segunda-feira, 16 de março de 2026

Uma grande sintese do pensamento conservador no Brasil - 𝔊𝔢𝔯𝔥𝔞𝔯𝔡 𝔈𝔯𝔦𝔠𝔥 𝔅𝔬𝔢𝔥𝔪𝔢

 Morreu o guru de Haddad e FHC.

𝔊𝔢𝔯𝔥𝔞𝔯𝔡 𝔈𝔯𝔦𝔠𝔥 𝔅𝔬𝔢𝔥𝔪𝔢


Morreu Jürgen Habermas, um dos nomes mais "influentes" da esquerda acadêmica europeia do pós-guerra, e com ele desaparece um símbolo de uma tradição intelectual que ajudou a moldar parte significativa da elite universitária, burocrática e política do Ocidente — inclusive no Brasil.

Moldar é uma palavra bonita, o certo é destruir.

Não se trata de dizer que Fernando Henrique Cardoso e Fernando Haddad tenham sido discípulos formais ou repetidores mecânicos de Habermas. O ponto é mais profundo. Ambos pertencem a uma mesma tradição intelectual e política que bebeu diretamente das fontes da teoria crítica europeia e da cultura universitária que emergiu da geração de 1968.

Habermas ajudou a fornecer a linguagem, o método e a moldura mental de uma (de)geração inteira de professores, juristas, administradores públicos, jornalistas, políticos e intelectuais que passaram a enxergar a sociedade não como uma ordem espontânea fundada na verdade, na responsabilidade individual, na moral, na propriedade, na família, nas igrejas, nas associações livres e no mercado, mas como um campo permanente de reconstrução discursiva, mediação institucional e reeducação cultural.

É aí que está o mal que causou.

Habermas foi apresentado durante décadas como o filósofo da democracia, do diálogo e da racionalidade comunicativa. Mas, sob o verniz da moderação, ajudou a consolidar uma visão de mundo em que a verdade vai sendo substituída pela legitimação discursiva, a liberdade concreta vai sendo condicionada por filtros ideológicos, e a vida social vai sendo submetida a uma elite que se julga moral e intelectualmente autorizada a interpretar o mundo, corrigir o povo e conduzir a sociedade.

Essa transformação teve efeitos profundos. A teoria habermasiana contribuiu para deslocar o centro da política da realidade concreta para a engenharia discursiva das instituições.  Saímos do mundo real para o mundo da fantasia, das ideologias coletivistas, da verdade para as narrativas. Não foram só os doidos do Juquiri que ficaram livres, mas foi um mundo que deu voz a canalhas.

O cidadão deixa de ser agente moral responsável e passa a ser objeto de mediação permanente por especialistas, burocratas e intérpretes autorizados da democracia. A política deixa de ser limitada pela tradição, pela experiência histórica e pela prudência e passa a ser reinterpretada continuamente por uma elite acadêmica que pretende redefinir os fundamentos da civilização.

Em vez da civilização ocidental fundada na responsabilidade, na lei, na tradição, na prudência e na liberdade, fomos empurrados para uma civilização de mediações abstratas, consensos fabricados, pedagogia política permanente e suspeita sistemática contra tudo aquilo que sustenta a ordem social orgânica.

Foi assim que a teoria crítica da Frankfurt School, a Escola de Frankfurt, em vez de libertar o homem, ajudou a dissolver os freios culturais, morais e institucionais que protegiam o homem comum do avanço do Estado, da burocracia e da ideologia.

É justamente essa crítica que levou Olavo de Carvalho a afirmar:

“A revolução cultural não se faz pela tomada do poder político, mas pela transformação lenta da mentalidade das elites que depois irão governar.”

Habermas não inventou esse processo, mas forneceu a ele legitimidade acadêmica e respeitabilidade filosófica.

O resultado é visível em todo o Ocidente: universidades convertidas em centros de militância ideológica, imprensa transformada em aparato pedagógico do progressismo, tribunais reinterpretando permanentemente a lei segundo critérios morais mutáveis, e uma cultura política em que a linguagem passa a ser instrumento de poder. E pior, as igrejas transformadas em meras ONGs. A começar a CNBdoB.

Como observa Rodrigo Constantino:

“A esquerda moderna descobriu que controlar a cultura é muito mais eficaz do que disputar eleições.”

Habermas foi um dos principais arquitetos intelectuais dessa estratégia.

E por isso a morte de Habermas é simbólica.

Morre um dos principais sacerdotes intelectuais do mundo inaugurado por 1968.

E é precisamente por isso que precisamos perguntar: qual foi o ano que não terminou para nós brasileiros? 1964, 1967 ou 1968?

A resposta honesta é: os três continuam entre nós. Eu os somo, e o resultado desta soma dá 1889.

1964 não terminou, porque ainda vivemos sob o conflito histórico em torno de sua interpretação maliciosa.

1967 não terminou, porque foi o ano do breakpoint institucional brasileiro. Ou seria um breakthrough?

1968 não terminou, porque foi o ano em que a revolução cultural capturou o imaginário do Ocidente.

Devemos entender os três.

Mas, se quisermos compreender o mundo atual, a linguagem política dominante, a cultura universitária, a hegemonia da esquerda estética bonitinha e cheirosa, o progressismo judicial, a pedagogia de Estado e a arrogância das elites acadêmicas, então é preciso reconhecer: 1968 foi o ano que nunca acabou.

Foi em 1968 que a rebelião saiu da rua e entrou nas cátedras. E as cátedras perderam espaço.

Foi em 1968 que a revolução deixou de depender apenas de partidos, guerrilhas e sindicatos e passou a ocupar as artes, a imprensa, a educação, os tribunais, os currículos, os festivais, os editoriais e as consciências.

Foi em 1968 que a luta política ganhou nova forma: não mais apenas a tomada violenta do poder, mas a corrosão moral e cultural da civilização por dentro.

A velha revolução trocou o fuzil pelo seminário.

Trocou a barricada pela universidade.

Trocou o panfleto pelo parecer (nada) técnico.

Trocou o comício pela sala de aula.

Trocou a guerrilha pela hegemonia cultural.

E Habermas foi um dos principais responsáveis por dar respeitabilidade filosófica a esse processo.

Seu legado ajudou a transformar a crítica permanente em método, a suspeita em virtude, a desconstrução em pedagogia e a politização total da vida em dever moral. Com isso, fortaleceu-se uma cultura em que a tradição passou a ser vista como opressão, a religião como obstáculo, a autoridade como abuso, a moral como imposição, a família como estrutura suspeita, a distinção entre belo e feio como preconceito, a verdade como construção, e a liberdade como algo sempre condicionado pela aprovação de mediadores iluminados.

Foi assim que 1968 venceu.

E venceu não só na França, na Alemanha ou nas universidades americanas. Venceu também no Brasil. A USP é um bom exemplo, de lá sairam esses dois "fernandos".

Venceu quando passamos a confundir artistas com oráculos, professores com redentores, jornalistas com sacerdotes da moral pública, juízes com pedagogos da nação e burocratas com intérpretes superiores da democracia. Do nosso excesso de "democracia".

Venceu quando o entretenimento se converteu em catequese ideológica. Com direito a Oscar e tudo, mas sem público.

Venceu quando a música de protesto deixou de ser manifestação artística e se tornou instrumento de fabricação de mitos políticos e idiotas úteis.

Venceu quando a esquerda cultural conseguiu fazer do sentimentalismo um critério superior à verdade. Passamos a nao mais FAZER O BEM e a FAZER BEM (nossos serviços, trabalhos e produtos), mas a FAZER OS OUTROS SE SENTIREM BEM.

Venceu quando a moral cristã começou a ser substituída pela ética das emoções.

É por isso que o mundo atual vive de narrativas e já não quer se submeter aos fatos.

Os fatos vêm dos administradores, dos engenheiros, dos auditores, dos peritos, dos que trabalham com realidade objetiva. Mas a esquerda cultural prefere a dramaturgia política. Prefere a emoção à verdade, a vitimização à responsabilidade, a denúncia ao exame, a performance à prova.

Isso nos leva diretamente ao outro braço do problema: o Brasil.

Porque, se 1968 jamais terminou no plano cultural, 1967 jamais terminou no plano institucional brasileiro.

Enquanto muitos insistem em dizer que 1964 ou 1968 foram os únicos marcos decisivos, a verdade é que 1967 foi o ano em que a trajetória da Revolução de 31 de Março sofreu seu verdadeiro breakpoint. Ou seria breakthrough?

Foi em 1967 que se institucionalizou o regime de exceção sob nova base constitucional.

Foi em 1967 que morreu Castello Branco, encerrando-se com ele a possibilidade de uma transição racional e institucional.

Foi em 1967 que a revolução dentro da Revolução se consumou.

Por isso 1967 foi real.

E 1968, no Brasil, foi ao mesmo tempo consequência e disfarce.

