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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

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quinta-feira, 21 de março de 2019

Trump ganhou, ponto. Editorial Estadão

Eu geralmente costumo oferecer comentários pessoais a cada nova postagem de terceiros que se torna disponível neste espaço.
Mas acho que neste caso não precisa, absolutamente.
Tudo está dito...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 21 de março de 2019

Vitória, sim, mas de Trump

Houve uma vitória diplomática na visita do presidente Jair Bolsonaro aos EUA, mas, contrariando a avaliação de alguns otimistas, o vitorioso foi Donald Trump

Editorial O Estado de S. Paulo, 21/03/2019

Houve, de fato, uma vitória diplomática na visita do presidente Jair Bolsonaro a Washington, mas, contrariando a avaliação de alguns otimistas, o vitorioso foi o presidente Donald Trump. Sem o custo sequer de um voo em classe econômica, ele recebeu a homenagem e a promessa de apoio quase irrestrito do chefe de governo da maior economia latino-americana. “Eu apoio em grande parte as decisões do governo americano”, disse a um canal de TV o presidente Jair Bolsonaro, referindo-se a possíveis novas ações contra a ditadura venezuelana. Ele se absteve de indicar até onde estará disposto a aplaudir essas ações e é difícil, neste momento, imaginar um limite. Em Washington, ele chegou a declarar-se engajado na política da Casa Branca. Engajamento, na linguagem do dia a dia, é uma palavra geralmente mais forte que alinhamento. Os fatos poderão mostrar o peso real da linguagem, assim como o custo desse engajamento para o Brasil. 
De volta a Brasília, o encarregado formal da diplomacia brasileira, ministro Ernesto Araújo, apresentou à imprensa um balanço da viagem. Segundo ele, a ideia era mostrar um “novo Brasil”, comprometido com as ideias de liberdade e grandeza. Nenhum dos dois compromissos foi mostrado na visita a Washington. O presidente brasileiro aceitou sem discussão renunciar às vantagens de país emergente na Organização Mundial do Comércio (OMC) em troca de uma promessa de apoio a seu ingresso na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A perda pode ser irrelevante, mas a delegação brasileira parece ter chegado a Washington desprevenida em relação ao tema. Terá faltado competência na preparação da viagem? A China também é emergente na OMC e o governo americano tem batalhado para mudar esse status, mas os líderes chineses têm resistido. 
Segundo o ministro Araújo, o ingresso na OCDE será fundamental para a atração de investimentos e para o êxito do programa de reformas. Há quem acredite. Mas os fatos são mais complicados. Sem ser membro da OCDE, o Brasil tem sido um dos principais destinos do investimento direto. Poderá atrair volumes muito maiores, se o governo avançar na pauta de ajustes e reformas e criar condições para o crescimento. O avanço na pauta independe da OCDE. Alguém poderia explicar esse fato ao ministro Araújo, mas o esforço talvez nem valha a pena. Na visita a Washington, o ministro de fato foi o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente. Em recente reunião do Grupo de Lima, a respeito da Venezuela, quem falou pelo Brasil foi o vice-presidente Hamilton Mourão. 
A troca de concessões no comércio agropecuário, outro resultado da viagem, poderia ter sido negociada sem visita presidencial. Para isso bastaria, em condições normais, empenho na diplomacia comercial. 
No governo anterior, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, conseguiu abrir mercados importantes sem dar trabalho ao presidente Temer. Sua sucessora, a ministra Tereza Cristina, tem exibido disposição para batalhar e negociar. O presidente e os outros ministros ajudarão se deixarem de criar problemas com grandes clientes da agropecuária brasileira, como a China e vários países muçulmanos. 
As falas do ministro da Economia, Paulo Guedes, parecem ter agradado ao público empresarial. Mas ele poderia discursar com o mesmo sucesso em abril, em eventos paralelos à reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI). Esses eventos são rotineiramente organizados nessas ocasiões e têm sido bem aproveitados por antecessores de Guedes. Ele poderá confirmar esse fato em menos de um mês, se preparar direito a viagem para a reunião do FMI. 
É estranho o ministro Araújo falar de liderança mundial quando mal se cuida de consolidar uma liderança regional. Essa posição foi menosprezada quando Washington foi escolhida como primeiro destino estrangeiro do presidente Bolsonaro. A rigor, nem sequer houve aproximação com os Estados Unidos, mas com um presidente. Bolsonaro disse acreditar “piamente” na reeleição desse presidente. Pode estar certo, mas até no Partido Republicano norte-americano os valores de Trump são com frequência contestados. Bolsonaro confunde os valores trumpianos com os da cultura americana.

