sexta-feira, 6 de março de 2026

José Márcio Camargo: "Tática de terra arrasada do Irã ameaça juro e inflação" - Anaïs Fernandes (Valor Econômico)

 Tática de terra arrasada do Irã ameaça juro e inflação

Efeitos da guerra chegariam ao Brasil já afetado por problemas fiscais, afirma economista
Anaïs Fernandes
Valor Econômico, 6/03/2026

O maior risco para uma disparada no preço internacional do petróleo, o que pode gerar pressão inflacionária no Brasil e no mundo e levar bancos centrais aqui e lá fora a reverem políticas de afrouxamento monetário, é se o Irã decidir adotar tática de terra arrasada, destruindo a sua infraestrutura de petróleo e a do Oriente Médio de forma mais ampla e paralisando o estreito de Ormuz. Essa é a avaliação de José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos e professor da PUC-Rio.
Pelo estreito de Ormuz passa não só volume expressivo do petróleo mundial, mas também fertilizantes, dos quais o Brasil, enquanto potência agrícola, é bastante dependente, observa Camargo. Assim, além dos potenciais efeitos inflacionários com o choque no petróleo e a desvalorização cambial entre países emergentes, por causa da aversão global a risco, o Brasil pode sentir também alta nos preços dos alimentos. Antes dos conflitos no Irã e seu entorno, a Genial esperava que o Banco Central do Brasil iniciasse o ciclo de cortes da Selic com redução de 0,5 ponto percentual (p.p.) na reunião deste mês. Agora, diz Camargo, é possível que o BC comece mais devagar, com 0,25 p.p. Se a guerra continuar e tiver efeitos efetivos no mercado internacional, muito provavelmente o BC vai ter de manter o contracionismo um pouco, afirma. Outro problema é que a guerra chega em um ambiente em que o mundo tem sido mais leniente com desajustes fiscais como o observado no Brasil. Mas, nessa trajetória, em algum momento, dependendo da situação da economia mundial, pode ter uma instabilidade que gere um problema como aconteceu no fim de 2024, alerta Camargo. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

Valor: Como economista, o sr. já viu diversas guerras, inclusive outras no Oriente Médio. Como tem acompanhado o atual?
José Márcio Camargo: Não é uma surpresa, existia uma série de indicações de que poderíamos estar chegando muito perto de uma guerra. Os Estados Unidos deslocaram para o Oriente Médio três navios grandes e quantidade enorme de aviões. Outra coisa importante é o fato de que, efetivamente, existia um risco de o Irã conseguir produzir bomba atômica. Existia uma preocupação também de que o Irã poderia construir mísseis balísticos que pudessem, inclusive, atingir os EUA. Aparentemente, teve um período de negociações que não funcionou, e parece que o presidente [americano Donald] Trump tinha a sensação de que, se ele não atacasse, o Irã, em algum momento, poderia começar a atacar. Os ataques de sábado e domingo passados foram muito fortes, mataram o líder supremo Ali Khamenei, destruíram parte significativa do aparato militar do Irã. Nesse momento, o Irã está no processo de escolha de um novo líder. No domingo, o substituto disse que demoraria um ou dois dias, mas, obviamente, não está acontecendo. Tem quase uma semana e eles não conseguiram escolher, o que é sinal de que eles estão, de alguma forma, negociando e existe algum tipo de problema no processo.

Valor: Quais as consequências?
Camargo: Aumenta o perigo de ter um Exército totalmente acéfalo e que pode começar a tomar decisões como destruir a infraestrutura de petróleo no Oriente Médio e atacar países vizinhos - como já começou a fazer, na verdade. Na minha avaliação, o maior risco é esse, de o Irã adotar um tipo de estratégia de terra arrasada, como a Rússia fez nas invasões napoleônicas e na Segunda Guerra Mundial.

Valor: E os riscos econômicos?
Camargo: É se a guerra continuar por longo período. O que é um problema, porque ninguém sabe o que significa longo período de tempo.

Valor: No caso recente da Venezuela, os EUA fizeram uma ação cirúrgica e pontual.
Camargo: Foi completamente diferente, porque tiraram o [Nicolás] Maduro, mas mantiveram o regime. Os EUA controlam a Venezuela de longe, porque eles estão dispostos a aceitar o fato de que Trump vai controlar o funcionamento da Venezuela. No Irã, não é assim. O Irã tem um regime teocrático antigo, no poder desde 1979. Tem institucionalidade já construída, você não consegue controlar isso a distância. Vai ter de, de alguma forma, entrar no país para redefinir as instituições. Isso é um problema. Trump, pelo que parece, está tentando destruir o máximo que pode, de tal forma que, mesmo que as instituições estejam lá, elas não tenham armas para lutar.

Valor: O que significa economicamente a persistência do conflito?
Camargo: Significa, por exemplo, parar o estreito de Ormuz, por onde passa entre 25% e 30% do petróleo mundial. E não só petróleo, também fertilizantes. É uma rota superimportante para o mundo. Se o estreito ficar fechado por três, quatro meses, provavelmente, o preço do petróleo vai ultrapassar US$ 100 o barril, o que vai gerar efeito inflacionário importante.

Valor: Como os bancos centrais podem reagir a isso?
Camargo: Estamos em um período em que os bancos centrais estão com política de afrouxamento monetário. Ainda que, no primeiro momento, nenhum banco central reverta a sua política, se realmente tiver uma tendência a aumento da inflação devido ao preço do petróleo, os bancos centrais, eventualmente, vão ter de voltar a aumentar juros. Tem o choque inicial do petróleo e eles não vão aumentar juros por causa disso. Mas há as consequências do choque para a economia. À medida que a inflação começa a extrapolar para outros setores - as condições secundárias nesse processo -, os bancos centrais vão ter de voltar a ter uma política monetária mais contracionista. Isso vai depender muito de quanto tempo vai durar essa guerra.

Valor: E quanto ela pode durar?
Camargo: É difícil avaliar o que significa quanto tempo. Três meses é muito? Quatro meses é muito? Dois meses é muito? Na verdade, ninguém sabe. É muito quando começar a afetar a oferta de petróleo efetivamente no mundo. Pode demorar quatro meses, pode demorar um ano, pode demorar só um, dois meses e passar rápido. Depende da capacidade do Exército iraniano de destruir a infraestrutura de petróleo do Oriente Médio. Se fizerem isso como estratégia, vai ser bastante complicado.

Valor: Especificamente para o Brasil, como esses eventos chegam ao nosso BC?
Camargo: O Banco Central brasileiro tem sido bastante contracionista. A taxa de juros chegou a 15% no momento em que a inflação estava próxima de 10%; nós já estamos com inflação de 4%, e a taxa de juros continua em 15%. Ou seja, tem algum espaço para reduzir a Selic. Antes da guerra, nosso cenário era o BC iniciar o processo com uma queda de 0,5 p.p. e continuar. A ideia era que o processo seria acelerando para 0,75 p.p., depois voltaria para 0,5 p.p. e para 0,25 p.p., fechando o ano com 12% de taxa de juros. Se a guerra continuar e tiver efeitos efetivos no mercado internacional, muito provavelmente o BC vai ter de manter o contracionismo um pouco. Ainda assim, acho que o BC vai ter espaço para iniciar o processo de queda. Muito provavelmente - se eu estivesse lá, pelo menos, eu faria - com mais cautela. Vale mais a pena começar com 0,25 p.p. e continuar caso a guerra acabe ou não esteja gerando tantos problemas no mercado internacional. Aí, aumentar [o corte] para 0,5 p.p. é possível. A reação inicial dos mercados [à guerra] foi muito negativa. Tem uma mudança de fluxo em direção aos EUA, em busca de segurança, saindo dos países emergentes, e isso gerou desvalorização cambial importante nas economias emergentes, derrubou ações. Depois, foi um pouquinho melhor. Grande parte do que está acontecendo é volatilidade. Se acalmar ao longo do tempo, pode seguir reduzindo a Selic. Se começar a ficar claro que a Guarda
Revolucionária Islâmica está destruindo a infraestrutura de produção e transporte de petróleo, muito provavelmente, o preço do petróleo vai disparar e gerar uma pressão inflacionária complicada que vai forçar o BC a ser mais cauteloso.

Valor: Outro ator importante para o Brasil nessa história é a Petrobras. Como acha que ela vai reagir?
Camargo: Tem um lado positivo para a empresa, que é o preço do produto da Petrobras aumentando fortemente sem que tenha aumento de custo. Mas, à medida que o preço do petróleo sobe e a Petrobras não aumenta o preço da gasolina, do diesel etc. aqui dentro, começa a trazer problema. Porque o preço do petróleo é mais elevado, mas o preço de venda está parado. Já tem defasagem do diesel ao redor de 16%, e da gasolina, de 14%. Além disso, tem problema complicado com fertilizantes.

