domingo, 15 de fevereiro de 2026

Um genocídio esquecido: o do povo cigano sob o totalitarismo nazista (e alguns outros também)

 

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João Guimarães Rosa: poeta esquecido - Carlos Machado

João Guimarães Rosa, poeta 

Ana Costa dos Santos
João Guimarães Rosa

 

Amigas e amigos,

Esta é uma edição especial. Traz como autor central o celebrado contista e romancista mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967), um dos ficcionistas brasileiros mais respeitados, aqui e no exterior. Mas neste boletim o grande Guimarães Rosa não aparece como prosador, e sim como poeta.

Na verdade, o primeiro livro dele, Magma, do qual foram extraídos os poemas deste boletim, foi um livro de poesia. Mas, curiosamente, essa coletânea só veio à luz postumamente, em 1996, sessenta anos após sua consagração oficial.

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Em 1936, a Academia Brasileira de Letras promoveu um concurso de poesia, no qual o livro Magma conquistou o primeiro lugar. O julgamento dos textos ficou a cargo do poeta paulista Guilherme de Almeida, que diz ter procurado “buscar e premiar poesia, poesia autêntica e completa, que é beleza no sentir, no pensar e no dizer”.

Para Almeida, o único livro da competição que obedecia a tais critérios foi Magma, de Guimarães Rosa, então com 28 anos de idade. Mas o autor, embora elogiado, nunca publicou a coletânea premiada. Em 1965, numa conhecida entrevista concedida por ele ao crítico alemão Günter Lorenz, Rosa explica por que deixou a coletânea de lado durante a vida inteira.

“(..) escrevi um livro (..) de poemas, que até foi elogiado. Mas logo (...) minha carreira profissional co­meçou a ocupar meu tempo. Viajei pelo mundo, conheci muita coisa, aprendi idiomas (...). Assim se passaram quase dez anos, até eu poder me dedicar novamente à literatura. E revisando meus exer­cícios líricos, não os achei totalmente maus, mas tampouco muito convincentes”.

Como não publicou o livro, costuma-se dizer que Guimarães Rosa renegou seus poemas. Na minha opinião, a explicação do escritor é aceitável. Ele descobriu que seu negócio era a ficção. E apostou certo: mudou os rumos de sua escrita.

•o•

Ao lado, vamos ler seis poemas de Magma, a obra “oculta” de João Guimarães Rosa. Comecemos. Em “Lunático”, o poeta empreende um passeio lírico noturno, anunciado no primeiro verso: “Vou abrir minha janela sobre a noite”. E então ele se põe a “sonhar pelas estradas noturnas” e até imagina que ouvirá “a rainha do País do Suave Sonho”.

No poema seguinte, “Paisagem”, o clima é similar. O poeta se põe a descrever o movimento de “libélulas verdes” que têm “asas nervadas” e se movem entre “reflexos de raios” que “hipnotizam muriçocas tontas”. São exercícios de criação/descrição. Guimarães Rosa proporcionava a si mesmo aulas do que hoje chamam “escrita criativa”.

Os poemas seguintes, de uma forma ou de outra, repetem a busca de domínio sobre a palavra. Em “Pavor”, constrói-se um ambiente irrespirável. “Em torno a mim / círculos concêntricos se fecham, / como as órbitas lentas de um corvo...” As reticências parecem sugerir que existe ainda algo mais por dizer.

•o•

No poema seguinte, “Na Mantiqueira”, surge outra paisagem noturna, mais uma vez marcada pela presença da lua. De modo similar, o clima em “Revolta” é de medo e cansaço. Neste caso, porém, a resposta do eu poético faz jus ao título: “Mas não quero ir para mais longe, / desterrado, / porque a minha pátria é a memória. / Não, não quero ser desterrado, / que a minha pátria é a memória...”. O indivíduo, firme, planta suas âncoras no território das lembranças.

Vem, por fim, o poema “Reportagem”. De caso pensado, manobrei para deixá-lo por último. Em minha opinião, este é o poema em que o poeta mais se aproxima do futuro Guimarães Rosa, aquele do Grande Sertão, das veredas e das travessias. Neste poema aparecem personagens reais (o homem que desce na estação, os outros passageiros), lugares reais (o temido Leprosário), ações e reações que se desenvolvem no chão.

Obviamente, há também o medo da lepra (hanseníase). Teria o homem que saltara ficado perto de nós? Tocado de humanidade, o sujeito poético (talvez influenciado pelo médico residente no escritor) expressa a vontade de endereçar um sorriso ao homem que vai para o leprosário. Não havia clima.

Estão aí, portanto, não apenas os devaneios, mas a vida completa, com seus bolsões de receios e brutalidades, ao lado da leveza e da empatia. As palavras que Guimarães Rosa buscava na poesia foram encontradas, mais verdadeiras e mais vastas, lá adiante, na prosa. Ave, Palavra!

 

Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado

 

•o•

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Minha pátria é a memória

• João Guimarães Rosa

           


Pablo Picasso, pintor espanhol, Cabeça de mulher (1939)

 

LUNÁTICO

Vou abrir minha janela sobre a noite.
E já bem noite, a lua,
alta a um terço do seu arco,
terá de deslizar pelo meu quarto a dentro,
e passear sobre o meu rosto, adormecido e lívido,
quando eu sair a sonhar pelas estradas noturnas,
sem fim, sem marcos, nem encruzilhadas,
que levam à região dos desabrigos,..
Sonharei com mares muito brancos,
de águas finas, como um ar dos cimos,
onde o meu corpo sobrenada solto,
por entre nelumbos que passam boiando...
Ouvirei a rainha do País do Suave Sonho,
cantando no alto sempre o mesmo canto,
como a sereia do sempre mais alto...
E a janela se fecha, prendendo aqui dentro
o raio suave que prendia a lua...
Para que eu soçobre no mar dos nenúfares grandes,
onde remoinham as formas inacabadas,
onde vêm morrer as almas, afogadas,
e onde os deuses se olham como num espelho...

