sexta-feira, 22 de maio de 2026

Visita do candidato da extrema-direita a Mister DJT: minhas respostas a questões colocadas por um órgão da imprensa - Paulo Roberto de Almeida

Visita do candidato da extrema-direita a Mister DJT: minhas respostas a questões colocadas por um órgão da imprensa
Paulo Roberto de Almeida

Introdução:
Um órgão da imprensa brasileira mais próximo da direita do que do centro (jamais da esquerda) interrogou-me sobre a visita do candidato da extrema-direita bolsonarista ao ocupante esquizofrênico da Casa Branca, quem eu considero um rei Midas ao contrário, ou seja, tudo o que ele toca vira pó, ou outra coisa; isto é: geralmente os candidatos apoiados por ele acabam perdendo as eleições vergonhosamente. Neste caso, nem sabemos ainda se o candidato, abatido antes de lançar voo por um míssel do banqueiro mais corrupto da história econômico-financeira do Brasil, talvez nem seja candidato, não por culpa do megalomaníaco presidente, mas por sua própria sede de $$$.
Em todo caso, como desconfio que esse órgão da imprensa não vai publicar minha opinião, eu já a posto neste espaço, à disposição de todos os meus amigos e inimigos (pelo teor das respostas, evidentemente). Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 22/05/2026

Visita do candidato Flavio Bolsonaro a Donald Trump:
questões de órgão da imprensa brasileira
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Respostas PRA:

1. Qual o peso político de uma reunião entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump neste momento de crise para o pré-candidato do PL?
PRA: Nenhum peso político, ou se houver algum, ele será totalmente negativo. O candidato acaba de ser desmentido duas vezes por matérias do Intercept justamente por ter mentido a respeito de suas relações promíscuas com um ex-banqueiro corrupto, a quem foi pedir dinheiro que deveria já ter desconfiado, antes de o fazer pelas informações que já circulavam a respeito da situação pré-falimentar de Vorcaro, em decorrência de suas falcatruas no mercado financeiro. Ele o faz em tom de súplica, não exatamente para financiar um filme que ele sabia que já estava quase pronto, e amplamente financiado por outras fontes altamente suspeitas, mas provavelmente para alimentar sua campanha extra-oficialmente (ou seja, à margem dos financiamentos partidários e eleitorais autorizados legalmente) ou então para sustentar a vida de seu irmão “refugiado” nos EUA (para escapar da Justiça brasileira).
A visita a Trump se apresenta até como prejudicial, na medida em que se trata do presidente – ao qual o pai prestou uma submissão abjeta anteriormente – que mais prejudicou o Brasil no terreno comercial e nos ataques indevidos ao sistema de Justiça do Brasil, ou seja, ademais da própria ilegalidade do tarifaço político, em julho de 2025, outra medida ilegal, ao aplicar a Lei Magnitsky num caso absolutamente alheio ao escopo da lei americana, que visa sancionar criminosos políticos, dirigentes corruptos ou criminosos comuns, e não agentes oficiais de uma instutuição de Estado do Brasil.
O fato é que a família Bolsonaro, numa extraordinária iniciativa de traíção à pátria, e em detrimento de milhões de agentes econômicos do Brasil, se esforçou politicamente para sabotar os interesses nacionais e a própria economia nacional unicamente visando objetivos familiares, mediante a mobilização das mais altas autoridades de um país com o qual o Brasil mantinha relações normais por dois séculos, sendo aliás o mais importante parceiro econômico do país, com a único finalidade de causar prejuízos a milhões de brasileiros, em sua sanha egoísta de vingança contra o governo em vigor. Trata-se de algo inaceitável sob qualquer critério, e a imagem de Trump no Brasil é a mais negativa possível, com exceção, possivelmente, de bolsonatistas fanáticos, mal informados, ou traidores como a família em questão. Uma visita que ocorre no bojo de outras graves denúncias contra o candidato tem toda a chance de ser ainda mais prejudicial do que o imaginado, pois confirma a submissão política de um pretenso candidato ao mais alto cargo na nação a um dirigente estrangeiro, um dirigente que perturbou todo o comércio internacional e desmantelou o multilateralismo político e as alianças consagradas.

2. Até que ponto a imagem de Trump ainda mobiliza o eleitorado conservador brasileiro?
PRA: Apenas pessoas desinformadas, muito ingênuas, ou totalmente fanatizadas pela família Bolsonaro podem ter qualquer respeito por um dirigente desequilibrado, que ameaça continuamente outros países de tarifaços ilegais do ponto de vista do sistema multilateral de comércio, ou que pretende tutelar outros países – como já ameçou fazer com toda uma série de nações: Panamá, Canadá, Dinamarca, México, Colômbia, concretamente no caso da Venezuela, Irã, agora em relação a Cuba – para torná-los submissos ao alegado poder de um império declinante que pretende ainda ser respeitado por outros Estados soberanos. Acredito que a imagem de Trump é a mais desgastada de toda a história dos presidentes americanos, e os brasileiros bem informados, não dependentes dessa afeição de uma família de políticos medíocres por um dirigente sem escrúpulos, não podem apreciar o megalomaníaco político.

3. O fato de Trump ter recebido recentemente Lula reduz ou aumenta a necessidade política de Flávio demonstrar proximidade com o republicano?
PRA: Ele espera obter essa proximidade ilusória, esquecendo porém que Trump tem unicamente como foco seus interesses pessoais, os familiares e os dos EUA, nessa ordem, não tendo qualquer consideração por personagens políticos de outros países, a menos que eles lhe emprestem submissão, façam bajulação indevida e prometam ganhos financeiros. Trump não se importa minimamente com ideologia ou com o que pensem dirigentes estrangeiros, tanto que busca boas relações pessoais com aqueles que permitam aos EUA, e a ele e a sua familia mais especialmente, obter ganhos materiais concretos. O que pode ganhar Flavio Bolsonaro com um dirigente desprezado no Brasil? Aparentemente muito pouco. O possível efeito de propaganda em campanha – para demonstrar prestigio junto a um dirigente de uma grande potência – já fica diminuído pelo fato de que o presidente Lula já obteve esse contato em três oportunidades anteriores, recebebendo inclusive elogios do megalomaníaco.

