quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Apartheid companheiro: o racismo oficial avanca no Brasil - Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, 30/10/2013

O racialismo chega à fase do delírio. O arquivo está aí para evidenciar as vezes em que aqui se chamou a atenção para o fato de que a política de cotas, sob o pretexto de tratar desigualmente os desiguais, trata é desigualmente os iguais — vale dizer: fere o fundamento da igualdade perante a lei, sem a qual não pode haver democracia digna do nome. Se a herança histórica faz com que determinados grupos sejam mais vulneráveis e tenham especiais dificuldades de acesso a determinados benefícios, há ao menos duas formas de intervenção que não violam a democracia a) políticas públicas e universais que capacitem os mais pobres — o que será bom para todos, brancos, negros e mestiços (exemplo: escola pública decente); b) políticas SUPLEMENTARES de promoção dos vulneráveis. Nesse caso, o governo federal poderia, por exemplo, financiar uma espécie de curso pré-vestibular para estudantes comprovadamente carentes. O que é inaceitável, embora esteja em curso, é que o ingresso ao ensino superior puna ou promova alguém por causa da cor de sua pele. A injustiça social corrigida pela injustiça material é só perversão moral. Mas as cotas foram consideradas constitucionais.
Bem, se constitucionais são, aí é questão de tempo para que se tente aplicá-las em todos os ambientes — e, em breve, outros grupos ditos “vulneráveis” pedirão o mesmo. Já chego lá. Leio o que segue na VEJA.com. Volto depois.
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê a reserva de vagas para parlamentares de origem negra na Câmara, nas Assembleias Legislativas nos estados e na Câmara Legislativa do Distrito Federal.
Pela proposta, a fração de políticos negros “corresponderá a dois terços do percentual de pessoas que tenham se declarado pretas ou pardas no último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)”, desde que o número de vagas não seja inferior a um quinto ou superior à metade do total de vagas. Em números, na Câmara dos Deputados essa cota significaria uma reserva de pelo menos 102 cadeiras para parlamentares negros. A cota, conforme o texto sugere, teria prazo de vinte anos, prorrogáveis pelo mesmo período. A matéria será analisada agora por uma comissão especial e, se aprovada pelo colegiado, seguirá para aval do plenário.
Voltei
É um despropósito absoluto. A PEC é de autoria dos deputados petistas Luiz Alberto (BA) e João Paulo Cunha (SP), o mensaleiro. Trata-se de uma tentativa de subordinar metade da Câmara a movimentos militantes controlados pelo PT. Segundo a proposta, o eleitor daria o seu voto habitual e depois um outro, para preencher as cotas. Ora, isso fere o fundamento primeiro da democracia, que é a liberdade de voto. Por que, seja eu branco, mestiço ou negro, devo ser obrigado a escolher, no universo dos candidatos autodeclarados negros, um representante?
Será que a natureza de um Parlamento democrático é expressar a exata composição da sociedade no que concerne à cor da pele? Isso induz à leitura estúpida de que candidatos mestiços ou negros (para o racialismo, os dois grupos são considerados “negros”), a despeito de divergências de qualquer outra natureza, devam ter uma pauta comum. Ainda que ser “negro” fosse uma categoria, pergunta-se: eles não são livres para divergir entre si, como divergem os brancos?
Não que a ideia conte com a minha simpatia, mas vá lá: por que, então, não se impõe aos partidos uma cota de candidatos negros? Isso atenderia às demandas do cotismo, sem, no entanto, agredir a liberdade de escolha do eleitor. Em tese ao menos, um maior número de negros candidatos poderia resultar num maior número de negros eleitos.
Será que os negros já não estão lá?
O caso esbarra ainda em outra questão: o que é ser negro? Segundo o IBGE (2010), cujo registro decorre da autodeclaração, os negros propriamente formam 7,6% da população. Caso a Câmara fosse dividida segundo a cor da pele, este seria o resultado:

Muito bem! Segundo o texto, a fração de políticos negros corresponderá a pelo menos dois terços dos que assim se declararam, não podendo ser inferior a um quinto nem superior à metade… Santo Deus!!!
Comecemos do óbvio. Para o racialismo, “mestiço” é considerado, sociologicamente falando, um “negro”. Ora, tal lei reservaria, então, pelo menos 102 cadeiras para esse grupo. Se há coleguinhas com tempo, esse levantamento pode ser feito: tenho a certeza de que o número de negros e mestiços na Câmara já superou essa marca. Mas atenção! E se, por qualquer razão, o Brasil quiser mais do que 50% de negros e mestiços na Câmara? Será a lei a impedi-lo?
Já existem hoje cotas raciais em universidades federais para mestrado e doutorado. O governo já firmou um acordo com ONGs racialistas para encaminhar a implementação da medida no serviço público. Em breve, começará a pressão para que também o Poder Judiciário obedeça a essa divisão. Pois é… Vejam o caso do Supremo: o presidente da Casa, Joaquim Barbosa, é um “negro negro”, não um “negro mestiço”. Pertence, caso se levasse tal divisão em conta, a 7,6% da população, o que não garantiria nem mesmo um “representante” desse suposto grupo na Corte… Mais: a ser a composição da sociedade o critério para escolher os representantes do Supremo, é preciso nomear mulheres, até que elas sejam ao menos seis. A competência e o notório saber serão apenas o segundo critério. Em todas essas áreas do estado, suponho que outros “grupos vulneráveis” também queiram reparação, certo? Há que estimar o percentual de homossexuais, por exemplo, para fazer a devida compensação. Voltando ao Supremo: assim que Celso de Mello deixar a Corte (em 2015 ou antes, como ele chegou a dar a entender), seria preciso indicar para a vaga uma lésbica. “O que você teria contra? É preconceito?”, perguntam ensandecidos de plantão. Resposta: NADA CONTRA! Desde que essa suposta lésbica fosse a mais competente, não entre as mulheres lésbicas, mas entre as de notório saber jurídico.
Encabrestar o Congresso
Cotas violam a Constituição, como já escrevi aqui. “Ah, o Supremo não acha.” Ok, eu me dou o direito de acatar a decisão, mas de não mudar de pensamento. Sigamos. Ainda que violem a Carta, como digo, essas cotas, no entanto, encontram uma justificativa ao menos plausível: tratar-se-ia de garantir a todos acesso a bens públicos, como educação, por exemplo.
Ora, no que concerne ao voto, esse direito já é amplamente assegurado a todos, inclusive aos analfabetos, que só não podem ser votados. Não há grupo social no Brasil que esteja impedido de votar ou que tenha seu voto condicionado a essa ou àquela circunstância. A composição da Câmara, dentro do modelo proporcional — que não acho o melhor (como sabem) —, reflete a vontade dos brasileiros. Há distorções, sim! Ao se estabelecer uma bancada mínima (8 deputados) e uma bancada máxima (70), a população do Amapá acaba super-representada, e a de São Paulo, sub-representada.
Essa distorção — ou aquela outra, que acaba elegendo o deputado sem voto por causa da proporcionalidade — nada, rigorosamente nada!, tem a ver com a questão racial. Brancos, pardos, negros, indígenas, amarelos votam em quem bem entenderem, sem qualquer patrulha ou restrição. Esse é o fundamento do voto universal e da democracia.

