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terça-feira, 21 de junho de 2022

Da série What If? da Economist: If the Ottoman Empire had not collapsed (July 2017)


History

Sultans of spring

The Economist, THE WORLD IF 2017

Imagine the mayhem that might have been avoided had the Ottoman Empire been saved rather than sunk. Blame, among others, Winston Churchill 

WHEN a Serb gunman shot an Austrian archduke in the summer of 1914, the nations of Europe tumbled into war with all the grace of bowling pins. Austria-Hungary declared war on Serbia, whose ally Russia declared war on Austria, whose ally Germany declared war on Russia, whose allies France and Britain declared war on Germany and Austria. By early August the continent was in flames.

Much as it wobbled like the rest, however, one of those bowling pins could not make up its mind. Which way would Turkey fall? Should the fading Ottoman Empire join the Triple Entente (Britain, France and Russia) or go with the Central Powers (Germany and Austria-Hungary)?

Turkey’s 500-year-old empire was shrinking. It had lost its territories in Africa, nearly all its Mediterranean islands and most of its Balkan lands as well as chunks of eastern Anatolia. It was debt-ridden, industrially backward and politically shaky.

Still, the sultan’s lands straddled two continents, controlling access to the Black Sea. His Arabian territories stretched beyond the holy cities of Islam to the mountains of Yemen and the Persian Gulf, where there were rumoured to lie vast caverns of the sticky black liquid soon to replace coal as the world’s chief source of power.

The deal that was reached proved immensely beneficial to all concerned. From France, Turkey received generous debt relief. Russia scrapped all claims to Ottoman territory, and made a limited goodwill withdrawal from parts of Anatolia. Churchill waived further payment on two warships that British shipyards were building for Turkey. And Turkey received assurances that its vulnerable extremities would not be attacked; for an empire that for a century had been preyed upon like a carcass this was a new lease of life.

The rewards to the Triple Entente were equally big. Granted exclusive access to the Black Sea, Russia’s allies could resupply the tsar’s armies when they faltered at the start of the war. With no need to defend its Turkish frontier, Russia moved thousands of crack troops from the Caucasus to shore up its front lines. Turkey signed separate agreements recognising British control of the Suez Canal, Aden and the Trucial sheikhdoms of the Persian Gulf, securing the sea lanes for Britain’s massive deployment of troops from the colonies to the Western Front. Turkey’s own army joined in a broad front against Austria-Hungary. Together, these Allied advantages are thought to have shortened the war by as much as a year; the Central Powers might not have sued for a truce as soon as America entered the war, but fought on instead.

Reprieved from collapse, the Ottoman Empire’s government pursued radical reforms. Challenged by growing nationalist tendencies from Arab, Armenian, Greek and Kurdish subjects, Sultan Mehmed V issued a historic firman or proclamation that recognised these as individual nations united under the Ottoman sovereign.

The sultan got to keep the title of caliph, commander of the Sunni Muslim faithful, which his ancestors had acquired four centuries earlier. This proved useful when the empire had to put down a rebellion of religious fanatics in central Arabia, led by a man called Ibn Saud who gained followers by claiming he would restore Islam to a purer state. But mostly the empire was seen as a tolerant place. When Nazi persecutions drove Jews from Europe in the 1930s, many took refuge there (as they had done when expelled from Spain in 1492), particularly in the province of Jerusalem.

If only

Needless to say, none of the above happened. Quite the opposite. Turkey aligned with Germany in the first world war, and the allies did attempt to invade and divide its empire. Churchill, instead of handing over the warships that ordinary Turks had paid for by subscription, had them seized for the British navy. In 1915 he ordered a catastrophic attack on Turkey; the landing at Gallipoli cost the allies 300,000 casualties. British campaigns against Turkey in Iraq and the Levant cost another million lives.

Turkey’s casualties mounted, by war’s end, to 3m-5m people, nearly a quarter of the Ottoman population. This included some 1.5m Armenians, slaughtered because Turkish officials believed they might become a fifth column for a hostile Russia. And when Britain and France grabbed the Ottomans’ Arab lands, their suppression of uprisings cost thousands more lives.

How much of today’s mayhem in the Middle East, from civil wars to terror in the name of Islam (and of restoring the caliphate) to the emergence of sectarian dictators such as Bashar al-Assad, not to mention of such a grudge-bearing Ottoman revivalist as Recep Tayyip Erdogan, might have been avoided, if only Churchill had embraced Johnny Turk instead of sinking him?


Uma seleção das inteligências nacionais - Paulo Roberto de Almeida

 Uma seleção das inteligências nacionais  

Paulo Roberto de Almeida

Diplomata, professor

(www.pralmeida.org; diplomatizzando.blogspot.com)

Uma lista arbitrária da intelligentsia nacional

  

Intelligentsia, uma palavra russa para designar intelectuais, cobre geralmente a fração daquelas pessoas mais preparadas e capacitadas para serem estadistas, ou seja, os condutores da nação. Mas nem todos os estadistas são necessariamente inteligentes, no sentido intelectual do termo, e nem todos os intelectuais conseguem ser estadistas, ou líderes sagazes; alguns, tidos por intelectuais, são até muito limitados, e podem até causar malefícios à nação, ao orientá-la por maus caminhos, na economia, na política, na cultura, nas relações exteriores. 

Pensando na nossa intelligentsia, resolvi alinhar alguns nomes daqueles que eu considero verdadeiros estadistas, ou seja, inteligentes e capazes de liderar a nação, ainda que alguns não tenham tido essa oportunidade, por artes do destino.