4. Qual o efeito interno dentro da direita brasileira de uma eventual sinalização pública de apoio ou simpatia de Trump a Flávio Bolsonaro?
PRA: Não acrescentará praticamente nada fora da bolha já conquistada de aderentes fanáticos ao bolsonarismo e ao estilo truculento (e ridículo) do desequilibrado dirigente. Apenas pessoas totalmente desligadas dos interesses concretos da economia e da sociedade brasileira podem encontrar qualquer efeito simpatia ou de apoio a um candidato que já sofre um enorme desgaste por ser mentiroso e aliado a um banqueiro corrupto.

5. Como o senhor avalia o timing da viagem em meio às investigações envolvendo Daniel Vorcaro e o filme “Dark Horse”?
PRA: Estimo o pior efeito possível num momento de incertezas, de falta total de informação fiável sobre essas relações espúrias, envolvendo dinheiro roubado de clientes brasileiros de um banqueiro corrupto. Pelo trailer já divulgado do filme em questão, verifico tratar-se de uma produção de baixíssima qualidade visual e de roteiro, com cenas que fariam rir qualquer conhecedor da realidade política brasileira na campanha de 2018 e depois durante o mandato do pior presidente que já tivemos na história do Brasil, responsável pelo volume excedentário de mortos durante a pandemia, pelo negacionismo vacinal, pela oposição a medidas profiláticas, pela altíssima corrupção envolvida nas operações em torno da aquisição de equipamentos e medicamentos para contrarrestar os efeitos da pandemia. Bolsonaro pessoalmente, e seu criminoso ministro da saúde, um general de baixíssima qualidade intelectual, podem ser creditados pela morte de muitas pessoas, a maioria bolsonarista, pois que seguiram as recomendações uso de medicamentos inadequados, como a cloroquina. O filme poderá reduzir ainda mais o número de aderentes à candidatura.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5324, 21 maio 2026, 3 p.

 

Crusoé: Na Casa Branca, o que Lula mais temia - Duda Teixeira (Crusoé)

 Nota PRA: Aparentemente, TODOS, ou quase todos, os candidatos apoiados por Trump acabaram perdendo as eleições. Ele parece mais um rei Midas ao contrário: tudo o que toca virá pó, ou outra coisa.


Crusoé: Na Casa Branca, o que Lula mais temia

Senador Flávio Bolsonaro tem um encontro marcado com Donald Trump na próxima semana

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Duda Teixeira
Crusoé, 21.05.2026 11:42 comentários 0
https://oantagonista.com.br/analise/crusoe-na-casa-branca-o-que-lula-mais-temia/?utm_medium=email&utm_campaign=newsletter_-_resumo_da_manha_2105&utm_source=RD+Station

Crusoé: Na Casa Branca, o que Lula mais temia
Foto: reprodução

Não adiantou nada a visita de Lula ao presidente americano Donald Trump na Casa Branca no início de maio.

Nesta quinta, 21, foi veiculada a notícia de que o senador Flávio Bolsonaro será recebido por Trump na próxima semana.

A informação foi divulgada pelo portal Cláudio Dantas e confirmada por O Antagonista, que apurou também que a agenda já estava marcada antes da confusão deflagrada pelo filme Dark Horse.

Era o que o petista mais temia.

Interferência externa

Flávio, pré-candidato a presidente, não é um representante do governo brasileiro.

Ao encontrar-se pessoalmente com ele, e ainda por cima na Casa Branca, Trump dá um sinal claro de que tentará interferir na eleição brasileira, como já fez com a Argentina e tantos outros países.

O lulismo sabe que a força de Trump não está apenas nos Estados Unidos. Ela está na capacidade de transformar eleições locais em disputas ideológicas globais“, escreveu o estrategista eleitoral Wilson Pedroso, da Realtime Big Data, na Crusoé.

A reunião, por si só, será um endosso de Flávio, justamente no momento em que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tenta abafar as notícias de que pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para o filme sobre seu pai.

A visita também pode quebrar a ideia de que Lula é um ás da diplomacia internacional, capaz de se entender com qualquer um para defender os interesses brasileiros.

Terroristas

E tem mais. Trump ainda poderá tomar decisões que desagradam ao governo brasileiro, aconselhado por Flávio Bolsonaro.

O pior cenário para Lula é aquele em que o governo dos Estados Unidos declara como terroristas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

O petista tem se declarado contra uma possível decisão americana de…

Papers preparados para o webinar Tensões Geopolíticas e a Diplomacia Brasileira - Paulo Roberto de Almeida

Papers preparados para o webinar Tensões Geopolíticas e a Diplomacia Brasileira

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 21 maio 2026, 1 p.
Relação de textos preparados para o webinar em 21/05/2026.

5290. “Uma política externa que denega os fundamentos doutrinais da diplomacia do Brasil”, Brasília, 24 abril 2026, 2 p. Notas para exposição em webinar do Imagine Brasil, a convite do professor Carlos Alberto Primo Braga. Postado no blog Diplomatizzando (20/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/uma-politica-externa-que-denega-os.html). Divulgado na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/167416632/5290_Uma_pol%C3%ADtica_externa_que_denega_os_fundamentos_doutrinais_da_diplomacia_do_Brasil_2026).

5311. “O que eu teria a dizer sobre “Tensões Geopolíticas e a Diplomacia Brasileira”?, Brasília, 15 maio 2026, 2 p. Nota sobre algumas evidências e outras incertezas. Divulgado no blog Diplomatizzando (15/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/o-que-eu-teria-dizer-sobre-tensoes.html).

