segunda-feira, 13 de abril de 2026

Leo XIV , a true pope

 “Are you deaf, blind, or simply too afraid to admit that this administration poisoned the system from top to bottom?” Pope Leo XIV said firmly, his voice echoing through the hall as his hand struck the table sharply.

The room instantly grew tense. This was not the calm, ceremonial tone people usually expected from a papal appearance — it was a moment of unmistakable moral confrontation. His voice carried deep intensity as he looked toward the audience and the cameras, making it clear that his words were meant to be heard without dilution.

“I have spent my life serving faith, conscience, and humanity,” he continued. “And what we have witnessed is not leadership — it is chaos, deception, and the arrogance of power imposed upon the public.”

Pope Leo XIV went on to accuse the administration of Donald Trump of “trying to bend reality until it submits,” arguing that truth had been treated as expendable in political battles.

“They shouted ‘fake news’ while suffocating the truth,” he said with visible disappointment. “That is not politics. That is a moral failure.”

Someone off camera reportedly attempted to intervene, perhaps worried about the diplomatic consequences of such direct criticism. The Pope responded with a calm but unmistakably dismissive gesture.

“Let us not pretend that silence serves justice,” he said. “If laws and institutions still carry meaning, then accountability must reach every level — advisers, enablers, and those who designed the system that allowed this disorder to flourish.”

Within minutes, the clip began spreading rapidly online. Supporters praised the Pope’s remarks as courageous and morally necessary, arguing that spiritual leaders have a responsibility to speak out when truth and justice are threatened. Critics, however, described the moment as unusually political for a pontiff and questioned whether such direct language blurred the traditional line between spiritual leadership and political debate.

Pope Leo XIV appeared unmoved by the controversy.

“I do not need permission to speak for truth and conscience,” he said calmly in closing. “History does not remember those who stayed silent when integrity was at stake.”

And with that, the room — filled with diplomats, journalists, and observers — fell into a heavy silence.

Don't miss out on the full story of Pope Leo XIV's powerful speech. Learn how integrity and accountability are essential in today’s world👉 https://ifeg.info/2026/04/08/pope-leo-xivs-bold-confrontation-a-call-for-truth-and-accountability/

O mundo ainda é uma selva, mas já devidamente cartografada - Paulo Roberto de Almeida

O mundo ainda é uma selva, mas já devidamente cartografada pelos seus “animais” carnívoros e herbívoros 

Paulo Roberto de Almeida

        Os EUA não são um “tigre de papel”: o potencial ofensivo de suas Forças Armadas, de sua inteligência e da sua rede de monitoramento exterior é, de longe, o monstro bélico mais poderoso do planeta, e da História, insuperável por qualquer outro adversário no horizonte histórico previsível, ainda alimentado por uma máquina econômica não alcançável por qualquer outro competidor nos anos à frente. Força bruta não é o problema desse “tigre”.
        O problema, grave, gravíssimo, é que o “tigre” foi capturado por um chimpanzé autocentrado, infantil, totalmente despreparado e absolutamente errático, que atua como um “domador” alienado quanto ao exercício das ações desse “tigre de aço”, e que o conduz por sendas incompatíveis com a trajetória mais adequada ao seu papel na ordem global que costumava ser administrada de forma racional, até ser capturado por esse chimpanzé tresloucado.
        Na verdade, o chimpanzé se submete a um urso envelhecido e semiparaplégico, mas pretende enfrentar e dominar um dragão rejuvenescido, com o qual poderia estabelecer uma convivência aceitável e até uma parceria benéfica a ambos numa administração condizente com a situação transitória da “selva” econômica mutuamente partilhável.
        Não é o que ocorre atualmente, pois o chimpanzé conseguiu produzir uma desordem indescritível na “selva” relativamente previsível, criada 80 anos atrás, desde sua última reorganização, após a derrota de hienas e chacais.
        Os herbívoros mais racionais deveriam juntar forças para conter, com a ajuda do dragão, os instintos mais primitivos desse tigre alienado e desse urso senil que causaram todos os estardalhaços indesejáveis desde o início do século.
        Uma nova cartografia poderia ajustar a convivência entre todos os animais, que reconhecem sua unidade fundamental, na igualdade soberana de todos eles, embora alguns animais sejam mais iguais do que outros. 
        Vai ser uma tarefa difícil, mas factível, desde que os herbívoros mais racionais se concertem entre si, sem qualquer ilusão quanto a um convencimento possivel dos atuais “trouble makers” dessa selva em fase de mutação.
        Uma proposta modesta por um mero observador do zoo civilizatório…

Paulo Roberto Almeida
Brasília, 13/04/2026

Caso Master: o Brasil entrou na era dos grandes crimes financeiros - Adriana Fernandes, Lucas Marxhesini (FSP)

Caso Master teve espionagem e envolveu uma teia de 216 fundos e 143 empresas

ADRIANA FERNANDES / LUCAS MARCHESINI

FSP 10.04.2026

Espiões contratados por Daniel Vorcaro já sabiam desde 23 de julho do ano passado que investigadores estavam muito perto de fechar o quebra-cabeça de fraudes que envolveram a tentativa de aquisição do Master pelo BRB (Banco de Brasília).

Naquele dia, uma ação de hackers conseguiu acessar toda a documentação do caso, que estava no computador do procurador Gabriel Pimenta, então responsável pela investigação criminal aberta pelo MPF (Ministério Público Federal) contra o dono do Master.

Só Pimenta tinha acesso aos arquivos do processo que foram parar no dia seguinte no celular do ex-banqueiro.

O acesso ilegal foi descoberto pelo procurador poucos dias após uma varredura nos sistemas pela área de tecnologia do MPF, mas o esquema de espionagem não parou por aí.

A despeito do nível 5, grau máximo de sigilo adotado pela Justiça, o ex-banqueiro também soube com antecedência que o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, havia assinado, por volta das 15h de 17 de novembro, o pedido para prendê-lo na primeira fase da operação Compliance Zero, que investigou a venda de R$ 12,1 bilhões de carteiras de crédito para o BRB.

O vazamento da operação deflagrou um contra-ataque do time de Vorcaro, segundo relatos feitos à Folha, numa sucessão de eventos comparada por investigadores a um enredo de filme policial. A jogada final de Vorcaro na tentativa de sair ileso seria a fuga do país.

Ao mesmo tempo em que corria para conseguir autorização pelos órgãos de controle do tráfego aéreo para um plano de voo para Malta, no Mediterrâneo, a defesa dele apresentava uma petição ao juiz para revogar qualquer medida cautelar que fosse expedida para evitar a prisão.