 

PAISAGEM

No quadrilátero do arrozal,
verde-aquarela,
cortam-se em ângulos retos
canais azuis de água polida.
No ar de alumínio,
as libélulas verdes vão espetando
joias faiscantes, broches de jade,
duplas cruzetas, lindos brinquedos,
nos alfinetes de sol.
Pairam suspensas, em voo de caça,
horizontal,
e jogam, a golpes da tela metálica
das asas nervadas, reflexos de raios,
que hipnotizam as muriçocas tontas...
A libelinha pousa na ponta
do estilete de uma haste verde,
que faz arco (pronto!...)
e a leva direta à boca,
aberta e visguenta, de um sapo cinzento..,
— Glu!... Muitas bolhas na escuma...
E as outras aeroplanam, assestando
para o submersível,
os grandes olhos redondos,
com quarenta mil lentes facetadas...


Pablo Picasso, Retrato de Germaine (1902)

 

PAVOR

Em torno a mim
círculos concêntricos se fecham,
como as órbitas lentas de um corvo...
Tudo é torvo e pesado,
falta de ar e de amor...
Para mim já se apagou a última cor.
E a minha alma se enfurna
em poços velhos de hulheiras,
de onde foi tirado e queimado o carvão todo.
Como um cego
que dormisse na treva, amedrontado,
para sonhar que mais uma vez cegou...

 

NA MANTIQUEIRA

Por entre as ameias da cordilheira
dormida,
a lua se esgueira,
como um lótus branco
na serra de dorso de um crocodilo,
brincando de esconder.
Dá para o alto um arranco,
repentino,
de balão sem lastro.
E sobe, mais clara que as outras luas,
quase um sol frio,
redonda, esvaindo-se, derramando,
esfarelando luz pelos rasgões, do bojo
farpeado nas pontas da montanha.





Pablo Picasso, Mulher com coque (1901)

 

REVOLTA

Todos foram saindo, de mansinho,
tão calados,
que eu nem sei
se fiquei mesmo só.
Não trouxe mensagem
e não me deram senha...
Disseram-se que não iria perder nada,
porque não há mais céu.
E agora, que tenho medo,
e estou cansado,
mandam-me embora...
Mas não quero ir para mais longe,
desterrado,
porque a minha pátria é a memória.
Não, não quero ser desterrado,
que a minha pátria é a memória...

 

REPORTAGEM

O trem estacou, na manhã fria,
num lugar deserto, sem casa de estação:
a parada do Leprosário...
Um homem saltou, sem despedidas,
deixou o baú à beira da linha,
e foi andando. Ninguém lhe acenou...
Todos os passageiros olharam ao redor,
com medo de que o homem que saltara
tivesse viajado ao lado deles...
Gravado no dorso do bauzinho humilde,
não havia nome ou etiqueta de hotel:
só uma estampa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro...
O trem se pôs logo em marcha apressada,
e no apito rouco da locomotiva
gritava o impudor de uma nota de alívio...
Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,
mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,
como quem não tem frente, como quem só tem costas.

Raymundo de Souza Dantas: O Primeiro Embaixador Negro do Brasil e sua Trajetória Inspiradora - Jornal DR1

PRA: Mais uma matéria sobre o primeiro embaixador negro do Brasil, retirado do site da Universidade Federal do Recôncavo Baiano:


Histórias que Marcam
Raymundo de Souza Dantas: O Primeiro Embaixador Negro do Brasil e sua Trajetória Inspiradora
https://jornaldr1.com.br/raymundo-souza-dantas-pioneiro-negro-na-diplomacia-brasileira/

O Primeiro Embaixador Negro do Brasil
Nascido em 15 de setembro de 1923, na cidade de Estância, Sergipe, Raymundo de Souza Dantas superou inúmeras adversidades, saindo de uma infância marcada por dificuldades para se tornar uma figura proeminente na diplomacia, na literatura e na política brasileira.

Infância e Trabalho: A Escola da Vida
Raymundo teve acesso à escola por poucos meses. Desde muito jovem, precisou trabalhar para ajudar no sustento da família, desempenhando múltiplas funções: aprendiz de ferreiro, ajudante de marceneiro, pintor de paredes e entregador de encomendas. Quando sua família se mudou para Aracaju, ele conseguiu trabalho como tipógrafo em uma gráfica local.

Foi na tipografia que Raymundo teve seus primeiros contatos com as letras e palavras, o que contribuiu um pouco para sua compreensão inicial da escrita. O manuseio de textos e impressões despertou nele o interesse pelo conhecimento, mas sua alfabetização completa ainda estava por vir.

Rio de Janeiro: Determinação e Ascensão
Aos 18 anos, Raymundo decidiu sair de casa e, ao enganar a avó dizendo que iria para a Bahia, partiu para o Rio de Janeiro. Semianalfabeto e com poucos recursos, ele encontrou dificuldades. Um dos poucos trabalhos que conseguiu foi como vendedor de maçãs. Porém, foi demitido por não saber fazer contas corretamente. Como pagamento de rescisão, o patrão lhe deu algumas maçãs.

Esse episódio, embora difícil, marcou o início de uma mudança. Ele teve a sorte de reencontrar Joel Silveira, um renomado jornalista que já o conhecia de Aracaju. Joel lhe deu uma carta de recomendação, permitindo que Raymundo conseguisse trabalho como office-boy em uma revista.

Foi nesse ambiente que Raymundo se alfabetizou de fato. Cercado por jornalistas e intelectuais, ele demonstrava interesse genuíno em aprender e era frequentemente ajudado por colegas que lhe emprestavam livros e ofereciam orientações. Poucos anos depois, em 1944, ele publicou seu primeiro romance, Sete Palmos de Terra, que trazia recordações ficcionalizadas de sua infância em Estância.

Carreira Literária e Reconhecimento
Durante os anos 1940 e 1950, Raymundo viveu intensamente a vida literária e política do Rio de Janeiro. Ele publicou obras que exploravam questões sociais e existenciais, recebendo elogios de grandes nomes como Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade e Graciliano Ramos.

Raymundo dividia páginas de jornais e revistas com grandes da literatura, como Clarice Lispector e Otto Maria Carpeaux. Seu talento como escritor consolidou seu nome como uma das vozes mais relevantes de sua geração.