Política externa sem rumo? Cedendo a impulsos pessoais?

Enormes dúvidas de toda a comunidade "epistêmica" de relações internacionais do Brasil, sobre diversos temas da diplomacia brasileira, depois da viagem altamente improvisada aos EUA, da qual não se sabem os resultados efetivos, como por exemplo, essa "troca de favores" entre o apoio dos EUA para a admissão do Brasil na OCDE e a contrapartida da nossa renúncia unilateral do tratamento especial e mais favorável para países em desenvolvimento, que o Brasil sempre insistiu em manter ao longo de décadas.
Outra questão é a de saber quem manda, de fato, na diplomacia brasileira: se vem do Itamaraty enquanto corpo profissional, se é apenas o chanceler acidental, se é o chanceler de fato, um dos Bolsokids, se é o guru da Virgínia, enfim, persistem algumas dúvidas quanto a isso...
Paulo Roberto de Almeida 
Brasília, 21 de março de 2019

Brasil quer fim da Unasul e criação de outro bloco

    Chanceler Ernesto Araújo diz que Jair Bolsonaro anunciará, em sua visita ao Chile, a saída do país do grupo. Ideia é ter um novo organismo internacional, sem a Venezuela

    » Rosana Hessel
    02:00:20 | 21/03/2019 | Economia | Correio Braziliense | Política | BR
    O presidente Jair Bolsonaro deve anunciar, em sua visita ao Chile, hoje e amanhã, a saída do Brasil da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), grupo integrado por 12 países sul-americanos: Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Guiana, Suriname e Venezuela.
    A informação é do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Ele fez ontem um balanço da viagem oficial de Bolsonaro aos Estados Unidos. Segundo o chanceler, o abandono da Unasul será coordenado com os demais países do grupo e deve representar o esboço de um novo bloco sul-americano, sem a presença da Venezuela.
    "Gostamos muito da ideia chilena de substituir a Unasul por outro bloco. A Unasul é um órgão falido, que foi capturado e com vício de origem, que não conseguiu avançar na integração física entre os países. Não construiu um quilômetro de rodovia", criticou o ministro, horas antes de viajar ao Chile. Para Araújo, a criação de um outro bloco permitirá substituir a Unasul por iniciativas mais específicas de integração regional.
    O ministro adiantou que as conversas entre Bolsonaro e o presidente do Chile, Sebastián Piñera, devem focar no avanço dos projetos de integração do Brasil com o Pacífico e no aumento dos investimentos. Em terras chilenas, o chefe do Executivo participará de uma cúpula que contará com 21 chanceleres e 22 presidentes, segundo o Itamaraty.
    Bolsonaro retornará ao Brasil no sábado. Na semana que vem, fará uma visita oficial a Israel. Araújo, no entanto, não confirmou se, na ocasião, será anunciada a mudança efetiva da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Segundo o ministro, isso será definido durante as reuniões preparatórias da viagem, que não tem previsão de visita a territórios palestinos.
    Ao ser questionado sobre a troca de embaixadores de 15 representações no exterior, prevista pelo novo governo, Araújo destacou que a preferência para os novos titulares será técnica. "A lista que fechamos das mudanças atuais inclui apenas embaixadores de carreira. Washington não está nessa lista", disse ele, acrescentando que, em relação à embaixada de Washington, não haverá a restrição.
    Positivo
    Na avaliação de Araújo, o saldo da visita de Bolsonaro aos EUA foi positivo. Ele tentou rebater as críticas de que o Brasil teria cedido mais do que os EUA nas conversas bilaterais. "Não cedemos muito nessa visita. Se colocar um patamar de avaliação de interlocutores de fundos de investimentos, há entusiasmo com os sinais dados com o Brasil", declarou. "O mundo está olhando o Brasil e reconhece que é um novo acordo. Muita gente quer que o gigante continue adormecido."
    Ele não detalhou, contudo, como o país tem mais a ganhar do que a perder se realmente abrir mão do status de país em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio (OMC) para receber o apoio formal dos Estados Unidos para a entrada na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma vez que Chile e México já pertencem à OCDE e não abriram mão desse status.
    Para o ministro, o principal saldo positivo foi a inclusão do país como aliado preferencial dos Estados Unidos na Organização do Tratado Atlântico Norte (Otan) e o acordo de salvaguardas tecnológicas para a Base de Alcântara, no Maranhão.
    Em relação à Venezuela e às medidas que podem ser adotadas pelo Brasil e pelos EUA, Araújo não deu detalhes, mas tentou reforçar que é preciso combater o terrorismo de integrantes do Hezbolah que há no país vizinho.
    Prosul
    O outro bloco seria o Prosul, integrado por Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai, Costa Rica, Nicarágua, Panamá e República Dominicana.
    Desconforto
    No início da entrevista, Araújo demonstrou inquietação, pois seu papel na viagem acabou sendo ofuscado pelo filho do presidente e deputado federal, Eduardo Bolsonaro(PSL-SP), que acompanhou o pai na conversa privada com Trump, e, portanto, desempenhando o papel de chanceler, que deveria ter sido do titular do Itamaraty. Ao ser questionado sobre isso, o ministro tentou minimizar o desconforto. "Fazemos parte da mesma equipe. Ele ajudou muito na construção dessa parceria, e achei excelente que ele pudesse participar da conversa, porque reforça essa ideia de que faz parte desse novo relacionamento", afirmou.

