terça-feira, 25 de agosto de 2026

Pensar a Economia Mundial em Tempos de Trump - Edmar Bacha (Substack)

 Edmar Bacha é uma mente privilegiada, desde seus primeiros trabalhos (li textos dos tempos da UnB) e um pesquisador prodigioso, revisando dados empíricos e fundamentos teóricos. Cabe ler e refletir sobre seus argumentos... PRAlmeida

Pensar a Economia Mundial em Tempos de Trump

Oitenta anos de mudanças estruturais, erosão da hegemonia econômica dos Estados Unidos e cenários para a futuro da economia mundial 

A economia mundial passou por profundas transformações nas últimas oito décadas. Desde o pós-guerra, assistimos a um crescimento sem precedentes do PIB global, a um intenso processo de urbanização e à emergência de novos centros de poder econômico.

Este texto, derivado de palestra apresentada na Academia Brasileira de Letras, propõe uma breve reflexão sobre essas mudanças estruturais, a erosão da hegemonia econômica dos Estados Unidos e os cenários para a economia mundial pós-Trump.

Principais Transformações Econômicas Globais

A partir de 1950, o mundo experimentou um crescimento econômico sem paralelo na história. Segundo estimativas do Maddison Project Database, o PIB global em termos reais é hoje cerca de cinco vezes maior do que em meados do século XX.

Esse crescimento não foi uniforme entre as regiões, mas foi suficientemente amplo para retirar centenas de milhões de pessoas da pobreza extrema. Os extremamente pobres (com renda inferior a US$2.15 por dia), que eram mais de 40% da população mundial em 1980, reduziram-se para 10% em 2024. Essa transformação econômica esteve associada a processos simultâneos de urbanização e expansão do comércio internacional.

A população mundial, que era de cerca de 2,5 bilhões em 1950, ultrapassou 8 bilhões em 2024. O fenômeno demográfico trouxe consigo desafios e oportunidades. De um lado, a urbanização acelerada proporcionou ganhos de produtividade, com a concentração de atividades econômicas em grandes centros urbanos. De outro, a pressão sobre os recursos naturais e o meio ambiente tornou-se cada vez mais evidente.

Outro aspecto fundamental foi a queda expressiva da taxa de fecundidade. Fora da África, os demais continentes já apresentam taxas abaixo da de reposição populacional (2,1 filhos por mulher). A transição demográfica, além de reduzir o crescimento da população, está agora conduzindo a um fenômeno de envelhecimento generalizado, especialmente na Europa, no Japão e na China.

A globalização consolidou-se como força motriz da economia mundial. Entre 1950 e 2008, a participação do comércio internacional no PIB mundial mais do que triplicou, refletindo não apenas a liberalização comercial e a integração de cadeias produtivas, mas também os avanços logísticos e tecnológicos. No entanto, após a crise financeira global de 2008, o comércio perdeu dinamismo, sinalizando uma mudança estrutural na economia internacional.

A financeirização é outro fenômeno marcante: ativos bancários e financeiros cresceram a taxas muito superiores às do PIB global, refletindo tanto a sofisticação dos mercados quanto a crescente intermediação financeira da economia. Antes da crise de 2008, os ativos bancários chegaram a representar 3/4 do PIB mundial, gerando preocupações sobre riscos sistêmicos. Outros componentes do mercado de capitais cresceram ainda mais: entre 1985 e 2023 o valor das ações transacionadas nos mercados globais sextuplicaram em relação ao PIB mundial, mais recentemente em função da valorização das grandes empresas de tecnologia.

A imigração internacional dobrou, em termos relativos, desde 1950, sobretudo dos países pobres para os países ricos: em 1950 os imigrantes nos países do G7 eram 6% da população, hoje em dia são 12%.

A par disso, a desigualdade de renda entre países vem diminuindo desde a década de 1960, em parte graças ao crescimento acelerado da Ásia. A Ásia, que respondia por apenas 16% do PIB mundial em 1950, em 2022 assumiu uma posição dominante com 42% do total, ao passo que a Europa e as Américas detêm atualmente, cada uma, menos do que 13% do PIB mundial.

