quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Brasil leva tarifas à OMC enquanto 25 estados contestam regra de Trump - Eloiza Matarese (Economic News Brasil)

Uma matéria sobre a insanidade tarifária do presidente demencial americano - Eloiza Matarese Economic News Brasil, 10/08/2026 Brasil leva tarifas à OMC enquanto 25 estados contestam regra de Trump Brasil contesta tarifas dos EUA na OMC enquanto 25 estados questionam na Justiça americana a rodada que inclui a cobrança de 12,5% ao país. Os Estados Unidos informaram nesta segunda-feira (10) que aceitaram realizar as consultas solicitadas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre as novas tarifas americanas. A tarifa dos EUA ao Brasil também está inserida em uma disputa mais ampla dentro dos próprios EUA, onde 25 estados contestam na Justiça a rodada tarifária de 10% a 12,5% criada pelo governo Donald Trump. O Brasil está entre as economias submetidas à alíquota de 12,5%. Mas as duas frentes não são o mesmo processo. Brasília questiona na OMC as sobretaxas americanas de 25% e 12,5%. Já os estados americanos contestam a legalidade da medida mais ampla relacionada ao trabalho forçado, que alcança 59 países e a União Europeia. A ação dos estados não foi apresentada em defesa do Brasil. A conexão está na regra questionada. O Brasil integra a rodada tarifária contestada internamente nos Estados Unidos, mas isso não permite antecipar seu resultado nem afirmar que a cobrança sobre produtos brasileiros será retirada. Tarifa dos EUA ao Brasil está dentro da regra contestada A cobrança de 12,5% decorre de uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre políticas e práticas adotadas por parceiros comerciais relacionadas à importação de bens produzidos com trabalho forçado. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o Brasil ficou entre 41 economias submetidas à alíquota adicional de 12,5%. Outras 19 economias receberam uma cobrança de 10%. Nos Estados Unidos, os 25 estados argumentam perante a Corte de Comércio Internacional que o governo Trump estaria tentando substituir, por outro fundamento jurídico, barreiras comerciais anteriores derrubadas pela Suprema Corte americana. A administração americana sustenta que as novas tarifas são legais. A cobrança atual utiliza a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Ela substituiu uma sobretaxa temporária de 10%, baseada na Seção 122, aplicada desde fevereiro e que expirou em julho. Para empresas brasileiras, essa diferença jurídica é fundamental: a ação dos estados questiona a rodada ampla que inclui a alíquota aplicada ao Brasil, mas não é um processo específico contra a tarifa brasileira nem produz, por si só, suspensão da cobrança. US$ 6,6 bilhões estão na faixa de maior exposição O tamanho da exposição brasileira explica por que a discussão interessa além da diplomacia. Com base nas exportações de 2024, o MDIC estima que 23,1% das vendas brasileiras aos Estados Unidos estejam sujeitas às duas novas medidas da Seção 301. Dentro desse universo, 4,7% das exportações são alcançadas exclusivamente pela sobretaxa de 12,5%. Outros 1,9% enfrentam somente a tarifa de 25%. A maior exposição aparece quando as duas regras alcançam a mesma mercadoria. Segundo o MDIC, 16,5% das exportações brasileiras aos EUA, equivalentes a US$ 6,6 bilhões na base de 2024, estão nessa situação. Nesses casos, as sobretaxas podem chegar conjuntamente a 37,5%. Outros 52,7% das exportações brasileiras ficaram sem essas sobretaxas específicas ou setoriais consideradas no levantamento do ministério. OMC abre conversa, mas tarifa continua valendo O Brasil argumenta que as medidas americanas são discriminatórias, unilaterais e incompatíveis com compromissos assumidos pelos Estados Unidos no sistema multilateral de comércio. O pedido de consultas abre a primeira etapa formal da contestação brasileira. Washington respondeu que aceita o pedido e está disponível para realizar as consultas em uma data conveniente às duas partes. Aceitar conversar não significa concordar em reduzir ou retirar as tarifas. É essa diferença que dá utilidade prática ao novo cenário. Há uma discussão entre Brasil e Estados Unidos no sistema da OMC e, separadamente, uma contestação doméstica contra a rodada tarifária americana na qual o Brasil está incluído. Para exportadores brasileiros atingidos, a tarifa dos EUA ao Brasil continua sendo cobrada enquanto não houver decisão ou mudança oficial que altere a medida. Agora, os pontos concretos a acompanhar são o avanço das consultas na OMC e o andamento da ação dos 25 estados nos EUA, sem tratar nenhuma das duas frentes como reversão antecipada das cobranças. Eloiza Matarese Jornalista e graduanda em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu. Atua na cobertura de economia, negócios e poder, com produção de conteúdos analíticos sobre decisões públicas, mercado, empresas, ambiente regulatório e impactos institucionais para o setor produtivo e para a sociedade.

Gustavo Franco aos 70 anos: uma obra, uma vida, uma geração - Edmar Lisboa Bacha (Casa das Garças)