Numa ordem não necessariamente definitiva, vou alinhar aqueles que eu considero verdadeiros estadistas, e que também são inteligentes, ao acaso da memória, do conhecimento, da história.

 

1) Hipólito José da Costa

2) San Tiago Dantas

3) Rui Barbosa 

4) Fernando Henrique Cardoso

5) José Guilherme Merquior

6) Monteiro Lobato

7) José da Silva Lisboa

8 Juscelino Kubitschek 

9) visconde do Rio Branco

10) Humberto de Alencar Castelo Branco

11) Roberto Campos

12) José Bonifácio de Andrada e Silva

13) Paulino José Soares de Souza

14) Ernesto Geisel (com restrições)

15) Eugenio Gudin

16) Josué de Castro

17) Anísio Teixeira 

18) Roberto Simonsen

19) Fernando de Azevedo

20) Irineu Evangelista de Souza

21) Oswaldo Aranha

22) Barão do Rio Branco 

23) Afonso Arinos de Melo Franco

24) Joaquim Nabuco

25) Machado de Assis

26) D. Pedro II

27) Barbosa Lima Sobrinho

28) Alberto da Costa e Silva

29) Darcy Ribeiro

30) Padre Antonio Vieira

31) Raymundo Faoro

32) Celso Furtado

33) Manoel Bonfim

34) Oliveira Lima

35) Sérgio Buarque de Holanda 

36) Alexandre de Gusmão 

37) Tom Jobim

38) Vinicius de Moraes

39) Cartola

40) Princesa Leopoldina

41) Rubens Ricupero 

(…)

 

Por certo, haveria muitos outros, mas vou parar por aqui, para não enveredar por justificativas que podem não ser consensuais.

Não me peçam para selecionar as antípodas dessa lista, os piores dentre os piores, pois já os tivemos e ainda temos, sendo que o pior nem preciso mencionar, pois não merece nenhuma classificação ou categoria. 

Vamos ficar com os melhores, os membros da intelligentsia que também foram, são, ou poderiam ser estadistas da nação. 

Vou me ocupar de cada um deles, para justificar minhas escolhas e duas dezenas deles já figuram no meu próximo livro: Construtores da Nação: projetos para o Brasil, de Cairu a Merquior (sendo preparado para publicação). Até lá, e mais além, pois pretendo continuar.


P.S.: Recebi, pela via dos comentários à postagem, uma ou outra restrição – ao racismo de Monteiro Lobato, por exemplo –, e dezenas de novas sugestões, sobretudo de mulheres, que posto de forma não organizada aqui na sequência, ao mesmo tempo em que agradeço aos atentos leitores e gentis colaboradores com esta inteligência da intelligentsia nacional. Não endosso todos eles, no meu critério de inteligência com capacidade de liderança nacional, mas registro seus nomes, pelo fato de serem todos relevantes na cultura nacional e para a nação brasileira.

 

42) Mário Henrique Simonsen

43) Pedro Sampaio Malan

44) Tancredo Neves

45) Ulysses Guimarães

46) Ruth Cardoso

47) Joaquim Barbosa

48) Chico Mendes

49) Augusto Ruschi

50) José Mangabeira Unger

51) José Thomas de Araújo Filho

52) André Rebouças

53) Nise da Silveira

54) Elizeth Cardoso

55) Villa-Lobos

56) Mario Schemberg

57) João Guimarães Rosa

58) Oscar Niemeyer 

59) Mário de Andrade

60) Tarsila do Amaral

61) Candido Portinari

62) Di Cavalcanti

63) Glauber Rocha

64) Pelé

65) Marechal Rondon

66) Pedro I

67) Cacique Raoni

68) Emanuel Araújo

69) ?

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4179: 21 junho 2022, 2 p.


segunda-feira, 20 de junho de 2022

Seminário "200 anos de independência do Brasil" - Câmara dos Deputados, 28-30/06/2022

200 anos de independência do Brasil  

No ano de comemoração dos 200 anos da Independência do Brasil, a Câmara dos Deputados convida você para o Seminário "O Movimento da Independência: Ontem e Hoje". O evento vai promover o debate e a reflexão sobre desafios e perspectivas para os próximos anos. Não perca!

 

28 de junho: Salão Negro

29 e 30 de junho: Auditório Nereu Ramos

 

Faça a sua inscrição e confira a programação aqui.

 

Quer acompanhar tudo a distância? Acesse [cd.leg.br/youtube]cd.leg.br/youtube.

 