Com o impulso da Ásia, as emissões globais de gases de efeito estufa continuaram a crescer, apesar de estarem contidas na Europa e nos EUA, sugerindo ser muito difícil ao mundo atingir a meta de emissão zero em 2050.

Erosão da Hegemonia Econômica dos EUA

Os Estados Unidos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, mantiveram uma posição de destaque como a maior economia do mundo e como centro financeiro global. No entanto, essa hegemonia vem sendo desafiada pela ascensão da China e, em menor medida, pela maior integração da União Europeia.

Levando em conta os menores preços relativos, ou seja, em termos de paridade de poder de compra, a China já ultrapassou o PIB dos EUA. No comércio internacional, o país asiático alcançou volumes semelhantes aos americanos, tornando-se o principal parceiro comercial de boa parte do mundo.

O dólar continua sendo a moeda dominante, presente em mais de 85% das transações cambiais em cerca de 60% das reservas internacionais, mas há sinais de uma lenta diversificação com o crescimento do euro, do yuan e de outras moedas.

Nos EUA, a desigualdade de renda vem aumentando desde os anos 1970, impulsionada pela estagnação salarial das classes médias e a concentração de riqueza no topo. Ao mesmo tempo, a imigração atingiu níveis não vistos desde o final do século 19: em 1970 os imigrantes eram apenas 2% da população americana; hoje em dia chegam a 14%. A dívida pública do governo central atingiu níveis historicamente elevados, aproximando-se de 100% do PIB, podendo chegar a 135% em 2035. E o déficit do comércio exterior americano é persistente, indicando desafios estruturais de competitividade.

Cenários para a Economia Mundial Pós-Trump

As políticas de Trump com relação à imigração e ao comércio internacional são respostas equivocadas para a erosão da hegemonia econômica americana. Como estão em estado de fluxo, é impossível analisá-las em algum detalhe. É plausível admitir que até o final de 2028, ou mesmo antes disso, após as eleições de mid-term em 2026, serão amenizadas e não levarão a desastres internos ou conflitos insolúveis com o resto do mundo. De qualquer modo, o período pós-Trump apresenta grandes incertezas. Há diversos caminhos possíveis para a reorganização da economia mundial.

O primeiro cenário, improvável, é de um retorno ao modelo anterior de integração, improvável porque existe um consenso bipartidário nos EUA em torno da contenção da China, da proteção da indústria nacional e do controle mais rígido da imigração, como visto no governo Biden.

O segundo cenário seria uma globalização sem os Estados Unidos, com a China e a União Europeia assumindo a liderança econômica global. Esse cenário parece também bastante improvável, dado o peso do dólar e a continuada influência militar e financeira dos EUA.

O terceiro cenário, também improvável, seria o de uma nova Guerra Fria, com a formação de blocos estanques (EUA, UE e China/Rússia). A interdependência global e os riscos existenciais compartilhados dificultam uma ruptura tão profunda. O aquecimento global, a ameaça de conflitos nucleares, a revolução da inteligência artificial e o envelhecimento populacional são fatores que exigem cooperação internacional. 

A atuação da China será crucial para definir o futuro da economia mundial.

Se a China persistir em seu modelo baseado em alto investimento, baixo consumo interno e política mercantilista agressiva, tenderemos a ver maior regionalização do comércio, mais protecionismo e crescimento global mais lento.

Caso contrário, um ajuste estrutural na China, com maior foco no consumo interno e na inovação, poderia resultar em uma globalização mais equilibrada e multipolar.

Conclusão

A economia mundial, longe de caminhar para o fim da globalização, tende a uma reorganização em múltiplos polos econômicos. O futuro dependerá de como os EUA e a China administrarão suas relações de competição e cooperação, bem como da capacidade da União Europeia de responder aos desafios comuns. O Brasil, por sua vez, precisa se preparar para um cenário de maior complexidade, buscando diversificar parceiros e inserir-se ativamente nas novas cadeias globais de valor.

