domingo, 16 de agosto de 2026

Um país NÃO SE DESENVOLVE pela assistência pública, mas petistas e populistas não concordam - Marcelo Guterman e Paulo Roberto de Almeida

Um país NÃO SE DESENVOLVE pela assistência pública, mas petistas e populistas não concordam - Marcelo Guterman e Paulo Roberto de Almeida  

Introdução PRA: Vindos da pobreza, minha família e eu, junto com meus irmãos, nos alçamos pelo trabalho duro, por vezes mais duro do que muitos podem imaginar. Sempre achei isso, e atuei em conformidade com essa postura. Estudei, trabalhei e venci, como alguns poderiam dizer, ou seja, me alcei a uma posição de classe média, pelo estudo e pelo trabalho, e passei a integrar – como ressaltado por essas estatísticas da Oxfam – a minoria dos privilegiados, aqueles que possuem "renda alta", mas alta apenas em relação à miséria miserável da renda média da população brasileira, que é reconhecidamente muito baixa, ainda assim figurando entre os países de "renda média superior" (mas apenas porque existem alguns bilhões de miseráveis mundo afora). 

Eles não são pobres ou miseráveis por culpa dos ricos e milionários gananciosos, como acredita a Oxfam, ou pela falta de assistência pública dada por um Estado generoso, como acreditam os petistas e os esquerdistas. São pobres porque não tiveram educação e trabalho dignos, e isso não é culpa dos países ricos, ainda que estes tenham sido colonialistas e imperialistas no passado (vários ainda o são). Só é colonialista, imperialista, dominador, explorador QUEM PODE, não quem quer. A capacitação tecnológica (e militar) é uma condição prévia a qualquer dominação, sobre o meio e sobre as pessoas. Mas ela não veio do céu, ou dada por outros, generosos e desinteressados. Só existe pela própria sociedade, pelas suas instituições, cultura, governos. Povos ricos tendem a produzir ricos, eventualmente dominadores. 

O Brasil, por formação, foi colonizado por um país atrasado, mas empreendedor: Portugal dos Descobrimentos. Mas Portugal manteve analfabetos até meados do século XX, como meus avós de Trás os Montes, que vieram analfabetos ao Brasil mais de cem anos atrás, para simplesmente substituir os escravos nas fazendas de café. Minhas duas avós  – os avôs já tinham morrido ou desaparecido antes de eu nascer –, a portuguesa e a italiana, morreram analfabetas, mas tinham orgulho de meus estudos, com razão, pois cedo eu me tornei um rato de biblioteca. Foi isso que me retirou de uma profissão manual e me permitiu ingressar na diplomacia, um dos exames de ingresso na burocracia estatal mais difíceis que existem no Brasil.

Muitos anos atrás, ostracizado no regime Lula 1 para trabalhar na Secretaria de Estado, acabei trabalhando  no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, por contraditório que isso possa parecer. Acompanhei todos os "planejamentos" do governo, inclusive a famosa reconstrução do Bolsa Família a partir de programas dispersos da era FHC. Sempre me pronunciei contrariamente a esses programas de assistência pública, enquanto o NAE preparava um programa de desenvolvimento com mais de 50 prioridades. Eu preconizava apenas um programa modesto, de apenas 5 prioridades, todas elas concentradas na eduçação de base e profissional, apenas isso. Claro que fui execrado pelos "assistencialistas" mais extremados. Eu tinha certeza, então e agora, que o Brasil NÃO se desenvolveria pela via da assistência pública, mas foi o que mais cresceu, de 6 milhões de famílias, para mais de 12 milhões atualmente, ou 1/4 da população total do Brasil toda ela no cartão salvador e em vários outros programas complementares. 

O artigo abaixo de Marcelo Guterman apenas confirma minhas percepções de várias décadas, mas infelizmente também reproduz certas crenças inabaláveis na esquerda econômica. O Brasil padece de excesso de estatismo, de assistencialismo, de intervencionismo, de nacionalismo e de outros ismos nefastos, mas carece do mais simples, que começa na escola primária e termina na adolescência (ou deveria): uma educação de qualidade,  faria com que as pessoas trabalhassem, produzissem, inovassem e enriquecessem.

Infelizmente, a esquerda econômica, estilo Piketty e outros, acham que a função dos economistas é a de empobrecer os mais ricos, não a de enriquecer os mais pobres. Estamos nisso e parece que vamos continuar, pois isso não é privilégio da esquerda: todos os oligarcas, geralmente de direita, também acreditam no populismo assistencialista, no papel do Estado, e acabam produzindo a perpetuação da pobreza.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 16/08/2026 

 

 

A mitologia completa de Lula
MARCELO GUTERMAN
AGO 16, 2026

Sérgio Fausto, presidente da Fundação FHC, em linha com a inspiração ideológica de seu patrono, não consegue largar das bolas de Lula. Crente da Igreja do Ajuste Fiscal Inevitável, está à espera desse profeta mítico, o Lula Pragmático, que, finalmente, colocará as contas públicas em ordem.

Mas antes de comentar esse ponto, não podia deixar de falar sobre outro ser mítico, igualmente adorado pelos filopetistas: o “Lula Redentor dos Pobres”. Segundo essa crença, Lula teria tirado um sem número de brasileiros da pobreza, em linha com as suas mais profundas convicções. Lamento dizer, mas não passa de mais uma mistificação, em que só caem aqueles mesmerizados pela pregação petista. Vejamos.

Há duas formas de tirar pessoas da pobreza: de maneira relativa, através da melhora da distribuição de renda, e de maneira absoluta, através do aumento do PIB/capita.

Em relação à distribuição de renda, de acordo com dados do Banco Mundial, de fato o Brasil melhorou desde que o PT chegou ao poder. Em 2002, o Brasil tinha um índice de Gini de 58,1 e em 2024 (último dado disponível), o Gini estava em 50,3. Lembrando que, quanto menor o Gini, melhor a distribuição de renda de um país. Então, de fato, houve uma melhora significativa da distribuição de renda nos últimos quase 25 anos.

Mas vejamos o que aconteceu em países similares (o primeiro número representa o Gini de 2002 e o segundo, o Gini de 2024):

África do Sul: 65,0 / 54,1
Argentina: 53,8 / 42,4
México: 50,6 / 43,5

Observamos, nestes países, também quedas significativas do Gini. A não ser que Lula tenha também implementado políticas públicas nesses países, devemos concluir que esse fenômeno de melhora na distribuição de renda foi universal, e o Brasil apenas embarcou nessa nau. Nossa melhora foi, inclusive, menor do que a dos países citados, o que pode nos levar à conclusão que as políticas adotadas por Lula, na verdade, atrapalharam a tendência global.

Com relação ao crescimento do PIB/capita, o Brasil saiu de um PIB/capita de US$ 14,2 mil em 2002 para US$ 19,9 mil em 2025 (conceito Purchase Power Parity). Melhorou, sem dúvida. Mas observando-se o que aconteceu no resto do mundo, a fotografia não parece tão bonita. Segundo dados do FMI, a renda/capita global em 2002 era de US$ 8,7 mil, tendo subido para US$ 25,2 mil em 2025. Ou seja, em 2002, a renda/capita do brasileiro era 60% maior que a média global. Em 2025, é 20% menor.

Então, sim, Lula tirou muitos brasileiros da pobreza. Mas a pergunta é: não teria sido ainda melhor se tivéssemos outras políticas econômicas? Se ao menos tivéssemos acompanhado o aumento do PIB global, seríamos hoje duas vezes mais ricos do que somos. Mesmo tirando a China dessa conta, hoje seríamos 75% mais ricos. Teríamos ainda menos pobres, certo?

Mas, de todas as evidências dessa fraude intelectual, a que eu realmente prefiro é o número de beneficiários do bolsa família: temos hoje quase 50 milhões de brasileiros dependendo desse programa governamental, ou quase 25% da população. E isso porque, segundo Sérgio Fausto, “com Lula na presidência, a pobreza se reduziu de maneira importante”. Imagine se não tivesse se reduzido!