No final da tarde, a Fictor Holding Financeira anunciou uma proposta de compra do Master. Para investigadores, o lance não passou de um simulacro para facilitar a fuga de Vorcaro.

Mais cedo, entre 13h30 e 14h10, Vorcaro se reuniu, por videoconferência, com o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, com o então chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana, e o seu adjunto, Paulo Sérgio de Souza. Os dois últimos foram afastados do banco e são investigados por prestar suposta consultoria informal ao ex-banqueiro.

Na reunião, o dono do Master falou das iniciativas que estariam em curso em busca de uma solução de mercado que evitasse a liquidação do banco. O relato apresentado incluía a hipótese de venda da instituição a potenciais investidores estrangeiros. Ele chegou a informar que viajaria a Dubai para avançar nas tratativas.

A fala acendeu a desconfiança no BC do risco de fuga, reforçada pelo fato de que o ex-banqueiro tinha pedido para antecipar para aquela segunda-feira um encontro que estava marcado só para o fim daquela semana.

Enquanto as conversas com o BC aconteciam, a PF monitorava os passos de Vorcaro. Os policiais identificaram pelo menos três planos de voo. A defesa de Vorcaro sempre negou a tentativa de fuga, alegando que ele estava embarcando para Dubai para contatos com compradores.

Integrantes da corporação avaliam que a existência de mais de uma rota comprovaria que ele tentava fugir do país e que foi abastecido por informantes, como mostraram depois mensagens retiradas do celular trocadas com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o "Sicário".

Identificado pela PF como operador central de um grupo chamado "A Turma", ele coordenava atividades voltadas à obtenção de informações e monitoramento de pessoas e uso de violência.

Mourão morreu, no início de março, após tentativa de suicídio em uma cela da superintendência do órgão em Minas Gerais, segundo informações da PF, logo depois de ter sido preso na segunda fase da Compliance Zero.

ESTADO TERMINAL

A estratégia de Vorcaro não deu certo. Ele foi preso pela PF no aeroporto de Guarulhos na noite do dia 17. O colegiado do BC já tinha aprovado a liquidação do Master, quase na mesma hora em que o juiz assinou a prisão.

O anúncio só foi feito no dia seguinte (18) depois que o liquidante Eduardo Félix Bianchini entrou no prédio do Master em São Paulo. O BC concluiu que o conglomerado enfrentava uma crise crônica de liquidez, que evoluiu para uma crise aguda e insustentável:

"As estratégias de negócios inadequadas, acompanhadas de graves irregularidades e ilícitos (incluindo cessão de créditos inexistentes e descumprimento reiterado de normas regulatórias), aliadas à composição de ativos de baixa liquidez e à frustração de soluções de mercado, justificaram a adoção imediata de medidas saneadoras", justificou o BC em relatório ao TCU (Tribunal de Contas da União).

Funcionários antigos do BC contaram à reportagem que nunca tinham visto tanta pressão sobre o órgão. Em depoimento à CPI do crime organizado, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, relatou um episódio às vésperas da decisão de veto à operação com o BRB, em setembro, que retrata a situação:

"Na semana da rejeição da compra do BRB, eu me lembro de fazer o caminho da minha residência até o BC e não havia um ponto de ônibus em que não tivesse a foto de um diretor do BC [Renato Gomes] acusado por rejeitar a aquisição, [dizendo] que ele estava fazendo um trabalho político por estar rejeitando", contou.

Imagens com a foto do então diretor Renato Gomes, responsável pela área que analisou e recomendou o veto à operação, foram espalhadas em painéis luminosos gerenciados pelo Metrópoles em Brasília, apontando ele como responsável por dificultar o negócio. O ex-senador Luiz Estevão disse recentemente à Folha que os painéis exibem, além de propagandas, reportagens jornalísticas.

"Conforme conhecimento público, diversos veículos de comunicação firmaram contratos de publicidade com a dupla Master/BRB", completou.

Na véspera da negativa, partidos do Centrão na Câmara assinaram requerimento de urgência para um projeto de lei permitindo ao Congresso destituir presidentes e diretores do BC.

Os dois movimentos resultaram numa união maior no colegiado do BC, que no início do processo estava dividido. Essa fragmentação ficou representada pelos diretores Aquino, que defendia uma venda do banco, e Gomes, que era a favor de uma liquidação mais rápida.

No dia do anúncio da liquidação, o Master tinha em caixa R$ 4,8 milhões, enquanto os vencimentos de CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) eram de R$ 48,6 milhões naquela data. Somando os vencimentos de toda aquela semana, o passivo era de R$ 123,8 milhões.

O banco de Vorcaro terminou com um déficit de liquidez imediato superior a 2.400%. Ao TCU, o BC disse que a liquidação reduziu os custos para a sociedade e o FGC (Fundo Garantidor de Crédito).

Procurada nesta quinta (9) e sexta-feira (10), a defesa de Vorcaro não se manifestou.

TEIA DE FUNDOS E EMPRESAS

As fraudes do Master contavam com pelo menos 216 fundos diferentes e 143 empresas, de acordo com levantamento da Folha, que começou a ser montado a partir de janeiro deste ano. Um software especial foi utilizado para montar as conexões como se fossem um sistema solar e seus satélites. A lista é abastecida regularmente.

O fio dessa rede começou a ser puxado com base nos seis fundos da Reag, identificados como suspeitos pelo BC na investigação sobre o Master: Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna. Juntos, eles tinham um patrimônio líquido de R$ 102,4 bilhões.

Nesses fundos estão os ativos usados por Vorcaro para operar as fraudes, como os papéis podres do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina), conhecidas como cártulas, e créditos de carbono.

Esses ativos de difícil avaliação tinham o seu valor estimado como bilionário pelos fundos. A partir daí, suas cotas se valorizavam.

O dinheiro obtido era injetado em outros fundos e empresas da ciranda de fraudes. Em um desses casos, o dinheiro serviu para comprar a mansão de R$ 36 milhões que Vorcaro usava quando estava em Brasília e que foi frequentada por autoridades.