Repercussão na mídia brasileira do primeiro debate presidencial eleitoral na BandNews: avaliação de Madame IA (via Airton Dirceu Lemmertz)

 No domingo (23/agosto/2026), na Band TV, ocorreu o primeiro debate eleitoral entre os candidatos à Presidência. Apresente, de modo detalhado, a repercussão na mídia jornalística profissional no Brasil; citando, no mínimo, 10 reportagens e opiniões em diferentes veículos jornalísticos brasileiros

(Madame IA, via Airton Dirceu Lemmertz)
O primeiro debate presidencial das eleições de 2026, realizado pela Band TV em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo no domingo (23 de agosto de 2026), foi amplamente classificado pela imprensa brasileira como o encontro mais esvaziado desde a redemocratização em 1989. [1, 2]
A ausência dos líderes das pesquisas — o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) —, somada à desistência de última hora do ex-governador mineiro Romeu Zema (Novo), deixou o palco com apenas três participantes: Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Como resultado, a cobertura midiática focou massivamente no esvaziamento do formato e nos ataques direcionados aos candidatos ausentes. [1, 2]
Abaixo, detalha-se a repercussão do evento por meio de 10 reportagens, análises e opiniões de diferentes veículos jornalísticos profissionais brasileiros.
I) Repercussão Detalhada na Mídia Profissional:
1. Folha de S.Paulo: "Lula e Flávio viram alvo em debate":
A reportagem da Folha de S.Paulo sintetizou o encontro em oito pontos principais. O jornal destacou que o evento foi marcado por ofensas pesadas aos líderes das pesquisas e por uma "dobradinha" entre Caiado e Cury na área de segurança pública. A publicação enfatizou a agressividade de Renan Santos, que usou termos como "cagão" para se referir a Flávio Bolsonaro e criticou duramente a ausência do petista. [, 2]
2. G1 (Portal da Globo): "Púlpitos vazios marcam primeiro confronto":
O portal de notícias G1 focou o aspecto visual e o simbolismo do estúdio, destacando que os púlpitos vazios de Lula, Flávio e Zema serviram como a principal moldura do programa. O texto apontou que, mesmo ausentes, os líderes das intenções de voto ditaram o ritmo das discussões, já que Caiado, Renan e Cury gastaram boa parte de seus tempos criticando a falta de disposição dos adversários para o confronto direto. [1]
3. BBC News Brasil: "O confronto mais esvaziado desde 1989":
A análise da BBC News Brasil sublinhou o paradoxo de um debate presidencial contar apenas com três candidatos que, somados, detêm cerca de 10% das intenções de voto. O veículo detalhou as estratégias de contraprogramação dos ausentes: enquanto o debate ocorria, Lula concedia uma entrevista gravada à TV Record e Flávio Bolsonaro publicava vídeos de campanha nas redes sociais. [1, 2]
4. Nexo Jornal: "O fiasco do primeiro debate de 2026":
Em seu editorial expresso, o Nexo Jornal classificou a noite como um "fiasco" institucional para o rito das campanhas presidenciais brasileiras. O jornal contextualizou historicamente a importância dos debates da Band e criticou a postura pragmática-eleitoral de Lula e Flávio, argumentando que a fuga dos palcos prejudica o direito do eleitor de comparar propostas. [1, 2]
5. O Estado de S. Paulo (Estadão): "Estadão Verifica monitora dados do palco":
Como parceiro oficial do evento, o Estadão concentrou seus esforços na checagem de fatos em tempo real por meio do Estadão Verifica. O jornal submeteu as falas de Caiado, Renan e Cury ao crivo técnico, analisando dados apresentados sobre criminalidade, gastos com educação e segurança pública, identificando exageros e imprecisões nas promessas e estatísticas estaduais citadas. [1]
6. Blog do Sonar (O Globo): "Ataques a ausentes dominam um terço da repercussão":
