sábado, 14 de março de 2026

O ESTREITO DE ORMUZ - Luiz Roberto Bendia (Canal Geo Discussões de Marcelo Rossi)

O ESTREITO DE ORMUZ
Luiz Roberto Bendia

Do canal Geo Discussões de Marcelo Rossi
12/03/2026

Todos pensam que o Irã pode fechar o Estreito de Ormuz. Isso está errado. O Irã não o fechou. Foi Londres. Não o governo.
As seguradoras.
A artéria petrolífera mais importante do mundo quase parou de fluir.
Deixe-me explicar.
Todos os dias, cerca de 107 navios cargueiros normalmente passam por ali.
Linhas vitais de energia para a economia global.
Na semana passada?
Apenas 19 navios cruzaram.
Um colapso de 81% no tráfego. Sem mísseis.
Apenas uma decisão: as seguradoras retiraram a cobertura.
Eis como o transporte marítimo global realmente funciona.
Cerca de 90% dos navios do mundo são segurados por 12 clubes de seguros marítimos. Esses clubes dependem dos mercados de resseguros — a maioria sediada em Londres.
Quando o risco de guerra aumenta, as resseguradoras podem retirar a cobertura.
E quando isso acontece:sem seguro!!!
→ os navios não podem navegar
→ o comércio para.
Um petroleiro de US$ 150 milhões não navegará sem seguro. Portanto, o Estreito de Ormuz não foi bloqueado pela marinha.
Foi bloqueado por uma planilha.
Agora, a verdadeira questão:
Quem está sendo realmente estrangulado?
Três atores.
1. Irã
Quase todas as exportações de petróleo iranianas passam por Ormuz. Se o transporte marítimo entrar em colapso o Irã não poderá exportar. Sua receita de guerra desaparece. Ironicamente, a arma petrolífera prejudica primeiro o próprio Irã.
2. China
A China é o país mais exposto do mundo a uma interrupção em Ormuz.
* Cerca de 40% das importações chinesas de petróleo bruto passam pelo estreito
* Cerca de 90% das exportações de petróleo iranianas são destinadas à China
* Os carregamentos de GNL do Catar para a China precisam atravessar Ormuz.
Portanto, se essa rota congelar, a segurança energética da China começa a ser abalada. É por isso que Pequim rapidamente pediu a desescalada.
3. Todo o Golfo
* Arábia Saudita
* Emirados Árabes Unidos
* Catar
* Kuwait
* Iraque
Suas exportações de petróleo dependem disso.
O Estreito de Ormuz transporta cerca de 20 milhões de barris por dia. Não há rota alternativa.
E é aqui que o sistema financeiro britânico entra discretamente na história.
Durante séculos, Londres dominou o mercado de seguros marítimos. Dos mercados de Lloyd's ao resseguro global. Isso significa que quando Londres decide que o risco é muito alto, o transporte marítimo global congela. Nenhum bloqueio é necessário.
Isso ajuda a Rússia?
A curto prazo, sim. Se as exportações do Golfo diminuírem:
* Os preços do petróleo sobem
* O petróleo bruto russo se valoriza
* A Ásia pode comprar mais petróleo russo
Preços mais altos significam mais dinheiro para Moscou.
E a Índia?
A Índia importa cerca de 85% do seu petróleo. Grande parte vem do Oriente Médio. Se a instabilidade no Estreito de Ormuz persistir:
* Os custos de frete aumentam
* Os preços do petróleo disparam
* A pressão inflacionária aumenta.
A vantagem da Índia é a diversificação.
Ela compra de:
* Produtores do Golfo
* Rússia
* Outros fornecedores.
Mas se o Estreito de Ormuz permanecer instável, todos pagarão mais.
Qual a maior lição aqui?
A maioria das pessoas pensa que a geopolítica é controlada por:
* Presidentes.
* Generais.
* Mísseis.
Mas às vezes os verdadeiros guardiões são os atuários que executam modelos de risco em Londres. Eles não disparam armas. Eles precificam a probabilidade. E quando os números não fecham o comércio global simplesmente para.
Se você quer entender a geopolítica moderna, lembre-se disto: o mundo não é mais controlado apenas por governos.
Ele é controlado por sistemas.
* Sistemas de seguros.
* Sistemas de energia.
* Sistemas financeiros.
Mísseis criam manchetes. Modelos de risco decidem o que realmente se move.
*****


Formação de uma estratégia diplomática: Relendo Sun Tzu para fins menos belicosos - Paulo Roberto de Almeida

Dez anos atrás, eu fazia, de forma resumida, mais um dos meus "clássicos revisitados". Está na hora de retomar o exercício.


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Sun Tzu tem algo a ensinar aos diplomatas? Parece que sim... - uma releitura da Arte da Guerra, por Paulo Roberto de Almeida



Formação de uma estratégia diplomática
Relendo Sun Tzu para fins menos belicosos

Paulo Roberto de Almeida

Os argumentos constantes do presente ensaio analítico se inserem num conjunto de trabalhos – já feitos ou em preparação – que podem ser enfeixados na categoria dos “clássicos revisitados”, entre os quais um Manifesto Comunista adaptado a estes tempos de globalização,[1] e um Moderno Príncipe,[2] que pretende aproveitar os conceitos do florentino para a política atual. Da mesma forma, pode-se reler Sun Tzu e aproveitar os ensinamentos contido na Arte da Guerra[3] para uma reflexão de caráter conceitual sobre a estratégia diplomática – referida simplesmente como ED – no contexto das relações internacionais contemporâneas. A esse título, não se trata de refazer, obviamente, uma “arte da guerra para diplomatas”, e sim tão somente de tecer considerações sobre uma (e não a) estratégia diplomática, com base nos argumentos basicamente filosóficos – e, claro, muitas regras práticas – presumivelmente redigidos pelo conhecido mestre chinês, legitimamente considerado o “pai da estratégia” (no seu caso, militar).