Câmara dos Deputados



Programação
28/06/2022 17:30 às 21:00 - Auditório Nereu Ramos. Seminário "O Movimento da Independência"
18:00 - Mesa Solene de Abertura
19:00 - Recital do pianista Álvaro Siviero
29/06/2022 08:30 às 19:00 - Auditório Nereu Ramos. Seminário "O Movimento da Independência"
09:30 - Mesa 01 - D. João VI e a Unidade Nacional
Palestrantes:
Eduardo Bueno (Jornalista, autor de diversos livros de divulgação sobre temas históricos)
Jurandir Malerba (Professor universitário, acadêmico, autor de estudos sobre a vinda da Corte para o Brasil e sobre o processo de independência)
Arno Wehling (Professor, acadêmico, advogado e historiador brasileiro)
Mediação da mesa: Deputado Enrico Misasi (Presidente da Comissão Especial Curadora das comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil).
11:00 - Debate com o público presente
11:30 - Contribuição da Sociedade Civil
Reflexões sobre o Bicentenário e a visão de futuro para o país.
12:00 - Intervalo para almoço
14:30 - Mesa 02 - D. Pedro I e as perspectivas do país
Palestrantes:
Luiz Carlos Villalta (Professor universitário, acadêmico, autor de livros e organizador de coletâneas sobre temas históricos)
Ives Gandra Martins (Jurista, advogado, professor e escritor brasileiro, professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie e membro da Academia Brasileira de Filosofia)
José Sarney (Ex-presidente do Brasil, ex-presidente do Senado Federal, ex-governador do estado do Maranhão)
José Theodoro Menck (Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados)
Mediação da mesa: Deputado Luiz Philippe (membro da Comissão Especial Curadora)
16:00 - Debate com o público presente
16:30 - Intervalo
17:00 - Mesa 03 - José Bonifácio e projetos para o Brasil
Palestrantes:
Jorge Caldeira (Historiador, editor, autor de livros de grande sucesso sobre a História do Brasil)
André Heráclio do Rêgo (Diplomata e historiador, autor de livros sobre família e coronelismo, representação dos sertões, sobre o historiador Manuel de Oliveira Lima)
Rafael Nogueira (Ex-presidente da Biblioteca Nacional)
Mediação da mesa: Deputado Lafayette Andrada (membro da Comissão Especial Curadora)
18:30 - Debate com o público presente
19:00 - Fim da programação do primeiro dia
30/06/2022 08:30 às 19:00 - Auditório Nereu Ramos. Seminário "O Movimento da Independência"
09:30 - Mesa 04 - D. Leopoldina e as mulheres no processo de Independência do Brasil
Palestrantes:
Maria Celi Chaves Vasconcelos (Professora universitária, autora de estudos sobre Dona Leopoldina)
Paulo de Assunção (Doutor em História Ibérica (École des Hautes Etudes en Sciences Sociales - EHESS-Paris); é pós-doutor em Ciência da Religião (Universidade Mackenzie) e História da Educação (Universidade Estadual de Maringá)
Denise G. Porto (Historiadora, acadêmica, autora de estudos e publicações sobre a representação da viajante inglesa Maria Graham na Corte de D. Pedro I e de sua atuação no processo de Independência do Brasil)
Mediação da mesa: Deputada Caroline de Toni (deputada convidada pela Comissão Especial Curadora)
11:00 - Debate com o público presente
11:30 - Contribuição da Sociedade Civil
Reflexões sobre o Bicentenário.
12:00 - Intervalo para almoço
14:30 - Mesa 05 - Hipólito José da Costa e as perspectivas da Imprensa
Palestrantes:
Paulo Roberto de Almeida (Diplomata, professor universitário, autor de diversos estudos sobre História do Brasil)
Isabel Lustosa (Professora universitária, acadêmica, sócia do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro)
Malcolm Forest (Músico, ator, compositor, cantor, diretor de cinema, tradutor, escritor e idealizador do projeto “A Jornada dos Príncipes” com assessoria ao Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Braganca da Casa Imperial do Brasil)
Mediação da mesa: Deputado Gustavo Fruet (membro da Comissão Especial Curadora).
16:00 - Debate com o público presente
16:30 - Intervalo
17:00 - Mesa 06 - Soror Joana Angélica e a participação popular no movimento de Independência
Palestrantes:
Maurício Melo Júnior (Jornalista, escritor, apresentador da TV Senado)
Bruno Antunes de Cerqueira (Historiador, especializado na monarquia brasileira)
Aldo Rebelo (Político brasileiro, 5 vezes deputado federal pelo estado de São Paulo e ex-presidente da Câmara dos Deputados)
Mediação da mesa: Deputada Soraya Santos (membro da Comissão Especial Curadora)
18:30 - Debate com o público presente
19:00 - Fim da programação do seminário



O fantasma do holocausto nuclear reaparece e assusta - The Economist; Sergio Duarte e Cristian Wittmann

 Putin ameaça o mundo com uma nova corrida nuclear


The Economist, in: 
O Estado de S. Paulo20/06/2022

Há quase 120 dias, Vladimir Putin lançou sua invasão à Ucrânia alertando para a possibilidade de um ataque nuclear. Após exaltar o arsenal atômico da Rússia e prometer subjugar a Ucrânia, ele ameaçou países que se sentissem tentados a interferir com consequências “que vocês jamais viram em toda sua história”. Desde então, a TV russa passou a atormentar seus espectadores com conversas de armagedon.

Mesmo que Putin jamais use a bomba na Ucrânia, ele já abalou a ordem nuclear. Depois de suas ameaças, a Otan limitou o apoio que estava preparada para oferecer, com duas implicações ainda mais preocupantes por terem sido afundadas pelos tambores da campanha de guerra convencional da Rússia. Uma delas foi que Estados vulneráveis que veem a guerra através do olhar da Ucrânia sentirão que a melhor defesa contra um agressor com armas nucleares é ter o próprio armamento atômico. A outra é que outros Estados com armas nucleares acreditarão que são capazes de se beneficiar copiando as táticas de Putin. Se isso ocorrer, algum país certamente concretizará sua ameaça em algum lugar. Este não pode ser o legado devastador desta guerra.

A ameaça nuclear já vinha crescendo antes da invasão. A mistura de normas, tratados, garantias mútuas, lisonjas, persuasão, mecanismos técnicos, medo e tabu que impediu o mundo de ver armas nucleares usadas contra exércitos ou cidades desde 1945 parecia bastante irregular mesmo antes de Vladimir Putin, presidente da Rússia, alertar, no dia 24 de fevereiro, que quem atravessasse o caminho da Rússia arriscaria “consequências… como vocês nunca viram em toda a sua história”.