Fausto, depois dessa hagiografia de Lula, afirma que o ajuste fiscal é necessário justamente para manter essas políticas públicas que beneficiam os mais pobres. Mas esse é justamente o raciocínio dos “neoliberais”. Os petistas, Lula incluído, execram esse tipo de racional. Isso aí não passaria de uma versão requentada do Consenso de Washington, que condenaria os países subdesenvolvidos à pobreza e dependência eternas. Bom mesmo são programas sociais, incentivos ao crédito, manipulação do câmbio, fechamento do mercado nacional e subsídios a indústrias ineficientes.

O problema fundamental de Sérgio Fausto e de todos os filopetistas racionais que pensam como ele, é achar que Lula concorda com o diagnóstico de que contas públicas equilibradas são fundamentais para que o Estado tenha capacidade para ajudar os mais pobres. Esse tipo de premissa é totalmente estranha ao modo petista de pensar e governar. Para os petistas, o “mercado” precisa ser domado, como confessou, em um momento de sincericídio, o coordenador do programa de governo de Lula, Sérgio Gabrielli.

Fausto, assim como todos os tucanos da velha guarda, acham que os petistas são tucanos que vestem vermelho. Não, os petistas não são como os tucanos. Os petistas são… petistas. E sempre agirão como petistas.

Blog do Marcelo Guterman é uma publicação apoiada pelos leitores.
 

Declaração de voto antecipada, 1 (as time goes by…) - Paulo Roberto de Almeida

Declaração de voto antecipada, 1

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Declaração de voto antecipada, 1 (as time goes by…)

  

Depois de 44 anos exercendo a carreira diplomática, durante a qual fui também um professor intermitente (minha primeira e permanente “profissão”), voltei a ser um modesto professor e observador diário da vida nacional e internacional, elaborando pequenos comentários pessoais, ou transcrevendo matérias de terceiros que julgo interessantes, e que posto em meu blog Diplomatizzando (que acaba de completar vinte anos de existência contínua, e que eu chamo de “quilombo de resistência intelectual).

Pois bem, acompanho eleições no Brasil desde 1960, quando, ainda pequeno acompanhei meu pai na cabine de votação para ele marcar na cédula um X no nome de Jânio Quadros (a grande esperança dos brasileiros em acabar com a corrupção, simbolizada pela “vassourinha” em metal que grudávamos na lapela das roupas).

A renúncia do bizarro presidente seis meses depois foi um outro acontecimento que chamou minha atenção, pois minha mãe foi me buscar na escola, temendo uma guerra civil ou sei lá o quê, um trajeto que eu sempre fiz sozinho, duzentos e poucos metros de nossa casa.

Depois, sem entender muito bem do que se tratava, tive notícias do plebiscito de janeiro de 1963, quando se teve o retorno ao presidencialismo, depois de um ano e meio de regime parlamentarista.

Mais um ano e meio de inflação, greves e disturbios civis (lembro-me da greve dos sargentos do controle aéreo, em setembro de 1963), veio o golpe militar, até recebido com alívio em minha casa, basicamente por causa da inflação penalizando os modestos ganhos paternos.

O golpe, aos meus 14 anos, correspondeu ao inicio de minha politização, e ela foi obviamente de esquerda, ao passar a ler material oposicionista e, logo em seguida, a literatura marxista original: Marx, Engels, Lênin e, sobretudo, os famosos intérpretes brasileiros progressistas, Caio Prado Jr., Celso Furtado, Florestan Fernandes e vários outros, que li precocemente, anos antes de ingressar na faculdade, a chamada Fefelech da USP.

E assim passamos 20 anos sem eleições dignas desse nome, eu atuando contra a ditadura, nas ruas, desde os 16 anos, e assistindo ao começo da resistência armada e ao aumento da repressão. Já envolvido em diferentes (sucessivos) grupos de resistência armada (eu apenas no apoio logístico), senti que poderia ser preso, como vários colegas meus, amigos e terceiros já estavam sendo presos. Viajei ao exterior por conta própria (Paraguai, Argentina, Chile e Uruguai) e tomei conhecimento de outros movimentos de resistência, trazendo alguma literatura em espanhol sobre o que se imaginava ser um grande movimento de resistência ao imperialismo americano na AL (mas nessa altura, Ché Guevara, na Bolívia, Carlos Marighella, no Brasil, já estavam mortos).

Decidi sair voluntariamente do Brasil, interrompendo Ciências Sociais na USP no segundo ano, deixando o Brasil em dezembro de 1970, mesmo mês em que o ex-deputado Rubens Paiva foi sequestrado pela repressão e desapareceu (só soube do caso em janeiro de 1971, já na Europa).

Depois de curta estada no socialismo (Praga, onde constatei o totalitarismo repressivo da ocupação soviética), em fevereiro de 1971 viajei para a Bélgica, onde me instalei para trabalhar e estudar pelos seis anos e meio seguintes: inscrevi-me no primeiro ano de Ciências Sociais da ULB, terminei a graduação em 1975, fiz imediatamente o mestrado na Universidade de Antuérpia, em economia do desenvolvimento, engajando logo em seguida um doutoramento em Sociologia Histórica, que deixei em suspenso em março de 1977, para voltar ao Brasil e juntar-me novamamente à luta contra a ditadura militar, já em sua fase declinante (mas ainda perigosa, pela atuação da extrema-direita de torturadores, terroristas e assassinos).

Sem concurso para alguma faculdade pública, comecei a dar aulas em faculdades privadas e deparei-me, em meados de 1977, com o anuncio de um concurso direto para o Itamaraty, pois, já no doutorado, não pretendia voltar a ser aluno de graduação (ainda que no prestigioso Instituto Rio Branco).

Só voltei a votar novamente em 1989, mas no Consulado em Genebra, onde eu trabalhava na Delegação junto aos organismos econômicos da ONU, com o embaixador Rubens Ricupero, o único diplomata (ainda conselheiro), repito, o único que me inpressionou favoravelmente nas palestras de “socialização” quando do ingresso no Itamaraty em 1977.

Volto ao mais importante: depois de ter assistido e participado ativamente de TODOS os escrutínios presidenciais desde 1989, só tenho uma recomendação a fazer: NÃO VOTEM NA EXTREMA-DIREITA, no horror abjeto do bolsonarismo vende-pátria, no negacionismo vacinal, anti-ciência e anti-cultura, inimigo das causas humanitárias, repudiem a submissão a um poder estrangeiro, os golpistas contra a democracia.

Este é o meu único recado: qualquer outro candidato fora da extrema-direita abjeta pode ser contestado. O bolsonarismo é um mergulho no mesmo horror submisso ao imperio como vimos em 2019-2022.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5426: 12 agosto 2026, 3 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/declaracao-de-voto-antecipada-1-as-time.html)

 

Uma análise das relações internacionais numa fase de sua fragmentação ampliada - Paulo Roberto de Almeida

Repostando uma análise das relações internacionais numa fase de sua fragmentação ampliada

Paulo Roberto de Almeida

Um texto de OUTUBRO DE 2025, ainda válido em suas grandes linhas, que agora vai cair, em mais um mês e meio, entre os dois turnos das eleições presidencias, atualmente, absolutamente imprevisíveis, no sentido em que QUALQUER UM pode GANHAR CONTRA LULA, tamanha é a rejeição do lulopetismo na sociedade. 

O que eu poderia acrescentar em meados de agosto de 2026 às observações abaixo? Isto: o aumento do desmantelamento do sistema internacional provocado por Trump 2, cada vez mais alucinado. Em outubro de 2025, Putin começou a perder em sua ofensiva na Ucrânia, o que se confirmou de maneira desastrosa em 2026. Mas nem Trump nem Netanyahu tinham começado a desastrosa ofensiva contra o Irã, nem Trump tinha reincidido ainda mais ferozmente em sua insanidade tarifária, sobretudo contra o Brasil, alvo preferencial em sua ofensiva para dominar todo o hemisfério americano. Nem Canadá, nem o México, e muito menos o Brasil, vão se dobrar à prepotência trumpista, mas com uma dúvida neste último caso: se o Bolsonarinho ganhar, o Brasil será entregue unilateral e bilateralmente ao “Escudo das Américas” do desvairado Trump.