Da diplomacia como um instrumento do Estado
A diplomacia é de vital importância para o Estado. Talvez não tão crucial quanto a defesa do Estado por suas forças armadas, pois destas depende a própria sobrevivência física do Estado. Este pode, teoricamente sobreviver sem manter intensas relações internacionais, ou sem exercer uma diplomacia ativa. Mas ele dificilmente teria vida longa, ou conseguiria preservar seus interesses vitais, sem uma capacitação adequada em matéria de instrumentos defensivos (que são, igualmente, mecanismos ofensivos, credíveis, tanto para a dissuasão quanto para o ataque).
A diplomacia é, todavia, crescentemente relevante não apenas para a defesa dos interesses fundamentais de um Estado, mas sobretudo para se alcançar os objetivos nacionais relevantes de uma nação no contexto contemporâneo, partindo do pressuposto que a sociedade humana e a comunidade das nações se afastam, cada vez mais, do direito da força para aderir à força do direito. O mundo contemporâneo abandonou, progressivamente, os esquemas restritos dos arranjos interimperiais – embora a última instância da política internacional permaneça com as grandes potências – para adentrar no multilateralismo dos esquemas de segurança coletiva consolidados nos instrumentos onusianos. Da diplomacia depende – paralelamente ao exercício potencial do poder militar – a preservação de um ambiente de paz e de estabilidade, tanto quanto de cooperação nos planos bilateral, regional ou multilateral a que aspira todo Estado que privilegia a solução de controvérsias pela via das negociações. Esta é uma condição essencial, hoje indispensável, para o crescimento econômico sustentado, os avanços tecnológicos, o progresso social, a preservação do meio ambiente, enfim, para a prosperidade comum.
Adaptando nossa releitura de Sun Tzu ao contexto diplomático, poderíamos dizer que a arte da diplomacia implica cinco fatores principais, que devem ser objeto de nossa contínua reflexão, com vistas a aperfeiçoá-los e incorporá-los cada vez mais às nossas práticas de servidores do Estado no campo da política externa. Estes cinco fatores são: a doutrina, a interação entre a conjuntura e a estrutura, os condicionantes econômicos e geopolíticos da ação diplomática, o comando e a disciplina. A partir desses cinco fatores é possível elaborar uma “estratégia diplomática”, que será objeto da segunda seção deste ensaio introdutório.

doutrina tem a ver com a concepção mesma da diplomacia, a sua razão de ser. Ela diz respeito aos princípios inspiradores da diplomacia, aos valores que fundamentam a sua ação, às diretrizes que guiam essa ação na prática. Ela também se refere a uma noção clara dos interesses nacionais e aos instrumentos indispensáveis à implementação dos objetivos fundamentais do Estado, cujo pressuposto básico  é, obviamente, o ato de dispor de uma doutrina básica para sua atuação diplomática – sem esquecer uma estratégia militar --  no cenário internacional.
interação entre a conjuntura e a estrutura pode ser vista como o equivalente funcional daquilo que Sun Tzu chamava de tempo. Essa interação supõe a combinação da sincronia e da diacronia – ou seja, o momento presente e a flecha do tempo –, que constituem os dois vetores de atuação diplomática ao longo de um determinado período. Toda diplomacia lida com o aqui e o agora, mas ela o faz tendo em vista as consequências futuras das ações adotadas na presente conjuntura e levando em consideração a herança recebida do passado recente, que imprime sua marca sobre a mente dos diplomatas e determina, em grande medida, a forma como eles vão agir no presente.
Os condicionantes econômicos e geopolíticos representam o fator que Sun Tzu chamava de espaço, isto é, o ambiente concreto no qual devem se movimentar os “exércitos” diplomáticos, em busca da materialização dos objetivos nacionais.
comando atende aos mesmos critérios estabelecidos pelo mestre chinês da arte da guerra para esse conceito. Ele tem a ver com a capacidade exibida pelas lideranças diplomáticas – o estadista, o chanceler, os altos responsáveis pela formulação da doutrina e pela definição das principais diretrizes diplomáticas – de indicar claramente aos membros da comunidade diplomática nacional quais são os objetivos pelos quais eles devem se bater.
Sun Tzu considerava que o comando deveria ter as seguintes qualidades: sabedoria, sinceridade, benevolência, coragem e disciplina. Dessas cinco qualidades, a primeira é certamente necessária ao comandante, assim como a quarta, embora esta deva pertencer mais ao comandante militar do que propriamente ao chefe da diplomacia. Maquiavel certamente descartaria a segunda e a terceira, ou seja, a sinceridade e a benevolência, embora considerasse esta última como um recurso a que o condotier poderia apelar quando estivesse em situação de força, justamente. Quanto à ultima, deve ser considerada mais como uma variante do rigor consigo mesmo do que o exercício da disciplina “contra” seus próprios subordinados, que é o objeto do último fator da arte da diplomacia.
disciplina, no plano da diplomacia, tem a ver com organização e métodos, ou seja, a construção de uma ferramenta burocrática que seja, ao mesmo tempo, eficiente e inovadora, prudente e ousada, preparada no plano da informação e do conhecimento e apta a seguir instruções de forma ordenada e coerente, atuando como uma agência homogênea e uniforme. Isto é possível quando o estamento burocrático-diplomático possui processos de socialização e de construção de um pensamento relativamente unificado e convergente.
Com base nesses cinco fatores, as autoridades diplomáticas de um Estado podem planejar seus objetivos externos – a que chamaremos de “estratégia diplomática – a partir de um conjunto adicional de fatores instrumentais que têm a ver, essencialmente, com a implementação prática desses objetivos, quaisquer que sejam eles. Entre esses fatores figuram os seguintes: a capacidade dos dirigentes diplomáticos em formular metas realistas e adequadas para a mobilização efetiva do estamento profissional diplomático; a avaliação correta dos limites e possibilidades oferecidas pelo sistema internacional para que aqueles objetivos possam ser alcançados; o uso eficiente de todos os mecanismos e instrumentos do sistema internacional – instituições formais, grupos informais, coalizões temporárias de interesse, combinação de iniciativas bilaterais, coordenação regional e exploração dos canais multilaterais – segundo a natureza de algum objetivo específico; coordenação interna das agencias públicas que detêm alguma interface internacional e instruções claras aos agentes diplomáticos nas diversas frentes negociadoras para se alcançar eficácia máxima nas iniciativas diplomáticas desse Estado.
Mesmo sob condições democráticas, e portanto transparentes, a eficiência e a eficácia na ação diplomática de um Estado depende, em parte, do tratamento discreto que possa atribuir a determinados temas de seu interesse crucial na frente externa. Toda negociação diplomática é, por definição, uma barganha entre interesses por vezes convergentes, mas em certa medida contraditórios, quando não divergentes ou opostos (na medida que todo e qualquer acordo sempre implica em custos políticos e econômicos, a começar pela perda relativa de soberania, o que se deve limitar o máximo possível). Daí a necessidade de se encaminhar um determinado tema com base em argumentos de utilidade geral e de benefício recíproco que podem oferecer a base para um entendimento mais próximo dos interesses nacionais.
Esta questão implica também que o trabalho de avaliação deve envolver não apenas os interesses próprios do Estado em questão, mas igualmente os interesses do Estado, ou dos Estados com os quais se negocia, de maneira a permitir as acomodações necessárias. Dito isto, caberia, portanto, passar aos argumentos principais, que têm a ver com a elaboração e a implementação de uma estratégia diplomática (ED).