O monitoramento digital publicado n'O Globo trouxe dados sobre o comportamento das redes sociais. A análise revelou que 32% de todas as menções na internet foram focadas nos ataques a Lula e Flávio. Curiosamente, o veículo registrou que um fato de bastidor roubou a cena entre os perfis de direita: o momento em que Gilberto Kassab, vice na chapa de Caiado, apareceu supostamente cochilando na plateia, gerando 63% do engajamento desse ecossistema. [1]
7. JOTA: "Movimentação nas redes fica aquém do esperado":
O portal especializado JOTA utilizou dados da consultoria Palver para demonstrar que o interesse geral da população pelo debate foi morno. Embora tenha havido um pico de mensagens em aplicativos de mensagens por volta das 21h, o volume total de engajamento ficou muito abaixo do registrado em debates de anos anteriores, provando que a falta dos cabeças de chapa desmobilizou a audiência geral. [1]
8. Gazeta do Povo: "Só faltaram os candidatos":
Em sua newsletter de opinião Bom Dia, a Gazeta do Povo ironizou a estrutura montada pela emissora afirmando que "o debate aconteceu... só faltaram os candidatos". O texto criticou veementemente a postura "covarde" dos líderes de isolarem-se em bolhas virtuais ou entrevistas amigáveis para evitar o contraditório, elogiando, por outro lado, a resiliência do jornalismo em manter o espaço aberto. [1, 2]
9. Canal Livre (Band): "Propositivo e agressivo":
Dentro da própria emissora que organizou o evento, o programa Canal Livre promoveu um debate pós-transmissão com analistas e cientistas políticos como Fernando Schüler e Deysi Cioccari. Schüler argumentou que, apesar do esvaziamento político, o formato livre permitiu que os três candidatos presentes fizessem um enfrentamento direto de ideias "propositivo e agressivo", expondo os participantes a temas altamente desconfortáveis e sem o engessamento tradicional. [1]
10. Exame: "O vaivém teatral de Augusto Cury":
A cobertura da Exame destacou os bastidores tensos minutos antes do início do programa. O veículo repercutiu que o candidato Augusto Cury chegou a anunciar que não participaria por considerar o debate um "teatro" sem Lula e Flávio, mas recuou no último instante. A Exame pontuou como essa indecisão quase implodiu de vez a transmissão, que acabou salva pela decisão do candidato de entrar no estúdio "em respeito ao jornalismo". [1]
II) Resumo dos Principais Eixos Temáticos Abordados no Palco:
Conforme sintetizado pelos levantamentos de imprensa, os três candidatos que compareceram focaram suas propostas em diretrizes muito específicas: [1]
  • Segurança Pública: Ronaldo Caiado usou Goiás como vitrine, defendendo classificar facções criminosas como terroristas. Renan Santos adotou tom beligerante prometendo endurecimento radical ("banho de sangue") no combate ao crime. []
  • Educação: Augusto Cury focou suas críticas na gestão educacional do governo federal e mirou o eleitorado de base. []
  • Economia e Trabalho: Renan Santos aproveitou o espaço para criticar a proposta do fim da escala 6x1, defendendo um modelo alternativo de contratação por horas trabalhadas. []
  • Reforma Política: Houve consenso unânime entre os três presentes de que a legislação eleitoral deveria ser alterada para tornar obrigatória a presença de candidatos registrados em debates televisivos. []

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No domingo (23/agosto/2026), na Band TV, ocorreu o primeiro debate eleitoral entre os candidatos à Presidência. Apresente, de modo detalhado, a repercussão na mídia jornalística profissional no exterior (ou seja, mídia estrangeirade jornalismo profissional); citando, no mínimo, 10 reportagens e opiniões em diferentes veículos jornalísticos estrangeiros