Eis o texto:


Uma avaliação das relações internacionais numa data significativa [12/10/2025]


O dia 12 de outubro guarda um significado especial na história do mundo: marca a unificação da geografia e da própria história do mundo até então conhecido e registrado nas crônicas e relatos dos povos dotados de cultura escrita e das tecnologias adequadas ao comando da natureza e ao domínio de populações estrangeiras. A violência dos colonialismos e dos imperialismos nas primeiras ondas de globalização dominou as relações internacionais pelos quatro séculos seguintes, com o predomínio da Europa ocidental sobre parte significativa do mundo conquistado e explorado até a segunda revolução industrial. 

Entre a primeira e a segunda onda da globalização, iniciada com as gestas de Cristóvão Colombo e de Fernão de Magalhães e continuada com a revolução das caldeiras a vapor, as máquinas fabris, os motores à explosão e a eletricidade, o tráfico comercial e o escravismo colonial produtivo marcaram terrivelmente o continente africano, violentado e depauperado de imensos contingentes humanos, assim como pela destruição de civilizações em estágios iniciais de desenvolvimento. A própria história do mundo, em especial nas Américas, ficou marcada pela violência do colonialismo e do imperialismo da Europa ocidental sobre praticamente todos os povos e civilizações existentes, culminando com a dominação da Ásia iniciada por Vasco da Gama. O Brasil foi parte quase passiva, durante mais de três séculos, nesse itinerário de conquista ocidental sobre o resto mundo, até conquistar sua independência pela própria força do povo aqui nascido e adquirido consciência política. 

Depois de séculos lutando entre si, os impérios europeus provocaram duas guerras globais, na primeira metade século XX, que mudaram terrivelmente a geografia e a história do mundo, entre a segunda e a terceira onda de globalização. Em consequência, os velhos impérios europeus foram praticamente alijados do comando do mundo, em favor de duas grandes potências que se desenvolveram nas antípodas de concepções políticas e econômicas sobre sistemas constitucionais e sobre a organização dos seus respectivos modos de produção.

De Yalta a San Francisco, em 1945, moldou-se um sistema imperfeito, mas relativamente administrável, de relações internacionais, formalmente presidido pela ONU, de fato violado impunemente e constantemente pela ação unilateral de grandes potências, mais afetas ao seu próprio poder discricionário do que ao estrito respeito do Direito Internacional, duramente construído a partir de Kant e do liberalismo iluminista, também marcadamente ocidental.

Depois de quase 80 anos de predomínio incerto da autoridade do argumento sobre o argumento da autoridade, o funcionamento precário do sistema internacional onusiano começou a ser abalado por desejos de reconquista de seus antigos domínios coloniais por uma das potências herdeiras das vastas possessões imperiais czaristas e soviéticas. 

Diferente das intervenções unilaterais na Ásia, no Oriente Médio e na própria América Latina, por parte do império ocidental, motivadas pela obsessão com o equilíbrio de poderes, na fase de disputas geopolíticas da primeira Guerra Fria, as novas intervenções unilaterais do império euro-asiático em seu entorno imediato atacaram profundamente os princípios fundadores da ordem internacional criada em Westfália e consolidada na Carta da ONU, a saber, a igualdade soberana dos Estados (cara a Rui Barbosa, e que se tornou o eixo central do multilateralismo contemporâneo), a não intervenção nos seus assuntos internos e a não usurpação pela força de territórios estrangeiros reconhecidos no Direito Internacional, ademais de cláusulas reconhecidas em declarações universais relativas a direitos humanos e às liberdades democráticas, precariamente resguardas nas relações entre os Estados membros da ONU ou de organizações regionais.

A Carta da ONU foi violada brutal e abertamente na Georgia, na Moldova, na península ucraniana da Crimeia e, finalmente, em toda a Ucrânia, no que se apresenta como a maior guerra de conquista empreendida por um poder imperial desde 1939-1941, duramente finalizada em 1945, em seus dois extremos, no continente europeu e na Ásia-Pacífico. 

Países aderentes à Carta da ONU adotaram corretamente as sanções nela previstas, consideradas “ilegais” pelos relutantes em fazê-lo apenas por causa do uso abusivo do “direito” de veto justamente pela potência violadora, desconsiderando que a própria Carta prevê a solidariedade de todos os membros em socorro da parte injustamente agredida. 

O Brasil, infelizmente, se coloca entre os “inadimplentes” desse dispositivo, por escusas formais e por razões atinentes a interesses politicos e inclinações ideológicas que não deveriam obstar ao seu estrito cumprimento do Direito Internacional, cujos princípios fundamentais foram, por sinal, incluídos entre as cláusulas de relações internacionais de sua Constituição.

O assim chamado “sistema internacional” atravessa atualmente uma de suas maiores crises, motivados pela ação imperialista de uma das duas grandes potências da primeira Guerra Fria, assim como pela ação destruidora do multilateralismo político e sobre o sistema multilateral de comércio pela outra grande potência daquela fase, hoje em aparente declínio em face do renascimento do antigo Império do Meio, hoje convertido em “parceiro” involuntário da segunda Guerra Fria, ainda em curso. 

O cenário futuro é ainda imprevisível, mas estimo que o Brasil continuará aderente à sua tradicional autonomia decisória em matéria de politica externa, em face de conflitos entre grandes potências, e que a sua diplomacia confirme a credibilidade adquirida ao longo de um infalível respeito ao Direito Internacional.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 12/10/2025

 

Post Scriptum, em 16/08/2026: Tenho de refazer esse texto para um novo balanço das relações internacionais de maneira abrangente, de acordo aos novos dados dos conflitos internacionais na atualidade dos impasses nas duas guerras principais, de natureza geopolítica, da atualidade: a de Putin contra a Ucrânia, e a de Trump contra o Irã. PRA.

Brasília, 5428: 16 agosto 2026, 3 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/uma-analise-das-relacoes-internacionais.html)

 

 

sábado, 15 de agosto de 2026

Todos sabem que sou contra o lulopetismo diplomático, mas cabe registrar que tenho HORROR ABSOLUTO ao bolsolavismo sabujo do trumpismo doentio. Paulo Roberto de Almeida

Todos sabem que sou contra o lulopetismo diplomático, mas cabe registrar que tenho HORROR ABSOLUTO ao bolsolavismo sabujo do trumpismo doentio.

 

Paulo Roberto de Almeida


        Ouvi dizer que bolsolavistas, bolsonaristas abertos, enrustidos, envergonhados, desonestos, inclusive alguns antigos companheiros do Novo, andaram pegando seletivamente postagens minhas contra as deformações lulopetistas da diplomacia e na política externa do Brasil e andaram repostando em seus canais, como se eu estive condenando totalmente o patético lulopetismo governamental e endossando as barbaridades do bolsolavismo, do bolsonarismo em todas as suas versões, como se eu pudesse coonestar as estupidezes e as supremas desonestidades dessa tropa de elogiadores de torturadores e aderentes a uma dura ditadura militar.
        Cada vez que encontro uma seleção dessas, feitas desonesta e maldosamente, eu me apresso a desmentir, a destroçar esse tipo de comportamento viciado e vicioso.
Para que não restem dúvidas sobe minha postura como diplomata profissional, ou como simples cidadão, atualmente apenas professor, quero reafirmar minha oposição a 25% por cento da pizza diplomática do lulopetismo (pois os outros 75% integram tradicionalmente a velha ideologia do Itamaraty: multilateralismo, desenvolvimentismo, nacionalismo e até estatismo), o quarto restante é feito de equívocos, a começar pelo apoio sempre aberto às mais execráveis ditaduras supostamente de esquerda, essa aliança contra a natureza do FRANKENSTEIN do BRIC-BRICS-BRICS+, um monstro metafísico que só serve aos interesses das duas grandes autocracias nucleares (sendo que esse bloco esquizofrênico NUNCA foi proposta do Itamaraty e sim uma imposição presidencial e do chanceler pró-russo), ao mesmo tempo em que aponto a SUPREMA CONTRADIÇÃO do partido supostamente progressista (pró DH, feminismo, essas coisas) apoiando uma ditadura reacionária de extrema-direita, conduzida por um criminoso de guerra e contra a humanidade, procurado pelo TPI, ademais da república teocrática dos aiatolás, que oprimem e matam mulheres e opositores pacíficos. EU CONDENO TUDO ISSO, e acho que faz um mal enorme à credibilidade da diplomacia brasileira, assim como aos princípios e valores que sempre pautaram nossa política externa antes do petismo.