Da estratégia diplomática como uma das artes especializadas do Estado
Analogamente a seu equivalente militar, mas nisso talvez destoando um pouco de Sun Tzu, poderíamos dizer que a ED consiste na mobilização de instrumentos políticos, econômicos e militares – ponderados com base numa avaliação comparada e em análises conceituais e factuais sobre as intenções dos demais participantes do jogo diplomático – com vistas à consecução de objetivos nacionais bem definidos, mas sem o recurso à, ou a ameaça do uso da, força militar ou à guerra. Nesse sentido, a ED se opõe à, ou se distingue da, estratégia militar, que pressupõe, de sua parte, o uso ou a ameaça de uso da força bruta, segundo linhas que já foram suficientemente discutidas ao longo da história, desde Sun Tzu até os modernos estrategistas militares, passando por Clausewitz, Henry Kissinger ou Raymond Aron.
No plano puramente conceitual, a formulação de uma ED implica a análise dos fatores contingentes, de obstáculos conjunturais e de barreiras de caráter estrutural que dificultam – em alguns casos até obstaculizam – o atingimento dos objetivos nacionais, tais como definidos pelos estrategistas de um determinado Estado, uma comunidade variada que pode envolver desde estadistas até burocratas do planejamento governamental, passando por representantes da cidadania e consultores independentes (membros da academia, especialistas setoriais, etc.). No plano operacional, a ED pressupõe a mobilização de todos os instrumentos à disposição desse Estado para o atingimento daqueles objetivos, o que implica o uso dos meios propriamente diplomáticos, mas também o apoio das forças armadas e da comunidade econômica do país.
Todo Estado moderno, atuante, inserido na comunidade internacional, normalmente dotado de órgãos executivos e de planejamento, possui, ou deveria possuir, uma ED. Não se deve, evidentemente, superestimar uma ED: não se trata de algo fixo ou rígido, estruturalmente determinado, mas de uma concepção determinada por fatores conjunturais e até contingentes, concomitante às iniciativas dos Estados e às ações humanas.
Uma ED realista e flexível deve submeter-se, desde logo, a constantes revisões, tantos são os fatores de mudança conjuntural e as alterações no cenário político internacional que influenciam ou impactam os objetivos nacionais de um Estado. Ela deve estar, portanto, sujeita a avaliações regulares por parte de um staff especialmente preparado para essa finalidade e dedicado funcionalmente a esse tipo de tarefa. Não conviria, aliás, que o órgão encarregado da elaboração de uma ED fosse exclusivo e excludente, ou seja, trabalhando unicamente em torno da ED, e sim que ele seja aberto a insumos externos e à colaboração de especialistas e consultores alheios ao próprio órgão, de forma a manter uma atmosfera aberta inovadora, permitindo até revisões radicais da “velha” ED (ou seja, indo temporariamente num sentido contrário à “razão de Estado”).

Uma ED, ainda que elaborada por um governo determinado, não é, ou não deveria ser, uma concepção e uma ação de um governo, e sim uma iniciativa e uma postura de Estado, ou seja, interessando antes à Nação do que aos partidos e personalidades ocupando temporariamente o poder. Como atividade típica de Estado, a ED deve estar sujeita ao escrutínio de todas as forças, movimentos e grupos de opinião representativos da Nação, ser objeto de discussão e de avaliação quanto a seus fundamentos concretos, seus instrumentos operacionais, seus objetivos explícitos e suas metas implícitas. Normalmente é isso que ocorre em sistemas democráticos, tanto mais intensamente quanto mais abertos e transparentes são os elementos centrais que definem e ajudam a implementar uma ED.
Os processos de concepção, elaboração e de revisão da ED se dão no corpo do Estado, envolvendo as agências voltadas para as relações exteriores, os órgãos de defesa e o governo central, ademais das instâncias voltadas precipuamente para planejamento de políticas e de análises aplicadas; eles passam pelo parlamento e alcançam a sociedade, por meio da opinião pública, devidamente informada pelos órgãos de informação.

O planejamento de uma ED implica, antes de qualquer outra ação, tratar dos meios próprios a uma organização diplomática: de nada serve ter uma ED sem a ferramenta que a implementará. Estamos falando aqui de funcionários, equipamentos, recursos, organização, enfim, todos os meios com os quais todo e qualquer Estado leva sua ED da fase de concepção à de aplicação no terreno. Na diplomacia, como na guerra, nada existe estaticamente, ou de forma puramente passiva, mas, sim, compõe-se de interações dinâmicas; os meios precisam ser sempre mantidos, aperfeiçoados, substituídos, instruídos e monitorados.
Diferentemente da guerra, porém, não é preciso ter um planejamento logístico destinado a concentrar forças e operações ofensivas num espaço de tempo delimitado e num terreno previamente estudado. Em outros termos, as ações diplomáticas não necessitam de uma “concentração de fogo” para se lograr alguma vantagem decisiva no calor da batalha. A dinâmica diplomática é mais cumulativa, do que “destrutiva”, e as operações podem ser delongadas em função de uma avaliação contínua e mutável das condições do “terreno”, em função da interação com o “adversário”, que, no ambiente diplomático, não significa uma atitude de confrontação como na guerra e nas demais operações militares. A ED é bem mais intangível do que a EM, baseada no planejamento, certamente, mas em última instância na força bruta.
Diferente da guerra, também, a conduta diplomática se baseia menos em meios materiais, ou equipamentos “pesados”, e mais em negociações diretas, quase pessoais, entre os atores. Não se trata de “aniquilar” o inimigo, mas sim de convencer e compor com um parceiro, mais que um adversário. A guerra desgasta, se mantida durante muito tempo, ao passo que a diplomacia avança, com a composição de interesses. A “logística” da diplomacia possui uma lógica própria, baseada – aliás, como no caso das operações militares – na presença sobre o “terreno” e na interação constante com o “adversário”; diferentemente, porém, não se trata de vencê-lo, mas de compor com ele um novo terreno de interações e de cooperação.
Essa presença tem um “preço”, que é o custo da manutenção de representantes diretos – os “agentes avançados” dos serviços de inteligência militar – e do envio de missões temporárias e permanentes, assim como o engajamento pleno em negociações em nível bilateral, regional ou multilateral. Esse preço pode ser o equivalente funcional da manutenção, bastante custosa no âmbito militar, de equipamentos pesados que se destinam, na verdade, a não serem usados, mas que servem basicamente para dissuasão. No caso da diplomacia, a “dissuasão” é na verdade o diálogo e o entendimento, se possível no mais alto nível (mas de ordinário mantida pelo representante permanente, normalmente chamado de embaixador).
A condução da diplomacia será, evidentemente, diferente, segundo o Estado ostenta um regime político centralizado ou unitário, próximo do autoritarismo, ou se esse Estado exibe características claras de descentralização, com dispersão relativa dos centros de poder e participação de vários atores políticos e sociais. O Estado do mestre chinês da arte da guerra, não obstante a descontinuidade ocasional trazida por uma sucessão extraordinária de dinastias, invasões e de reconstruções sucessivas do sistema político, exibiu notável continuidade na centralização imperial, no limite do despotismo “hidráulico”. Nesse tipo de regime, a condução da diplomacia obedece, simplesmente, à vontade do soberano, com alguma participação dos cortesãos e membros do aparato estatal restrito (antigos mandarins, modernos aparatchiks).