O que o deputado Luiz Alberto (PT-BA) pretende, isto sim, é subordinar metade do Congresso brasileiro aos movimentos que têm a pretensão de dividir o Brasil em raças. Somos da raça humana. Se a cor da pele nos distingue e se isso ainda traz prejuízos para muitos brasileiros, precisamos investir mais na integração e menos no confronto.

Petistas: reacionarios, anacronicos, direitistas - Demetrio Magnoli

DEMÉTRIO MAGNOLI
Direita e esquerda
Folha de S.Paulo, 26/10/2013
O PT é o esteio de um sistema hostil ao interesse público: a concha que protege a elite patrimonialista
Visitei Praga em 1989, às vésperas da Revolução de Veludo. Naquela cidade, "comunista" era estigma. No Brasil, a ditadura militar definiu a palavra "direita". "O cara é de direita." Impossibilitado de internar dissidentes em instituições psiquiátricas, o lulopetismo almeja isolá-los num campo de concentração virtual. No processo, devasta o sentido histórico dos termos até virá-los pelo avesso: eles é que são "de direita"; eu sou "de esquerda".
Eles financiaram com dinheiro público a bolha Eike Batista. Na fogueira do Império X, queimam-se US$ 5,2 bilhões do povo brasileiro. "O BNDES para os altos empresários; o mercado para os demais": eis o estandarte do capitalismo de Estado lulopetista. Anteontem, Lula elogiou o "planejamento de longo prazo" de Geisel; ontem, sentou-se no helicóptero de Eike para articular um expediente de salvamento do megaempresário de estimação. O lobista do capital espectral é "de direita"; eu, não.
Eles são fetichistas: adoram estatais de energia e telecomunicações, chaves mágicas do castelo das altas finanças. Mas não contemplam a hipótese de criar empresas públicas destinadas a prestar serviços essenciais à população. Na França, os transportes coletivos, que funcionam, são controlados pelo Estado. Eu defendo esse modelo para setores intrinsecamente não-concorrenciais. O Partido prefere reiterar a tradição política brasileira, cobrando de empresários de ônibus o pedágio das contribuições eleitorais para perpetuar concessões com lucros garantidos. "De esquerda"? Esse sou eu, não eles.
Eles são corporativistas. No governo, modernizaram a CLT varguista, um híbrido do salazarismo com o fascismo italiano, para integrar as centrais sindicais ao aparato do sindicalismo estatal. Eles são restauracionistas. Na década do lulismo, inflaram com seu sopro os cadáveres políticos de Sarney, Calheiros, Collor e Maluf, oferecendo-lhes uma segunda vida. O PT converteu-se no esteio de um sistema político hostil ao interesse público: a concha que protege uma elite patrimonialista. "De direita"? Isso são eles.
Eles são racialistas; a esquerda é universalista. O chão histórico do pensamento de esquerda está forrado pelo princípio da igualdade perante a lei, a fonte filosófica das lutas populares que universalizaram os direitos políticos e sociais no Ocidente. Na contramão dessa herança, o lulopetismo replicou no Brasil as políticas de preferências raciais introduzidas nos EUA pelo governo Nixon. Inscrevendo a raça na lei, eles desenham, todos os anos, nas inscrições para o Enem, uma fronteira racial que atravessa as classes de aula das escolas públicas. Esses plagiários são o túmulo da esquerda.
Eles são atavicamente conservadores. Os programas de transferência de renda implantados no Brasil por FHC e expandidos por Lula têm raízes intelectuais nas estratégias de combate à pobreza formuladas pelo Banco Mundial. Na concepção de FHC, eram compressas civilizatórias temporárias aplicadas sobre as feridas de um sistema econômico excludente. Nos discursos de Lula, saltaram da condição de "bolsa-esmola" à de redenção histórica dos pobres. Quando os manifestantes das "jornadas de junho" pronunciaram as palavras "saúde" e "educação", o Partido orwelliano sacou o carimbo usual, rotulando-os como "de direita". Eles destroem a linguagem política para esvaziar a praça do debate público. Mas, apesar deles, não desapareceu a diferença entre "esquerda" e "direita" --e eles são "de direita".
"Esquerda"? O lulopetismo calunia a esquerda democrática enquanto celebra a ditadura cubana. Fidel Castro colou a Ordem José Martí no peito de Leonid Brejnev, Nicolau Ceausescu, Robert Mugabe e Erich Honecker, entre outros tiranos nefastos. Da esquerda, eles conservam apenas uma renitente nostalgia do stalinismo. Sorte deles que Praga é tão longe daqui.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A deterioracao fiscal no Brasil: governo cria a futura crise - MansuetoAlmeida