A repercussão do primeiro debate presidencial de 2026 da Band TV na imprensa internacional focou maciçamente no ineditismo institucional do esvaziamento do palco, tratando a ausência simultânea de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro como um sintoma da profunda crise de mediação democrática e hiperpolarização no Brasil. Correspondentes estrangeiros e agências globais destacaram que a "fuga" dos líderes das pesquisas transformou o evento tradicional em um palanque para azarões e transformou o formato em um "teatro de púlpitos vazios".
Abaixo, detalha-se a cobertura internacional por meio de 10 reportagens, análises e opiniões de veículos de jornalismo profissional estrangeiros.
I) Repercussão na Mídia Estrangeira:
1. Reuters (Agência Global / Reino Unido): "Líderes nas pesquisas boicotam primeiro debate no Brasil":
A agência de notícias britânica distribuiu uma ampla cobertura detalhando a decisão de Lula e Flávio Bolsonaro de não comparecerem à Band. A reportagem da Reuters pontuou que o boicote simultâneo reflete uma estratégia pragmática de risco calculado, em que candidatos consolidados evitam o desgaste do confronto direto em canais abertos, preferindo se comunicar com suas bases por meios digitais controlados ou entrevistas exclusivas pré-gravadas.
2. The New York Times (EUA): "Púlpitos vazios ilustram a nova era das campanhas digitais":
A correspondência do The New York Times no Brasil trouxe uma análise focada no impacto das mídias digitais sobre os ritos tradicionais da democracia. O jornal destacou a imagem forte dos púlpitos vazios no estúdio de São Paulo e apontou que, ao trocarem o estúdio de TV por transmissões ao vivo em redes sociais e entrevistas amigáveis paralelas, as principais forças políticas brasileiras escanteiam o jornalismo profissional e enfraquecem o debate público.
3. El País (Espanha): "O debate mais fantasma da história democrática brasileira":
O periódico espanhol El País classificou o encontro como o mais "fantasma" e esvaziado desde a redemocratização do país em 1989. A reportagem descreveu o constrangimento logístico de ter apenas Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Curydividindo um palco montado para seis pessoas e ressaltou que a agressividade verbal de candidatos menores serviu para expor o tamanho do ressentimento das franjas políticas contra a atual polarização.
4. Le Monde (França): "No Brasil, a ausência de debate expõe uma democracia sob estresse":
A análise do correspondente do francês Le Monde contextualizou a ausência dos líderes sob a ótica da saúde institucional do Brasil. O artigo argumentou que, quando o atual presidente e o herdeiro político do bolsonarismo se recusam a responder a questionamentos da imprensa e de adversários em rede nacional, cria-se um precedente perigoso para as eleições na América Latina, onde a prestação de contas pública passa a ser tratada como opcional.
5. Financial Times (Reino Unido): "Investidores de olho no silêncio fiscal do debate brasileiro":
O jornal econômico britânico Financial Times abordou o esvaziamento sob a perspectiva de mercado. A publicação registrou que as propostas econômicas ficaram em segundo plano devido à ausência das duas candidaturas que realmente têm chances de ditar a política fiscal a partir de 2027. O texto mencionou que o debate acabou dominado por discursos populistas de endurecimento da segurança pública e propostas vagas sobre a jornada de trabalho (escala 6x1).
6. Clarín (Argentina): "O curioso debate presidencial brasileiro sem os favoritos":