    Política externa brasileira: quem é o verdadeiro chanceler? (FSP)

    Minha pequena introdução a esta importante matéria: 
    Obrigado a engolir o protagonismo do "chanceler de fato", o "chanceler acidental", diz que se sentiu representado pela presença do Bolsokid no encontro reservado com Trump. Não é verdade que, não estando o Secretário de Estado, o chanceler brasileiro tampouco poderia estar, não é verdade. TODOS os encontros de cúpula têm a presença de um note-taker, que pode ser o chanceler, o embaixador, qualquer um. Essa coisa de encontro a dois (Trump-Putin, Trump-Kim) isso é ANTI-DIPLOMÁTICO, alguém precisa fazer o registro do que é dito e acertado. Portanto, o chanceler brasileiro, ou o embaixador Sérgio Amaral DEVERIAM estar no encontro entre Bolsonaro e Trump. Essa mania de diplomacia familiar, ou diplomacia twiteira, é profundamente IRREGULAR e INDESEJÁVEL!
    Não foi o Itamaraty que ficou incomodado com isso, e sim o chanceler acidental. O Itamaraty ficou, sim, profundamente irritado com as ofensas da família Bolsonaro aos brasileiros honestos que trabalham duramente nos EUA para ganhar a vida, e só foram para lá porque políticos como esses negam aos brasileiros oportunidades de crescimento e de emprego dignas. É uma vergonha o que disseram os dois da foto sobre essa comunidade especialmente trabalhadora nos EUA, que aliás votou maciçamente pelo capitão. Acho que terá sido a primeira e última vez.
    Paulo Roberto de Almeida
    Brasília, 21 de março de 2019

    Protagonismo de Eduardo Bolsonaro nos EUA incomoda Itamaraty
    O presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara tem atuado como chanceler informal
    Marina Dias
    Washington
    Folha de S.Paulo, 21.mar.2019 às 2h00