O risco fiscal no curto-prazo e o ajuste necessário em 2015

by mansueto
O risco fiscal no curto-prazo e o ajuste necessário em 2015
Mansueto Almeida
Nas conversas sobre economia que tenho com economistas brasileiros e estrangeiros tenho destacado que, apesar de o Brasil “ainda” não correr o risco de uma crise fiscal, houve uma clara deterioração dos indicadores fiscais, uma visão que, me parecer ser compartilhada por todos os Secretários de Política Econômica da gestão Palocci (2003-2005) e Mantega (2006-2014) que antecederam o economista Márcio Holland: Marcos Lisboa (2003-2005), Bernard Appy (2005-2009) e Nelson Barbosa (2009-2010).
Essa piora fiscal pode ser sintetizada por um conjunto de indicadores que mostro em seguida e não há como esperar nenhuma grande melhora no curto prazo, mas é importante conhecer esses dados para que se tenha consciência da magnitude dos desafios pós-eleição de 2014.
No âmbito doméstico, passamos de uma situação de relativo conforto fiscal, com um superávit primário de 3,1% do PIB, em 2011, muito acima do necessária para estabilizar a dívida pública liquida e bruta, para uma situação de moderado risco fiscal. Se o Brasil estivesse com um crescimento do PIB de 4% ao ano, taxa de juros nominal (Selic) de 8% ao ano e inflação de 5% ao ano, um superávit primário de 1,5% do PIB seria suficiente para reduzir, ainda que de forma lenta, a dívida bruta e liquida como porcentagem do PIB.
Mas esse nível de superávit primário de 1,5% do PIB, que é o valor esperado para 2014 por vários bancos e consultorias, passa a ser muito baixo para uma economia na qual o PIB cresce na faixa de 2% a 2,5% ao ano, e taxa de juros Selic caminha para dois dígitos - 10% ao ano.
De 2002 a outubro de 2008, o superávit primário (12 meses) do setor público consolidado ficou entre 3,5% e 4% do PIB. A forte recuperação observada deste indicador no pós-crise, em 2010 e 2011, foi rapidamente revertida em 2012 e 2013, anos de baixo crescimento do PIB  no qual o crescimento da despesa primária será, pelos meus cálculos, em torno de 1,3 pontos do PIB - um crescimento muito forte para dois anos.
Superávit Primário em 12 meses – Setor Público Consolidado - % do PIB - 2002-2013

Primário
Fonte: Banco Central
A situação fiscal é ainda mais grave porque o governo adotou novos programas para reativar a economia que aumentaram o custo fiscal dos benefícios financeiros e creditícios. Segundo cálculos da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda,  anexados à Proposta de Lei Orçamentária anual de 2014, o custo fiscal dos diversos subsídios, benefícios financeiros e creditícios, passará de uma média de R$ 44 bilhões, em 2011 e 2012, para R$ 72 bilhões, em 2013 e 2014; um crescimento nominal de mais de 60% (clique aqui para ver as tabelas).
Vale ressaltar que o custo da conta de subsídios dos programas do governo federal só não será maior porque uma parte desses subsídios teve seu pagamento postergado. Este é o caso, por exemplo, das operações de equalização de taxa de juros no âmbito do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), um programa que permite que até R$ 312 bilhões dos empréstimos do BNDES sejam subsidiados.
De acordo com a Portaria nº 357, de 15 de outubro de 2012 do Ministério da Fazenda, os subsídios deste programa, a partir de abril de 2012 só passam a ser devidos depois de 24 meses. Isso significa que, a conta dos subsídios do PSI ao longo de 2013 e 2014 só aparecerá nas contas fiscais no próximo governo. (se quiser saber mais sobre esse tema leia o meu post “truques fiscais" com o PSI).
Essa é uma conta que ninguém sabe exatamente o tamanho, mas que, de acordo com o balanço do BNDES, no final de 2012, já chegava a R$ 12 bilhões. Esse era o montante que o Tesouro Nacional tinha que pagar ao BNDES para ressarcir o banco o seu prejuízo por emprestar à uma taxa de juros abaixo do seu custo de captação (Taxa de Juros de Longo Prazo) mais spread  (1% ao ano) nos programas no âmbito do PSI.
Apesar da piora fiscal, não se observou ainda um forte crescimento do investimento público do governo federal. Este foi de apenas 1,4% do PIB, em 2012, ante 1,2% do PIB, em 2010 (incluindo aqui o Minha Casa Minha Vida). Assim, a forte queda em 12 meses do superávit primário mostrado acima não pode ser creditado ao crescimento do investimento. Neste ano, a situação é pior, pois o investimento público acumulado está com queda nominal de R$ 350 milhões até agosto, apesar de o crescimento da despesa não financeira do governo federal ter sido de R$ 65 bilhões, ante o mesmo período do ano passado.
Superávit primário menor com taxa de juros em alta, significa déficit nominal do setor público maior. Recentemente, em julho deste ano, o déficit nominal de 12 meses do setor publicou voltou a ultrapassar a barreira de 3% do PIB, maior valor desde agosto de 2010 (3,25% do PIB). Hoje, o déficit nominal do setor público já superou 3% do PIB, apesar da taxa de juros Selic atual (9,5% ao ano) ser inferior à taxa de 10,75% ao ano de 2010. Ou seja, apesar da taxa de juros menor, a nossa economia fiscal (resultado nominal) piorou.
Déficit Nominal em 12 meses – Setor Público Consolidado - % do PIB -  2002-2013

