O que é este blog?

Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial a política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A miseria da economia keynesiana no Brasil: minha critica a um diretor do IPEA

Um colega economista, do qual me permito omitir o nome -- mas os connoisseurs saberão de quem estou falando -- tinha me chamado a atenção, em meados de dezembro, para o artigo -- publicado nesse site esquizofrênico que se chama Carta Maior, o maior repositório de bobagens e mentiras que é possível encontrar na internet -- de um economista dito "distinguido" (acho que só em bobagens), keynesiano comme il faut, que conseguiu acumular, num simples artigo de imprensa, a maior quantidade de atentados à lógica econômica e ao simples bom senso que é possível cometer por centímetro quadrado.
Eu simplesmente comentei o artigo, apenas nos parágrafos que me pareceram mais escandalosos, mas todo o artigo -- e ele mereceria um "minitratado da irracionalidade econômica"-- é de uma incompetência exemplar, raramente vista nos anais de nossa academia.

Transcrevo novamente o que mandei a ele -- e que foi hoje circulado, imagino para uma ampla audiência de economistas conhecidos -- no que interpreto ser um exercício de inutilidade exegética. Com efeito, um artigo tão deplorável como esse sequer mereceria comentários mais extensos da minha parte.
Só me perdi tempo com essa bobagem monumental porque imagino que o site da Carta Maior seja lido por um número apreciável de universitários, que acham provavelmente que esse subeconomista do sistema acadêmico brasileiro tem inteiramente razão.
De fato, acredito que 95% da academia brasileira pense exatamente como ele, o que só testemunha, mais uma vez, como a nossa academia é atrasada, ilógica, economicamente irracional e terrivelmente deficiente na simples argumentação econômica, dessas que os iniciantes americanos resolvem com duas páginas do Economics 101.
 Salvo um ou outro erro de digitação da minha parte, nos comentários abaixo, acho que fui até leniente com esse atentado à lógica e à razão cometida por esse diretor do Ipea.
Não posso acreditar no que leio, frequentemente, em certos sites opinativos sa subintelectualidade brasileira, assim como em artigos de opinião da imprensa brasileira. 
Sobretudo não posso acreditar que pessoas assim possam dar aulas em faculdades importantes ou sequer que sejam diretores de uma entidade outrora responsável e séria.
Lamentável...



Sent: Monday, December 26, 2011 4:03 PM
Subject: Economista maluco...

Raramente leio coisas tão incompetentes quanto esta, mas acho que ele conseguiu se superar no besteirol economico...
Primeiro transcrevo o artigo in totum, para que todos possam ler desprevenidos.
Depois passo ao meu bisturi analítico, embora o artigo merecesse mesmo uma motoserra impiedosa.
Paulo Roberto de Almeida

O FMI chegou a Europa
A fórmula que o FMI propõe, hoje, aos europeus - de austeridade fiscal e privatizações - já foi adotada em diversos países da América Latina nos anos 1990. Os países europeus que vão se curvar ao FMI e que desejam conhecer o seu futuro não precisam de “bola de cristal”; basta conhecer a história econômica desastrosa da América Latina dos anos 1990.
João Sicsu
Carta Maior
Em 2011, a crise explodiu na Europa. A dívida dos países europeus já havia aumentado em 2009 porque o setor público teve que “estatizar” a dívida privada do seu sistema financeiro: bancos europeus emprestaram aos bancos americanos e não viram o seu dinheiro de volta. Ao mesmo tempo, na Europa, famílias vinham se endividando para alcançar um modelo de consumo assemelhado ao “American way of life”(o modo de vida americano pré-crise, onde felicidade era sinônimo de consumo de bens de última geração).

Então, os bancos europeus passaram a financiar casas de luxo e automóveis de tecnologia sofisticada. A Europa se transformou em Eurolândia, onde “comprar e ter” passaram a ser mais importantes do que “viver e não ter vergonha de ser feliz”. Portugueses pobres e negros passaram a valorizar e a usar Nike. Carros Porsche, Audi, Mercedes, BMW e Volvo de alto luxo se tornaram comuns nas ruas da Europa. Ademais, governos da periferia européia importaram produtos bélicos sofisticados.

Para financiar o gasto da periferia, bancos se endividavam junto a outros bancos. E muitos governos europeus fizeram dívidas dentro da própria Europa para tentar pagar suas contas comerciais com o exterior, devido à elevada importação que suas economias faziam. A Alemanha incentivou esse processo onde bancos assumiam uma postura arriscada e pessoas e governos se endividavam. Lógico: 2/3 das suas exportações vão para a região da União Européia.

Logo que a União Européia deu seus primeiros passos, a Alemanha iniciou a implementação de uma estratégia econômica de dominação da Europa. A Alemanha fez um pacto interno, de cunho político e econômico, entre o governo, banqueiros, trabalhadores e empresários. Ofereceram aos trabalhadores estabilidade no emprego em troca de arrocho salarial. Com custos menores, devido aos salários comprimidos, os produtos alemães passaram a penetrar com facilidade nos mercados de toda a Europa.