Na Política e na Diplomacia: Um Pioneiro
Nos anos 1950, Raymundo se aproximou da política institucional e foi indicado para ser oficial de gabinete do presidente Jânio Quadros, tornando-se o primeiro negro a ocupar tal posição, que hoje equivale ao cargo de assessor direto da Presidência. Ao lado do professor Milton Santos, então na Casa Civil, Raymundo representava a inclusão de intelectuais negros em posições de destaque no governo brasileiro.

Pouco tempo depois, Jânio o promoveu a Embaixador Extraordinário Plenipotenciário na República de Gana, tornando-se o primeiro diplomata brasileiro a estabelecer relações formais com um país africano.

Em 1961, Raymundo chegou a Gana e foi recebido calorosamente pela comunidade dos “Tabons”, descendentes de brasileiros escravizados que chegaram a Gana após a Revolta dos Malês, ocorrida na noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, em Salvador, Bahia. Em 1836, os brasileiros retornados foram chamados de “Tabom” pelas comunidades locais, pois, desconhecendo as línguas locais, respondiam a tudo com “tá bom” ("está bom"). Eles também foram oficialmente designados como "retornados" pelas autoridades brasileiras.

A recepção dos Tabons foi marcada por uma celebração cultural. Quando Raymundo visitou a comunidade, foi recebido como um irmão, com uma roda de samba e outras demonstrações de carinho e pertencimento. Em seu livro África Difícil: Missão Condenada (1965), ele descreveu esse momento como um dos mais felizes de sua vida, reforçando sua conexão com a comunidade.

No registro abaixo a Comunidade dos Tabons descendentes de escravos retornados do Brasil para África (Ghana)ano de 1962. Raymundo Souza Dantas e sua esposa Idoline Botelho (a sua direita) do lado esquerdo de Dantas encontra se a rainha Ibiana I, e sentado do lado direito de Idoline esta Azuma I lider da comunidade Tabom.

Legado e Inspiração
Raymundo de Souza Dantas faleceu em 2002, mas seu legado permanece vivo como símbolo de perseverança, superação e contribuição para a sociedade brasileira. Sua trajetória mostra como, mesmo enfrentando barreiras imensas, é possível transformar dificuldades em oportunidades e deixar um impacto duradouro.

A Biblioteca do CECULT-UFRB convida a comunidade a celebrar a memória desse grande brasileiro e refletir sobre a importância de seu pioneirismo na diplomacia, na literatura e na política. Que sua história inspire futuras gerações a perseguirem seus sonhos e lutarem por um mundo mais justo e igualitário.

Raymundo Souza Dantas: pioneiro negro na diplomacia brasileira - Jornal DR1

 Abaixo uma matéria recente sobre o primeiro embaixador negro da diplomacia brasileira, de fora da carreira diplomática, designado por Jânio Quadros. Se não me engano, existe um livro sobre ele, do Jerry D'Avila. PRA


Raymundo Souza Dantas: pioneiro negro na diplomacia brasileira
Jornal DR1, Fevereiro 14, 2026

Escritor, jornalista e embaixador, ele marcou a história do Brasil ao unir literatura, política e representatividade racial em uma trajetória de coragem e inteligência

Raymundo Souza Dantas nasceu em 1923, na cidade de Estância, em Sergipe, e construiu uma carreira que o colocou entre os personagens mais importantes da diplomacia e da vida intelectual brasileira no século XX. Jornalista de formação, destacou-se inicialmente na imprensa, onde atuou como articulista atento às questões políticas e sociais do país. Sua escrita sempre foi marcada por senso crítico, elegância e profunda reflexão sobre as desigualdades brasileiras.

Ao longo da carreira literária, publicou obras que dialogam com temas políticos, raciais e internacionais. Seu livro mais conhecido, África Difícil (1965), reúne relatos e análises produzidos a partir de sua experiência no continente africano. A obra apresenta ao leitor brasileiro um panorama das transformações vividas pelos países africanos no período pós-independência, combinando observação diplomática, análise histórica e sensibilidade pessoal. O livro é considerado um registro importante da política externa brasileira naquele contexto.

O momento mais marcante de sua trajetória ocorreu em 1961, quando foi nomeado embaixador do Brasil em Gana, durante o governo de Jânio Quadros. A indicação teve enorme peso simbólico: Raymundo Souza Dantas tornou-se o primeiro negro a chefiar uma embaixada brasileira. Em um período de aproximação do Brasil com nações africanas recém-independentes, sua nomeação representou também um gesto político de reconhecimento e abertura.

Apesar da conquista histórica, sua atuação diplomática foi acompanhada de desafios. Enfrentou resistências e episódios de preconceito, reflexo das tensões raciais ainda presentes na sociedade brasileira e no próprio serviço exterior. Ainda assim, manteve postura firme, desempenhando suas funções com profissionalismo e competência. Ao longo da carreira, exerceu outras atividades no campo diplomático e administrativo, sempre defendendo o fortalecimento das relações entre o Brasil e a África.

Legado e reconhecimento

Raymundo Souza Dantas faleceu em 2002, deixando um legado que ultrapassa sua atuação institucional. Sua trajetória abriu caminhos para maior diversidade no Itamaraty e ampliou o debate sobre representatividade racial na diplomacia. Como escritor, registrou reflexões valiosas sobre política internacional e identidade; como diplomata, tornou-se símbolo de pioneirismo e resistência. Sua história permanece como referência de talento, coragem e compromisso com o país.
https://jornaldr1.com.br/raymundo-souza-dantas-pioneiro-negro-na-diplomacia-brasileira/

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Convite: dossiê “Política Externa, Crise do Multilateralismo e Novos Desafios da Ordem Global”, Revista Neiba