5313. “Tensões Geopolíticas e a Diplomacia Brasileira: o que há de novo?”, Brasília, 17 maio 2026, 11 p. Nota mais extensa, a partir do trabalho n. 5311, sobre os temas colocados pelo projeto “Imagine Brasil”, da Fundação Dom Cabral, a convite do professor Carlos Alberto Primo Braga, na companhia de Victor do Prado. Complementar com respostas às questões sugeridas pelo coordenador, Carlos Braga. Disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/167416751/5313_Tensoes_Geopoliticas_e_a_Diplomacia_Brasileira_o_que_ha_de_novo_2026_); divulgado parcialmente no blog Diplomatizzando (20/05/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/tensoes-geopoliticas-e-diplomacia_0349459191.html).

5315. “Temas para debate no webinar “Imagine Brasil” da Fundação Dom Cabral”, Brasília, 17 maio 2026, 5 p. Notas para debater as questões colocada pelo coordenador, professor Carlos Primo Braga. Enviado, com o trabalho 5313, para conhecimento prévio, assim como a Victor do Prado. Disponível no blog Diplomatizzando (20/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/temas-para-debate-no-webinar-imagine.html).

5320. “Textos preparados para o webinar ‘Tensões Geopolíticas e a Diplomacia Brasileira’”, Brasília, 20 maio 2026, 2 p. Relação de textos preparados para o webinar ocorrido em 21/05/2026. Disponível no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/textos-preparados-para-o-webinar.html). Complementado em 21/05, com o trabalho 5325.

5322. “Tensões geopolíticas: então e agora”, Brasília, 21 maio 2026, 3 p. Reflexões sobre um conceito e especificidades históricas. Divulgado no blog Diplomatizzando (21/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/tensoes-geopoliticas-entao-e-agora.html).

5323. “Nova Ordem Global Multipolar?”, Brasília, 20 maio 2026, 2 p. Uma fraude completa: quatro argumentos contrários. Divulgado no blog Diplomatizzando (20/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/nova-ordem-global-multipolar-paulo.html).

5325. “Quais foram as grandes tensões geopolíticas do passado?”, Brasília, 21 maio 2026, 1 p. Listagem cronológica dos “embates” entre grandes potências. Divulgado no blog Diplomatizzando (20/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/quais-foram-as-grandes-tensoes.html).

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5320: 21/05/2026, 2 p.

Disponível no blog Diplomatizzando (link:  Papers preparados para o webinar Tensões Geopolíticas e a Diplomacia Brasileira - Paulo Roberto de Almeida

O atentado contra Salman Rushdie, relatado por Braulio Tavares, em Mundo Fantasmo, e comentado por Madame IA (Gemini AI)

Artigos de Braulio Tavares em sua coluna diária no "Jornal da Paraíba" (Campina Grande-PB), desde o 0001 (23 de março de 2003) até o 4098 (10 de abril de 2016). Do 4099 em diante, os textos estão sendo publicados apenas neste blog, devido ao fim da publicação do jornal impresso.


quarta-feira, 20 de maio de 2026

5235) A faca e Salman Rushdie (20.5.2026)