Para complementar a estratégia, a Alemanha passou a emprestar dinheiro aos países que comprassem os seus produtos. Assim, euros, na forma de lucro e juros, eram transferidos da periferia para o centro da Europa. O enfraquecimento econômico da periferia representou também o seu enfraquecimento político: foi aberto o caminho para a substituição de governantes e para a rejeição de consultas populares.

As dívidas dos governos europeus da periferia explodiram. Afinal, tiveram que socorrer bancos e tomar emprestado euros para garantir o equilíbrio das suas contas externas. Enquanto a Alemanha exportava e fazia superávit comercial; outros importavam e tomavam empréstimos, a Grécia, por exemplo. A Grécia está gravemente endividada.

Tudo começou na periferia; mas, hoje, o mundo já reconhece que a contaminação é geral: Irlanda, Portugal, Espanha, Itália, França... De julho de 2008 a dezembro de 2009, a relação dívida/PIB da zona do euro saltou de 70 para 80%. Este foi um período de recessão na Europa e de queda na receita pública. Em 2010, a razão dívida/PIB alcançou 85%.

A situação de países como a Grécia é conhecida na história econômica mundial: um país com elevada dívida pública e déficit comercial com o exterior. Para esses casos, o FMI - desde o início das suas atividades, já com postura conservadora – impunha uma fórmula bastante peculiar. Um país deficitário na sua balança comercial e endividado, para receber os empréstimos de socorro do Fundo deveria cortar gastos públicos de forma drástica, o que resolveria os dois problemas econômicos.

O corte de gastos reduziria os déficits das contas do governo e, em consequencia, contribuiria para a estabilização da dívida pública. Além disso, o corte de gastos públicos reduziria a capacidade de compra da população e, portanto, reduziria também a demanda por produtos importados contribuindo para o equilíbrio comercial com o exterior.

Durante décadas, o FMI somente impôs políticas econômicas; basicamente, obrigava países em dificuldade a cortar gastos governamentais e a conter o crédito para o consumo. A partir dos anos 1990, o FMI passou a propagandear e impor reformas estruturais. Para o FMI, o receituário de políticas econômicas não era suficiente.

O FMI foi a principal organização de defesa e implementação das reformas estruturais propostas pelo Consenso de Washington (de 1989). A fórmula que o FMI propõe, hoje, aos países europeus - de austeridade fiscal e privatizações - já foi adotada em diversos países da América Latina nos anos 1990, por exemplo, Equador, México, Argentina e, parcialmente, no Brasil.

Os países europeus que vão se curvar ao FMI e que desejam conhecer o seu futuro não precisam de “bola de cristal”; basta conhecer a história econômica desastrosa da América Latina dos anos 1990.

(*) Professor-Doutor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Um artigo maluco e meus comentários a ele
Paulo Roberto de Almeida 

Economistas malucos existem em quaisquer países, isso é evidente, até mesmo alguns que são Prêmio Nobel. Poderia citar dois, americanos, que estão sempre publicando artigos na imprensa, mas me abstenho de fazê-lo, inclusive para atiçar a curiosidade dos que aqui navegam. Só diria que, com todas essas crises, causadas pelo keynesianismo exacerbado dos governos, eles reincidiram, abusivamente, num keynesianismo ainda mais exacerbado, prescrevendo as mesmas políticas econômicas -- de "demanda agregada", de injeção de dinheiro governamental na economia, de gastos públicos e de endividamento acrescidos -- que justamente causaram as crises de que essas economias padecem. Mais passons...; como diria um entendido, eles que são brancos, loiros de olhos azuis, que se entendam. Fiquemos com os nossos malucos, que os temos às pencas.
E como! Nossas universidades só conhecem o keynesianismo, nunca se estudou outra coisa que não o keynesianismo aplicado em nossas faculdades de economia, com um agravante: aqui o keynesianismo veio na versão ainda mais vulgar, tosca e grosseira do prebischianismo aplicado como se fosse receita de crescimento ou de desenvolvimento. Ou seja, o que Keynes recomendou como medidas contracíclicas, em casos de ciclos depressivos ou de recessões confirmadas, devendo portanto ser usado apenas em caráter temporário, como expedientes emergenciais de uso limitado, aqui os nossos keynesianos toscos transformaram em políticas permanentes de desenvolvimento, com todas as distorções que isso possa acarretar.
Mais ainda: imbuídos da fé dos recentemente convertidos, eles até criaram uma Associação Keynesiana Brasileira, que se compraz em render culto ao mestre, com todas as liturgias de ofício, inclusive uma adoração reverencial dos textos-base, escritos há mais de 70 anos e que continuam a ser citados como se tivessem méritos prescritivos e capacidades curativas para os males do nosso tempo, com todas as mudanças acumuladas nas dinâmicas econômicas mundial e nacionais que conhecemos desde então. 
Malucos, certo? Mas não só isso.
São também desonestos intelectuais, como o prova o texto abaixo, retirado -- de onde mais poderia ser -- do site embromador mais enganador que existe na internet, Carta Maior, um refúgio de viúvas do socialismo e de órfãos da globalização, que vive atacando o capitalismo e os sistemas de mercado, como se estes fossem a perversidade convertida em regimes políticos e econômicos, e que vive prescrevendo as mesmas receitas fracassadas que levaram a América Latina ao que ela é hoje, ou seja, nada de muito diferente de meio século atrás, com todos os equívocos de políticas econômicas acumuladas ao longo do tempo, e que continuam a ser repetidos ainda hoje, como aliás patente ainda agora nas medidas protecionistas e erroneamente "industrializantes" que são adotadas, contornando os reais problemas da administração econômica do Brasil.
Eu poderia fazer uma longa lista de todos os equívocos acumulados no artigo abaixo, que não mereceria sequer figurar no Lattes do seu autor, tão primários, tão políticos (e não econômicos) são os seus argumentos, tão deformadas são as afirmações que ele faz ao longo de um texto que peca por todas as omissões que ele pratica, e por todos os falsos argumentos que evidencia.

