quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Moody's vê continuidade da política fiscal em Lula 4 e juro alto por mais tempo - Fábio Pupo (Jota)

 

Dívida Pública

Moody's vê continuidade da política fiscal em Lula 4 e juro alto por mais tempo

A agência diz que a eleição não altera sua visão sobre o perfil de crédito soberano do país, hoje com nota Ba1 e perspectiva estável

Fábio Pupo

Jota, 27/10/2026



A Moody's afirmou, em comentário divulgado nesta terça-feira (27/10), que a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinaliza continuidade da política fiscal e que a relação do Executivo com um Congresso mais à direita será decisiva para estabilizar a dívida.

A agência diz que a eleição não altera sua visão sobre o perfil de crédito soberano do país, hoje com nota Ba1 e perspectiva estável. Apesar disso, os analistas dizem esperar "continuidade ampla" das políticas no quarto mandato. O risco, segundo o texto, é que ajustes apenas graduais prolonguem os grandes déficits nominais, os custos de financiamento muito elevados e o aumento da dívida. Sem um compromisso mais forte com a consolidação fiscal do que o esperado hoje, a fraca capacidade de pagamento da dívida pesaria sobre o perfil de crédito ao longo do tempo.

A dívida bruta do governo geral subiu para cerca de 83% do PIB, ante cerca de 72% na eleição de 2022. A Moody's cita como fatores a rigidez orçamentária, com mais de 90% dos gastos fixados em lei, e a despesa anual de juros, em torno de 20% da receita. Também aponta que as emendas parlamentares já respondem por 24% das despesas discricionárias, contra 2% em 2015.

Para estabilizar a relação dívida/PIB, a Moody's calcula que seria necessário um superávit primário de 2% a 3% do PIB, ajuste que considera inviável sem reformas.

A agência espera que o governo mantenha o arcabouço fiscal atual, centrado no resultado primário, e tente melhorar as contas com mais crescimento, medidas de receita e maior eficiência do gasto. Vê essa estratégia em tensão com o Banco Central, que considera a política fiscal estimulativa. Por isso, projeta a Selic, hoje em 13,75%, ”permaneça mais alta por mais tempo até que sejam tomadas medidas claras rumo à consolidação fiscal”.

Congresso mais à direita

O PL deve ampliar sua bancada de 16 para 28 cadeiras no Senado (81 vagas) e de 98 para 121 na Câmara (513 vagas) em 2027. Para a Moody's, isso não melhora automaticamente as chances de reformas.

Cortes em gastos sociais e previdenciários são politicamente custosos e dificilmente partiriam do Congresso, diz o texto. A agência vê pouca disposição política, tanto no governo quanto no Legislativo, de enfrentar o tema. Por isso, espera que Lula recorra mais a ações do Executivo, bancos públicos, fundos especiais, mudanças regulatórias e estatais para avançar sua agenda.

Um compromisso fiscal mais forte, com ajustes mais profundos no início do mandato, não é o cenário-base da Moody's, mas pode surgir conforme Lula monte sua nova equipe econômica. A agência diz que acompanhará se o time traçará um caminho crível de consolidação de médio prazo, a começar pelo Orçamento de 2027. Consenso em torno de reformas de gasto, como reduzir emendas ou desvincular benefícios do salário mínimo, seria positivo para o crédito. Falta de avanço fiscal, dívida cara e crescimento fraco seriam negativos.logo-jota

 

Fábio Pupo

Analista de economia do JOTA PRO. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e especializado em jornalismo financeiro pela City, University of London. Membro da Oxford Climate Journalism Network. Foi repórter por oito anos do Valor Econômico, onde cobriu Ministério da Fazenda, Banco Central, infraestrutura e empresas. Também foi repórter por sete anos da Folha de S.Paulo, onde também atuou como coordenador de economia.

 

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