Convite: dossiê “Política Externa, Crise do Multilateralismo e Novos Desafios da Ordem Global”, Revista Neiba
É com enorme alegria que compartilho que está aberta a chamada de artigos para o dossiê “Política Externa, Crise do Multilateralismo e Novos Desafios da Ordem Global”, a ser publicado em 2026 na Revista Neiba, Cadernos Argentina-Brasil. 📢
Tenho o privilégio de coordenar essa edição ao lado de Larissa Rosevics (IRID/UFRJ) e Patricia Nasser de Carvalho (UFMG), colegas que admiro profundamente e com quem compartilho o interesse por compreender as transformações em curso na política internacional e seus impactos sobre a política externa dos Estados.
Vivemos um momento de fragmentação crescente da ordem global, em que o protecionismo, as tensões geopolíticas e a crise de legitimidade das instituições multilaterais desafiam as estratégias tradicionais de inserção internacional. Nesse contexto, o dossiê busca reunir contribuições originais, teóricas e empíricas, que analisem como países e coalizões, especialmente do Sul Global, têm respondido a esses novos desafios.
São bem-vindos artigos que abordem temas como:
🌍 A guerra comercial e suas repercussões sobre a política externa e o comércio internacional;
🏛️ As crises e reformas do sistema multilateral;
🤝 As estratégias de países emergentes e as relações Sul-Sul;
📈 As respostas institucionais e comparativas às novas dinâmicas globais.
O objetivo é ampliar o debate sobre os desafios e as oportunidades da atuação internacional dos Estados em um cenário de reconfiguração das regras do jogo global.
🗓️ O prazo para submissões vai até 23 de março de 2026, diretamente pelo portal da revista
As diretrizes completas estão disponíveis neste link: https://lnkd.in/dYXhU2Ye
Será um prazer receber trabalhos que dialoguem com essas questões e contribuam para esse debate tão urgente sobre a política externa e o futuro da ordem internacional. 🌐💬
Fernanda Nucci

A Revista Neiba, Cadernos Argentina-Brasil aceita artigos inéditos de acadêmicos e operadores orientados para Relações Internacionais. Os artigos podem ser enviados em português, espanhol ou inglês.

Todos os artigos serão submetidos à revisão de dois consultores ad hoc e qualquer sugestão e/ou comentário, incluindo novo ordenamento do texto, será previamente discutido e aprovado pelo autor.

A extensão dos artigos deve ser entre 3.000 e 7.000 palavras, notas e referências bibliográficas inclusas. Os artigos devem conter em portugues ou espanhol e em ingles: (i) título, (ii) 3 palavras-chave e (iii) um resumo de no máximo 150 palavras.

As resenhas devem focar em livros publicados nos últimos dois anos. Não devem ter mais que 1.000 palavras, nem conter título, notas e bibliografia. Devem constar, no início, a referência bibliográfica completa da obra resenhada, incluindo o ISSN, e 3 palavras-chave.

Os artigos e resenhas devem ser enviados em formato Word, fonte Times New Roman, tamanho 12, espaçamento 1,5. As citações com mais de três linhas devem ser destacadas do texto compondo parágrafo com recuo. As citações devem vir em corpo de texto (Sobrenome, ano e página).

As notas de rodapé deverão ser de natureza substantiva, são destinadas apenas a esclarecimentos adicionais ao texto. As fontes e as referências bibliográficas serão listadas em ordem alfabética, ao final do texto. Observar o sistema Harvard (autor/data) como segue:

Artigos:
Autor, Ano. Título. Periódico, volume, páginas.

Livros:
Autor (Ano). Título, Cidade, Editora.

Documentos eletrônicos:
Autor (Ano). Título (Online). Cidade, Editora. Disponível em URL (acesso em DATA).

Autores e resenhistas devem enviar uma pequena biografia constando nome completo (sem abreviações), filiação institucional, país da IEs, cargo ou função, email e endereço para correspondência. A titulação mínima para envio de artigo é o mestrado.

Link para submissão dos artigos: https://www.e-publicacoes.uerj.br/neiba

A obra e o legado de Cançado Trindade - livro coletivo a ser lançado na FaDUSP, 4/03/2026


Minha colaboração a esta obra, a ser lançada em breve:

1613. “Antônio Augusto Cançado Trindade e o Itamaraty”, in: Carlos H. Perini Miranda, Paulo B. Casella, Sérgio E. Moreira Lima (orgs.). A obra e o legado de Cançado Trindade. Brasília: Funag, 2025, 472 p.; ISBN: 978-65-5209-027-0; p. 271-307. Obra disponível no link: https://funag.gov.br/biblioteca-nova/produto/1-1337. Disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/145679786/4611_Antonio_Augusto_Can%C3%A7ado_Trindade_e_o_Itamaraty_2024_); informado no blog Diplomatizzando (30/12/2025; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/antonio-augusto-cancado-trindade-e-o.html . Relação de Originais n 4611. 





Uma aula (quase completa) sobre Inteligência Artificial - por um amigo não artificial, Airton Dirceu Lemmertz

Uma aula (quase completa) sobre Inteligência Artificial

por um amigo não artificial, Airton Dirceu Lemmertz

O que é IA (inteligência artificial)?

A Inteligência Artificial (IA) é um campo da tecnologia e da ciência da computação dedicado a criar sistemas e máquinas capazes de simular o raciocínio humano para realizar tarefas. Em vez de apenas seguir comandos pré-programados, essas máquinas podem aprender com dados, reconhecer padrões e tomar decisões de forma autônoma.
* O que a IA consegue fazer?
Os sistemas de IA são projetados para replicar capacidades como:
- Aprendizado (Machine Learning): Melhorar o desempenho à medida que são expostos a mais informações.
- Raciocínio Lógico: Usar regras para chegar a conclusões aproximadas ou definitivas.
- Reconhecimento de Padrões: Identificar objetos em imagens ou entender a fala humana.
- Interação em Linguagem Natural: Conversar e gerar textos de forma fluida, como o ChatGPT da OpenAI.
* Tipos de IA:
Atualmente, a tecnologia é classificada principalmente em:
- IA Limitada (ANI): Projetada para uma tarefa específica (ex: assistentes virtuais como Alexa ou algoritmos de recomendação da Netflix).
- IA Geral (AGI): Um nível teórico onde a máquina teria inteligência igual à humana em qualquer tarefa (ainda não existe plenamente).
- Superinteligência (ASI): Uma inteligência que superaria a capacidade humana em todos os campos (conceito futurista).
- IA Generativa: Focada em criar conteúdos novos, como textos, imagens e músicas.
* Exemplos no Cotidiano:
A IA já está presente em diversas áreas:
- Assistentes Virtuais: Siri, Alexa e Google Assistente.
- Saúde: Auxílio em diagnósticos médicos e análise de exames.
- Finanças: Detecção de fraudes em cartões de crédito e previsões de mercado.
- Trânsito: Aplicativos de rotas (como o Waze) e carros autônomos.
* Embora traga muitos benefícios, o uso da IA também levanta discussões importantes sobre privacidade de dados, ética e o impacto no mercado de trabalho.