        Mas, QUERO DEIXAR CLARO, que eu abomino o negacionismo vacinal, educacional, ambiental dos estúpidos que comandaram criminosamente o país durante a pandemia, como milhares de mortes excedentárias, pela incúria e inépcia assassina dos dirigentes, no mais alto escalão, assim como repudio seu ódio à democracia e sua adesão a regimes de força. Mais do que tudo, condeno, execro, como diplomata, a submissão total ao demente imperador hemisférico que foi conduzida pelos golpistas no mandato anterior, assim como a previsão de que mais uma vez sujeitariam o Brasil à arrogância imperial do psicopata.
    Creio que ficou muito claro o que penso.

 

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 15/08/2026

 

O tirano de Moscou foca na Moldova - New York Times

Poutine prépare une opération de conquête de la Moldavie, suivant l’exemple de l’Ukraine.

Les autorités russes, avec la complicité d'un banquier en fuite qui a failli ruiner le système bancaire moldave, mènent une opération de longue haleine visant à déstabiliser l'ancienne république soviétique. Cette opération comprend la formation de provocateurs et de saboteurs dans des camps spéciaux en Serbie, en Bosnie et près de Moscou ; des actions destinées à détourner la Moldavie de son orientation pro-occidentale, notamment du centre d'innovation de Skolkovo ; la corruption massive d'électeurs et de prêtres orthodoxes locaux ; et des attaques contre les infrastructures.


La priorité absolue du Kremlin est la conquête de l'Ukraine, suivie de la prise de contrôle de la Moldavie, selon une enquête du New York Times basée sur des entretiens avec des militants agissant sur ordre de Moscou, de hauts responsables des services de renseignement moldaves, européens et américains, et l'analyse de milliers de documents relatifs aux tentatives russes de manipulation des élections moldaves. D'après les sources du Times, Vladimir Poutine espère s'emparer du sud de l'Ukraine afin de créer un corridor terrestre reliant la Russie à la Moldavie.


En attendant, le chef de cabinet adjoint de la présidence, Sergueï Kirienko, mène une opération contre les autorités moldaves pro-occidentales. Parmi ses collaborateurs figure Ilan Shor, condamné à 15 ans de prison en Moldavie pour avoir organisé une escroquerie ayant permis le détournement d'un milliard de dollars de banques locales en 2014. Selon des documents de sa société moscovite, Shor a recruté plus de 150 000 Moldaves en vue des élections législatives de l'automne 2025, les rémunérant pour leurs votes et leur participation à des manifestations. Cela représente environ 4,5 % du corps électoral.


Shor a débuté ses activités en 2024, lors d'un référendum en Moldavie portant sur l'inscription de l'adhésion à l'Union européenne dans la Constitution. En échange d'une compensation financière, des personnes étaient contraintes de publier des contenus pro-russes et antigouvernementaux sur les réseaux sociaux, de participer à des rassemblements organisés et de voter contre la présidente Maia Sandu et son parti, ainsi que contre l'adhésion à l'UE. Un programmeur travaillant pour Shor a conservé les enregistrements de ces contacts dans un dossier accessible à tous sur le cloud. Le New York Times a examiné cette base de données en contactant les personnes impliquées, en analysant les liens vers leurs publications sur les réseaux sociaux et en traçant les coordonnées GPS jusqu'à l'adresse d'une société de développement logiciel située près du centre d'innovation de Skolkovo, près de Moscou.


Avant le référendum de 2024, par exemple, Shor a versé près de 20 millions de dollars à 38 000 « activistes » en quatre mois.


Les services de renseignement russes ont également formé de véritables militants. Un camp a été ouvert dans une région reculée de Serbie, où les instructeurs étaient recrutés parmi les personnes affiliées au renseignement militaire russe – la Direction principale de l'état-major général des forces armées russes (GRU). D'après les responsables du renseignement de trois pays qui ont décrit ces activités, l'objectif était de constituer le noyau de troupes de choc entraînées à interférer dans les élections.

Durant l'été 2025, des Moldaves venus au camp ont suivi une formation de trois à quatre jours (rémunérée d'environ 400 dollars). Ils s'entraînaient à forcer les cordons de police et à incendier des bâtiments. Des enregistrements vidéo retrouvés sur les téléphones des participants par le parquet moldave et les services de sécurité montraient des individus en tenue de camouflage et gilet pare-balles s'entraînant au maniement d'armes automatiques.


Des camps similaires existaient en Bosnie et près de Moscou. Dans ce dernier, plus de 100 jeunes Moldaves ont été formés à la fabrication et à l'utilisation d'engins incendiaires et d'explosifs artisanaux, ainsi qu'au pilotage de drones équipés de dispositifs spéciaux pour explosifs ou incendies criminels, selon le parquet moldave. D'après deux agents des services de renseignement occidentaux, cette formation s'est déroulée sous la supervision du GRU.


Des prêtres de l'Église orthodoxe russe en poste en Moldavie ont également été recrutés pour diffuser de la propagande contre les autorités et leur politique. Depuis l'été 2024, des centaines d'entre eux ont été invités en Russie pour visiter des lieux saints et rencontrer les dirigeants de l'Église orthodoxe russe. Avant leur retour, chacun a reçu un contrat à signer. Ce document les désignait comme employés de l'organisation « Eurasie », liée au Kremlin et qui, selon les services de renseignement occidentaux, promeut des politiques pro-russes dans les anciennes républiques soviétiques. Shor est membre de son conseil de surveillance.


Après la signature du contrat, les prêtres ont reçu une carte de Promsvyazbank, banque qui fournit des services au complexe militaro-industriel russe et détient 49 % de la société A7, créée par Shor pour contourner les sanctions occidentales grâce aux paiements en cryptomonnaie. En échange d'environ 1 000 dollars, les prêtres devaient mener campagne auprès de leurs paroissiens contre l'adhésion de la Moldavie à l'UE et la politique pro-occidentale du gouvernement.


« Instrumentiser la religion » : la Russie a engagé des prêtres moldaves pour une campagne de désinformation anti-occidentale dans le pays.

N'ayant pas réussi à organiser d'attentats de sabotage d'envergure avec ses « activistes » entraînés (certains participants à des stages d'entraînement en Serbie ont été arrêtés en possession d'engins incendiaires le jour des élections, le 28 septembre 2025), la Russie a commencé à mener des frappes de son propre chef. En mars, elle a bombardé une centrale hydroélectrique ukrainienne près de la frontière moldave, contaminant ainsi les ressources en eau des deux pays. Des drones russes ont ensuite frappé une ligne à haute tension dans l'ouest de l'Ukraine, qui fournit jusqu'à 70 % de l'électricité à la Moldavie, provoquant des coupures de courant généralisées.