Valor: Por quê?
Camargo: Aquela região do Oriente Médio é grande produtora de fertilizantes. E o Brasil é um grande consumidor de fertilizantes. Se esse processo demorar, o Brasil vai começar a ter problemas com fertilizantes e isso vai afetar a produtividade da agricultura.

Valor: Isso pode gerar aumento de preços dos alimentos?
Camargo: Pode ser repassado. Não agora, mas se ficar claro que esse processo vai durar dois, três, quatro meses. Isso aconteceu no início da guerra Rússia-Ucrânia, porque a Rússia também é grande exportador de fertilizantes. Esse é um ponto muito importante.

Valor: O alívio nos preços dos alimentos ajudou muito a desaceleração da inflação no ano passado, né?

Camargo: A inflação do ano passado dependeu basicamente de três coisas: valorização cambial.

Valor: Que estamos perdendo com a guerra.
Camargo: Sim, por enquanto, estamos perdendo. Segundo, safra muito forte, que não vai ser tão boa esse ano; e terceiro, deflação na China, que faz com que a gente importe deflação. Tem um quarto fator menos importante, mas também importante, que é a política monetária extremamente contracionista. Essa combinação foi muito positiva para a economia brasileira. Aliás, todos os países emergentes tiveram valorização cambial e redução das expectativas de inflação ao longo de 2025. O Brasil, na verdade, foi o que menos se apropriou dessa melhora. Teve desinflação, mas não foi tanto quanto poderia ter sido se a política fiscal não fosse tão expansionista.

Valor: Se a alta no preço do petróleo atrapalha a inflação no Brasil, fala-se, por outro lado, que ela pode ajudar no fiscal. No fim, qual é o resultado líquido?
Camargo: Eu acho que mais atrapalha. O aumento do preço do petróleo é bom, por exemplo, para a balança comercial, mas isso é uma coisa importante quando o país está com problema de demanda por dólares. Não é o caso do Brasil, pelo contrário. O Brasil tem superávit importante na balança. Não vai ter uma crise cambial por causa disso. Ficamos muito próximos de uma no fim de 2024 por causa do fiscal. Só não chegamos lá porque a reação do BC foi extremamente importante: aumentou a taxa de juros, prometeu mais altas nas reuniões seguintes, ou seja, conseguiu segurar. Ainda assim, o BC vendeu US$ 30 bilhões no mercado para segurar a desvalorização cambial, quase 10% das reservas. Se continuasse naquela trajetória, teria efeito muito negativo para a economia.

Valor: Além da guerra, quais outros riscos o sr. vê para a economia brasileira neste ano?
Camargo: Estamos em ano eleitoral e isso sempre gera instabilidade. O governo tem sido expansionista do ponto de vista fiscal. Isso compensa, em parte, o contracionismo da política monetária. Existe uma avaliação comum no mercado - que não é a nossa - de que, se, ao longo de 2026, o [pré-candidato] Flávio Bolsonaro começar a mostrar que pode ganhar a eleição, a reação do PT vai ser tornar a política fiscal ainda mais expansionista. E isso poderá forçar o BC a manter a política monetária extremamente contracionista, porque pode gerar pressão inflacionária. Pode gerar também fuga de recursos e desvalorização cambial, em um momento em que tem agora a questão da guerra, que complica a situação.

Valor: Com o que a avaliação de vocês diverge da do mercado?
Camargo: Nossa avaliação é que vai ser uma eleição muito difícil para os dois lados. Não vai estar nada claro o que vai acontecer. A pergunta é como o governo vai reagir. A minha avaliação, particularmente, é que, dada a dúvida em relação a quem vai ganhar, acho que o governo vai ter um pouco mais de cuidado. Ainda que se torne um pouco mais expansionista, acho que não vai ser o suficiente para criar um problema fiscal grave.

Valor: Até porque, como no fim de 2024, o mercado reage...
Camargo: Exatamente. Mas o que temos de um pouco diferente do consenso é que muitos dizem que, mesmo o Lula ganhando, ele vai fazer ajuste fiscal. Nós achamos que não. Nossa avaliação é que, se o Lula ganhar, ele vai continuar com um governo de expansão de gastos. As pessoas [do mercado] têm medo, porque o governo está aumentando a dívida em 3 p.p. do PIB a cada ano e, se continuar nessa trajetória, vamos estar com dívida parecida com a americana daqui uns dez anos. Mas, daqui até lá, muita coisa pode acontecer. Por enquanto, existe certa leniência com a dívida de todos os países. Nessa trajetória, em algum momento, porém, dependendo da situação da economia mundial, pode ter instabilidade que gere um problema como no final de 2024.
Nós, economistas, não sabemos quando vai acontecer, mas sabemos que pode acontecer. O que tem de fazer é minimizar a probabilidade. Só que o Brasil está aumentando a chance de uma crise cambial ou de uma recessão importante devido a crise de dívida.

Tehran called. Moscow didn’t answer - William James Dixon (Royal United Services Institute)

Tehran called. Moscow didn’t answer.

William James Dixon

Royal United Services Institute, March 5, 2026

https://www.rusi.org/explore-our-research/publications/commentary/great-liquidation-russias-great-imperial-retreat

Russia's Great Liquidation has begun.

Iran appealed to the Kremlin to invoke mutual assistance and activate its air defence systems in Syria. The response? Silence. Radar systems were switched off. Transponders went dark.

Just like Assad. Just like Maduro.

We we are not seeing a resurgent American superpower.

We are witnessing a textbook case of Paul Kennedy’s "Imperial Overstretch." Russia’s strategic commitments have officially exceeded its economic capacity.

To sustain the assault on Kyiv, the outposts are being sacrificed:

Tehran: The cornerstone of Russia’s Middle East architecture liquidating. 

Bamako : The 'Africa Corps' logistical artery severed. 

Central Asia: China has already moved in. 

The Balkans: A strategic window for EU integration is wide open.

Southern Caucasus: Now called the Trump Corridor.

Havana: The next domino in a new 21st-century imperial scramble?

Since 2022, Ukraine has transitioned from a theatre of restitution into a financial and military sinkhole absorbing everthing else. The Kremlin faced the ultimate imperial dilemma: It could afford Ukraine, or it could afford its old empire. It chose Ukraine.

For Western policymakers, this creates a finite 18-to-24 month window. The question is no longer if Moscow will retreat, but who will inherit the strategic assets - the West, China, or chaos?

My full analysis with Maksym Beznosiuk on the anatomy of this collapse is now live with Royal United Services Institute.

👇Link in first comment below.


#Geopolitics #NationalSecurity #RUSI #GlobalRisk #Ukraine #ImperialOverstretch


De uma mudança de regime a uma outra... - Paulo Roberto de Almeida

De uma mudança de regime a uma outra...