    protagonismo de Eduardo Bolsonaro durante a viagem presidencial aos EUAincomodou o Itamaraty e forçou uma reação em série —da chancelaria e do próprio deputado— para tentar conter uma possível nova crise no governo.
    Em Washington, o filho do presidente Jair Bolsonaro quebrou protocolos na Casa Branca e foi um dos articuladores da primeira visita bilateral do pai, o que acabou por ofuscar o papel do chanceler Ernesto Araújo.
    Como uma espécie de chanceler informal, Eduardo participou da reunião reservadaentre Bolsonaro e o presidente americano, Donald Trump, na terça-feira (19) na Casa Branca.
    Ele articulou ainda a visita do líder brasileiro à sede da CIA, a agência de inteligência dos EUA, onde se encontrou com a diretora Gina Haspel.
    Sua presença no Salão Oval causou surpresa entre membros do governo e do Itamaraty e fez o deputado divulgar mensagem em rede social para dizer que aquilo “não se tratava de uma competição” e que todos os seus passos na área internacional são dados sob a orientação de Araújo —ausente no encontro.
    Na quarta (20), assim que desembarcou no Brasil, foi a vez do chanceler baixar a temperatura. Ele convocou a imprensa para defender sua atuação à frente do Itamaraty e dizer que foi sim importante para os resultados alcançados na viagem.
    Araújo disse ainda que tem “uma visão extremamente coincidente” com a de Eduardo sobre a relação com os EUA e a posição do Brasil no mundo. “Nós fazemos parte da mesma equipe. O deputado me ajudou muito na construção dessa parceria”, disse.
    Presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Eduardo foi um dos fiadores da indicação de Araújo para o Itamaraty, mas atua em paralelo quando o assunto é política externa.
    Suas declarações sobre determinados temas, como imigrantes por exemplo, causaram polêmica recentemente, refletindo um comportamento menos diplomático do que o esperado. Ele disse que os brasileiros ilegais são “uma vergonha” para o país.
    A retórica anti-imigração é alinhada à de Trump, de quem Eduardo é admirador.
    O filho de Bolsonaro disse que foi a convite do presidente americano que participou da reunião privada na Casa Branca —de praxe, o encontro envolve apenas os presidentes e os intérpretes, quando necessário.
    Antes da reunião, Eduardo era o único acompanhante do brasileiro durante o primeiro encontro dos líderes. Já do lado americano, estavam presentes o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, a porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, e Kim Brier, do Departamento de Estado dos EUA.
    Trump fez deferências públicas a Eduardo, ao dizer que o deputado fazia um “trabalho fantástico”. O deputado tem atuado para se aproximar de Washington desde o fim do ano, após as eleições. 
    Na ocasião, encontrou-se com autoridades como Jared Kushner, conselheiro-sênior e genro de Trump, além de lideranças conservadoras.
    Além da CIA e do Salão Oval, Eduardo cumpriu agendas paralelas à do pai ao lado de Filipe Martins, assessor para assuntos internacionais do Planalto.
    Araújo, por sua vez, disse que não estava prevista sua presença no Salão Oval, assim como não estava presente o secretário de Estado americano, Mike Pompeo.
    Nos bastidores, porém, o chanceler se irritou na frente de outros ministros por causa da participação de Eduardo no encontro privado.
    Segundo pessoas descreveram à Folha, Araújo ficou especialmente irritado após ler o blog da jornalista Míriam Leitão, do jornal O Globo, que afirmou que o Itamaraty saiu rebaixado com a ida do filho de Bolsonaro ao encontro. Se Araújo tivesse “alguma fibra”, ela escreveu, pediria para deixar o cargo.
    O Itamaraty reforçou que, após a bilateral, houve reunião ampliada com todos os ministros que estavam na comitiva, incluindo Araújo.
    Já no Brasil, o chanceler disse que achou excelente a participação de Eduardo no encontro reservado porque ele reforça o alinhamento entre ambos. “Eu me senti distinguido pela participação do deputado, ele comunga das mesmas ideias que eu”, concluiu.





    quarta-feira, 20 de março de 2019

    Minha entrevista a El Pais sobre a politica externa - Paulo Roberto de Almeida

    Paulo Roberto de Almeida, no Senado, em abril de 2017.