Enquanto a máquina institucional endurecia por dentro, a juventude era alimentada pela fantasia revolucionária que vinha de fora.

Não se trata de negar excessos. Trata-se de recusar simplificações históricas.

O Brasil dos anos 60 não pode ser interpretado sem o contexto da Guerra Fria.

Nos primeiros anos daquela década, o país vivia instabilidade crescente.

A renúncia de Jânio Quadros abriu uma crise institucional.

João Goulart conduzia um projeto populista e sindicalista.

Greves, inflação, radicalização política e disputa ideológica colocavam o país à beira de uma ruptura.

Foi nesse cenário que 1964 ocorreu.

Mas 1964 sozinho não explica o Brasil de hoje.

Para entender o Brasil atual, é preciso observar o encadeamento histórico:

1889 destruiu o equilíbrio institucional do Império.

1964 abriu uma ruptura política dentro da República.

1967 mudou a direção do processo institucional.

1968 conquistou a cultura.

Sem o Poder Moderador do Império, a República transformou-se em campo permanente de disputa entre facções.

O Brasil passou a viver ciclos de golpes, crises e rearranjos institucionais.

E hoje vemos o resultado disso.

Vivemos um país em que tribunais acumulam funções que deveriam estar separadas, em que a liberdade de expressão é constantemente tensionada, e em que o Judiciário se converte em ator político central.

Esse processo não começou agora.

Ele é consequência de uma longa cadeia histórica que começa em 1889, passa por 1964, sofre seu ponto de inflexão em 1967 e ganha hegemonia cultural em 1968.

Habermas não criou tudo isso sozinho.

Mas ajudou a fornecer o vocabulário e a legitimação intelectual desse mundo.

Por isso o título faz sentido:

Morreu o guru de Haddad e FHC.

Dois políticos de partidos "diferentes" para quem nao conhece a finalidade da tesoura, mas formados na mesma tradição intelectual: a crença na mediação institucional permanente, na engenharia social conduzida por especialistas e na política como instrumento de pedagogia coletiva.

A social-democracia acadêmica tucana e o progressismo tecnocrático petista compartilham esse mesmo DNA.

Ambos nascem da mesma cultura universitária.

Ambos acreditam na condução da sociedade por elites ilustradas.

Ambos desconfiam da espontaneidade social.

Ambos veem o Estado como instrumento de transformação moral da sociedade.

Essa é a verdadeira similaridade entre os dois Fernandos.

Morreu o guru.

Mas o mundo que ele ajudou a construir ainda está aqui.

1968 não terminou.

1967 também não.

1964 muito menos.

E enquanto não compreendermos a ligação entre esses anos, continuaremos vivendo dentro da mesma engrenagem histórica.

O desafio não é apenas lembrar.

É finalmente encerrar esse ciclo.

E é neste cenário que devemos ler de Thomas Sowell: Os Ungidos.

Você viveu os anos 60?

Recomendo que leia:

BOEHME, Gerhard Erich. 1967: o ano que não terminou. Facebook, 2025. Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/1876H9p4iJ/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

O texto defende que o verdadeiro ponto de inflexão institucional da história política brasileira não foi 1964 nem 1968, mas 1967. Segundo o autor, foi nesse ano que ocorreu a institucionalização do regime de exceção com a nova Constituição e, sobretudo, a morte do marechal Castello Branco, evento que interrompeu o projeto de transição institucional gradual da Revolução de 1964. A ascensão da chamada “linha dura” alterou profundamente a direção política do regime e abriu caminho para o endurecimento institucional posterior. O ensaio também introduz a ideia da “indústria da ditadura”, isto é, a exploração política e cultural posterior da memória do período militar.

BOEHME, Gerhard Erich. Decida-se! Qual ano que ainda não terminou? 1968 ou 1964? Na realidade 1967. Facebook, 2025. Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/1AYLHvUFcN/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

Neste texto, o autor discute a disputa interpretativa sobre os marcos históricos do Brasil contemporâneo. Enquanto grande parte da narrativa pública se concentra em 1964 ou 1968, o autor sustenta que o verdadeiro “ano que não terminou” é 1967. O ensaio analisa a ruptura interna ocorrida dentro da própria Revolução de 1964 e mostra como essa mudança redefiniu o curso político brasileiro. O texto também explora o impacto cultural de 1968 e a influência da teoria crítica europeia nas universidades brasileiras.

BOEHME, Gerhard Erich. Quantos golpes teve o Brasil? Facebook, 2023. Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/1GyboTQqER/ Acesso em: 17 abr. 2025.

O texto apresenta uma interpretação histórica segundo a qual o ciclo de instabilidade institucional brasileiro tem origem na Proclamação da República em 1889. A partir desse evento fundador, o autor identifica uma sequência de rupturas institucionais — 1937, 1964 e o que chama de “golpe judicial contemporâneo”. O argumento central sustenta que a ausência do Poder Moderador do sistema monárquico abriu caminho para uma sucessão de crises políticas e disputas entre facções que continuam a marcar a vida institucional brasileira.

BOEHME, Gerhard Erich. Por que artistas são de esquerda? Facebook, 2024. Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/1DYbeXwR1U/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

O texto discute a relação entre elites culturais e ideologia política. O autor argumenta que artistas, jornalistas, líderes religiosos e comunicadores frequentemente operam no campo das emoções e da construção de narrativas, o que os aproxima de movimentos políticos que privilegiam mobilização simbólica e cultural. O ensaio dialoga com a tese da hegemonia cultural desenvolvida no século XX e aborda também o papel do financiamento público da cultura na formação de um ambiente intelectual predominantemente progressista.

A TOCA DO LOBO. 1967 não terminou! Facebook, 2022. Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/16yNXS9eed/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

O texto recupera episódios culturais e políticos do final da década de 1960 para ilustrar as disputas simbólicas do período. Um dos exemplos citados é a chamada “Marcha contra a Guitarra Elétrica”, manifestação organizada por artistas da música popular brasileira em 1967. O episódio é apresentado como símbolo das tensões culturais e ideológicas da época e como parte de um processo mais amplo de politização da produção artística no Brasil.

BOEHME, Gerhard Erich. 1967: o ano que não terminou. Facebook, 2025. Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/1876H9p4iJ/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

O texto sustenta que o verdadeiro ponto de inflexão institucional da história recente do Brasil não foi 1964 nem 1968, mas 1967. Segundo o autor, foi nesse ano que se consolidou juridicamente o regime de exceção com a nova Constituição e que a morte do marechal Castello Branco interrompeu um projeto de transição institucional gradual da Revolução de 1964. A partir desse ponto, a chamada “linha dura” ganhou espaço, alterando o curso político do regime e criando condições para o AI-5 e para o fechamento institucional posterior. O artigo também introduz a ideia da “indústria da ditadura”, ou seja, a utilização posterior desse período como instrumento de narrativa política e cultural.

DILORENZO, Thomas. As intermináveis mentiras governamentais sobre o mercado. Mises Brasil, 1 abr. 2024. Disponível em: https://mises.org.br/artigos/235/as-interminaveis-mentiras-governamentais-sobre-o-mercado⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

O economista Thomas DiLorenzo discute como governos frequentemente distorcem informações econômicas para justificar intervenções estatais. O texto se insere na tradição da Escola Austríaca de economia e argumenta que muitas políticas públicas são sustentadas por mitos econômicos difundidos por burocracias e elites intelectuais. A análise reforça a crítica liberal clássica ao intervencionismo e à engenharia social conduzida pelo Estado, tema que dialoga com o debate sobre o papel das elites intelectuais na formação das políticas públicas.

HOPPE, Hans-Hermann. A análise de classe marxista vs. a análise de classe austríaca. Mises Brasil, 13 maio 2011. Disponível em: https://mises.org.br/article/979/a-analise-de-classe-marxista-vs-a-analise-de-classe-austriaca⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

Neste ensaio, Hoppe contrapõe a teoria marxista de classes à análise proposta pela Escola Austríaca. Enquanto o marxismo define o conflito social como uma disputa entre burguesia e proletariado, Hoppe argumenta que o verdadeiro conflito ocorre entre produtores e grupos que vivem da coerção política ou da redistribuição estatal. O texto é frequentemente utilizado em debates liberais e libertários para questionar a estrutura teórica do marxismo e das correntes derivadas da teoria crítica.

CONSTANTINO, Rodrigo. A política econômica do regime militar (segunda parte). Instituto Liberal, 6 abr. 2018. Disponível em: https://www.institutoliberal.org.br/blog/economia-do-regime-militar-segunda-parte/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

Rodrigo Constantino analisa a política econômica implementada durante o regime militar brasileiro, destacando aspectos de crescimento econômico, modernização industrial e expansão da infraestrutura. O texto também discute as limitações estruturais do modelo econômico adotado e procura relativizar interpretações simplificadas do período, defendendo uma análise histórica mais contextualizada e menos ideologizada.

