de diâmetro (a forma geométrica mais próxima do tronco de uma árvore), representa uma altura de quase 6 metros de água. Se o pé de eucalipto absorvesse 420 litros em um dia, ele teria que exsudar na mesma proporção, e podemos imaginar o que aconteceria se não o fizesse. Uma plantação com 100 mil pés seria abastecida por um rio que servisse à extraordinária sucção de suas raízes. Evidentemente que os biólogos não têm noção de geometria, mas o mais surpreendente foi descobrir que este argumento foi desenvolvido nos Estados Unidos. Provavelmente nos gabinetes da pseudo-ciência onde se fatura alto alardeando o aquecimento global.
Não perceber que o subdesenvolvimento brasileiro se encontra dentro dos modos e procedimentos da moral do bem-comum é simplesmente deletar o arquivo mais importante de nossa personalidade social. Todo o arcabouço ministerial do país está voltado para os freios exercidos em nome do bem-comum. Para plantar certas culturas, o Ministério da Agricultura exige sementes aprovadas e mudas certificadas. A política dos transgênicos dos anos 90, que nos EUA foi considerada apenas um upgradecientífico, deveria servir para se escrever teses sobre nossos temores e síndromes do Armagedon. Um simples telefone importado da China necessita de um selo da Anatel comprovando compatibilidade com nossos padrões porque só o governo pode dizer o que é compatível com nossa realidade. Agora o mesmo voltou a ocorrer com as lâmpadas led. O mercado não pode fazer nada disso. 
O desejo do bem, cuja matriz mais insana está na raiz do socialismo, se expandiu aterradoramente nas políticas estatais. O desejo do bem informa a política indigenista, a proteção às mulheres e minorias, a demarcação de terras para índios e quilombolas, e necessidade de se fazer compensações ambientais bilionárias para salvar espécies sempre invocadas com o argumento vigarista da ameaça de extinção. Planos de energias alternativas se chocam com o perigo de extermínio de populações de aves migratórias por hélices das torres de energia eólica. É preciso proteger as aves que praticam voo noturno, e para isso o remédio é simples: prejudicar os seres humanos, produzindo o cipoal de leis de onde emana a corrupção.
Desde a fundação da ecologia, creio que nos anos 70, nenhuma ciência nova atendeu à servidão humana de forma mais sufocante do que a proteção ambiental. Nenhuma ideologia em qualquer tempo foi tão fecunda para justificar a intromissão do estado na propriedade privada com o salvo-conduto moral de punir e até mesmo confiscar em nome do meio ambiente . No ambientalismo se encontra a maior densidade de trapaceiros do globalismo. Criada no ambiente das cátedras de humanismo, onde o rigor científico é desconhecido e a opinião embasada em calamidades intelectuais incensadas, a ideologia de criar narrativas com base puramente no altruísmo humano serviu de suporte para um ambientalismo focado na chantagem de licenciamentos, no suborno de advogados litigantes e na extorsão de empresas.

Constituído por filósofos pensantes, esta categoria que deveria ter desaparecido no século XX por anacronismo com a sociedade high-tec, o conservadorismo nada tem a nos dizer sobre o impulso humano espetacular vivido pelos países asiáticos como saída para o estado deplorável em que se encontravam há trinta ou quarenta anos. Sem as lacunas na mente submetida ao imobilismo ideológico, a anomia, os asiáticos foram capazes de turbinar países liberais e comunistas numa única direção. Se existe alguma esperança humana de superação de seu atraso atávico, os países da margem asiática do Pacífico nos confortam em abundância. 