Les partisans de l'adhésion à l'UE et le parti de Sandu ont remporté de justesse les référendums de 2024 et 2025, grâce notamment aux votes de la diaspora. Mais Moscou joue la carte de la patience, reconnaît Chisinau.


https://www.nytimes.com/2026/08/14/world/europe/russia-moldova-putin.html 

O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura - Pedro S. Malan (Estadão)

 Pensadores, atores, estadistas de que o Brasil precisa:

O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura

Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do Brasil

Por Pedro S. Malan

Estadão, 09/08/2026 

Na raiz de nossos problemas de pobreza e de desigualdade de renda e riqueza está a questão fundamental a ser atacada: a desigualdade de oportunidades, que surge já no nascimento. É função de políticas públicas nas áreas de educação (e de saúde) procurar reduzir estes diferenciais nos anos iniciais de vida das crianças, como é hoje amplamente reconhecido por especialistas em educação no Brasil e no mundo.


Em 1981, por iniciativa de Deng Xiaoping, o Banco Mundial aprovou um empréstimo para a China no montante de US$ 200 milhões, equivalentes a cerca de US$ 750 milhões de hoje. Era inteiramente destinado à ciência e educação, e seus objetivos eram claros: formar gente qualificada em ciência, tecnologia, engenharia, matemática, computação; enviar estudantes chineses às melhores universidades dos EUA e da Europa; promover interação entre universidades chinesas e estrangeiras na área científica. Metade dos recursos vinha da International Development Association, braço concessional do grupo do Banco Mundial para países mais pobres, o que era a China à época. A operação contou com a aprovação dos EUA, que tinham (e ainda têm) poder de veto na instituição.


Entre 1981 e 2020, cerca de 6 milhões de chineses estudaram no exterior, dos quais 20 a 30% cursaram pós-graduação. Estima-se que entre 300 mil e 500 mil tenham obtido o título de doutor em universidades dos EUA, Inglaterra, Canadá, Austrália, Alemanha, Japão e Singapura, nas áreas de engenharia, matemática, ciência da computação, física, química e ciências biomédicas. Antes de 2000, menos da metade retornava à China; naquele ano foram criados programas de incentivo ao retorno, e após 2010, mais de 80% passavam a retornar ao país em algum momento da carreira.


A política foi um extraordinário sucesso. Em 2025, segundo o índice global de inovação da World Intellectual Property Organization (Wipo), das 100 principais clusters de inovação no mundo, a China tinha 24 e os EUA 22. O Brasil, 1. O ex-presidente Barack Obama, que tinha profundo interesse nesse processo, afirmou repetidas vezes ao longo dos anos que educação de qualidade mundial era pré-requisito para o sucesso de qualquer país. “Countries that out-educate us today will out-compete us tomorrow” (“os países que hoje investem mais e melhor em educação amanhã serão mais competitivos do que nós”, em tradução livre), explicava.


A rivalidade EUA/China continuará impulsionando a competição geopolítica global. Os EUA lideram na inovação de ponta, especialmente em semicondutores e (ainda) na fronteira de inteligência artificial (IA), enquanto a China se destaca na implementação de IA em larga escala, na manufatura e no controle de cadeias de suprimentos, de minerais críticos e de outros insumos industriais. Mas não é menos certo que aos dois rivais interessa aquilo que os chineses chamam de “estabilidade estratégica construtiva”, expressão que é manifestação de ambiguidade construtiva da China enquanto segue na disputa por esferas de influência no mundo. Em entrevista recente, Xi Jinping ofereceu sua própria definição da armadilha de Tucídides: “We all need to work together to avoid the Thucydides Trap – destructive tensions between an emerging power and established powers” (“Todos precisamos trabalhar juntos para evitar a Armadilha de Tucídides – tensões destrutivas entre uma potência emergente e as potências estabelecidas”, em tradução livre).


É possível fazer um paralelo entre aquele amplo programa de financiamento à ciência e educação, do qual a China foi beneficiária, com a ambiciosa iniciativa que agora põem em marcha os chineses. Em meados de julho, realizou-se em Xangai uma conferência que reuniu outros 29 países, ao cabo da qual foi criada a World Artificial Intelligence Cooperation Organization (Waico), descrita por Xi Jinping na abertura oficial do encontro como um importante marco na história do desenvolvimento da inteligência artificial no mundo. Companhias chinesas deverão tornar a IA amplamente disponível por meio de open source models, e o governo chinês propõe-se a treinar países a capacitar milhares de pessoas na aplicação de IA. Foram anunciados a oferta de “5 mil oportunidades” de treinamento, programas e seminários nos próximos cinco anos, e o desenvolvimento de International AI Applications Centres (IAICC). Xi apresentou a organização como instrumento para ampliar a participação dos países do Sul Global na definição das normas internacionais de IA – por meio da adoção de código aberto, cooperação tecnológica e acesso amplo às capacidades de IA.


Respondendo em 1995 a uma pergunta sobre desenvolvimento tecnológico, Celso Furtado afirmou: “O que interessa no progresso tecnológico é a qualidade do fator humano, o que não se improvisa. Não basta investir, botar mais dinheiro. Toma tempo formar de verdade gente qualificada. (...) O progresso tecnológico depende da qualidade de material humano”.


Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do País. Talvez o debate público em 2026 ainda possa levar candidatos a procurar, em prazo hábil, agregar equipes competentes nessas áreas. E a promover discussão apta a permitir diagnóstico claro para a sociedade sobre a situação atual, como a ela chegamos e, principalmente, a descortinar como avançar com a necessária visão de longo prazo sobre nosso futuro nesta área.

Ulisses, ou Odisseo, lido, revisto, completado por Arnaldo Barbosa Brandão

 OS GREGOS: A CONCEPÇAO MÍTICA, AS EPOPÉIAS, A FILOSOFIA, A ESCRITA E A MOEDA.  Do a.b.b. 