Nominal
Analistas econômicos de bancos e consultorias esperam que o déficit nominal permaneça acima de de 3% do PIB e alcance 3,5% do PIB, em 2014.. Esse valor ainda é muito inferior ao que era em 2003 (superior a 5% do PIB), mas muito acima aquele que seria esperado para um país que, desde 1999, fez um enorme esforço fiscal que foi parcialmente revertido no período recente.
As projeções do próprio governo federal, em 2012, no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA 2013), apontavam um déficit nominal de 1% do PIB, em 2013, uma projeção que se mostrou excessivamente otimista frente à queda observada (e não esperada) do superávit primário em conjunto com a pequena economia de juros.
Nos últimos 12 meses até agosto, a conta de juros nominais do setor público foi de 4,9% do PIB. No início do ano passado, projeções oficiais chegaram a apontar que a conta de juros poderia ser inferior a 4,5% do PIB, em 2012, e até mesmo inferior a 4% do PIB, em 2013/2014. Ninguém mais espera que isso aconteça e parece claro que, em decorrência do crescimento da divida pública bruta nos últimos cinco anos (2008-2012), a conta de juros diminuiu sua sensibilidade em relação à queda da Selic e continuaremos com uma conta de juros elevada próxima a 5% do PIB.
É importante lembrar que, em 2007, a Dívida Bruta do Setor Público era de 57,97% do PIB e a Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) era 45,53% do PIB, uma diferença de 12,4 pontos do PIB. Em um exercício contra factual simples, se essa diferença tivesse se mantido nos últimos cinco anos, a Dívida Bruta do Setor Público deveria ter sido, em 2012, de 47,57% do PIB ao invés de 58,56% do PIB. A divida bruta não caiu por dois motivos: (i) dobramos o estoque de reservas e, (ii) expandíamos o estoque da dívida bruta para emprestar para bancos públicos em mais de 8 pontos do PIB.
Por fim, no cenário de piora fiscal aqui detalhado, merece destaque a contratação de novas dívidas pelos estados que, segundo a Comissão de Assuntos Econômicos do Senador Federal, já monta a R$ 88,9 bilhões, R$ 61,1 bilhões já contratados e R$ 27,8 bilhões em tramitação no Congresso Nacional ou Tesouro Nacional. Esses números tendem a crescer com a renegociação da divida dos estados e municípios, que levará a contratação de novas dívidas não incluídas nos valores acima.
Apesar da liberação dessas novas dívidas ocorrerem apenas ao longo deste e dos próximos anos, a magnitude do seu crescimento (R$ 88,9 bilhões), equivale a dois pontos do PIB de 2012. É mais um sinal preocupante, pois indica mais um entrave à redução do endividamento bruto do setor público. Dado esse cenário como será o início do próximo governo?
O que esperar para o início do próximo governo?
O próximo governo começará com o desafio de garantir um superávit primário que sinalize para a redução da dívida bruta ao longo dos próximos anos e recupere um pouco a capacidade de investimento do setor público. Não haverá nenhum espaço para redução de carga tributária e uma pressão crescente de novos gastos que não estavam sendo pagos (o custo do PSI a que me referi no post anterior).
A magnitude desse ajuste fiscal, ou seja, a meta de superávit primário a ser fixada, dependerá da elevação da taxa de juros dos EUA, da inflação doméstica e do ritmo de crescimento da economia brasileira. Mas é certo que virá, restando ao presidente (quem quer que seja) apenas negociar com o Congresso Nacional os detalhes desse novo ajuste, que não será necessariamente dramático, mas necessário se o país quiser aproveitar plenamente o seu crescimento potencial.
O grande risco é que o presidente não consiga criar o consenso político e convencer a sociedade da necessidade de uma maior parcimônia fiscal. Neste caso, não há muito o que fazer a não ser esperar que a agenda fiscal seja imposta à sociedade pelo menor crescimento econômico e/ou maior inflação; algo que fatalmente ocorrerá ainda ao longo do próximo mandato.
O motivo para otimismo no pós-2014 é o seguinte. Tenho convicção que pela natureza de suas declarações os candidatos Aécio Neves (PSDB) ou Eduardo Campos (PSB) utilizarão o seu capital político para recuperar o esforço fiscal – será um ou dois anos de austeridade para ter crescimento mais robusto nos dois anos finais do governo.
Mas se a presidenta Dilma Rouseff for reeleita, acho também que ela poderá fazer algo inusitado, iniciar o seu governo com uma equipe econômica totalmente nova (isso já foi imposto pelo humor do mercado doméstico e internacional). Isso pode significar resgatar antigos colaboradores da gestão PT como Bernard Appy, Nelson Barbosa, Octaviano Canuto e mesmo levar Alexandre Tombini para a Fazenda. Se a presidente for reeleita e der uma guinda mais liberal, a eleição de 2018 ficará indefinida.
Mas se o governo da presidente Dilma for reeleito e insistir no modelo chamado de nova matriz econômica, uma experiência que comprovadamente não deu certo, neste caso, é possível que algum dos candidatos derrotados no pleito do próximo ano seja o presidente eleito em 2018.
A minha aposta é que prevalecerá o bom senso e faremos um ajuste fiscal em 2015/ 2016, quem quer que seja o vencedor das eleições presidenciais no próximo ano. Por isso que, nesta semana, em um encontro que tive com um grupo de Embaixadores da União Européia, fui muito claro: “senhores, eu estou pessimista no curto-prazo, mas moderadamente otimista no médio prazo, independentemente do resultado das eleições.”
Resta saber se o bom senso prevalecerá, mas mesmo que prevaleça, não esperem crescimento acima de 3,5% ao ano ao longo dos próximos quatro anos. Se ficarmos perto disso já será uma grande vitória frente aos desafios que teremos pela frente. Aqui me concentrei apenas na questão fiscal e nem chegamos a falar da questão de educação, comércio exterior, reforma tributária e produtividade. Falo sobre isso em outra oportunidade.

Ditadura militar e NuncaAntesNestePais: diferencas ou tudo a ver? -Reynaldo Rocha


Blog de Augusto Nunes, 28/10/2013
 às 16:30 \ Política & Cia

Reynaldo-BH: os governos lulopetistas e a ditadura militar — semelhanças, ou meras coincidências?