Em incontáveis textos Olavo conduz sua argumentação dentro da estreiteza da razão intelectualista, a qual Paulo Johnson ironizava sarcasticamente. A construção do gramscismo já tem esta natureza de interpretar a realidade não como um legado cultural, porém como um produto da realidade livresca. Se Gramsci não tivesse existido, não haveria o proselitismo político, não haveria infiltração no estado e sequer surgiria a ideia da luta parlamentar como tomada do poder. Não existe a possibilidade de os comunistas, marxistas, trotskistas e quejandos agirem por conta de instintos herdados da cultura centenária do estatismo. Todos eles se submetem ao que foi escrito nos livros e a razão humana não existe em si mesma senão por força do trabalho de monstros intelectuais que colocaram seu saber a serviço da destruição da cultura ocidental. Não existe a percepção histórico-cultural da qual o autor é apenas um intérprete. Tudo se passa no terreno da conspiração. Pela teoria olaviana, francamente difundida em todos os quadrantes das redes sociais, os picaretas que se associam aos projetos culturais do MINC em busca de dinheiro fácil para seus empreendimentos culturais não o fazem por pura vigarice intelectual oportunista. Nada disso. Eles agem movidos pelas determinações da Escola de Frankfurt. Não existe a espontaneidade inerente ao mundo social. Cada qual age movido pelas escritas de teóricos do mal. Elas seguem desígnios determinados pelos grandes mestres do pensamento totalitário. Se um cangaceiro, no mais vil dos sertões, gritar “viva a revolução”, ele não estará falando pelo momento político-cultural do cangaço, mas seguindo as consignas de Trotsky. 
O marxismo cultural foi a forma pela qual o fracasso das ciências humanas encontrou para explicar o que não consegue em termos de análise cultural, porque se trata de um modo ecumênico de ver o homem. Ora, as relações entre marxismo e cultura não podem ser reduzidas ao conspiratório. Quem se dedique, por exemplo, a observar a vida cultural italiana do pós-guerra até os anos 90, verá que não se consegue separar o marxismo do liberalismo com facilidade no seio dessa cultura. Existe uma influência tal do liberalismo no socialismo, e vice-versa, que a simples invocação do cinema dos grandes mestres como Pasolini, Dino Risi, Franco Rossi, Mauro Bolognini, Mauro Monicelli, Etore Scola de um lado, e Fellini, De Santis, Pietro Germi, Luigi Zampa, Visconti, Comencini, Rossellini e De Sica de outro, ou das obras de Norberto Bobbio e Primo Levi, já são suficientes para provar que não se pode analisar a realidade sem os tons de cinza de suas variantes, a despeito do maniqueísmo conservador querer reduzi-la ao branco e preto.
A aquarela criada na cultura italiana entre liberalismo e socialismo provém dos valores cristãos, dos arcanos de um povo concebido sob o signo da hierarquia, da preservação da tradição, do orgulho dos antepassados, e do exercício da sociabilidade como resultado natural das comunidades organizadas em arquiteturas centenárias.
Esta imersão no maniqueísmo reduziu a construção do conservadorismo brasileiro a uma caricatura, cada vez mais repudiada por um imenso contingente de seguidores de primeira viagem e logo arrependidos. A destituição do povo de seus traços culturais, em nome de uma mundanidade única, só pode conduzir a posições teocráticas mal disfarçadas no renascimento de um novo totalitarismo.
Este fenômeno não é novo. Gilberto Amado, nos anos 30, em o Espírito de Nosso Tempo já cravava no conservadorismo brasileiro sua aversão à modernidade, chamando de “corrente reacionária cuja reação era contra a ciência e suas aplicações, contra o método experimental, contra o método histórico, contra o século XIX, contra a revolução francesa, contra o liberalismo político, suas consequências e desenvolvimento”. A surpreendente constatação de Gilberto Amado é encontrada em seguidores do Olavo de Carvalho no Facebook, combatendo a ciência e a importância do progresso tecnológico. E isto não foi feito sem organização ideológica, planejamento e recursos postos à disposição. Quem viu na Avenida Paulista os sucessivos carros de som com as faixas “Olavo tem razão”, pode perceber que se tratava de movimento articulado para criar uma corrente de difusão de suas ideias. E quando movimentos como MBL e Vem Pra Rua rejeitaram o assédio submissivo, passaram a ser sistematicamente detratados pela militância sectária olaviana. 

O combate ao globalismo não se limita às aberrações de um mundo governado por ONGs não eleitas e com autoridade unilateral para decidir o certo e o errado. Indica um desejo intenso de substitui-lo por uma nova ordem mundial que seja capaz de suprimir a parcela indesejável da população. É por isso mesmo um outro globalismo. O golpe fatal virá com a confissão de repúdio à democracia, como já começa a aparecer em mentes do tipo de Loryel Rocha. Novamente, segundo o gabarito olaviano, a esquerda não é um bloco dividido em um sem número de interpretações que compete pela hegemonia política. Nada disso. Ela se divide para falsificar a democracia aparentando divisões que só existem para causar confusão. Assim, a eleição de um diretório acadêmico em que participam duas ou mais chapas de esquerda, não é feita por razões de diversidade política, porém para dar a impressão de pluralismo democrático. Quando se sabe que a única forma de grupelhos sobreviverem na vida universitária consiste em se apropriar do orçamento de um DA para financiar viagens, manifestações e festas, a visão maniqueísta procura educar as pessoas para a conspiração.