Os mitos gregos eram recolhidos pela tradição e transmitidos oralmente pelos aedos e rapsodos, cantores ambulantes que davam forma poética aos relatos populares e os recitavam de cor em praça pública. Era difícil conhecer os autores de tais trabalhos de formalização, porque num mundo em que predomina a consciência mítica não existe a preocupação com a autoria da obra, já que o anonimato é a conseqüência do coletivismo, fase em que ainda não se destaca a individualidade. Além disso, não havia a escrita para fixar obra e autor. Por esse motivo há controvérsia a respeito da época em que teria vivido Homero, um desses poetas, e até se ele realmente teria existido (séc. IX a.C.?). É costume atribuir-lhe a autoria de dois poemas épicos (epopéias): Ilíada, que trata da guerra de Tróia (Tróia em grego é Ílion), e Odisséia, que relata o retorno de Ulisses a Ítaca, após a guerra de Tróia (Odisseus é o nome grego de Ulisses). Por vários motivos, inclusive pelo estilo diferente dos dois poemas, alguns intérpretes acham que são obras de diversos autores. De qualquer forma, as epopéias tiveram função didática importante na vida dos gregos porque descrevem o período da civilização micênica e transmitem os valores da cultura por meio das histórias dos deuses e antepassados, expressando uma determinada concepção de vida. Por isso desde cedo as crianças decoravam passagens dos poemas de Homero. As ações heroicas relatadas nas epopéias mostram a constante intervenção dos deuses, ora para auxiliar um protegido seu, ora para perseguir um inimigo. O homem homérico é preso ao Destino (Moira), que é fixo, imutável, e não pode ser alterado(vejam que no Brasil, muita gente acredita no destino) . Até  os distúrbios psíquicos como o desvarios momentâneos de Agamenon são atribuídos a ação divina, E nesse sentido a fala de Heitor: "Ninguém me lançará ao Hades contra as ordens do destino! Garanto te que nunca homem algum, bom ou mau, escapou ao seu destino, desde que nasceu!” O herói vive, portanto, na dependência dos deuses e do destino, falta-lhe a noção de vontade pessoal, de livre arbítrio. Mas isto não o diminui diante dos homens comuns. Ao contrário, ter sido escolhido pelos deuses é sinal de valor e em nada tal ajuda desmerece a sua virtude. A virtude do herói se manifesta pela coragem e pela força, sobretudo no campo de batalha, mas também na assembléia, no discurso, pelo poder de persuasão. O preceptor de Aquiles diz: "Para isso me enviou, a fim de eu te ensinar tudo isto, a saber fazer discursos e praticar nobres feitos”. Nessa perspectiva, a noção de virtude não deve ser confundida com o conceito moral de virtude como o conhecemos posteriormente, mas como excelência, superioridade, alvo supremo do herói. Trata se da virtude do guerreiro belo e bom. Hesíodo, um poeta que teria vivido por volta do final do século VIII e princípios do VII a.C., produz uma obra com características que apontam para a época que se vai iniciar a seguir com particularidades que tendem superar a poesia impessoal e coletiva das epopeias. Mas mesmo assim, sua obra Teogonia (teo: deus, gonia: origem) reflete ainda a preocupação com a crença nos mitos. Nela Hesíodo relata as origens do mundo e dos deuses, e as forças que surgem não são a pura natureza, mas sim as próprias divindades: Gaia é a Terra, Urano é o Céu, Cronos é o Tempo, surgindo ora por segregação, ora pela intervenção de Eros, princípio que aproxima os opostos. É no período arcaico que surgem os primeiros filósofos gregos, por volta de fins do século VII a.C. e durante o século VI a.C. Alguns autores costumam chamar de “milagre grego” a passagem do pensamento mítico para o pensamento crítico racional e filosófico. Atenuando a ênfase dada a essa “mutação”, no entanto, alguns estudiosos mais recentes pretendem superar essa visão simplista e a histórica, realçando o fato de que o surgimento da racionalidade crítica foi o resultado de um processo muito lento, preparado pelo passado mítico, cujas características não desaparecem "como por encanto" na nova abordagem filosófica do mundo. Ou seja, o surgimento da filosofia na Grécia não é o resultado de um salto, “um milagre” realizado por um povo privilegiado, mas a culminação de um processo que se fez através dos tempos e tem sua dívida com o passado mítico. Algumas novidades surgidas no período arcaico ajudaram a transformar a visão que o homem mítico tinha do mundo e de si mesmo. São elas a invenção da escrita, o surgimento da moeda, a lei escrita, o nascimento da pólis (cidade- estado), todas elas são  condições para o surgimento do filósofo. Geralmente a consciência mítica predomina nas culturas de tradição oral, onde ainda não há escrita. É interessante observar que mythos significa "palavra", "o que se diz". A palavra antes da escrita, ligada a um suporte vivo que a pronuncia, repete e fixa o evento por meio da memória pessoal. Aliás, etimologicamente, epopéia significa "o que se exprime pela palavra" e lenda é "o que se conta". É bem verdade que, de início, a primeira escrita é mágica e reservada aos privilegiados, aos sacerdotes e aos reis. Entre os egípcios, por exemplo, hieróglifos significa literalmente "sinais divinos”.

Na Grécia, a escrita surge por influência dos fenícios e já no século VIII a.C. se acha suficientemente desligada de preocupações esotéricas e religiosas. Enquanto os rituais religiosos são cheios de fórmulas mágicas, termos fixos e inquestionados, os escritos deixam de ser reservados apenas aos que detêm o poder e passam a ser divulgados em praça pública, sujeitos à discussão e à crítica. Apenas um parêntese esclarecedor: isso não significa que a escrita tenha se tornado acessível a todos. Muito ao contrário, permanece ainda grande o número de analfabetos. O que está em questão, no entanto, é a dessacralização da escrita, ou seja, seu desligamento da religião. A escrita gera uma nova idade mental porque exige de quem escreve uma postura diferente daquela de quem apenas fala. Como a escrita fixa a palavra, e conseqüentemente o mundo, para além de quem a proferiu, necessita de mais rigor e clareza, o que estimula o espírito crítico. Além disso, a retomada posterior do que foi escrito e o exame pelos outros não só de contemporâneos, mas de outras gerações abrem os horizontes do pensamento, propiciando o distanciamento do vivido, o confronto das idéias, a ampliação da crítica. Portanto, a escrita aparece como possibilidade maior de abstração, uma reflexão que tenderá a modificar a própria estrutura do pensamento.

Por volta dos séculos VIII a VI a.C. houve o desenvolvimento do comércio marítimo decorrente da expansão do mundo grego mediante a colonização da Magna Grécia (atual sul da Itália) e Jônia (atual Turquia). O enriquecimento dos comerciantes promoveu profundas transformações decorrentes da substituição dos valores aristocráticos pelos valores da nova classe em ascensão. Na época da predominância da aristocracia rural, cuja riqueza se baseava em terras e rebanhos, a economia era pré-monetária e os objetos usados para troca vinham carregados de simbologia afetiva e sagrada, decorrente da posição social ocupada por homens considerados superiores e do caráter sobrenatural que impregnava as relações sociais. A fim de facilitar os negócios, a moeda, que tinha sido inventada na Lídia, aparece na Grécia por volta do século VII a.C. A moeda torna se necessária porque, com o comércio, os produtos que antes eram feitos sobretudo com valor de uso passam a ter valor de troca, isto é, transformam-se em mercadoria. Daí a exigência de algo que funcionasse como valor equivalente universal das mercadorias. A invenção da moeda desempenha papel revolucionário, pois está vinculada ao nascimento do pensamento racional. Isso porque passa a ser emitida e garantida pela Cidade, revertendo benefícios para a própria comunidade. Além desse efeito político de democratização, a moeda se 

sobrepõe aos símbolos sagrados e afetivos devido ao caráter racional de sua concepção: muito mais do que um metal precioso que se troca por qualquer mercadoria, a moeda é um artifício racional, uma convenção humana, uma noção abstrata de valor que estabelece a medida comum entre valores diferentes. Drácon (séc. VII a.C.), Sólon e Clístenes (séc. VI a.C.) são os primeiros legisladores que marcam uma nova era: a justiça, até então dependente da arbitrariedade dos reis ou da interpretação da vontade divina, é codificada numa legislação escrita. Regra comum a todos, norma racional, sujeita à discussão e modificação, a lei escrita passa a encarnar uma dimensão propriamente humana. As reformas provocadas pela legislação de Clístenes fundam a pólis sobre uma base nova: a antiga organização tribal é abolida e estabelecem-se novas relações, não mais baseadas na consangüinidade, mas determinadas por nova organização administrativa. Tais modificações expressam o ideal igualitário que prepara a democracia nascente, pois a unificação do corpo social abole a hierarquia fundada no poder aristocrático das famílias. Jean Pierre Vernant, helenista e pensador francês, vê no nascimento da pólis (por volta dos séculos VIII e VII a.C.) um acontecimento decisivo que "marca um começo, uma verdadeira invenção", que provocou grandes alterações na vida social e nas relações entre os homens. A originalidade da cidade grega é que ela está centralizada na ágora (praça pública), espaço onde se debatem os problemas de interesse comum. Separam-se na pólis o domínio público e o privado: isto significa que ao ideal de valor de sangue, restrito a grupos privilegiados em função do nascimento ou fortuna, se sobrepõe a justa distribuição dos direitos dos cidadãos enquanto representantes dos interesses da cidade. Está sendo elaborado o novo ideal de justiça, pelo qual todo cidadão tem direito ao poder. A nova noção de justiça assume caráter político, e não apenas moral, ou seja, ela não diz respeito apenas ao indivíduo e aos interesses da tradição familiar, mas se refere a sua atuação na comunidade. A pólis se faz pela autonomia da palavra, não mais a palavra mágica dos mitos, palavra dada pelos deuses e, portanto, comum a todos, mas a palavra humana do conflito, da discussão, da argumentação. O saber deixa de ser sagrado e passa a ser objeto de discussão.A expressão da individualidade por meio do debate faz nascer a política, libertando o homem dos exclusivos desígnios divinos, e permitindo a ele tecer seu destino na praça pública. A instauração da ordem humana dá origem ao cidadão da pólis, figura inexistente no mundo coletivista da comunidade tribal. Portanto, o cidadão da pólis participa dos destinos da cidade por meio do uso da palavra em praça pública. Mas para que isso fosse possível, desenvolveu-se uma nova concepção a respeito das relações entre os homens, não mais assentadas nas suas diferenças, na hierarquia típica das relações de submissão e domínio. Ou seja, os que compõem a cidade, por mais diferentes que sejam por sua origem, sua classe, sua função, aparecem de uma certa maneira “semelhantes” uns aos outros. De início a igualdade existe apenas entre os guerreiros, mas essa imagem do mundo humano encontrará no século VI sua expressão rigorosa num conceito, o de isonomia: igual participação de todos os cidadãos no exercício do poder. O apogeu da democracia ateniense se dá no século V a.C., já no período clássico, quando Péricles governava. É bem verdade que Atenas possuía meio milhão de habitantes, dos quais 300 mil eram escravos e 50 mil metecos (estrangeiros); excluídas mulheres e crianças, restavam apenas 10% considerados cidadãos propriamente ditos, capacitados para decidir por todos. Por isso, quando falamos em democracia ateniense, é bom lembrar que a maior parte da população se achava excluída do processo político. Aliás, quanto mais se desenvolvia a idéia de cidadão ideal, com a consolidação da democracia, mais a escravidão surgia como contraponto indispensável, na medida em que ao escravo eram reservadas as tarefas consideradas "menores" dos trabalhos manuais e da luta pela sobrevivência. Mas não resta dúvida de que, na fase aristocrática anterior, havia ainda outros tipos de privilégios. O que enfatizamos no processo é a mutação do ideal político e o surgimento de uma concepção nova de poder. O ideal teórico da nova classe dos comerciantes será elaborado pelos sofistas, filósofos do século V a.C. 