Mas vejamos alguns deles, examinados topicamente:

1) "bancos europeus emprestaram aos bancos americanos e não viram o seu dinheiro de volta".
PRA: Não, bancos europeus, japoneses e chineses, além de outros espalhados por aí, participaram do mesmo exercício a que se dedicaram todos os bancos nos anos de euforia financeira, causada pela bolha imobiliária americana, por sua vez causada pela política equivocada do FED, de manter taxas de juros artificialmente baixas; os bancos, em geral, compraram derivativos que prometiam um retorno apetitoso, e foram tragados na mesma onda que também tragou algumas empresas brasileiras: apostaram na valorização desses papéis, como alguns capitalistas aqui apostaram na valorização do real, indefinidamente; todos tomaram um tombo, e cabe esclarecer que o Estado brasileiro também salvou nossos gregos e goianos, injetando dinheiro em bancos e facilitando a vida de alguns desses capitalistas (não é Doutor Antonio Ermírio de Moraes, não é Doutor Silvio Santos?).

2) "A Europa se transformou em Eurolândia, onde “comprar e ter” passaram a ser mais importantes do que “viver e não ter vergonha de ser feliz”." 
PRA: O argumento é primário e remete aos mesmos catastrofistas ecologistas, aos mesmos inimigos do consumo que sempre argumentam que os recursos vão se esgotar, que as pessoas estão consumindo demais, que é preciso reciclar, que é preciso viver com produtos longamente, que é preciso parar de gastar, de consumismo, de desperdício, de abusos no luxo e outras coisas do gênero. Se o mundo dependesse desses conselhos, há muito a economia teria ido para o brejo, estaríamos em profunda recessão e estagnação, o desemprego subiria para alturas fantásticas e a tecnologia simplesmente estancaria seu manancial de novas descobertas e inovações. O mundo ainda estaria na Idade Média. Sim, suponho que os idiotas que proclamam esse tipo de argumento ainda estejam usando máquina de calcular manual, não usem celulares de última geração, e se contentem com somar no lápis e anotar seus brilhantes pensamentos em cadernos de espiral... Qualquer outra solução seria um consumismo desenfreado, incompatível com o que prescrevem para as economias nacionais. Para ser fiel ao que pregam, eles deveriam retornar à Idade Média.

3) "muitos governos europeus fizeram dívidas dentro da própria Europa para tentar pagar suas contas comerciais com o exterior, devido à elevada importação que suas economias faziam..." 
PRA: My God, essa é forte, até mesmo para um economista maluco, ou seja, um keynesiano tosco dos arraiais da UFRJ. Deixa eu ver se entendi: governos emprestam dinheiro nos mercados financeiros para pagar importações de companhias privadas???!!! Governos ficam financiando consumo de importados de particulares??? Qual é o balanço de pagamentos que registra essa contabilidade maluca, qual é o governo (grego?) que cobre os gastos de importação de suas empresas e particulares? Esse economista endoidou ou sempre foi assim?

4) "Logo que a União Européia deu seus primeiros passos, a Alemanha iniciou a implementação de uma estratégia econômica de dominação da Europa." 
PRA: É isso: só podia ser o velho Lebensraum de volta. A Alemanha, perversa como sempre com sua genética prussiana, sem que ninguém perceba, concebe e implementa um plano de dominação imperial de toda a Europa, fazendo com que todos os demais pobrezinhos europeus se dobrem à solidez de sua Wermacht econômica, ao poderio brutal de sua SS financeira, e todos os outros países se submetem à Blitzkrieg econômica dessa potência que nunca deixou de lado seus sonhos seculares: dominar toda a Europa, transformar todos os outros povos em escravos da raça econômica superior. Essa geopolítica à la Haushofer dos trópicos está sendo ensinada nas faculdades brasileiras. Atenção brasileiros: os EUA fazem o mesmo com a América Latina: "está tudo dominado", como acrescentariam os paranóicos...