O principal jornal da Argentina, o Clarín, cobriu o evento destacando o descontentamento geral da população brasileira, conforme monitorado pelas redes. A reportagem traduziu as ofensas e acusações trocadas no palco — incluindo os termos fortes usados pelo candidato Renan Santos contra Flávio Bolsonaro — e explicou ao público argentino que o fenômeno das "cadeiras vazias" frustrou os eleitores que esperavam o primeiro grande choque entre o PT e o PL na TV.
7. Bloomberg (EUA): "Lula e Bolsonaro evitam confronto enquanto corrida eleitoral esfria na TV":
A agência de notícias econômicas Bloomberg destacou que o desinteresse público pelo debate medido nos índices de audiência foi uma vitória tática para Lula e Flávio Bolsonaro. De acordo com a análise, as campanhas dos líderes conseguiram mitigar os riscos de deslizes ao vivo, deixando que os candidatos menores gastassem sua energia brigando entre si ou atacando "alvos invisíveis" no estúdio.
8. DW - Deutsche Welle (Alemanha): "O esvaziamento dos debates e o isolamento em bolhas":
O serviço internacional de comunicação da Alemanha, a Deutsche Welle, publicou um artigo de opinião criticando a postura dos candidatos ausentes. A DW ressaltou que o cancelamento de última hora do ex-governador Romeu Zema consolidou a percepção de que os debates televisivos tradicionais estão perdendo sua centralidade na América Latina, sendo progressivamente substituídos pelo engajamento hiper-segmentado de bolhas ideológicas na internet.
9. Associated Press - AP (EUA): "Terceira via tenta roubar os holofotes em palco deserto":
A agência americana Associated Press focou na performance dos três candidatos presentes. O despacho da AP explicou que Ronaldo Caiado buscou se posicionar como um nome de centro-direita equilibrado, focado em segurança, enquanto o autor Augusto Cury tentou apelar para a moderação e para o eleitorado de base na educação. A agência pontuou, contudo, que sem os líderes das pesquisas no local para contrapor os dados, o esforço da chamada "terceira via" teve pouco alcance prático.
10. El Universo (Equador): "Brasil repete tendência regional de boicote a debates na TV":
O jornal equatoriano El Universo traçou um paralelo entre o ocorrido no Brasil e os processos eleitorais recentes em outros países da América Latina, onde candidatos favoritos frequentemente faltam aos primeiros debates televisivos para preservar capitais políticos. O veículo apontou que a estratégia de Lula de classificar debates prévios como locais para "ouvir bobagem" virou tendência e fragiliza o modelo de pools de imprensa na região.
II) Eixos de Crítica da Imprensa Estrangeira:
Ao sintetizar as dez coberturas internacionais, percebe-se que as análises dos correspondentes estrangeiros convergiram em três pontos de preocupação global:
  • Degradação do Rito Democrático: A percepção externa de que o comparecimento a debates televisivos deveria ser uma obrigação moral dos candidatos, e que sua recusa sinaliza um distanciamento da prestação de contas pública.
  • Substituição pela Comunicação Unilateral: O alerta de que o rádio e a televisão aberta estão perdendo a capacidade de mediar e confrontar dados falsos, transferindo o peso da eleição para redes sociais onde o eleitor consome apenas narrativas de sua própria preferência.
  • Inexpressividade da Terceira Via: O registro técnico de que, apesar do esforço de Caiado, Renan Santos e Cury em apresentarem plataformas estruturadas, suas candidaturas continuam marginalizadas pela forte atração gravitacional que Lula e a família Bolsonaro exercem sobre o eleitorado brasileiro. 