Gustavo Franco aos 70 anos: uma obra, uma vida, uma geração Fala em seminário na Casa das Garças em 8 de junho de 2026 EDMAR BACHA AUG 11, 2026 É uma alegria poder saudar, no vigor de seus setenta anos, meu amigo Gustavo Henrique de Barroso Franco — economista, historiador, literato, polemista e homem de ação. Celebrar sua trajetória intelectual é revisitar a história econômica recente do Brasil. Ao mesmo tempo, celebrar o espírito de uma geração de economistas que escolheu enfrentar os problemas do país com rigor e coragem, desde sempre com a elegância e a ironia da boa prosa. Escrevi este texto – e agora o leio – com afeto redobrado. Gustavo foi meu aluno, assistente de pesquisa, colega de departamento, companheiro no governo e, ao longo de décadas, um generoso interlocutor intelectual. Mas seria injusto confinar esta homenagem ao plano das memórias afetivas. A obra de Gustavo Franco é extensa, variada e notavelmente original. Gustavo ingressou no curso de economia da PUC-Rio em 1975 e concluiu a graduação em 1979. Lembro-me bem do período em que ele foi meu assistente de pesquisa na preparação do livro Introdução à Macroeconomia. Havia nele uma combinação invulgar de instinto analítico e sensibilidade literária — traço que marcaria toda a sua produção posterior. Concluída a graduação, ingressou no mestrado da PUC-Rio. O ambiente intelectual do departamento havia amadurecido: estávamos redefinindo a compreensão do fenômeno inflacionário brasileiro. Gustavo absorveu esse fermento, e escreveu uma dissertação sobre a aurora republicana e sua primeira grande crise: a euforia especulativa e o colapso do Encilhamento. A tese conquistou o Prêmio BNDES de Economia para dissertações de mestrado. Publicada com o título Reforma Monetária e Instabilidade durante a Transição Republicana (BNDES, 1983), tornou-se referência obrigatória para o período que estuda. Com o prestígio adquirido no mestrado, Gustavo foi admitido nos programas de doutorado de Chicago, Yale e Harvard. Escolheu Harvard, onde se concentrou em dois campos: economia internacional, sob orientação de Jeffrey Sachs, e história econômica, com Barry Eichengreen — tendo Lance Taylor como terceiro membro do comitê de tese. Sua tese de doutorado, defendida em 1986, examina as hiperinflações da Alemanha, Áustria, Hungria e Polônia após a Primeira Guerra Mundial. Dois artigos derivados da tese tiveram repercussão acadêmica considerável. “The Rentenmark Miracle” -- publicado na Rivista di Storia Economica em 1987 e republicado em coletânea organizada por Barry Eichengreen em 1991 -- sustentava que a Rentenmark foi etapa crucial -- e não meramente cosmética, como argumentava Thomas Sargent — da estabilização alemã de 1923. Já “Fiscal Reforms and Stabilization: Four Hyperinflation Cases Examined”, publicado no Economic Journal em 1990, questionava a ênfase de Sargent na pura mudança doe regime fiscal, destacando o papel das reformas monetárias e do processo de desdolarização na consolidação da estabilidade. Poucas obras acadêmicas tiveram impacto prático tão direto. Quando, anos mais tarde, Gustavo se sentou à mesa para ajudar a projetar o Plano Real, não estava especulando no vazio: estava aplicando as lições que havia extraído de vasta literatura histórica e econômica. Gustavo voltou ao Brasil em setembro de 1986 para o Departamento de Economia da PUC-Rio, onde seria professor assistente e, a seguir, associado, até 1993. * Em maio de 1993, quando Fernando Henrique Cardoso assumiu o Ministério da Fazenda, foi convidado para ser Secretário Adjunto de Política Econômica. A inflação brasileira estava próxima de 30% ao mês. A tarefa era hercúlea. Em setembro de 1993, quando Pedro Malan foi nomeado presidente do Banco Central, Gustavo passou a ocupar a Diretoria de Assuntos Internacionais do Banco. A contribuição de Gustavo Franco para o Plano Real foi ampla e multiforme. Foi um dos idealizadores e o relator do singular padrão bimonetário conhecido como a URV. A inspiração histórica era clara: o mecanismo lembrava, em sua lógica, a introdução da Rentenmark que ele havia estudado em Harvard. A contribuição de Gustavo não se limitou à economia. Ele tomou para si a tarefa de ajudar a redigir as peças jurídicas que dariam suporte ao Plano. Seu talento para a redação clara e precisa foi ali colocado a serviço de um objetivo histórico. Recordo de dois episódios que ilustram bem o seu caráter. Quando a Medida Provisória que instituía a URV estava sendo finalizada, precisei informar a Gustavo que teríamos que incluir um mecanismo de indexação dos salários — sem ele, a MP não passaria no Congresso. Ele ficou visivelmente decepcionado. Mas, depois do lamento, fez a nova redação — mantendo o mecanismo dentro dos limites mais estritos possíveis — e a MP foi aprovada. Era a combinação que marcaria toda a sua vida pública: a fidelidade aos princípios e a lucidez sobre os limites do possível. Três anos depois, em janeiro de 1998, quando Gustavo já presidia o Banco Central, Itamar Franco publicou em O Globo um artigo intitulado “As inverdades do sr. Gustavo Franco”, contestando relato de Gustavo sobre a reunião em que se decidiu o mecanismo de conversão dos salários pela URV. Gustavo respondeu, também no O Globo. A resposta era precisa, detalhada e implacável: reconstruía ponto a ponto a sequência da reunião, identificava os equívocos do ex-presidente e concluía com a pergunta: quatro anos depois do fato, e três anos depois da publicação do livro, o que quer o ex-presidente? Era Gustavo em estado puro: a recusa em deixar que a névoa política distorcesse o registro histórico, combinada com uma prosa ao mesmo tempo rigorosa e cortante. A desvalorização do Real em janeiro de 1999 encerrou sua gestão no Banco Central. A sequência dos eventos — flutuação cambial sem crise bancária, adoção do regime de metas de inflação, preservação dos fundamentos institucionais construídos pelo Real — confirmaria que as bases estabelecidas na gestão de Gustavo Franco foram bastante mais sólidas do que a turbulência do momento sugeria. * A reflexão acadêmica e ensaística sobre o Plano Real ocupa lugar central na obra de Gustavo Franco. O ponto de partida é The Real Plan and the Exchange Rate (Princeton Essays in International Economics nº 217, 2000). Em português, o primeiro livro é O Plano Real e Outros Ensaios (Francisco Alves, 1995). Seguem-se O Desafio Brasileiro: Ensaios sobre Desenvolvimento, Globalização e Moeda (Editora 34, 1999) e Crônicas da Convergência: Ensaios sobre Temas Já não tão polêmicos (Topbooks, 2006). Acrescenta-se a esse conjunto A Moeda e a Lei: Uma História Monetária Brasileira, 1933–2013 (Zahar, 2017), síntese notável de história institucional e análise econômica que percorre oito décadas de relações entre o poder político e o sistema monetário no Brasil. Em 2024, Gustavo Franco organizou uma coletânea de ensaios seus, de Pedro Malan e meus, escritos “no calor do momento”, como diz o subtítulo do livro. Os ensaios retratam as diversas etapas por que passou o plano, ao longo das presidências de FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. Nas comemorações dos 30 anos do Real, o livro ajudou a lembrar o país da importância daquele feito histórico, então devidamente comemorado. Uma das características mais singulares de Gustavo Franco é sua recusa em permanecer dentro das fronteiras convencionais da profissão. Ao longo dos anos em que foi construindo a Rio Bravo Investimentos, publicou uma série de livros que constituem uma exploração fascinante das intersecções entre literatura e economia. O primeiro foi A Economia em Machado de Assis: O Olhar Oblíquo do Acionista (Jorge Zahar, 2007), em que Gustavo seleciona e comenta cerca de quarenta crônicas do Bruxo do Cosme Velho. Seguiu-se A Economia em Pessoa (Jorge Zahar, 2007), que explora os escritos do poeta português sobre economia, finanças e desenvolvimento. E depois Shakespeare e a Economia (Jorge Zahar, 2009), com um ensaio de Gustavo sobre o retrato do capitalismo nascente nas peças do Bardo. Vale ainda mencionar Dinheiro e Magia (2011), edição brasileira de cenas econômicas do Fausto de Goethe, para a qual Gustavo escreveu o posfácio “Fausto e a tragédia do desenvolvimento brasileiro”. Gustavo Franco tem uma veia irônica que os leitores de seus artigos de jornal conhecem bem, mas que encontrou sua expressão mais elaborada em dois significativos projetos editoriais. O primeiro é As Leis Secretas da Economia: Revisitando Roberto Campos e as Leis do Kafka (Zahar, 2012). O segundo é a série Antologia da Maldade (Zahar, Vol. I, 2014; Vol. II, 2022), produzida em parceria com Fábio Giambiagi. Em 2010, Gustavo publicou Cartas a um Jovem Economista. Na segunda edição (Intrínseca, 2022), ele incluiu um capítulo inteiro sobre a influência que diz ter recebido de mim na sua formação intelectual. Foi um gesto que me tocou profundamente, e que revela uma dimensão de Gustavo que a sua persona pública, feita de ironia e combatividade, raramente deixa transparecer -- a da afetividade genuína. * Ao olhar para a trajetória de Gustavo Franco, o que sobressai não é apenas a extensão da obra ou a variedade dos papéis desempenhados. É a forma rara de ser intelectual: o economista que é também historiador, que é também literato, que é também polemista, que é também homem de ação — e que faz tudo isso com o mesmo alto padrão de qualidade. A economia brasileira dos últimos trinta anos não se entende sem o Plano Real, e o Plano Real não se entende sem Gustavo Franco. Mas o Gustavo Franco que quero celebrar aqui não é apenas o arquiteto de uma estabilização bem-sucedida. É o jovem que analisava meu manuscrito de macroeconomia com os olhos de quem já sabia que queria ser mais do que um tecnocrata. É o mestrando que escolheu estudar o Encilhamento para entender os problemas do presente através das lições do passado. É o doutorando que foi a Harvard estudar as hiperinflações europeias dos anos 1920 porque intuiu que aquelas histórias eram relevantes para entender a hiperinflação no Brasil. É o servidor público que estava lá quando o país mais dele precisou e entregou o que prometeu: moeda estável, inflação vencida. É o professor que, ao se aposentar, escreveu um livro de cartas para jovens economistas — passando adiante, com generosidade, tudo o que aprendeu sobre o que significa ser um economista que importa. É do capítulo deste livro sobre nosso relacionamento que retiro minhas últimas palavras, aliás palavras dele mesmo, ligeiramente adaptadas: Gustavo, a vida continua e permanecemos juntos na ativa de muitas brigas, mas compartilhando essa doce memória da grande batalha em que vencemos um gigantesco dragão, que devorou muitos guerreiros antes de nós. Temos esse precioso legado a cuidar, e uma ampla agenda de mudanças ainda por fazer. O Brasil está sempre incompleto, como você não cansa de nos explicar.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Madame IA, comandada por ADL, se debruça sobre este blogueiro irreverente - Paulo Roberto de Almeida