Em termos de controle de armas, quase todos os pactos entre os Estados Unidos e a Rússia caducaram. Moscou estava desenvolvendo novas armas, como o Poseidon, não cobertas pelos acordos que permanecem. O arsenal nuclear da China está se expandindo rapidamente. Quanto a impedir a disseminação das armas, décadas de pressão internacional não conseguiram impedir que a Coreia do Norte adquirisse armas nucleares e aumentasse sua sofisticação e a gama de alvos contra os quais poderiam ser usadas.

O único acordo de não proliferação notável feito na última década, no qual o Irã limitou seu programa nuclear em troca de alívio de sanções, estava por um fio, com a república islâmica mais perto de uma bomba do que nunca. Agora está ainda mais perto. E a falta de progresso em direção ao desarmamento por parte de EUA, Reino Unido, China, França e Rússia, os Estados com armas nucleares que fazem parte do Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT), continuava a erodir a legitimidade do regime que o tratado estabeleceu.

China, Coreia do Norte têm expandido e melhorado seus arsenais nucleares
A Coreia do Norte possui dezenas de ogivas. O Irã, afirmou a ONU esta semana, conseguiu suficiente urânio enriquecido para fabricar sua primeira bomba. Apesar do pacto Novo Start limitar mísseis balísticos intercontinentais da Rússia e dos EUA até 2026, o acordo não cobre armas como torpedos atômicos. O Paquistão está aumentando rapidamente seu arsenal. A China está modernizando suas forças nucleares e, afirma o Pentágono, as expandindo.

Toda essa proliferação reflete o enfraquecimento da repulsa moral que restringe o uso de armas atômicas. À medida que as memórias de Hiroshima e Nagasaki desvanecem, as pessoas deixam de entender como a detonação de uma pequena bomba em campo de batalha, do tipo que Putin poderia acionar, é capaz de desencadear a escalada para a aniquilação mútua de cidades inteiras. EUA e União Soviética conviveram com a possibilidade de um impasse nuclear de apenas dois lados. Há um alarde insuficiente diante da perspectiva de várias potências nucleares com dificuldades para manter a paz.

A invasão da Ucrânia colabora para esse mal-estar. Mesmo se Putin estiver blefando, suas ameaças corroem garantias de seguranças concedidas a Estados não nucleares. Em 1994, a Ucrânia entregou as armas atômicas soviéticas que mantinha em seu território em troca de compromissos de Rússia, EUA e Reino Unido de que não seria atacada. Ao tomar a Crimeia e apoiar separatistas nas regiões do Donbas em 2014, a Rússia quebrou de maneira flagrante essa promessa. Os americanos e os britânicos, que praticamente não fizeram nada, também quebraram suas promessas.

Isso dá uma razão extra para Estados vulneráveis adquirirem armas atômicas. O Irã pode considerar que renunciar à bomba não lhe valeria nenhum benefício duradouro e ter a bomba neste momento não lhe causaria tantos problemas quanto no passado. Se o Irã testar uma bomba, como Arábia Saudita e Turquia responderiam? Coreia do Sul e Japão, que detêm conhecimento para se armar independentemente, colocarão menos fé nos compromissos do Ocidente em protegê-los em um mundo mais perigoso.

A estratégia de Putin de sinalizar com ameaças atômicas é ainda mais corrosiva. Nas décadas seguintes à 2.ª Guerra, as potências nucleares consideraram acionar armas atômicas em batalha. Mas nas últimas cinco décadas, tais alertas foram apenas para países que, como o Iraque e a Coreia do Norte, ameaçavam usar armas de destruição em massa. Putin é diferente, pois invoca ameaças atômicas para ajudar suas forças invasoras a vencer uma guerra convencional.

E elas parecem ter funcionado. É verdade que o apoio da Otan à Ucrânia tem sido mais robusto do que o esperado. Mas a aliança tem hesitado em enviar armamentos “ofensivos”, como aeronaves. Apesar de o presidente dos EUA, Joe Biden, ter enviado vastas quantidades de armas, na semana passada ele se opôs a fornecer mísseis capazes de atingir alvos dento da Rússia. Outros na Otan parecem pensar que a Ucrânia deveria estabelecer um acordo com a Rússia, porque infligir uma derrota sobre Putin poderia colocá-lo contra as cordas, com consequências nefastas.

Dano causado pelo presidente russo é de difícil reparação
Essa lógica estabelece um precedente perigoso. A China poderia impor condições similares caso ataque Taiwan, argumentando que a ilha já é parte do território chinês. Mais Estados poderão concentrar mais armamentos de batalha, o que desdenharia do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, sob o qual eles estão sujeitos a trabalhar pelo desarmamento.

O dano causado por Putin será difícil de reparar. O Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, que entrou em vigor no ano passado e foi firmado por 86 países, pede sua abolição. Mas países armados temem ficar mais vulneráveis, mesmo que o desarmamento coletivo possa fazer sentido.

É importante perseguir controles de armamentos com verificação escrupulosa. A Rússia pode ser relutante, mas está empobrecida. Bombas nucleares custam caro, e o país precisa reconstruir suas forças convencionais. Os EUA poderiam aposentar seus mísseis terrestres sem comprometer sua segurança, em troca de cortes da Rússia. Ambos os lados podem concordar sobre especificidades técnicas, como não atacar o comando nuclear, controles e infraestrutura de comunicações em um conflito convencional. Em última instância, o objetivo deveria ser atrair a China.