CATHARINO, Alex. Russell Kirk e a moderna ordem liberal. Instituto Liberal, 14 nov. 2024. Disponível em: https://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/russell-kirk-e-a-moderna-ordem-liberal/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

O artigo apresenta o pensamento do filósofo conservador americano Russell Kirk, um dos principais formuladores do conservadorismo moderno. O texto enfatiza valores como tradição, prudência política, ordem moral e continuidade institucional. Kirk é apresentado como um contraponto intelectual às correntes revolucionárias e ideológicas do século XX, oferecendo uma defesa da civilização ocidental baseada em instituições orgânicas e na experiência histórica.

CONSTANTINO, Rodrigo. Esquerda caviar: a hipocrisia dos artistas e intelectuais progressistas no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: LVM Editora, 2013.

Nesta obra, Rodrigo Constantino critica a contradição entre o discurso político de parte da elite cultural progressista e o estilo de vida privilegiado que muitos de seus membros levam. O autor argumenta que artistas e intelectuais frequentemente defendem ideias socialistas enquanto vivem em ambientes econômicos e sociais altamente favorecidos. O livro tornou-se uma referência em debates sobre cultura política, hipocrisia ideológica e a relação entre elites culturais e poder político.

As ‘Memórias de Marcos Azambuja’ - Celso Lafer (O Estado de S. Paulo)

As ‘Memórias de Marcos Azambuja’
Celso Lafer
O Estado de S. Paulo, 15/03/2026
No âmbito do funcionamento do Itamaraty, a análise das transições faz destas ‘Memórias’ um paradigma do processo decisório diplomático

As Memórias de Marcos Azambuja, uma das mais notáveis figuras da diplomacia brasileira, acabam de ser publicadas. Foram instigadas pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), denso centro de análise sobre a política externa brasileira, ao qual Marcos se dedicou depois de sua aposentadoria no Itamaraty. No Cebri, Marcos encontrou até o seu falecimento, em maio de 2025, um espaço para uma renovada vida diplomática.

As Memórias são abrangentes na reflexão sobre a diplomacia brasileira. Resultam de três longas entrevistas. A primeira, em 1997, ao término de sua notável embaixada em Buenos Aires (1992-1997). Dela deflui uma excepcional análise da importância das relações Brasil-Argentina.

A segunda data de 2009. Amplia o escopo de sua reflexão, tratando desde o Tratado de Tlatelolco, do campo do desarmamento nuclear e de seus percalços. Inclui o bem-sucedido período da embaixada na França (1997-2003), indicando como uma missão diplomática requer a percepção do que é relevante para atuar num Estado a que está acreditado. É uma lição sobre as artes da diplomacia.

O terceiro depoimento foi colhido em 2025, já sob a expectativa de um arremate do impulso da publicação deste livro, que foi estruturado e organizado numa fluida e cativante narrativa por Gelson Fonseca Jr., Mônica Hirst e Alexandra de Mello e Silva.

O livro revela os ativos da personalidade, do modo de ser de Marcos como pessoa e diplomata. Retém o muito válido tom da oralidade, pois Marcos era um virtuoso da palavra falada, sempre apto a sintetizar com precisão e graça a natureza do que estava em jogo. Com perfeição a ele se ajustava a formulação de Octavio Paz: “A palavra que se ajusta ao movimento é pele – não prisão – de pensamento”.

Na Rio-92, evento inaugural da inserção multilateral do meio ambiente na pauta internacional, Marcos foi o qualificado coordenador das posições brasileiras. Discutindo comigo, o então chanceler, as dificuldades do andamento de um “novo”, ele observou: “Esta conferência é sui generis. É a expressão de uma diplomacia aberta que combina facetas de Yalta, da Conferência de São Francisco e a de Woodstock, da espontaneidade dos atores não governamentais. Daí suas dificuldades”.

Para Marcos, a diplomacia não é uma atividade pastoral de pregação de virtudes. Era um lúcido realista. Para ele, a “diplomacia é o âmago do poder”. “Requer bons modos para não bater de frente, mas é um exercício viril.” É um ofício que “requer polidez” para transmitir “exigências muito firmes”, que são as das necessidades da nação, para lembrar Vattel.

O lúcido realismo de Marcos estava atento à lição do Padre Antonio Vieira: “Perdemse as Repúblicas porque os seus olhos veem o que não é, e não veem o que é”.

O realismo de Marcos não era imobilista e conservador. Ele foi um realista esperançoso, atento ao olhar do potencial do novo. Nas suas palavras: “Sou um grande tradicionalista, que tem um imenso entusiasmo pelo novo”. As qualidades contrapostas deste oxímoro singularizam o modo de ser, da pessoa e do atuar de Marcos.

Marcos foi, por isso mesmo, um mestre no retratar e analisar transições, como destaca Gelson no seu prefácio. Essas transições foram significativas na sua carreira.

No âmbito do funcionamento do Itamaraty, a análise das transições faz destas Memórias um paradigma do processo decisório diplomático, iluminado pela perspectiva de “dentro” e não de “fora” da experiência de quem as viveu. Por exemplo, a Política Externa Independente, o Pragmatismo Responsável e as reorientações trazidas pelo fim da guerra fria.

Marcos analisa a passagem do Itamaraty tradicional para o Itamaraty no qual ingressou. Este modernizou-se e adquiriu institucionalidade com o ingresso na carreira de seus quadros pelo sistema de mérito, implantado pelo Instituto Rio Branco.

Marcos aprecia e valoriza o Itamaraty, ao qual dedicou sua vida. Entendeu que, pela qualidade de seus quadros e de sua dedicação ao tema do lugar do Brasil no mundo, é uma instituição focada em pensar o País. Nas suas palavras: “O Brasil é difuso e o Itamaraty consegue dar ao Brasil do momento o seu foco”. Um foco que combina memória e inovação, como explicitam as análises dos momentos de transição discutidas neste Memórias.

Eu penso que a avaliação de Marcos sobre o Itamaraty é justa. Faço essa observação na condição de estudioso das relações internacionais e de quem, não tendo sido diplomata de carreira, conviveu com o Itamaraty como ministro das Relações Exteriores em duas ocasiões e exerceu a função de embaixador. Por isso, refletindo sobre a experiência a respeito da minha atuação no Itamaraty, observei em sintonia com ele: o Itamaraty é uma instituição que tem autoridade no contexto da administração pública brasileira. Sua palavra é menos que um comando, mas é mais do que um conselho, para valer-me das características da autoridade na formulação de Mommsen.

domingo, 15 de março de 2026

Ricardo Seitenfus: princípios, ações e desafios do internacionalista - IRI-USP, 19/03/2026, 19:00hs.

Um internacionalista veterano, autor de muitos livros e praticante das relações internacionais, inclusive como representante da ONU no Haiti durante uma das fases mais dramáticas da vida do país. Ricardo Seitenfus discorrerá sobre sua carreira acadêmica, diplomática e como pensador das relações internacionais do Brasil. Tive a satisfação de colaborar com um ou outro de seus livros.


 

Registro Histórico: Resolução da AGNU sobre a partição do antigo território sob mandato britânico na Palestina, 1947

Registro Histórico: Resolução da AGNU sobre a partição do antigo território sob mandato britânico na Palestina, 1947

Reparem que a resolução fala de um Estado Judeu e de um Estado Árabe, sem prejulgar quanto à natureza desses estados, inclusive por que existiam judeus agnósticos, ateus ou não religiosos, e entre os "arábes" havia muitos muçulmanos, por certo, mas também diversas denominações cristãs ou outras. Nunca se tratou de um Estado judeu religioso, apenas do povo judeu, sequer sionista. O sionismo, aliás, assim como o nacionalismo árabe ou pan-árabe, poderia ser caracterizado como um movimento nacionalista, internacionalista, socialista, comunitarista e religioso, ao mesmo tempo, ou seja, traços distintos, mas possivelmente imbricados das diversas identidades do povo judeu ao longo dos tempos e no século XX.

O "povo palestino" também é muito diverso, sempre foi, mas não se sabia de um movimento palestino no sentido contemporâneo, o que foi sendo criado mais tarde, pois os Estados árabes circundantes não aprovaram a participação, se opuseram à criação do Estado judeu e o combateram diversas vezes. O povo judeu, que realmente formou um Estado judeu, levemente sionista, e açambarcou territórios que não lhe tinham sido atribuídos na origem. A tragédia está na quase impossibilidade de convivência, e na existência de extremistas de cada lado.

Paulo Roberto de Almeida

United Nations General Assembly Resolution 181
, adopted on November 29, 1947, approved the Partition Plan for Palestine, dividing the British Mandate into independent Arab and Jewish states with a special international regime for Jerusalem. It aimed to terminate the Mandate, withdraw British forces by August 1, 1948, and partition the land into roughly 56% for the Jewish state and 43% for the Arab state. 