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Novo livro: História e Historiografia das Relações Internacionais do Brasil: Dos Descobrimentos ao Final do Império, em pré venda - Paulo Roberto de Almeida

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ISBN-10 ‏ : ‎ 8547351221
ISBN-13 ‏ : ‎ 978-8547351229

Do déficit à dívida, da dívida ao déficit - Marcello Averbug (Conjuntura Econômica)

  

DO DÉFICIT À DÍVIDA, DA DÍVIDA AO DÉFICIT

Marcello Averbug    

CONJUNTURA ECONÔMICA, Fundação Getúlio VargasAgosto 2026

                  

Paira sobre extensa superfície do planeta uma ameaça que vem sendo subestimada pelos governantes: a elevada dimensão da dívida pública (DP) vigente em um grande número de países. Em alguns não chega a ser ameaça imediata, mas em outros sim, além de conspirar contra o alcance de satisfatória taxa de investimento em vários deles.

Os prognósticos em voga variam desde os que consideram inevitável a explosão de uma crise global, até os confiantes na viabilidade de pilotar a dívida com segurança. Como não me atrevo a opinar onde se encontra a verdade, limito-me a refletir sobre o caso do Brasil.

Não restam dúvidas de que o nível de endividamento do governo federal constitui um dos mais incisivos condicionantes do comportamento da economia nacional. Dado que vem perdurando há longo tempo, quase já pode até ser interpretado como característica estrutural do cenário brasileiro. Segundo o FMI, desde o início deste século até 2014 o percentual da DP sobre o PIB oscilou entre 60,6% e 69,0%, com exceção de 2002 e 2003, quando atingiu a 76,1% e 71,5%, respetivamente. A partir de 2015 observa-se início de sua ascensão (Gráfico I).

Ao encerrar o ano de 2025 a DP representava 93,4% do PIB, nível inferior apenas ao record de 96,0% registado em 2020, por ocasião COVID. Para o final de 2026 o FMI estima o patamar de 100,0%. Nutrido pelo déficit orçamentário primário e pelo pagamento dos juros alusivos à própria dívida, o quadro delineado não sugere sinais de reversão. O peso do montante despendido em juros é substancial e aproxima-se de 8,4% do PIB, índice acima da mediana mundial.

Gráfico I

Os principais detentores da DP interna são os fundos de previdência, fundos de investimentos e as instituições bancárias. A divida externa corresponde apenas a 3,2% da total, sendo 72,6% sob condições de longo prazo. Quanto à forma, a DP pode ser classificada em mobiliária e contratual. A mobiliária consiste na emissão e venda de títulos do Tesouro Nacional e representa 96,3% do total.  A contratual provém de contratos de empréstimo ou financiamento entre a União e organismos multilaterais, agências governamentais ou credores privados.

Comparação internacional

Segundo o FMI, o Brasil apresenta o 3º maior endividamento público em relação ao PIB da América do Sul, atrás apenas da Venezuela, com 138,5%, e da Bolívia, com 93,7%, países que não chegam a ser símbolos de boa governança.

Na esfera internacional, o endividamento brasileiro em 2025 encontrava-se um pouco acima do padrão de países da Zona do Euro, 88,7%, e mais elevado da média latino-americana, 71,1% e de nações emergentes, 73,6%. Porém, situava-se aquém do vigente em certos desenvolvidos como, por exemplo: França 115,6%, Itália 137,0%, Estados Unidos 102,0% e Inglaterra 103,0%. Um tema que merece análise é o das diferentes consequências do endividamento sobre as nações de acordo com seus graus de desenvolvimento econômico, tema excluído do escopo deste artigo (Gráfico II).

Gráfico II

A graph with blue bars

AI-generated content may be incorrect.

Gerenciamento da dívida

Qualquer estratégia de atenuação do envidamento público brasileiro passa necessariamente pelo êxito em diminuir o déficit primário e pela possibilidade de amenizar o impacto do pagamento de juros da dívida. Como o poder do governo sob a trajetória do nível de juros é limitada, o espaço mais disponível para administrar a dívida localiza-se no âmbito do gasto orçamentário primário e da receita da União.

Duas fases são identificáveis na evolução do saldo primário desde 2000. Na primeira, até 2013, ocorreram resultados positivos, mas em montantes insuficientes para debilitar o peso da DP.  De 2014 a 2025 os resultados negativos são constantes, com exceção de 2022. As cifras disponíveis para 2026 mantêm o clima deficitário (Gráfico III).

Administrar as contas públicas não constitui tarefa simples pois 92,6% do gasto é de natureza rígida ou obrigatória, enquanto a receita padece de complexo elenco de influências. Porém, essas dificuldades não justificam atitude conformista visto que certas medidas focadas na receita e nos gastos podem suavizar as agruras fiscais do país. As chances de melhorar o visual de ambas variáveis são comentadas a seguir.

 

GRÁFICO III

 

Ação sobre gasto e receita

Qualquer intento de reduzir o gasto enfrenta resistência quase intransponível. No entanto, existem algumas poucas trincheiras sujeitas a ataque com potencial de gerar resultado promissor.