A condução da diplomacia nas modernas condições democráticas se faz sob forte pressão de forças sociais suscetíveis de expressar posições distintas e de influenciar o processo de tomada de decisão no plano externo. A despeito da legitimidade que possam exibir essas demandas, seria conveniente que o Estado, em especial seu aparelho diplomático, preservasse sua latitude de ação e ampla margem de opções, de maneira a escolher as melhores vias – que envolvem alianças ocasionais, coordenações formais e até iniciativas individuais – para alcançar os objetivos nacionais desse Estado. Pode-se inclusive conceber certa autonomia de iniciativa e de ações atribuída ao negociador principal, da mesma forma como se concede pleno poder de comando ao general em seu campo de batalha. Em momentos decisivos, essa autonomia deve ser plena, posto que a autoridade responsável pelo sucesso (ou fracasso) de uma negociação ou iniciativa diplomática é o próprio agente no terreno, não o soberano em sua capital distante.
Em todas essas questões, Sun Tzu tem muito a ensinar aos diplomatas profissionais (e até aos iniciantes).

Brasília, 5 março 2011.

Resumo: Releitura introdutória do clássico Arte da Guerra, de Sun Tzu, adaptando seus argumentos para o objetivo de formulação de uma estratégia diplomática, necessariamente distinta da concepção militar que presidiu à sua elaboração.



[1] Ver Paulo Roberto de Almeida, Velhos e novos manifestos: o socialismo na era da globalização (São Paulo: Juarez Oliveira, 1999).
[2] Cf. Paulo Roberto de Almeida, O Moderno Príncipe: Maquiavel revisitado (Brasília: Senado Federal, 2010).
[3] O clássico de Sun Tzu pode ser encontrado facilmente na internet, numa infinidade de edições eletrônicas, em várias línguas e nas mais diferentes traduções e adaptações para o Português, voltadas tanto para o contexto militar quanto para o mundo dos negócios.


Uma peça de conhecimento histórico sobre o Islã: - Gustavo Binenbojm

Uma peça dd conhecimdnto histórico sobre o Islã:

 Gustavo Binenbojm (UERJ) escreveu:

O Islã Foi a Civilização Mais Avançada da Terra… Até o Dia em Que Matou o Próprio Cérebro em 1095

Imagine o Cairo do século XII. O Nilo ainda carregava as memórias dos faraós, mas o ar que se respirava era puro intelecto. Nas madrasas e nas bibliotecas de Fustat, o árabe não era apenas a língua do Alcorão, era a língua da humanidade civilizada. Era o que o inglês é hoje: o idioma em que se debatia se o mundo era eterno ou criado, se a alma era imortal ou se dissipava, se Deus obedecia às leis da lógica ou as transcendia. E foi nesse árabe cristalino que um judeu sefardita chamado Moisés Maimônides, fugindo das perseguições almóadas, escreveu o Guia dos Perplexos, não em hebraico, não em latim, mas em árabe impecável.

Por quê?

Porque o árabe era a língua de Ibn Sina (Avicena), de Al-Farabi, de Ibn Rushd (Averróis). Era a língua dos gigantes. Maimônides não escrevia para os muçulmanos. Escrevia com eles, contra algumas de suas ideias, mas no mesmo palco intelectual. O Islã, naquela época, era a civilização do conhecimento. O Ocidente cristão ainda gaguejava em mosteiros frios. O Islã iluminava o mundo.

Depois, tudo desandou.

E o responsável por virar a chave não foi um bárbaro invasor. Foi um dos maiores pensadores que o Islã já produziu: Abu Hamid Al-Ghazali.Em 1095, aos 37 anos, o homem mais respeitado de Bagdá, professor da Nizamiyya, a Harvard do Islã medieval, sofreu uma crise espiritual que o destruiu por dentro. Abandonou tudo. Trancou-se em solidão. E escreveu “A Incoerência dos Filósofos”. Com uma inteligência afiada como lâmina de Damasco, Al-Ghazali desmantelou a ponte entre fé e razão que Avicena havia construído com tanto cuidado. Deus, para ele, não era um relojoeiro aristotélico que seguia regras. Deus era o único agente real do universo. O fogo não queimava o algodão por causa de uma lei natural, queimava porque, a cada milésimo de segundo, Alá decidia queimar. A causalidade era ilusão. A filosofia, heresia velada. A razão, uma serva perigosa. Al-Ghazali não era um fanático ignorante. Era um pensador atormentado que escolheu a certeza divina em vez da dúvida científica.

E foi exatamente aí que a porta do ijtihad, o esforço racional independente, começou a se fechar para sempre. A partir de Al Ghazali, a decadência foi constante, As sociedades islâmicas nunca mais se recuperaram, e por isso sem dúvida alguma ele é um dos personagens mais influentes da história. O Irã de hoje, O wahabismo saudita, Al Qaeda, ISIS, Hamas, Hezbollah e tantos outros movimentos, todos filhos de Al Ghazali. O Islã, que havia sido o motor do progresso humano, trocou o laboratório pela mesquita, a pergunta pela resposta pronta, o perplexo pelo dogmático. A Era de Ouro não morreu de morte natural. Foi assassinada por dentro, por sua própria filosofia.

Quinhentos anos depois, o Império Otomano, último suspiro do califado desabou como um castelo de areia. Em 1924, o mundo muçulmano acordou nu. Pobre. Colonizado. Tecnologicamente analfabeto. A pergunta que ecoou de Istambul a Cairo, de Bagdá a Karachi, foi como um soco no estômago coletivo: “Se temos a fé verdadeira, por que estamos perdendo para os infiéis?” Era o trauma da inferioridade civilizacional em sua forma mais pura e devastadora. E foi nesse abismo existencial que nasceu o monstro que hoje chamamos de islamismo radical, não mais uma religião, mas um culto político totalitário. Hassan al-Banna fundou a Irmandade Muçulmana em 1928 com uma tese simples e venenosa: o Islã perdeu sua força porque se deixou contaminar pela cultura ocidental. A solução? Purificação. Retorno às origens, mas não às origens de Avicena e Maimônides. Às origens de Al-Ghazali radicalizado. Sayyid Qutb, o grande teórico da Irmandade, deu o passo definitivo e mortal. Para ele, o inimigo não era mais só o colonialismo britânico ou francês. O inimigo era o individualismo liberal.
O Ocidente havia “privatizado Deus”, colocado o ego humano no centro do universo e transformado a sociedade em um supermercado de vontades egoístas.