Essas negociações serão mais fáceis se a tática nuclear de Putin fracassar – ele poderá começar garantindo que não atacará a Ucrânia. Biden escreveu na semana passada que os EUA não detectaram preparativos. Mas países como China, Índia, Israel e Turquia, com acesso ao Kremlin, deveriam alertar Putin a respeito de sua fúria caso, Deus nos livre, ele realmente vier a usar uma arma nuclear.

Poupar a Ucrânia de um ataque nuclear é essencial, mas não basta. O mundo deve garantir que Putin não prospere com sua atual agressão como prosperou em 2014. Se Putin acreditar mais uma vez que suas táticas funcionaram, ele fará mais ameaças nucleares no futuro. Se ele também concluir que a Otan pode ser intimidada, convencê-lo a recuar será mais difícil. Outros aprenderão com seu exemplo. A Ucrânia, portanto, precisa de armas mais avançadas, mais ajuda econômica e mais sanções sobre a Rússia para fazer o Exército de Putin bater em retirada.

Países que consideram esta guerra apenas um combate europeu passageiro negligenciam a própria segurança. E não poderiam estar mais errados aqueles argumentando em nome da paz, afirmando que a Ucrânia precisa alcançar uma trégua com a Rússia neste exato momento para não acabar atolada numa guerra que é incapaz de vencer, contra um inimigo que já perdeu o ferrão. Se Putin pensar que a Otan perdeu sua determinação, a Rússia poderá continuar perigosa. E se Putin for convencido de que suas ameaças nucleares representam a diferença entre a derrota e qualquer resultado que preserve sua reputação, a Rússia poderia ficar ainda mais perigosa. TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

https://www.estadao.com.br/internacional/the-economist-putin-ameaca-o-mundo-com-uma-nova-corrida-nuclear/


Ratificação de tratado que proíbe armas nucleares confirmaria vocação pacífica do Brasil

Primeira reunião do Tratado de Proibição de Armas Nucleares será realizada em Viena de 21 a 23 de junho

Folha de S. Paulo, 20 de junho de 2022

Sergio Duarte
Embaixador, foi alto representante das Nações Unidas para Assuntos de Desarmamento. É presidente das Conferências Pugwash sobre Ciência e Assuntos Mundiais

Cristian Wittmann
Professor da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), no Rio Grande do Sul, é membro da Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (ICAN, na sigla em inglês)

A primeira reunião das partes contratantes do Tratado de Proibição de Armas Nucleares (TPAN) será realizada em Viena de 21 a 23 de junho. O TPAN reitera e reforça os compromissos do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), estabelece medidas de cunho humanitário e oferece um caminho para a eliminação daquelas armas de forma ordenada, segura e verificável.

O TPAN entrou em vigor em janeiro de 2021. Até agora, foi assinado por 86 países, dos quais 62 já o ratificaram. O Brasil teve participação destacada na negociação do tratado e foi o primeiro a assiná-lo em 2017, mas ainda não o ratificou. Por isso, comparecerá à reunião na qualidade de signatário, não na de membro pleno do instrumento.

A reunião será uma importante oportunidade para levar adiante a implementação do tratado e facilitar a consecução do objetivo de um mundo livre de armas nucleares. Espera-se a adoção de documentos substantivos que corroborarão os compromissos assumidos e indicarão ações específicas a serem concretizadas, além da aprovação de uma declaração política e de um plano de ação.

Entre as propostas já formuladas estão a fixação de prazos para que os países nucleares que aderirem ao TPAN eliminem seu armamento e para que aqueles que abrigam essas armas em seus territórios as removam. O TPAN, aliás, é o primeiro instrumento internacional que proíbe o estacionamento de armas nucleares em terceiros países. Outra proposta a ser examinada é a definição de um prazo para a destruição de todas as armas nucleares. O TPAN, no entanto, não é uma obra acabada; muito esforço ainda será necessário para tornar realidade seus elevados propósitos.

No entanto, países armados com os engenhos bélicos de efeitos mais cruéis e indiscriminados jamais inventados –as armas nucleares– continuam a buscar uma ilusória supremacia e a despender enormes recursos financeiros para aperfeiçoar cada vez mais o potencial destruidor de que dispõem. Ao mesmo tempo, afirmam a intenção de utilizar o poderio atômico nas circunstâncias que considerem adequadas e recusam-se a participar de quaisquer iniciativas que possam levar a medidas efetivas de desarmamento.

Uma única bomba nuclear lançada sobre uma grande cidade mataria instantaneamente uma ampla parcela da população. Muitos mais pereceriam em pouco tempo, vítimas da radiação e de outros efeitos altamente perniciosos. A detonação de apenas uma fração dos arsenais existentes causaria danos ambientais irreversíveis e poderia provocar a extinção da espécie humana.

A humanidade precisa se libertar da complacência em relação a esses gravíssimos perigos. A acumulação de armas de destruição em massa não aumenta a segurança de seus possuidores e ameaça diretamente a segurança de todos os países.

Em sua Constituição e como parte dos principais instrumentos internacionais e regionais de que faz parte, o Brasil se comprometeu a não obter armas nucleares. A conclusão do processo de ratificação do TPAN pelo Congresso é matéria de interesse nacional e confirmará os compromissos assumidos, assim como a vocação pacífica e a liderança brasileira na busca de um mundo livre de armas nucleares.