    O jornalista do El País, Afonso Benites, corrigiu alguns pequenos erros que tinham se imiscuído na primeira versão publicada – como, por exemplo, "trompista" em lugar de "trumpista", por culpa desse maldito corretor ortográfico – e por isso coloco agora uma nova versão corrigida à disposição dos interessados.
    Paulo Roberto de Almeida
    Brasília, 20 de março de 2019


    PAULO ROBERTO DE ALMEIDA, DIPLOMATA

    “É inaceitável para os militares essa subserviência aos Estados Unidos”


    O diplomata e doutor em ciências sociais Paulo Roberto de Almeida se envolveu em mais uma das dezenas de polêmicas do Governo Jair Bolsonaro (PSL). Após publicar um artigo em seu blog pessoal com críticas à política externa brasileira, ele foi exonerado pelo ministro Ernesto Araújo do cargo de presidente do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI), um dos braços do Ministério das Relações Exteriores brasileiro. Sem o cargo que ocupava desde 2016, Almeida deverá trabalhar em receber. Ou seja, ocupará o fictício “departamento de escadas e corredores” do Itamaraty.
    Um dos mais antigos diplomatas em atividade no país, está desde 1977 no Governo, e autor de 14 livros, Almeida critica na entrevista a seguir a ausência de diretrizes de Araújo – a quem atribuiu ideias paranoicas –, ressalta que o ministro tem sido tutelado desde que assumiu a função e que, politicamente, a visita de Jair Bolsonaro a Donald Trump, nesta semana, será a glória para o presidente brasileiro.