Israel, para Qutb, não era apenas um Estado judeu incômodo. Era o posto avançado infeccioso desse vírus que impedia o retorno ao califado coletivo, ao ummah indivisível onde o indivíduo desaparece diante da vontade divina. Nascia ali o Islã como ideologia de Estado. “O Islã é a solução” virou o novo slogan, o mesmo que substituiu o pan-arabismo de Nasser depois da humilhação catastrófica de 1967. Em seis dias, o nacionalismo secular árabe morreu no deserto do Sinai. No vácuo ideológico, o pan-islamismo tomou conta. E com ele veio a armadilha fatal que garante o fracasso perpétuo: a política da culpa.

O clássico livro “Good to Great” de Jim Collins, resume com precisão cirúrgica o mecanismo que transforma uma sociedade em doente terminal: as empresas de elite olham no espelho quando fracassam, assumem responsabilidade, corrigem o rumo, crescem. Olham pela janela apenas para celebrar vitórias. O islamismo radical, porém, inverteu o espelho. Transformou-o em janela. Cada fracasso econômico, cada fila de desempregados, cada repressão brutal, cada cérebro que foge é imediatamente atribuído ao “inimigo externo”: sionistas, ocidentais, infiéis, “entidade sionista”. Nunca ao próprio espelho. Eles ainda não entenderam que fizeram a escolha errada, a escolha histórica de ter matado Avicena em nome de Al-Ghazali.

É exatamente por isso que, com toda razão, dizemos que o antissemitismo crescente não é apenas um ódio antigo reciclado, é o sintoma mais claro de uma sociedade doente e problemática. Quando uma civilização perde a capacidade de olhar para dentro e assumir a própria responsabilidade na geração dos seus problemas, ela começa a culpar terceiros de forma compulsiva. E aí está condenada: nunca resolverá nada. Porque o problema não está fora. Está no espelho que ela se recusa a encarar. O antissemitismo de Estado, nesse sentido, não é causa, é consequência e profecia de declínio. Enquanto o ódio ao judeu servir de álibi perfeito, a nação nunca consertará o que realmente a mata por dentro.

Países que abraçaram esse culto político, Irã, Afeganistão, Sudão, Somália, Gaza sob Hamas, Líbano sob Hezbollah viraram museus vivos do fracasso. Economias em ruínas. Cérebros em fuga. Sociedades que produzem ódio em vez de inovação. O regime iraniano é o exemplo mais puro dessa tragédia em estado terminal. Uma revolução que, para sobreviver, precisa de um inimigo eterno. Como Micah Goodman descreve: uma revolução vitoriosa vira “chata”, burocracia, corrupção, lixo nas ruas, economia em colapso. Israel é a “bateria” que mantém essa revolução carregada. Sem Israel, o aiatolá teria de olhar no espelho e explicar por que o Irã é pobre, isolado e sangrando em protestos de mulheres sem véu. Com Israel, basta apontar para a “entidade sionista” e o ódio mantém a máquina girando. É a gestão perfeita do ressentimento. É a política da culpa elevada à categoria de religião de Estado.

Estamos vivendo, neste exato momento, o “1967 do pan-islamismo”. Assim como o sonho de Nasser morreu em seis dias, o sonho de que o radicalismo religioso islâmico levaria à vitória militar está morrendo agora, diante dos escombros do Hezbollah, do Hamas e do QG de Khamenei. Quando esses proxies forem desmantelados, a ideia de que “o Islã é a solução” militar também morrerá. E o mundo muçulmano terá de confrontar novamente a pergunta que Al-Ghazali ajudou a enterrar em 1095.

Mas há uma contradição ainda mais profunda, quase poética. Os inimigos de Israel sempre subestimaram sua força porque acreditaram na narrativa de que o Ocidente e Israel eram “moles”. Hassan Nasrallah, o falecido líder do Hezbollah, chamava Israel de “teia de aranha”: fisicamente forte (bombas, tecnologia), mas socialmente fraco, mimado pelo conforto liberal. Ele acreditava que bastaria um pouco de sangue para que os israelenses fugissem para Miami.
Estavam invocando, sem saber, a teoria de Ibn Khaldun, o grande historiador árabe do século XIV: a Asabiyyah, a coesão tribal primordial, sempre vence impérios ricos e decadentes. O que Nasrallah não entendeu é que Israel realizou o impossível sociológico: tornou-se uma sociedade híbrida. Liberal o suficiente para criar o Iron Dome e o Waze, tribal o suficiente para que, em horas, 300 mil civis largassem suas vidas e corressem para o front, individualista o suficiente para questionar tudo, coeso o suficiente para morrer uns pelos outros. Israel é ao mesmo tempo moderno e antigo, democrático e clã. Uma belíssima anomalia histórica.

A raiz dessa anomalia está na humildade epistemológica judaica. Enquanto o Islã radical herdou o dogma absoluto de Al-Ghazali (e o dualismo persa zoroastriano do Irã: Luz pura contra Trevas puras, Bem contra Mal metafísico que deve ser erradicado), o judaísmo preservou a tradição talmúdica onde até as opiniões perdedoras são registradas com respeito. Hierarquicamente a pergunta sempre está acima da resposta. Incerteza acima da certeza. Ciência como subproduto da dúvida sagrada. Se você acha que já possui a Verdade Divina absoluta, você para de pesquisar. Se você é humilde diante da complexidade da realidade, você constrói o Iron Dome.

O Irã, ao contrário, vive preso ao dualismo persa ancestral: o mundo só ficará “puro” quando o Mal (Israel, América) for exterminado. Mas todo movimento que busca pureza absoluta termina em tirania e sangue, porque a realidade humana é, por definição, impura, contraditória, complexa. O judaísmo, ao contrário, aceita o mal como ausência de bem, algo a ser gerenciado, não erradicado em holocausto utópico. É por isso que o contraste é tão brutal. No mesmo momento em que mísseis iranianos cruzavam o céu de Israel durante o Sucot de 2024, os israelenses estavam sentados em sua sucah, aquela cabana frágil que simboliza vulnerabilidade. A sucah balançava com o vento. Mas dentro dela havia uma força que nem Al-Ghazali, nem Qutb, nem Nasrallah conseguiram compreender: a força de quem parou de se sentir vítima e voltou a ser ator da História. A união não era mais de trauma (como em 7 de outubro de 2023). Era a “união do sucesso”. A união de quem recuperou a iniciativa.