5) "A Alemanha fez um pacto interno, de cunho político e econômico, entre o governo, banqueiros, trabalhadores e empresários. Ofereceram aos trabalhadores estabilidade no emprego em troca de arrocho salarial. Com custos menores, devido aos salários comprimidos, os produtos alemães passaram a penetrar com facilidade nos mercados de toda a Europa."
PRA: Pois é, vejam como são as coisas: os países, os povos, as sociedades, os governos estão proibidos de fazer um pacto social, os sindicatos estão proibidos de exercer autocontenção, para reduzir os seus custos de produção, eles não podem obter ganhos de competitividade, via controle dos aumentos salariais (acima da inflação), via aumento de produtividade, via racionalização da produção (inclusive via terceirização, off-shore, out-sourcing, deslocalização), enfim, por todos os meios disponíveis para aumentar a competitividade de sua economia. Eles precisariam, segundo esse economista maluco, ser generosos, como o governo brasileiro, concedendo, por exemplo, aumentos salariais acima da inflação, sem qualquer conexão com a produtividade, sem qualquer consideração de custos sociais diferenciados entre as regiões ou os setores da economia, sem qualquer liberdade para negociações diretas, para livre contratação de salários numa economia aberta; nada, esses governos precisam ser estupidamente keynesianos (no sentido brasileiro, claro), como recomendaria esse "economista". Ou seja, o fato de que a Alemanha, que tinha custos laborais superiores aos da França, 20 anos atrás, tenha conseguido minimizar esse custo enorme de seu sistema produtivo, diminuindo o bem-estar dos gordos operários alemães, para "penetrar" nos mercados alheios, que ela tenha ficado abaixo do custo do trabalho francês, tudo isso, que é microeconomicamente racional, é pecado para esse economista maluco.

6) "Para complementar a estratégia, a Alemanha passou a emprestar dinheiro aos países que comprassem os seus produtos."
PRA: A afirmação é completamente destrambelhada e NÃO TEM NENHUM sentido econômico, a mínima conexão com a realidade. Ou seja, para que produtos alemães -- PRODUZIDOS por empresas privadas -- fossem comprados por CONSUMIDORES PRIVADOS de outros países, o governo alemão, a Alemanha, passou a emprestar dinheiro para os outros governos, aos demais países para que eles comprassem biscoitos alemães. Esse é forte, e deveria envergonhar qualquer estudante primeiroanista de economia. 

7) "As dívidas dos governos europeus da periferia explodiram. (...) Enquanto a Alemanha exportava e fazia superávit comercial; outros importavam e tomavam empréstimos, a Grécia, por exemplo. A Grécia está gravemente endividada."
PRA: Essa também é extremamente forte, até para o manual de economia do Hugo Chávez (el profesor de economía al revés): ou seja, para financiar o consumo, governos europeus fizeram dívidas enormes, induzidos espertamente pelos alemães para emprestar para satisfazer seus gostos privados. Quando é que economistas primários vão pagar imposto toda vez que fizerem afirmações tão estúpidas quanto estas?

8) "Durante décadas, o FMI somente impôs políticas econômicas; basicamente, obrigava países em dificuldade a cortar gastos governamentais e a conter o crédito para o consumo. A partir dos anos 1990, o FMI passou a propagandear e impor reformas estruturais."
PRA: A velha lenga-lenga do FMI carrasco dos povos, impondo políticas absurdas contra a vontade dos governos e os desejos dos cidadãos; se não fosse pelo FMI e suas políticas recessivas, o mundo seria uma maravilha, todo mundo faria políticas keynesianas anticíclicas e tudo funcionaria perfeitamente. O FMI sempre atrapalha, sempre. Quando é que economistas primários vão parar de fazer demagogia em cima das políticas acertadas entre o FMI e os governos dos países demandantes? Quando é que eles vão reconhecer a realidade da falência de políticas irresponsáveis levadas pelos governos, que depois, na última hora, ou já proclamada a insolvência, apelam para o dinheiro barato do FMI? Por que é que esses governos não ficam com o dinheiro fácil de seus próprios cidadãos -- que podem ser tosquiados à vontade, como sempre ocorre por aqui -- ou não apelam para mercados sempre abundantes em recursos (mas a juros de mercado)? Quando é que vai parar a ingenuidade desses pilantras de faculdades tabajara de economia?

9) "A fórmula que o FMI propõe, hoje, aos países europeus - de austeridade fiscal e privatizações - já foi adotada em diversos países da América Latina nos anos 1990, por exemplo, Equador, México, Argentina e, parcialmente, no Brasil."
PRA: Mas claro, essa fórmula é totalmente errada e só vai trazer recessão, desemprego, desespero. A fórmula certa, dixit economistas keynesianos da periferia, é exatamente o contrário: prodigalidade fiscal, gastos públicos para sustentar a tal de demanda agregada, injeção fiscal, juros baixos, estatizações e controle estrito dos capitais (internos e externos), desvalorização cambial compulsória e manipulação da taxa de câmbio, numa taxa desvalorizada, além, é claro, de protecionismo comercial, políticas industriais ativas, seleção de vencedores dentre os capitalistas promíscuos, e toda sorte de receita aparentemente keynesiana que eles tiram de sua algibeira para afundar ainda mais os países, como está ocorrendo na Venezuela, como aliás ocorreu na Grécia e em diversos outros países por ai, alguns muito perto daqui. Por que o governo brasileiro não adota todas essas medidas maravilhosas (aliás, está adotando algumas)?