A primeira a ser explorada é a do combate à corrupção no uso dos recursos financeiros públicos. Embora o dimensionamento exato desse hábito ilícito seja praticamente impossível, existem algumas estimativas que merecem ser citadas. Por exemplo: o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação avalia em cerca de 8,0% do PIB o uso delinquente de verbas orçamentárias. Mesmo sem ignorar os obstáculos políticos e institucionais ao enfrentamento desse enraizado costume nacional, não há como renunciar à tentativa de reduzir tal desperdício de recursos.  

Outra maneira de baixar o montante do gasto localiza-se no melhor gerenciamento dos subsídios concedidos pelo governo federal, os quais assumem os formatos de dispêndio monetário efetivo ou de renuncia tributária. Dados do Ministério do Planejamento demonstram que em 2024 o total de subsídios provenientes da União atingiu 5,78% PIB e aproximadamente 24,0% da receita. O Ministério da Fazenda estima que com as isenções fiscais, inclusive sobre lucros e dividendos, o governo deixará de arrecadar R$ 612,8 bilhões em 2026.

A longa história brasileira de uso do subsídio como instrumento de políticas públicas inclui casos abusivos ou injustificáveis, o que sugere a realização de esforço destinado a identificá-los e eliminá-los. Convivendo com aqueles de conteúdo social e econômico positivo, encontram-se os que apenas beneficiam camadas de maior renda ou contemplam objetivos já ultrapassados. É alta a probabilidade de tal esforço propiciar significativa queda nesse tipo de gasto.

No lado da receita, a primeira ideia que ocorre para aumentá-la refere-se ao combate à sonegação de impostos, independente de devaneios sobre reforma tributária. Estudo do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional avalia que seu montante pode chegar a 28,4% da arrecadação. Em geral, a escassez de informações a esse respeito impede o dimensionamento confiável do quanto a receita do tesouro é danificada. Porém, não restam dúvidas de que a tendência ao déficit primário diminuiria em relevante proporção se o ato de sonegar fosse menos frequente.

Difícil convivência

Os componentes da variável “dívida pública” lhe conferem o semblante de um círculo vicioso. Elevada dívida provoca aumento da taxa de juros, o que provoca crescimento do déficit orçamentário, o que provoca necessidade de mais endividamento, o que impede a queda dos juros e assim por diante. Ao mesmo tempo em que são óbvios os impactos desfavoráveis do endividamento excessivo, também assustam os efeitos sobre crescimento econômico e cenário social causados por um mal concebido corte de gastos públicos ou pelo aumento da carga tributária 

Conviver com elevada DP vem constituindo penosa experiência para o Brasil pois deprime suas perspectivas de atingir satisfatório desenvolvimento econômico e social. Mesmo se não desencadear uma crise explosiva, a crônica presença da dívida debilita a capacidade de investir do setor público o que, no Brasil, é desastroso. Conforme a história demonstra, após atravessar os ciclos de crescimento econômico baseado na exportação de produtos primários, cujo exemplo máximo é o café, o país só alcançou invejáveis taxas de aumento do PIB quando o setor público atuou fortemente na economia, isto é, nas décadas de 50 e de 70.

Convém realçar que, apesar da aversão à estatização da economia, o empresariado brasileiro vem demonstrando sensibilidade às iniciativas do governo ao decidir sobre a implementação de novos projetos. Assim, quando declina a capacidade estatal de investir devido ao endividamento público, o setor privado sofre efeitos restritivos, o PIB cresce pouco, a receita tributária encolhe, o déficit orçamentário sobe e aumenta a necessidade recorrer à DP.

O quadro traçado anteriormente reafirma a imagem de que, no Brasil, a questão da dívida pública assemelha-se à de um círculo vicioso, cujo rompimento desafia os formuladores de política econômica.

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Marcello Averbug - consultor econômico, ex-professor da UFF, economista aposentado do BNDES e ex-economista do BID.




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