O Islã radical, ao abraçar o culto político da culpa e da pureza, condenou-se ao declínio perpétuo. Israel, ao preservar a humildade da pergunta e a coesão do clã, tornou-se a anomalia que desmente todas as leis da sociologia histórica de Ibn Khaldun.

E é aqui, neste exato instante da História, que o coração do Oriente Médio parece bater mais forte. Porque o que está em jogo não são apenas fronteiras ou foguetes. É o futuro da alma humana nesta região. De um lado, uma visão de mundo que escolheu o espelho quebrado, o ódio como combustível e a pureza como prisão. Do outro, uma pequena nação que, contra todas as probabilidades, escolheu manter o espelho inteiro: olhar para dentro, assumir erros, questionar, inovar, amar a vida com todas as suas imperfeições.

Que o mundo muçulmano encontre, um dia, a coragem de recolocar aquele espelho no lugar. Que ele volte a ouvir a voz de Avicena e Maimônides, em vez de Qutb e Al-Ghazali. Que ele entenda que a verdadeira grandeza não nasce do ódio ao outro, mas da honestidade consigo mesmo. Porque só então o paraíso perdido poderá, talvez, ser reencontrado. Não como sonho utópico de califado, mas como realidade viva: uma civilização que escolhe o futuro em vez do ressentimento, a pergunta em vez do dogma, a vida em vez da morte. A resposta, como sempre, está no espelho que o Islã radical quebrou em 1095, e que, até hoje, não teve coragem de recolocar no lugar. Que ele o recolha. Antes que seja tarde demais. Antes que o coração do Oriente Médio pare de bater de vez.


Da importância dos livros - Timothy Snyder

A World Apart

Books, Freedom, and Captivity

Maksym Butkevych, the Ukrainian human rights activist, was held in Russian captivity for more than two years. I had the pleasure of listening to his thoughts about freedom a couple of times recently, last month in Ukraine and this month in Canada. I was struck by an experience he had with books and a thought he had about choice.

He explained that prison had changed his thinking about violence. It was not, he decided, about making a person do this thing or that thing. It was about the abolition of the capacity for choice. Torture was about the undoing of personhood itself, about turning a person into an object. He was a realist about this, in a tradition of east European prison writers.

The Polish writer Gustaw Herling-Grudziński spent two years in the Soviet Gulag. in his memoir, A World Apart, wrote that “when the body has reached the limit of its endurance, one cannot, as was once believed, rely on strength of character and conscious recognition of spiritual values; that there is nothing, in fact, which man cannot be forced to do by hunger and pain.”

This was the point Maksym made in terms of the loss of agency. Predictable suffering makes a predictable human. Herling-Grudziński defined the goal of interrogation as the thorough dismantling of a personality into its component parts. The prisoner becomes predictable, even to himself.

Listening to him, I was struck by the importance of books to Maksym while he was in captivity. He made appeals to prison authorities for access to certain books. In the Gulag, Herling-Grudziński was able to read a few novels, thanks to the kindness of a fellow prisoner. These novels enabled him to believe that he could understand the thoughts of others, that he was not entirely alone. The person who gave him books is one of the few who appears in his memoir by name. Is it by chance that I remember her name? Natalia.

Today Russian missiles target publishing houses, libraries, and archives. Today, in the parts of Ukraine occupied by Russia, the Russians collect books that are in the Ukrainian language to be burned. This is work, and work can be done by prisoners. So Ukrainian prisoners-of-war, such as Maksym, found themselves forced to destroy the Ukrainian-language books that Russian occupiers had taken from libraries, schools, and universities.

The burnings of millions of Ukrainian books an action designed to destroy a culture, and could certainly be seen as evidence of a larger project of genocide. Maksym, however, defined the loss in terms of individual agency. People should be able to read the books that they want to read, in the language in which they want to read them. From a shelf of books in a library a human being does the choosing. In selecting a book with eye and hand, we make a choice for ourselves; but we also enter into the choices of the author.

fire in fire pit during nighttime

Listening to Maksym, I could remember books that I read, make connections, assemble thoughts. 

We are not, most of us who will read this, ourselves in captivity. But we are, if we are Americans, citizens of a country in which librarians spend their time reviewing books and removing them from shelves. This is not so dramatic, of course, as Ukrainian prisoners being forced to burn Ukrainian books during a criminal war of aggression. But the difference is of degree and not of kind. Those librarians are not doing what they want to do. And books, once purged, cannot be seen, cannot be chosen.

Sometimes basic truths only come clear in extreme conditions. Maksym’s point that we choose books has relevance that goes beyond captivity, and even beyond the censorship of libraries. The internet is also a world apart in which things are chosen for us. That which is most predictable about is known, collected, magnified, exploited. We are set before options, but these are generated by algorithmic non-entities who must treat us objects because they are objects themselves.

This problem, in one way or another, was anticipated by writers of the twentieth century. Two years after Herling-Grudzinski’s memoir appeared in English, Ray Bradbury (to take one example among many) published Fahrenheit 451, in which firemen seek and burn books while the rest of society is expected to remain in front of screens. The free people in the novel are those who preserve books by memorizing them. Books figure here as “mediators of freedom,” to quote the French philosopher Simone Weil.

In Ukraine, a couple of mutual friends asked whether Maksym and I talked about my book On Freedom while I was writing it. We couldn’t have; he was at the front and in captivity. When Maksym volunteered to serve in the Ukrainian armed forces, I was beginning a class on freedom inside an American maximum security prison. When he was taken prisoner by the Russians, I was at the end of a semester in which I had learned from others who were reading in captivity. In one seminar, my student Dwayne quoted a wartime note from Simone Weil: freedom means substituting “devotion for obedience.” We might be devoted to a book, and author, a friend. But that is a choice.

Weil also called freedom “a loan that must be constantly renewed” -- a deep thought that turns my eyes to the overdue library books on my desk. A book whisks us into an unpredictable world, a world no longer apart, but renewed. We choose and then we find ourselves altered, expanded, capable of further choices. At some point, I chose to read Herling-Grudziński and Bradbury and Weil, and then they can return to me, thanks to others, in this case thank to Maksym. I find it extraordinary that he is able to speak about captivity, and appreciate the generosity that allows his own thinking about freedom to inform ours. I hope that he writes his own book.