Fonte:

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Cite os 33 principais modelos de IA disponíveis nos mercados nacional e estrangeiro. Cite-os em ordem decrescente de qualidade ampla.

Esta lista apresenta os principais modelos de IA em operação (fevereiro de 2026), classificados por qualidade técnica ampla (raciocínio, multimodalidade e performance em benchmarks como o LMSYS Chatbot Arena). A lista inclui gigantes globais, modelos especializados e destaques do mercado brasileiro.
- Top 33 Modelos de IA (Ordem Decrescente de Qualidade):
* Nível de Fronteira (Estado da Arte):
GPT-5.2 / 5.1 (OpenAI): Lidera em raciocínio complexo e integração multimodal.
Claude 4.5 / 4.6 (Anthropic): Reconhecido pela escrita natural e baixo índice de alucinação.
Gemini 3 Pro (Google DeepMind): Referência em processamento de vídeo e áudio nativos.
Grok-4.1 Thinking (xAI): Destaca-se pelo acesso a dados em tempo real e capacidade de raciocínio profundo.
GPT-4o (OpenAI): Modelo versátil otimizado para conversação rápida e visão computacional.
DeepSeek-V3 (DeepSeek): Modelo chinês de alta eficiência que rivaliza com os líderes americanos em codificação e lógica.
Llama 3.2 405B (Meta): O principal modelo open-weight (pesos abertos) do mundo.
* Modelos de Alta Performance e Especializados:
Gemini 3 Flash: Versão ultrarrápida com janela de contexto massiva.
Claude 3.5 Sonnet: Preferido por desenvolvedores para escrita de código.
o1-preview (OpenAI): Modelo focado especificamente em tarefas de lógica matemática e ciência.
Sora (OpenAI): Referência global para geração de vídeos realistas.
Mistral Large 2: Modelo europeu de alto desempenho para aplicações empresariais.
Qwen 2.5 (Alibaba): Forte em tarefas multilíngues e matemática.
Command R+ (Cohere): Otimizado para RAG (recuperação de documentos corporativos).
DALL-E 3 (OpenAI): Modelo líder em integração texto-imagem.
AlphaFold 3 (Google DeepMind): Modelo científico especializado em biologia e proteínas.
Flux.1 (Black Forest Labs): Atual padrão ouro para geração de imagens fotorrealistas.
* Mercado Nacional e Modelos Regionais:
Sabiá-2 (Maritaca AI): O principal modelo brasileiro, treinado com foco na cultura e normas do Brasil.
Amazônia IA: Modelo nacional focado em contextos específicos da região e biodiversidade.
Jais (Inception): Modelo árabe de alta performance, referência para adaptações regionais.
InternLM 2.5: Modelo chinês avançado com excelente suporte a línguas latinas.
* Modelos de Eficiência e Legado Ativo:
Llama 3.1 70B: Equilíbrio ideal entre custo e capacidade.
Gemma 2 (Google): Modelo leve para execução local ou em dispositivos.
Mixtral 8x22B: Arquitetura de "Mistura de Especialistas" muito eficiente.
Nemotron-4 (Nvidia): Otimizado para infraestrutura de hardware Nvidia.
Falcon 2 (TII): Modelo de código aberto de alta escala dos Emirados Árabes.
Claude 3 Haiku: O modelo mais rápido e econômico da Anthropic.
Stable Diffusion 3.5: Versão aberta para geração de imagens altamente customizáveis.
Granite (IBM): Focado em transparência e dados corporativos seguros.
Phi-4 (Microsoft): Modelo "pequeno" com inteligência que surpreende pelo tamanho.
Groq LPU Models: Modelos otimizados para inferência em milissegundos.
Krea AI: Especializado em aprimoramento visual e vídeo em tempo real.
Titan (AWS): Conjunto de modelos integrados à infraestrutura de nuvem da Amazon.

Fonte:

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Situação hipotética: Caso todos os modelos de IA disponíveis atualmente no mundo estivessem sendo resolvidos/desenvolvidos/aprimorados de modo conjunto (pessoas, equipamentos, processos, etc), ou seja, em um único grupo desenvolvedor (enfim, todos os esforços em conjunto), a IA não estaria em um estágio muito mais avançado e com desenvolvimento mais rápido ao longo do tempo?

Essa é uma das discussões mais fascinantes na governança de tecnologia. A resposta curta é: sim, o progresso técnico seria muito mais rápido, mas o sistema como um todo poderia se tornar mais frágil e menos inovador a longo prazo.
Para analisar essa hipótese de um "Projeto Manhattan da IA", precisamos olhar para os dois lados da moeda:
* Por que seria muito mais rápido? (O ganho de eficiência):
- Concentração de Poder Computacional: Atualmente, empresas como Meta, Microsoft, Google e OpenAI competem por chips (GPUs H100/B200). Em um esforço conjunto, os maiores clusters de supercomputadores do mundo seriam unificados, permitindo treinar modelos em uma escala que nenhuma empresa sozinha consegue hoje.
- Fim da Redundância: Hoje, centenas de empresas gastam bilhões de dólares "reinventando a roda" para treinar modelos base semelhantes. Unir esforços eliminaria o trabalho duplicado, focando o capital humano em resolver os problemas que ninguém resolveu ainda (como o raciocínio simbólico ou a consciência artificial).
- Padronização de Dados: O maior gargalo da IA é a qualidade dos dados. Um grupo único teria acesso a todos os datasets proprietários (vídeos do YouTube, dados de buscas do Google, arquivos de código do GitHub, etc.), criando a base de treinamento mais rica da história.
* Por que poderia ser perigoso ou estagnado? (O risco do monopólio):
- Perda de Diversidade Biológica (Intelectual): A ciência avança através da divergência. No cenário atual, a Mistral aposta em modelos compactos, a DeepSeek em eficiência de custo e a OpenAI em escala massiva. Se houvesse apenas um grupo, uma decisão errada de arquitetura poderia levar a IA a um "beco sem saída" tecnológico por anos.
- Ausência de Pressão Competitiva: A velocidade atual da IA (com lançamentos semanais) é movida pelo medo de perder mercado. Sem concorrência, o grupo único poderia desacelerar o desenvolvimento por questões burocráticas ou falta de incentivo econômico.
- Risco Existencial Único: Se todos os sistemas de IA do mundo seguirem a mesma lógica e segurança, uma única falha crítica ou "alucinação" sistemática afetaria toda a infraestrutura global simultaneamente, sem sistemas alternativos para comparação.
* O estágio atual: "Competição Cooperativa":
Na prática, o mercado hoje vive um meio-termo. Embora as empresas sejam rivais, elas utilizam pesquisas acadêmicas abertas e competem para atrair os mesmos talentos. O modelo de Código Aberto (como o Llama da Meta) atua como esse grande "esforço conjunto", onde milhares de desenvolvedores independentes aprimoram o que as grandes empresas criam.