10) "Os países europeus que vão se curvar ao FMI e que desejam conhecer o seu futuro não precisam de “bola de cristal”; basta conhecer a história econômica desastrosa da América Latina dos anos 1990."
PRA: Mais uma vez temos de nos render à sapiência keynesiana. Os países da América Latina estavam na pior, nos anos 1980 e 90, aplicaram políticas keynesianas, como as receitadas por esse economista regressista, e se safaram brilhantemente, tanto é que hoje se permitem dar lições aos europeus, sobre como enfrentar a recessão via gastos públicos, manutenção de emprego e outras receitas milagres do gênero. 
Pena que a história seja muito diferente da que conta esse economista fantasioso.

Paulo Roberto de Almeida 
Brasília, 26 de dezembro de 2011

É preciso ter muito estômago para ler fantasias desse gênero, o que apenas confirma como é débil o debate econômico em certos setores do "pensamento" brasileiro atualmente.
Paulo Roberto de Almeida 

Gulag: uma história dos campos de prisioneiros soviéticos - Resenha Paulo R Almeida

Que vergonha: uma microresenha de um livro de 700 páginas sobre o mais monstruoso dos holocaustos, e o maior dos crimes em volume de sacrificados:



9. “Gulag: anatomia da tragédia”, Brasília, 12 dezembro 2004, 3 p. Resenha de Anne Applebaum: Gulag: uma história dos campos de prisioneiros soviéticos (Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, 744 p.). Publicada em formato resumido na revista Desafios do Desenvolvimento (Brasília: IPEA-PNUD, ano 2, nº 6, janeiro de 2005, p. 78; link: http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=1761:catid=28&Itemid=23).  Relação de Trabalhos nº 1364. Relação de Publicados nº 534.



Aqui a versão ultraresumida da revista: 



Gulag: anatomia da tragédiaImprimirE-mail
Paulo Roberto de Almeida
O terror moderno, intimidação para fins políticos, não está ligado apenas ao fundamentalismo de base islâmica. Nasceu na Revolução Francesa, e Robespierre defendeu-o: "O terror nada mais é do que justiça imediata, severa, inflexível..." Desde os primeiros dias da revolução de 1917, Lênin ordenou à Cheka, a polícia política, que fuzilasse opositores declarados do novo regime e proprietários em geral. "Estamos exterminando a burguesia. Esta é a essência do Terror Vermelho" (citado por Paul Johnson em Tempos Modernos). Stalin aplicou as recomendações, incorporando como "clientes" da máquina de terror seus colegas de partido.
A historiadora americana, editorialista do Washington Post e colaboradora do Wall Street Journal, realizou uma pesquisa monumental. O Gulag chegou a ser responsável pela produção de um terço do ouro, muito do carvão, da madeira e de outras matérias-primas na União Soviética. O sistema reuniu 476 campos. O número de prisioneiros passou de cerca de 200 mil no início dos anos 1930 para 2,5 milhões no momento da morte de Stalin. No total, 2,7 milhões de cidadãos podem ter morrido no sistema do Gulag.



Aqui a minha versão também resumida, mas um pouco maior: 



Gulag: anatomia da tragédia

Resenha de:
Anne Applebaum:
Gulag: uma história dos campos de prisioneiros soviéticos
(Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, 744 p.; tradução de Mário Vilela e Ibraíma Dafonte; ISBN: 8500015403)