    Pergunta. Por que o senhor foi demitido do IPRI?
    Resposta. A razão aparente parece estar ligada ao fato de eu publicar em meu blog pessoal (Diplomatizzando) análises críticas sobre a política externa conduzida pelo atual chanceler. A razão real parece ter sido minhas fortes críticas ao suposto mentor intelectual desse chanceler, seu patrono na escolha para o Itamaraty, Olavo de Carvalho, a quem eu chamei de “sofista da Virgínia” e de “Rasputin de subúrbio”, o que de certa forma deixou-o desconfortável, pois costuma referir-se respeitosamente a esse bizarro personagem, a quem chama de professor. As posturas antiglobalistas defendidas por ambos constituem uma agenda impossível para qualquer serviço diplomático, na medida em que alimentam paranoias reacionárias que não encontram qualquer fundamento nas negociações internacionais nas quais se engajam os diplomatas.
    Uma outra razão que pode ter motivado minha exoneração do cargo de diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais do Itamaraty foi o fato de me ter referido a “fundamentalistas trumpistas”, que o atual chanceler considerou como um ataque pessoal a ele, quando eu estava na verdade visando pessoas mais influentes do que ele, entre elas um dos filhos do atual presidente, Eduardo Bolsonaro, e o atual assessor internacional da Presidência da República, Filipe Martins. O primeiro é considerado uma espécie de “chanceler paralelo”, e passeou pelos Estados Unidos exibindo um boné da campanha de “Trump 2020”, o que representa um grau de aderência totalmente inadequada em termos de política externa responsável. Ademais, teve a arrogância de declarar que o “povo brasileiro” apoiava a construção do muro pretendido pelo presidente americano na fronteira com o México, o que é uma usurpação de mandato. O segundo é um verdadeiro crente, um true believer em Olavo de Carvalho, mais conhecido como “Robespirralho”, autor do discurso julgado extremamente fraco feito pelo presidente em sua visita ao Fórum Mundial de Davos.
    P. Qual a influência de Olavo de Carvalho em sua demissão?
    R. Não mais que indireta. A despeito de eu me ter chocado com o “sofista da Virgínia” a propósito dessa construção metafísica chamada antiglobalismo – como se tivesse de provar a inexistência de unicórnios, o que ele pretende –, ele não teve nenhuma responsabilidade direta na exoneração, tendo esta sido decidida pelo próprio chanceler, provavelmente em conluio com Eduardo Bolsonaro e Filipe Martins. Ficaram agastados com minhas críticas a essas ideias bizarras dentro da agenda diplomática.
    P. Qual a sua avaliação sobre a política externa de Ernesto Araújo?
    R. Difícil fazer uma avaliação sobre o que não existe. Não dispomos, até o momento presente, de nenhuma exposição clara, completa, racional, sobre qual seria essa política externa, até aqui marcada apenas por slogans: luta contra o globalismo, contra o marxismo cultural, contra o multilateralismo, contra o climatismo, o comercialismo, coisas totalmente bizarras, com efeito. Depois, essa introdução inócua de temas religiosos na agenda diplomática, que tampouco se coaduna com a postura de um Estado secular, como parece ser o Brasil. Em terceiro, e mais importante lugar, posturas contrárias a um tratamento verdadeiramente diplomático do mais importante tema da diplomacia brasileira no momento atual, a crise terminal do governo chavista na Venezuela. Foram os militares que tiveram de reafirmar ao atual chanceler o respeito a princípios constitucionais e de Direito Internacional relativos à não intervenção nos assuntos internos de outros países, quando o chanceler estava disposto a apoiar a aventura americana de forçar uma confrontação com o governo chavista. Na última reunião do Grupo de Lima coube ao vice-presidente Hamilton Mourão liderar a delegação brasileira, e de certa forma a posição dos demais países da região, contrária a qualquer intervenção militar na Venezuela.
    P. Já ouvi diferentes relatos sobre a condução da política externa desse Governo. Dizem que ela é conduzida pelo Eduardo Bolsonaro ou pelo Filipe Martins. Ou ainda que os militares tutelam o ministro Araújo por meio do vice-presidente. Concorda com alguma dessas versões ou teria uma quarta corrente?
    R. No plano puramente ideológico, ou principista, todos os três personagens, o chanceler e os dois primeiros, demonstram adesão às ideias estapafúrdias de Olavo de Carvalho sobre as relações internacionais, que são manifestamente inadequadas, e prejudiciais, a uma condução racional da diplomacia brasileira. No plano prático, o chanceler teve sua escolha apoiada e decidida pelos dois olavistas brasileiros, daí sua total dependência em termos de sua legitimação no governo atual. Em consequência do desconforto do núcleo militar com tais posturas inadequadas – como a ideia inaceitável para os militares de uma base americana no Brasil, ou a subserviência às posições do presidente americano – estabeleceu-se uma espécie de cordão sanitário em torno do chanceler e do próprio Itamaraty, inclusive porque o chanceler subverteu a hierarquia de comando no ministério, algo que os militares consideram como inaceitável. Seria, como eles dizem, ter coronéis mandando em generais. Eles também estão conscientes de que o Itamaraty foi submetido a uma reforma orgânica imposta sem qualquer consulta à casa, o que também causou desconforto geral. No conjunto, existe um comitê de tutela informal exercido pelos militares sobre a política externa.