Este método foi denominado de teoria das tesouras, uma subalternidade da teoria da conspiração. Para dividir o pensamento político exclusivamente entre duas correntes, o maniqueísmo trabalha com nós e eles. A virtude está em nós e o vício neles. Mas como explicar que entre o branco e o preto existem outros tons? A solução proposta não tem nada de engenhosa e, no entanto, teve uma capacidade surpreendente de convencimento. Aqueles que são diferentes, o são apenas na fachada. Na verdade, segundo esta teoria, eles conspiram para dar uma falsa impressão de democracia, e assim conseguirem se alternar no poder indefinidamente.
Um exemplo poderoso da teoria das tesouras consiste na suposta aliança dos sociais democratas com os petistas. Não obstante o comportamento desastrado de FHC, cuja herança sociológica uspiana consiste em atribuir importância sociológica a qualquer grupo humano, as declarações dele favoráveis a Lula serviram de comprovação desta teoria. Mas deve-se levar em conta que a autofagia política produzida pelo petismo no cenário partidário não se limitou ao PSDB. Naufragaram partidos como o DEM, e todos os herdeiros “liberais” que se tornaram satélites da máquina de corrupção posta em ação pelo petismo. Entretanto, a insistência contra o PSDB tem a função de abrir espaço para outras forças políticas, agora agrupadas em torno do bolsonarismo.
A teoria das tesouras, como construção intelectual, não resiste a uma análise mais profunda. Historicamente, as maiores contradições nos embates políticos se dão mais entre os semelhantes do que entre os opostos. A socialdemocracia e o marxismo têm um repertório enorme de exemplos a fornecer das contradições entre ambos. Marx insultou Lassale por este socialdemocrata alemão apresentar dados positivos da evolução das condições de trabalho e rendimentos como resultado de sua militância na organização operária das fábricas alemãs do século XIX. Marx queria a revolução e não melhorias. Lênin rejeitou as ideias reformistas de Kautsky e chegou até a escrever um livro de crítica ao “renegado Berstein”, antes da tomada do poder. Depois, como bolchevique, passou a destruir sistematicamente seus antigos aliados mencheviques, anarquistas e social-revolucionários. Mais tarde foi a vez de Stalin acabar com a velha guarda da revolução para assumir o poder vitalício.
As rivalidades entre xiitas e sunitas, seria um disfarce deliberado para atingir os cristãos ou uma realidade da intolerância entre grupos com a mesma origem?
Como poderia ter havido uma aliança secreta entre tucanos e petistas se estes se opuseram sistematicamente a todos os projetos de lei enviada ao Congresso no período FHC? E ao propor diversos pedidos de impeachment de FHC, estariam os petistas simulando uma falsa oposição para depois votar contra o próprio impeachment, já que se tratava de um conluio ardiloso? Se uma corrente intelectual desconhece a atividade parlamentar cotidiana de sucessivas alianças para fins de aprovação de projetos, essa ignorância da essência política da atividade parlamentar não deveria passar despercebida. Pois foi através desta manifestação sectarista que o PT construiu sua própria identidade. Não surpreende pois que o conservadorismo teocrático utilize as mesmas ferramentas.
A fragilidade da teoria da conspiração é que ela só pode ser exercida nos gabinetes de intelectuais. No parlamento, a verdadeira política se articula como arte da negociação. Desta negociação se formam as alianças e os rompimentos que podem ter um caráter conjuntural ou permanente.

Derrotado o socialismo, os ânimos cruzadistas se voltaram para o liberalismo. E Olavo vai atacando em doses homeopáticas, seja insultando o Iluminismo – a base intelectual do liberalismo, seja atacando suas fundações, ao dizer que a liberdade e a propriedade não são elementos suficientes para uma filosofia política. Afirmação tão falsa quanto dizer que o zero e o um não são suficientes para a criação de uma lógica digital.