            O terror moderno, isto é, o recurso à intimidação aberta e indiscriminada para alcançar fins especificamente políticos, não está ligado apenas aos exemplos cruéis do fundamentalismo de base islâmica. Ele nasceu na Revolução francesa e seu mais conhecido "teórico", Robespierre, o defendeu sem hesitação: "O atributo do governo popular na revolução é ao mesmo tempo virtude e terror, virtude sem a qual o terror é fatal, terror sem o qual a virtude é impotente. O terror nada mais é do que justiça imediata, severa, inflexível...".
            Lênin, o inventor do terror moderno, apreciava Robespierre e sua "justiça expedita": desde os primeiros dias da revolução de 1917 ele ordenou à Cheka, a polícia política imediatamente criada para esmagar a ameaça "contra-revolucionária", que fuzilasse sem hesitação não só os opositores declarados do novo regime, mas também representantes da classe proprietária em geral, capitalistas, grandes comerciantes e latifundiários, religiosos, enfim, os potenciais "inimigos de classe".
            "A Cheka não é uma comissão de investigação nem um tribunal. É um órgão de luta atuando na frente de batalha de uma guerra civil. Não julga o inimigo: abate-o... Nós não estamos lutando contra indivíduos. Estamos exterminando a burguesia como uma classe. A nossa primeira pergunta é: a que classe o indivíduo pertence, quais são suas origens, criação, educação ou profissão? Estas perguntas definem o destino do acusado. Esta é a essência do Terror Vermelho" (citado por Paul Johnson em Tempos Modernos).
            Stalin se encarregou de aplicar sistematicamente as recomendações de Lênin, e o fez de uma forma completa, terminando por incorporar como "clientes" da máquina de terror administrada por ele os seus próprios colegas de partido. A amplitude do Gulag, ampliado e desenvolvido no seu mais alto grau por Stalin, justifica que apliquemos a ele a categoria de genocídio, noção que costuma estar associada apenas aos terríveis experimentos raciais nazistas, antes e durante a Segunda Guerra Mundial.
            O livro de Anne Applebaum não é, apenas, como seu subtítulo indica, "uma história" dos campos soviéticos, mas a mais completa e sinistra história de um fenômeno único na história da humanidade: uma instituição oficial (ainda que em muitos aspectos "clandestina"), montada e sustentada pelo poder central do Estado, para administrar pelo terror, por um tempo indefinido, uma população inteira de um dos países mais importantes do planeta. A historiadora americana, editorialista do Washington Post e colaboradora do Wall Street Journal, realizou uma pesquisa monumental, indo muito além dos primeiros levantamentos de Alexander Solzenitsyn em torno dos depoimentos dos sobreviventes do nefando sistema de escravização em massa criado pelo totalitarismo soviético.
            Organizado em três partes, o livro documenta amplamente o que até aqui tinha sido divulgado de maneira dispersa em trabalhos de pesquisa histórica que não tinham ainda tido acesso aos principais arquivos soviéticos liberados no período recente. A primeira parte, "As origens do Gulag, 1917-1939", faz a reconstituição histórica dessa instituição singular, que unia a mais transparente crueldade no trato dos prisioneiros ao burocratismo metódico de uma moderna administração voltada para a exploração sistemática do trabalho escravo. Sim, não devemos esquecer que, independentemente de suas funções "didáticas", de intimidação direta e aberta contra a própria população da União Soviética, o Gulag teve um importante papel econômico na história do socialismo naquele país, chegando a representar, a produção de um terço do seu ouro, muito do carvão e da madeira e grandes quantidades de outras matérias-primas. Os prisioneiros passaram a trabalhar em todo e qualquer tipo de indústria, vivendo num país dentro de um outro país.
            A segunda parte, "Vida e trabalho nos campos", mostra também como o sistema do Gulag, que chegou a reunir 476 campos no mais diferentes cantos da URSS, constituía um Estado dentro do Estado, regulando os mais diferentes aspectos de um universo concentracionário que não teve precedentes, teve poucos imitadores efetivos (a despeito da terrível eficácia mortífera dos campos de concentração nazistas) e um número ainda mais reduzido de seguidores (sendo os mais efetivos os sistemas "correcionais" da Coréia do Norte e de Cuba, já que o exemplo do Camboja foi o de uma simples máquina de matar, como de certo modo tinha sido o caso dos experimentos nazistas).
            A terceira parte, "Ascensão e queda do complexo industrial dos campos, 1940-1986", segue o sistema no seu ápice, durante e imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, até o seu desmantelamento gradual após a morte de Stalin (1953) e a disseminação do fenômeno dos "dissidentes": ele foi sendo erodido progressivamente em seu papel político (ainda que não o econômico), mas só teve seu final decretado depois do próprio fim do socialismo.
            Um apêndice tenta quantificar a extensão do terror: de acordo com os próprios dados do sistema (estatísticas da NKVD, sucessora da Cheka e antecessora do KGB), o número de prisioneiros passou de cerca de 200 mil no início dos anos 1930 para 2,5 milhões no momento da morte de Stalin. O "turnover", obviamente, foi muito maior: muitos prisioneiros morreram, alguns escaparam (poucos), vários eram incorporados ao Exército Vermelho ou à própria administração dos campos (cruel ironia). As "taxas de desaparecimentos" refletiram também as terríveis condições de vida na URSS: passou-se de 4,8% de mortos em 1932 para 15,3% no ano seguinte, o que indica o impacto da epidemia de fome induzida pela coletivização stalinista da agricultura, que matou 6 ou 7 milhões de cidadãos "livres" igualmente. A "taxa" de mortos sobe para seu máximo de 25% em 1942, para declinar para menos de 1% nos anos 1950, quando o sistema "industrial" já tinha sido instalado em sua plenitude. No total, 2,7 milhões de cidadãos soviéticos podem ter morrido no sistema do Gulag, o que de todo modo representa apenas uma pequena parte dos desaparecidos durante  todo o regime stalinista e uma parte ainda menor dos sacrificados pelo sistema soviético. Os autores franceses do Livre Noir du Communisme, por exemplo, estimam em 20 milhões as vítimas do regime soviético, o que pode ser uma indicação plausível (outros colocam entre 12 e 15 milhões de mortos). Vários historiadores se aproximam da cifra de 28 milhões de cidadãos soviéticos para o número total de “clientes” de todo o sistema concentracionário soviético em sua história de “terror vermelho”.
            O Gulag foi a face mais visível da tragédia soviética, mas certamente não a única ou exclusiva. Este livro conta a história desse terrível legado do socialismo do século XX: esperemos que a história não se repita, sequer como farsa.
           
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 12 de dezembro de 2004

Economia Brasileira Contemporânea (1945-2004) - resenha Paulo R Almeida


8. “Intérpretes e protagonistas da história econômica brasileira”, Brasília, 13 dezembro 2004, 3 p. Resenha de Fabio Giambiagi, André Villela, Lavínia Barros de Castro e Jennifer Hermann (orgs.), Economia Brasileira Contemporânea (1945-2004) (Rio de Janeiro: Elsevier, 2005, 432 pág.; ISBN 85-352-1415-1). Publicado na revista Desafios do Desenvolvimento (Brasília: IPEA-PNUD, ano 2, nº 6, janeiro de 2005, p. 77; link: http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=1760:catid=28&Itemid=23).  Relação de Trabalhos nº 1365. Relação de Publicados nº 536.