Paulo Roberto de Almeida

        Comecemos pela definição de regime, noção que se distingue nitidamente de governo, mas que guarda relação com este, embora correspondendo ao seu sentido mais genérico: existem regimes monárquicos ou republicanos, assim como existem, nestes últimos, regimes presidencialistas ou parlamentaristas. Num sentido personalista, se pode falar, no caso argentino, de regime peronista, ou, no brasileiro, de regime varguista, assim como de regimes militares em cada um desses países, talvez até de um “regime lulopetista”, que parece estar no limiar de ultrapassar cronologicamente o regime varguista.
        Na história da grande república americana, a mais antiga e durável do mundo, não se pode falar de “regime”, uma vez que o processo de administração governamental sempre se desenvolveu segundo as regras mais usuais do “regime democrático”, ou seja, a sucessão presidencial. Uma exceção foi representada pela década de Franklin Roosevelt, quatro mandatos enfileirados, um período conhecido, na literatura histórica americana, como “era Roosevelt”, após a qual se decidiu, justamente, fixar dois mandatos, sucessivos ou separados, como limite máximo do exercício do poder. Presidentes no poder costumam ser reeleitos, se bem-sucedidos, ou expelidos, caso o eleitorado não lhes conceda essa graça.
        Donald Trump constitui, a mais de um título, uma excrescência na história política americana, começando pela suspeita de que ele tenha sido “eleito”, na verdade, por Putin, como discutido por uma comissão de investigação imediatamente após sua eleição em novembro de 2016, dada a interferência de hackers estrangeiros nos ataques à sua adversária e o uso maciço de propaganda eletrônica claramente orientada a esse mesmo objetivo. Tendo em vista sua tentativa de aferrar-se ao poder, mesmo perdendo as eleições de 2020, usando de todos os meios disponíveis para fraudar os resultados, inclusive os mais violentos, assim como as alusões a um terceiro mandato, após o segundo, em princípio “terminativo”, sem mencionar toda a sua postura propriamente “imperial absolutista”, poder-se-ia considerar seus dois mandatos, não como duas gestões (separadas) de um governo, mas como um “regime”. Qualquer que seja a interpretação que se dê à administração Trump, sobretudo em seu segundo, atual, mandato, cabe sim admitir a possibilidade de classificar a “era trumpista” como um “regime”, no sentido mais literal do termo.
        Estabelecida, ainda que subjetivamente, a legitimidade conceitual da identificação dos dois governos Trump como um regime, tendo em conta sua nítida diferença vis-à-vis todos os demais governos nos dois séculos e meio de história política americana, resta descrever como e por que a “era Trump” pode ser considerada um regime em toda a sua plenitude. Existem muitas características factuais que conduzem a essa equiparação da “administração” Trump a um “regime”, sem qualquer elemento correspondente a um governo tido como “normal”.
        A primeira delas pode ser chamada de “reino da mentira”. Nos quatro primeiros anos do “regime” trumpista (2017-2020), o New York Times e o Washington Post, se empenharam em quantificar o número de mentiras proferidas DURANTE o mandato. De acordo com o Washington Post Fact Checker, ele teria proferido 30.573 alegações falsas ou enganosas em quatro anos, ou seja, uma média de 21 mentiras por dia, incluindo sábados, domingos e feriados. Mas sua campanha já tinha sido recheada das mais escabrosas mentiras.
        No que respeita o segundo mandato, pesquisa feita pelo New York Times e publicada no dia 20 de janeiro de 2026, conferindo os registros do primeiro ano desde janeiro de 2025, revelou serem incontáveis as falsificações proclamadas diariamente numa vasta gama de temas, um verdadeiro arsenal de mistificações com respeito ao governo Biden, alegações sem qualquer comprovação, nas áreas as mais diversas, incluindo imigração (seu tema favorito), economia – queda da inflação no seu primeiro ano, contra uma suposta alta de preços no governo Biden –, comércio, política externa e o seu próprio poder executivo. Em todas essas áreas, a matéria do NYT identificou todas as afirmações comprovadamente falsas, registrando suas falas e confrontando-as às estatísticas e dados oficiais. Algumas são tão absurdas que levantam a questão de sua sanidade mental, como por exemplo o “sucesso” em reduzir os preços dos medicamentos entre 400 e 600% dos valores anteriores, o que é matematicamente impossível (uma redução de 100% já tornaria cada medicamento totalmente gratuito).
        A segunda característica reside no “reino da fantasia”, que consiste em tentar fazer os Estados Unidos retornarem ao período da segunda revolução industrial pela via das tarifas aduaneiras, provavelmente o exemplo mais economicamente alucinante de todas as demais configurações equivocadas no terreno da política comercial, só testado na prática em virtude de uma equipe de assessores especialmente submissa (à diferença do primeiro mandato). As medidas unilaterais já adotadas, todas elas rigorosamente contrárias ao sistema multilateral de comércio, a começar pelo desprezo total da cláusula de nação mais favorecida, vão resultar no exato contrário do pretendido, com a perda de confiança dos demais parceiros do sistema, em benefício do principal campeão do livre comércio, o gigante asiático, que, graças aos erros do Hegemon declinante, vai confirmar sua preeminência livremente construída nos fluxos globais de bens e serviços pelas próximas décadas.
        A característica provavelmente mais pronunciada, e mais desarmante do ponto de vista do futuro geopolítico dos Estados Unidos no turbulento mundo atual, pode ser chamada de “arrogância imperial”, qualidade que Trump partilha com seu amigo e parceiro, Vladimir Putin, possível controlador de muitas de suas ações. Ela consiste num impulso dominador que deriva das deformações pessoais de cada um dos personagens, megalomania que consiste em extravasar a projeção militar externa de suas respectivas máquinas de guerra, na convicção de que conseguirão atender seus desejos de dominação por meio da força bruta. O cleptocrata russo já foi confrontado à limitação de seus poderes na pretensão de reconstruir uma parte geograficamente significativa dos antigos impérios czarista e soviético: sua cruel aventura ucraniana já se revelou desastrosa, em termos humanos, de equipamentos bélicos e de virtual isolamento no atual quadro diplomático mundial. Trump está conhecendo igual limitação em sua capacidade de impor mudanças de regime segundo suas ilusões imperiais não contidas por seus generais, como no caso da aventura iraniana, impossibilitada de mostrar resultados tangíveis com base unicamente em bombardeios aéreos.
        A supremacia militar americana, indiscutível no plano puramente operacional, subiu à cabeça de Donald Trump depois do sequestro bem-sucedido do sucessor de Chávez à frente da ditadura bolivariana da Venezuela (ele foi praticamente entregue pelos seus companheiros chavistas e praticamente ninguém mais fala de Maduro, na Venezuela ou nos EUA). Não ocorreu, na prática, nenhuma mudança de regime no país detentor das maiores reservas de petróleo do mundo – uma obsessão trumpista –, mas apenas a “correção geográfica” da tutela exercida por duas autocracias muito próximas uma da outra: em lugar de servir aos interesses cubanos (que exerciam a “guarda próxima” do titular sequestrado), a ditadura chavista passa a servir aos de seu novo patrão, Trump em pessoa (e familiares associados nos negócios conduzidos como se fossem assuntos de Estado). A miserável ilha de Cuba pode estar, aliás, na agenda do novo imperador hemisférico, neste caso assistido por seu obsequioso Secretário de Estado, ele mesmo de origem cubana. Pode ser, em todo caso, um alvo bem mais fácil de “digerir” do que vem se revelando a secular nação persa, atualmente convertida em uma ditadura teocrática relativamente bem consolidada.
        A primeira “explicação” – contraditória como qualquer outra – oferecida para o planejamento da operação “Fúria Épica”, deslanchada contra a autocracia iraniana, foi a do “perigo iminente de um ataque nuclear”, o que representou uma confissão indireta de que os bombardeios maciços conduzidos em meados de 2025 não “obliteraram” de verdade a capacidade de enriquecimento de urânio para fins militares, em lugar de apenas civil. Os negociadores iranianos tinham, por sinal, chegado ao ponto máximo de “rendição” da soberania nacional, ao consentir no virtual desmantelamento verificável do seu programa nuclear, quando Trump, obedecendo muito mais aos desejos israelenses do que aos próprios objetivos americanos, passaram a também exigir a desativação da capacidade missilística do regime dos aiatolás, um objetivo impossível de ser atendido por qualquer governo desejoso de exercer um mínimo de capacidade dissuasora.
        A explicação para o ataque militar imediato, sem qualquer possibilidade de alegar “medida de autodefesa”, passou a ser “mudança de regime”, convidando o povo iraniano a lutar de mãos desarmadas contra um poder incontestavelmente repressivo e mortífero. Nem o Secretário da Guerra, nem o comandante do Estado Maior americano conseguiram fornecer uma explicação credível sobre os objetivos da guerra, sua duração e os resultados esperados de uma das mais gigantescas operações de montagem da “formidável Armada” estacionada nas proximidades do Estreito de Ormuz. Uma semana depois do início das hostilidades, não se tem ainda uma justificativa clara de sua extensão, respostas aos muitos questionamentos dos jornalistas ou uma exposição completa quanto ao desenvolvimento das próximas etapas (se outras etapas foram simplesmente planejadas por militares ainda mais confusos do que seu “comandante em chefe”). Independentemente de respostas a essas muitas dúvidas, os corpos das primeiras vítimas da aventura militar mal planejada de Donald Trump começam a ser encaminhados de volta ao país, uma possível repetição do Vietnã, Iraque e Afeganistão.
        Em desafios anteriores lançados aos Estados Unidos, em 1917 e em 1941, o Congresso não hesitou em conferir plenos poderes militares – War Powers Act – ao chefe de Estado para ordenar a mobilização plena de todos os recursos humanos e econômicos necessários para enfrentar os ataques à soberania nacional dos Estados Unidos. O desafio representado pela guerra do Vietnã, engajada à revelia ou na desinformação do Congresso, resultou, em 1973, na emissão de um novo War Powers Act que, na verdade, reduzia os poderes do presidente de mobilizar e expedir forças armadas ao exterior sem a autorização expressa dos parlamentares.
Trump simplesmente ignora quaisquer limitações legais a seus poderes supostamente imperiais, no tradicional sistema de checks and balances do constitucionalismo americano. Mas se os corpos de militares caídos no “cumprimento do dever”, no teatro de guerra do Golfo Pérsico – há uma explicação para a manutenção desse nome ao longo dos tempos –, começarem a se multiplicar no cemitério de Arlington, é possível que a operação de regime change iniciada contra a teocracia iraniana se converta, no momento oportuno, em iniciativa de regime change nos próprios Estados Unidos. Acompanhemos os próximos episódios...
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Brasília, 5233, 6 março 2026, 4 p.