Key Details of the Partition Plan (Resolution 181):
  • Partition Proposal: The plan proposed dividing Palestine into a Jewish State and an Arab State, with Jerusalem (including Bethlehem) as a corpus separatum under international administration.
  • Territorial Allocation: The Jewish state was assigned ~56.5% of the land, and the Arab state ~43%.
  • Economic Union: The plan mandated an economic union between the two states to ensure shared infrastructure and currency.
  • Mandate Termination: The British Mandate was to terminate, and British troops were to be withdrawn, by August 1, 1948.
  • Implementation: The resolution required the creation of a UN Commission to facilitate the transition, with independence aimed for no later than October 1, 1948.
  • Adoption: The resolution passed with 33 votes in favor, 13 against, and 10 abstentions. 
The text further included detailed boundary descriptions for the proposed states and required safeguards for religious and minority rights within both states. The Jewish Agency accepted the plan, while Arab leaders rejected it, viewing it as unjust and a violation of the rights of the majority Palestinian population. 


What is, who is Putin, what he is doing, and what think most of Russians who believe in Putin?

 What is, who is Putin, what he is doing, and what think  most of Russians who believe in Putin?

If power was sold in a pharmacy, then you would have to write in lowercase side effects: "Authority cripples your brain."


What is happening in Russia now says one thing - Putin has gone crazy. This is not an insult. This is a diagnosis. The circle of insanity, like a funnel, has drawn in Putin's entire surroundings. Surroundings “mirrors” them, shows loyalty, and mask what’s really going on in their minds. All for the sake of one thing - to keep oneself safe and survive until the day when the "Mirror" either breaks itself or will be broken.


Failure to understand Putin's inner essence leads to trying to put Ukraine at the negotiating table with him, believing that it's all about some mythical "inherently Russian" lands. Putin believes in the correctness of all his actions. It's useless for him to use morals as an argument. He has his own idea of good that may contradict widely with the generally accepted moral norms. When will Trump and the EU understand that putting Putin at the negotiating table will never work? So we must solve the issue of ending the war based only on Putin's personality and character, understanding that Putin's madness is reality.


Putin is dangerous not only for Ukraine. Putin is dangerous for Russia and the whole world. His only wish is to humiliate everyone: Ukrainians - with bombs and deaths; all Russians, including his own, - with hundreds of bans, taxes, Internet shutdowns. It's like pouring poison into water dams to kill your enemies in the country. And it doesn’t matter that his supporters will die as well.

If Putin finally gets cornered, he won't hold his own hands. And he is mentally prepared for it and afraid of it. You can't predict when he will be at this point. But when it comes, he will either run away, or he will want to tear everything down and go all the way. Putin is waiting on Ukraine's side for an erroneous step, which in the eyes of the majority of Russians will give him the right to any answer. But this should be something more serious than just blows on Russia.


Putin is panically afraid of the forceful change of his power. The first shock from such a possibility came with the death of Gaddafi. And now - with the death of Khamenei. Putin knows that the country has millions of his supporters, but there are even more of those who want him to leave. This information drove him into one of the corners of the cage of insanity. This is a total disbelief. And fear. He's afraid. That's why he needs all these rockets, bombs, intelligence agencies, and the entire army.


The threat of nuclear weapons is the last argument in trying to control people. If you don't do what I want, if you are not controlled by my control, I will blow everybody, I will destroy everybody, everybody will perish! It's just a threat - to make others fear him. Putin's mental state has long been a danger.. Putin is not insane. He just really lost his mind. He doesn't have the permission frame anymore. He is willing to go to anything to achieve his goal, prefers to play ahead unless he meets worthy resistance. He often raises the stakes even when it seems there is nowhere to go. This brings the conflict to a new level of aggravation. Putin used to hold back Putin himself when he reminded him who he was before.


By analyzing Putin's gesticulation and facial expressions at his latest meetings and speeches, it is clear that he is struggling with nervousness. He begins to stutter, congestion, cough, does not know how to properly convey his thought. He reads only the text prepared for him. You can tell that he is reading it either for the first time or forgot that he watched it recently. He has a constant doubt. He keeps repeating the same phrases as if he is afraid to say anything in particular. It's obvious that he is losing his mind, losing his healthy connection with reality. He has no idea of the real events on the frontline. He doesn't doubt his decisions, doesn't admit his mistakes and doesn't try to justify themselves for them. Blame everything on others. He considers his actions quite rational. Dictators and the most violent representatives of the criminal world, scientists have found out, have something in common.


Putin's panic state and his threats are already the finish line. He'll raise a degree, because there's no other way. All the dictators who did not die a similar path. On every corner people die because of their politics and on every corner the reaction becomes more and more violent. At the same time, the dictator has fewer and fewer supporters.


The last day of the dictator is spent with random people - an officer on duty, a stenographer, a secretary. None of those who stood by him in the reception room yesterday will want to see him again. In a situation of helplessness, he will resist to the end, and when "insurmountable circumstances" arise, he will try to drag us into his hell. But in such circumstances, the Minister of Defense's phone stops working or the nuclear button "breaks". Or something else. Anyway, it's always been that way until today. And we have to believe that it will be the case this time as well.

Direita e Esquerda possuem algum significado maior? - Paulo Roberto de Almeida

Direita e Esquerda possuem algum significado maior?

Leio este “ensinamento” no Threads:
“Durante a Revolução Francesa, na assembleia:
Os defensores da MONARQUIA e da tradição se sentavam à DIREITA do presidente da assembleia.
Os revolucionários que queriam MUDANÇAS profundas se sentavam à ESQUERDA.”

PRA: Pois bem, imaginemos que poderia ter ocorrido o contrário, isto é, que os conservadores, reacionários, defensores dos privilégios de classe, de estamento, dos “direitos” da aristocracia, dos títulos de nobreza, e da isenção de impostos para os membros da elite, tivessem por acaso se sentado À ESQUERDA do presidente da Assembleia Nacional, e que os revolucionários, progressistas, defensores de direitos iguais, independentemente de educação, condição social, status de origem, posição politica na sociedade e no Estado, abolição de quaisquer privilégios e distinções, enfim que todos fossem tratados exatamente iguais em direitos e obrigações, que estes tivessem se sentado À DIREITA do presidente da Assembleia, que diferença isso faria?
Aparentemente NENHUMA: a Direita (isto é a ESQUERDA atual) seria reacionária, atrasada etc., e a chamada Esquerda, ou mutatis mutandis, a DIREITA, seria progressista e avançada.

Serviu para alguma coisa este exercício?
Aparentemente NADA, apenas para confirmar certos preconceitos e clichês arraigados na sociedade e na política.

Pois bem, leio também no Threads que o recentemente falecido filósofo alemão Jürgen Habermas, tinha chamado a atenção para o “FASCISMO DE ESQUERDA”, uma realidade mais comum do que se pensa, o que significa que representantes da Esquerda atual, isto é, da DIREITA trocada no exercício que fizemos, estão tendo um comportamento que seria, teoricamente, do outro “lado”, compreenderam? Isso é mais possível do que se pensa.
Mas isso não tem nada a ver com o outro “exercício” que tinha sido feito por aquele “chanceler acidental” (lembram-se dele?) que, acompanhando a visita de um nefando presidente (por ser reacionário, negacionista, inimigo de indígenas, quilombolas etc.) a Israel, tinha dito que o Nazismo era de Esquerda, o que obrigou até a Embaixada da Alemanha no Brasil a soltar uma nota dizendo que o Nazismo era de Direita, e que partidos nazistas estavam PROIBIDOS na Alemanha, ao contrário, por exemplo, dos EUA, onde é perfeitamente possível ser nazista, fazer propaganda nazista, fundar um Partido Nazista e defender TODAS as ideias e medidas NAZISTAS, em total conformidade com o Hitlerismo factual e histórico.
Desculpem se confundi vocês um pouco, mas foi intencional, apenas para mostrar que a realidade por vezes é mais complexa do que se pensa e que certas coisas se confundem e se misturam entre si.
O que as separam?
Conhecimento histórico, reflexão ponderada e julgamento MORAL.
Grato pela atenção.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5245, 15 março 2026, 2 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (15/03/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/direita-e-esquerda-possuem-algum.html).