LINHA DO TEMPO

3 de setembro de 2025

BC veta o pedido de autorização para venda de ativos do Master para o BRB. O indeferimento foi fundamentado no fato de que a operação não satisfazia o requisito de viabilidade econômica-financeira exigido para esse tipo de transação

23 de setembro de 2025

Vorcaro vende sua participação na seguradora Kovr para os sócios minoritários no negócio e tenta renovar a linha de assistência do FGC com promessa de venda de outros ativos pessoais

30 de setembro de 2025

Reportagem da Folha revela que a PF abriu inquérito sigiloso sobre o banco Master após o BC denunciar suspeitas de fraudes ao MPF. Com o inquérito, Vorcaro não tem mais chance de renovação de linha no FGC devido à cláusula das regras contratuais do fundo

Novembro de 2025

BC faz nova comunicação ao MPF após descobrir novos indícios de crimes de desvio de recursos e gestão fraudulenta

17 de novembro de 2025

Reunião entre Vorcaro e a supervisão do BC, entre 13h30 e 14h10, sem apresentação de propostas formais de solução. É protocolada no mesmo dia proposta de sócios da Fictor para aquisição do Master. Operação é anunciada no final da tarde

17 de novembro de 2025

Diretoria do BC aprova a liquidação extrajudicial dos bancos Master, Master de Investimentos, Letsbank, Master corretora e Raet (Regime de Administração Especial Temporária) para o Will Bank. Vorcaro é preso no Aeroporto Internacional ao tentar embarcar em jatinho particular ao tentar embarcar para Dubai.

18 de novembro de 2025

Anúncio da liquidação é feito na manhã do dia seguinte após liquidante entrar na sede do Master em São Paulo


domingo, 12 de abril de 2026

A cultura da esquerda: sete pecados dialéticos que atrapalham seu desenvolvimento - Paulo Roberto de Almeida (Espaço Acadêmico)

Dez anos depois de escrito e publicado, um leitor autodesignado Epicuro, me questiona sobre este artigo, perguntando se eu ainda me encontro trabalhando sobre o assunto. Tive de responder que eu sempre me ocupo de assuntos importantes.
Segue o registro, cujo link ainda funciona. Parece que esquerdistas ainda ficam incomodados com os meus arrgumentos, por isso deixo o registro aqui.

1412. “A cultura da esquerda: sete pecados dialéticos que atrapalham seu desenvolvimento”, Brasília, 25 março 2005, 22 p. Comentários sobre obsessões da esquerda (antimercado, igualitarismo, estatismo, etc.), que conformam pensamento ultrapassado para suas tarefas políticas. Publicado na revista Espaço Acadêmico (a. IV, n. 47, abr. 2005; link: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/58847; pdf: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/58847/751375152060 . Objeto de crítica de Robinson dos Santos, intitulada “‘Milk-shake’ indigesto ou sete equívocos de uma crítica à esquerda?: Réplica a Paulo de Almeida” (Espaço Acadêmico, na. IV, n. 48, abr. 2005). Feita tréplica registra em Trabalhos n. 1425, publicada no número de junho. Reproduzido no blog português “O Insurgente”, em 10/2005, com comentários agregados por leitores de Portugal (registrados no dossiê 1412). Nova réplica de outro leitor, respondida com o trabalho n. 1432. Relação de Publicados n. 549.

Resumo:
Identificação e discussão de sete equívocos que dificultam a formulação de políticas públicas que permitiriam um processo de crescimento sustentado, com transformações tecnológicas e desenvolvimento social qualificado, nomeadamente os seguintes:

1) A esquerda é estupidamente anti-mercado
2) Ela é (falsamente) igualitarista
3) Ela se posiciona contra a “democracia formal”, preferindo a “democracia real”
4) A esquerda é geralmente estatizante (o que é, realmente, uma pena)
5) Ela é anti-individualista, preferindo os “direitos coletivos”
6) Ela é tristemente populista e popularesca
7) Também costuma ser voluntarista e anti-racionalista

(...)


Monteiro Lobato: pioneiro do petróleo no Brasil - Paulo Roberto de Almeida (Revista de História da Biblioteca Nacional)

A Revista de História da Biblioteca Nacional, enquanto existiu, me pediu um artigo de divulgação geral sobre o papel de Monteiro Lobato na história do petróleo no Brasil. Escrevi esse artigo na China, em 2010.

Monteiro Lobato: pioneiro do petróleo no Brasil

Escritor antecipou, meio século atrás, a condição do Brasil como grande produtor
Publicado sob o título “Um Agitador Petrolífero”, Revista de História da Biblioteca Nacional (Edição Especial n. 1, História da Ciência, outubro 2010, p. 40-43; ISSN: 1808-4001). Relação de Originais 2158. Relação de Publicados n. 1002.

O nome de José Bento Monteiro Lobato domina a primeira história do petróleo no Brasil. Despertado para a importância crucial do petróleo para o desenvolvimento nacional pelo exemplo dos Estados Unidos, ele começou cedo: já em 1918, fundou a Empresa Paulista de Petróleo, sem que, no entanto, dela adviessem resultados concretos, à falta de capitais, equipamentos e competências. Durante sua estada como adido comercial no Consulado do Brasil em Nova York, entre 1928 e 1931, Lobato aprofundou seus conhecimentos no setor. De volta ao Brasil, empreendeu campanhas de mobilização pública e de incitamento à ação do Estado em direção da libertação do Brasil do petróleo importado.
Suas iniciativas eram dotadas de otimismo exagerado e o que mais ele acumulou, ao longo dos anos, foram frustrações e decepções com prospecções mal-sucedidas. Os insucessos não o esmoreceram; Lobato conduziu, através da imprensa e de sua editora, um esforço intenso para conscientizar o país e as autoridades da necessidade de encontrar petróleo, contra a “má vontade da geologia”.
Em 1934, Lobato escrevia a um amigo: “Se o governo não me atrapalhar, dou ferro e petróleo ao Brasil em quantidades rockefellerianas”. Investindo contra as autoridades do setor, ele se convenceu, nessa época, que o principal culpado pela não descoberta de petróleo era o Serviço Geológico Nacional, cuja política, para ele, encampava a dos “trusts” internacionais: “não tirar petróleo e não deixar que ninguém o tire”.
As Forças Armadas, conscientes da fragilidade estratégica do País, impulsionavam os esforços nessa área. A elas foi dedicado seu livro-denúncia, O Escândalo do Petróleo, que teve três edições no mês do seu lançamento (agosto de 1936) e várias outras ao longo dos anos. O papel fundamental de Lobato, nessa fase, foi o de um agitador petrolífero, quase um panfletário. Ele chegou a exibir uma atitude conspiratória, acusando os “trusts” internacionais e as próprias autoridades nacionais de agir contra a extração de petróleo no País:
O petróleo está hoje praticamente monopolizado por dois imensos trusts, a Standard Oil e a Royal Dutch & Shell. Como dominaram o petróleo, dominaram também as finanças, os bancos, o mercado do dinheiro; e como dominaram o dinheiro, dominaram também os governos e as máquinas administrativas. Esta rede de dominação constitui o que chamamos os Interesses Ocultos. (...) Os trusts sabem de tudo [e] lá entre si combinaram: – Nada mais fácil do que botar um tapa-olho nessa gente. Com um bom tapa-olho, eles, que vegetam de cócoras sobre um oceano de petróleo, ficarão a vida inteira a comprar o petróleo nosso; enquanto isso, iremos adquirindo de mansinho suas terras potencialmente petrolíferas, para as termos como reservas futuras. Quando nossos atuais campos se esgotarem, então exploraremos os “nossos” campos do Brasil.