No seu lugar, Olavo propõe que o tema central, em vez de liberdade e propriedade, seja o direito à vida. Não me ocorre nenhuma construção intelectual que tenha se oposto ao direito à vida em sua plenitude, exceto no caso do aborto. Neste ponto, se o aborto é a questão central, então todas as decorrências devem servir a este princípio, pois se trata de uma questão teológica, uma vez que não cabe à ciência definir o princípio da vida. Assim, o conservadorismo se baseia em um princípio teocrático, qual seja, de que a fecundação humana já trás em si o princípio da vida espiritual cuja interrupção seria um crime moral contra a sacralidade do ser. E não se trata de uma questão secundária, uma vez que o aborto constitui a questão central na arregimentação dos quadros deste movimento, pois para qualquer instituição moderna de natureza filosófica, o aborto não tem relevância nenhuma na teoria política.
O ataque ao Iluminismo se tornou um traço distintivo entre conservadores e liberais. Baseados em Edmund Burke, que escreveu o célebre “Reflexões Sobre a Revolução na França” ainda no seu início (1791), os neocons viram nesta singular figura um profeta de seu tempo ao antever o destino dos jacobinos e criticar a vida esnobe da intelectualidade parisiense que, segundo ele, teria aberto as portas da revolução. O livro biográfico de Russell Kirk traz informações preciosas sobre o caráter e as opiniões de Burke em toda a sua vida, e sua figura não merece nada menos do que admiração enquanto homem cujas ideias se apagavam com o século, e que trazia em seus fundamentos os valores da Idade Média e da supremacia da religião sobre a ciência, ou da subordinação da natureza à vontade divina – pilares medievais já bombardeados em seu tempo, e que viriam a ser suprimidos no século seguinte com a virada espetacular das instituições para a exploração do conhecimento científico, um rosário sem fim de conquistas que nos colocou em um patamar completamente diferente de tudo o que se conhece do passado humano. 
No entanto, existe uma exploração duvidosa a respeito do apoio de Burke à revolução americana que antecede em uma década a francesa, pois, como sabemos, os revolucionários americanos apoiaram abertamente os jacobinos franceses, em discursos e ações. Como observou Laurentino Gomes no livro 1822: “Jefferson, que também vivera em Paris na época da Revolução Francesa, se deixou seduzir pelo ardor revolucionário e, durante algum tempo, acreditou sinceramente que o regime de terror e as milhares de execuções na guilhotina eram aceitáveis em nome do avanço das novas ideias políticas. 'A árvore da liberdade precisa ser irrigada de tempo em tempo pelo sangue de patriotas e tiranos', afirmou ao justificar os excessos dos revolucionários franceses. 'É a sua forma natural de crescer'. Evidentemente, Kirk tratou de ocultar essa passagem politicamente incorreta ao conservadorismo para não cair na cilada óbvia de que qualquer revolução armada tem seu período de jacobinismo, e a revolução americana não poderia ser diferente. Laurentino afirma que os 25 mil mortos na revolução americana comprovam por si só que não se tratou de uma simples declaração de independência no “City Hall”, ultrapassando em muito os 5 mil guilhotinados no período do terror parisiense. 

Para os neocons brasileiros, não são os intelectuais os tradutores dos sentimentos que vão se acumulando dentro de uma cultura. Eles não falam movidos por aspirações de seu tempo. Ao contrário, os intelectuais são os que determinam o que o povo seguirá de suas penas por razões de seu intelecto e suas opções morais. Para eles, o malandro brasileiro existe porque foi dissecado por Roberto da Matta, criado nos contos de João Antonio, Mario de Andrade e na formidável escrita literária de Os Trilhos de João Felício dos Santos. Por esta ótica, se tais obras não fossem escritas, o malandro não existiria.
Sem entender esta inversão não se entende o conservadorismo, pois se trata de um pensamento totalmente bookish, isto é, fundamentado em leituras, sem vinculação com os fatos sociais intercorrentes, a menos que os fatos sirvam para legitimar a teoria. Se os fatos negam a teoria, são postos de lado. Agem tal como nossos historiadores de porta de palácio, que dedicados a esmiuçar ocorrências no âmbito dos gabinetes governamentais, são completamente incapazes de perceber os sentimentos da sociedade em seu tempo e as mudanças produzidas no cotidiano das aglomerações.