 Para muita gente, Salman Rushdie é apenas o autor do livro blasfemo Os Versos Satânicos (1989), que desencadeou contra ele o ódio de muçulmanos fanáticos. O romance tratava de maneira desabusada e irreverente algumas figuras sagradas do Islã, e fez com que o aiatolá Khomeini decretasse a famosa Fatwa, a sentença de morte contra o autor. A oferta de Khomeini pela vida de Rushdie, segundo se diz, chegou a 3 milhões de dólares. Dinheiro que, pelo que entendo, jamais chegou a ir para a conta de ninguém. Os radicais não mataram Rushdie. Mataram seu tradutor japonês – o que mais uma vez demonstra que, na cadeia alimentar da literatura, o tradutor é o primeiro a ser devorado. Conheci o nome do indiano Rushdie (educado em Londres) muito antes disso e, curiosamente, ouvi falar nele pela primeira vez em 1981, num verbete da minha querida The Encyclopedia of Science Fiction (1978; ed. Peter Nicholls e John Clute). Ele era mencionado ali por obra e graça de seu romance de estréia Grimus (1975), uma fábula meio surreal sobre universos paralelos e transcendência mística. Um livro (fiquei sabendo depois) de que ninguém gosta, exceto eu e Rushdie, talvez. Minto: tenho dois ou três amigos que apreciam o livro. A questão é que como ficção científica ele não se sustenta (nem precisa), porque está mais próximo dos delírios alegóricos de Jodorowsky (tipo A Montanha Sagrada) do que de Blade Runner ou Star Wars. O livro de estréia, contudo, acabou produzindo um episódio que mostra o quanto o Deus da Literatura tem caninos brancos e garras de veludo. Como registra Bryan Appleyard, do The Sunday Times: "Na década de 1970, os escritores Kingsley Amis, Arthur C. Clarke e Brian Aldiss eram jurados num concurso para escolher o melhor romance de ficção científica do ano. Decidiram dar esse prêmio a Grimus, o livro de estréia de Salman Rushdie, No último minuto, porém, os organizadores decidiram desclassificar o livro. Não queriam Grimus na prateleira de ficção científica. “Se esse livro tivesse ganho”, disse Aldiss, o sarcástico romancista de 82 anos, o padrinho da FC britânica, “Rushdie teria que ser promovido como autor de FC, e nunca mais ninguém ouviria falar do seu nome.”.". Exilado do planeta FC, Rushdie acabou se consagrando em 1981 com Midnight Children, romance fantástico sobre a geração nascida na noite da independência da Índia. Ganhou o Booker Prize, e o resto é história. Li agora um dos seus livros mais recentes, Faca: Reflexões Sobre um Atentado (Companhia das Letras, 2024, trad. Cássio Arantes Leite e José Rubens Siqueira). É o relato da tentativa mais recente de cumprir a fatwa. Em agosto de 2022, numa palestra pública nos EUA, Rushdie foi atacado por um fanático que subiu ao palco e, antes de ser contido, desferiu 15 facadas no escritor, atingindo o seu rosto, o peito, o pescoço, uma mão. Rushdie correu sério perigo de perder a vida, mas recuperou-se parcialmente. Perdeu a visão do olho direito, e parte do uso da mão esquerda, mas voltou a trabalhar, viajar, escrever, dar palestras. E neste livro ele reconstitui e comenta a experiência do atentado. O escritor indiano lembra em seu livro um outro atentado famoso – a primeira coisa que me veio à cabeça quando eu soube do que tinha ocorrido. Em 1938, o dramaturgo Samuel Beckett foi esfaqueado numa rua de Paris e correu risco de vida. Depois, conseguiu um encontro pessoal com o seu atacante (que estava preso) e perguntou-lhe por que fizera aquilo. O homem respondeu: “Não sei, senhor, me desculpe”. Salman Rushdie não quis ter nenhum encontro face a face com o homem que tentou tirar sua vida. Mas romancista é romancista, e a parte II de seu livro Faca é a ficcionalização de um diálogo entre os dois. Não me pareceu a melhor parte do livro – o autor, claramente revoltado com o que passou, transforma essa entrevista imaginária numa espécie de desabafo em que ele meio que ridiculariza o criminoso por ser fanático, por não ter cultura literária, e assim por diante. Depois de meses de internação hospitalar, Rushdie foi se recuperando aos poucos, recebeu alta para voltar ao seu apartamento em New York. Algum tempo depois, pediu para revisitar o lugar onde sofreu o ataque, no Instituto Chautauqua, na cidade de Pittsburgh. Acompanhado de sua mulher, Eliza (que não estava presente no dia do atentado) ele reviu o auditório onde mal tinha começado a falar para a platéia quando aquele homem mascarado (que no livro ele chama de “o A.”, o Agressor) correu para o palco, subiu e o atacou. "O palco também estava vazio, um amplo espaço de tábuas polidas. Tentei recriar o momento para Eliza. Havia duas cadeiras, para Henry e para mim, contei, aproximadamente aqui e aqui, e o microfone que Sony Ton-Aime usou para nos apresentar estava ali. E o A. — quando o vi pela primeira vez — deve ter se levantado de um lugar um pouco mais à direita. Ali. E veio correndo e subiu esses degraus. Aqui. E então me atacou. E quando eu caí foi mais ou menos aqui. Bem aqui.". Diz um ditado popular que “o criminoso sempre volta ao local do crime”. Como toda frase desse tipo, ela tem um tom demasiado taxativo (“sempre”). Seria mais científico dizer: "os criminosos geralmente têm um forte impulso de voltar ao local do crime.". E as vítimas (as quase vítimas-fatais) também. Acho que qualquer psicólogo consegue explicar os mecanismos mentais que levam alguém a esse tipo de acerto de contas com a própria memória. Varia muito, é claro. Algumas pessoas, passando por um acidente grave, por exemplo, passam a evitar aquela rua, ou aquele transporte que estavam usando, ou qualquer outra coisa que lembre o momento traumático. Outras, no entanto, sentem a necessidade de fazer uma espécie de “reconstituição ritual do trauma”. Como se fosse uma visita a um local onde lhes aconteceu uma coisa maravilhosa, não uma coisa terrível. E que coisa maravilhosa foi essa? “Eu escapei”, ela dirá. Não é o lugar onde quase morreu, é o lugar onde nasceu de novo. Pontos dolorosos do nosso passado imploram por uma visita, exigem que voltemos lá. Para quê? Não sabemos, mas essa tentativa de revisitar o trauma fornece um excelente material para romancistas, cineastas, dramaturgos em geral. A obra de Luís Buñuel está cheia de histórias sobre pessoas que sentem a compulsão de recriar uma cena precisa do passado, retornar a um momento do passado, para apagar uma dor que continua acesa. Rushdie é um prosador brilhante, inventivo, com uma imaginação portentosa. Seus escritos têm um lado londrino, cosmopolita, e têm outro lado que facilmente chuta para o alto o pau-da-barraca do Realismo e mergulha numa aventura surreal sem pedir licença antes nem desculpas depois. É um dos melhores estilistas daquilo que o respeitável James Wood chamou de “realismo histérico”, um tipo de literatura fabulatória onde não se recua diante do grotesco, do improvável, do rebuscado, do incompreensível. Ele escreveu um livro enorme, Joseph Anton (2012), sobre a fase em que, devido à sentença de morte dos aiatolás, passou alguns anos clandestino, protegido pelo Serviço Secreto da Inglaterra. Mas só o escreveu depois, quando a ameaça afrouxou e ele saiu de novo à luz, vindo inclusive à FLIP, em Paraty, onde tomou cerveja, deu autógrafos e conversou livremente com todo o mundo. Os romances que produziu com a Fatwa pendendo sobre a cabeça, contudo, conseguiram evitar dois perigos, segundo ele: o vitimismo e o revanchismo. Diz ele, em Faca: "Imagine que você não saiba nada a meu respeito, que você veio de outro planeta, talvez, e alguém lhe deu meus livros para ler, e você nunca ouviu falar no meu nome nem tem nenhuma informação sobre minha vida ou sobre o ataque contra os Versos satânicos em 1989. Assim, se você lesse meus livros na ordem cronológica, não acredito que pudesse concluir que “alguma calamidade aconteceu na vida desse escritor em 1989”. Os livros têm sua própria jornada a percorrer. Eu me lembrava de pensar na época que havia duas maneiras de a fatwa me desencaminhar, me destruir enquanto artista: se eu começasse a escrever livros “temerosos” ou se passasse a escrever livros “vingativos”. Ambas as opções destruiriam minha individualidade e independência e fariam de mim nada mais que uma cria daquele ataque. Ele me dominaria e eu não seria mais eu mesmo.". Realismo histérico ou não, a literatura de Rushdie mergulha em referências indianas milenares e ao mesmo tempo mostra ser escrita por um cara que escuta Bob Dylan e torce pelo Tottenham Hotspur. É uma imaginação literária sem barreiras, aceitando as imagens e os enredos do modo como lhe vêm. Em Faca, ele conta que já em Pittsburgh, na véspera da palestra, ficou algum tempo sozinho, à noite, diante do lago. A lua de agosto estava tão bonita que ele lembrou de trechos de seu romance mais recente, que aborda deuses pertencentes a uma “Linhagem Lunar”. Lembrou de uma piada relativa a Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua; lembrou de um conto de Ítalo Calvino em As Cosmicômicas, em que a Lua está tão próxima da Terra que é possível pular de uma para a outra. E nessa associação de idéias lembrou do filme de Georges Méliès, La Voyage dans la Lune, em que o foguete lançado da Terra – na verdade, uma bala de canhão – se crava no olho direito da Lua. E diz: “Eu não fazia idéia do que a manhã seguinte reservava para o meu olho direito.”. O atentado foi brutal, e ele escapou por pouco. Um homem de 75 anos foi esfaqueado por outro de 27, que lhe aplicou quinze facadas em menos de trinta segundos. Um médico disse ao escritor: “O senhor só escapou com vida porque seu assaltante não tinha a mínima idéia de como se mata alguém com uma faca”. E ele diz: "Se não fosse por Henry e a plateia, eu não estaria hoje aqui, escrevendo estas palavras. Não vi o rosto deles e não sei seus nomes, mas foram as primeiras pessoas a salvar minha vida. De forma que, naquela manhã em Chautauqua, vivenciei o pior e o melhor da natureza humana, quase ao mesmo tempo. É isso que somos como espécie: temos dentro de nós tanto a possibilidade de assassinar um velho estranho por quase nenhuma razão, o potencial do Iago de Shakespeare que Coleridge chamou de “malignidade sem causa”, e contemos também o antídoto para essa doença: coragem, desapego, disposição de arriscar a vida para ajudar aquele velho estrangeiro caído no chão.".