Um livro majestoso: A Riqueza das Nações, de Adam Smith - Pedro Paulo Pimenta (Quatro Cinco Um)

Um livro majestoso
Nova tradução restitui o espírito e a letra de uma das obras fundadoras do pensamento liberal
Pedro Paulo Pimenta
Quatro Cinco Um, a revista dos livros, 01JAN2023
https://quatrocincoum.com.br/resenhas/economia/um-livro-majestoso/


Publicada em 1776, A riqueza das nações logo se tornou referência no debate político e econômico, de Londres à Paris da Revolução, da Europa às colônias americanas. A crítica ao sistema mercantilista, a defesa do livre-comércio, sua censura ao tráfico negreiro e ao trabalho escravo e a ampla discussão sobre a arrecadação e o gasto público deram novos ares à sisuda ciência econômica praticada pelos fisiocratas e outros contemporâneos. Por um curto período, a economia se tornou, graças a Smith, uma ciência crítica: dos preconceitos e das paixões humanas, mas, sobretudo, de seus próprios princípios, a serem revisados e renovados à luz da experiência histórica. Quando se pôs a escrever, Smith não pensava em inaugurar uma ciência “exata” e “sólida”, concebida nos moldes da matemática (a economics tal como a conhecemos). Considerou a economia sob a rubrica da jurisprudência, ciência que estuda as condições de administração do Estado, ou, se quisermos, do corpo político. Desde as suas célebres lições de jurisprudência, ministradas em Glasgow entre 1762 e 1766, ele deixara claro que a vida política só existe enquanto tal — e seus atores só podem entrar em cena — quando as comunidades humanas são geridas por leis claras, constantes e aplicadas de maneira regular. Não importa como são reunidas, se em uma constituição, um código ou sob outra forma, são essas leis que garantem a vida e a propriedade de cada indivíduo contra a violência e a ganância dos outros. Sem isso, não pode haver nem liberdade política (civil liberty) nem liberdade individual (freedom).

Publicada em 1776, A riqueza das nações, de Adam Smith, logo se tornou referência no debate político e econômico
Apenas quando tais liberdades se encontram minimamente garantidas é que o comércio pode se tornar extensivo. Ora, se não há dúvida, segundo Smith, de que em toda e qualquer sociedade existe algum tipo de relação comercial entre grupos ou indivíduos, é apenas nas sociedades modernas — mais precisamente a partir do século 16 — que o comércio se torna um assunto de Estado, ou uma questão política. Expandindo-se para além de seus próprios limites, os Estados europeus conquistam territórios na América, transformam-nos em colônias de extração e os ligam ao comércio de mão de obra africana escravizada e aos monopólios das chamadas “Índias ocidentais”.
Sociedade comercial
Smith dá a esse processo — que outros depois chamarão de “capitalismo”, “mundialização”, “antropoceno” etc. — a modesta alcunha de “sociedade comercial”, e põe-se a analisar o fenômeno historicamente, buscando extrair, em meio ao peso das circunstâncias que determinam a direção das coisas humanas, a silenciosa porém inequívoca atuação das leis gerais que tornam essa experiência regular, malgrado as aparências. A terceira parte d’A riqueza das nações traça uma conjectura histórica sobre as origens da sociedade comercial, que Smith remonta à queda do Império Romano. A certa altura dessa seção, certamente a mais acessível do livro, ele observa que “a ordem natural das coisas” que leva ao comércio entre a cidade e o campo, e que “ocorre, em maior ou menor medida, em todas as sociedades”, se deu, “em muitos aspectos, de maneira completamente invertida, em muitos Estados da Europa”. Quer dizer, se é possível e mesmo necessário identificar leis gerais e traçar um quadro esquemático sobre as origens da sociedade comercial, é igualmente indispensável ficar atento às vicissitudes que condicionam os efeitos empíricos dessas leis.
Mas isso não é tudo. Para Smith, a história humana é um processo que ocorre às cegas, no qual os agentes, na realização de seus interesses imediatos, terminam por produzir uma ordem cujos lineamentos eles não poderiam sequer entrever. Daí a célebre metáfora da mão invisível: querer controlar, para além de certo ponto, as interações humanas é brincar de Deus, com consequências nefastas — mesmo porque, na obra de Smith, Deus não é uma coisa, nem mesmo uma ideia, mas apenas uma metáfora da ordem que se produz a si mesma, sem desígnio nem intenção.
Smith não pensava em inaugurar uma ciência ‘exata’ e ‘sólida’, concebida nos moldes da matemática
O advento da “sociedade comercial” não é um fenômeno neutro. Introduz na cena histórica, pela primeira vez de maneira generalizada, uma oportunidade para o desenvolvimento de uma propensão característica da natureza humana: a invenção. Dez anos antes d’A riqueza das nações, na última de suas lições sobre jurisprudência, Smith exprimira essa ideia de maneira curiosa. Contrariamente aos outros animais, que se sentem satisfeitos com o que a natureza lhes oferece para sustento e bem-estar, o “homem é dotado de uma delicadeza tão grande, que nada do que a natureza produz pode lhe agradar, e em tudo ele vê necessidade de melhoria”. Mas esse instinto é relativo às condições em que os humanos se encontram, e inevitavelmente se torna mais aguçado numa sociedade como a comercial, definida tanto pela multiplicação das necessidades a serem satisfeitas quanto pelo número quase infinito de meios para satisfazê-las.
Antologia reúne textos clássicos da fisiocracia, uma das primeiras teorias que ajudaram a entender a dinâmica econômica
Ocorre que a sociedade comercial, além de incitar ao aguçamento desse instinto natural, também facilita o seu desenvolvimento. Nesse sentido, a primeira parte d’A riqueza das nações continua sendo o momento mais alto de um livro sem pontos baixos. Dedicado à análise de um fenômeno preciso, a divisão do trabalho, ele oferece, ao mesmo tempo, uma perspectiva de conjunto sobre o mundo moderno.
Divisão do trabalho
Para Smith, a divisão do trabalho explica “os grandes avanços do poder produtivo do trabalho, e a parte mais substancial da habilidade, da destreza e do discernimento com esse poder é atualmente empregado”. Trocando em miúdos, a divisão do trabalho responde pelo alto grau de complexidade e perfeição atingido, na segunda metade do século 18, na manufatura.
Smith realiza uma análise magistral de como a introdução desse expediente trouxe, na época, uma alteração completa na própria organização da sociedade. O exemplo que ele toma como ilustração é o da manufatura de alfinetes, processo que passa por nada menos que dezoito etapas e que requer, no lugar do trabalho de um ou poucos artesãos num ateliê, a mobilização de uma numerosa equipe dentro de uma oficina.
A reorganização do trabalho produtivo não se restringe à manufatura: estende-se à agricultura, ao comércio e, para além da esfera da produção da riqueza, à divisão de grupos na sociedade e na própria administração do Estado. O mundo moderno não apenas requer o uso da invenção como capacidade humana, mas também fomenta o seu desenvolvimento constante, em busca de meios cada vez mais eficazes para a produção dos fins desejados. Smith nunca foi um utilitarista puro, e essa consideração é temperada pela atribuição de um pendor estético à natureza humana. Não nos contentamos com a realização de um objetivo, temos de alcançá-lo pela maneira mais sofisticada e complexa possível, pois o que nos deleita, acima de tudo, é a beleza do sistema, para além de sua eficácia.
Não nos contentamos com a realização de um objetivo, temos de alcançá-lo pela maneira mais sofisticada e complexa possível
A riqueza das nações é testemunho de como isso acontece. A exemplo de outros livros escritos na mesma época ou logo depois — como Declínio e queda do Império Romano, de Gibbon, ou A origem das espécies, de Darwin — a obra-prima de Smith se alonga para muito além do que requerem a exposição e a demonstração de suas principais teses e argumentos. Tanto melhor para o leitor, que conta com mais uma obra no catálogo das que são, por definição, inesgotáveis.
É uma questão saber em que medida a posteridade fez justiça a esse livro majestoso. Como poderia tê-lo feito? Esforços não faltaram. Hume o leu e houve por bem corrigi-lo, já no leito de morte. Malthus foi um discípulo tacanho; Say, um continuador original. Ricardo percebeu a insuficiência da teoria do valor. Não falemos sobre Marx nem sobre Hayek, que lançaram A riqueza das nações na arena de disputas ideológicas que se arrastam desde o século 19 até os nossos dias.
Pensador radical
Vez por outra se lê, na pena de um de nossos numerosos articulistas de economia, um elogio a Smith, o “pai da economia moderna”. Que seja. Outros, mais atentos à profusão de tesouros oferecidas em suas obras, vêm redescobrindo em Smith nada menos que um pensador radical, ou, se quisermos, um liberal autêntico, às voltas, na quinta parte d’A riqueza das nações, com questões como o ensino público, a saúde da população, os investimentos do Estado, e, em outros escritos, com o impacto potencialmente desestabilizador da prática extensiva do comércio sobre a vida política.
Por tudo isso, uma nova tradução d’A riqueza das nações é mais do que bem-vinda. Eu não saberia dizer quantas já foram feitas para a língua portuguesa, mas sei de ao menos três, além desta, em circulação. Nenhuma, porém, tão fiel ao espírito e à letra do original. Smith não era um estilista, e sua prosa pode se tornar convoluta mesmo às voltas com questões relativamente simples. Pode ser difícil encontrar, na língua portuguesa, um equivalente satisfatório para suas sentenças, tantas delas calcadas no francês — que Smith, a exemplo de Hume, considerava uma língua mais rigorosa que o inglês.
Smith vem sendo redescoberto como um pensador radical, ou, se quisermos, um liberal autêntico
A tradução de um livro como este, ainda por cima tão extenso, é uma tarefa ingrata, para dizer o mínimo. O que ressalta ainda mais o mérito de Daniel Moreira Miranda, que enfrenta com pleno êxito a grande maioria dos obstáculos que se interpõem à fluência do texto. Ao qual vem se acrescentar a exímia revisão técnica de Mauricio Coutinho, autor do prefácio, provavelmente nosso maior especialista na obra econômica de Smith.

