Não pretendo entrar no debate sobre se o Brasil deve responder ou não ao governo americano. Acredito, na verdade, que este assunto não tem NADA a aver com os EUA, ou apenas marginalmente (a ojeriza tradicional petista contra "us americanus", ou "estadunidenses".
Isso tem a ver com a subordinação, atenção, vou repetir, TEM A VER COM SUBORDINAÇÃO do Brasil em relação à Rússia. A política externa simplesmente perdeu sua autonomia decisória e se submete a considerações políticas, ideológicas, de quem manda em última instância. A diplomacia profissional está emasculada, perdeu qualquer possibilidade de defender os interesses do Brasil, e se subordina a um criminoso de guerra.
Como sempre, assino embaixo do que afirmo.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 9/07/2026
"EUA criticam decisão do Brasil sobre suposto espião russo | G1" https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/07/08/governo-trump-reage-a-decisao-do-brasil-que-permite-retorno-de-suposto-espiao-a-russia.ghtml
Diplomatizzando
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
quinta-feira, 9 de julho de 2026
A política externa brasileira perdeu sua autonomia, e a diplomacia profissional se subordina a considerações políticas submissivas - Paulo Roberto de Almeida
CREDN-CD questiona o governo sobre o Conselho Nacional de Politica Externa (CONPEB)
CREDN-CD questiona o governo sobre o Conselho Nacional de Politica Externa (CONPEB)
REQUERIMENTO DE INFORMAÇÃO Nº , DE 2026
(Do Senhor LUIZ PHILIPPE DE ORLEANS E BRAGANÇA)
Requer informações ao Ministro de Estado das Relações Exteriores sobre a criação do Conselho Nacional de Política Externa (CONPEB).
Senhor Presidente,
Nos termos do artigo 50, § 2º, da Constituição Federal, e dos artigos 115 e 116 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, solicito ao Ministro de Estado das Relações Exteriores informações detalhadas e fundamentadas acerca da criação do denominado Conselho Nacional de Política Externa Brasileira (CONPEB), anunciado como mecanismo permanente para a participação da sociedade civil na formulação da política externa brasileira.
J U S T I F I C A Ç Ã O
A criação do Conselho Nacional de Política Externa Brasileira (CONPEB), anunciada durante a II Conferência Nacional de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil, realizada entre 8 e 10 de junho na Universidade Federal do ABC1, representa um equívoco institucional gravíssimo, que confronta a Constituição Federal e ameaça a estabilidade, a autonomia e o profissionalismo do Itamaraty.
A iniciativa de estabelecer um órgão permanente para a chamada participação da sociedade civil na formulação da política externa é apresentada pelo governo como instrumento de democratização. No entanto, essa descrição retira o foco do objetivo real da proposta: a entrega da condução técnica e estratégica das relações internacionais brasileiras a estruturas paralelas, que se prestam a interesses político-ideológicos específicos, com forte viés de aparelhamento partidário.
1 https://www.brasildefato.com.br/2026/06/08/governo-lanca-conpeb-primeiro-conselho-permanente-para-participacao-da-sociedade-civil-na-politica-externa/
quarta-feira, 8 de julho de 2026
O summit da OTAN e o bulldozer trumpista (ou seja, o normal costumeiro) - Foreign Policy Situation Report
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Uma nova Internacional Autoritária? - Paulo Roberto de Almeida
Uma nova Internacional Autoritária?
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre a grande divisão mundial entre autocracias e democracias
Existe, isso está claro, uma certa solidariedade por diversos motivos, entre regimes e líderes autoritários.
Sempre houve esse tipo de coalizão entre, de um lado, governos que atuam mais pela força do que pelo Direito, e, de outro lado, aqueles Estados, não muitos, regidos constitucionalmente, buscando atuar guiados por princípios e valores que tomaram inspiração no Iluminismo europeu do século XVIII e em algumas normas liberais que foram se afirmando ao longo dos tempos, várias materializadas em regimes liberais e burgueses que tomaram forma e consistência a partir do século XIX.