Intérpretes e protagonistas da história econômica brasileiraImprimirE-mail
Paulo Roberto de Almeida
Poucos são os livros que, no momento de sua publicação, podem ostentar, de imediato, a classificação de "clássico" ou mesmo de "indispensável". No terreno da teoria econômica, e particularmente no das políticas econômicas, livros costumam ser tão efêmeros quanto as políticas e as circunstâncias históricas que os viram nascer. No que se refere à história e às políticas econômicas da era republicana no Brasil, um exemplo de clássico é a coletânea organizada por Marcelo de Paiva Abreu para sintetizar os primeiros cem anos de experimentos levados a cabo pelos mais distintos regimes políticos: A Ordem do Progresso.

Economia Brasileira Contemporânea é, igualmente, um livro que já nasce clássico, não apenas porque complementa e amplia a discussão iniciada com aquela coletânea publicada em 1989, mas porque descreve e analisa, com rara maestria, o itinerário econômico do Brasil contemporâneo e seus principais problemas: a luta pela estabilidade, o desafio do crescimento sustentado e do desenvolvimento, a restrição externa e a dependência financeira, os problemas da pobreza, da desigualdade distributiva e da baixa qualificação educacional da população brasileira. Isso se deve ao fato de que não apenas os organizadores possuem competência acadêmica, experiência prática e faro político, mas também souberam cercar-se dos melhores nomes. Registre-se que realizaram a proeza, tanto intelectual quanto prática, de reunir dois inimigos da história econômica recente, Antonio Delfim Netto e Gustavo Franco.

O texto de Delfim analisa a evolução da economia brasileira entre 1947 e 2003, com ênfase no processo de desenvolvimento e sua principal restrição: as crises de balanço de pagamentos. Gustavo Franco segue o itinerário da luta contra a inflação e chega ao Plano Real, do qual foi um dos principais formuladores e administradores, até sair no episódio da passagem para o regime de flutuação cambial, em janeiro de 1999. Outros autores comparecem com temas relevantes, como a restrição de poupança (Edward Amadeo e Fernando Montero), as causas do crescimento econômico (Regis Bonelli), seu financiamento (Rogério Studart), a desigualdade distributiva (Lauro Ramos e Rosane Mendonça) e a terrível escassez de educação (Sergio Guimarães Ferreira e Fernando Veloso).

Esses são os eixos temáticos dessa obra verdadeiramente indispensável, mas eles constituem apenas a segunda parte do livro, pois a primeira está dedicada a oferecer, sob responsabilidade dos próprios organizadores (com a colaboração de Sérgio Besserman Vianna), uma visão panorâmica e abrangente de todo o desenvolvimento da economia e da política econômica brasileira entre 1945 e a atualidade. O grande mérito desse livro sobre outras coletâneas, situa-se na combinação do material histórico, de enfoque propriamente cronológico, com a discussão pormenorizada oferecida nos capítulos temáticos.

A obra não se dirige em primeiro lugar aos economistas profissionais, mas fundamentalmente aos estudantes universitários. Também deve interessar ao cidadão comum que busca entender não só as raízes da presente situação - um notável desempenho industrial, um pujante agronegócio, ao lado das mazelas sociais conhecidas e de persistentes desequilíbrios macroeconômicos, seja no plano fiscal e da dívida interna, seja ainda na vilipendiada "dependência financeira externa" - como as causas de nosso frustrante fracasso em alcançar os países de maior desenvolvimento relativo.

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Agora a versão completa: 

Intérpretes e protagonistas da história econômica brasileira

Resenha de:
Fabio Giambiagi, André Villela, Lavínia Barros de Castro e Jennifer Hermann (orgs.),
Economia Brasileira Contemporânea (1945-2004)
(Rio de Janeiro: Elsevier, 2005, 432 pág.; ISBN 85-352-1415-1).

