quinta-feira, 11 de abril de 2019

Seixas Corrêa: o Paulo Roberto não existe! - Paulo Roberto de Almeida (helàs!)


Seixas Corrêa: o Paulo Roberto não existe!

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: comentário a entrevista; finalidade: concordar com o autor da frase]



Poucas semanas atrás fui solicitado a conceder uma entrevista à jornalista Consuelo Dieguez, da revista Piauí, sobre o nosso inefável chanceler (desculpem, não sei se esse é bem o termo que se aplica ao ministro acidental) e suas peripécias no Itamaraty, sendo que tal demanda foi feita apenas por ter eu sido defenestrado por esse personagem de meu posto de diretor (entre 3/08/2016 e 4/03/2019) do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais numa chuvosa manhã de Carnaval. De natureza mais para o reservoso – um pouco como o coronel Ponciano de Azeredo Furtado, do genial romance de José Cândido de Carvalho, O Coronel e o Lobisomem –, eu não teria me prestado a uma diatribe pública, preferindo ficar no meu canto, lendo e escrevendo, se não fosse, justamente, por essa pedra no meu caminho geralmente discreto, e especificamente voltado para essas leituras e escritos mal sabidos e pouco lidos.
Mas acontece que, nessa mesma trajetória, minhas retinas fatigadas de várias outras leituras acabaram topando tardiamente com essa matéria da Piauí, exatamente na manhã deste 11 de abril, numa leitura de avião e aeroporto. E qual não foi a minha surpresa, ao deparar-me com uma frase absolutamente genial e verdadeira, que aliás confirma o meu natural reservoso referido acima. Para os que necessitam colocar a frase em seu contexto remeto à matéria completa, com estes dados editoriais: Consuelo Dieguez, “O chanceler do regresso: os planos de Ernesto Araújo para salvar o Brasil e o Ocidente”, revista Piauí (n. 151, abril 2019, p. 20-29). A frase aparece na p. 27, quando Seixas Corrêa, indagado pela jornalista, nega que ele me tenha punido pela “Lei da Mordaça” – isso foi em 2001 e novamente em 2002 – e proclama solene e peremptoriamente:
O Paulo Roberto é um rapaz muito inteligente, mas, sinceramente, ele não existe.

Quero de imediato declarar minha satisfação por ter sido objeto de uma declaração de tão augusta figura – descendente de barões do Império e grande servidor do Itamaraty durante décadas, tendo inclusive galgado por duas vezes o mais alto posto reservado aos membros da carreira, o de Secretário Geral – e afirmar, também peremptoriamente, que concordo, em gênero, número e grau, com tal afirmação do circunspecto embaixador: Sim, eu não existo! Ufa! Isso me dá um grande alívio
Com efeito, pelo menos agora eu não existo, funcional ou diplomaticamente, uma vez que não tenho nenhum cargo no Itamaraty, nem terei qualquer outro cargo em postos do exterior, pois uma pessoa que não existe não pode pretender representar o Brasil, não é mesmo? Portanto, como antigamente, nos tempos mais sorridentes do lulopetismo diplomático, vou ter de me recolher ao meu habitat natural, a Biblioteca do Itamaraty, onde continuarei fazendo o que sempre fiz nessa minha vida profissional e acadêmica de muitos livros e algumas poucas pedras no caminho: ler, refletir, escrever, eventualmente publicar o que escrevo, seja nas minhas ferramentas sociais, seja em revistas, seja sob a forma de livros. Exatamente como já o fiz, na anterior travessia do deserto, durante o lulopetismo, que demorou o exato dobro de meu autoexílio de sete anos no exterior, durante a ditadura militar, que tampouco existe, segundo o chanceler e um anterior responsável pelo MEC.
Entre 2003 e 2016 não tive nenhum cargo na Secretaria de Estado das Relações Exteriores, quando então passei vários anos nesse douto exílio, especial para bibliófilos, o que me possibilitou escrever dois ou três livros, além de incontáveis artigos. Aliás, não sei se o embaixador Seixas Corrêa reparou, mas esta pequena nota que escrevo num aeroporto leva o número 3.447 na minha lista de trabalhos originais, sendo que o último trabalho publicado, justamente uma avaliação dos cem primeiros dias da diplomacia do genro dele (na verdade não é) – “Uma revolução cultural acontece na diplomacia brasileira”, revista Época (10/04/2019; link: https://epoca.globo.com/uma-revolucao-cultural-acontece-na-diplomacia-brasileira-opiniao-23588268) – leva o número 1306 da lista de trabalhos publicados. Não quero, por favor, constrangê-lo, com esse estranho caso de um ser que não existe, mas que vive escrevendo e publicando...
Pois eu estou muito contente de NÃO EXISTIR, pelo menos na perspectiva da atual, e deplorável, diplomacia do genro do embaixador Seixas Corrêa, pois ela é uma assemblagem mal costurada de invectivas contra o globalismo – outra coisa que, como diria aquele antigo astrólogo argentino, NO ECZISTE! –, de lamentos e indignação sobre a decadência do Ocidente cristão – calma, gente, Trump está aí para nos salvar –, de luta ingente contra o marxismo cultural – que contaminou, como se sabe, pelo menos metade dos diplomatas –, enfim, contra outros males secundários (climatismo, falta de uma verdadeira fé, além de várias doenças de pele), mas que estão sendo vigorosamente combatidos pelo brancaleônico exército de novos templários que assaltou, literalmente, o governo, a sociedade, o país e a nação. 
Para isso, eu realmente não existo. Nem quero existir, pois minha biografia contaminada pelo marxismo cultural ficaria indelevelmente marcada por uma colaboração não desejada com um dos mais contundentes assaltos contra a racionalidade, o bom senso, a prudência e o comedimento, que sempre caracterizaram a ação do Itamaraty desde o Império até essa republiqueta da nova direita, que não parece dispor de uma doutrina acabada, ou sequer de um mapa do caminho, sendo apenas um caminhar errante e hesitante entre o nada e o lugar nenhum.

Agradeço, portanto, ao embaixador Seixas Corrêa, por deixar patente, claríssima e declarada a minha não existência, e posso confirmar que continuarei assim mesmo: não existindo, mas de vez em quando escrevendo, postando ou publicando algumas coisas, a partir desse lugar que eu muito prezo, onde já estive anteriormente: o limbo.
Termino dizendo que este ser inexistente que vos escreve inaugura por esta pequena nota uma nova série de escritos, “Crônicas do Limbo”, através das quais lembrarei a todos que mesmo fantasmas podem, de vez em quando, vir a incomodar os seres existentes, que poderão, ou não, replicar nos mesmos espaços nos quais escrevo, como sempre abertos a tudo o que for inteligente e pertinente.
Saudações etéreas...

Paulo Roberto de Almeida
Rio de Janeiro, 3447; 11 de abril de 2019



Um comentário:

  1. O astrólogo era espanhol, nao argentino. Chamava-se Padre Quevedo, e sim, costumava dizer que o diabo "non ecziste". Alias, o gurú de Virgina diz muito também: "Isso nao existe". Saudaçoes.

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