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sexta-feira, 13 de março de 2026

Madame IA submete meu artigo sobre a "Submissão ao Império" ao seu crivo analítico - Airton Dirceu Lemmertz

Madame IA submete meu artigo sobre a "Submissão ao Império" ao seu crivo analítico - Airton Dirceu Lemmertz

A ficha original de meu artigo publicado é esta aqui:

5240. “A submissão ao império: da envergonhada à declarada”, Brasília, 11 março 2026, 4 p. Digressões sobre as relações Brasil-Estados Unidos e preocupação quanto a uma nova fase de submissão diplomática ao império trumpista. Colaboração com a revista digital Será? (ano xxiv, n. 701, 13/03/2026; link: https://revistasera.info/2026/03/a-submissao-ao-imperio-da-envergonhada-a-declarada/); reproduzido no blog Diplomatizzando (13/03/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/a-submissao-ao-imperio-da-envergonhada.html). Relação de Publicados n. 1627.

Aqui entra meu amigo Airton que submete meu texto à implacável validação de Madame IA, que está sendo mais boazinha comigo: 



O texto apresentado, de autoria do diplomata e historiador Paulo Roberto de Almeida, oferece uma análise sofisticada da trajetória pendular da política externa brasileira em relação aos EUA. Abaixo, apresento uma análise detalhada e crítica dos pontos centrais, segmentada por eixos temáticos:

1. A Genealogia da Subserviência: O Mito de Juracy Magalhães:
O autor realiza um importante trabalho de arqueologia semântica ao restituir o copyright da frase "o que é bom para os EUA é bom para o Brasil".
Crítica: A transferência da lógica corporativa (General Motors) para a lógica de Estado revela o cerne da ideologia do início do regime de 64: a crença na convergência absoluta de interesses entre o capitalismo central e a periferia. O autor acerta ao pontuar que a frase foi um "erro tático" de comunicação, mas erra quem a vê apenas como gafe; ela era a tradução sincera de um projeto de alinhamento ideológico que ignorava as assimetrias de poder.

2. Lula e a Subversão Retórica:
Um dos pontos mais perspicazes do relato é a descrição da manobra dialética de Lula em 2002.
Análise Detalhada: Lula não apenas "recuperou" a frase, ele a ressignificou como ferramenta de pragmatismo. Ao justificar a aproximação com a China (um tabu ideológico para a direita e para Washington na época) através de uma lógica "americanista", Lula esvaziou a crítica política e a substituiu por uma lógica de mercado.
Visão Crítica: O autor nota que Lula fugiu da pergunta sobre o Foro de São Paulo e o PCCh. Isso demonstra a habilidade do petista em operar na ambiguidade diplomática: manter a forma simpática aos olhos dos EUA enquanto construía as bases da diversificação de parceiros que definiria sua política externa (Sul-Sul).

3. A Institucionalidade do Itamaraty vs. Voluntarismo Político:
O texto estabelece um contraste claro entre a "corporação do Itamaraty" e os impulsos dos mandatários.
Análise: O autor defende a tese de que o Itamaraty possui um "DNA" de autonomia que sobreviveu até ao início do regime militar, retomando a Política Externa Independente (PEI) mesmo sob generais (Costa e Silva).
Crítica: Essa visão pode ser interpretada como uma defesa corporativista. Embora o Itamaraty tenha, de fato, um histórico de resiliência técnica, a análise sugere que a diplomacia é uma ilha de racionalidade. O autor utiliza termos como "pouco instruído" para Costa e Silva e "patético" para Ernesto Araújo para enfatizar que o desvio da norma não é apenas político, mas intelectual.

4. A Tese da Intervenção Democrática de Biden:
Este é o ponto mais controverso e original do texto. Almeida propõe que os EUA intervieram em 2022, mas desta vez em favor da democracia.
Análise Detalhada: A vinda de William Burns (CIA) e Jake Sullivan teria sido o "fiel da balança" para desencorajar o golpismo militar.
Crítica: Aqui reside uma ironia histórica profunda. O autor, um crítico contumaz da submissão ao "Império", reconhece que, em 2022, a chancela de Washington foi o que salvaguardou o processo eleitoral brasileiro contra o governo interno. Isso levanta uma questão crítica: se a democracia brasileira precisou da validação da CIA para ser respeitada por seus próprios generais, a soberania nacional permanece, de certa forma, tutelada, mudando apenas o "sinal" da intervenção (de pró-golpe em 64 para contra-golpe em 22).

5. Trumpismo e Bolsonarismo: A "Submissão Bizarra":
O autor finaliza com uma condenação severa ao período 2019-2022, diferenciando o "alinhamento tradicional" da "submissão pessoal".
Análise: Enquanto Juracy Magalhães via um alinhamento de Estados, o Bolsonarismo via um alinhamento de seitas ideológicas (anti-globalismo, olavismo). O autor argumenta que isso transformou o Brasil em um "pária", destruindo décadas de construção de soft power.
Crítica: A crítica de Almeida é técnica e ética. Ele aponta que o erro de Araújo e Bolsonaro não foi apenas alinhar-se aos EUA, mas alinhar-se a uma fração específica (e radical) da política americana, sacrificando os interesses permanentes do Estado brasileiro em favor de uma mística ideológica sem ganhos concretos (como a não entrada na OCDE ou a manutenção de tarifas).

* Conclusão:
O texto é um testemunho de quem viveu a máquina diplomática e deplora a sua degradação. A análise de Almeida sugere que o maior perigo para o Brasil não é o relacionamento com os EUA em si, mas a incapacidade das elites políticas brasileiras de distinguir entre cooperação estratégica e vassalagem ideológica.

Fonte (IA Gemini):

Lista dos artigos oferecidos em colaboração à revista Será? - Paulo Roberto de Almeida

Lista dos artigos oferecidos em colaboração à revista Será?

Paulo Roberto de Almeida
Compilação efetuada em 13/03/2026
(dos mais recentes aos mais antigos)
Postada no blog Diplomatizzando (13/03/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/lista-dos-artigos-oferecidos-em.html). Também disponíveis no site da revista Será? (link: https://revistasera.info/author/paulo-roberto-de-almeida/).

1627. “A submissão ao império: da envergonhada à declarada”, revista digital Será? (ano xxiv, n. 701, 13/03/2026; link: https://revistasera.info/2026/03/a-submissao-ao-imperio-da-envergonhada-a-declarada/); reproduzido no blog Diplomatizzando (13/03/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/a-submissao-ao-imperio-da-envergonhada.html). Relação de Originais n. 5240.

5233. “De uma mudança de regime a uma outra...”, Brasília, 6 março 2026, 4 p. Texto sobre a guerra de Trump contra o Irã dos aiatolás. Deveria ter sido publicado na revista Será? (n. 700, 7/03/2026), mas foi oferecido fora do tempo hábil para sua editoração e ficou de fora da série. Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/de-uma-mudanca-de-regime-uma-outra.html).