Um debate relevante, o crescimento diferenciado das regiões do Brasil - Reginaldo Nogueira, Eduardo Cananarro, Renato Neto, João Patusco

Um debate relevante, o crescimento diferenciado das regiões do Brasil:

Reginaldo Nogueira, diretor executivo do Ibmec-SP:

📊 O mapa do crescimento econômico no Brasil nas últimas três décadas conta uma história clara.

Entre 1995 e 2025, o PIB real brasileiro cresceu cerca de 222% — mas de forma muito desigual entre os estados.

🚜 O Centro-Oeste liderou com folga, impulsionado pelo agronegócio. Mato Grosso cresceu impressionantes +661%.

🌎 Norte e Nordeste também avançaram acima da média nacional em vários estados.

🏭 Já o Sudeste, com economias mais maduras, cresceu menos. São Paulo (+150%) e Rio de Janeiro (+191%) ficaram bem abaixo da média.

Em outras palavras: o dinamismo recente da economia brasileira veio cada vez mais do interior do país.
=========
Eduardo Cananarro:
“O Brasil não vai enriquecer baseado no Agro.
O Agro contribui pouco valor agregado, não aumenta muito o PIB.
Para crescer a RENDA PER CAPITA precisamos evoluir a matriz produtiva, a la Coréia. 
Produzir bens e serviços com tecnologia para obter o alto valor agregado.
O que precisa para isto?
- educação
- investimento
- inovação
- trabalho 24x7
Se não fizer isto, o país está CONDENADO a renda média e baixa, o que quer dizer 20% vivem bem (como no 1o mundo) e 80% vivem na miséria.
Para fazer isto precisa políticas economicas que promovam educação, competição, iniciativa, estabilidade.
Vai acontecer?
Acho que não. Existem características históricas e culturais no Brasil muito fortes que impedem o esforço maciço que na Coréia foi feito por três gerações!”
========
Renato Neto:
“Que análise interessante Reginaldo Nogueira  temos a região Centro-Oeste com uma alavancagem capitaneada pelo MT e a região Norte sendo puxados por estados onde o agronegócio chegou com força acelerando esta escalada veja como comporta o MATOPIBA, outro ponto importante que podemos correlacionar aqui e o desenvolvimento e melhora na infraestrutura da logística no Arco Norte, cooperando para aceleração nas regiões de maior crescimento.”
========
João Patusco:
“O S e SE, além de economias mais maduras , passaram por forte desindustrialização, desde 2008.
O CO teve forte influência do agro .
Canadá e Austrália são desenvolvidos e muito fortes no setor primário, mas têm baixa população, de 20 a 30 milhões, e quase mesmas áreas do Brasil. 

Não acredito que o Brasil tenha sustentação econômica com foco apenas no setor primário. Há que ter uma indústria dinâmica na retaguarda para inovação de máquinas, equipamentos, verticalização de produtos, ou seja, “comando tecnológico “.”

Resumo da discussão: PRA

sábado, 14 de março de 2026

O ESTREITO DE ORMUZ - Luiz Roberto Bendia (Canal Geo Discussões de Marcelo Rossi)

O ESTREITO DE ORMUZ
Luiz Roberto Bendia

Do canal Geo Discussões de Marcelo Rossi
12/03/2026

Todos pensam que o Irã pode fechar o Estreito de Ormuz. Isso está errado. O Irã não o fechou. Foi Londres. Não o governo.
As seguradoras.
A artéria petrolífera mais importante do mundo quase parou de fluir.
Deixe-me explicar.
Todos os dias, cerca de 107 navios cargueiros normalmente passam por ali.
Linhas vitais de energia para a economia global.
Na semana passada?
Apenas 19 navios cruzaram.
Um colapso de 81% no tráfego. Sem mísseis.
Apenas uma decisão: as seguradoras retiraram a cobertura.
Eis como o transporte marítimo global realmente funciona.
Cerca de 90% dos navios do mundo são segurados por 12 clubes de seguros marítimos. Esses clubes dependem dos mercados de resseguros — a maioria sediada em Londres.
Quando o risco de guerra aumenta, as resseguradoras podem retirar a cobertura.
E quando isso acontece:sem seguro!!!
→ os navios não podem navegar
→ o comércio para.
Um petroleiro de US$ 150 milhões não navegará sem seguro. Portanto, o Estreito de Ormuz não foi bloqueado pela marinha.
Foi bloqueado por uma planilha.
Agora, a verdadeira questão:
Quem está sendo realmente estrangulado?
Três atores.
1. Irã
Quase todas as exportações de petróleo iranianas passam por Ormuz. Se o transporte marítimo entrar em colapso o Irã não poderá exportar. Sua receita de guerra desaparece. Ironicamente, a arma petrolífera prejudica primeiro o próprio Irã.
2. China
A China é o país mais exposto do mundo a uma interrupção em Ormuz.
* Cerca de 40% das importações chinesas de petróleo bruto passam pelo estreito
* Cerca de 90% das exportações de petróleo iranianas são destinadas à China
* Os carregamentos de GNL do Catar para a China precisam atravessar Ormuz.
Portanto, se essa rota congelar, a segurança energética da China começa a ser abalada. É por isso que Pequim rapidamente pediu a desescalada.
3. Todo o Golfo
* Arábia Saudita
* Emirados Árabes Unidos
* Catar
* Kuwait
* Iraque
Suas exportações de petróleo dependem disso.
O Estreito de Ormuz transporta cerca de 20 milhões de barris por dia. Não há rota alternativa.
E é aqui que o sistema financeiro britânico entra discretamente na história.
Durante séculos, Londres dominou o mercado de seguros marítimos. Dos mercados de Lloyd's ao resseguro global. Isso significa que quando Londres decide que o risco é muito alto, o transporte marítimo global congela. Nenhum bloqueio é necessário.
Isso ajuda a Rússia?
A curto prazo, sim. Se as exportações do Golfo diminuírem:
* Os preços do petróleo sobem
* O petróleo bruto russo se valoriza
* A Ásia pode comprar mais petróleo russo
Preços mais altos significam mais dinheiro para Moscou.
E a Índia?
A Índia importa cerca de 85% do seu petróleo. Grande parte vem do Oriente Médio. Se a instabilidade no Estreito de Ormuz persistir:
* Os custos de frete aumentam
* Os preços do petróleo disparam
* A pressão inflacionária aumenta.
A vantagem da Índia é a diversificação.
Ela compra de:
* Produtores do Golfo
* Rússia
* Outros fornecedores.
Mas se o Estreito de Ormuz permanecer instável, todos pagarão mais.
Qual a maior lição aqui?
A maioria das pessoas pensa que a geopolítica é controlada por:
* Presidentes.
* Generais.
* Mísseis.
Mas às vezes os verdadeiros guardiões são os atuários que executam modelos de risco em Londres. Eles não disparam armas. Eles precificam a probabilidade. E quando os números não fecham o comércio global simplesmente para.
Se você quer entender a geopolítica moderna, lembre-se disto: o mundo não é mais controlado apenas por governos.
Ele é controlado por sistemas.
* Sistemas de seguros.
* Sistemas de energia.
* Sistemas financeiros.
Mísseis criam manchetes. Modelos de risco decidem o que realmente se move.
*****


Formação de uma estratégia diplomática: Relendo Sun Tzu para fins menos belicosos - Paulo Roberto de Almeida

Dez anos atrás, eu fazia, de forma resumida, mais um dos meus "clássicos revisitados". Está na hora de retomar o exercício.


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Sun Tzu tem algo a ensinar aos diplomatas? Parece que sim... - uma releitura da Arte da Guerra, por Paulo Roberto de Almeida



Formação de uma estratégia diplomática
Relendo Sun Tzu para fins menos belicosos

Paulo Roberto de Almeida

Os argumentos constantes do presente ensaio analítico se inserem num conjunto de trabalhos – já feitos ou em preparação – que podem ser enfeixados na categoria dos “clássicos revisitados”, entre os quais um Manifesto Comunista adaptado a estes tempos de globalização,[1] e um Moderno Príncipe,[2] que pretende aproveitar os conceitos do florentino para a política atual. Da mesma forma, pode-se reler Sun Tzu e aproveitar os ensinamentos contido na Arte da Guerra[3] para uma reflexão de caráter conceitual sobre a estratégia diplomática – referida simplesmente como ED – no contexto das relações internacionais contemporâneas. A esse título, não se trata de refazer, obviamente, uma “arte da guerra para diplomatas”, e sim tão somente de tecer considerações sobre uma (e não a) estratégia diplomática, com base nos argumentos basicamente filosóficos – e, claro, muitas regras práticas – presumivelmente redigidos pelo conhecido mestre chinês, legitimamente considerado o “pai da estratégia” (no seu caso, militar).