O mesmo acontece com Burke. Em Burke não se lê uma só observação sobre a realidade social da França que explique por quê as coisas aconteceram, como os ressentimentos, os privilégios, as humilhações, os confiscos de propriedades, as mudanças lentamente introduzidas pela monarquia, que vão enfraquecendo o poder real através do centralismo usurpador da vida comunal. Neste ponto, os neocons leem o passado como se o princípio de “liberdade e propriedade” tivesse nascido da cabeça de agitadores e não da tirania e usurpação dos regimes absolutistas. 
A resposta a Burke veio de Tocqueville 60 anos depois, que não só analisou magistralmente centenas de documentos, como respondeu a Burke em 5 ou 6 vezes em “O Antigo Regime e a Revolução”. São obras diametralmente opostas, mas quem as ler em sequência não pode deixar de dar razão a Tocqueville contra Burke. 
Nas rivalidades intereuropeias, criticar o mundo francês pelo deslumbramento produzido por suas artes e patrocínios, tal como fez Burke ao falar do oba-oba parisiense ao tempo de Voltaire, esconde o ciumes das nações que se preparavam para liderar o mundo economicamente, mas não o conseguiram emocionar os outros povos com o mesmo entusiasmo francês. Esta observação serve também para a China, cujo magnífico crescimento econômico até agora não nos ofereceu culturalmente nada que se compare ao encantamento do cinema de Hollywood, e à abundância do jazz na era de ouro dos EUA. A França, desde a universidade do século XII sempre se ufanou de sua própria cultura. Quem conhece Proust e a agitação febril da Bele Epóque, até a espetacular virada artística da avant-garde do início do século XX, sabe que o deslumbramento autorreferenciado da mundanidade parisiense sempre foi um componente intrínseco ao caráter francês, já existente antes da revolução.
As aberrações contra o Iluminismo surgem desta mistificação sorrateira em defesa da ordem teocrática, cujas origens e refutações foram tão bem descritas por Franco Venturi – um especialista no “setecento” –, em “Utopia e Reforma no Iluminismo”. 
O mesmo pensamento curioso se aplica a Rousseau, a quem se atribui a danação que iria alimentar a revolução francesa e dar origem ao socialismo. Não se trata de situar Rousseau como intérprete dos sentimentos de seu tempo e nem de entender que o romantismo seja uma decorrência da luta setecentesca contra a tirania. Soljenitzine advertiu para o fato de sua experiência no Gulag ter permitido observar que os seres humanos submetidos a maus tratos tendem ao sentimentalismo. E mais, Soljenitzine lamenta que na Rússia não tenha havido um período jacobino depois da morte de Stalin: “como pode – escreveu ele – esperar que as coisas mudem quando após a morte de Stalin apenas 15 pessoas de seu círculo íntimo foram eliminadas, quando na derrota da Alemanha 85 mil pessoas foram capturadas e julgadas por pertencerem ao círculo nazista?” 
Onde quer que haja opressão haverá um sentimento de esperança difuso, uma aspiração por um futuro capaz de fazer de todos os seres humanos uma só família livre dos abusos, da privação e da escassez. Foram a tirania e o descontentamento, ao mesmo tempo em que se proliferavam a imprensa e as informações, que criaram o romantismo. 
O papel atribuído a Rousseau é o de um subversivo disposto a acabar com o estado absolutista, e burkeanemente, com a religião e a fé. Com isso, se quer justificar a lógica de que eliminando as obras, e talvez colocando na fogueira seus autores, a humanidade se livraria de seus pesadelos, seja por insinuação, seja por conclusão lógica, mergulhando o mundo em um novo estado teocrático de moral única. Somente um comissário cubano poderia anuir com este raciocínio.
Ora, segundo nos conta Paul Johnson, Rousseau abominava o ritmo gradual do Iluminismo. Ele queria uma solução mais radical. Não deveria, por isso, ser colocado na sarjeta do Iluminismo?
Uma cultura é constituída por uma mente coletiva, composta por um agregado inumerável de hábitos, reações, preferências, arquétipos, recorrências mentais, valores cotidianos, formando uma psicologia própria, aspirações e visões pessoais da pobreza e riqueza, da acumulação e consumo, de estilos de vida, enfim, que só são entendidos quando o povo tiver uma literatura tão ampla e amadurecida que todas as idiossincrasias são encontradas borbulhando pela pena de seus melhores autores. E esta literatura só é importante porque não sugere nenhuma ação coletiva, não inspira movimentos, não pretende salvar o mundo. 