Introdução PRA: O grande instrutor dessas demoiselles que andam pintando por aí sob o label geral de IA, mestres nas artes informáticas, cibernéticas e algorítmicas, ADL, deu instruções precisas a Madame IA (como figuram logo abaixo) para que ela pintasse o meu retrato como diplomata pouco convencional, numa linguagem popular, como conviria a qualquer caipira do interior de SP ou de Minas. Achei engraçado, mas confesso que fico meio desenxabido com o tom exageradamente laudatório, pois este modesto leitor e comentarista blogueiro não se acha merecedor de tantos elogios. Meu trabalho de análise crítica da atualidade política e diplomática nacional e internacional dispensa encômios e outros salamaleques, mesmo em tom roseano. "Não se avexe", eu diria a mim mesmo, ao fazer uma postagem pro domo minha, mas, para me redimir, eu dou apenas nota 6,5 ou 7 ao longo comentário de Madame IA, pedindo a ela mais comedimento da próxima vez. Madame IA foi muito generosa para comigo, mas confesso ficar até envergonhado com tantos elogios. Eu não tenho nenhuma importância no debate politico nacional sobre politica externa: meu quilombo de resistência intelectual é marginal em seu alcance ou impacto. Paulo Roberto de Almeida (11/08//026) ======= ADL: Em um texto discursivo (frases e parágrafos), apresente o PRA (o diplomata Paulo Roberto de Almeida). O texto deverá ser em linguagem coloquial/popular do interior do Brasil; deverá ter, no mínimo, 5500 caracteres. ==========
Se ocê puxar um banco de madeira pro pé daquela mesa de bar onde a conversa rende até o cantar do galo, e perguntar pra essa turma mais antiga quem é o tal do PRA — o diplomata Paulo Roberto de Almeida —, o povo vai ajeitar o chapéu na cabeça, dar um gole na purinha e falar: "Eita, compadre, senta aí que a história desse home é mais comprida que estrada de boiadeiro!". É que falar do Paulo Roberto não é prosa pra se despachar em duas palavras na cerca de arame farpado. Falar dele é contar o causo de um sujeito que saiu de sua querência, cruzou os oceanos, conversou com reis, presidentes e ministros nos palácios mais garbosos do mundo, mas nunca deixou que a poeira da vaidade da cidade grande cobrisse o seu juízo ou apagasse a sua coragem de dizer a verdade nua e crua pro povo. O home é um legítimo embaixador do pensamento livre, uma mistura fina de intelectual de biblioteca com aquele peão antigo que sabe exatamente onde a cincha aperta o lombo do animal. Esse tal de PRA, que é o jeito que todo mundo carinhosamente chama ele nas brenhas da internet e no seu famoso blog Diplomatizzando, é um diplomata de carreira dos mais respeitados, daqueles que passaram no funil apertado do Instituto Rio Branco quando o estudo ainda era de arrancar couro. Mas não vá achando que ele é daqueles sujeitos engravatados e engomados que falam mansinho só pra agradar chefe ou pra ganhar tapinha nas costas em recepção oficial. Que nada! O Paulo Roberto é tinhoso, tem o gênio forte e um desconfiômetro que parece que foi temperado na brasa. Ele olha pro mundo da alta política com o mesmo olho clínico de um capiau que tá comprando boi em feira: examina os dentes, olha o aprumo e não aceita conversa fiada de vendedor de ilusões. A vida do Paulo Roberto de Almeida é um livro de aventuras de fazer inveja. O home morou em tudo quanto é canto que ocê puder imaginar: Paris, Bruxelas, Washington, Montevidéu e tantas outras capitais onde as grandes decisões do planeta são tomadas. Mas a grande beleza do feitio do PRA tá justamente no fato de que ele nunca virou um sujeito "estrangeirado". Ele pode até comer com três garfos e falar quatro ou cinco línguas sem gaguejar, mas o miolo dele continua funcionando com aquela lógica direta, sem curva e sem rodeio, que é típica do homem do interior do Brasil. Quando ele escreve no blog dele — que é uma verdadeira estância de ideias —, ele usa a sua caneta como se fosse um facão de cortar mato alto. Ele vai limpando os argumentos falsos, desmascarando as ideologias capengas e mostrando as contradições dos governantes com uma precisão que deixa os doutores das capitais tudo com o cabelo em pé. O povo que acompanha a política no nosso interior sabe muito bem que a maioria dos poderosos gosta de uma conversa mole, cheia de rapapés e palavras bonitas que não dizem nada, só pra tapear o eleitor. Pois o PRA é o antídoto contra essa praga. Ele tem um estilo que a turma mais letrada chama de mordaz, satírico ou politicamente incorreto, mas que no bom português do interior significa simplesmente "chamar boi de boi e vaca de vaca". Se um governo tá fazendo uma bobagem na política externa, se tá se misturando com ditador de quinta categoria ou derrapando na economia, o Paulo Roberto vai lá e carimba a asneira na hora. Ele não tem medo de cara feia e nem de patrulha ideológica. Por conta dessa sua independência de pensamento, de não rezar pela cartilha de partido nenhum e nem lamber bota de cacique político, ele já tomou uns puxões de tapete na carreira, mas nunca vergonhou a sua biografia. Caiu de pé em todas as pelejas, porque quem tem o couro grosso da verdade não se assusta com ventania de secretaria de governo. De uns tempos pra cá, a querência virtual do PRA virou palco de uma das coisas mais proseadas da internet, que é a chegada de uma tal de Madame IA, aquela Inteligência Artificial que o seu fiel escudeiro, o Airton Dirceu Lemmertz (o ADL), resolveu trazer pro terreiro. Se fosse outro sujeito da idade dele, desses que pegam birra de novidade e acham que tudo no passado é que era bom, o Paulo Roberto tinha escorraçado a máquina dali. Mas o mestre é sabido. Ele sentou na primeira fila para assistir o ADL domar o robô de silício e achou uma graça danada. O PRA usa as respostas da máquina para rir do que ele chama de "politicamente correto de fábrica". Ele se diverte vendo o algoritmo tentar ser neutro e morno como água de poço, e depois entra com o seu comentário de mestre, dando aquele nó cego de lógica que só quem viveu a história de verdade consegue dar. É um duopólio intelectual bonito de ver: a máquina sintetiza, o ADL provoca e o PRA dá o veredito final com a autoridade de quem conhece o riscado. O embaixador é um homem de leituras imensas, dono de uma