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/06/ratificacao-de-tratado-que-proibe-armas-nucleares-confirmaria-vocacao-pacifica-do-brasil.shtml

Chanceler “paralelo”: um posto que voltou? - Daniel Gullino, Eliane Oliveira (O Globo)

 Já tivemos isso sob a diplomacia lulopetista, estamos tendo agora, e talvez volte no próximo governo. Os militares sabem que dividir comando é um péssimo método de gestão.

Paulo Roberto de Almeida 

'Chanceler paralelo', almirante assessor de Bolsonaro tem mais viagens ao exterior que Carlos França e gera incômodo no governo

Titular da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Rocha tem rodado tanto o mundo quanto o titular do Ministério de Relações Exteriores

Por Daniel Gullino e Eliane Oliveira — Brasília
O Globo, 19/06/2022 04h30 

No último dia 7, o secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, almirante Flávio Rocha, voltou a Brasília após uma viagem de 20 dias por 11 países do Oriente Médio e do Leste Europeu. Passou cerca de 24 horas em solo nacional e embarcou em outra missão, dessa vez rumo aos Estados Unidos, para acompanhar o presidente Jair Bolsonaro na Cúpula das Américas. A sequência de agendas internacionais evidencia que o militar assumiu um papel complementar ao do chanceler, Carlos França, o que tem gerado incômodo em integrantes do governo. Titular da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) desde 2020, Rocha tem rodado tanto o mundo quanto o titular do Ministério de Relações Exteriores — algumas vezes na companhia do presidente; outras, sozinho.

Desde abril de 2021, quando França tomou posse no Itamaraty, Rocha fez 21 viagens internacionais, enquanto o chanceler realizou 19 no mesmo período. Em oito dessas ocasiões, os dois estavam juntos com Bolsonaro. As andanças internacionais de Rocha têm incomodado alguns ministros. Para eles, as viagens extrapolam os limites do posto que ele ocupa. Entre as atribuições da SAE está “propor estratégias para a formulação de políticas” em diferentes áreas, inclusive relações exteriores, defesa e segurança. Procurados, a SAE e o Itamaraty não se manifestaram.

O giro por países árabes e europeus foi a viagem mais ambiciosa até aqui do almirante, que esteve acompanhado do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do presidente. Os dois passaram por Arábia Saudita, Egito, Iraque, Hungria e República Tcheca e se reuniram com representantes de governo locais, principalmente nas áreas de Defesa, além de empresários. A espécie de atuação paralela de Rocha não parece incomodar o chefe. A viagem com Eduardo Bolsonaro foi elogiada pelo presidente. Ele chegou a dizer que o titular da SAE deveria dar uma entrevista a jornalistas sobre temas tratados durante a missão e destacou conversas sobre o avião militar KC-390, um dos principais produtos da Embraer.

— O Rocha esteve agora em 15 dias pelo mundo árabe — disse Bolsonaro a jornalistas na última segunda-feira.

— Tem que fazer uma coletiva com vocês sobre a ida dele ao mundo árabe. Não foi apenas o KC-390, que é um cartão de visita que muitos países querem comprar.

Em quatro oportunidades, Rocha e França embarcaram juntos ao exterior, mas sem a companhia do presidente: visitaram Portugal, Angola, Peru e Colômbia, para representar o Brasil em eventos oficiais. Nas viagens que fizeram tinham motivações diferentes. Em datas distintas, os dois foram para Moscou, por exemplo, nos meses anteriores à visita de Bolsonaro ao país. Rocha também já teve encontros com autoridades militares de Turquia e Reino Unido, entre outros compromissos fora do país. O Almirante assumiu uma importância maior no governo após a saída de Ernesto Araújo do comando do Itamaraty. Também ocupou um vácuo deixado por Filipe Martins, responsável por assessorar Bolsonaro em assuntos externos e que perdeu espaço no governo. Como Carlos França trabalhava no cerimonial do Planalto, ele e Rocha mantinham uma boa relação.

Distanciamento
Segundo um interlocutor do governo, porém, França e Rocha se distanciaram recentemente porque o chanceler não estaria aprovando a agenda internacional do almirante, cumprida sem uma coordenação prévia com o Itamaraty. Um integrante da área diplomática minimiza a divergência e nega haver qualquer ruído. Ainda segundo um desses interlocutores, o almirante trata de questões diretamente relacionadas a Bolsonaro, enquanto França é o executor da política externa. O chanceler costuma dizer que quem formula as diretrizes é o presidente.

Pessoas próximas tanto a Rocha quanto ao chanceler afirmam que a função do almirante se assemelha ao que fazia Marco Aurélio Garcia, então assessor para assuntos internacionais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Havia muita especulação sobre um clima de disputa entre Garcia e o ex-chanceler Celso Amorim, sempre negado oficialmente por ambos. No caso do governo do petista, havia algumas particularidades. Garcia também tratava das relações políticas, com partidos do mundo todo. Articulou a criação do “grupo de amigos da Venezuela”, em 2003, para tentar solucionar uma crise política no país vizinho.

https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2022/06/chanceler-paralelo-almirante-assessor-de-bolsonaro-tem-mais-viagens-ao-exterior-que-carlos-franca-e-gera-incomodo-no-governo.ghtml

Grupos traçam reação a golpe eleitoral de Bolsonaro e cobram adesões - Joelmir Tavares (FSP) e Paulo Roberto de Almeida

 Chega a ser inacreditável que movimentos da sociedade civil tenham de se mobilizar para impedir que o chefe do Executivo sabote o processo eleitoral que o conduziu ao cargo, fazendo todo o possível para tumultuar as eleições, chegando até mesmo a ameaçar a interrupção do mais importante rito do sistema republicano presidencialista sob o qual vive o Brasil desde 130 anos — com interrupções apenas sob golpes e ditaduras justamente— e que os mesmos movimentos sejam levados a se contrapor às falsidades continuamente difundidas pelo próprio chefe de Estado e de governo. Chega a ser surrealista que o supremo detentor do cargo maior da República queira implodir a legitimidade da função e interromper a via da escolha democrática de um detentor temporário do mandato presidencial.