Regimes autoritários costumam ser agressivos, vis-à-vis sua própria população, em primeiro lugar, mas também em seu entorno imediato, mas também em direção de paragens mais distantes.
Os regimes democráticos e liberais, por sua vez, buscam agir por meio de consensos possíveis, pelo diálogo e por normas escritas ou consuetudinárias dos instrumentos constitucionais e por tratados internacionais. Não se tem notícias de regimes liberais lançarem guerra contra outros regimes democráticos, fora de impulsos imperiais por governos disfuncionais ou dirigidos por personalidades autoritárias.
Na atualidade, existem alguns exemplos dessas disfuncionalidades. Os EUA de Trump, desbancando tradições liberais e democráticas de sua origem como democracia agropastoril, já no passado industrializante, começou a impor sua vontade sobre vizinhos menores, antes de se lançar, desde 2017, numa ofensiva contra regimes autoritários, a exemplo de Venezuela e Cuba.
A despeito de laços de amizade e até de acordos formais nenhum dos impérios autocráticos mais visíveis veio em socorro desses regimes atacados pelo novo Estado autoritário de Trump, dotado de uma nova doutrina de segurança nacional claramente autoritária e agressiva, pretendendo se apossar unilateralmente de territórios sob jurisdição soberana de outros Estados. A Rússia porque está enredada em suas próprias aventuras imperiais no seu entorno — aliás desde a Georgia em 2008, culminando com a Ucrânia, em 2014 e 2022 — e não pode sequer fazer valer sua solidariedade plena com a Síria de Hassad, a Venezuela de Maduro ou o Irã da teocracia militarizada. A China porque não pretende exercer nenhuma projeção imperial fora dos estritos limites de sua soberania histórica, e porque simplesmente não é um Estado militarista expansionista, buscando estender sua influência pelo sistema multilateral de comércio e pelas normas existentes, flexíveis, do Direito Internacional.
O governo Trump, um regime apenas temporário, destoa dos princípios liberais dos governos democráticos e de economias de mercado avançadas.
O Brasil dos governos lulopetistas parecer ser uma das poucas democracias de países ditos em desenvolvimento que apoiam abertamente regimes autocráticos, na companhia da Índia e da África do Sul, primeiro consorciados no IBAS, depois dando um salto paradigmático para se agruparem no bloco do BRICS, um Frankenstein improvisado, atuando como se fosse um grupo oposto ao G7 (do qual a Rússia já fez parte, nos tempos do G8) e à OCDE.
Tenho procurado nas notas do Itamaraty, sempre tão frequentes a propósito de quaisquer eventos externos dignos de registro, alguma manifestação de solidariedade, até formal, a respeito dos inúmeros, frequentes, constantes ataques terroristas da Rússia contra alvos civis na Ucrânia, provocando muitas mortes e destruições massivas por meio de mísseis balísticos, e NÃO TENHO ENCONTRADO. Só posso explicar como o resultado de alguma conivência com o agressor, o que me parece francamente inaceitável. Eu não esperava isso de uma diplomacia em favor da qual trabalhei incansavelmente durante mais de quatro décadas.
Não creio que o Brasil digno mereça fazer parte de uma Internacional Autoritária. Seria extremamente decepcionante para todo brasileiro defensor de certos valores e princípios que sempre enfeixaram a sua política externa, aliás consolidados na própria Constituição do Brasil.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5392, 8 julho 2026, 2 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/uma-nova-internacional-autoritaria.html).