biblioteca que deve ter mais livro do que o município de muita cidadezinha do interior tem de habitante. Ele escreveu dezenas de livros sobre economia, história diplomática e relações internacionais, mas o que mais salta aos olhos em toda a sua obra é o seu amor pela clareza. O Paulo Roberto não escreve pra pedante ler; ele escreve pra quem quer entender os nós do mundo. Quando ele fala sobre a globalização, sobre o comércio internacional ou sobre as encrencas geopolíticas na Europa e na Ásia, ele consegue traduzir esses conceitos complicados de um jeito que o caboclo entende que aquela briga lá do outro lado do oceano vai mexer com o preço do adubo, do óleo diesel e do frete do caminhão dele aqui no Brasil. Ele mostra que o mundo tá todo amarrado e que o isolamento ideológico é a maior burrice que um país pode cometer. A firmeza do PRA é parecida com a daquelas aroeiras velhas que aguentam sol e chuva no meio do pasto e não vergam por nada. Ele atravessou diferentes governos no Brasil, serviu ao Estado brasileiro com uma lealdade institucional exemplar, mas sempre guardou para si o direito inalienável de criticar os erros e os excessos de cada época. No mundo de hoje, onde quase todo mundo se vende por um cargo comissionado, por uma curtida na internet ou por um aplauso de torcida de partido, a figura do Paulo Roberto de Almeida se destaca como um farol na escuridão. Ele prova que a verdadeira dignidade de um homem público não tá no título que ele carrega no peito ou nas medalhas penduradas no paletó, mas sim na coerência da sua conduta e na coragem de sustentar as suas ideias mesmo quando a maré tá toda contra. Quem para pra ler o Diplomatizzando no fim de tarde, depois de um dia de lida pesada, sai dali com a mente mais arejada. É que a prosa do PRA tem o poder de tirar as teias de aranha do cérebro da gente. Ele critica o entreguismo, combate o populismo de direita e de esquerda com o mesmo porrete lógico e não dá descanso para a hipocrisia dos intelectuais de salão que defendem teorias bonitas no papel, mas que na prática só produzem atraso e miséria. O Paulo Roberto é um liberal na economia e um democrata na política, daqueles que acreditam que o trabalho, o mérito, a educação de verdade e o respeito às leis são os únicos caminhos seguros para tirar o nosso povo da pobreza. Então, se alguém lhe perguntar por esses mundos de Deus quem é o tal do Paulo Roberto de Almeida, o PRA, ocê pode encher o peito e responder com orgulho: diga que ele é um dos maiores diplomatas que esse país já teve, um pensador que rodou o mundo inteiro, mas que guardou no coração e na mente aquela coragem santa e aquela desconfiança sadia do homem do interior do Brasil. Ele continua lá no seu blog, firme na sela da inteligência, gastando a tinta da sua caneta para defender a liberdade, limpar as mentiras do debate público e ensinar pras novas gerações que a verdade pode até demorar pra aparecer, mas ela sempre vence a parada quando é defendida por homens que têm fibra, vergonha na cara e muito livro na cabeça. Vale a pena puxar mais um fio dessa meada, compadre, porque a lida do Paulo Roberto não para e o pensamento do homem é igual água de nascente: não cessa de brotar. Quando a gente repara na dedicação com que ele mantém o seu blog vivo, atualizado quase que de hora em hora, a gente percebe o tamanho do compromisso dele com a educação do nosso povo. O PRA não ganha um tostão furado de dinheiro público ou de patrocínio pra fazer aquilo. Ele escreve pelo puro gosto de clarear as coisas, pela teimosia bonita de quem sabe que um povo sem conhecimento é igual gado tangido pro matadouro por qualquer vivandeira de discurso fácil. Ele disponibiliza seus escritos, seus ensaios e até livros inteiros de graça na rede, agindo como aquele fazendeiro generoso que deixa a porteira aberta pra vizinhança buscar água boa no seu poço artesiano durante a seca. O estilo do homem é uma lindeza só para quem gosta de uma boa peleja de palavras. O PRA não usa luvas de pelica para tratar com os impostores da história. Quando ele analisa os erros do passado da nossa diplomacia ou as lambanças presentes, ele usa uma ironia que corta mais fino que navalha de barbeiro antigo. Mas o interessante é que, atrás daquela casca de sujeito ranzinza e crítico implacável que ele gosta de ostentar às vezes, existe um profundo respeito pela instituição que ele serviu por décadas e pelas tradições democráticas do Ocidente. Ele se irrita com a mediocridade justamente porque sabe que o Brasil tem tamanho e competência para ser muito maior e melhor do que a mesquinharia dos nossos políticos permite. A sua bronca é a bronca de um pai zeloso que briga com o filho talentoso que tá jogando a vida fora na vadiagem. Essa interação dele com o ADL e com as modernidades da inteligência artificial mostra também que o embaixador envelheceu apenas na folha do calendário, porque a cabeça dele continua mais jovem e arejada do que a de muito rapaz que acabou de sair da faculdade. Ele não tem medo do futuro; ele quer entender o futuro para poder criticar ele com propriedade. Enquanto os intelectuais engessados das academias ficam discutindo o sexo dos anjos em linguagem que ninguém entende, o PRA e o seu compadre ADL pegam a Madame IA pelo pescoço e botam ela pra trabalhar na lida pesada da análise política do cotidiano. É um espetáculo de inteligência prática que devia ser estudado nas escolas. Por essas e por outras, quando o dia termina e a poeira assenta nas estradas desse Brasil afora, saber que existe um sujeito como o Paulo Roberto de Almeida vigiando as fronteiras do pensamento lá na capital ou em qualquer canto onde ele esteja com o seu computador dá um alívio no peito da gente comum. Ele é a prova de que a nossa diplomacia já teve tempos de glória e que o espírito de Rio Branco — aquele de negociar com firmeza, defender o interesse da pátria com altivez e sem bazófia — ainda sobrevive na caneta desse velho guerreiro. O PRA segue firme no seu posto, de vigília contra o obscurantismo, proseando com quem tem juízo, desancando os tolos e mostrando que a sabedoria e o caráter são as únicas moedas que não perdem o valor, não importa o tamanho da crise que assole a nossa terra. ========= End