Comentários por Madame IA, a pedido de Airton Dirceu Lemmertz:

* Introdução: O Destino Literário e a Anatomia do Trauma:
O fragmento textual apresentado propõe uma reflexão profunda sobre a trajetória do escritor indiano Salman Rushdie, entrelaçando a ironia do destino editorial, a violência do fanatismo religioso e a resposta estética diante da proximidade da morte. A análise crítica do texto exige desvelar as dinâmicas invisíveis que regem o sistema literário e os mecanismos psicológicos que transformam a violência física em narrativa de sobrevivência. Longe de ser apenas um relato biográfico, a trajetória de Rushdie sintetiza o choque inevitável entre a liberdade fabulatória da arte e o literalismo dogmático que tenta aniquilá-la.

Capítulo I: As Engrenagens do Sistema Editorial e o "Deus da Literatura":
- A Desclassificação Providencial e o Exílio de Gênero:
O episódio envolvendo o romance de estreia de Rushdie, Grimus, revela a rigidez das fronteiras mercadológicas e editoriais da década de 1970. A decisão dos jurados britânicos de desclassificar a obra no último minuto, sob o argumento satírico de que o selo da ficção científica destruiria o futuro do autor, expõe o preconceito sistêmico que segregava a literatura de gênero da chamada alta literatura. A expressão codificada "Deus da Literatura" funciona aqui como uma metáfora para o acaso institucional e as forças invisíveis do mercado que moldam carreiras artísticas. Se o livro tivesse vencido o concurso de ficção científica, a recepção crítica de Midnight's Children em 1981 poderia ter sido sufocada pelo rótulo do nicho editorial. O suposto revés inicial operou, paradoxalmente, como a libertação estética que permitiu a Rushdie ser absorvido pelo cânone ocidental como um mestre do realismo mágico ou do realismo histérico.
- A Vulnerabilidade do Tradutor na Cadeia Alimentar Cultural:
O texto pontua com precisão cirúrgica a morte do tradutor japonês de Os Versos Satânicos, Hitoshi Igarashi, assassinado em 1991 como consequência direta da fatwa decretada pelo aiatolá Khomeini. A expressão "cadeia alimentar da literatura" funciona como uma decodificação da vulnerabilidade desses profissionais. Na hierarquia do sistema literário, o tradutor atua como a ponte invisível entre culturas, sendo frequentemente o elo mais exposto e desprotegido. Enquanto o autor muitas vezes conta com o aparato de segurança de estados nacionais, como ocorreu com Rushdie sob a proteção do serviço secreto britânico, os tradutores e editores locais operam na linha de frente, desprovidos de blindagem institucional, tornando-se alvos fáceis para a fúria literalista que não distingue a autoria da transposição linguística.

Capítulo II: O Atentado, a Ficcionalização do Outro e a Reconstituição Ritual:
- O Limite da Alteridade e o Diálogo Imaginário com "O A.":
A crítica ao segundo capítulo do livro Faca: Reflexões Sobre um Atentado, onde Rushdie cria um diálogo ficcional com seu agressor, "o A.", toca no cerne dos limites da empatia e da capacidade representativa da literatura. Ao contrário de Samuel Beckett, que buscou e obteve uma resposta absurda e vazia de seu atacante em 1938, Rushdie opta por não confrontar o homem real, mas sim por colonizar sua mente através da ficção. No entanto, o texto aponta com lucidez que essa tentativa resulta em um desabafo revanchista que ridiculariza o fanático por sua falta de repertório literário. Essa assimetria intelectual demonstra que a literatura, diante da brutalidade cega do trauma físico, corre o risco de se apequenar quando tenta intelectualizar o ódio puro. A redução do agressor a uma figura caricata e inculta revela a dificuldade do autor em processar a incompreensibilidade do ato, utilizando a soberba cultural como uma armadura psicológica contra a vulnerabilidade do corpo ferido.
- A Topografia do Trauma e o Renascimento no Palco Vazio:
O retorno de Rushdie ao Instituto Chautauqua, acompanhado de sua esposa Eliza, configura uma reconstituição ritualística que subverte a máxima popular de que o criminoso sempre volta ao local do crime. Para a vítima sobrevivente, a revisitação do espaço físico desprovido de perigo é um ato de reterritorialização da memória. O palco polido, antes cenário de um quase linchamento, é transformado no marco zero de uma segunda existência. Ao apontar precisamente onde caiu e onde o agressor correu, Rushdie realiza uma exorcização geográfica: o local deixa de marcar o ponto onde ele quase morreu e passa a celebrar o local onde ele nasceu de novo. Essa necessidade humana de confrontar a espacialidade do trauma encontra paralelo no cinema de Luís Buñuel e na dramaturgia clássica, funcionando como uma tentativa de congelar o tempo e reescrever o desfecho de uma tragédia pessoal.