The true nature of Russian imperialism

The true nature of Russian imperialism

Between 1940 and 1953, more than 40,000 Estonians were deported to Siberia. Many were executed, tortured, or died because of the brutal labor and inhumane conditions.

The death of Stalin meant a chance to return home for many Estonians… but no one returns from russian camps the same person. And the homeland they left behind no longer existed either. Estonia had been occupied, and for Estonians the suffering and persecution did not end there.

The scars of the Siberian camps do not heal even generations later. Millions of broken lives, destroyed families, people killed or maimed for life - physically and mentally.

On the day of Stalin’s death, it is important to remind ourselves that the subject of Soviet labor camps still receives criminally little attention. We all know names like Auschwitz, Dachau, and Treblinka, but far fewer people have heard of Dalstroy, Vorkutlag, Norillag, or the Karaganda Corrective Labor Camp.

The scale of Soviet repression and crimes is only now beginning to return to the broader public discussion, especially in the context of the war in Ukraine - because the russian repressive system today is not very different from the one that existed under Stalin.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Rombo na esperança (Banco master) - Cristovam Buarque (Correio Braziliense)

Rombo na esperança

Cristovam Buarque
Correio Braziliense, quarta-feira, 4 de março de 2026

O maior de todos os rombos do caso do Banco Master é o rombo na democracia que mostra uma cara de ineficiência, irresponsabilidade, corrupção, desprezo à população e conivência dos eleitos e seus eleitores

Existe um conto na literatura fantástica, do tipo Jorge Luis Borges, em que "um certo homem assalta um banco e corre para um cassino, onde joga todo o dinheiro roubado. Ao perder tudo que conseguiu com o assalto, decide vender o patrimônio do próprio dono do banco assaltado, com o argumento de que usará o dinheiro para salvar a instituição". Parece confuso, mas é como ocorre na literatura fantástica. E no Distrito Federal essa literatura fantástica parece estar virando realidade.

O governo desviou bilhões de reais do Banco de Brasília, o BRB, um banco público e sólido, na tentativa de salvar o Banco Master, uma instituição privada, que oferecia juros de agiota, como se fosse um cassino. Como acontece com todo banco ou cassino sem credibilidade, ao perceberem os riscos, os apostadores se afastaram, e o banco-cassino, começava a dar sinais de que quebraria.

Diante do rombo na transparência que foi imposto pelo sigilo nas investigações, até hoje não se sabe a razão que levou àquela decisão: vontade de ajudar um amigo banqueiro ou algum outro interesse escuso. Quando o Banco Central do Brasil impediu essa tentativa, o governo que depredou o Banco de Brasília apresentou a proposta de vender patrimônio de seus próprios donos, o povo do Distrito Federal, como forma de cobrir o rombo. Parece literatura fantástica, mas há maioria na Câmara Legislativa para aprovar a legislação que vai permitir cobrir um rombo com outro.

Mas, para conseguir os votos necessários, comete-se mais um rombo, nas finanças públicas: aumentar os gastos para empregar pessoas indicadas pelos deputados distritais.

Esse círculo vicioso de rombos provoca mais outro: a vergonha que a população do Distrito Federal passa diante do resto do Brasil. A culpa dessas sucessivas irresponsabilidades no uso do dinheiro e do patrimônio públicos é jogada na omissão dos líderes políticos, intelectuais, empresariais, e por ação espúria de seus deputados distritais. Essa vergonha não é medida em bilhões de reais, mas não é menos grave do que os outros rombos mencionados.

Para completar a fantasia tornada real, a população do Distrito Federal pode reeleger os deputados distritais que acobertaram os sucessivos rombos e eleger para novo cargo o responsável pelo primeiro rombo. Parece absurdo que eles votem para esconder um rombo arrombando mais. Também é absurda a hipótese de que, depois disso tudo, eles possam ser reeleitos por eleitores que sabem que seus deputados distritais são arrombadores, mesmo com a patética desculpa de que arrombam o patrimônio do povo para dar recursos ao governo para salvar o banco arrombado pelo próprio governo.

Como toda literatura fantástica, seu enredo fica difícil de ser entendido. Por isso, é bom relembrar os rombos que os brasilienses estão sofrendo: no BRB para tentar salvar o Master; no patrimônio do Distrito Federal para salvar o Banco de Brasília; rombo na transparência pelo sigilo imposto às investigações; nas finanças do governo do Distrito Federal para comprar com cargos os votos dos deputados distritais; o rombo na dignidade da população do Distrito Federal, vista como conivente com essa sucessão de malfeitos; o rombo na democracia, ao eleger o responsável pelos rombos e ao reeleger os deputados do arrombamento.

Cada um desses rombos tem consequências negativas sobre as finanças e o patrimônio do povo do Distrito Federal, e o maior de todos é o rombo na democracia que mostra uma cara de ineficiência, irresponsabilidade, corrupção, desprezo à população e conivência dos eleitos e seus eleitores. Nossas crianças e os jovens pagarão esses rombos com sacrifícios nos serviços oferecidos pelo governo do Distrito Federal, mas, sobretudo, serão afetados pelo rombo na esperança: na credibilidade do processo de escolha de nossos dirigentes.

*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

Depoimento do embaixador Sergio Eduardo Moreira Lima é analisado por Madame IA, a pedido de Airton Dirceu Lemmertz

Depoimento do embaixador Sergio Eduardo Moreira Lima é analisado por Madame IA, a pedido de Airton Dirceu Lemmertz:


Primeiro emb. Moreira Lima:

"Enquanto escrevo, aviões de guerra americanos e israelenses estão atacando alvos em todo o Irã. Teerã está em chamas. Os militares iranianos estão retaliando contra bases americanas em todo o Golfo, no Catar, no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos. Sem dúvida, há vítimas civis. Segundo o Crescente Vermelho Iraniano, mais de 500 pessoas foram mortas em todo o Irã. Mais de 130 cidades estão sob ataque. As autoridades iranianas afirmam que uma escola para meninas foi atingida. O Relógio do Juízo Final, que o Boletim dos Cientistas Atômicos vem aproximando cada vez mais da meia-noite, avançou. Crescem os temores de um conflito mais amplo: o Hezbollah lançou foguetes e drones contra Israel em retaliação ao assassinato de Khamenei, e Israel começou a atacar o Líbano. Sei o que está acontecendo neste momento nas embaixadas de toda a região, porque vivi isso. Não os mísseis. A outra guerra. Aquela que nunca chega aos noticiários. Os telefonemas às três da manhã. As negociações com um governo que, ao mesmo tempo, é seu anfitrião e pode se tornar a fonte do perigo. O peso de milhares de vidas em suas decisões, tomadas em meio à exaustão e ao medo, sem nenhuma garantia de que algo dará certo. Fui embaixador do Brasil em Israel de 2003 a 2007. No meu primeiro ano, também fui credenciado para a Palestina. Organizei a abertura do nosso escritório em Ramallah antes que um representante separado assumisse o cargo. Era, como qualquer um que já tentou sabe, uma dupla função impossível. Quando cheguei em 2003, foi pouco antes do início da guerra do Iraque. Como Israel era um alvo potencial para os mísseis Scud de Saddam Hussein, trabalhamos com Brasília para preparar planos de contingência para evacuar a comunidade brasileira, se necessário. Tínhamos que identificar os líderes da nossa comunidade discretamente, sem assustar as pessoas e sem revelar que tínhamos um plano, porque não sabíamos ao certo o que estava por vir. Os sistemas antimísseis estavam sendo instalados em todos os lugares. O Domo de Ferro estava sendo desenvolvido na época em cooperação com os americanos. Nos preparamos para o pior, e o pior, naquela época, não aconteceu. Isso aconteceu mais tarde. No verão de 2006, quando eu me preparava para partir para meu próximo posto na Noruega, eclodiu a guerra entre Israel e o Hezbollah. Israel invadiu o Líbano. E o problema deixou de ser os brasileiros em Israel e passou a ser os brasileiros no Líbano. Para entender por que havia milhares de brasileiros no Vale do Bekaa, é preciso compreender a profundidade da conexão entre o Brasil e o Líbano. No século XIX, o imperador brasileiro Pedro II viajou ao Oriente Médio e ficou fascinado com o que encontrou. Suas cartas de Beirute sobrevivem até hoje. Os laços que ele fortaleceu fizeram com que, sempre que a instabilidade atingia o Império Otomano, sírios e libaneses imigram para o Brasil. Eles prosperaram em São Paulo. Seu sucesso atraiu ainda mais pessoas. Hoje, o Brasil tem a maior diáspora libanesa do mundo, maior que a própria população do Líbano. Tivemos um presidente de ascendência libanesa, Michel Temer. O Congresso brasileiro é conhecido pela atuação de parlamentares judeus e sírio-libaneses. Esses grupos acreditam que o Brasil pode fazer a diferença. Ou, pelo menos, possui as credenciais diplomáticas e históricas para isso. Em 1947, a presidência de Oswaldo Aranha na Assembleia Geral das Nações Unidas foi importante para a criação de Israel. Quando bombas israelenses caíram no Vale do Bekaa, feriram pessoas com passaportes brasileiros, pessoas com netos em São Paulo. Precisávamos retirá-los de lá. A maioria estava concentrada perto da fronteira com a Síria. O Brasil havia estabelecido um escritório consular provisório no Vale do Bekaa. A rota mais curta para sair da área de conflito era pela Síria, meia hora de travessia. Todos queriam essa solução. Meu colega, o embaixador brasileiro em Beirute, entendia que era uma escolha perigosa. Eu disse ao Ministro das Relações Exteriores que a Força Aérea de Israel havia alertado o adido militar: se os ônibus cruzassem para a Síria, seriam alvos. Suspeitávamos que eles acreditavam que o Hezbollah se infiltraria no comboio. Então negociamos uma rota pela Turquia, mais de dez horas por território instável. Bandeiras brasileiras foram colocadas nos tetos dos ônibus. Compartilhamos os nomes de cada passageiro e as coordenadas GPS de cada veículo com o governo israelense. E então, durante toda a noite, da meia-noite até cinco ou seis da manhã, fiquei sentado na Residência em Herzliya Pituach, perto de Tel Aviv, ao telefone com as autoridades israelenses, com nosso embaixador em Beirute, com o Escritório Brasileiro no Vale do Bekaa e com o Ministério das Relações Exteriores em Brasília, tudo ao mesmo tempo, esperando para saber se o comboio conseguiria passar em segurança. Eu estava exausto. Mas o cansaço não era nada comparado ao medo e à responsabilidade. Sabíamos que outros comboios, incluindo veículos das Nações Unidas, tinham sido atingidos. A situação não poderia ser mais grave. Mas os cidadãos brasileiros foram poupados. Cerca de duas mil pessoas, transportadas por dez horas na escuridão com bandeiras no teto do carro, graças a uma negociação conduzida de boa fé. Conto essa história hoje porque ela ilustra algo que as imagens de mísseis não conseguem mostrar: que a diplomacia não é a ausência de ação. É o tipo de ação mais difícil que existe. Durante meus anos em Israel, tentei construir em vez de apenas observar. Organizamos uma celebração do Dia da Independência do Brasil, 7 de setembro, na Praça Dizengoff, no centro de Tel Aviv. Vinte mil pessoas compareceram, numa época em que atentados a bomba eram frequentes. As autoridades israelenses garantiram a segurança. A imprensa israelense cobriu o evento amplamente. Disseram-me que nunca havia sido feito nada parecido: um embaixador estrangeiro lotando o centro de Tel Aviv com uma celebração, em meio a uma crise. Cultivamos relações que transcendiam as divisões. Encontrei-me com Ariel Sharon. Com Yasser Arafat. Construí uma amizade próxima com Shimon Peres, que, quando partimos, escreveu que eu havia “mantido o dedo no pulso de Israel, sensível aos seus humores, observando seus acontecimentos, compartilhando de sua dor”. Adquirimos pinturas de artistas brasileiro-israelenses para a embaixada. Trabalhamos, sempre, para refletir toda a complexidade da região. Não para tomar partido, mas para construir pontes. Quando deixamos Israel em outubro de 2006, publiquei um livro, A Time for Change (Um Tempo para Mudanças) , compilando meus escritos daquele período. Peres escreveu que, entre a guerra do Iraque, no início do meu mandato, e a guerra contra o Hezbollah, no final, eu havia adquirido “experiência em primeira mão de uma região em turbulência, mas em busca da paz”. Essa missão, a partir desta manhã, está em sério perigo. Ao receber a notícia no fim de semana, meus primeiros pensamentos foram para o povo iraniano e para a comunidade brasileira no Irã, em Israel e em toda a região. O Ministério das Relações Exteriores emitiu orientações imediatamente. É isso que fazemos: protegemos nossos cidadãos. É a função mais básica do Estado. Mas por trás dessa preocupação prática, esconde-se algo que me incomoda mais profundamente. É a falha, mais uma vez, em criar paz entre os povos. A verdadeira paz existe quando há diálogo, quando há cooperação, quando a confiança é construída ao longo do tempo. Se você impõe sua vontade aos outros pela força bruta, você não cria paz. Você perpetua o conflito. O que mais me preocupa é a sequência dos acontecimentos. Há poucos dias, negociações entre os Estados Unidos e o Irã estavam em andamento em Genebra. E agora, há bombas. Quando a diplomacia e a força se sucedem tão de perto, a confiança se desfaz. A negociação depende da premissa de que o diálogo não é apenas um prelúdio para a escalada. Se essa premissa desaparece, o espaço para a diplomacia diminui drasticamente. Espera-se que as discussões tenham sido conduzidas com sinceridade, mesmo em meio a uma profunda desconfiança. [...]."

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Agora Madame IA:

Este relato pessoal e profissional, que transita entre a memória diplomática do ex-embaixador em Israel (2003-2007) e o cenário hipotético (ou iminente) de uma conflagração total entre Irã e o eixo EUA-Israel, oferece um contraponto vívido às teses puramente teóricas de Gilles Kepel.
Abaixo, apresento uma análise crítica e detalhada da estrutura desse depoimento e suas implicações para a doutrina diplomática brasileira:
1. A Diplomacia como Gestão de Crise vs. Teoria Geopolítica
O texto retira a diplomacia do campo das "narrativas" (Sul Global vs. Ocidente) e a desloca para o campo da logística humanitária e responsabilidade direta.
O "Dedo no Pulso": Enquanto intelectuais discutem "inversões epistemológicas", o diplomata lida com coordenadas GPS e bandeiras pintadas em tetos de ônibus. A crítica aqui é implícita: a eficácia diplomática brasileira histórica (como na evacuação do Vale do Bekaa em 2006) dependia de um capital de confiança com todos os lados (Israel, Hezbollah, Síria).
A Vulnerabilidade do Diálogo: O autor destaca que a paz não é a "ausência de ação", mas uma construção de confiança. A quebra de negociações em Genebra seguida por bombas é vista como o colapso da ferramenta diplomática, transformando o mediador em um mero espectador de tragédias.
2. O Brasil como "Ponte" e a Herança de Oswaldo Aranha
O texto reafirma a identidade diplomática brasileira como a de um "honest broker" (mediador honesto).
Soft Power em Prática: A menção à festa na Praça Dizengoff com 20 mil pessoas e o trânsito entre Sharon, Arafat e Peres exemplificam um período em que o Brasil conseguia projetar influência sem agressividade militar, utilizando sua diversidade interna (diásporas judaica e árabe) como ativo externo.
O Risco da Perda de Credenciais: O relato sugere que essa capacidade de "construir pontes" está em sério perigo. Se o Brasil abandona essa postura sensível aos "humores" de ambos os lados para adotar uma neutralidade omissa (como discutimos anteriormente sobre a Ucrânia) ou um alinhamento ideológico automático, ele perde a capacidade de realizar operações como a de 2006.
3. A Ética da Responsabilidade em Meio à "Guerra Invisível"
A descrição das "três da manhã" revela a face humana da política externa.
O Peso da Decisão: A escolha da rota pela Turquia (10 horas) em vez da Síria (30 minutos) ilustra a essência do cálculo diplomático: a prudência baseada na informação. O aviso do adido militar israelense sobre os ônibus serem alvos mostra que, no conflito real, a neutralidade não é um escudo; a segurança é fruto de uma negociação de boa-fé constante.
O Relógio do Juízo Final: A menção ao Boletim dos Cientistas Atômicos eleva o tom do texto de um memorialismo para um alerta existencial. A falha em criar paz é descrita não como um erro técnico, mas como uma falha moral e sistêmica.
4. Síntese Crítica: O Conflito entre Pragmatismo e Princípios
O depoimento do ex-embaixador corrobora a sua tese anterior sobre a necessidade de "tomar partido" pelos princípios, mas com uma nuance fundamental: tomar partido pela humanidade e pela norma, não necessariamente por um bloco geopolítico.
Diferente da visão de Kepel, que vê o Sul Global como uma "farsa ideológica", este relato mostra um Brasil que, através de sua diplomacia, já foi capaz de operar acima das divisões Norte-Sul, agindo como uma potência de equilíbrio. O "incômodo profundo" do autor hoje reflete a percepção de que essa era da diplomacia de "ponte" está sendo asfixiada pela polarização bruta.