O calcanhar de Aquiles do conservadorismo olaviano consiste em ignorar tudo isso seguindo o ecumenismo católico. O mundo católico nunca abordou os povos por suas diferenças culturais específicas, porque se trata da difusão dos evangelhos e da propagação da fé junto com sua hierarquia de submissão à ordem autocrática e à autoridade espiritual. No passado, os desentendimentos motivados pela inadequação da ortodoxia romana à interpretação leiga dos evangelhos, custaram alguns séculos de opressão e guerras religiosas. Somente quem conhece os trabalhos pioneiros de Henry Charles Lea e de Alexandre Herculano no século XIX, e a extensa bibliografia sobre a Inquisição – tão zelosamente preservada em Israel, incluindo a fantástica obra de Benzion Netanyahu sobre a Inquisição Espanhola, sabe que a negação da Inquisição pelo movimento olavista não só desvaloriza sua obra crítica, como a torna inaceitável. Negar a existência daquilo que tem sido um campo de investigação tão fecundo na história humana, revela que não se trata da visão de um intelectual independente, mas de um pensador engajado em movimentos teocráticos globalistas. Não faz sentido um movimento criticar tão asperamente a teologia da libertação e negar estas manifestações avant-la-lettre durante 600 anos.
O conservadorismo teocrático sempre esteve presente nos EUA. Hoje, sua principal fonte de irradiação está nos testemunhos do fundador da Prager University, que repete – tal como um evangelista – o dogma de que a origem da moral está em Deus, revivendo Burke, e com isso se perfilando – ainda que não confesso – , à corrente criacionista, uma vez que se trata de uma recusa em aceitar que o evolucionismo seja, ao mesmo tempo, uma explicação lógica para a formação da espécie humana, e a origem da moral um patrimônio do desenvolvimento da própria razão empírica na evolução e constituição do homem no percurso traçado por Matt Ridley em “O Otimista Racional”. 
Se a base moral da espécie humana pode ser resumida nos Dez Mandamentos, certamente eles não foram inspirados em um Abraão sábio e todo-poderoso, porém o resultado da experiência humana na terra.

A razão maniqueísta se manifesta no treinamento mental para a dualidade. O Bem não se torna reconhecido pelo conjunto de ideias abstratas, porém personificado por um indivíduo que pode ser um líder político, ou um grande pensador.
Para um intelectual autêntico, não existe o indivíduo síntese do pensamento. Em sua cabeça o pensamento se articula como uma pluralidade do conhecimento. Para o maniqueísta, o indivíduo é tudo: ele representa a figura adorada capaz de dizer a verdade pelo atesouramento do repertório da sabedoria, reconfortar seus seguidores da dúvida, e indicar o certo e o errado. Trata-se de uma figura tutelar que se encaixa perfeitamente na cultura paternalista. Os seguidores transferem ao mestre suas dúvidas e temores, e ele os brinda com sua palavra de incontestável verdade.
Um dos aspectos não menos importantes do maniqueísmo consiste em substituir as consequências pelas causas. Assim, o “comunismo é mau porque matou milhões de pessoas e seus agentes sabiam que só iriam conquistar o poder matando a todos os adversários impiedosamente”. As consequências foram a pretensão voluntária de matar por um instinto assassino e não por uma realidade política construída para a luta armada e depois para a monopolização do poder em nome de um chefe. Quem conhece a guerra civil na Rússia de 17 a 22 e a destruição do núcleo pluralista de Sierra Maestra sabe que nenhuma revolução teria sido possível se tais intenções não fossem justamente o contrário: a construção de uma nova sociedade de liberdade, de eliminação da pobreza, de atendimento de todas as necessidades, e de dignidade que os oprimidos nunca tiveram. Sem estas premissas jamais haveria a possibilidade de uma revolução socialista. 