Loucura semelhante, na supostamente maior democracia do mundo, levou à tentativa de deslegitimação das eleições e a uma invasão violenta do Legislativo que redundou em mortes. Seria essa a pretensão do chefe do Executivo brasileiro?

Teremos, provavelmente, o acirramento das tensões até outubro. Os dois outros poderes, Legislativo e Judiciário, vão se coordenar para criar desde já os anteparos necessários a uma condução normal do processo eleitoral, em face das promessas de tumulto do chefe do Executivo? Seria o minimo a esperar, na situação atual.

Paulo Roberto de Almeida 


Grupos traçam reação a golpe eleitoral de Bolsonaro e cobram adesões

Organizações da sociedade dizem que só mobilização ampla e conjunta fará frente a investida autoritária do presidente.


Joelmir Tavares
Folha de S. Paulo, 20/06/2022

SÃO PAULO


Organizações e ativistas que já trabalham com a previsão de que o presidente Jair Bolsonaro (PL) executará um plano golpista nas eleições tentam articular uma reação orquestrada à ameaça de ruptura democrática e convencer mais setores sobre a urgência de mobilização.

Centenas de entidades da sociedade civil, movimentos sociais e políticos, profissionais do direito, militantes e acadêmicos atuam, em público e nos bastidores, para traçarem o roteiro de uma resposta imediata a ataques efetivos contra a ordem eleitoral.

A maior parte das ações se dá em conjunto com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que ampliou o contato com vários segmentos para barrar a investida autoritária. O esforço conta também com iniciativas que querem se manter discretas para driblar perseguições do bolsonarismo.

Associações que participam de comissões montadas pelo TSE estão na linha de frente dos trabalhos, mas outros grupos igualmente alarmados estão por conta própria se somando à guerra.

A bandeira de todos é única e cristalina: respeito às urnas eletrônicas e ao resultado que sair delas. Falta agora descobrir como, exatamente, evitar que uma tentativa de golpe prospere no Brasil em 2022.

"Para nós está claro que essa tarefa não caberá somente a uma instituição ou classe, mas a todos os setores do Estado e da sociedade", diz Flávia Pellegrino, porta-voz do Pacto pela Democracia, uma rede que agrega mais de 200 organizações inseridas no debate.

Os caminhos adotados até aqui incluem ações de prevenção e alerta. São conversas dos movimentos com representantes do TSE, do STF (Supremo Tribunal Federal) e do Congresso Nacional, além de diálogos em fóruns que reúnem plataformas de redes sociais e partidos.

Reduzir o alcance das campanhas de desinformação e das alegações infundadas de fraudes no pleito é visto como prioridade geral.

Um grupo de 15 pesquisadores que tem feito estudos sobre a máquina de fake news optou por não figurar publicamente como comunidade organizada, sob o argumento de que temem ataques da base do presidente.

Os especialistas, ligados a universidades e reconhecidos em suas áreas, aparecem para divulgar as conclusões de suas pesquisas, mas sem se colocarem como parte de um movimento. A pedido dos próprios, esta reportagem omite os nomes dos membros e do coletivo.

Líderes da articulação antigolpe enxergam semelhanças com a narrativa promovida por Donald Trump nos Estados Unidos em 2021, que culminou com a invasão do Capitólio e a morte de cinco pessoas.

A versão brasileira passa pela tentativa de desmoralização do Judiciário —Bolsonaro ameaça deixar de cumprir ordem judicial— e a incitação de apoiadores, inclusive policiais e atiradores esportivos.

"Com a deslegitimação dos tribunais, o direito sozinho não vai dar conta de funcionar como anteparo", diz Estefânia Barboza, docente da Universidade Federal do Paraná que pertence à Demos, uma frente com professores de direito de vários estados que advertem sobre o risco à democracia.

"No momento crítico, vamos precisar da política e de todas as instituições, empresas, igrejas, sindicatos. E vai ter que ter povo na rua", segue ela. "Muita gente subdimensiona a gravidade. Nós estamos apavorados. Eu não sou militante, sou professora, mas a situação me obriga a fazer algo."

Rogério Sottili, que dirige o Instituto Vladimir Herzog e está engajado em discussões na Comissão Arns e em outros ambientes, afirma que Bolsonaro semeia elementos de ruptura desde 2018. "Mas esse jogo não vai dar em nada se antes gritarmos que ele quer fraudar o processo."

"Não acredito que os militares vão botar tanque na rua para defender isso. Não é mais 1964 [ano do golpe militar]. O cenário é diferente", segue Sottili, que serviu a governos do PT, partido do líder das pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva, com 48% de intenções no Datafolha, ante 27% de Bolsonaro.

Embora parte dos envolvidos nas coalizões faça oposição aberta ao atual mandatário ou declare apoio ao ex-presidente petista, muitos deles afirmam que as atividades são desconectadas de preferências.