A grande aventura intelectual dos gregos não começa propriamente na Grécia continental, mas nas colônias: na Jônia (metade sul da costa ocidental da Ásia Menor) e  Magna Grécia (sul da península itálica e Sicília).Os primeiros filósofos viveram por volta do século VI a.C. e, mais tarde, foram classificados como pré-socráticos (a divisão da filosofia grega se centraliza na figura de Sócrates) e agrupados em diversas escolas, Por exemplo, escola jônica (Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Empédocles), escola itálica (Pitágoras), escola eleática (Xenófanes, Parmênides, Zenão); escola atomista (Leucipo e Demócrito). Os escritos dos filósofos pré-socráticos desapareceram com o tempo, e só nos restam alguns fragmentos ou referências feitas por filósofos posteriores. Sabemos que geralmente, escreviam em prosa, abandonando a forma poética característica das epopéias, dos relatos míticos.É interessante notar que, enquanto Hesíodo, ao relatar o princípio do mundo (cosmogonia) e dos deuses (teogonia), refere-se a sua gênese ou origem, as preocupações dos primeiros pensadores levam à elaboração de uma cosmologia, pois procuram a racionalidade do universo. Isso significa que, ao perguntarem como seria possível emergir do Caos um "cosmos" ou seja, como da confusão inicial surgiu o mundo ordenado, os pré- socráticos procuram o princípio (a arché) o início de todas as coisas, entendido este não como o que antecede no tempo, mas o fundamento do ser. Buscar a arché é explicar qual é o elemento constitutivo de todas as coisas. As respostas dos filósofos à questão do fundamento das coisas são as mais variadas. Cada um descobre o arché, a unidade que pode explicar a multiplicidade: para Tales é a água; para Anaxímenes é o ar; para Demócrito é o átomo; para Empédocles, os famosos quatro elementos, terra, água, ar e fogo, teoria aceita até o século XVIII, quando foi criticada por Lavoisier. Depois continuo............

Corrigindo um bolsonarista - Paulo Roberto de Almeida

 Como alguém repostasse um comentário meu de críticas severas à atual política externa (não à diplomacia profissional) a propósito de seu apoio objetivo à guerra de agressão de um criminoso de guerra, procurado pelo TPI, contra o povo ucraniano, querendo demonstrar minha rejeição total ao atual mandatário do Brasil, tive de agregar um novo comentário que entre ele e o monstro abjeto derrotado nas eleições de 2022, eu ainda prefiro concentrar meu esforço intelectual na rejeição absoluta do canalha que quase destruiu a diplomacia brasileira. Reproduzo aqui o que escrdvi na sequência:


“… tenho maior horror ainda ao golpista covarde e incompetente, lacaio do pretenso dirigente imperial hemisférico, que foi responsável por milhares de mortes excedentárias durante a pandemia do Covid-19, que destruiu a nossa diplomacia, que atacou a cultura, as universidades, os nativos e os quilombolas, que destruiu recursos naturais, que desmantelou a credibilidade de nossa diplomacia, que revelou toda a sua estupidez e ignorância, que elogiou torturadores e que queria instalar de volta uma ditadurz militar. Esse ser abjeto não merece qualquer respeito da sociedade e me espanta e me surpreebde que pessoas diplomadas possam defender ainda o seu nefando governo e que possam pretender ter num novo governo do Brasil um aliado de milicianos. 

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 15/08/2026”

Um aniversário que me é relembrado pelo registro de minha trajetória universitária - Paulo Roberto de Almeida

Um aniversário que me é relembrado pelo registro de minha trajetória universitária

 

Paulo Roberto de Almeida 


Dentro de aproximadamente três semanas estarei comemorando 55 anos desde que, em 6 de setembro de 1971, eu me inscrevi no primeiro ano de graduação em Ciências Sociais na Universidade Livre (isto é, não católica e não religiosa) de Bruxelas, um ano e meio depois de ter abandonado curso semelhante (ou similar) que eu fazia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, no qual eu havia ingressado em 1968-69. Eu teria podido, portanto, me formar no exato ano em que eu retomava meus estudos de graduação na Bélgica.

O autoexilio europeu se deu num espirito de preservação de minha saúde física, talvez mental, e minha liberdade pessoal, no contexto dos “anos de chumbo” da ditadura militar no Brasil, que eu combatia desde a primeira juventude. Seis anos depois, já tendo feito um mestrado em economia do desenvolvimento na Universidade de Estado de Antuérpia, graças a uma bolsa de estudo do ministério belga de Educação, e iniciado um doutoramento em Sociologia Histórica de volta à ULB, eu decidi retornar ao Brasil, em março dd 1977, retomando de imediato a luta politica contra a ditadura. No final do ano, em dezembro, eu assumia como terceiro secretário, minha carreira profissional na diplomacia, sem jamais abandonar por completo minha segunda e verdadeira carreira (paralela) de professor universitário.

Seis meses depois, eu já tinha sido fichado (sem o saber), pelo SNI, como “diplomata subversivo”, o que só vim a saber muitos anos depois ao acessar o Diretório do SNI no Arquivo Nacional de Brasilia (tenho ainda de agradecer aos agentes do SNI o fato de terem preservado um trabalho meu, sobre uma “diplomacia alternativa” (à da ditadura), de meados de 1978, oferecido ao candidato oposicionista nas eleições presidenciais indiretas de janeiro de 1979.

Tenho agora a oportunidade de agradecer às minhas duas universidades belgas a chance providencial de me terem oferecido a possibilidade de continuar meus estudos universitários, o que me permitiu abrir as portas de uma outra carreira, que foi a minha por mais de quatro décadas, e à qual ainda permaneço intelectualmente vinculado pela continuidade dos trabalhos em minhas áreas de afinidades eletivas, e também pelo duplo engajamento nos temas de política externa e diplomacia, assim como na luta politica por um Brasil mais digno de sua população mais humilde, que aliás é também minha própria condição de origem.