Um debate sobre o parlamentarismo no Brasil - Luis Alexandre Carta Winter e Paulo Roberto de Almeida
Um debate sobre o parlamentarismo no Brasil
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Comentários a postagem inicial de Luís Alexandre Carta Winter, a propósito de sua preferência por um regime de tipo parlamentar no Brasil
Começo por transcrever uma postagem do colega e amigo Luís Alexandre Carta Winter em seu Facebook, em 7/07/2026, defendendo a implantação de um regime de tipo parlamentar no Brasil, proposta com a qual concordo, mas efetuando algumas qualificações tal como transcritas no imediato seguimento de seus argumentos.
Os nossos principais candidatos são, unicamente, populistas e demagógicos. Um, com uma péssima assessoria, inaugura, algo até agora inexistente, no Rio Grande do Norte: canal do rio São Francisco só que sem água; outro vai ao Trump pedir a não sobretarifa dos produtos brasileiros, mas que puna representantes de nosso STF.
Ridículo! Sou pela implantação do sistema parlamentarista!
Perguntaram-me, ontem, afinal de contas, qual a razão de eu defender, tanto, esse sistema! Usando um raciocínio reverso, qual de nossos "presidenciáveis", tem, realmente, programa de governo? Nenhum tem! E, para que ter? Em nosso sistema presidencialista de coalizão, se governa, "acomodando" os interesses dos congressistas!
Ideologia? Completamente desnecessária! Há um pragmatismo do possível, e, não, do necessário! Lembrando que no presidencialismo, o presidente é chefe de estado(isto é, representa o Brasil perante o mundo), e chefe de governo(isto é, é o responsável pela condução do programa de governo). No sistema parlamentarista, não! O executivo é separado na chefia de estado e na chefia de governo! O chefe de governo é o gabinete, presidido por um primeiro-ministro! A eleição se passa, necessariamente, pelo programa de governo! Se vencedor, na eleições, o partido não implementar o que defendia, para ganhar as eleições, há dois caminhos: voto de desconfiança, caindo o governo, convocando-se novas eleições; ou, o governo, tentando implementar novo programa, ele mesmo propõe, ao chefe de estado, a dissolução do gabinete, e antecipação das eleições, visando "legitimar" o novo programa. Acrescente-se, a isso, que a responsabilidade do gabinete é solidária! Isto é, se um dos ministros for pego, por corrupção, cai o gabinete e são convocadas novas eleições! Necessariamente há uma maior participação popular!
Mas parlamentarismo, com esses políticos e esses partidos, não funciona! Sei! Temos esses políticos e esses partidos, em razão do sistema presidencialista de coalizão! Hora de mudar as coisas!
Pela implantação do sistema parlamentarista!!!
==============
Sou inteiramente a favor de um sistema parlamentar de governo, como já tivemos no passado, de forma mais consolidada a partir do segundo reinado, com as interferências ocasionais do Poder Moderador, sob responsabilidade do Imperador.
A experiência histórica reconhece no parlamentarismo a melhor e mais eficiente forma de governo, mas com as marcas da estrutura política e social de cada país. Estou convencido de que, em função do extremo fisiologismo do sistema político-partidário atualmente existente no Brasil, a baixa educação politica do eleitorado, para não dizer a baixa educação tout court, o rent-seeking embutido de maneira deformada no estupro orçamentário das emendas parlamentares obrigatórias (o que transforma cada vez mais os representantes nas duas Casas em meros vereadores federais, com imensas doses de corrupção, desmandos e desvios em toda a cadeia dos recursos da União), a deformação ampliada do sistema representativo introduzido pela ditadura militar por razões oportunistas desde 1977, e por uma série de outros motivos e fatores institucionais e de comportamento venal de muitos caciques dos partidos políticos, por todos esses motivos, um eventual e futuro parlamentarismo brasileiro representará, durante vários anos, a exacerbação de todos os “ismos” negativos do atual sistema: fisiologismo, prebendalismo, patrimonialismo, nepotismo, rentismo, populismo, para não dizer corrupção pura e simples a partir de organizações criminosas já instaladas no cenário politico, financeiro e outros.