"Nosso olhar não é partidarizado, não é contra nem a favor de um ou outro candidato", diz Flávia, do Pacto pela Democracia, que se define como plural e apartidário. "O que sair das urnas terá que ser reconhecido. Queremos, inclusive, atrair apoiadores de Bolsonaro [para a causa]."

Na esfera partidária, o temor de golpe é mais robusto entre siglas de oposição ou independentes, como mostrou levantamento da Folha no mês passado. Legendas aliadas do presidente se calam. Órgãos como a Procuradoria-Geral da República e entidades setoriais também demonstram apatia.

O Direitos Já! Fórum pela Democracia reuniu dirigentes de 11 partidos (como PC do B, PSDB, Podemos, Novo, PSD, PDT e PSB) para alinhar a resistência. "Queremos uma resposta firme e uníssona", diz Fernando Guimarães, coordenador do movimento.

No ecossistema que tenta desenhar reações, são repetidas as cobranças de um posicionamento enfático do empresariado e da elite. Um argumento lógico é mencionado como justificativa para a adesão: um golpe, ainda que malsucedido, prejudicará automaticamente finanças e negócios.

Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), por exemplo, não informa se avalia um posicionamento institucional sobre a violação às eleições.

Tampouco é discutida uma reedição do manifesto "Eleições serão respeitadas", publicado em agosto de 2021 por mais de 250 representantes de peso do PIB, economistas, intelectuais, políticos, banqueiros, artistas e personalidades. A mobilização paralisou mesmo com a piora no cenário.

Parte da explicação está no fato de que parcela do empresariado se identifica ideologicamente com Bolsonaro e apoia a reeleição. Há poucos dias, na Associação Comercial do Rio de Janeiro, convidados aplaudiram discurso do presidente com ameaças ao STF e riram de piadas ofensivas a Lula.

Dois empresários paulistas com trânsito entre os pares e o meio político disseram à Folha, sob anonimato, que a inércia também pode estar ligada à vontade de parte do setor de fabricar uma terceira via. Segundo um deles, isso é visto como mais urgente do que interceder por eleições limpas.

"Quer motivo mais suficiente do que a elevação do risco Brasil para que a elite financeira se sinta pressionada e se contraponha a esse absurdo?", reivindica Estefânia, do Demos.

O grupo da professora expressou suas preocupações em documentos enviados à ONU (Organização das Nações Unidas) e à CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos). E pretende ainda acionar Mercosul e outros organismos multilaterais.

A avaliação é que a pressão estrangeira, embora limitada do ponto de vista prático, será fundamental. Os grupos entendem que o reconhecimento imediato de outros países ao nome do eleito será importante para sinalizar confiança externa no sistema brasileiro.

Em julho, uma comitiva viajará a Washington para reiterar esse pedido a autoridades e influenciadores do debate público global, de acordo com Paulo Abrão, diretor do WBO (Washington Brazil Office), centro que atua no tema em parceria com outras 32 entidades.

Abrão, que foi secretário da CIDH e integrou o governo Dilma Rousseff (PT), é da opinião de que ignorar ou minimizar o golpismo de Bolsonaro não é uma alternativa, ainda mais com tantas evidências. O mandatário já insufla apoiadores para irem às ruas no 7 de Setembro.

"A capacidade real de evitar o pior vai depender do que fizermos agora, em termos de mobilização e formação de consciência social. A tática da letargia ou da invisibilidade das ameaças não ajuda em nada", diz ele.

COMO SE ORGANIZA A RESISTÊNCIA AO GOLPE NA SOCIEDADE CIVIL

Roteiro da oposição
Líderes das organizações dizem que é preciso planejar ações em várias frentes (jurídica, política, social, internacional), mobilizar setores e pedir observadores estrangeiros. Lembram que nos EUA a tentativa de Trump ruiu porque forças (diplomacia, mídia, população) reagiram

O que é esperado
Ativistas dizem ser difícil prever datas ou armas a serem adotadas por Bolsonaro. Cenários podem ir de descumprimento de decisões judiciais até convocação de levantes. Há receio de decretação de estado de sítio em caso de conflitos ou convocação das Forças Armadas

Ações práticas
Grupos vêm abordando cortes (STF, TSE), Congresso e outras instituições para alertar sobre evidências e cobrar respostas. Também acionam organismos multilaterais (ONU, CIDH) em busca de acompanhamento das eleições, repúdio a ações autoritárias e eventuais sanções

Condições e riscos
O principal temor é o de que as Forças Armadas embarquem, mas a opinião mais frequente é a de que Bolsonaro não tem apoio majoritário para um golpe nem respaldo maciço da sociedade. Também há tensão sobre adesão de policiais e de bolsonaristas armados.

Organizações envolvidas
Algumas das entidades mais atuantes integram o Observatório de Transparência Eleitoral, criado pelo TSE, como: Pacto pela Democracia, Artigo 19, Instituto Igarapé, Comitê Gestor da Internet, Rede de Ação Política pela Sustentabilidade, RenovaBR, Instituto Ethos, Educafro

Outras trincheiras
Também estão empenhados na causa: Direitos Já!, Comissão Arns, Coalizão para a Defesa do Sistema Eleitoral, Demos (Observatório para Monitoramento dos Riscos Eleitorais), Observatório da Democracia, Washington Brazil Office, Movimento Derrubando Muros

Em silêncio
Há pouca ou nenhuma mobilização em entidades do empresariado, como Fiesp, e em movimentos como MBL (Movimento Brasil Livre) e Vem Pra Rua. Levantamento da Folha em maio já havia mostrado letargia de instituições como Firjan, OAB, CNBB, CNA, CNI e Febraban.