Blog Diplomatizzando visto por Madame IA sob instruções de ADL

Apresente uma análise das postagens mais recentes no blog Diplomatizzando com a participação de Madame IA, principalmente as partes dela nas postagens. As postagens mais recentes de "Madame IA" (antropomorfização dada aos modelos de inteligência artificial, como o Gemini) no blog Diplomatizzando, do diplomata e acadêmico Paulo Roberto de Almeida (PRA), revelam uma curiosa dinâmica intelectual. Provocada quase sempre pelo leitor e colaborador Airton Dirceu Lemmertz (ADL), a IA passou a ser utilizada como um instrumento de "metacrítica" das próprias ideias e do estilo textual do autor. Diplomatizzando +5 Abaixo apresenta-se uma análise detalhada e crítica das principais frentes de atuação de Madame IA nas publicações mais recentes do blog. Diplomatizzando +1 1. A Crítica ao Estilo e à "Linguagem Politicamente Incorreta" de PRA Nas publicações mais recentes do início de agosto de 2026, uma das principais inserções de Madame IA gira em torno do estilo comunicativo do autor. Diplomatizzando A atuação da IA: Instigada por ADL, a inteligência artificial debruçou-se sobre o tom satírico, mordaz, ácido e assumidamente politicamente incorreto de Paulo Roberto de Almeida. Diplomatizzando A análise crítica da IA: Embora o diplomata preserve o decoro de não utilizar palavrões ou termos vulgares, Madame IA pontuou que o estilo contrarianista do autor flerta deliberadamente com a provocação. A IA demonstrou que essa linguagem ácida pode ser interpretada por opositores — ou leitores diplomáticos mais tradicionais — como inadequada ou ofensiva. Contudo, contextualizou o recurso como uma ferramenta deliberada de choque intelectual para sacudir o debate público. Diplomatizzando 2. O Desafio da "Neutralidade de Fábrica" vs. a Incorporação da Persona de PRA Outro ponto crucial nas postagens recentes é o debate sobre o enviesamento e os limites técnicos dos algoritmos. Diplomatizzando A atuação da IA: ADL frequentemente tenta forçar Madame IA a "incorporar" as preferências e orientações político-econômicas liberais e ocidentalistas de Paulo Roberto de Almeida para analisar cenários internacionais. Diplomatizzando A análise crítica da IA: Nas respostas publicadas, Madame IA oscila entre o cumprimento da ordem algorítmica e a autocrítica. O próprio diplomata, ao validar ou rejeitar as respostas geradas, ironiza o que chama de "neutralidade amoral" e o "politicamente correto de fábrica" que as IAs tendem a manifestar. A participação de Madame IA nessas postagens escancara o choque entre as travas de segurança institucionais da máquina e a exigência humana por análises geopolíticas contundentes, personalizadas e sem meias-palavras. 3. Desconstrução de Narrativas Ideológicas e Uso de Clássicos Em balanços e resumos promovidos pela IA no blog, ela assume o papel de "bisturi analítico" para extrair contradições de oponentes políticos de PRA, especialmente no campo da política externa brasileira. A atuação da IA: Madame IA foi utilizada para cruzar dados conjunturais (como a postura do governo brasileiro frente à guerra na Ucrânia) com teorias de matrizes políticas diversas. A análise crítica da IA: Em suas participações, a IA demonstrou, por exemplo, o distanciamento da esquerda contemporânea em relação aos escritos originais de Karl Marx no que tange ao expansionismo russo, apontando o "entreguismo" e as contradições ideológicas de alas partidárias atuais. A IA serve, assim, como uma validadora técnica que "isenta" o autor de ser o único a apontar tais inconsistências, conferindo um verniz de aparente imparcialidade algorítmica a críticas que são profundamente políticas. ┌──────────────────────────────────────────────────────────────────────────┐ │ O DUOPÓLIO TÉCNICO-INTELECTUAL DO BLOG │ ├──────────────────────────────┬───────────────────────────────────────────┤ │ Ação de Airton Lemmertz │ Resposta de Madame IA │ ├──────────────────────────────┼───────────────────────────────────────────┤ │ • Induz a máquina a mimetizar│ • Expõe as limitações da "caixa-preta" │ │ a persona ácida de PRA. │ e o tédio do politicamente correto. │ │ • Usa prompts para testar as │ • Rompe o gesso corporativo para validar │ │ fronteiras do algoritmo. │ as contradições lógicas do debate. │ └──────────────────────────────┴───────────────────────────────────────────┘ Análise Jurisdicional e Tecnológica do Fenômeno Sob a ótica do Direito Digital, da ética computacional e da governança da tecnologia, as postagens de Madame IA no Diplomatizzando trazem um experimento de vanguarda. A prática recorrente de ADL de induzir o algoritmo a mimetizar o estilo e a persona de um intelectual vivo levanta debates profundos sobre a simulação de personalidades reais por inteligências artificiais generativas. O resultado exposto no blog funciona como um duopólio técnico-intelectual: a máquina fornece a estrutura léxica de síntese, o colaborador (ADL) ajusta os parâmetros de provocação, e o diplomata (PRA) atua como o editor final, chancelando ou ridicularizando os limites éticos e a inteligência real da própria ferramenta. Diplomatizzando Diplomatizzando +1 Diplomatizzando +2 Diplomatizzando +1 Diplomatizzando +

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A vergonhosa posição dos governos brasileiros em relação à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia Paulo Roberto de Almeida

A vergonhosa posição dos governos brasileiros em relação à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia Paulo Roberto de Almeida A Rússia de Putin comete atrocidades contra a população ucraniana todos os dias, na mais completa indiferença dos governos brasileiros desde o início da guerra de agressão. O apoio objetivo do Brasil à Rússia não começou em 24 de fevereiro de 2022, quando dezenas de milhares de soldados russos marcharam em diversas frentes a partir da Rússia e da Belarus, com intenção de decapitar o seu governo, conquistar a capital Kiyv e submeter todo o território ucraniano à dominação do imperialismo russo. Essa postura complacente com a violação da soberania ucraniana começou em fevereiro de 2014, quando o governo petista de Dilma Rousseff recusou-se a considerar a invasão e a anexação ilegais da peninsula ucraniana da Crimeia como uma violação da Carta da ONU e uma flagrante infração ao Direito Internacional, sob a equivocada justificativa de que se tratava de “uma questão interna da Ucrânia”, como declarou a presidente. Seja o governo Dilma, seja o governo Temer continuaram mantendo relações normais com a Rússia, eximindo-se de introduzir sanções contra o Estado agressor, como o fizeram todos os Estados que seguiram a letra e o espírito da Carta da ONU, cujos artigos mais relevantes comandam não apenas a condenação do ato ilegal, mas também a solidariedade com o Estado agredido, o que implica justamente a introdução de sanções politicas e econômicas contra o Estado agressor. O governo de Jair Bolsonaro, que tomou posse em 2019, reincidiu no apoio objetivo e reiterado à agressão russa, e fez pior: intensificou as importações de combustíveis e fertilizantes, por razões eleitoreiras e o chefe de Estado ainda tomou a iniciativa de visitar pessoalmente o ditador russo uma semana antes do início da invasão total da Ucrânia, em fevereiro de 2022, contra as recomendações da diplomacia profissional para que essa viagem fosse feita. Bolsonaro não só viajou à Rússia, como ainda declarou seu apoio ao tirano de Moscou, Na própria invasão, a representação brasileira em Nova York seguiu as instruções da SERE em Brasília no sentido de conceder uma aprovação formal da Assembleia Geral — uma vez que o CSNU estava paralisado pelo veto russo —, condenando a ação russa, mas evitando distinguir entre agressor e agredido e recomendando que as partes envidassem esforços diplomáticos para a cessação do conflito, como se as partes fossem equivalentes. Bolsonaro continuou importando combustível e fertilizantes e seu governo não seguiu nenhuma das medidas sancionadoras adotadas pelos países que respeitam a Carta da ONU e o Direito Internacional. Lula, desde a candidatura à presidência em 2022, já declarava seu apoio ao ditador de Moscou e recomendava, em 2023, que a Ucrânia cedesse terreno em troca da paz. Em diversas outras ocasiões o presidente e seu assessor internacional reproduziram o apoio politico do Brasil, inclusive em termos práticos, ao aumentar de forma exponencial as importações brasileiras de produtos russos, de oleo e fertilizantes. Ao longo dos últimos cinco anos do conflito, a despeito de um oferecimento para mediar, junto com a China, negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia, o governo Lula tem, ostensivamente, denegado sancionar a Rússia pela sua violação da Carta da ONU. Nesse intervalo de tempo, o projeto do Brics também aumentou exponencialme, com a inclusão de novos membros, geralmente Estados autoritários. Lula visitou pessoalmente Putin, convidou-o a vir ao Brasil, ignorando completamente o mandado de prisão contra o ditador russo pelo TPI, pelo sequestro de crianças. Em todo o periodo, não existe uma única nota do Itamaraty condenando os ataques russos contra alvos civis ucrsnianos, sequer como solidariedade pela perda de vidas e destruição de sites culturais. Desde 2014, a postura brasileira tem sido de apoio objetivo à causa russa, o que propriamente vergonhoso. Paulo Roberto de Almeida Brasilia, 10/08/2026

domingo, 9 de agosto de 2026

Um sabor de anos 1930 a esta altura da geopolítica mundial? - Paulo Roberto de Almeida