Teremos um longo caminho de purificação de um sistema parlamentar credível, com limitação da orgia partidária hoje existente. Para isso, é absolutamente necessária a EXTINÇÃO do Fundos Partidário (pois partidos são entidades de DIREITO PRIVADO) e do Fundo Eleitoral, pois cada simpatizante escolhe contribuir para o que lhe apetece, e também da propaganda eleitoral a cargo dos poderes públicos. Com essas mudanças, progressivas, sou a favor do parlamentarismo, sabendo, porém, realista que sou, que tais alterações são e serão extremamente difíceis no curto prazo, e de implementação altamente duvidosa.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5393, 8 julho 2026, 2 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (8/07/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/um-debate-sobre-o-parlamentarismo-no.html).
A França e a democratização da Siria - Foreign Policy
Unwavering Support
Foreign Policy, July 7, 2026

French President Emmanuel Macron (right) shakes hands with Syrian President Ahmed al-Sharaa during a visit to the Umayyad Mosque in Damascus, Syria, on July 6.Ludovic Marin/AFP via Getty Images
Syrian President Ahmed al-Sharaa was hoping to demonstrate Syria’s shift toward democracy during his first Damascus-hosted summit with a major Western leader on Tuesday. Instead, French President Emmanuel Macron’s historic visit was marred by violence as explosions in the capital—the second such attack this month—injured at least 18 people. No group has claimed responsibility for either attack.
Just two years ago, Sharaa had a $10 million U.S. bounty on his head for his ties to al Qaeda. However, since ousting longtime dictator Bashar al-Assad in December 2024, Sharaa has implemented democratic reforms in an effort to rebrand his (and his country’s) global image. In a little more than a year, Syria has joined the U.S.-led coalition against the Islamic State, convinced the European Union to lift all economic sanctions on Syria, signed investment deals worth tens of billions of dollars to rebuild the war-torn country, and allowed millions of Syrian refugees to return home.
Yet bouts of violence by religious and ethnic minorities have plagued Sharaa’s efforts. Many groups remain skeptical of his agenda. Across the country—particularly in regions with large Alawite, Druze, and Kurdish communities—hundreds of people have been killed in clashes between government forces and minority rebels. And on Thursday, a bombing at a crowded café in Damascus killed at least 10 people and injured more than 20 others.
However, Macron’s faith in Syria’s future appears to be unwavering. “Nothing can smother the aspiration of Syrian women and men to live in a fully sovereign, safe, pluralistic, and united Syria,” Macron wrote on X on Tuesday just hours after the explosions. “This morning, I met Syria in all its diversity. I saw dignity, courage, and determination.”
Macron signaled his support for Sharaa’s government by carrying out his scheduled meetings even after the explosions had occurred. During these talks, the two leaders signed more than a dozen agreements, including a pact to reappoint their ambassadors for the first time in roughly 14 years.
“France is ready to be a partner,” Macron said, adding that Paris will return more than $50 million in confiscated assets that once belonged to Assad’s family.
Tuesday’s deals also included new efforts to bolster cooperation in healthcare, transportation, and banking. French investment dominated discussions, with the CEOs of TotalEnergies and French container shipping group CMA CGM accompanying Macron in Damascus. Regional security issues were also addressed, as Macron warned Sharaa against deploying Syrian forces to Lebanon—a strategy that U.S. President Donald Trump has suggested could be useful to fight Hezbollah—and Sharaa pushed for greater Syrian influence in the Strait of Hormuz.
“Syria, which shaped its recovery and reconstruction priorities by the hands of its own people, opens its doors today to an equal partnership,” Sharaa said on Tuesday in a joint press conference with Macron. “A partnership that repositions Syria as a secure and vital connecting node and an indispensable civilizational and economic bridge between East and West.”
Newsletter de l’Institut Français de Géopolitique (IFG): les grands enjeux géopolitiques contemporains Hommage a Yves Lacoste
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