* Comando:
https://letterfrombrasilia.substack.com/p/the-other-war
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/letter-from-brasilia-other-war.html
** Resposta:
https://share.google/aimode/74PvnYFOqSpqsih9W

A obra mais recente do intelectual francês especializado no mundo árabe e especialmente no terrorismo muçulmano, Gilles Kepel, é analisada, como sempre, por Madame IA (Le Figaro)

 A obra mais recente do intelectual francês especializado no mundo árabe e especialmente no terrorismo muçulmano, Gilles Kepel, é analisada, como sempre, por Madame IA:


Em seu novo livro, Holocausto (Plon), o professor universitário descreve o novo cenário geopolítico que emergiu após 7 de outubro e o início da guerra em Gaza. Ele aponta para os becos sem saída de um "Sul Global" cujos defensores não compartilham nada além do ódio ao Ocidente. LE FIGARO - O título do seu livro, Holocausto, pode dar a impressão de que o senhor está equiparando os pogromistas de 7 de outubro à guerra travada pelas Forças de Defesa de Israel em Gaza. O mesmo termo pode ser usado para ambos os eventos? GILLES KEPEL. O objetivo não é estabelecer uma equivalência entre o massacre em Gaza e os ataques do Hamas, que lembram pogroms, mas sim mostrar que, com o 7 de outubro e suas consequências, estamos testemunhando uma tentativa de remodelar completamente a ordem moral mundial. Após o extermínio dos judeus pelos nazistas, houve um consenso entre o bloco soviético e o Ocidente — os julgamentos de Nuremberg, em 1947, sendo sua expressão mais significativa. Contudo, hoje, em muitos países do "Sul Global", e até mesmo em certos círculos europeus e entre estudantes universitários, vemos o apagamento da memória do 7 de outubro devido ao subsequente massacre em Gaza. O fundamento ético da ordem mundial não é mais o "nunca mais" após os horrores de Hitler, mas a luta contra a colonização, retrospectivamente redefinida como genocídio. Isso altera o cenário geopolítico, uma vez que o confronto entre o Ocidente e o bloco soviético é substituído por um conflito essencializado entre um Norte que supostamente personifica todo o horror moral e o "Sul Global", que supostamente carrega todas as virtudes positivas. Para efetivar essa inversão epistemológica — e especialmente ideológica —, invoca-se o Holocausto. A África do Sul, portanto, levou um caso de genocídio contra Israel ao Tribunal Internacional de Justiça, insinuando que o povo judeu, vítima do genocídio nazista que levou a ONU a criar o Estado de Israel em 1947, tornou-se um povo genocida e, consequentemente, que seu Estado é desprovido de legitimidade. Você fala de uma nova Guerra Fria entre o "Sul Global" e o Ocidente. Não deveria esse conceito de "Sul Global" ser questionado, especialmente após o ataque jihadista que atingiu a Rússia? De fato. A noção abrangente de "Sul Global" ignora o fato de que esses estados, supostamente personificando o bem e a lei, são em sua maioria governados por regimes iliberais e repressivos e, sobretudo, que uma parcela significativa da população do Sul Global em questão, oprimida por potências autoritárias ou sofrendo com sua falência e corrupção, deseja vir viver no supostamente odiado, porém democrático e próspero, Norte Global. O exemplo mais recente foi a decisão de Ursula von der Leyen e dos demais chefes de Estado da União Europeia de pagar 7,5 bilhões de euros ao Marechal Sisi para evitar um ataque israelense a Rafah e uma possível entrada de palestinos fugindo para o Egito, o que resultaria em travessias ilegais para países europeus. Portanto, estamos lidando com um grande engano ideológico, mas também com uma aberração geopolítica. Isso porque esse chamado "Sul Global" engloba o antigo Terceiro Mundo e a maior parte do antigo bloco soviético que não foi integrada à União Europeia, ou seja, a China de Xi Jinping e a Rússia de Putin. Este último tentou a reconciliação palestina, sem sucesso, unindo o Hamas e o Fatah e estendendo o tapete vermelho para o presidente iraniano Khamenei, líder do "eixo da resistência" contra Israel. Mas ele sofreu um golpe terrível com o ataque em Moscou, reivindicado pelo Estado Islâmico no Khorasan. Este grupo é composto por sunitas ultrarradicais originários do sul muçulmano — da Rússia à Ásia Central, Afeganistão e o nordeste sunita do Irã, o Baluchistão. Eles aprimoraram suas habilidades na Síria, nas fileiras do ISIS, onde lutaram contra Bashar al-Assad e os russos que o apoiavam. Assim, são assombrados por seu próprio "Sul global". O Kremlin, apesar de se autoproclamar campeão do BRICS+, enfrenta uma ameaça jihadista em seu próprio território. A população étnica da Rússia é extremamente pequena, ainda menor que a da União Europeia, enquanto a população muçulmana da Rússia, do Cáucaso à Ásia Central, representa atualmente 20% da Federação e chegará a 30% em dez anos. Isso alterará drasticamente o equilíbrio de poder, e Moscou está lidando com a situação de forma bastante inadequada. Esse defensor do "Sul Global", paradoxalmente, possui as características internas de um país do Norte! Você fala de um "choque de civilizações inverso", um termo adotado pelos inimigos do Ocidente. Que "civilização" o "Sul Global" alega defender? Não existe uma única civilização do "Sul Global"; isso é uma fantasia. Samuel Huntington, em seu artigo de 1994 "Choque de Civilizações?", citou meu livro *A Vingança de Deus*, e posteriormente almocei com ele em Harvard. Disse-lhe que, no entanto, não compartilhava de sua visão essencialista de civilizações e religiões. Isso se deve, em particular, ao fato de que, em nosso país, temos inúmeros exemplos de cidadãos de origem muçulmana e imigrante que compartilham os valores da cidadania e até mesmo se consideram parte de nossas elites econômicas, culturais ou políticas. Eles abominam o separatismo defendido pelo movimento islâmico, que, além disso, os estigmatiza como "apóstatas". Contudo, hoje, encontramos essa visão essencialista novamente, mas sendo promovida de forma inversa pelos proponentes do "Sul Global". Para eles, todo indivíduo do "Sul Global" é moralmente bom, e o Norte é reduzido à mancha ética do colonialismo. Essa é a teoria de Huntington de cabeça para baixo! É tudo uma farsa ideológica, da qual a África do Sul, onde o ANC enfrenta dificuldades, se tornou o principal exemplo. Com a acusação de genocídio contra Israel feita pela África do Sul, você diria que a ONU também está cedendo a essa retórica? A ONU está atualmente em uma crise bastante profunda. Os Estados que afirmam representar o "Sul Global" querem que a França e o Reino Unido, antigas potências em declínio demográfico e emblemáticas culpadas de crimes coloniais, sejam expulsas do Conselho de Segurança e substituídas por países emergentes mais populosos, como a Índia ou o Brasil. A ONU se encontra em um estado de impotência sem precedentes devido à desconexão entre suas instituições e essas demandas. Isso pode ser visto, por exemplo, no caso da UNRWA, a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina: um escândalo irrompeu quando os israelenses conseguiram comprovar que 12 de seus funcionários estavam entre os autores dos ataques de 7 de outubro. Philippe Lazzarini, chefe da agência, foi questionado sobre este assunto precisamente no dia em que outro órgão da ONU, o Tribunal Internacional de Justiça, emitiu sua decisão sobre o pedido da África do Sul e indicou, não que Israel era "culpado de genocídio" — como Pretória esperava — mas pediu ao Estado judeu que "tomasse medidas para prevenir quaisquer práticas genocidas". Para Israel, isso foi, portanto, uma forma de contradizer a ONU, que não tinha controle sobre a UNRWA, no exato momento em que o Tribunal Internacional de Justiça proferia um veredicto que Israel não apreciou. Mas não é apenas a ONU que é afetada por essa reconfiguração da ordem moral mundial. Os Estados Unidos também são impactados. Tradicionalmente, a política americana no Oriente Médio era ditada, antes de tudo, pelo lobby pró-Israel, tanto democrata quanto republicano. No entanto, hoje, um grupo de árabes-americanos que se uniram em Dearborn, Michigan, conseguiu estabelecer uma espécie de lobby anti-Israel em todo o estado, que influencia a eleição presidencial graças aos seus votos eleitorais. Nesse estado decisivo, que Joe Biden venceu em 2020 por apenas 150 mil votos, 100 mil eleitores votaram em candidatos indecisos nas primárias democratas, punindo o então presidente por fornecer a Israel as bombas usadas para devastar Gaza. Biden, portanto, está numa situação delicada: ou ele se alinha com as minorias árabes e africanas nos Estados Unidos, bem como com os jovens democratas, e perde os votos dos judeus americanos, que ainda o apoiam de forma esmagadora [...].