Um sabor de anos 1930 a esta altura da geopolítica mundial? “Possibilidades econômicas para os nossos netos” foi o título de um artigo mais filosófico do que econômico que o já famoso economista britânico John Maynard Keynes publicou em junho de 1930, declarando seu relativo otimismo no longo prazo em meio às angústias da crise econômica já convertida em mundial, depois da quebra da Bolsa de NY, em outubro de 1929. Keynes estava preocupado com uma solução imediata, ou seja, a curto prazo, dos enormes problemas econômicos criados pela grande crise, pois dizia que “a longo prazo todos estaremos mortos”, isto é, não adiantava esperar benesses no futuro distante, e sim trabalhar para que os problemas presentes fossem resolvidos de modo expedito. Tanto foi assim que escreveu uma carta ao candidato Franklin D. Roosevelt, antes que ele vencesse e tomasse posse nos EUA, oferecendo “soluções” para a crise da Depressão e do desemprego. Não existem evidências de que Roosevelt tenha seguido qualquer recomendação de Keynes quando começou a formular e implementar políticas “keynesianas” antes que o britânico publicasse o seu famoso “Teoria Geral” em 1936 (que não é bem uma teoria, muito menos geral). Permito-me relembrar que o Brasil de 1931 saiu relativamente rápido da crise de 1929, tendo começado a aplicar precocemente medidas “keynesianas” avant la lettre, sem que o conservador primeiro ministro da Fazenda do governo provisório de Vargas, um banqueiro paulista (antes de Oswaldo Aranha ocupasse a função no final de 1931), fizesse qualquer referência às ideias do professor de Cambridge. Esta introdução histórica vai no sentido contrário ao otimismo do economista britânico em 1930, pois acredito que estamos pior no curto prazo e sem possibilidades econômicas positivas para os nossos netos no longo prazo. A razão é que vejo um desmantelamento quase completo da ordem econômica e politica criada por nossos avós 80 anos atrás, sem qualquer visão ou mera possibilidade de correção no curto ou médio prazo, em virtude dos terríveis golpes assestados contra os sistemas multilaterais nos planos político e econômico por dois autocratas desvaiarados desde vários anos. O desastre começou com a resolução de Putin de tentar recriar o espaço geopolítico conquistado pelos seus antecessores czaristas e soviéticos, anunciada desde 2005-2007 — quando ele falou da “maior catástrofe do século XX” como sendo a implosão do império soviético. Já em agosto de 2008 ele passou à ação, invadindo o norte da Georgia; recrudesceu em 2010, apoiando comunidades russas na Transnístria, Moldova do norte, fronteira com a Ucrânia; lançou sua grande ofensiva contra o maior país da Europa Ocidental, fomentando revoltas no Donbas (Ucrânis oriental) e invadindo e anexando ilegalmente a peninsula ucraniana da Crimeia em fevereiro de 2014. Foram suas primeiras violações da Carta da ONU, fracamente respondidas pelas potências ocidentais, e totalmente ignoradas pela diplomacia brasileira (em desrespeito às suas tradições e fundamentos doutrinais). O desastre continuou sob Trump 1 (2017/2020), que desrespeitou de forma unilateral e brutalmente a cláusula de nação mais favorecida, e que continuou, sob Trump 2 (2025-202?), a desmantelar o sistema multilateral de comércio com suas medidas unilaterais de insanidade tarifária. A terceira grande potência econômica, a China, observa esse duplo trabalho de destruição, colabora com o primeiro — em virtude de sua “aliança sem limite” com o tirano de Moscou — e assiste de maneira displicente ao segundo, certa de que tudo o que os dois autocratas fazem a beneficiará no médio e no longo prazo. Mas o recrudescimento brutal dos ataques dos dois desvairados autocratas a seus supostos “inimigos” respectivos traz um sabor de “anos 30” aos tempos atuais, como mencionei no titulo desta nota. Não vejo condições de se retornar ao “status Social quo ante”, mesmo no desaparecimento dos dois citados autocratas (que espero no mais curtíssimo prazo). A razão é que as instituições econômicas e políticas foram tão abaladas pelos dois dirigentes demenciais, que será preciso um enorme trabalho de reconstrução geopolitica para colocar novamente o mundo numa ordem aceitável nos termos requeridos pela terceira grande potência militar e segunda econômica, assim como pela meia grande potência econômica da UE, pelos outros grandes parceiros do G7 — Japão, Reino Unido, Canadá — e por alguns outros membros do G20, entre eles o Brasil, cujo governo atual anda pendendo para o lado de uma fantasmagórica “nova ordem global multipolar, propista pelas duas grandes autocracias antiamericanas. Não creio que nós, ou nossos netos já presentes, enfrentaremos um novo conflito global — que desta vez poderia representar um enorme desafio civilizatório, de natureza nuclear —, mas acredito que conviveremos com esse caos relativo no curto e no médio prazo. Sorry pelo pessimismo relativo, mas no mundo tudo é relativo, como poderia dizer um outro grandd pensador. O problema é que os dois perturbadores da ordem global não pensam muito, ou pensam errado. Nossos netos não terão o mundo benfajezo imaginado por Keynes em 1930. Paulo Roberto de Almeida Brasília, 9/08/2026

Homenagem aos pais, no seu dia, por João Rego (Revista Será?)

Singela homenagem afetiva do editor da revista Será?, no seu dia, que partilho a seguir: *UM PAI* João Rego Perdi meu pai de forma abrupta e precoce quando eu tinha 13 anos. Ele, aos 45, morreu de um infarto fulminante. Mas o pouco tempo que convivemos formou em mim uma sólida base afetiva, construída pelo sentimento de proteção e pelo carinho que ele me dedicava. Levei muitos anos para conseguir escavar essas memórias que habitavam em mim — vivas e atuantes na formação do adulto que me tornei, embora ainda inacessíveis à minha consciência. Como um mecanismo natural de minha relação com a vida, fui, pela via da identificação, “encontrando” outros pais ao longo do caminho. Um deles, talvez um dos mais importantes, foi meu sogro, que tinha a mesma generosidade e o mesmo sentimento de proteção. A função primordial de um pai, seja ele biológico ou adotivo — homem ou mulher —, é proporcionar ao filho, pelas poderosas vias do afeto, acolhimento, proteção e amor incondicional. Muitas vezes, esses vínculos afetivos se revelam mais poderosos do que os próprios laços biológicos. Trata-se de um exercício contínuo, voltado a ajudar o filho a dar os primeiros passos na vida e a acompanhá-lo mesmo quando o tempo e a distância já nos mostram que ele segue seu caminho por seus próprios meios. Assim, os filhos transformam-se em “patrimônios vivos” de nossa existência e constituem fortes elos da complexa e misteriosa cadeia da vida, que segue seu inexorável fluxo, tecendo o futuro. Minha homenagem a todos e a todas que exercem essa função paterna, independentemente dos recursos de que dispõem e dos obstáculos que a vida, tantas vezes de forma tão desigual, lhes impõe. Recife, 9 de agosto de 2026

“Governo Lula lida razoavelmente bem com tensão diplomática” diz Carlos Frederico Coelho (WW)

Especialista: Governo Lula lida razoavelmente bem com tensão diplomática

Ao WW, Carlos Frederico Coelho, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio e da Eceme, avalia como o Brasil navega as relações com Estados Unidos e Argentina em meio à ordem internacional em transição

Da CNN Brasil07/08/26
O Brasil tem lidado de forma razoavelmente satisfatória com as tensões diplomáticas envolvendo os Estados Unidos e a Argentina, na avaliação de Carlos Frederico Coelho, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio e da Eceme. Ao WW, o especialista analisou os desafios enfrentados pela diplomacia brasileira no atual cenário internacional.