Como no tempo da ditarura militar, atualmente a política econômica é tratada como segredo de estado
“Como no tempo da ditarura militar, atualmente a política econômica é tratada como segredo de Estado”
Post do leitor Reynaldo-BH
Coincidências
Post-do-Leitor11 – Censura
Ditadura militar: controle sobre a imprensa, com um comitê designado pelos militares (os censores) que liberava o que era pró-”milagre” ou se abstinha de críticas e censurava notícias em contrário.
Lulopetismo: obsessão pelo controle social da mídia em que os novos censores seriam escolhidos pelo Estado (como na ditadura) com poderes para interferir em conteúdos.
2 – Imprensa paga
Ditadura militar: Amaral Neto e O Cruzeiro são exemplos.
Lulopetismo: blogs oficiais e algumas revistas/jornalistas/colunistas que se dizem progressistas. Pagos do mesmo modo.
3 – Bipartidarismo
Ditadura militar: dois partidos, a Arena e o MDB, e as “sublegendas” que abrigavam as correntes dentro de cada um deles.
Lulopetismo: base alugada que se reduz a uma posição de “contra x a favor”.
4 – Judiciário
Ditadura militar: intimidação e escolha de dóceis ministros do Supremo, de modo a não contrariar a ditadura.
Lulopetismo: Sem comentários.
5 – Legislativo
Ditadura militar: domínio total dobre o Poder Legislativo.
Lulopetismo: idem, com uso de emendas e acordos regionais. Tentativa de ir mais fundo, com o mensalão.
6 – Obras faraônicas
Ditadura militar: Transamazônica, hidrelétrica de Itaipu e Ponte Rio-Niteroi, entre outras.
Lulopetismo: Ferrovia Norte-Sul, transposição do Rio São Francisco.
(As propagandas são AS MESMAS! O Brasil que nunca houve antes!)
7 – Obras de papel
Ditadura militar: Angra 3, 4, etc.
Lulopetismo: Trem-bala
Obras gigantescas são marcas registradas dos dois períodos: na ditadura militar, foi a transamazônica e a Angra III, e no lulopetismo a transposição do Rio São Francisco e o trem-bala (Fotos: ABr :: Hans von Manteuffel :: VEJA :: Presidência da República)
Obras faraônicas, nem sempre concluídas, são marcas registradas dos dois períodos: na ditadura militar, a Transamazônica e a Angra III (fotos da coluna à esquerda), e no lulopetismo a transposição do Rio São Francisco e o trem-bala (Fotos: ABr :: Hans von Manteuffel :: VEJA :: Presidência da República)
8 – Slogans
Ditadura militar: “Ninguém segura este país.”
Lulopetismo: “Nunca antes neste país.”
9 – Aparelhamento
Ditadura militar: em cada ministério, um exército de militares da reserva, sobretudo nas extintas áreas de informação de cada um deles.
Lulopetismo: em cada ministério, um exército de sindicalistas.
10 – Demonização
Ditadura militar: “Brasil! Ame-o ou deixe-o!”
Lulopetismo: todos os adversários são inimigos. FHC é o culpado de tudo, até da seca no Nordeste.
11 – Estatais
Ditadura militar: em nome de um nacionalismo caolho, criaram-se dezenas de estatais.
Lulopetismo: quase sem comentários. Para o pré-sal, não bastava a Petrobras: criou-se também a PPSA.
12 – Economia
Ditadura militar: o mundo estava errado e o Brasil certo.
Lulopetismo: idem, ibidem.
13 – Corrupção
Ditadura militar: nunca houve uma condenação de militares corruptos (não existiu nenhum?)
Lulopetismo: são todos inocentes mesmo com provas em contrário.
14 – Divisão de poderes
Ditadura militar: entre os falcões e os moderados das Forças Armadas, ficando em segundo plano a capacitação do indicado ao cargo.
Lulopetismo: entre os partidos da base e correntes do PT, ficando em segundo plano a capacitaão do indicado ao cargo.
15 – Medo
Ditadura militar: dos comunistas.
Lulopetismo: dos direitistas raivosos — denominação reservada à maioria dos críticos e adversários do governo.
Tanto ontem como hoje, a escolha de ministros para o STF era feita de modo a não contrariar o governo (Foto: Creative Commons - CC BY 3.0)
“Tanto ontem como hoje, a escolha de ministros para o STF era feita de modo a não contrariar o governo” (Foto: Creative Commons – CC BY 3.0)
16 – Inimigos preferenciais
Ditadura militar: os democratas.
Lulopetismo: os democratas.
17 – Previsão temporal
Ditadura militar: eterna.
Lulopetismo: a eternidade.
18 – Eleições
Ditadura militar: valia tudo. O importante era ter os mais de 70% (em média) que conseguiam nas urnas.
Lulopetismo: Gilberto Carvalho, Dilma e Lula já responderam: “o bicho vai pegar” e a eles vão “fazer o diabo” nas eleições.
19 – Segredos
Ditadura militar: tudo na economia era secreto. Nada revelado
Lulopetismo: perguntem ao BNDES. A partir de 2027, por favor.
20 – Política externa
Ditadura militar: apoiando e ajudando as ditaduras do Chile, Uruguai, Paraguai e outras na América Latina.
Lulopetismo: apoiando e ajudando as ditaduras de Cuba, Venezuela, Angola, Mianmar, Líbia de Kadhafi, Coreia do Norte e qualquer outra que se enquadra na diplomacia ideológica (já abandonada até pela China).
CONCLUSÃO
Lula e Dilma são como os generais de ontem. (Óbvio que não me refiro à tortura e assassinatos. Mas somente divergir nisto é suficiente?). Um passando o poder ao outro. Legitimados por eleições, como era a Arena. Usando de TODOS os meios para se manter no poder. Mentindo. Acusando. Demonizando. Manipulando. Intimidando.
Se antes coronéis aposentados mandavam em estatais e gritavam “sentido!”, hoje sindicalistas incultos, despreparados, ignorantes e desonestos estão nos mesmos cargos e gritam “presente!”.
Se antes o Brasil se alinhava a um “americanismo” de extrema-direita com as ditaduras do Cone Sul, hoje estamos alinhados com o bolivarianismo (seja o que isto for) de uma América Latina que parece condenada a ser um poço de atraso.
Se antes tínhamos uma ditadura, hoje, se os democradas não reagirem, caminhamos para outra.
Disfarçada. Aprendeu com a outra. Mas tão perniciosa quanto.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O presidente Joao Figueiredo e a Copa do Mundo - Paulo Figueiredo

Depoimento recebido por um amigo do filho do último presidente da ditadura militar, João Batista Figueiredo, autorizado a ser divulgado pelo próprio Paulo Figueiredo.

[Fulano,] de repente hoje eu comecei a receber uma enxurrada de mensagens mencionando esta história.
Como você sabe, sou, evidentemente, talvez o cara mais suspeito para tecer considerações sobre qualquer matéria que faça juízo de valor a respeito de meu pai, especialmente em atos do seu governo.
Mas sobre este episódio, especificamente, não posso me furtar a lhe dizer, e com certeza absoluta, que o que está relatado é totalmente verdadeiro.
Até porque, veja você, calhou de eu estar presente no mencionado encontro. 