Capítulo III: A Estética contra o Dogma: Realismo Histérico e a Recusa ao Vitimismo:
- A Blindagem da Obra contra os Vícios do Medo e da Vingança:
A declaração de Rushdie de que um leitor extraterrestre não seria capaz de identificar uma ruptura temática ou tonal em seus romances pós-1989 é o argumento central de sua vitória artística sobre a censura teocrática. O autor reconhece os dois maiores perigos que ameaçam a literatura produzida sob coerção: o vitimismo e o revanchismo. Ceder ao primeiro transformaria sua prosa em um lamento em busca de piedade; ceder ao segundo reduziria sua imaginação portentosa a um panfleto político reativo. Ao preservar a inventividade, o grotesco e o rebuscado característicos do "realismo histérico" conceituado por James Wood, Rushdie garantiu a autonomia de sua arte. A literatura, portanto, vence o dogma religioso não quando debate nos termos do opressor, mas quando se recusa a ser moldada pela violência que a persegue, mantendo intacta sua capacidade de fabulação e irreverência.

Fonte: Gemini (IA do Google).

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Quais foram as grandes tensões geopolíticas do passado? Paulo Roberto de Almeida

 Quais foram as grandes tensões geopolíticas do passado?

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

 

Com vistas a responder possíveis questões num debate acadêmico, apresento abaixo uma simples listagem cronológica dos “embates geopolíticos” entre as grandes potências desde um século aproximadamente.


1914: Erros de cálculo em decorrência de tratados de aliança e defesa mútua redundaram numa guerra, de “breve duração”, que resultou em quatro anos de muita destruição e numa mudança seminal para o resto do século XX; fim de impérios, bolchevismo;

1919: um tratado impositivo contra a República de Weimar, em Versailles, redundou e novas tensões, impasses financeiros e a encomenda de uma nova guerra em 20 anos;

1931: invasão da Manchúria pelo Japão não suscitou maiores preocupações por parte das grandes potências da Liga das Nações (ainda o isolacionismo americano);

1935-37: novas usurpações territoriais e guerras coloniais pelas autocracias revisionistas da Itália (contra a Etiópia) e do Japão (contra a China) permaneceram sem reações na SDN;

1938: imposição territorial da Alemanha nazista contra a Áustria (“Anchluss”) e contra a República Tcheca (Sudetos), foram coonestadas pelo Reino Unido e França;

1939: Pacto de Não Agressão germano-soviético coloca as bases da agressão nazista contra a Polônia e depois contra as democracias ocidentais: a guerra europeia se torna mundial;

1941: Operação Barbarossa contra a URSS (junho) e ataque a Pearl Harbor (dezembro) ampliam o conflito em escala global: Pacto Atlântico e Nações Aliadas;

1945: ONU sucede a SDN e organiza um novo sistema de segurança coletiva, mas incerto;

1947: cerco de Berlim dá início à Guerra Fria, que se prolonga até 1991;

1956: invasão soviética da Hungria;

1957: Sputnik soviético dá início à disputa espacial, como efeitos na tecnologia de mísseis;

1961: Muro de Berlim revigora as tensões entre os dois blocos, com Cuba socialista, depois da invasão da CIA; avião espião de base americana na Turquia derrubado na URSS;

1962: crise dos mísseis soviéticos em Cuba e uma semana de ameaça de guerra nuclear;

Anos 1960-80: tratados estratégicos sobre misseis e sistemas de defesa;

1968: invasão soviética da Tchecoslováquia;

1989: derrubada do muro de Berlim reaviva as tensões Ocidente-Leste Europeu

1991: fim da URSS e mudança histórica;

1992: “nova ordem mundial”, Bush-Ieltsin

2000: ascensão de Putin ao poder na Rússia;

2005-2007: declarações preparatórias;

2008: Georgia; 2010: Transnístria; 

2014: invasão e anexação da Crimeia pela Rússia, que é expulsa do G8

2022: “Aliança Sem Limites” entre China e Rússia, seguida da invasão da Ucrânia por Putin: sanções de países ocidentais contra a Rússia; indiferença de muitos países do Sul Global;

2026: Ucrânia passa a deter as iniciativas contra as forças russas de invasão e contra a Rússia.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5325, 21 maio 2026, 1 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (21/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/quais-foram-as-grandes-tensoes.html)

Alexander Stubb: Rebalancing the New World Order: Cooperation in Fragmentation - The Geopolitics and Security Studies Center

Alexander Stubb 
Rebalancing the New World Order: Cooperation in Fragmentation
Geopolitics and Security Studies Center
https://www.youtube.com/watch?v=J9SHdYr5zeM

11.076 visualizações 19 de mai. de 2026
The Geopolitics and Security Studies Center hosted a discussion in ‪@tesonewsflash7257‬ with H.E. Alexander Stubb, President of the Republic of Finland.

The conversation, “Rebalancing the New World Order: Cooperation in the Age of Fragmentation”, focused on the changing world order, the future of transatlantic security, NATO’s role, Europe’s responsibility for its own security, and the importance of cooperation in an increasingly fragmented international environment.