    "Estabeleceu-se uma espécie de cordão sanitário em torno do chanceler e do próprio Itamaraty"
    P. Pelo que o senhor acompanha, como o Araújo chegou ao topo da carreira? Procede que ele conquistou o presidente com o artigo Trump e o Ocidente?
    R. Não é que ele conquistou o Bolsonaro. O Bolsonaro não leu nada. Ele [Araújo] levou o artigo para o Olavo de Carvalho. Foi levado pelo Nestor Foster, nosso ministro conselheiro em Washington, que é um olavista. Conheço o Nestor, que é um bom funcionário, e que me deu um livro do Olavo, O Jardim das Aflições. Que é uma aflição ler, porque é uma coisa caótica. O Olavo não tem método, ele tem rompantes, ideias. O Ernesto, então, publicou esse artigo em minha revista sem que eu fizesse qualquer censura. No artigo ele trata da decadência do Ocidente, que é algo debatido por vários estudiosos, mas ele mete no meio aquela ideia de Cristo, de Deus, que é uma coisa que você não consegue debater. Você consegue debater com teóricos, historiadores, sobre o Ocidente em si, não a interferência de Deus. No blog dele, o Metapolítica, ele disse que houve uma intervenção divina para unir o Olavo e o Bolsonaro. Hoje, o que ele faz comigo é me denegar um direito que ele teve no passado e ainda tem, o de debater suas ideias pessoais em um blog. Na verdade, quem o colocou lá foram o Filipe Martins e o Eduardo Bolsonaro. Sem nominá-los, em meu artigo, eu os chamei de fundamentalistas trumpistas. O ministro achou que eu falava dele, mas não. Eu o considero um personagem menor nesse jogo de poder. Ele construiu um perfil que não é o dele para se elevar ao cargo de chanceler, mas é totalmente inseguro e não conseguiu construir uma política externa até hoje.
    P. Pelo fato de o senhor considerá-lo menor, acredita que o ministro é manipulável?
    R. Certamente que ele não vai desatender sugestões do Eduardo Bolsonaro e do Filipe Martins, que são seus promotores, nem do Olavo de Carvalho. Agora, o Olavo acaba de se desacreditar por si só com essa ordem de que todos os seus alunos abandonem o Governo. Por um lado, ele tem essa influência bolsonarista e olavista. De outro, ele está totalmente tutelado pelos militares desde 1º de janeiro. Ele tratou da base americana no Brasil, o que foi rebatido pelo Ministério da Defesa; ele defendeu o rompimento de relações militares com o governo Maduro, o que deixou os militares brasileiros irritados; e depois, com a Venezuela, em que ele aparentemente comprou a ideia da agenda americana, de imposição de uma ajuda humanitária para tentar desequilibrar o Governo chavista, o que não conseguiu. Nosso chanceler comprou essa ideia e teve de ser controlado pelos militares, quando o general Mourão foi o chefe de delegação na última reunião do Grupo de Lima e liderou a América Latina na defesa da não intervenção militar na Venezuela. É uma coisa que caberia a um diplomata. Está em nossa Constituição, nos princípios do direito internacional. Ver um diplomata atuando antidiplomaticamente é uma coisa inédita no Itamaraty.
    P. Há uma submissão aos Estados Unidos?
    R. É algo alucinante pensar que o chanceler não acate nossa Constituição, e isso os militares fizeram o favor de lembrar, e tome atitudes voluntaristas e de apoio à postura americana que não se coadunam com uma política externa sensata e razoável que o Brasil sempre teve. Depois, as ideias bizarras expressas pelo chanceler são algo inédita em diplomacia. Assista a aula magna que ele deu no Instituto Rio Branco. É uma coisa constrangedora. Não faz nem o sentido lexical, de frases completas.
    P. Mas essa crítica, de que não se consegue completar as ideias, é algo recorrente sobre os discursos do presidente também.
    R. O presidente está lá porque foi eleito, tem a sua legitimidade. O chanceler, teoricamente, deveria conduzir a política externa. Os diplomatas não têm a menor ideia do que esperar da política externa brasileira. Só vejo arroubos. Nessa palestra no Rio Branco, ele falou de comercialismo, de globalismo, contra o multilateralismo, a perda da fé e de que não vamos apenas exportar café e minério, mas também crenças. É algo inacreditável até no plano puramente operacional, primário, elementar.
    P. Sem essa definição de uma política externa, o que se pode esperar das relações comerciais do Brasil? Por exemplo, a China abandona parte do mercado brasileiro para comprar dos americanos.
    "É inaceitável para os militares essa subserviência aos Estados Unidos, assim como para qualquer pessoa de bom senso"