Da diplomacia como um instrumento do Estado
A diplomacia é de vital importância para o Estado. Talvez não tão crucial quanto a defesa do Estado por suas forças armadas, pois destas depende a própria sobrevivência física do Estado. Este pode, teoricamente sobreviver sem manter intensas relações internacionais, ou sem exercer uma diplomacia ativa. Mas ele dificilmente teria vida longa, ou conseguiria preservar seus interesses vitais, sem uma capacitação adequada em matéria de instrumentos defensivos (que são, igualmente, mecanismos ofensivos, credíveis, tanto para a dissuasão quanto para o ataque).
A diplomacia é, todavia, crescentemente relevante não apenas para a defesa dos interesses fundamentais de um Estado, mas sobretudo para se alcançar os objetivos nacionais relevantes de uma nação no contexto contemporâneo, partindo do pressuposto que a sociedade humana e a comunidade das nações se afastam, cada vez mais, do direito da força para aderir à força do direito. O mundo contemporâneo abandonou, progressivamente, os esquemas restritos dos arranjos interimperiais – embora a última instância da política internacional permaneça com as grandes potências – para adentrar no multilateralismo dos esquemas de segurança coletiva consolidados nos instrumentos onusianos. Da diplomacia depende – paralelamente ao exercício potencial do poder militar – a preservação de um ambiente de paz e de estabilidade, tanto quanto de cooperação nos planos bilateral, regional ou multilateral a que aspira todo Estado que privilegia a solução de controvérsias pela via das negociações. Esta é uma condição essencial, hoje indispensável, para o crescimento econômico sustentado, os avanços tecnológicos, o progresso social, a preservação do meio ambiente, enfim, para a prosperidade comum.
Adaptando nossa releitura de Sun Tzu ao contexto diplomático, poderíamos dizer que a arte da diplomacia implica cinco fatores principais, que devem ser objeto de nossa contínua reflexão, com vistas a aperfeiçoá-los e incorporá-los cada vez mais às nossas práticas de servidores do Estado no campo da política externa. Estes cinco fatores são: a doutrina, a interação entre a conjuntura e a estrutura, os condicionantes econômicos e geopolíticos da ação diplomática, o comando e a disciplina. A partir desses cinco fatores é possível elaborar uma “estratégia diplomática”, que será objeto da segunda seção deste ensaio introdutório.

doutrina tem a ver com a concepção mesma da diplomacia, a sua razão de ser. Ela diz respeito aos princípios inspiradores da diplomacia, aos valores que fundamentam a sua ação, às diretrizes que guiam essa ação na prática. Ela também se refere a uma noção clara dos interesses nacionais e aos instrumentos indispensáveis à implementação dos objetivos fundamentais do Estado, cujo pressuposto básico  é, obviamente, o ato de dispor de uma doutrina básica para sua atuação diplomática – sem esquecer uma estratégia militar --  no cenário internacional.
interação entre a conjuntura e a estrutura pode ser vista como o equivalente funcional daquilo que Sun Tzu chamava de tempo. Essa interação supõe a combinação da sincronia e da diacronia – ou seja, o momento presente e a flecha do tempo –, que constituem os dois vetores de atuação diplomática ao longo de um determinado período. Toda diplomacia lida com o aqui e o agora, mas ela o faz tendo em vista as consequências futuras das ações adotadas na presente conjuntura e levando em consideração a herança recebida do passado recente, que imprime sua marca sobre a mente dos diplomatas e determina, em grande medida, a forma como eles vão agir no presente.
Os condicionantes econômicos e geopolíticos representam o fator que Sun Tzu chamava de espaço, isto é, o ambiente concreto no qual devem se movimentar os “exércitos” diplomáticos, em busca da materialização dos objetivos nacionais.
comando atende aos mesmos critérios estabelecidos pelo mestre chinês da arte da guerra para esse conceito. Ele tem a ver com a capacidade exibida pelas lideranças diplomáticas – o estadista, o chanceler, os altos responsáveis pela formulação da doutrina e pela definição das principais diretrizes diplomáticas – de indicar claramente aos membros da comunidade diplomática nacional quais são os objetivos pelos quais eles devem se bater.
Sun Tzu considerava que o comando deveria ter as seguintes qualidades: sabedoria, sinceridade, benevolência, coragem e disciplina. Dessas cinco qualidades, a primeira é certamente necessária ao comandante, assim como a quarta, embora esta deva pertencer mais ao comandante militar do que propriamente ao chefe da diplomacia. Maquiavel certamente descartaria a segunda e a terceira, ou seja, a sinceridade e a benevolência, embora considerasse esta última como um recurso a que o condotier poderia apelar quando estivesse em situação de força, justamente. Quanto à ultima, deve ser considerada mais como uma variante do rigor consigo mesmo do que o exercício da disciplina “contra” seus próprios subordinados, que é o objeto do último fator da arte da diplomacia.
disciplina, no plano da diplomacia, tem a ver com organização e métodos, ou seja, a construção de uma ferramenta burocrática que seja, ao mesmo tempo, eficiente e inovadora, prudente e ousada, preparada no plano da informação e do conhecimento e apta a seguir instruções de forma ordenada e coerente, atuando como uma agência homogênea e uniforme. Isto é possível quando o estamento burocrático-diplomático possui processos de socialização e de construção de um pensamento relativamente unificado e convergente.
Com base nesses cinco fatores, as autoridades diplomáticas de um Estado podem planejar seus objetivos externos – a que chamaremos de “estratégia diplomática – a partir de um conjunto adicional de fatores instrumentais que têm a ver, essencialmente, com a implementação prática desses objetivos, quaisquer que sejam eles. Entre esses fatores figuram os seguintes: a capacidade dos dirigentes diplomáticos em formular metas realistas e adequadas para a mobilização efetiva do estamento profissional diplomático; a avaliação correta dos limites e possibilidades oferecidas pelo sistema internacional para que aqueles objetivos possam ser alcançados; o uso eficiente de todos os mecanismos e instrumentos do sistema internacional – instituições formais, grupos informais, coalizões temporárias de interesse, combinação de iniciativas bilaterais, coordenação regional e exploração dos canais multilaterais – segundo a natureza de algum objetivo específico; coordenação interna das agencias públicas que detêm alguma interface internacional e instruções claras aos agentes diplomáticos nas diversas frentes negociadoras para se alcançar eficácia máxima nas iniciativas diplomáticas desse Estado.
Mesmo sob condições democráticas, e portanto transparentes, a eficiência e a eficácia na ação diplomática de um Estado depende, em parte, do tratamento discreto que possa atribuir a determinados temas de seu interesse crucial na frente externa. Toda negociação diplomática é, por definição, uma barganha entre interesses por vezes convergentes, mas em certa medida contraditórios, quando não divergentes ou opostos (na medida que todo e qualquer acordo sempre implica em custos políticos e econômicos, a começar pela perda relativa de soberania, o que se deve limitar o máximo possível). Daí a necessidade de se encaminhar um determinado tema com base em argumentos de utilidade geral e de benefício recíproco que podem oferecer a base para um entendimento mais próximo dos interesses nacionais.
Esta questão implica também que o trabalho de avaliação deve envolver não apenas os interesses próprios do Estado em questão, mas igualmente os interesses do Estado, ou dos Estados com os quais se negocia, de maneira a permitir as acomodações necessárias. Dito isto, caberia, portanto, passar aos argumentos principais, que têm a ver com a elaboração e a implementação de uma estratégia diplomática (ED).