No entanto, o maniqueísmo criou o Decálogo de Lênin algo que está para o marxismo assim como o Protocolo dos Sábios de Sião está para o sionismo. O decálogo trata de dez questões fundamentais para a preparação da tomada do poder pelo comunismo. Recomendo aos leitores investigarem na Internet. O que se pretende argumentar aqui não é a essência do decálogo, mas a inexistência dos fundamentos aliciadores da ideia socialista que sempre foram o desejo do bem. Não se encontra nenhuma referência a qualquer dos temas do decálogo nas obras de Lênin. Ao contrário, o leitor perplexo fica se perguntando se não pretendem construir outro totalitarismo novinho em folha com um repertório teórico de artigos de combate exatamente aos efeitos dos totalitarismos passados.
O maniqueísmo, não podendo explicar os fenômenos como originados na cultura, na ancestralidade, não tem nada a dizer sobre o nossos valores ibéricos, e termina radicando toda sua energia na teoria da conspiração – única forma de preencher o vácuo da mente inelástica.
Assim, os homens não agem movidos por ímpetos atávicos de uma cultura paternalista, porém pelo engajamento consciente nas forças malignas do Universo. Dividem os homens pelo caráter, como se este não fosse a condensação de toda a experiência social da mente coletiva de uma época. São os fatos presentes na mente coletiva que explicam ademais as diferenças entre o comunismo chinês e o cubano. Muita coisa poderia ser escrita comparando a agitação febril do modelo chinês com o travamento doentio do modelo cubano. Mas onde estão os instrumentos teóricos do pensamento conservador para lidar com essas realidades cujos princípios estão no budismo versus catolicismo ibérico, o mesmo da Teoria da Libertação?
Sem noção do que seja ciência teórica, mas rodeadas de gadgets de última geração, as pessoas podem ser enganadas com algum esforço, se a diferença entre o mundo medieval e o moderno se limitar aos palácios da nobreza, às catedrais góticas e ao virtuosismo artístico de muitas gerações. Mas, nada fez mais pelo homem nos últimos duzentos anos do que o rompimento com o pensamento teológico imiscuído na compreensão da natureza, permitindo que as ciências naturais aflorassem de forma independente da religião, que por sua vez turbinou um inter-relacionamento do conhecimento tal que o edifício tecnológico não tem precedentes na experiência humana acumulada em todos os séculos anteriores ao capitalismo. Em consequência, o Ocidente pode invocar superioridade por ter sido o berçário da ciência e tecnologia adquiridas no lento processo de combate contras as forças da superstição, da obtusidade mental e do preconceito. O revisionismo que pretende enaltecer a Idade Média, procura borrar das consciências o fato de que se vivia sob o regime da escravidão consentida e da tortura legalizada. Que todo o autocrata tenha uma nostalgia pelo incenso das catedrais, pelos cânticos corais, pela tranquilidade da submissão à autoridade espiritual contra a angústia da responsabilidade individual como ser livre, comprova que estas ideias somente ficarão latentes enquanto a crise da democracia continuar anacronicamente no novo milênio.
A negação da democracia provém do entendimento equivocado de sua natureza, de seu potencial de acreditar na diversidade de opiniões como construtora do conhecimento, e este de moldar o homem para novos meios de vida. 
Ao viver tantos anos nos EUA, e não escrever um único artigo comparativo entre a essência normativa da democracia americana com o nosso burocratismo ridículo, Olavo de Carvalho comprova que seu pensamento não só diverge da democracia, como procura ocultar sua superioridade enquanto sistema social.
A razão é bastante banal: entre os brasileiros deste início de século, o sentimento predominante de democracia como ordem social foi substituído pela anarquia, disjunção social e desordem permanente, algo que já está presente desde o alvorecer da República. Não entender que nossa democracia sempre foi uma demopatia, leva à impotência intelectual para entender as nossas misérias culturais e espirituais.
Concluindo, o conservadorismo teocrático faz oposição velada ao capitalismo, mas não consegue esconder o ultraje contra a civilização. Filósofos, cuja presença no mundo não representa outra coisa senão a de atrapalhar o caminho do progresso científico e moral do homem, voltam-se para o passado medieval para glorificar seus costumes, mas não renunciam a uma aspirina na primeira cefaleia, e nem aos tediosos hangouts pela Internet. São a contrapartida da esquerda caviar no mundo do conservadorismo teocrático. Dedicam-se a desrespeitar a civilização; vivem do mundo livresco “d'além mar”, e conseguem aliciar as pobres almas à procura de uma âncora em um país estraçalhado pelas forças que resistem a todo o custo entrar na modernidade em pleno século XXI.