Fonte:

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A IA deve ser regulamentada? Há aspectos negativos (como viés regulador ou eventual censura) em uma regulação formal (leis, decretos, etc) da IA?

A questão da regulamentação da IA é um dos maiores dilemas éticos e jurídicos do nosso tempo. Quase todos os especialistas concordam que alguma regra é necessária, mas o "como" é o ponto de discórdia.
* Os Dois Lados da Regulamentação:
1. A Necessidade (Por que regular?):
A regulação busca mitigar riscos reais que o mercado, sozinho, pode não priorizar:
- Segurança e Responsabilidade: Definir quem é o culpado se um carro autônomo causar um acidente ou se um diagnóstico médico por IA falhar.
- Privacidade: Impedir que dados sensíveis sejam usados sem consentimento para treinar modelos.
- Transparência: Exigir que as empresas revelem quando um conteúdo é gerado por IA (combate a deepfakes).
2. Os Aspectos Negativos (Os riscos da lei):
Aqui entram as preocupações que você mencionou, que podem acabar prejudicando a própria sociedade:
- Viés Regulador e Captura Regulatória: Grandes empresas (Big Techs) costumam fazer lobby por regulações complexas que elas conseguem cumprir, mas que startups menores não conseguem. Isso pode sufocar a inovação e criar um monopólio das gigantes atuais.
- Censura e Controle de Discurso: Se o governo impõe regras sobre o que a IA pode "dizer" ou quais dados ela pode processar sob o pretexto de "combater desinformação", a linha entre moderação e censura estatal torna-se tênue. Isso pode limitar a liberdade de expressão e a pluralidade de visões de mundo da IA.
- Obsolescência Legislativa: A IA evolui em semanas; as leis levam anos. Uma regulação rígida demais pode se tornar obsoleta antes mesmo de ser sancionada, travando avanços tecnológicos úteis.
- Viés Ideológico nos Algoritmos: Governos podem exigir que as IAs sigam diretrizes políticas específicas, o que "contamina" a neutralidade técnica do modelo e força uma visão de mundo única.
* Exemplos Reais de Abordagem:
- União Europeia (AI Act): Foi o primeiro conjunto de leis abrangente do mundo, classificando a IA por níveis de risco. É criticado por ser pesado demais para a inovação europeia.
- Brasil: O Projeto de Lei 2338/23 está em tramitação no Senado e busca equilibrar a proteção de direitos com o fomento à tecnologia nacional.
* Conclusão:
O desafio não é "se" deve haver regulação, mas se ela será baseada em princípios (flexível e focada em resultados) ou burocrática (focada em processos e restrições prévias).

Fonte:

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Atualmente, qual o nível de implantação e uso da IA no serviço público do Brasil (administrações públicas federal, estaduais e municipais)?

O nível de implantação da Inteligência Artificial (IA) no serviço público brasileiro em 2026 é de transição acelerada, saindo de projetos isolados para uma estratégia de Estado estruturada. O governo federal lidera o movimento com investimentos bilionários, enquanto estados e municípios focam em automação de atendimento e eficiência operacional.
1. Administração Federal (Liderança e Estratégia):
O governo federal consolidou o uso da IA como pilar de modernização por meio do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), anunciado com investimentos de cerca de R$ 23 bilhões até 2028.
- Investimento Direto: Cerca de R$ 1,76 bilhão foi destinado especificamente para aprimorar os serviços públicos federais.
- Projetos de Fronteira: O ConversAI Studio, desenvolvido pelo Serpro, utiliza bancos de dados governamentais exclusivos para criar assistentes inteligentes seguros.
- Capacitação: A meta é treinar 115 mil servidores públicos em IA até o final de 2026, com 28 mil já capacitados até o final de 2025.
- Fiscalização: O TCU (Tribunal de Contas da União) já utiliza IA para detectar fraudes em licitações e monitorar gastos públicos em tempo real.
2. Administrações Estaduais e Municipais:
A adoção é mais heterogênea, mas se concentra em três frentes principais:
- Modelos Preditivos: Usados em segurança pública (manchas criminais) e saúde (previsão de surtos epidemiológicos).
- Processamento de Linguagem Natural (PLN): Chatbots avançados em portais de serviços (como o Poupatempo em SP ou o Geraldo em MG) para guiar o cidadão.
- IA Generativa: Automação de minutas de documentos, resumos de processos administrativos e resposta a consultas simples de contribuintes.
3. Principais Desafios e Barreiras:
Apesar do entusiasmo, o setor público enfrenta obstáculos críticos identificados em 2025:
- Retorno sobre Investimento (ROI): Muitos projetos ainda falham em gerar ganhos mensuráveis devido à falta de estruturação prévia de dados e processos.
- Ética e Viés: Há uma preocupação crescente com a discriminação algorítmica em decisões de concessão de benefícios sociais e segurança pública.
- Infraestrutura: A necessidade de modernizar centros de dados para suportar modelos pesados de IA ainda é um gargalo para municípios menores.