Da estratégia diplomática como uma das artes especializadas do Estado
Analogamente a seu equivalente militar, mas nisso talvez destoando um pouco de Sun Tzu, poderíamos dizer que a ED consiste na mobilização de instrumentos políticos, econômicos e militares – ponderados com base numa avaliação comparada e em análises conceituais e factuais sobre as intenções dos demais participantes do jogo diplomático – com vistas à consecução de objetivos nacionais bem definidos, mas sem o recurso à, ou a ameaça do uso da, força militar ou à guerra. Nesse sentido, a ED se opõe à, ou se distingue da, estratégia militar, que pressupõe, de sua parte, o uso ou a ameaça de uso da força bruta, segundo linhas que já foram suficientemente discutidas ao longo da história, desde Sun Tzu até os modernos estrategistas militares, passando por Clausewitz, Henry Kissinger ou Raymond Aron.
No plano puramente conceitual, a formulação de uma ED implica a análise dos fatores contingentes, de obstáculos conjunturais e de barreiras de caráter estrutural que dificultam – em alguns casos até obstaculizam – o atingimento dos objetivos nacionais, tais como definidos pelos estrategistas de um determinado Estado, uma comunidade variada que pode envolver desde estadistas até burocratas do planejamento governamental, passando por representantes da cidadania e consultores independentes (membros da academia, especialistas setoriais, etc.). No plano operacional, a ED pressupõe a mobilização de todos os instrumentos à disposição desse Estado para o atingimento daqueles objetivos, o que implica o uso dos meios propriamente diplomáticos, mas também o apoio das forças armadas e da comunidade econômica do país.
Todo Estado moderno, atuante, inserido na comunidade internacional, normalmente dotado de órgãos executivos e de planejamento, possui, ou deveria possuir, uma ED. Não se deve, evidentemente, superestimar uma ED: não se trata de algo fixo ou rígido, estruturalmente determinado, mas de uma concepção determinada por fatores conjunturais e até contingentes, concomitante às iniciativas dos Estados e às ações humanas.
Uma ED realista e flexível deve submeter-se, desde logo, a constantes revisões, tantos são os fatores de mudança conjuntural e as alterações no cenário político internacional que influenciam ou impactam os objetivos nacionais de um Estado. Ela deve estar, portanto, sujeita a avaliações regulares por parte de um staff especialmente preparado para essa finalidade e dedicado funcionalmente a esse tipo de tarefa. Não conviria, aliás, que o órgão encarregado da elaboração de uma ED fosse exclusivo e excludente, ou seja, trabalhando unicamente em torno da ED, e sim que ele seja aberto a insumos externos e à colaboração de especialistas e consultores alheios ao próprio órgão, de forma a manter uma atmosfera aberta inovadora, permitindo até revisões radicais da “velha” ED (ou seja, indo temporariamente num sentido contrário à “razão de Estado”).

Uma ED, ainda que elaborada por um governo determinado, não é, ou não deveria ser, uma concepção e uma ação de um governo, e sim uma iniciativa e uma postura de Estado, ou seja, interessando antes à Nação do que aos partidos e personalidades ocupando temporariamente o poder. Como atividade típica de Estado, a ED deve estar sujeita ao escrutínio de todas as forças, movimentos e grupos de opinião representativos da Nação, ser objeto de discussão e de avaliação quanto a seus fundamentos concretos, seus instrumentos operacionais, seus objetivos explícitos e suas metas implícitas. Normalmente é isso que ocorre em sistemas democráticos, tanto mais intensamente quanto mais abertos e transparentes são os elementos centrais que definem e ajudam a implementar uma ED.
Os processos de concepção, elaboração e de revisão da ED se dão no corpo do Estado, envolvendo as agências voltadas para as relações exteriores, os órgãos de defesa e o governo central, ademais das instâncias voltadas precipuamente para planejamento de políticas e de análises aplicadas; eles passam pelo parlamento e alcançam a sociedade, por meio da opinião pública, devidamente informada pelos órgãos de informação.

O planejamento de uma ED implica, antes de qualquer outra ação, tratar dos meios próprios a uma organização diplomática: de nada serve ter uma ED sem a ferramenta que a implementará. Estamos falando aqui de funcionários, equipamentos, recursos, organização, enfim, todos os meios com os quais todo e qualquer Estado leva sua ED da fase de concepção à de aplicação no terreno. Na diplomacia, como na guerra, nada existe estaticamente, ou de forma puramente passiva, mas, sim, compõe-se de interações dinâmicas; os meios precisam ser sempre mantidos, aperfeiçoados, substituídos, instruídos e monitorados.
Diferentemente da guerra, porém, não é preciso ter um planejamento logístico destinado a concentrar forças e operações ofensivas num espaço de tempo delimitado e num terreno previamente estudado. Em outros termos, as ações diplomáticas não necessitam de uma “concentração de fogo” para se lograr alguma vantagem decisiva no calor da batalha. A dinâmica diplomática é mais cumulativa, do que “destrutiva”, e as operações podem ser delongadas em função de uma avaliação contínua e mutável das condições do “terreno”, em função da interação com o “adversário”, que, no ambiente diplomático, não significa uma atitude de confrontação como na guerra e nas demais operações militares. A ED é bem mais intangível do que a EM, baseada no planejamento, certamente, mas em última instância na força bruta.
Diferente da guerra, também, a conduta diplomática se baseia menos em meios materiais, ou equipamentos “pesados”, e mais em negociações diretas, quase pessoais, entre os atores. Não se trata de “aniquilar” o inimigo, mas sim de convencer e compor com um parceiro, mais que um adversário. A guerra desgasta, se mantida durante muito tempo, ao passo que a diplomacia avança, com a composição de interesses. A “logística” da diplomacia possui uma lógica própria, baseada – aliás, como no caso das operações militares – na presença sobre o “terreno” e na interação constante com o “adversário”; diferentemente, porém, não se trata de vencê-lo, mas de compor com ele um novo terreno de interações e de cooperação.
Essa presença tem um “preço”, que é o custo da manutenção de representantes diretos – os “agentes avançados” dos serviços de inteligência militar – e do envio de missões temporárias e permanentes, assim como o engajamento pleno em negociações em nível bilateral, regional ou multilateral. Esse preço pode ser o equivalente funcional da manutenção, bastante custosa no âmbito militar, de equipamentos pesados que se destinam, na verdade, a não serem usados, mas que servem basicamente para dissuasão. No caso da diplomacia, a “dissuasão” é na verdade o diálogo e o entendimento, se possível no mais alto nível (mas de ordinário mantida pelo representante permanente, normalmente chamado de embaixador).
A condução da diplomacia será, evidentemente, diferente, segundo o Estado ostenta um regime político centralizado ou unitário, próximo do autoritarismo, ou se esse Estado exibe características claras de descentralização, com dispersão relativa dos centros de poder e participação de vários atores políticos e sociais. O Estado do mestre chinês da arte da guerra, não obstante a descontinuidade ocasional trazida por uma sucessão extraordinária de dinastias, invasões e de reconstruções sucessivas do sistema político, exibiu notável continuidade na centralização imperial, no limite do despotismo “hidráulico”. Nesse tipo de regime, a condução da diplomacia obedece, simplesmente, à vontade do soberano, com alguma participação dos cortesãos e membros do aparato estatal restrito (antigos mandarins, modernos aparatchiks).

A condução da diplomacia nas modernas condições democráticas se faz sob forte pressão de forças sociais suscetíveis de expressar posições distintas e de influenciar o processo de tomada de decisão no plano externo. A despeito da legitimidade que possam exibir essas demandas, seria conveniente que o Estado, em especial seu aparelho diplomático, preservasse sua latitude de ação e ampla margem de opções, de maneira a escolher as melhores vias – que envolvem alianças ocasionais, coordenações formais e até iniciativas individuais – para alcançar os objetivos nacionais desse Estado. Pode-se inclusive conceber certa autonomia de iniciativa e de ações atribuída ao negociador principal, da mesma forma como se concede pleno poder de comando ao general em seu campo de batalha. Em momentos decisivos, essa autonomia deve ser plena, posto que a autoridade responsável pelo sucesso (ou fracasso) de uma negociação ou iniciativa diplomática é o próprio agente no terreno, não o soberano em sua capital distante.
Em todas essas questões, Sun Tzu tem muito a ensinar aos diplomatas profissionais (e até aos iniciantes).

Brasília, 5 março 2011.

Resumo: Releitura introdutória do clássico Arte da Guerra, de Sun Tzu, adaptando seus argumentos para o objetivo de formulação de uma estratégia diplomática, necessariamente distinta da concepção militar que presidiu à sua elaboração.



[1] Ver Paulo Roberto de Almeida, Velhos e novos manifestos: o socialismo na era da globalização (São Paulo: Juarez Oliveira, 1999).
[2] Cf. Paulo Roberto de Almeida, O Moderno Príncipe: Maquiavel revisitado (Brasília: Senado Federal, 2010).
[3] O clássico de Sun Tzu pode ser encontrado facilmente na internet, numa infinidade de edições eletrônicas, em várias línguas e nas mais diferentes traduções e adaptações para o Português, voltadas tanto para o contexto militar quanto para o mundo dos negócios.


Postagem em destaque

Uma grande sintese do pensamento conservador no Brasil - 𝔊𝔢𝔯𝔥𝔞𝔯𝔡 𝔈𝔯𝔦𝔠𝔥 𝔅𝔬𝔢𝔥𝔪𝔢

 Morreu o guru de Haddad e FHC. 𝔊𝔢𝔯𝔥𝔞𝔯𝔡 𝔈𝔯𝔦𝔠𝔥 𝔅𝔬𝔢𝔥𝔪𝔢 Morreu Jürgen Habermas, um dos nomes mais "influentes" da e...