A origem do livro foi uma carta aberta dirigida por Lobato ao Ministro da Agricultura, denunciando dois técnicos estrangeiros do Departamento Nacional de Produção Mineral pela “venda de segredos do subsolo a empresas estrangeiras”. Diante da grave denúncia, o presidente Getúlio Vargas determinou a instalação de uma Comissão de Inquérito, à qual Lobato ofereceu um depoimento escrito, que veio a ser o núcleo de seu livro.
Para o escritor paulista, a Lei de Minas, elaborada pelo DNPM, criara embaraços “para impedir que os trusts estrangeiros se apossassem das riquezas do nosso subsolo. Mas como para embaraçar os estrangeiros fosse necessário também embaraçar os nacionais, resultou o que temos hoje: o trancamento da exploração do subsolo, tanto para nacionais como para estrangeiros – exatamente o que os trusts queriam...” Lobato desconfiava “de todas as entidades estrangeiras que se metem em petróleo no Brasil, já que a intenção confessada não é tirá-lo, e sim, impedir que o tiremos”. Curiosamente, mesmo denunciando a ação dos “trusts” internacionais, Lobato não era contra a participação do capital estrangeiro na exploração do petróleo, e lamentava a postura nacionalista do Código de Minas:
Não sou chauvinista, nem inimigo da técnica e das empresas estrangeiras. Reconheço a nossa absoluta incapacidade de fazer qualquer coisa sem recurso ao estrangeiro, à ciência estrangeira, à técnica estrangeira, à experiência estrangeira, ao capital estrangeiro, ao material estrangeiro. Tenho olhos bastante claros para ver que tudo quanto apresentamos de progresso vem da colaboração estrangeira. E nesse caso do petróleo nada faremos de positivo, se insistirmos em afastar o estrangeiro e ficarmos a mexer na terra com as nossas colheres de pau.

Frustrado com o insucesso de sua campanha junto aos adultos, Monteiro Lobato leva o tema ao público infantil: em outubro de 1937 é lançado O Poço do Visconde, apresentado como um livro de “geologia para crianças”, mas que constituía um manifesto em favor da descoberta e da exploração do petróleo no Brasil.
Não obstante o empenho das autoridades na viabilização da exploração do petróleo, Monteiro Lobato estava convencido de que o governo agia contra as companhias privadas, sabotando suas atividades de empreendedor. Escrevendo, em 1938, a Getúlio Vargas, ele investia contra o diretor do Departamento Nacional da Produção Mineral, autor do Código de Minas, acusando-o de ser “agente secreto dos Poderes Ocultos hostis ao petróleo brasileiro”. Em janeiro de 1940, o presidente sancionou o novo Código de Minas, confirmando todas as disposições nacionalistas existentes e exigindo, dos candidatos ao direito de pesquisar ou lavrar jazidas, “prova de capacidade financeira”, o que foi recebido por Monteiro Lobato como um óbice às suas iniciativas.
Em carta ao general Góis Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército, no início de 1940, ele volta às acusações: “sou obrigado a continuar na campanha, não mais pelo livro ou pelos jornais, porque já não temos a palavra livre, e sim por meio de cartas aos homens do Poder”. Ele então acusa o CNP de agir em favor dos “interesses do imperialismo da Standard Oil e da Royal Dutch”, perpetuando “a nossa situação de colônia econômica dos trustes internacionais”. Sua carta mais desafiadora, em maio de 1940, foi dirigida ao próprio chefe de Estado, quando acusou o CNP de perseguir as empresas nacionais, de criar embaraços à exploração do subsolo e de manter a “idéia secreta” do monopólio estatal.
Getúlio Vargas consultou o presidente do CNP, general Júlio Horta Barbosa, que, em agosto de 1940, desmentia as acusações de Lobato: “àqueles que se dispõem a cumprir a lei o Conselho tem tudo facilitado, mas ao que pretendem burlá-la, como é o caso do Sr. Monteiro Lobato, este organismo, como é de seu dever, vem, não só se opondo, como também dando publicamente as razões [de] porque o faz”. Entre as irregularidades das empresas de Lobato eram apontadas a insuficiente provisão de fundos e a nacionalidade estrangeira de alguns dos seus sócios. Ato contínuo, Horta Barbosa enviou ofício ao Tribunal de Segurança Nacional no qual pedia abertura de inquérito contra o escritor. Esta é a origem das duas prisões de Lobato, em janeiro e em março de 1941, por “injúrias aos poderes públicos”.
Monteiro Lobato se batia pelo petróleo nacional com todas as suas forças, movido bem mais pelo instinto do que pelo conhecimento técnico e pela boa informação geológica. Sua atividade empresarial foi quase amadora – daí a razão do não-credenciamento de suas “empresas de petróleo” pelo CNP – e sua agitação panfletária estava no limite das ofensas às autoridades governamentais. Ele tocava, porém, nos pontos que a seu ver dificultavam e atrasavam a exploração do petróleo no país. Numa carta a Getúlio Vargas de maio de 1940, ele assim se pronunciava em relação ao pretendido monopólio estatal que se cogitava criar nessa área: “Outro aspecto do monopólio é a impossibilidade de o Governo criar com ele a grande indústria do petróleo de que o Brasil precisa. O senhor não ignora a incapacidade do Estado, no mundo inteiro, para dirigir empresas industriais, incapacidade por demais evidente no Brasil. O Lóide Brasileiro e a Central do Brasil são casos típicos.”
Monteiro Lobato se insurgia contra geólogos e funcionários do governo que não estivessem de acordo com suas iniciativas empresariais, confundindo muitas vezes a cautela necessária com que eles viam seus rompantes de entusiasmo pela causa do petróleo com o que ele considerava ser uma sabotagem deliberada em torno desses empreendimentos. Grande escritor, mas dotado de conhecimentos escassos na geologia do petróleo, Lobato agitou mais do que qualquer outro homem público o problema do petróleo no Brasil. Foi um nacionalista sem ser contrário ao capital estrangeiro, e antecipou uma realidade que se materializaria meio século depois de sua morte, em 1948.