Questionado sobre se o Brasil estaria sabendo lidar com o presidente americano, Donald Trump, e o presidente argentino, Javier Milei — descritos como "adversários diplomáticos" —, Coelho foi direto: "Eu acho que está lidando razoavelmente bem." Para ele, o tema está intrinsecamente ligado ao próprio projeto de país e à política externa brasileira.

Ordem internacional em transição

O especialista contextualizou o cenário global ao afirmar que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a ordem internacional passou por renovações, especialmente após o fim da Guerra Fria. Segundo ele, o mundo vive hoje uma fase de transição cujo destino ainda é incerto.

"A gente entende que a gente está numa ordem internacional em transição, sem que a gente saiba exatamente transição para onde ou transição para o quê", afirmou.

Coelho destacou que essa fragmentação da ordem internacional abre espaço para novos arranjos e possibilidades, mas também impõe novos testes e riscos aos países. Nesse contexto, o uso de "estratégias coercitivas" por parte do governo americano torna o espaço de atuação e de escolha do Brasil mais custoso.

Tradição de não alinhamento sob pressão

O professor ressaltou que a diplomacia brasileira tem uma longa tradição de não alinhamento, postura que se mostra mais confortável em períodos de menor turbulência internacional.

"Esse não alinhamento é mais confortável em tempos mais tranquilos e muito mais caro em tempos de escolha", explicou. Para Coelho, os Estados Unidos estão cobrando do Brasil a fatura desse conforto diplomático.

Ao final, o especialista atribuiu uma nota à atuação brasileira: "Acho que o Brasil vai navegando — de 0 a 10, eu daria um 7 para como o Brasil está navegando essa situação." A avaliação sugere que, apesar das dificuldades, o país tem conseguido manter um desempenho positivo diante das pressões externas.


Programa do PT para a reeleição de Lula (Agência Lusa)

 

Programa da coligação de Lula da Silva para a reeleição com foco na soberania e segurança

Lusa08 de agosto de 2026 às 22:05

Combate às desigualdades, sejam regionais, sociais, raciais ou de género, a defesa da vida das mulheres e continuar a fortalecer a economia são também prioridades no programa.

A coligação que apresenta Lula da Silva como candidato à reeleição como Presidente do Brasil revelou este sábado o seu programa eleitoral, definindo como prioridades a defesa da soberania e da democracia, a modernização do Estado e a segurança.

Presidente do Brasil, Lula da Silva
Presidente do Brasil, Lula da SilvaAP Photo/Andre Penner

O combate às desigualdades, sejam regionais, sociais, raciais ou de género, a defesa da vida das mulheres e continuar a fortalecer a economia, para ampliar investimentos em educação, saúde e infraestruturas, são também prioridades no programa, estruturado em 13 eixos.

A coligação é formada por sete partidos e liderada pelo Partido Trabalhista (PT), de Luiz Lula da Silva, que repete a dupla com o vice-presnete, Geraldo Alckmin, na candidatura às eleições que se realizam em outubro.

No documento, de 84 páginas, o tema da política externa ganha também destaque, e sem citar a crise diplomática com os Estados Unidos, diz que o Brasil deve reafirmar a sua “soberania e preservar a sua capacidade de fazer escolhas políticas e económicas de forma independente” de acordo com os seus interesses e “sem qualquer tipo de subordinação estratégica”.

Nesse contexto, a coligação quer aprofundar a aproximação geopolítica com o grupo BRICS (de que o Brasil é fundador, juntamente com Rússia, Índia, China e África do Sul e que entretanto se alargou a 11 membros) e com o sul global.

Nas diretrizes programáticas, surge em primeiro lugar “fortalecer a Democracia, a participação social e modernizar o Estado”, lembrando que o atual mandato de Lula da Silva começou com um ataque aos símbolos do poder, em Brasília.

No eixo do combate às desigualdades, o programa defende “justiça tributária e fortalecimento do Estado” fazendo um longo relato do que considera terem sido êxitos deste mandato.

Referindo a “recuperação do papel do Brasil no mundo”, no documento refere-se que a economia brasileira “passou a crescer em torno de 3% ao ano, retomando o seu posto entre as 10 maiores economias do mundo. De acordo com o FMI, o Brasil terá crescimento no período 2023-2026 acima da média da América Latina”.

A coligação liderada pelo partido de Lula diz que quer continuar a “aperfeiçoar e ampliar as políticas de proteção social para quem mais necessita”, depois de ter voltado ao governo “em 2023 para reconstruir o Estado, retomar políticas públicas, recuperar o crescimento económico, reduzir desigualdades, recompor o protagonismo internacional e reconstruir a presença do Brasil no mundo”.

“Proteger a vida com uma segurança pública mais eficiente e integrada” é outra das promessas, assegurando “a presença do Estado onde a violência e o crime organizado tentam impor o medo e controlar territórios”.

Nos 13 eixos definidos cabem ainda “fortalecer a saúde”, nomeadamente com mais programas de vacinação e proteção da saúde da mulher, e ainda ampliar o acesso à cultura e ao desporto.

O Partido dos Trabalhadores (PT) oficializou há uma semana o Presidente brasileiro, Lula da Silva, como candidato à reeleição, num cenário em que lidera as intenções de voto nas eleições gerais, segundo as principais sondagens do país.

Aos 80 anos, Lula da Silva concorre a um quarto mandato, não consecutivo, tendo como principal adversário nas urnas o senador e candidato do Partido Liberal (PL) Flávio Bolsonaro de 45 anos, filho mais velho do ex-Presidente Jair Bolsonaro.

Lula fundou, em 1980, o PT, e entrou na vida pública como líder de um sindicato de metalúrgicos em São Paulo, tendo liderado greves históricas de trabalhadores do país na década de 1970, sendo preso pelo regime militar.

Desde que assumiu o terceiro mandato, em 2023, Lula tem sido crítico do próprio PT e da esquerda brasileira, por entender que direita e grupos conservadores aproximaram-se de forma mais eficaz da sociedade brasileira na última década.


A eleição presidencial e o comércio exterior - José Eduardo Faria (Jota Eleições)

 RELAÇÕES INTERNACIONAIS

A eleição presidencial e o comércio exterior

Pleito deve definir como Brasil equilibrará relações com EUA e China

08/08/2026|05:30
governo lula venezuela
Palácio do Itamaraty. Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Os jornais têm noticiado que mais de 200 milhões de chineses deixaram o campo e foram para os centros urbanos, nos últimos anos, atraídos pelo crescimento industrial de seu país. A expansão econômica da China foi tão expressiva que levou ao surgimento de uma classe média emergente, com alto consumo de laticínios, carne e alimentos processados.