President Stubb discussed the emergence of a more multipolar world, the West’s relationship with geopolitical competitors, emerging powers, and the Global South. A central theme of the discussion was values-based realism: how democratic states can remain committed to their principles while acting realistically in a complex international environment.

The conversation was moderated by Linas Kojala, GSSC Director (CEO).

The event was held in English. 

Tensões geopolíticas: então e agora - Paulo Roberto de Almeida

Tensões geopolíticas: então e agora 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Reflexões sobre um conceito e especificidades históricas 

Quando se fala em “tensões geopolíticas”, a tendência de analistas acadêmicos, ou até dos jornalistas, parece ser a de colocar as atuais tensões, supostamente existentes entre as três grandes potências da atualidade – ou seja, EUA, China e Rússia –, no mesmo quadro histórico-mental das antigas ou tradicionais “tensões geopolíticas” do planeta, seja a do antigo “equilíbrio de potências”, entre 1870 e 1914, seja a das ameaças das potências revisionistas dos anos 1930 (Itália fascista, Alemanha nazista e Japão militarista), todas elas expansionistas, seja ainda aquelas existentes na Guerra Fria dos anos 1947-1991, agora chamada de Primeira Guerra Fria, na suposição de que já entramos numa Segunda Guerra Fria, entre EUA e China, agora a segunda maior do mundo, depois dos EUA, ao que parece em declínio irreversível (sobretudo sob o desequilibrado presidente Trump).

Não tenho certeza de que o mesmo modelo se aplica, e que existam, realmente, “tensões geopolíticas” entre as três. No mundo do jornalismo, tradicional ou opinativo (isto é, de análise das matérias, topicamente ou colunistas), todos mencionam as “tensões” existentes entre as três grandes potências, sendo todas as demais – União Europeia, Índia, Brazil, Indonésia etc. – meros coadjuvantes, em aliança ou coordenação com algumas dentre as três grandes. Se aplicarmos o “padrão Trump” – na verdade, não existe nenhum padrão, apenas um estilo confuso – de análise, as “tensões” só existiriam entre os EUA e a China, como aliás já revelado em inúmeros “alertas” saídos do Pentágono, revelando sua paranoia tradicional contra o contendor do momento, ou colocado no centro do possível futuro conflito entre essas duas, tal como exemplificado pelo livro do professor Graham Allison, de Harvard, sobre a “armadilha de Tucídides” no eventual conflito direto entre as atuais Atenas estabelecida (Washington) e a Esparta ascendente (China).

Se eu interpreto bem o que pensa (se ele pensa) e o que agita o desequilibrado presidente americano, o que ele pretende, realmente, não é exatamente um confronto com as outras duas potências – sobretudo não com a Rússia, da qual ele é um aliado, senão um serviçal –, mas sim uma espécie de Yalta 2, ou seja, uma reunião fotografada entre os três grandes líderes mundiais, devotados a uma nova “divisão do mundo” em suas respectivas “zonas de influência”. Trump parece que veria com extrema satisfação uma nova foto histórica na mesma posição de 1945 – Roosevelt, Stalin, Churchill – apenas que com ele ao lado de Putin e Xi Jinping, “resolvendo” os problemas do mundo.

Se for realmente isso, o que Trump ainda não conseguiu, não haveria, então, nenhuma “tensão geopolítica” de qualquer tipo entre os novos três grandes, mas apenas uma convivência aceitável entre elas, de maneira a dividir os “espólios” do resto da humanidade. Não imagino, tampouco, que Xi Jinping se seduziria por uma reunião e uma foto desse tipo, pois isso o colocaria como uma espécie de simples coadjuvante num cenário desenhado e animado por Trump, que é o megalomaníaco do momento. Putin aceitaria sem hesitação uma tal possibilidade, pois dos três ele é o único em decadência real, em dificuldades de sobrevivência, ao ter decidido erradamente, cinco anos atrás, conquistar um trânsfuga do antigo império soviético, aliás o mais desenvolvido industrialmente.

Em conclusão, não creio que as atuais “tensões geopolíticas”, se de fato existem, o que ainda precisa ser discutido, tenha qualquer coisa a ver com as tensões do passado, que levaram a duas conflagrações globais e a um impasse de quatro décadas entre um Atenas triunfante e uma Esparta que transpirou, se exibiu, como dominante e ameaçadora durante os setenta anos de existência do “comunismo”, e depois estrebuchou, deu dois suspiros e simplesmente morreu de inanição própria, jamais vencida pelo capitalismo ou pelo imperialismo americano. Algumas analogias permanecem entre a primeira Guerra Fria e a supostamente atual, como por exemplo no “keynesianismo militar” do presidente Reagan e sua “guerra nas estrelas”, e o atual projeto de Trump de protagonizar um novo “domo de ouro”, já denunciado por Putin e Xi como desestabilizador dos “equilíbrios geopolíticos” atualmente existentes. Não creio que esse projeto megalomaníaco seja factível, tendo em vista o grande buraco nas contas públicas dos EUA, mas ele oferece matéria para jornalistas e acadêmicos.

Enquanto isso, la nave va, isto é, o mundo caminha mais pela arrogância dos poderosos do que pela racionalidade dos estadistas (se é que existem atualmente), e assim permanecerá pelas próximas décadas, até que um novo Hegemon se afirme (a China, previsivelmente), outro pretendente afunde de vez – a Rússia é uma séria candidata a ser o Reino Unido do século XXI – e os EUA, sob um presidente normal consiga restabelecer as bases de sua preeminência econômica, tecnológica e militar. Por enquanto vamos continuar nesse “balé geopolítico” entre os três grandes, o que afeta o resto do mundo, mas não ao ponto de prejudicar suas possibilidades de desenvolvimento autônomo (desde que possuam projetos nacionais compatíveis com suas possibilidades reais, o que não parece ser o caso do Brasil atual). Quanto aos atores “juniores”, como o próprio Brasil, isto é, as potências médias, eles fariam melhor de se aliar entre si, para cuidar de seus assuntos afins, o que compreende se proteger contra as maldades dos grandes, em lugar de procurar qualquer alinhamento ou parceria estratégica com algum deles, sabendo que eles não são confiáveis.