Saiba Mais:
Azevedo, Carmen Lucia de; Camargos, Marcia Mascarenhas de Rezende; Sacchetta, Vladimir. Monteiro Lobado: Furacão na Botocúndia (3a. ed.; São Paulo: Senac, 2001)
Lobato, Monteiro. O Escândalo do Petróleo (4a. ed.; São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1936)
Vargas, Getúlio. A Política Nacionalista do Petróleo no Brasil (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1964)
Victor, Mario. A Batalha do Petróleo Brasileiro (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970)

Paulo Roberto de Almeida é doutor em Ciências Sociais (Universidade de Bruxelas, 1984) e diplomata de carreira desde 1977. Trabalhou no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2003-2007). É professor de Economia Política Internacional no Programa de Pós-Graduação em Direito do Centro Universitário de Brasília (Uniceub). E-mail: pralmeida@me.com.

[Beijing, 2158: 28 de junho de 2010]
Publicado sob o título “Um Agitador Petrolífero”, Revista de História da Biblioteca Nacional (Edição Especial n. 1, História da Ciência, outubro 2010, p. 40-43; ISSN: 1808-4001). Relação de Publicados n. 1002.

Disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/165644966/2158_Monteiro_Lobato_pioneiro_do_petr%C3%B3leo_no_Brasil_2010_

Monteiro Lobato e a emergência da política do petróleo no Brasil - Paulo Roberto de Almeida

Já que estamos falando de petróleo, apresento aqui um trabalho meu sobre a luta de Monteiro Lobato para que o Brasil desenvolvesse uma indústria nesse setor, chegando inclusive a ser preso no Estado Novo por sua postara incisiva nesses debates.

1925. “Monteiro Lobato e a emergência da política do petróleo no Brasil”, Brasília, 14 setembro 2008, 23 p. Capítulo de colaboração ao livro: Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga (orgs.), Potência Brasil: Gás natural, energia limpa para um futuro sustentável (Porto Alegre: Laser Press Comunicação, 2008, 144 p; ISBN: 978-82-61450-01-4; p. 12-33). Disponível na plataforma Academia.edu (link:

Divulgado no blog Diplomatizzando (12/04/2026; link:

Relação de Publicados nº 865. 

Pequeno registro histórico sobre os percalços de um itinerário civilizatório:- Paulo Roberto de Almeida

Pequeno registro histórico sobre os percalços de um itinerário civilizatório

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre benfeitores e malfeitores da Humanidade

        Estamos no primeiro quarto do século XXI, depois de alguns milhares de anos de progressos, de benfeitorias, mas também de guerras e de massacres bárbaros, comprovando uma vez mais que toda a evolução positiva, em termos científicos, culturais e humanitários, não foi capaz de obstar, impedir, eliminar ou reduzir o potencial de irracionalidades, maldades, ódios que alguns seres humanos, por vezes comunidades inteiras, são capazes de perpetrar contra outros seres ou povos inteiros.
        A Humanidade melhorou? Certamente. Mas isso ainda não foi suficiente para impedir a ignorância, a burrice e os mais baixos instintos de aflorar nas mentes de certos indivíduos, para prejudicar outros seres humanos e até a si próprios e seus respectivos povos.
        Para não ficar apenas em generalidades filosóficas, vou me permitir descer à nominata de alguns desses monstros que já infelicitaram a espécie humana, sendo que alguns ainda estão em ação. Para ficar apenas nos últimos cem anos, vamos nomeá-los: Stalin, Hitler, militaristas japoneses dos anos 1930-40, Mao, Mobutu, Pol Pot, Saddam Hussein, Muammar Kadaffy, Idi Amine Dada, Pinochet, generais argentinos do golpe de 1976, Putin, Milosevič, Netanyahu, generais sudaneses da guerra do Darfur, todos os processados pelo TPI e, coroando um período infeliz da história americana o inacreditavelmente estúpido, bárbaro, narcisista maligno, psicopata e sádico (diagnóstico feito por psiquiatras responsáveis) DJT, o personagem mais sombrio de uma história relativamente benigna (pelo menos para uma parte da nação, excluindo-se os nativos e os africanos escravizados e seus descendentes discriminados) nos últimos 250 anos, agora adentrando numa triste fase de declínio destruidor.
        Falta mencionar grandes benfeitores da Humanidade, mas estes são em muito maior número dos que os poucos monstros acima referidos.
        Progredimos, a despeito de tudo, como já demonstrou Steven Pinker, mas a passos pequenos e ainda insuficientes. Vamos continuar melhorando os seres humanos, com base no conhecimento, na tolerância, na ausência de fanatismo e no amor ao próximo e na fraternidade universal.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5276, 12 abril 2026, 2 p.

Lula joga o STF aos leões- Editorial Estadão

 Lula não pensou duas vezes em colocar Dirceu ou seu filho na fogueira...pq não faria o mesmo com Moraes ou qq outro.

Lula joga o STF aos leões

Ao sugerir suspeição de Alexandre de Moraes no caso Master, Lula tenta se descolar do escândalo que ameaça o STF, expõe sua estratégia de sobrevivência e reafirma que só é leal a si mesmo.

Por Notas & Informações

12/04/2026 | 03h00

Notícia de presente

Nem a militância petista mais ingênua pode ter dúvida de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um incorrigível pregador de si mesmo. Sua lealdade é invariavelmente submetida ao cálculo de dividendos e prejuízos políticos que cada circunstância lhe oferece. Foi assim no mensalão e na Lava Jato, quando o demiurgo petista não hesitou em entregar aos leões a companheirada encalacrada para conter, tanto quanto possível, o risco de contaminação. Essa memória é essencial para compreender a entrevista que ele concedeu recentemente ao canal ICL Notícias, na qual, ao tentar se proteger, Lula revelou mais do que gostaria.

Ao comentar o escândalo do Banco Master, as estripulias do banqueiro Daniel Vorcaro e suas ramificações no Supremo Tribunal Federal (STF), Lula afirmou ter aconselhado o ministro Alexandre de Moraes a declarar-se impedido: “Não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora a sua biografia”. Acrescentou que desvios devem recair sobre indivíduos, e não sobre o tribunal, e foi além: “Se o cara quer ficar milionário, não pode ser ministro do Supremo”. E, ao tocar no ponto sensível, lembrou: “Mas a sua mulher estava advogando”.

A suspeição é evidente. A mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, prestou serviços milionários ao Banco Master, posteriormente liquidado sob suspeita de fraudes. Ainda assim, o ministro segue atuando em temas ligados ao caso, amparado pela complacência de seus pares e pela crença militante de que a autoproclamada “defesa da democracia” autoriza ignorar conflitos evidentes.

A fala de Lula é, no fundo, o reconhecimento de que o desgaste do STF e o avanço do caso Master terão impacto direto na disputa presidencial. Mas não há, aqui, qualquer súbito despertar ético. Lula não mudou. O que mudou foi o risco. Com o instinto de quem atravessou décadas de crises, Lula percebeu que o escândalo deixou de ser periférico e ganhou contornos de crise sistêmica, com potencial de atingir não apenas ministros da Corte, mas o próprio ambiente político que sustenta sua reeleição. Some-se a isso o fato de que, além de Moraes e Dias Toffoli, orbitam o caso lideranças do Centrão, governadores e nomes associados ao próprio PT.