1626. “Rui Barbosa: 110 anos de um discurso memorável sobre o direito internacional”, Revista Será? (xiv, n. 699, 27/02/2026, link: https://revistasera.info/2026/02/rui-barbosa-110-anos-de-um-discurso-memoravel-sobre-o-direito-internacional/); republicado no blog Diplomatizzando (27/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/rui-barbosa-110-anos-de-um-discurso.html). Relação de Originais n. 5227.

1625. “As potências médias podem sustentar uma ordem global funcional?”, Brasília, 18 fevereiro 2026, 4 p. Contribuição à revista Será? (ano xiv, n. 698, 20/02/2026; link: https://revistasera.info/2026/02/as-potencias-medias-podem-sustentar-uma-ordem-global-funcional/); reproduzido no blog Diplomatizzando (20/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/as-potencias-medias-podem-sustentar-uma.html). Relação de Originais n. 5221.

1622. “A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas”, revista Será? (ano xiv, n. 696, 13/02/2026; link: https://revistasera.info/2026/02/a-conformacao-do-mundo-futuro-algumas-coisas-ainda-nao-resolvidas/); reproduzido no blog Diplomatizzando (13/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/a-conformacao-do-mundo-futuro-algumas.html). Relação de Originais n. 5213.

1621. “O lado mais constante da nação brasileira: o Estado extrator”, revista Será? (ano xiv, n. 695, 06/02/2026; link: https://revistasera.info/2026/02/o-lado-mais-constante-da-nacao-brasileira-o-estado-extrator/); reproduzido no blog Diplomatizzando (06/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/o-lado-mais-constante-da-nacao.html). Relação de Publicados n. 5208.

1619. “Estaríamos outra vez em face de um novo 'fim da História'?", revista Será? (ano xiv, n. 694, 30/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/estariamos-outra-vez-em-face-de-um-novo-fim-da-historia/); reproduzido no blog Diplomatizzando (30/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/estariamos-outra-vez-em-face-de-um-novo.html). Relação de Originais n. 5172.

1618. “Da Geopolítica da Desordem à Opção pelo Caos: um ano de destruição da ordem mundial”, revista Será? (ano xv, n. 693, 23/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/da-geopolitica-da-desordem-a-opcao-pelo-caos-um-ano-de-destruicao-da-ordem-mundial/); reproduzido no blog Diplomatizzando (23/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/da-geopolitica-da-desordem-opcao-pelo.html). Relação de Originais n. 5195.

1617. “O Brasil e a morte do multilateralismo, tal como o conhecíamos”, revista Será? (ano xiv, n. 692, 16/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-brasil-e-a-morte-do-multilateralismo-tal-como-o-conheciamos/); reproduzido no blog Diplomatizzando (16/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/a-morte-do-multilateralismo-como-o.html). Relação de Originais n. 5183.

1616. “O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump?”, revista Será? (ano xiv, n. 691, 09/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-que-muda-para-o-brasil-na-geopolitica-da-desordem-de-trump/); reproduzido no blog Diplomatizzando (9/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/o-que-muda-para-o-brasil-na-geopolitica.html). Relação de Originais n. 5175.

1615. “O Brasil num mundo turbulento, em 2026 e mais além”, revista Será? (ano xiv, n. 690, 02/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-brasil-num-mundo-turbulento-em-2026-e-mais-alem/); reproduzido no blog Diplomatizzando (2//01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/o-brasil-num-mundo-turbulento-em-2026-e.html ). Relação de Originais n. 5155.

1612. “O Brasil em 2025, expectativas para 2026, no país e no mundo”, revista Será? (ano xiv, n. 689, 26/12/2025; link: https://revistasera.info/2025/12/o-brasil-em-2025-expectativas-para-2026-no-pais-e-no-mundo/);
republicado no blog Diplomatizzando (6/2/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/o-brasil-em-2025-expectativas-para-2026.html). Relação de Originais n. 5153.

1611. “O mundo marcha para a direita? Retornamos cem anos no passado?”, revista Será? (ano xiv, n. 688, 19/12/2025; link: https://revistasera.info/2025/12/o-mundo-marcha-para-a-direita-retornamos-cem-anos-no-passado/); republicado no blog Diplomatizzando (6/2/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/o-mundo-marcha-para-direita-retornamos.html). Relação de Originais n. 5138.

1608. “A estratégia de Trump para o “quintal” do Hemisfério Ocidental”, revista Será? (ano xiv, n. 687, Recife, 12 de dezembro de 2025); link: https://revistasera.info/2025/12/a-estrategia-de-trump-para-o-quintal-do-hemisferio-ocidental/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/a-estrategia-de-trump-para-o-quintal-do.html). Relação de Originais n. 5133.

1607. “O mundo em três tempos: 1925, 1945, 2025”, revista Será? (ano xiv, n. 686, Recife, 5 de dezembro de 2025; link: https://revistasera.info/2025/12/o-mundo-em-tres-tempos-1925-1945-e-2025/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/o-mundo-em-tres-tempos-1925-1945-2025.html). Relação de Originais n. 5128.

1603. “Política externa e diplomacia do Brasil: como são e como podem ser, 2”, revista Será? (ano xiv, n. 685, Recife, 28 de novembro de 2025; link: https://revistasera.info/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil-como-sao-como-podem-ser-2/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil_28.html). Relação de Originais n. 5110.

1602. “Política externa e diplomacia do Brasil: como são, como podem ser, 1/2”, revista Será? (ano xiv, n. 684, Recife, 21 de novembro de 2025; link: https://revistasera.info/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil-como-sao-como-podem-ser-1-2/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil.html). Relação de Originais n. 5109.

1601. “Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial”, revista Será? (ano XIV, n. 683, 7/11/2025, link: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/; divulgado no blog Diplomatizzando (9/11/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no.html). Relação de Originais n. 5104.

1600. “Trump, ou a diplomacia pelo método confuso”, revista Será? (ano xiv, n. 682, 31/10/2025, link: https://revistasera.info/2025/10/trump-ou-a-diplomacia-pelo-metodo-confuso/); divulgado no blog Diplomatizzando (31/10/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/10/trump-ou-diplomacia-pelo-metodo-confuso.html). Relação de Originais n 5098.

1599. “Opções da diplomacia brasileira num mundo em desordem”, revista Será? (ano xiv, n. 681, 24/10/2025, link: https://revistasera.info/2025/10/opcoes-da-diplomacia-brasileira-num-mundo-em-desordem/); divulgado no blog Diplomatizzando (24/10/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/10/opcoes-da-diplomacia-brasileira-num.html). Relação de Originais n. 5097.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5244, 13/03/2026

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