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Esta análise crítica processa as teses de Gilles Kepel em seu livro Holocausto, confrontando-as com a reconfiguração da ordem moral e geopolítica global contemporânea.
1. A Inversão Epistemológica: Do "Nunca Mais" ao "Anticolonialismo"
A observação central de Kepel é a substituição do paradigma ético que sustentou o pós-Guerra.
O Deslocamento do Eixo: Se em 1947 o consenso de Nuremberg estabeleceu o genocídio nazista como o "mal absoluto", hoje o "Sul Global" (e setores da academia ocidental) elege o colonialismo como o pecado original.
A Instrumentalização do Holocausto: A análise de Kepel sugere que o uso do termo "genocídio" contra Israel pela África do Sul no TIJ não é apenas uma disputa jurídica, mas uma tentativa de anular a legitimidade moral do Estado judeu, invertendo os papéis de vítima e agressor históricos para validar uma nova hierarquia de virtudes.
2. A Falácia da Civilização do "Sul Global"
Kepel desconstrói o "Sul Global" como uma entidade coesa, classificando-o como uma farsa ideológica:
Regimes Iliberais: Ele aponta a contradição de regimes autoritários e corruptos (como a Rússia e o Irã) se apresentarem como defensores da "justiça" contra um Ocidente "decadente".
O Paradoxo Migratório: O autor destaca o "plebiscito dos pés": as populações do Sul Global, embora teoricamente ensinadas a odiar o Norte, buscam refúgio e prosperidade nas democracias liberais, evidenciando a superioridade prática das instituições ocidentais sobre a retórica de seus líderes.
A Ameaça Interna Russa: A análise sobre a Rússia é perspicaz ao notar que Moscou, ao tentar liderar o BRICS+, enfrenta sua própria insurgência islâmica interna. A Rússia possui características de um país do "Norte" (demografia declinante e elite étnica minoritária) tentando gerir um "Sul" interno explosivo.
3. O Choque de Civilizações Inverso
Ao citar Huntington, Kepel propõe que vivemos uma versão essencialista invertida.
Reducionismo Moral: Enquanto Huntington via o Ocidente sob ameaça, os ideólogos do Sul Global agora veem o Norte como intrinsicamente maligno.
A Crise das Instituições Multilaterais: A paralisia da ONU e os escândalos da UNRWA são vistos como sintomas de uma organização que perdeu sua bússola moral ao tentar acomodar as exigências de potências emergentes (como Brasil e Índia) que buscam substituir a hegemonia europeia no Conselho de Segurança.
4. A Geopolítica Doméstica dos EUA
Kepel identifica o impacto direto desse "choque inverso" na política interna americana. A pressão de minorias e jovens democratas em estados-chave como Michigan (Dearborn) força Joe Biden a um equilibrismo precário: manter a aliança estratégica com Israel ou ceder à pressão de uma base eleitoral que identifica a causa palestina com a luta antirracista e anticolonial doméstica.
Síntese Crítica
A tese de Kepel sugere que o mundo não está apenas dividido por interesses econômicos, mas por uma guerra de narrativas morais. O perigo reside na perda de um padrão universal de direitos humanos em favor de um julgamento baseado na "identidade política" das nações. O Sul Global, ao se definir puramente pelo "ódio ao Ocidente", corre o risco de ignorar suas próprias contradições e o radicalismo que cresce em suas fronteiras internas.

* Comando [texto original de 2024]:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/gilles-kepel-le-sud-global-est-une.html
https://www.lcrs-politica.com/research/gilles-kepel-le-sud-global-est-une-grande-imposture-ideologique-et-une-aberration-geopolitique
** Resposta:
https://share.google/aimode/5WwjppwTj04y3XCc1

Madame IA, novamente requisitada por Airton Dirceu Lemmertz, comenta meu artigo mais recente na revista digital Será? - Paulo Roberto de Almeida

Não foi palestra, foi uma conferência, com todas as honras, mas Madame IA não precisa saber de todos os detalhes.

 A palestra de Rui Barbosa, assim como diversos dos seus outros discursos por ocasião da segunda Conferência da Paz da Haia, em 1907, sempre constituíram um marco conceitual relevante na formulação jurídica e na implementação prática da doutrina diplomática brasileira, integrando nosso patrimônio político e moral na tomada de posição em relevantes questões da agenda internacional, sobretudo em problemas atinentes à paz e a segurança internacionais, tal como modernamente regulamentadas pelos principais dispositivos da Carta das Nações Unidas (contra a guerra e a opressão, justamente), assim como em diversos outros instrumentos do Direito Internacional. Ou pelo menos constituíam, pois que desde a invasão violenta e a anexação ilegal, pela mesma Rússia, em 2014, da península ucraniana da Crimeia, tais princípios de Direito Internacional e do sistema político multilateral deixaram de fazer parte de nossa doutrina diplomática: o governo Dilma Rousseff não tomou oficialmente posição, mas declarou informalmente sua “neutralidade” em relação àquela violência perpetrada contra um Estado soberano, membro das Nações Unidas. Naquela ocasião, diversos estados membros da Organização das Nações Unidas, tomaram oficialmente posição na defesa dos princípios da Carta da ONU, acusando a violação do Direito Internacional e adotando sanções contra o agressor, sanções inteiramente conformes ao espírito e à letra dos artigos 41 e 42 da Carta, apenas “unilaterais” em virtude do uso abusivo do “direito de veto” pela Rússia, então como agora, em circunstâncias similares e até semelhantes, mas de natureza muito mais grave, pois que se estava falando da invasão unilateral, não provocada, do território soberano de um Estado parte por outro membro, inclusive em situação ainda mais ilegal, pois que formalmente responsável pela garantia da lei e da ordem, da paz e da segurança internacionais, em conformidade com os princípios que regem a atuação dos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, como é o caso da Rússia. Tal “neutralidade” distorcida, em relação ao que recomendam artigos da Carta das Nações Unidas em casos de guerras de agressão unilaterais, como a que ocorreu na Ucrânia duas vezes, 12 e 5 anos atrás, continuou a fazer parte da política externa do governo Bolsonaro, em 2022, e como tal foi mantida, até com agravantes políticos e diplomáticos, pelo governo de Lula 3, a partir de 2023 até os dias que correm. Voltando ao tema da “neutralidade” brasileira, e retomando princípios e valores que já pareciam consagrados em nossa doutrina jurídico-diplomática desde Rui Barbosa, hoje aparentemente esquecidos pelos governos de Bolsonaro e de Lula 3, cabe remeter a argumentos de natureza simplesmente moral, ou de cunho apenas humanos, expostos por um sobrevivente do Holocausto nazista, o judeu polonês Elie Wiesel, tal como transcritos abaixo: “Precisamos tomar partido. A neutralidade ajuda o opressor, nunca a vítima. O silêncio encoraja o algoz, nunca o atormentado. Às vezes, precisamos intervir. Quando vidas humanas estão em perigo, quando a dignidade humana está ameaçada, fronteiras e sensibilidades nacionais tornam-se irrelevantes. Onde quer que homens e mulheres sejam perseguidos por causa de sua raça, religião ou opiniões políticas, esse lugar deve — naquele momento — tornar-se o centro do universo.” (Elie Wiesel) Tradução livre: “Precisamos tomar partido. A neutralidade ajuda o opressor, jamais a vítima. O silêncio encoraja o torturador, nunca o torturado. Em algumas ocasiões, precisamos interferir. Quando vidas humanas estão em perigo, quando a dignidade humana está sob ameaça, quando as fronteiras nacionais e as sensibilidades se tornam irrelevantes. Onde quer que homens e mulheres são perseguidos por causa de sua raça, religião ou posturas políticas, aquele lugar precisa — naquele momento — tornar-se o centro do universo.” Este é o caso, neste momento e nos últimos 4 anos, em relação à guerra de agressão, ilegal, desumana, contra o país e o povo da Ucrânia, violadora do Direito e da consciência universais. Os princípios e valores da nossa tradição diplomática, as cláusulas de relações internacionais de nossa própria Constituição assim o pedem. Assim deveríamos fazer: tomar partido, como recomendava Rui Barbosa, como aquiesceu Oswaldo Aranha, como apelou Elie Wiesel.