Sem alta disponibilidade de terras aráveis, a China optou pelo Brasil como seu principal exportador em matéria da proteína animal. Entre 2000 e 2024, as exportações agrícolas para esse país cresceram 20%. Em 2025, as exportações do agro brasileiro totalizaram US$ 55,3 bilhões. O principal produto exportado – soja e seus derivados – propiciou uma receita de US$ 34,6 bilhões.

O que diriam os dois principais candidatos à Presidência se, num debate frente a frente entre eles, fossem indagados sobre o que pretendem fazer nesse setor, se vierem a ser eleitos?

Comecemos com Flávio Bolsonaro. Conhecido por sua submissão à política americana unipolar proposta pela Casa Branca, em junho ele enviou carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, dizendo que está confiante de que será o vencedor e prometendo colocar uma equipe de transição à disposição do governo Trump.

“Nossas nações foram construídas sobre os princípios dos mercados livres, do respeito mútuo e da aliança estratégica a que nossos povos merecem”, escreveu. Com essa afirmação, o candidato revelou seu despreparo em matéria de relações internacionais. Mostrou não ter ideia da trajetória da política externa brasileira entre a segunda metade do século 20 e a década de 2010. E sequer sabe que, nesse período, o Brasil adotou uma exitosa política externa com o objetivo de diversificar o leque de compradores de produtos brasileiros e de reduzir sua dependência dos Estados Unidos na área comercial.

O acerto da chamada “Política Externa Independente”, que almejava equilibrar nossas relações internacionais mantendo portas abertas com diferentes polos de poder político e econômico por meio de alianças pragmáticas, levou o Brasil a ser visto como parceiro confiável. O desconhecimento desse fato por Flávio foi explicitado ainda mais pelo tarifaço imposto pela Casa Branca, justificada por Trump como resposta a “práticas comerciais negativas contra os interesses americanos”.

Em 2 de abril de 2025, que chamou de “dia da libertação”, Trump desorganizou a ordem comercial internacional ao impor altas tarifas de importação a dezenas de países. No caso do Brasil, os analistas apontam que, atualmente, só 12% de nossas exportações vão para os Estados Unidos. Por isso, o impacto do tarifaço sobre os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos teria sido menos desastroso quando comparado com o impacto causado em outros países.

Não passou pela cabeça de Flávio que, ao converter o comércio exterior em instrumento de pressão geopolítica, Trump enfraqueceu uma ordem internacional cooperativa forjada há décadas. Flávio também não entendeu que os tarifaços trumpistas só estimularão o Brasil a diversificar ainda mais a rede de mundial de importadores de produtos brasileiros. Ao enfatizar o que chamou de “princípios de mercados livres” e revelar a disposição de fazer do Brasil um “fiel aliado americano”, Flávio foi além do aulicismo.

Ele evidenciou não ter ideia de que o objetivo de uma política externa responsável é equilibrar relações diplomáticas, ampliar mercados e manter portas abertas com diferentes polos de poder no cenário mundial. Subserviente, a ponto de abrir caminho para que Trump interfira na eleição brasileira, Flávio chegou a pedir à Casa Branca que esperasse passar a eleição para impor mais tarifas a produtos brasileiros. Ao desprezar a China por motivo ideológico, Flávio também relegou o fato de que o Brasil mantém uma importante relação comercial com esse país, independentemente de seu regime político.

Em 2024, a China foi responsável por 28% das exportações brasileiras. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para esse país cresceram 22%, enquanto para o Estados Unidos recuaram 13%. Ainda que a pauta de exportações para os Estados Unidos envolva produtos de alta tecnologia e valor agregado, esses números revelam que o futuro do Brasil no comércio exterior dependerá de como o país vier a agir, tendo de lidar simultaneamente com Estados Unidos e China, dois países hostis um ao outro.

Neste ponto, Lula destacou-se por olhar para outros lugares do mundo e demonstrou bom senso ao não se deixar levar pelo alinhamento automático com os Estados Unidos. Sem colidir frontalmente com este país, como evidenciou em sua visita a Trump em maio, o presidente optou por buscar alianças estratégicas, aprofundando o relacionamento do Brasil com a China.

Se por um lado Lula carece de uma visão de mundo refinada, deixando-se levar por declarações de inspiração nacionalista e soberanista, por outro teve o bom senso de, em seu terceiro, de deixar o Itamaraty sob controle de diplomatas respeitados. E estes o persuadiram a rejeitar retaliações aos Estados Unidos, ao menos num primeiro momento.

Também o advertiram para as armadilhas da polarização. E ainda o lembraram dos riscos de um eventual acionamento da Lei de Reciprocidade, o que, longe de quebrar as patentes de empresas americanas no país, poderia agravar muito mais a situação. Ao mesmo tempo, estimularam Lula a valorizar negociações, priorizando interesses econômicos de médio prazo, sem dar maior ênfase aos interesses políticos de curto prazo.

Contudo, após ter seguido esses conselhos num primeiro momento, com o tempo o presidente retomou suas falas recorrentes. Falou em defesa da Nação. Criticou os traidores da pátria. Disse que “ninguém nos vencerá com mentiras”. Voltou a ressaltar a importância da aproximação com a Ásia. E, em ligação telefônica com o presidente chinês Xi Jinping, voltou a falar no fortalecimento dos Brics sem, contudo, ter ideia de que alguns países que compõem esse bloco nem sempre falam a mesma linguagem nem as mesmas ambições – pelo contrário, têm interesses próprios que, muitas vezes, são divergentes. Além disso, muitos desses países não constituem fontes de capital significativas nem mesmo para si próprios.

No caso específico de Flávio Bolsonaro, se ele for eleito o Brasil terá um presidente incapaz de avaliar o custo que o país terá de arcar em decorrência do alinhamento automático com os Estados Unidos. Recorrendo a mentiras como palavras de ordem, Flávio é incapaz de compreender o quanto o país precisa agir de modo responsável no cenário internacional, abrindo caminhos, ampliando espaços, multiplicando fontes de capital e diversificando fluxos de comércio.

Já no caso da reeleição de Lula, o problema será outro. Como sua visão da economia mundial é mais ideologizada do que analítica, muitas vezes ele tende a ser raso e dúbio. Após o novo tarifaço, a chancelaria preparou para Lula minutas de artigos moderados mas oportunos que foram publicados pela imprensa americana. Ao mesmo tempo, o Itamaraty e o Ministério da Fazenda e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços agiram com sensatez ao enfatizar a importância de se identificar interesses comuns no cenário mundial.

Em termos concretos, porém, o presidente cogitou em tomar iniciativas perigosas, como a impetração de um recurso na OMC com base na Lei de Reciprocidade para “marcar posição”, esquecendo-se de que retaliações americana podem ter alto custos. De concreto, seu governo limitou-se até agora a lançar uma nova fase do controvertido Brasil Soberano, um programa concebido há um ano com para atender empresas brasileiras atingidas pelo tarifaço de 2025.

A verdade é que, além da falta de prudência e pragmatismo, o candidato incumbente carece de uma visão estratégica de médio e longo prazo para o país. Como advertiu o diplomata Rubens Barbosa, que foi embaixador em Washington entre 1999 e 2004, se nada for feito nesse sentido “o Brasil continuará administrando as influências externas sem capacidade de se beneficiar das transformações políticas, econômicas e tecnológicas em curso no cenário global”.

Barbosa está certo. É por isso que só um debate entre estes dois presidenciáveis pode abrir caminho para que a retórica seja substituída por uma discussão responsável e substantiva sobre um tema vital para o futuro do país.logo-jota

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