    R. Exato. A gente tem as ideias aventadas pelo Paulo Guedes, de abertura econômica e liberalização comercial que agora ficaram um pouco de escanteio por causa da reforma da Previdência. Mas não vejo como será feita essa abertura econômica. Não se sabe com quem vai se debater. O Brasil não conseguiu nem resolver como fará com o Mercosul, se ele continua como está, se vai avançar para consolidar sua união aduaneira ou se vai recuar para um simples projeto de zona de livre comércio. Todas essas alternativas têm seus prós e contras na política comercial brasileira. Na nova estrutura do Governo, publicada em janeiro, diz que o Ministério da Economia tem competência para as negociações econômicas internacionais. E nas competências do Itamaraty, diz que o Itamaraty participa das negociações econômicas internacionais. Ou seja, fomos relegados a uma posição secundária, o que nunca ocorreu antes. O Ministério das Relações Exteriores sempre teve preeminência nas negociações comerciais do Brasil, ainda que a política comercial seja estabelecida pela Fazenda. Tem um lado nebuloso nessas definições de políticas setoriais que até hoje não foi resolvida. Não vi nenhuma declaração clara nem do chanceler nem do ministro da Economia de como será conduzida a política comercial.
    P. O que essa viagem do Bolsonaro aos Estados Unidos pode trazer para o Brasil?
    R. Aparentemente vai trazer o acordo de salvaguardas tecnológicas, que está atrasado há 20 anos. É um acordo para a utilização da base de Alcântara (no Maranhão). A boa relação dos presidentes Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso trouxe esse acordo que acabou sendo sabotada pelo PT, pelo próprio Bolsonaro e pelos partidos de esquerda. Houve um relatório na Câmara do então deputado Waldir Pires, que havia recusado esse acordo. Os deputados queriam ter transferência de tecnologia, mas os Estados Unidos queriam preservar essas informações, que que é absolutamente normal num mercado assimilado a construção de mísseis e balísticas. Agora, parece que esse acordo vai sair. Na aula magna deste ano para a turma do Itamaraty, o chanceler não conseguiu nem explicar o que seria feito nas visitas aos Estados Unidos, Israel e Chile. Só disse coisas banais de que se trata de relações importantes. Ele também criticou a China, várias vezes, sem dizer o nome dela. É algo alucinante o que está acontecendo.
    P. E sobre os Estados Unidos, nada além do acordo de salvaguarda?
    R. Algo que pode ser discutido é a dispensa de vistos de americanos que visitam o Brasil, algo que pode ser atacado pelos da esquerda, pelos nacionalistas e pelo pessoal que defende reciprocidade estrita, o que é uma imbecilidade. Não tem reciprocidade estrita nas relações internacionais, tudo é assimétrico. Nenhum país é igual ao outro. Você não imagina que você tenha milhares de americanos que queiram vir ao Brasil e se estabelecer ilegalmente. Uma família americana típica, um casal e dois filhos, se pensa em viajar ao Brasil já tem de gastar de 600 a 700 dólares só de visto. Com esse dinheiro eles já passam uma semana no Caribe. Então, o visto talvez saia para os turistas e para a facilitação dos empresários nos Estados Unidos. Não sei mais o que pode sair, de fato.
    P. Politicamente para o Bolsonaro, o que representa essa visita?
    R. É a glória porque ele é uma espécie de Trump brasileiro. Ele tuita, ele fala e aprova as posições do Trump. Falou que, assim como os Estados Unidos ia trocar a embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém, falou que a China compra o Brasil. Fico pensando o que a gente fez para merecer uma coisa dessa, uma indefinição completa dos interesses do Brasil. Tanto que os militares se encarregaram, mais uma vez, de cercear, de limitar, de controlar, de proibir essa transferência da embaixada – que constrangeu os exportadores de carne halal, a ministra da Agricultura teve de intervir – atacar a China é outra bobagem monumental e a questão da relação muito próxima com os Estados Unidos é uma subserviência, que nosso chanceler demonstra. É inaceitável para os militares essa subserviência aos Estados Unidos, assim como para qualquer pessoa de bom senso.
    P. O senhor está sem função nenhuma no Itamaraty. Está indo só “bater o ponto”, sem trabalho algum?
    "As ideias bizarras expressas pelo chanceler são algo inédita em diplomacia"
    R. Vou para a biblioteca, que é o que eu fiz durante anos no lulopetismo. Aliás, tenho de agradecer ao Celso Amorim [ex-chanceler] e ao Samuel Pinheiro Guimarães [ex-secretário-geral] por terem me dado a oportunidade de escrever dois ou três livros no período em que fiquei sem função alguma. De 2006 a 2010 eu só frequentava a biblioteca. Depois tirei uma licença, fui dar aula em Paris e ocupei um cargo secundário em um consulado nos Estados Unidos. Só voltei a ter algum cargo após o impeachment da Dilma Rousseff. Agora, voltarei ao "departamento de escada e corredores".
    P. Mas o senhor fará pesquisas, sem produzir diretamente para o Itamaraty ou para qualquer outro órgão do Governo, que paga o seu salário. É isso?
    R. É uma irregularidade administrativa que precisa ser resolvida pelo Itamaraty. Acredito que o Tribunal de Contas da União não admite que você receba sem trabalhar. Então cabe ao Itamaraty me dar uma função. Em toda a gestão lulopetista eu sempre fui ao chefe de administração e dizer que estava disposto a trabalhar. E, apesar de promessas, não me davam nada.