Esta é uma 
análise crítica e estruturada sobre a antinomia entre a tradição jurídica da diplomacia brasileira e a prática política contemporânea frente ao conflito na Ucrânia, conforme proposto em sua argumentação.
1. A Genealogia da Doutrina: De Rui Barbosa à Constituição de 1988
Sua análise identifica corretamente o "pecado original" da descontinuidade doutrinária. A atuação de Rui Barbosa em Haia (1907) não foi apenas um exercício retórico; foi a afirmação da igualdade soberana das nações contra a hegemonia das grandes potências.
  • O Marco Jurídico: Essa tradição foi cristalizada no Artigo 4º da Constituição de 1988, que rege as relações internacionais do Brasil sob os princípios da não intervenção, mas também da defesa da paz, da solução pacífica de conflitos e do repúdio ao terrorismo e ao racismo.
  • A Incoerência: Quando o Estado brasileiro se omite diante de uma anexação territorial (Crimeia em 2014 e a invasão total em 2022), ele não está sendo "neutro" no sentido clássico, mas sim leniente com a violação do princípio da integridade territorial, que é a pedra angular da própria segurança brasileira.
2. A "Neutralidade" como Opção Política, não Jurídica
A transição da política externa entre os governos Rousseff, Bolsonaro e Lula 3 revela uma continuidade pragmática que atropela a ética normativa:
  • O Pragmatismo de Curto Prazo: A dependência de fertilizantes russos (agronegócio) e a articulação dentro dos BRICS criaram uma "neutralidade transacional".
  • A Crítica ao Veto: Você aponta com precisão o paradoxo do Conselho de Segurança: a Rússia, como membro permanente, utiliza o mecanismo desenhado para manter a paz para garantir a impunidade de sua própria agressão. Ao não condenar isso enfaticamente, o Brasil abdica de sua estatura como "potência moral" e proponente de uma reforma justa das instituições multilaterais.
3. A Dimensão Ética: Elie Wiesel e o Custo do Silêncio
A introdução do pensamento de Elie Wiesel eleva o debate do campo do Realpolitik para o campo da responsabilidade humanitária.
  • O Silêncio como Endosso: A citação de Wiesel desconstrói a ilusão da neutralidade como zona de conforto. No Direito Internacional moderno, a indiferença diante de crimes de agressão e violações massivas de direitos humanos (como os ataques a infraestruturas civis na Ucrânia) é, na prática, uma conivência estratégica.
  • A Universalidade da Vítima: Ao afirmar que o local da perseguição deve tornar-se o "centro do universo", Wiesel anula o argumento da "distância geográfica" ou do "conflito alheio", frequentemente usado pelo Itamaraty para justificar o não engajamento em sanções ou condenações diretas.
4. Conclusão Crítica
O Brasil parece viver um descompasso entre sua Carta Magna e sua atuação no palco global. Enquanto a Constituição e a tradição de Rui Barbosa exigem a defesa de princípios universais, a política externa recente tem optado por um equidistanciamento ambíguo. Essa postura, embora pretenda preservar a autonomia nacional, acaba por enfraquecer o Direito Internacional — o único escudo real para países de médio poder como o Brasil.
A "neutralidade" brasileira atual, portanto, não é a busca por uma mediação equilibrada, mas sim uma omissão que corrói o patrimônio diplomático construído desde o século XX.

* Comando:
** Resposta:

Madame IA, incitada por Airton Dirceu Lemmeertz, analisa minha postagem sobre a obra de Caio Prado Jr de 1954 - Paulo Roberto de Almeida

 Caio Prado Junior: Diretrizes para uma Política Econômica Brasileira (1954). 

Trata-se de uma monografia que ele escreveu para o concurso de Economia Política da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Caio Prado foi aprovado, até com louvor, mas sua cadeira de professor foi recusada, pela maioria conservadora da Faculdade. Ele era comunista, desde os anos 1930, tinha viajado à União Soviética em 1933, visita da qual resultou o livro URSS: um mundo novo. Tinha sido eleito deputado estadual por São Paulo pelo Partido Comunista em 1946, mas foi cassado logo no ano seguinte, com a ilegalidade do Partidão decretada pelo governo Dutra (no seguimento do rompimento de relações diplomáticas com a União Soviética, que mal tinha dois anos). Em 1968 voltou a se candidatar para novo cargo de professor na USP, mas o regime militar baniu o concurso, em meio à aposentadoria compulsória de vários professores, entre eles pelo menos três meus, na Fefelech, curso de Ciências Sociais: Florestan Fernandes, Octávio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, entre vários outros. Caio Prado, que tinha fundado a Revista Brasiliense em 1955, bastião do pensamento avançado nos meios acadêmicos do Brasil, havia publicado, em 1966, uma obra não dogmática, A Revolução Brasileira, na qual criticava as concepções políticas do Partidão, do Komintern, do movimento comunista internacional nos anos 1930 e até o pós-guerra.

Esta é uma análise detalhada sobre a trajetória intelectual e política de 
Caio Prado Júnior, com foco na obra de 1954 e seu papel na historiografia e economia política brasileira.
1. A Tese de 1954: Rigor Técnico vs. Barreiras Ideológicas
A monografia "Diretrizes para uma Política Econômica Brasileira" (1954), apresentada para a cátedra de Economia Política na Faculdade de Direito da USP, representa um esforço de Caio Prado para sistematizar uma proposta de desenvolvimento nacional pautada na autonomia.
  • Aprovação com Louvor e Vetos Políticos: Embora aprovado no concurso e tendo obtido o título de livre-docente, a recusa de sua contratação pela congregação conservadora da USP é um dos episódios mais emblemáticos de censura acadêmica antes mesmo do regime militar.
  • O Conteúdo da Obra: Diferente de seus trabalhos puramente históricos, este texto focava na necessidade de independência econômica e na formação de um mercado interno robusto como premissa para superar o "sentido da colonização" — a nossa histórica vocação exportadora de bens primários.
2. A Ruptura Teórica com o PCB e "A Revolução Brasileira" (1966)
O seu relato destaca a coragem intelectual de Prado ao publicar "A Revolução Brasileira" (1966). Esta obra é fundamental por realizar uma crítica interna ao marxismo ortodoxo praticado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB).
  • Combate ao "Feudalismo" no Brasil: Prado refutou a tese oficial do Partidão de que o Brasil possuía uma estrutura "feudal" ou "semifeudal". Para ele, o Brasil sempre foi capitalista (embora dependente), inserido na lógica de mercado mundial desde o século XVI.
  • A Metodologia: Ele criticava o "transplante" de modelos teóricos soviéticos para a realidade brasileira sem a devida análise dos fatos locais, o que ele chamava de invertar o processo metodológico.
3. O Contexto de 1968 e a Expulsão Acadêmica
O ano de 1968, mencionado em sua vivência na FFLCH, marca o auge do autoritarismo com o AI-5.
  • Aposentadorias Compulsórias: O banimento do concurso de Caio Prado e a cassação de nomes como Florestan FernandesOctávio Ianni e Fernando Henrique Cardoso representaram um desmonte deliberado do pensamento crítico nas Ciências Sociais.
  • Resistência Editorial: A fundação da Revista Brasiliense (1955) e da própria Editora Brasiliense foram as vias que Prado encontrou para manter o debate intelectual vivo quando os muros da universidade lhe foram fechados.
Síntese Crítica
Caio Prado Júnior não foi apenas um historiador; ele foi um economista político que buscou entender a "anatomia" da sociedade brasileira para propor sua transformação. Seu drama pessoal — ser um professor "sem cátedra" — reflete a tensão entre a produção de um conhecimento transformador e as estruturas de poder que regem a academia e o Estado no Brasil.

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