Diante desse cenário, Lula moveu-se com rapidez. Ao aconselhar Moraes a preservar a biografia, não defende a moralidade pública nem propõe depuração institucional. Demarca distância. No limite, envia um recado inequívoco: se houver naufrágio, cada um cuide do seu bote.

O efeito colateral é potencialmente devastador. Ao admitir que ministros do STF podem ter ultrapassado limites éticos, e ao associar a toga à incompatibilidade com o enriquecimento, Lula implode a narrativa construída pelo consórcio político-institucional que orbita o Supremo e o Palácio do Planalto. Durante meses, vendeu-se a ideia de que críticas à Corte eram ataques à democracia. Agora, é o próprio presidente quem sugere o contrário: o problema pode estar em condutas individuais que exigem escrutínio.

A tentativa de separar o tribunal de seus membros é correta em tese, mas nasce viciada. Lula não age para proteger a instituição, mas para proteger-se. Sua preocupação não é a credibilidade do STF nem a reputação de Moraes. É o impacto eleitoral de um escândalo que pode crescer rapidamente. Em síntese, o recado ao ministro é claro: não comprometa a campanha.

Há ainda um elemento adicional. Ao tornar público esse distanciamento, Lula parece antecipar-se a um possível desdobramento mais grave, que é uma eventual delação premiada de Daniel Vorcaro. Habituado a crises, o presidente sabe que escândalos dessa natureza seguem uma lógica própria e que todo tsunami começa com uma onda de uns poucos centímetros. O caso Master reúne todos os ingredientes de uma tempestade política de grandes proporções: fluxos financeiros opacos, proximidade com o poder e potenciais revelações explosivas. Lula percebeu o risco e mudou de posição. Resta saber se a manobra será suficiente ou se apenas confirma a dimensão da crise que se tenta evitar.



O petróleo, produtor de riquezas e das maldições da corrução e das guerras - The Economist, introdução e resenhas de Paulo Roberto de Almeida

O petróleo, produtor de riquezas e das maldições da corrução e das guerras

The Economist, introdução de Paulo Roberto de Almeida

Contrastes entre o “excesso” de riqueza em algumas partes do mundo e a resiliência da miséria e da pobreza em muitas outras partes do nosso planetinha redondo. A discussão da Economist se refere ao caso da Noruega, um país que saiu de uma pobreza “normal” no século XIX, para uma afluência invejável já em meados do século XX, e que depois “mergulhou” numa riqueza extraordinária, graças a uma “dádiva da natureza”, o petróleo, fonte de muita riqueza, mas também de corrupção, exageros geopolíticos e de várias guerras no Oriente Médio, a fonte por excelência do petróleo dos nosso tempo. Vai demorar ainda muito tempo para que esse nauseabundo e precioso produto deixe de produzir riqueza e de atrair a ambição dos poderosos, como sempre foi o caso do ouro no mundo.

Já escrevi um pouco sobre essas questões— e remeto aqui a minhas resenhas dos livros de Daniel Yergin, mas reproduzo abaixo a matéria da Economist sobre a Noruega. PRA

THE ECONOMIST

05 abril 26

É possível um país ficar rico demais?

A Noruega mostra os potenciais perigos de uma prosperidade incomum

A homenagem da Noruega a Edvard Munch, o pintor mais famoso da Escandinávia, é uma impressionante estrutura de 13 andares feita de alumínio e vidro reciclados, construída na orla do porto de Oslo. Concluída em 2021, ao custo de US$ 350 milhões, sua obra foi ainda mais impressionantemente atrasada (em uma década) e com um estouro de orçamento (de US$ 200 milhões). Erguendo-se acima da densa névoa que cobre o mar em uma tardede inverno, o museu encapsula o país que o financiou: sofisticado e tão rico que dinheiro não é problema.

O petróleo norueguês construiu uma economia que é a inveja de outros países ricos, para não mencionar os pobres. O PIB per capita é de impressionantes US$ 90 mil, ficando atrás apenas de cidades-Estado, paraísos fiscais e da Suíça. 

Desde 1991, o governo acumulou um fundo soberano no valor de US$

2,2 trilhões, ou US$ 400 mil para cada um dos 5,6 milhões de habitantes da Noruega. Os rendimentos sustentam um dos estados de bem-estar social mais generosos do mundo.

No entanto, nem todos os noruegueses estão satisfeitos com isso. Em 2025, o livro de não ficção mais vendido no país foi "O País que Ficou Rico Demais", uma crítica ao modelo econômico escrita por Martin Bech Holte, economista e ex-consultor da McKinsey.

 Bech Holte captou um sentimento emergente. Nas eleições de setembro passado, o partido Progresso, de centro-direita, que argumentou que a Noruega “joga mais dinheiro nos problemas” e precisa parar, foi o partido que mais ganhou terreno. A preocupação é que a riqueza da Noruega esteja distorcendo o comportamento de todos, desde políticos a trabalhadores de escritório e estudantes. Confiantes em receber generosos auxílios, poucos se preocupam o suficiente com o futuro. Será que a riqueza de um país pode comprometer suas perspectivas?

Com os lucros inesperados do petróleo e os retornos dos investimentos, que dobraram o tamanho do fundo soberano na última década, os políticos noruegueses tornaram-se perdulários, acredita Bech Holte. Embora o fundo invista apenas no exterior, para evitar prejudicar o setor privado nacional, ele canaliza dinheiro de volta para o governo, que o utiliza para cobrir a diferença entre gastos e impostos. Em 2008, esse pagamento foi de modestos 36 bilhões de coroas norueguesas (US$ 6,4 bilhões na época), ou menos de 5% das despesas. Em 2025, 414 bilhões de coroas norueguesas (US$ 40 bilhões), um quinto dos gastos, vieram do fundo petrolífero.

Isso está tendo consequências perversas. Os políticos podem adiar decisões difíceis. Os eleitores veem poucos motivos para moderar as demandas por mais gastos. Considere a saúde, a maior despesa do governo. Em média, os serviços médicos custam 30% a mais na Noruega do que na União Europeia.

Mas por que reformar hospitais quando se pode simplesmente investir mais dinheiro no problema? A Dinamarca, que gasta quase o mesmo por pessoa que a Noruega, reduziu o tempo de espera para cirurgias de rotina duas vezes mais rápido que seu vizinho do norte.