Tinha acabado de vir do Rio, e fui direto para a Granja do Torto ver os meus pais, como eu sempre fazia assim que chegava em Brasília. Soube que o "Velho" estava reunido com o Havelange, no gabinete da residência. Como sempre tivemos com ele uma relação muito cordial, me permiti entrar para cumprimentá-lo e dar-lhe um abraço.
"- João e João! Esta reunião eu tenho que respeitar!", brinquei irreverente, dele recebendo um carinhoso beijo. (Havelange sempre teve o hábito de beijar os amigos). Ia, logicamente, me retirar, mas papai me deixou à vontade:
"- Senta aí, estamos falando de futebol, que é coisa que você adora".
Fui logo sacaneando: "Vocês já descobriram um jeito de salvar o Fluminense?" (risos - os dois eram tricolores roxos).
"- Ainda não, mas vamos chegar lá. Estamos conversando sobre Copa do Mundo..."
Filho, neste momento, o Havelange está me sugerindo realizar a próxima Copa do Mundo no Brasil e eu vou dar uma resposta a ele com o seu testemunho: “Havelange, você conhece uma favela do Rio de Janeiro? Você conhece a seca do nordeste? Você conhece os números da pobreza no Brasil? Com essa realidade, você acha que eu vou gastar dinheiro com estádio de futebol? Não vou! E, enfie essa tal de Copa do Mundo no buraco que você quiser, que eu não vou fazer nenhuma coisa destas no Brasil!
O Velho não concordava que o país despendesse quase um bilhão de dólares (valor abissal para os números daquela época) para tentar satisfazer o caderno de encargos da FIFA, principalmente diante do quadro de enorme dificuldade financeira que o Brasil atravessava. Uma situação cambial dramática, resultante de um aperto histórico na liquidez internacional - taxa de juros internacionais de 22% a.a, barril de petróleo a 50 dólares no mercado spot - agravada pela necessidade de se dar continuidade a um importantíssimo conjunto de obras de infraestrutura. Muitas delas iniciadas, diga-se de passagem, em governos anteriores, mas que não poderiam ser paralisadas por serem realmente de vital importância para a continuidade do nosso desenvolvimento.
Realmente, era contrastante com o que se fez (ou melhor, o que NÃO se fez) nos governos seguintes: várias hidrelétricas, começando por Itaipu - até hoje é a segunda maior do mundo, além de Tucuruí, Balbina, Sobradinho, todas com as suas gigantescas linhas de transmissão; conclusão da expansão de todas as grandes siderúrgicas (CSN, Usiminas, Cosipa e outras - que fizeram o Brasil passar de crônico importador para exportador de aço); conclusão das usinas de Angra 1 e 2; um programa agrícola que permitiu que ainda hoje estejamos colhendo os frutos da disparada de produção de grãos - graças à Embrapa, ao programa dos cerrados e ao programa "Plante que o João garante"; um salto formidável nas telecomunicações, até então ridículas; multiplicação da malha rodoviária - a mesma, praticamente, na qual hoje ainda rodamos, só que agora sucateada e abandonada; inauguração de dois metrôs: Rio e São Paulo; instalação de vários açudes no sertão nordestino; a construção de 2.400.000 casas populares, mais do que toda a história do BNH até então, e muito mais.
Isto é apenas o que eu me lembro agora, ao aqui escrever rapidamente. Em resumo: naquela época, o dinheiro dos impostos dos brasileiros, simplesmente, destinava-se ao desenvolvimento do país.
Mas, para concluir, já falando do presente: o que se está fazendo com o povo brasileiro é simplesmente criminoso. Só que a roubalheira na construção dos estádios é apenas a ponta do iceberg.
Só chamando um Aiatolá para dar jeito, mesmo.
Grande Abraço,
Paulo Figueiredo
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Obs.: 1 - Paulo Figueiredo é filho do ex-presidente João Figueiredo.
2 - Por dever de justiça, é de se ressaltar que o Presidente João Figueiredo morreu pobre. Anos após morreu sua esposa, D. Dulce nas mesmas condições. Seu filho Paulo, hoje trabalha como qualquer mortal e nunca se teve notícia de qualquer negócio fantástico envolvendo seu nome, nem tampouco, que enriqueceu no governo do pai.

Carta Capital (que deveria mudar o seu nome) faz intrigas sobre o IPEA - Mansueto Almeida

Transcrevo abaixo um testemunho pessoal sobre o IPEA, esse NBER sobre-dimensionado e compatível com a super-estatização brasileira, do economista e funcionário do IPEA Mansueto Almeida.
Sempre achei que esse jornaleco de esquerda, e simpatizante das causas estatais de maneira geral, deveria mudar de nome, e se chamar qualquer outra coisa que não Carta Capital, o que denota certa identificação ao próprio, certo? Pois não é exatamente o que se vê, mas uma oposição constante, tanto ao capital, quanto ao sistema que está identificado ao nome...
Paulo Roberto de Almeida