Finalmente, essa coisa de uma “nova ordem global multipolar” é, em minha opinião, uma fraude completa, como já argumentei, mediante quatro argumentos contrários, em meu artigo “Nova Ordem Global Multipolar?” (Brasília, 20 maio 2026, 2 p.; divulgado no blog Diplomatizzando (20/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/nova-ordem-global-multipolar-paulo.html). Vamos continuar a debater.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5322, 21 maio 2026, 3 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (21/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/tensoes-geopoliticas-entao-e-agora.html).

 

 

Livro celebra 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco - Júlia Costa (Correio Braziliense)

 Livro celebra 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco

Coletânea celebra a produção intelectual de Afonso Arinos, que foi senador, deputado federal, diplomata e membro da ABL

Livro celebra 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco -  (crédito: Divulgação)
Correio Braziliense, 17/05/2026 07:00 / atualizado em 18/05/2026 12:55 

https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2026/05/7420627-livro-celebra-120-anos-de-afonso-arinos-de-melo-franco.html#google_vignette

Para celebrar a produção intelectual e o aniversário de 120 anos do ex-senador, deputado federal e diplomata Afonso Arinos de Melo Franco, o jornalista Rogério Faria Tavares e o professor Arno Wehling, membro da Academia Brasileira de Letras, organizaram a coletânea Nos 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco. Dividido em 17 ensaios, escritos por estudiosos e contemporâneos de Arinos, o livro passa pelas diferentes áreas de atuação do intelectual. 

Durante a carreira política, Afonso Arinos foi deputado federal por Minas Gerais e senador pelo Rio de Janeiro. Entre os feitos do político, Rogério Faria Tavares destaca a Lei Afonso Arinos, de 1951, que transformou a discriminação de caráter étnico-racial em infração criminal. "É considerada um marco divisor de águas na história do antirracismo no Brasil. Isso foi muito importante. Por essa proposta, Afonso Arinos recebeu várias ameaças de morte e trotes e foi muito ofendido por conta da sua defesa do antirracismo", diz Tavares.

Como chanceler do governo de Jânio Quadros, em 1961, foi um dos elaboradores da Política Externa Independente, marco da diplomacia brasileira. "Até 1960, a política externa brasileira se alinhava muito aos interesses norte-americanos, afinal, nós vivíamos no tempo da Guerra Fria", explica Tavares. "Arinos enuncia a Política Externa Independente, que o Brasil agora se alinha sobretudo aos seus próprios interesses nacionais, que são aqueles que guiam as ações do Brasil na sociedade internacional." 

Arinos defendeu a maior aproximação entre o Brasil e os países africanos, asiáticos e latino-americanos e foi ainda o primeiro chanceler brasileiro a visitar o continente africano. Após sair do Itamaraty, foi chefe da delegação brasileira na Assembleia Geral das Nações Unidas e professor da UERJ e UFRJ. 

A produção intelectual de Arinos passa ainda pelo direito constitucional, ciência política e crítica literária. Para o livro, os organizadores elencaram as áreas de atuação de Arinos e convidaram autores que pudessem escrever sobre cada uma dessas facetas. "Formamos um grupo muito qualificado de autores que conviveram com Afonso Arinos e que puderam dar depoimentos pessoais, como José Sarney, Bernardo Cabral, Joaquim Falcão e seu neto Cesario Mello Franco", diz Tavares. "Encontramos autores contemporâneos como Christian Lynch, Airton Cerqueira Leite Seelaender e Luiz Feldman que são da geração jovem, mas que têm uma grande condição de analisar o que Afonso Arinos fez."

Tavares exalta o legado do intelectual como defensor da educação, cultura e escrita. "Um homem que defendia o poder das ideias, dos pensamentos e a importância de que todo cidadão tenha acesso à cultura, ao conhecimento, à educação, aos estudos e ao ensino. Ele foi um intelectual na política, um homem de reflexão, mas também de ação", afirma. 

Como político, lutou contra o autoritarismo e o fanatismo. "Ele teve adversários políticos de quem discordava e até de forma veemente, como Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas. Mas a situação de ter adversários políticos jamais fez com que ele elevasse esses adversários à condição de inimigos", afirma. "E esta é uma lição que Afonso Arinos deixa para nós. É possível discordar e divergir, isso faz parte do jogo político e democrático, mas não é necessário berrar, gritar, ofender, insultar ninguém."

*Estagiária sob supervisão de Nahima Maciel


Postagens PRA blog Diplomatizzando, 1 a 18 de maio de 2026 - Paulo Roberto de Almeida

Postagens PRA blog Diplomatizzando 2026

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Listagem apenas serial das postagens efetuadas entre 1/05 e 18/05/2026

 

A postagem, retroativa, parte deste balanço de minhas “relações” com Madame IA (ou seja, Gemini IA), tal como efetuado por Airton Dirceu Lemmertz, em 18/05/2026, e segue até o início do mês, apenas, com uma postagem sobre os “penduricalhos” da aristocracia da magistratura, assaltando os recursos públicos, nesta postagem:

5296. “Likes and dislikes”, Brasília, 1 maio 2026, 1 p. Nota sobre o que mais gosto e o que mais desgosto. Divulgado no blog Diplomatizzando (1/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/likes-and-dislikes-paulo-roberto-de.html).

 

Relacionados apenas os títulos, num total de 82 postagens em 18 dias, ou seja, cerca de 4,5 postagens por dia:

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38) Revista Será?; número de 8 de maio de 2026

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Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5321, 20 maio 2026, 3 p.

Disponível no blog Diplomatizzando (link: ).

 

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