Fonte:

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Críticos dizem que, atualmente, as centrais de processamento de IA não são ambientalmente sustentáveis, pois consomem muita energia elétrica, além de muita água para resfriamento de tais centrais.

Essa é uma das críticas mais fundamentais e bem fundamentadas à expansão da IA. O custo ambiental é o "efeito colateral" invisível da inteligência digital. Para processar trilhões de parâmetros, os centros de dados (data centers) operam como gigantescas usinas de calor que exigem recursos naturais massivos.
1. O Desafio Energético:
O treinamento de um modelo de grande escala (como o GPT-4) consome energia suficiente para abastecer centenas de residências por anos.
- Consumo de Eletricidade: A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que o consumo de eletricidade dos data centers pode dobrar até 2026.
- Dependência de Fontes: Em muitas regiões, essa energia ainda vem de fontes fósseis, aumentando a pegada de carbono das empresas de tecnologia.
2. A Crise da Água (Resfriamento):
Este é o ponto mais crítico e menos debatido. Servidores de IA geram tanto calor que o resfriamento a ar muitas vezes não é suficiente, exigindo torres de resfriamento de água.
- Consumo Direto: Estima-se que, para cada 10 a 50 perguntas feitas a um modelo de IA, o sistema "beba" o equivalente a uma garrafa de 500ml de água para resfriar os servidores.
- Estresse Hídrico: Data centers instalados em regiões áridas competem diretamente com o abastecimento público e a agricultura.
3. O que está sendo feito para mitigar?
A indústria não ignora o problema, até por uma questão de custos operacionais:
- Eficiência de Algoritmos: Novas arquiteturas buscam fazer "mais com menos", reduzindo o número de cálculos necessários para a mesma resposta.
- Resfriamento Líquido de Circuito Fechado: Sistemas que reutilizam a água sem evaporá-la, reduzindo drasticamente o desperdício.
- Localização Estratégica: Construção de centros em países frios (como os nórdicos) ou no fundo do mar para usar o resfriamento natural.
- Energia Limpa: Gigantes como Google e Microsoft são os maiores compradores globais de energia renovável, embora a intermitência (sol/vento) ainda seja um desafio para centros que funcionam 24/7.
4. O Dilema Ético:
O paradoxo reside no fato de que a IA também é usada para otimizar redes elétricas e descobrir novos materiais para baterias, o que poderia, teoricamente, compensar seu próprio rastro ambiental no futuro.

Fonte:

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Considerando que a energia renovável (hidráulica, eólica, solar) no Brasil é abundante, muitas empresas estrangeiras que operam centrais de processamento de IA planejam se instalar por aqui, com o intuito de 'rotular' sua IA como sustentável. Quais os impactos para o Brasil? O poder público e a sociedade civil estão debatendo e se organizando adequadamente para algo que pode transformar a nossa nação?

O Brasil está, de fato, na mira das Big Techs como um "porto seguro verde". Esse fenômeno é chamado de "Green Hubbing" ou "Data Export". O país possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, o que permite que empresas como Microsoft, Google e AWS operem centros de dados com baixa pegada de carbono, algo essencial para suas metas de ESG (Ambiental, Social e Governança).
* Impactos para o Brasil:
Positivos (As Oportunidades):
- Investimento Estrangeiro Direto: Atração de bilhões em infraestrutura tecnológica e construção civil.
- Soberania de Dados: Ter os servidores em solo nacional reduz a latência e aumenta a segurança jurídica sobre os dados dos brasileiros.
- Estímulo às Renováveis: A demanda constante dos data centers (carga base) pode viabilizar novos parques eólicos e solares, trazendo estabilidade ao setor elétrico.
Negativos (Os Riscos):
- Exportação de Energia "Virtual": O Brasil usa sua água e vento para processar dados que beneficiam economias estrangeiras, muitas vezes sem gerar muitos empregos locais qualificados após a construção.
- Pressão Hídrica: Data centers em regiões de estresse hídrico podem competir com o consumo humano, como já ocorre no Chile e no Uruguai.
- Custo da Energia: O aumento massivo da demanda pode encarecer a conta de luz para o cidadão comum se a expansão da oferta não acompanhar o ritmo.
* Organização do Poder Público e Sociedade Civil:
O debate no Brasil ainda está em estágio de maturação, com avanços e lacunas claras:
Poder Público:
- Estratégia Nacional: O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) prevê o uso de energia renovável como vantagem competitiva, mas ainda carece de regulamentações específicas sobre o uso de água por essas centrais.
- Incentivos: Governos estaduais (como SP, CE e RS) têm criado polos tecnológicos, mas muitas vezes focam apenas no benefício fiscal, sem exigir contrapartidas ambientais rigorosas.
Sociedade Civil e Academia:
- Alertas Críticos: Grupos de pesquisa e ONGs começam a questionar o "extrativismo de dados" e a necessidade de que esses centros de dados promovam transferência de tecnologia real, e não apenas ocupem espaço físico e consumam recursos.
- Debate Ético: A discussão sobre quem pagará a conta ambiental dessa infraestrutura está começando a ganhar corpo em fóruns como o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).
Conclusão: O Brasil tem a "faca e o queijo na mão" para ser o líder mundial em IA sustentável, mas corre o risco de ser apenas um fornecedor de recursos brutos (energia e água) para o processamento alheio.

Fonte:

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Quais os principais modelos de IA desenvolvidos no Brasil? Cite o mínimo de 22 modelos nessa condição. Para cada modelo, diga as principais utilidades dele.