A Reportagem da Carta Capital sobre o IPEA

by mansueto, 27/10/2013
A revista Carta Capital fez uma matéria sobre o IPEA, o tipo de matéria para criar intrigas e cujas as fontes têm medo de falar em “on”. A revista poderia ter falado com os técnicos que cita em “on” e nós poderíamos ter falado, confirmado ou não as declarações que a nós foram imputadas pelo jornalista.
No meu caso específico, o repórter mostra que “eu ando me gabando no IPEA de escrever discursos para o candidato Aécio Neves. Quem escreve discurso de candidato são marqueteiros e não economistas. Eu teria que ser muito idiota e burro para fazer uma  declaração desse tipo. O que falei muitas vezes é que gosto do time de economistas por trás do programa do Senador Aécio Neves (também gosto do time que ajuda Eduardo Campos/Marina), que já conversei com o candidato Aécio Neves e sim, conheço o senador Aécio Neves. Mas conheço e converso com outros políticos, inclusive de uma ala do PMDB que é da base de apoio do governo  e com um grupo do PT que acha que o partido está fazendo tolice na área econômica. Mas vamos para o que interessa.
O IPEA está longe de ser uma casa liberal como insinua a matéria. Basta ler que, na chamada “imprensa liberal”, o IPEA sofre constantes ataques, muitos dos quais injustos, por defender o governo. Vamos dar uma olhada nos titulares das diretorias do IPEA.
Diretor de Macroeconomia, Claudio Hamilton, foi na era Pochmann coordenador-geral de finanças públicas e, na gestão Marcelo Neri, foi promovido a Diretor. Ou seja, Neri promoveu um pesquisador da casa que já era coordenador na gestão Pochmann e que não compartilha de teses liberais como ele fala abertamente. É um pesquisador da casa e de fácil diálogo.
diretor da Diretoria de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Dinte), o economista Renato Baumann, foi por anos o chefe do escritório da  CEPAL em Brasília. Será que alguém de bom senso ou com conhecimento básico de economia chamaria Baumann de neoliberal? Baumann foi por muitos anos o chefe do Ricardo Bielschowsky na CEPAL, um economista da UFRJ da ala desenvolvimentista que participou fortemente da elaboração do PPA no primeiro governo Lula. Baumman é do grupo de economista que acredita na necessidade de fomento à indústria e no apoio do governo à exportação.  Alguém com esse perfil seria classificado de liberal?
O diretor de Estudos e Políticas Sociais (Disoc), Rafael Osório, é um técnico jovem que trabalha no IPEA há anos e que tem um bom relacionamento com todos os técnicos no instituto. Rafael quando ainda técnico contribuiu com o governo na definição de linha de extrema pobreza e sempre foi um técnico excessivamente preocupado com o resultado técnico das pesquisa e não com “desavenças ideológicas”.
diretora de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset), Fernanda De Negri, estudou em Campinas, foi assessora de dois Ministros da Ciência e Tecnologia: Aloisio Mercadante e Marco Antonio Raupp. Ela é uma forte defensora de política industrial voltada à inovação e de avaliação de politicas públicas. Ela é minha chefe e sabe tanto estimular o trabalho quanto puxar a orelha quando agente precisa de um bem vindo puxão de orelha. Fernanda estimula o debate técnico interno e aumentou a interlocução o IPEA com outros órgãos da Esplanada dos Ministérios. Ela liberal? nunca, só se liberal tiver para Carta Capital uma definição muito peculiar de quem não defende Márcio Pochmann.
Bom, vamos agora para a Diretoria de Estudos Institucionais (DIEST). Eu me dou muito bem com o antigo diretor da área na era Pochmann, Alexandre Gomide, um técnico competente que inclusive me convidou para fazer trabalhos na DIEST que serão publicados agora. Um texto que escrevi com dois co-autores procurar  entender o desenho de politicas industriais em um contexto mais democrático, a partir de dois estudos de caso: o papel do BNDES e Petrobras. O Diretor atual, Daniel Cerqueira, é pesquisador do IPEA e um estudioso na área de segurança pública. Nunca soube ou escutei Daniel defendendo redução do tamanho do estado ou maior abertura comercial, etc. teses identificadas como “liberais”. Daniel é um liberal? Acho que não, mas é muito inteligente e competente.
Bom, estou terminando, só falta eu comentar sobre duas diretorias. A Diretoria de Desenvolvimento Institucional, cujo titular é Luiz Cezar Loureiro de Azeredo, é uma diretoria que cuida de assuntos administrativos. Luiz Cezar tem feito um grande esforço para recuperar a capacidade de planejamento na instituição.
Por fim, tem a Diretoria de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais, cujo o titular é o economista Rogério Boueri, também técnico da casa. Rogério é sim um liberal, mas que se destaca por duas qualidades: (i) respeita opiniões divergentes da sua; e (ii) é extremamente discreto e faz o seu trabalho quem quer que seja o seu chefe e não gosta de muita publicidade. É um dos melhores pesquisadores da casa e adora o Botafogo.
Infelizmente, um grupo muito pequeno na gestão Márcio Pochmann tentou fazer do IPEA um órgão de propaganda. É um grupo inclusive que não aceitava muito bem o fato de o PT ter escolhido a presidente Dilma como candidata. A gestão Marcelo Neri está recuperando a gestão do IPEA com respeito a opiniões divergentes.
Depois de muito tempo, perdemos o medo de ter nossa carreira comprometida por falar o que pensamos e o que nossas pesquisas mostram ao invés do que “deveria ser o resultado da pesquisa”. E ao contrário do que sugere a revista, que eu seria um coordenador com amplos poderes, eu não tenho nenhum subordinado e nenhum estagiário. Ou seja, sou coordenador de mim mesmo sem equipe. A influencia que tenho é porque escrevo via meu blog e jornalistas, economistas, estudantes, etc gostam. Escrever é livre e sugiro aqueles que  defendem irresponsabilidade fiscal, uma lista grande dentro e fora do governo, a fazerem o mesmo. É livre!!
Não tenho absolutamente nada contra Márcio Pochmann e até simpatizo com algumas de suas idéias (apesar de eu ser segundo a revista um liberal).  Mas no seu mandato no IPEA no governo Dilma (na sua gestão no governo Lula, os problemas foram pequenos) alguma coisa deu errada e o ambiente de trabalho ficou insuportável. A Carta Capital poderia fazer algo interessante. Por que não convida técnicos do IPEA para um debate sobre o IPEA nos últimos 15 anos? Sei que nós técnicos poderíamos contar vários casos e contribuir para que os órgãos de impressa passassem a conhecer melhor o IPEA, que é uma casa cuja direção  voltou a respeitar a pluralidade de opinião com foi, inclusive, a tradição da casa na sua história, inclusive, ao longo do governo do Presidente Lula.

domingo, 27 de outubro de 2013

Venezuela: the end is near, como diriam os profetas do apocalipse...

Venezuela descamba para a hiperinflação

O dólar supera a barreira psicológica de 50 bolívares na Venezuela. Produtos em escassez são remarcados duas vezes por dia, quando eles existem a venda nas prateleiras dos supermercados.
Francisco Vianna, 26-10-2013

No “câmbio paralelo”, ou “negro”, o dólar, na Venezuela ultrapassou a barreira – considerada psicológica de hiperinflação – de 50 bolívares por dólar, o que representa estar 8 vezes mais cara do que o dólar vendido pelo câmbio oficial do Palácio Miraflores, de 6,3 bolívares por dólar.
O câmbio negro ou “mercado paralelo” tem sido a única forma que a grande maioria dos venezuelanos têm de adquirir a moeda estadunidense à vontade, sem o controle do socialismo bolivariano.

Muitos estão vendendo o que têm e indo embora do país, e para isso precisam de dólares. O mercado de rua tem sido amplamente combatido pelo governo ‘bolivariano’ e a operação envolve riscos, uma vez que os dólares que não procedem da compra oficial do governo podem ser confiscados pelo regime de Caracas.

Isso, todavia, não tem diminuído a procura pela moeda americana na mão dos cambistas e doleiros do chamado “mercado paralelo” onde o dólar já é vendido a mais de 50 bolívares.

O valor alcançado pela divisa americana nas ruas da Venezuela, segundo os especialistas, já representa a transposição de uma barreira psicológica que acreditam ser o limiar da hiperinflação que é de 50 bolívares por dólar, numa demonstração do adiantado grau de deterioração econômica do país, como geralmente tende a ocorrer nos regimes socialistas.