Poucos parlamentares se preocupam em avaliar os benefícios e custos econômicos de suas propostas, lamenta um deles. Essa é uma fraqueza em outros lugares, mas a Noruega parece especialmente propensa a ela. Assim como no caso do Museu Munch, as reformas do prédio do parlamento em Oslo levaram quatro anos, em vez de um, e custaram seis vezes mais do que o previsto. 

Em 2023, o governo destinou 250 bilhões de coroas norueguesas

(US$ 25,25 bilhões), metade da arrecadação de impostos sobre o trabalho e o capital, para ajuda externa e para instituições de caridade nacionais. Esse é um preço alto a se pagar para conquistar boa vontade no exterior e aliviar a culpa climática interna. No Reino Unido, esse valor é inferior a 10% dos impostos sobre o trabalho e o capital.

Os cidadãos noruegueses não são menos perdulários que seus representantes. A dívida média das famílias é de 250% da renda anual, a mais alta da Europa. Quando se pode contar com a riqueza nacional para socorrer, a necessidade de poupar para tempos difíceis parece menos urgente. 

Assim como a necessidade de gerar renda. 

Quase um em cada dez noruegueses na faixa dos 20 anos está desempregado, 

em comparação com um em cada 20 dinamarqueses. A taxa de evasão escolar no ensino médio e na universidade na Noruega está entre as mais altas da Europa. O sistema de ensino superior oferece quantos diplomas o estudante desejar, gratuitamente, além de generosos empréstimos estudantis. Isso incentiva as pessoas a adiarem seus cursos, mudarem de área e prolongarem seus estudos.

Consequentemente, a população é altamente qualificada: mais de 70% dos trabalhadores não qualificados do setor de serviços (como baristas e atendentes de call center) nascidos na Noruega possuem mestrado. Pessoas de origem imigrante ocupam 100 mil vagas de pesquisa em ciência, tecnologia e engenharia, metade do total. Outras 100 mil vagas precisarão ser preenchidas até 2030.

Esse hedonismo financeiro já está prejudicando a economia. O Banco Central reluta em aumentar as taxas de juros diante do alto endividamento das famílias, o que enfraqueceu a coroa norueguesa e afastou investidores estrangeiros. A produtividade dos trabalhadores parou de crescer. Os salários reais estão começando a cair.

Poderíamos argumentar que nada disso importa, desde que o país consiga prover para a população atual e as gerações futuras. O PIB importa, politicamente falando, porque é uma forma de garantir o bem-estar dos cidadãos: diretamente, por meio do trabalho remunerado, e indiretamente, por meio de auxílios financiados por impostos. Em teoria, esse bem-estar pode ser financiado com rendas, e não com produção. Enquanto a riqueza nacional crescer mais rápido do que os gastos do governo, isso pode continuar indefinidamente.

Esse tem sido o caso na Noruega. Embora o Tesouro tenha extraído dez vezes mais dinheiro de sua principal fonte de renda em 2025 do que em 2008, essa parcela representava uma parcela menor da avaliação total do fundo. Enquanto os retornos anuais (ajustados pela inflação) ultrapassarem 6%, o governo poderá reduzir a arrecadação de impostos e aumentar os gastos no ritmo atual, mesmo depois que seus poços de petróleo se esgotarem, o que poderá acontecer em 50 anos.

Doença norueguesa

Essa visão é complacente por dois motivos. Primeiro, na prática, a menos que a inteligência artificial impulsione drasticamente a produtividade global, retornos de 6% podem se mostrar inatingíveis.

 Segundo, e mais importante, uma economia próspera beneficia as sociedades  de maneiras que vão além da subsistência. Os políticos são mais responsabilizados se tiverem de pedir dinheiro aos eleitores por meio de impostos. Investidores estrangeiros trazem novos conhecimentos.

 Muitas pessoas encontram satisfação no trabalho. Tudo isso contribui para o florescimento humano. Ninguém deveria invejar a riqueza da Noruega - exceto, se forem sábios, os próprios noruegueses.”

==============

PRA: Essa matéria me faz lembrar o livro do historiador inglês Simon Schama sobre a riqueza extraordinária dos Paises Baixos no século XVII, The Embarassment of Riches (O Desconforto da Riqueza). Os neerlandeses se tornaram tão ricos que começaram a ter gastos perdulários e até a especular nos mercados de futuros (que eles inventaram), investindo em tulipas, sim, nessas simpáticas flores importadas originalmente de fora, e que se tornaram símbolos de riqueza, junto com obras de arte, quadros pessoais retratando os ricaços. A especulação sobre as tulipas causou uma febre geral e uma imensa bolha financeira que redundou na primeira crise financeira da história do capitalismo moderno, como estudado pelo historiador americano Charles Kindleberger em Panics, Manias and Crashes (várias edições). Fiz um artigo sobre isso, trazendo a história para os casos de crises no Brasil. Está em um dos meus livros

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 12/04/2026

Nota sobre minhas resenhas: 


Nota sobre minhas resenhas:

219. “O ‘Prêmio’ é o Petróleo”, Montevidéu, 24 novembro 1991, 11 p. “Review-article” sobre o livro de Daniel Yergin: The Prize: The epic quest for Oil, Money and Power (Nova York: Simon and Schuster, 1991, 877 + xxxiii p.) e referência a artigo de Edward L. Morse, “The Coming Oil Revolution”, Foreign Affairs (Winter 1990/1991). Publicado, sob o título “O ‘Prêmio’ do poder mundial é o petróleo” no Caderno Internacional do Correio Braziliense (Brasília: 3 agosto 1992, p. 6). Relação de Publicados n. 092.

337. “Odor de Petróleo”, Brasília: 25 abril 1993, 8 p. Resenha do livro de Daniel YERGIN, O Petróleo: Uma História de Ganância, Dinheiro e Poder (São Paulo: Scritta Editorial, 1992, 932 p.), com base em resenha anterior feita a partir da versão original do livro. Publicado na Revista Brasileira de Política Internacional (nova série: Brasília: ano 36, n. 1, 1993, p. 158-163). Relação de Publicados n. 138.

Ambas resenhas consolidadas nesta postagem do Diplomatizzando:

domingo, 9 de janeiro de 2011
Odor de petroleo: sempre malcheiroso, e tendente a corrupcao
Percorrendo uma livraria recentemente, o que faço de modo muito frequente, como já é do conhecimento de quem frequenta este blog, deparei com um livro que eu já tinha lido, e que tenho, em sua primeira edição original:

Daniel Yergin"
The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power
(New York, Simon and Schuster, 1991, 877 pp)

As resenhas que fiz, na ocasião, da edição americana e sua tradução brasileira, vão aqui referidas a partir da minha lista de publicados:

092. “O ‘Prêmio’ do poder mundial é o petróleo”, Correio Braziliense (Brasília: 3 de agosto de 1992, p. 6, Caderno Internacional) [Resenha crítica do livro de Daniel Yergin, The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power (New York, Simon and Schuster, 1991, 877 pp)]. Relação de Trabalhos nº 219.