O desenvolvimento de IA no Brasil é vibrante, embora mais voltado para nichos específicos (Jurídico, Agronegócio, Saúde e Linguagem) do que para modelos de propósito geral massivos como os do Vale do Silício.
Abaixo, listo 22 modelos e sistemas de IA desenvolvidos em solo nacional ou por instituições brasileiras, focando em suas utilidades:
* Modelos de Linguagem e Processamento (LLMs):
Sabiá-2 (Maritaca AI): O principal LLM brasileiro. Otimizado para o português, entende gírias e o contexto cultural e jurídico do Brasil.
Albertina (Universidade de Lisboa e USP): Modelo de linguagem de alta performance focado na variante do português brasileiro e europeu para tarefas acadêmicas.
Brazillian BERTimbau (NIC.br): Um modelo BERT treinado exclusivamente em textos em português para tarefas de classificação e análise de sentimentos.
Cabrita (LLaMA-fined-tuned): Uma adaptação do Llama da Meta ajustada para responder melhor a comandos em português brasileiro.
Geraldo (Governo de MG): Modelo de atendimento ao cidadão que processa demandas de serviços públicos estaduais.
* Setor Jurídico e Administrativo (O "Forte" Brasileiro):
Victor (STF): Analisa processos que chegam ao Supremo Tribunal Federal, identificando temas de repercussão geral para acelerar julgamentos.
Elis (TJPE): Utilizada para agilizar processos de execução fiscal, triando petições e identificando irregularidades.
Athos (STJ): Monitora o surgimento de novos temas jurídicos e identifica processos repetitivos para uniformizar decisões.
Livia (PGR): Auxilia na análise de denúncias e na organização de dados investigativos do Ministério Público Federal.
Hórus (Justiça Federal): Modelo de visão computacional para análise de documentos e extração de dados em processos digitais.
Bernardo (Justiça Federal): Sugere minutas de decisões baseadas no histórico de sentenças do magistrado.
* Saúde e Biotecnologia:
RadVid-19 (InRad/USP): Desenvolvido na pandemia para identificar padrões de COVID-19 em exames de imagem (raios-X e tomografias).
Laura (Robô Laura): IA que monitora dados de pacientes em tempo real para prever riscos de sepse (infecção generalizada) em hospitais.
Iara (Hospital Sírio-Libanês): Modelo para otimização de fluxos hospitalares e auxílio em protocolos clínicos.
* Agronegócio (Agrotechs):
Arabyka (Embrapa): Modelo de visão computacional para identificar pragas e doenças em plantações de soja e milho.
Taranis (Brasil/Israel): IA de monitoramento de safra via imagens aéreas de altíssima resolução para agricultura de precisão.
Cromai: IA especializada na identificação de ervas daninhas em canaviais, permitindo a aplicação localizada de herbicidas.
* Outros e Setor Privado:
Aura (Vivo): IA de atendimento ao cliente que utiliza processamento de linguagem natural para resolver problemas técnicos e faturamento.
BIA (Bradesco): Uma das IAs de atendimento bancário mais robustas do mundo, focada em transações e suporte por voz.
Duda (iFood): IA generativa e preditiva usada para personalizar recomendações de pratos e otimizar rotas de entrega.
CyberCook IA: Modelo que sugere receitas baseadas nos ingredientes que o usuário tem disponíveis, evitando desperdício.
Nuvem (Plataforma Nuvem): IA brasileira focada em análise de crédito para microempreendedores com base em comportamento digital.
* O Brasil se destaca especialmente na IA Jurídica, sendo um dos países com o judiciário mais automatizado do mundo. No entanto, a maioria desses modelos depende de infraestrutura de nuvem estrangeira para rodar.

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Os modelos de IA estão sendo usados indevidamente para criar, impulsionar e recriar mentiras (fake news) através de textos, imagens, áudios, vídeos, bots (robôs), etc? Como identificar essas mentiras geradas por IA?

Sim, os modelos de IA estão sendo amplamente utilizados de forma indevida para criar e disseminar desinformação. No Brasil, a circulação de conteúdos falsos gerados por IA cresceu 308% entre 2024 e 2025, atingindo especialmente temas políticos e figuras públicas.
O perigo reside na facilidade e velocidade com que a IA produz textos articulados, áudios clonados, vídeos (deepfakes) e bots que simulam o comportamento humano, tornando as mentiras mais convincentes e virais.
* Como identificar mentiras geradas por IA:
Identificar conteúdos sintéticos exige um misto de atenção a detalhes técnicos e verificação de fatos.
1. Sinais Visuais e Auditivos (Imagens e Vídeos):
- Anomalias Físicas: Procure por dedos extras, mãos deformadas ou orelhas assimétricas. Embora modelos de 2026 como Midjourney tenham melhorado, falhas em texturas de pele e dentes muito perfeitos ainda ocorrem.
- Inconsistência de Iluminação: Sombras artificiais, luzes que piscam ou texturas estranhas em vídeos.
- Dessincronia (Mismatch): Em vídeos, o movimento dos lábios pode não bater perfeitamente com o som produzido (fenômeno chamado de Phoneme-Viseme Mismatch).
- Contexto de Fundo: Elementos borrados, objetos que aparecem e somem, ou ruídos de fundo que não condizem com a cena (ex: sons de natureza em uma cidade barulhenta).
2. Sinais em Textos e Sites:
- Erros do Sistema: Alguns artigos gerados por IA mantêm frases de erro da própria ferramenta, como "não consigo atender a este pedido devido às políticas de uso".
- Linguagem Genérica: Títulos de sites muito vagos ou textos com repetições e estrutura excessivamente polida, mas sem substância.
- Falta de Fonte: Se uma notícia bombástica não é replicada por veículos de imprensa tradicionais ou canais oficiais, é provável que seja falsa.
3. Ferramentas e Práticas Recomendadas:
- Busca Reversa de Imagem: Utilize ferramentas do Google ou TinEye para ver se a imagem original foi alterada ou se já foi desmascarada.
- Detectores de IA: Sites como Copyleaks, GPTZero e Originality.ai ajudam a identificar se um texto foi gerado por máquinas.
- Agências de Checagem: No Brasil, consulte plataformas como Lupa e Aos Fatos, que monitoram ativamente desinformação gerada por IA.
- Denúncia: Utilize os recursos das redes sociais para denunciar conteúdos suspeitos, marcando-os como "informação falsa".
Lembre-se: A regra de ouro é desconfiar de conteúdos que causam reações emocionais extremas, como repulsa ou euforia imediata, e sempre verificar a procedência antes de compartilhar.

Fonte:

14/02/2026

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