Nesta semana, as ruas cotavam o dólar “paralelo”, em 53,51 bolívares por dólar, em Caracas, conforme o website www.dolartoday.com que acompanha as transações do mercado negro. Essa cotação de rua do dólar representa uma desvalorização do bolívar da ordem de 75,08 % ao ano, em relação ao valor da moeda americana negociada há 12 meses e que era de 13,33 bolívares por dólar. Ao câmbio oficial, só tem acesso um pequeno grupo de empresários cuidadosamente selecionados pela cúpula do regime de Caracas, que os vende a moeda dos EUA por 6,3 bolívares, valor altamente subsidiado pelo governo e à custa do trabalho do povo.

Comerciante em Caracas, anunciando a venda da sua loja de comércio com o humor típico da desilusão socialista.
No entanto, a maioria dos economistas do país acredita que o dólar está supervalorizado num nível insustentável e prognosticam que o governo de Nicolás Maduro vai se ver obrigado a desvalorizar oficialmente a moeda nacional após as eleições municipais de dezembro. O nível recorde de valor de troca alcançado pelo dólar americano no país, acreditam os analistas, decorre de dois fatores: a diáspora e a falta de liquidez do estado socialista bolivariano. A diáspora econômica é a que ocorre com a saída do país dos capitais privados e da mão de obra especializada que há algum tempo migra para a vizinhança sul-americana, principalmente Colômbia, Peru, Chile e Brasil.  

A falta de liquidez do estado faz com que o governo retenha a moeda americana ao máximo para honrar seus pagamentos aos seus sócios estratégicos (Rússia, Irã, China e países da ALBA), liberando assim um volume de divisas em moeda forte muito aquém do necessário para manter a economia em funcionamento.

Para compensar, de forma inconsequente – como soe acontecer nesse tipo de regime –, o Palácio Miraflores aumenta enormemente o volume da moeda circulante sem lastro, em bolívares, que fatalmente levará a taxa de inflação a fechar o ano acima dos 50% ao ano.
De fato, o próprio governo reconheceu esta semana que a inflação anualizada em setembro foi 49,4 por cento, seu nível mais alto em 13 anos.

“Com a escassez de dólares em oferta cresce a demanda daqueles que precisam da moeda americana até para ir embora do país. São poucos os que vendem dólares”, disse um professor de economia da Universidade Central de Venezuela. “Isso gera uma escassez progressiva de produtos básicos de consumo que, na Venezuela, hoje está chegando às raias do insuportável e provavelmente o regime se certificará disso com os resultados das eleições municipais de dezembro próximo, mesmo que haja todos os mecanismos eleitorais fraudulentos que tendem a beneficiar a situação e que transformam o regime cada vez mais numa caricatura de democracia”, acrescentou o professor.

Com os bolsos cheios de bolívares sem valor, os venezuelanos não sabem o que fazer com eles, e não encontram nos mercados muitos produtos básicos tais como açúcar, óleo de cozinha, carnes, papel higiênico, apenas para citar alguns.

Com a diáspora venezuelana, agrava-se o esvaziamento de capitais privados e de mão de obra qualificada, com redução acentuada da classe média e queda intensa da capacidade produtiva do país tanto no setor primário (agropecuário), como no secundário (comercial e industrial) e mais ainda no terciário (serviços). A própria PDVSA, fonte maior de todas as divisas em moeda forte do país, está tendo sérios problemas de manutenção de suas instalações de extração e refino de petróleo por escassez de mão de obra qualificada, com sua produção tendo sofrida uma queda de quase um terço em relação ao que produzia há cerca de cinco anos atrás.

As estatizações por confisco puro e simples de ativos privados fizeram com que o governo chamasse a si a responsabilidade de continuar a manter uma produção que está acima de sua capacidade, mesmo reduzindo drasticamente os salários de seus operadores (o que deixa de fora a seleta burguesia do politiburo instalado em Caracas).

Assim, cada vez mais, Caracas se vê obrigada a trocar petróleo por tudo, uma vez que quase mais nada se produz no país. Os próceres do regime acreditam ainda que o petróleo do país poderá comprar tudo o que o povo necessita, ilusão que a prática começa a desfazer como uma imagem de fumaça. 

Segundo alguns economistas sul-americanos, o país poderá experimentar uma série de “pacotes econômicos” tal como ocorreu no Brasil após a farsa da “abertura democrática” pelo regime militar, com a diferença fundamental de que, no maior país da América do Sul, o regime militar teve a capacidade de montar uma infraestrutura mínima para permitir um crescimento econômico vigoroso. Teve também o bom senso de um governo de centro-esquerda para criar um plano que possibilitasse o controle da inflação e a existência de uma moeda forte e o respeito às leis da economia de mercado.

Ao contrário do Brasil, a Venezuela não tem nada parecido com isso e está se tornando um país de pobres e miseráveis, uma cópia do que ocorre em Cuba, a fonte inspiradora do falecido Hugo Chávez Frías. O déficit fiscal no país caribenho já chega a 20% do seu PIB e o governo nunca esteve com suas reservas de moeda forte tão baixas, além de continuar a imprimir dinheiro sem lastro de modo frenético.

O que o ‘socialismo bolivariano’ está fazendo com a Venezuela pode ser comparável a uma “política de terra arrasada”, que se traduz em hiperinflação e paralisação com deterioração do parque produtivo e queda da produção petrolífera. Com os valores do barril de petróleo progressivamente em baixa – e ainda sem mostrar os reflexos da produção norteamericana de hidrocarbonetos derivados do xisto betuminoso – a tendência é a da exportação do petróleo venezuelano continuar a diminuir.  

Assim, como é muito mais difícil estabilizar uma economia baseada apenas na exportação dessa mercadoria, as pressões internas e externas sobre o regime de Caracas deverão naturalmente aumentar o que permite que os entendidos prevejam dias mais turbulentos para o país.

Nós já vimos esse filme aqui no Brasil, mas tivemos a sorte de contar com o patriotismo e o bom senso dos militares para restaurar a ordem no galinheiro. Ordem essa que, nos últimos dez anos vem sendo deteriorada mais uma vez e tem impedido que o Brasil deslanche de vez como a primeira grande potência latina mundial.

Brasil e Venezuela estão necessitando – este mais do que aquele -- da intervenção de patriotas de bom senso para voltarem a por ordem na zorra em que estão se tornando.
Título e Texto: Francisco Vianna, (da mídia internacional), 26-10-2013