Acho que ainda não; os autores deste artigo esperam que as coisas possam mudar, mas eu tenho a impressão de que as corporações sindicais que dominam as associações de professores se opõem a muitas mudanças necessárias, sem falar da ideologia freireana do MEC, oposta a qualquer cobrança de resultados dos professores.
Paulo Roberto de Almeida
À espera de um currículo de padrão internacional
Ilona Becskeházy,
consultora em Educação
João Batista Araújo de Oliveira,
presidente do Instituto Alfa e Beto
O Estado de São Paulo, 6/02/2013
A população brasileira, em geral - e, em particular, a que depende da
escola pública -, está à espera de políticas que efetivamente façam a
educação avançar no País. Nada mais eloquente do que o depoimento da mãe
de um aluno matriculado no primeiro ano de uma escola do interior
fluminense, porque ele representa a aflição de muitas outras mães que
dependem das escolas públicas: "A Secretaria Municipal de Educação de
Cachoeiras de Macacu (RJ) está interpretando que a alfabetização começa
ou pode ser estendida aos oito anos. Isso é um retrocesso, pois, nos
anos 80/90, os alunos ao final do primeiro ano já sabiam ler e, no
terceiro ano, já tinham acesso a um currículo muito diversificado. É
necessário que a sociedade exija que a alfabetização ocorra aos 6 anos
de idade, como é na rede particular. Se não for assim, como fica o
princípio republicano da isonomia? O Estado acaba ajudando a diferenciar
seus pequenos cidadãos?".
É natural que uma nação que viu o Brasil melhorar em tantas áreas espere
que seu governo faça o mesmo pela educação. Tanto quanto é natural que a
população tenha a expectativa de que as autoridades educacionais já
estejam caminhando nessa direção. Infelizmente, não é o caso do nosso
país, cujas lideranças educacionais insistem em perseguir um caminho
próprio e equivocado, que não leva em conta as evidências científicas
sobre o que funciona no processo pedagógico e as principais experiências
internacionais de políticas educacionais públicas e eficazes.
Nos últimos anos, especialmente a partir das informações de dois grandes
programas de avaliação estudantil em nível internacional - o Programa
Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) e o Tendências
Internacionais nos Estudos de Matemática e Ciência (Timms) - os países
desenvolvidos vêm reformulando seus currículos nas áreas de matemática e
de ciências e as orientações sobre o ensino da língua e sobre a
alfabetização. Há um ambiente de colaboração internacional entre as
autoridades educacionais, do qual os nossos representantes têm escolhido
não fazer parte.
A demonstração mais recente do isolamento educacional brasileiro está em
duas iniciativas do governo federal a respeito da alfabetização escolar
das crianças: a Medida Provisória n.º 586/12 e uma proposta de
normativa para garantir "direitos de aprendizagem". São duas peças que,
uma vez aprovadas respectivamente pelo Poder Legislativo e pelo Conselho
Nacional de Educação (CNE), servirão de base legal para garantir aos
brasileiros o "direto de aprender a ler aos oito anos". O problema,
muito bem apresentado pela mãe de Cachoeiras de Macacu, é que
continuamos sem ter a definição clara do que é "saber ler" e colocamos
um padrão difuso que está servindo para facilitar a vida de quem não
sabe "ensinar a ler".
A medida provisória trata essencialmente de recursos para compra de
materiais paradidáticos, formação de alfabetizadores e premiação para
quem der conta do recado. Para se ter uma ideia de como o assunto é
tratado por quem estabelece as políticas educacionais, foram enviadas
mais de 60 emendas - e duas delas propunham estabelecer a alfabetização
como direito a ser assegurado aos 6 anos, ao final do primeiro ano do
ensino fundamental, como se faz nas escolas privadas e no mundo
desenvolvido. Essas duas emendas foram rejeitadas. Outra, que dispensa
os tomadores de crédito estudantil de ter ficha de crédito limpa, foi
aprovada, apesar de nem estar relacionada com a matéria em pauta.
Para ilustrar a dimensão do fosso que nos separa do resto do mundo,
fazemos uma comparação de fácil digestão para os brasileiros - com
Portugal.
Recentemente, o currículo de Língua Portuguesa e o de Matemática para o
ensino fundamental foram reformulados com o objetivo explícito de
melhorar a qualidade e se aproximarem dos demais países da Europa. Esses
currículos, disponíveis na internet, são detalhados e simples o
suficiente para que as famílias possam acompanhar a sua implementação
nas escolas de seus filhos. Lá até as escolas particulares tiveram de
fazer adequações para atenderem aos novos padrões, que, além de
detalhados, são desafiadores para os alunos e seus professores.
Alguns exemplos do que o documento da terra de Camões apresenta: no
primeiro ano o aluno deve ler, num texto simples, 55 palavras por
minuto; no segundo ano, 90 palavras por minuto e no terceiro ano, 110
palavras por minuto. Também no terceiro ano os portugueses devem
"escrever pequenas narrativas, incluindo os seus elementos
constituintes: quem, quando, onde, o quê, como". E vão "introduzir
diálogos em textos narrativos". Fica fácil imaginar que, daqui a dez
anos, seremos nós os protagonistas das piadas de português...
Sempre há esperança. No caso da Medida Provisória n.º 586/12, os
legisladores poderiam abrir espaço para ouvir outras vozes, analisar a
experiência internacional e avaliar políticas públicas que efetivamente
possam promover avanços na alfabetização das crianças. Poderiam, por
exemplo, começar ouvindo o que a Academia Brasileira de Ciências tem a
dizer - inclusive saberiam que, se existe um ciclo de alfabetização, ele
deveria começar na educação infantil e terminar no primeiro ano do
ensino fundamental. No caso do documento enviado ao CNE, sempre é tempo
para retirar da pauta, rever e incorporar, de maneira consistente, o que
o conhecimento científico acumulado e a experiência de outros países
teriam a nos ensinar.
Quem sabe o nosso ministro da Educação, Aloizio Mercadante, se disponha a
ter um curto diálogo com seu colega Nuno Crato, de Portugal? Ou a
presidente Dilma Rousseff se sensibilize com padrões educacionais que,
apesar de nada populares em alguns setores da educação local, são
ambiciosos o suficiente para tornar o Brasil um país realmente
cosmopolita?
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Miseria educacional brasileira: uma luz no fim do tunel?
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educação brasileira
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3 comentários:
Imaginar que a minha vida em muitas circunstâncias atrela-se a picuinhas oriundas de políticas públicas é desesperador, OU DE SE ESPERAR A DOR.
Cumprimentos pelo post. Finalmente vejo texto sobre educação em que articula-se coisa com coisa, coerentemente.
A fixação de padrões mínimos deveria ser objeto de preocupação no país. Mas não é bem isto que as corporações desejam. Lembro minha mulher (professora)sendo execrada nas reuniões de classe dos governos petistas de P.Alegre ao propor tais critérios. E, convenientemente, caracterizada como "burguesa".
Caro professor,
desde o dia 26 de janeiro que o
seu colega, o professor Janer
Cristaldo não escreve mais, desde
que frequento aquele blog,
há cinco anos, isso não aconteceu.
Estou apreensivo,
foi através dele que
conheci o teu blog.
Abç
Gilrikardo
PS: Desculpe-me, mas tinha que desabafar com alguém.
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