            Poucos são os livros que, no momento de sua publicação, podem aspirar  ostentar, de imediato, a classificação de “clássico” ou mesmo de “indispensável”. No terreno da teoria econômica, e particularmente no das políticas econômicas, livros costumam ser tão efêmeros quanto as  políticas e as circunstâncias históricas que os viram nascer, se estiolar em face dos dados teimosos da realidade e caminhar para um lento e inexorável declínio enquanto explicação possível em um dado momento histórico. Trata-se de um pequeno número, assim, os livros que sobrevivem ao embate da realidade e do tempo. No que se refere à história econômica e às políticas econômicas da era republicana no Brasil, um exemplo de clássico é a coletânea organizada por Marcelo de Paiva Abreu para sintetizar os primeiros cem anos de experimentos econômicos levados a cabo pelos mais distintos regimes políticos: A Ordem do Progresso.
            Esta obra coletiva é, igualmente e desde já, um livro que já nasce clássico, não apenas porque ele complementa e amplia a discussão iniciada com aquela coletânea publicada em 1989, mas também porque ele descreve e analisa, com rara maestria, o itinerário econômico do Brasil contemporâneo e seus principais problemas: a luta pela estabilidade macroeconômica, o desafio do crescimento sustentado e do desenvolvimento, a restrição externa e a dependência financeira, os problemas da pobreza e da desigualdade distributiva e da baixa qualificação educacional da população do Brasil. Isso se deve ao fato de que não apenas os organizadores possuem competência acadêmica, experiência prática e grande faro político, mas também porque eles souberam se cercar dos melhores nomes do terreno. Registre-se, desde já, que eles realizaram a proeza, tanto intelectual quanto prática, de reunir no mesmo empreendimento dois protagonistas inimigos da história econômica recente, Antonio Delfim Netto e Gustavo Franco.
            O texto de Delfim, por exemplo, analisa a evolução da economia brasileira entre 1947 e 2003, com ênfase no processo de desenvolvimento e sua principal restrição: as crises de balanço de pagamentos. Já Gustavo Franco, que nunca deixou de criticar o primeiro (por ter produzido crescimento com o terrível legado do inflacionismo estatal), segue o itinerário de luta contra a inflação até o Plano Real, do qual ele foi um dos principais formuladores e administradores, até sair no episódio da passagem para o regime de flutuação cambial, em janeiro de 1999. Outros autores comparecem com temas relevantes, como a restrição de poupança (Edward Amadeo e Fernando Montero), as causas do crescimento econômico (Regis Bonelli), seu financiamento (Rogério Studart), a desigualdade distributiva (Lauro Ramos e Rosane Mendonça) e, last but no the least, a terrível escassez de educação (Sergio Guimarães Ferreira e Fernando Veloso).
            Estes são os eixos temáticos desta obra verdadeiramente indispensável, mas eles constituem apenas a segunda parte do livro, pois a primeira se dedica, numa trajetória propriamente linear, a oferecer, sob responsabilidade dos próprios organizadores (com a colaboração de Sérgio Besserman Vianna), uma visão panorâmica e abrangente de todo o desenvolvimento da economia e da política econômica brasileira entre 1945 e a atualidade. Como bem ressaltam os organizadores, as ênfases das políticas econômicas vão mudando em função dos cenários (interno e externo) cambiantes e dos principais problemas em cada época: crescimento e superação dos gargalos estruturais, políticas de ajuste externo e de combate à inflação, planos de desenvolvimento e de estabilização e, igualmente importante, a própria mudança de enfoque no pensamento dominante: do desenvolvimentismo estatizante e protecionista à abertura da economia e à privatização.
            O grande mérito deste livro, sobre outras coletâneas existentes, situa-se, assim, na combinação do material histórico, de enfoque propriamente cronológico, com a discussão pormenorizada oferecida nos capítulos temáticos. Três temas, aponta o apresentador (Wilson Suzigan), ficaram de fora da coletânea: a industrialização, o desenvolvimento científico e tecnológico e o desenvolvimento regional, mas isso não chega a comprometer um volume equilibrado e abrangente, já que esses problemas perpassam, mais de uma vez, os capítulos históricos ou os temáticos. Os próprios organizadores reconhecem que a questão das finanças públicas também ficou ausente da segunda parte, mas ela já tinha sido objeto de uma obra básica, de caráter teórico e centrada no caso brasileiro, sob a responsabilidade de um dos autores (Fabio Giambiagi, com Ana Cláudia Além). Os capítulos contêm poucos gráficos e tabelas, mas um utilíssimo apêndice estatístico uniformiza a informação quantitativa para o conjunto dos trabalhos individuais, que passam assim a dispor de um referencial comum de indicadores macroeconômicos.
            A obra, cabe ressaltar, não se dirige em primeiro lugar aos economistas profissionais, mas fundamentalmente aos milhares de estudantes das dezenas de cursos universitários, de graduação ou de pós, que têm de, em algum momento, confrontar-se com os problemas reais do desenvolvimento econômico brasileiro. Ela também deve interessar ao cidadão comum, que busca entender não só as raizes da presente situação – um notável desempenho industrial, um pujante agronegócio, ao lado das mazelas sociais conhecidas e de persistentes desequilíbrios macroeconômicos, seja no plano fiscal e da dívida interna, seja ainda na vilipendiada “dependência financeira externa” –, como as causas de nosso frustrante fracasso em alcançar os países de maior desenvolvimento relativo (de fato a distância em relação a eles voltou a aumentar como resultado do baixo crescimento das duas últimas décadas).
            A obra tampouco pretende oferecer, em algum exercício de síntese, uma interpretação única do processo brasileiro de desenvolvimento, tanto porque os autores mantêm independência de pensamento e efoques analíticos distintos: ainda agora, Delfim Netto e Gustavo Franco, para voltar aos mais conhecidos autores, ostentam interpretações divergentes para o que o segundo chama de desenvolvimentismo inflacionista, ao passo que o primeiro  encontra mais pecados nos desequilíbrios externos do que no tratamento heterodoxo da inflação. 
            Trata-se, em todo caso, da mais importante contribuição bibliográfica surgida no mercado editorial dos livros didáticos de alta qualidade nos últimos anos, mas não só isso: o livro também apresenta utilidade para o tomador de decisões, assim como para os destinatários dessas decisões, que somos todos nós. Ele está, em consequência, destinado a permanecer como uma referência indispensável nessas categorias pelos próximos anos.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 13 de dezembro de 2004