138. “[Odor de Petróleo]”, Revista Brasileira de Política Internacional (nova série: Brasília: ano 36, nº 1, 1993, pp. 158-163) [Resenha do livro de Daniel YERGIN, O Petróleo: Uma História de Ganância, Dinheiro e Poder (São Paulo: Scritta Editorial, 1992, 932pp.)]. Relação de Trabalhos nº 337.

Trata-se, provavelmente, da melhor história do petróleo disponível no mercado, embora existam muitos outros livros mais.
Aliás, comprei na minha última passagem pelos Emirados, mais exatamente em Dubai, este livro que também recomendo:

Peter Maass:
Crude World: The Violent Twilight of Oil
(dispenso-me de dar os dados editoriais completos, pois este livro acaba de me ser roubado, quando eu já estava em seu final, o que me impede, temporariamente, de fazer notas e comentários mais elaborados. Voltarei a ele, oportunamente.)

Bem, voltando a livro de Yergin, a edição brasileira, uma nova, é esta aqui:

Daniel Yergin:
O Petróleo: Uma história de conquistas, poder e dinheiro
tradução de Leila Marina U. Di Natale, Maria Cristina Guimarães, Maria Christina L. de Góes; edição Max Altmann
(São Paulo: Paz e Terra, 2010, 1080 p.; copyright Daniel Yergin, 1991, 1992, 2009; ISBN: 978-85-7753-129-5)

Clique em: https://diplomatizzando.blogspot.com/2011/01/odor-de-petroleo-sempre-malcheiroso-e.html

Material completo consolidado nesta postagem de Academia.edu:
https://www.academia.edu/165638797/5277_O_petroleo_produtor_de_riquezas_e_das_maldicoes_da_corrupcao_e_das_guerras_2026_

The Palgrave Handbook on Geopolitics of Brazil and the South Atlantic, finally completed

A project to which I contributed with a paper about the birth of our geopolitical thinking, with an analysis of the “Memorial Organico”, offered in 1849 by Francisco Varnhagen, the “Father” of our historiography, is finally brought to completion by its editors and publishers, as explained here below by the team of organizers. My personal congratulation to Francisco Leandro and  the others co-editors for this great accomplishment both in terms of its intellectual quality and its important addition to the knowledge of a very broad geopolitical subject touching Brazil in the world.

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, April 12, 2026


Dear Authors and Colleagues,

This message marks the final communication related to The Palgrave Handbook on the Geopolitics of Brazil and the South Atlantic, published by Palgrave Macmillan in December 2025

(https://link.springer.com/referencework/10.1007/978-981-95-1169-3).


Initiated in 2022 and brought to completion in 2026, this project unfolded over four years of sustained scholarly collaboration. With the recent completion of the handbook’s Scopus indexation - representing the final stage of this long and demanding process - the editorial team is pleased to formally consider the project fully concluded.

This significant milestone reflects not only the successful completion of all editorial and publication processes, but also the scholarly recognition, institutional validation, and international visibility that the volume has now achieved.

The handbook’s early reception further attests to its relevance and reach. In less than 90 days following its publication, the volume recorded more than 10,000 accesses, indicating strong international interest and engagement from the academic and policy communities. This level of visibility underscores both the timeliness of the subject matter and the collective scholarly value of the contributions.

Beyond its academic outputs and impact metrics, this handbook stands as a concrete expression of effective institutional cooperation across universities, research centers, and scholarly communities spanning diverse regional, linguistic, and disciplinary contexts. Over the course of the project, more than 200 scholars were involved- as chapter authors, volume editors, peer reviewers, and academic project advisors - making this one of the most extensive collective undertakings in the field. This breadth of participation underscores the genuinely global and collaborative nature of the endeavor.

For the editorial team, it has been both an honor and a responsibility to serve as editors of a Palgrave Macmillan reference work. Palgrave handbooks occupy a distinct place in the production and dissemination of authoritative scholarship, and contributing to this tradition has been a professionally meaningful experience. This honor was matched by a strong sense of editorial responsibility: to uphold the highest standards of academic rigor, inclusiveness, and scholarly integrity throughout all stages of the project.

The editorial team also wishes to formally acknowledge that this project would not have been possible without the institutional support of the University of Macau (THE world rank 145) and the long term relation with Palgrave Macmillan (Thank you Vishal!). The University provided an enabling academic environment that facilitated sustained coordination, scholarly exchange, and intellectual commitment throughout the 2023–2026 period. Its support was instrumental in allowing the editors to bring together a broad international network of contributors and to maintain the continuity and scholarly standards required of a Palgrave reference work.

Equally important has been the role of personal trust, collegiality, and mutual respect among all those involved throughout the 2022–2026 period. The willingness to engage constructively across different theoretical perspectives and geopolitical viewpoints, to accommodate evolving editorial and publication timelines, and to uphold shared standards of academic excellence was fundamental to navigating the complexities inherent in a large-scale collective volume. The combination of strong institutional cooperation and sustained interpersonal trust formed the backbone of the project’s success.

We would therefore like to express our sincere and profound gratitude to all contributors. This handbook would not have been possible without your intellectual commitment, scholarly rigor, and cooperative spirit. Your patience throughout the various stages of conceptualization, development, peer review, and publication - and above all your trust in the editorial team and the collective vision of this handbook - have been essential to its realization.

It has been a privilege to work with such a large, diverse, and distinguished community of scholars over these four years. 

We hope that this handbook will continue to serve as a lasting reference for academic, policy, and strategic debates on Brazil, the South Atlantic, and broader global geopolitics.

With our warmest thanks and best regards,

Francisco José B. S. Leandro (China)

Rodrigo Franklin Frogeri (Brazil)

Yichao Li (China)

Francisco Proença Garcia (Portugal)

António Ruy de Almeida Silva (Brazil)

Leandro, Francisco José (2025). Is China a Global Power? The Three Great Walls of the Middle Kingdom. Singapore, Palgrave Macmillan; https://link.springer.com/book/9789819644513; SCOPUS ID: 10.1007/978-981-96-4451-3

AND

Leandro, F. J. B. S.; Frogeri, R. F.; Yichao Li, Garcia, F. P.; Almeida Silva, A. R. (2025). The Palgrave Handbook on Geopolitics of Brazil and the South Atlantic. Palgrave Major Reference Works. https://link.springer.com/book/9789819511686  

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