Este ano também marca pouco menos de meio século (mais exatamente 48 anos) que estou afetivamente e amorosamente vinculado a Carmen Licia Palazzo, que conheci recém ao ingressar no Itamaraty e que esposei menos de um ano depois de iniciar a carreira: 13 mudanças decorridas, em uma dezena de paises (dois repetidos, em funções diferentes), devo reconhecer que Carmen Lícia, mais do que os estudos e os títulos, tornou minha vida nais rica e melhor do que seria o caso em outras escolhas e em circunstâncias diferentes. Foi ela quem assegurou, com equilíbrio, paciência e sobretudo carinho e devoção, as melhores condições para que nossos filhos tivessem o melhor desempenho educacional, e para que eu pudesse manter uma dupla, ou tripla, dedicação profissional, produzindo coisas que davam tão somente prazer intelectual.

Desejo deixar este duplo testemunho de uma vida plena de realizações, com muito sacrifício pessoal e familiar, neste último meio século de vida nômade, agora quase sedentária.

Às minhas universidades, mas sobretudo à Carmen Lícia Palazzo, o reconhecimento que devo registrar por todas as boas coisas que marcaram meu itinerário de estudos, familiar e pessoal, que é também um agradecimento enternecido pelo que contribuiram em prol de uma vida plena de felicidade, que registro agora neste breve relato semi-biográfico. Observo, neste momento, que eu ainda não tinha olhado para trás as décadas percorridas e deitado um olhar de reconhecimento afetuoso por todas as realizações e motivos de alegria produzidos pelos entes maravilhosos que preencheram este meio século de minha vida.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5427, 15/08/2026, 2 p. 

Divulgado no blog Diplomatizzando (link:  https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/um-aniversario-que-me-e-relembrado-pelo.html


Os 90 Anos da Outra Obra-Prima de Gilberto Freyre : Sobrados e Mocambos - Paulo Gustavo (Revista Será?)

 Da valente, corajosa e interrogativa revista Será? (Com a qual colaboro):


Os 90 Anos da Outra Obra-Prima de Gilberto Freyre

Por Paulo Gustavo

Revista Será?, ago 14, 2026     


Sobrados e Mocambos

 

Não tivesse Gilberto Freyre escrito “Casa-grande & senzala” (1933), “Sobrados e Mucambos” (1936) teria se fixado como sua obra-prima. O livro, como se sabe, é uma continuação da história social do patriarcado brasileiro iniciada pelo primeiro e, a rigor, “originalmente planejado para ser parte daquele” (Cf. “Repensando os trópicos: um retrato intelectual de Gilberto Freyre”, de Maria Lúcia Pallares-Burke e Peter Burke; São Paulo: Editora Unesp, 2009). O subtítulo, por si mesmo, anuncia a vastidão do tema: “Decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano”.

A propósito da importância dessa obra para o próprio Freyre, trago aqui, por curioso e pertinente, o testemunho pessoal do historiador e sociólogo Vamireh Chacon em sua palestra “Significado de ‘Sobrados e mucambos’”, inserida no livro “Sobrados e mucambos: entendimento e interpretação”, organizado por Edson Nery da Fonseca e publicado pela Editora Massangana em 1996. Confessa Chacon: “Eu mesmo perguntei a Gilberto Freyre qual livro seu da sua íntima predileção. Insinuou-me, apenas insinuação, ‘Sobrados e Mucambos’ ao lado de ‘Nordeste’, por mais que se sentisse preso a ‘Casa-grande & senzala’. Também ele fora menino de sobrado, não menino de engenho”… Mas não conta apenas nesse caso o passado infantil, conta mais, creio, a própria lucidez de Freyre. De resto, para alguns especialistas, “Sobrados e mucambos”, na esteira do autor, é que seria a sua verdadeira obra-prima.

Se há uma continuidade com o famoso “opus magnum”, a começar pela homologia dos títulos e pela sequência historiográfica, também, por outro lado, há, quanto a forma geral, uma descontinuidade, apresentando-se “Sobrados e mucambos” como um livro mais apolíneo que “Casa-grande & senzala”, ensaio que teve um ímpeto e um pioneirismo, por assim dizer, dionisíacos, para usar aqui uma distinção nietzschiana tão do gosto do autor.

Evidentemente, numa e noutra obra, o autor se detém numa de suas obsessões de antropólogo, sociólogo e historiador social: a casa, em especial em sua relação com a formação social do brasileiro. O tema voltaria a ser monograficamente retomado com a publicação, em 1979, de “Oh de casa! Em torno da casa brasileira e de sua projeção sobre um tipo nacional de homem”. Nesse livro, numa “Nota do autor”, Freyre reconhece que, ao lado do que é inédito, “Há repetições que são ênfases quanto a aspectos do assunto que o autor considera sob perspectivas porventura novas […]”. “Repetições”, grife-se, um assumido e inconfundível hábito estilístico-hermenêutico freyriano.

À semelhança do que vemos em “Casa-grande & senzala”, também em “Sobrados e mucambos” é um espírito proustiano que guia o autor. É ele próprio quem o diz na “Introdução à segunda edição”: “Do passado se pode escrever o que Proust escreveu do mundo: que está sendo sempre recriado pela arte. E quase como a arte pode ser a ciência, busca ou procura de realidade complexa que adormeça em fatos aparentemente mortos tanto como em naturezas chamadas igualmente mortas: uns e outros valorizados e incorporados ao conhecimento humano pelo impressionismo revelador de aspectos equívocos ou fugazes de realidade ostensivamente viva ou aparentemente morta”. Peço perdão por essa tão longa quanto necessária citação, uma vez que nela se vislumbra o próprio ânimo criador de Freyre, toda uma lente com que escreve as suas obras.

Se quero apresentar o livro aniversariante, sem a pretensão de falar para especialistas, devo dizer, embora numa síntese infinitamente redutora, que, entre os polos emblemáticos e icônicos do título, “sobrado” e “mucambo”, estende-se toda uma ampla paisagem social. Paisagem esta que recobre os séculos XVIII e XIX e é explorada em relação a personagens e tipos (pai e filho, mulher e homem, bacharel e mulato, brasileiro e europeu), além de pares como casa e rua, engenho e praça, Oriente e Ocidente, com destaque para a miscigenação do povo brasileiro, um tema sempre nuclear para o autor. Freyre nada de braçada no que os historiadores da Escola dos Anais chamaram de “longa duração”. A “Sobrados e mucambos”, suponho, também se aplicariam as palavras do grande historiador Fernand Braudel sobre “Casa-grande & senzala”: “O milagre crucial foi ter sabido como juntar uma narrativa histórica exata e cuidadosa com uma sociologia fina e impecável”, como mencionado por Peter Burke e Maria Lúcia Pallares-Burke no livro já citado.

Finalmente, a propósito de mocambos (palavra cuja atual grafia é exclusivamente com a vogal “o”), relembro,  “a latere”, que, durante o Estado Novo, Freyre polemizou com o governo do interventor de Pernambuco Agamenon Magalhães. Polêmica que se deu em 1939, quando Magalhães lançou a Liga Social contra o Mocambo, uma campanha pela erradicação desse tipo de habitação popular. O historiador Gustavo Mesquita, professor da Universidade de Brasília, em seu premiado livro “Gilberto Freyre o Estado Novo: região, nação e modernidade”, toca no polêmico ponto (Em “Oh de casa!”, um capítulo volta ao tema: “Mucambos do Nordeste como exemplo do tipo mais primitivo de casa popular brasileira”).

Segundo  Mesquita, o sociólogo achava que “O poder público deveria resolver os problemas de insalubridade [no Recife, os casebres ficavam, geralmente, em áreas alagadiças] dos ambientes ao redor dos mocambos, mas não demolir as casas construídas com matéria-prima nativa e adequada ao clima tropical”. Freyre e intelectuais aliados buscaram a revogação de tal política cujo propósito “atendia o interesse do interventor de afastar o proletariado urbano da doutrina marxista da luta de classes, costurando certo consenso sobre a importância do saneamento básico […]”. Para o autor pernambucano, que correu o risco de ser mal interpretado e tido por pitoresco, “era algo negativo” “mudar a identidade afro-brasileira das duas cidades [Recife e Rio] sem observar a demanda pela valorização desse modo de ser autóctone e benéfico para a vida social sob o condicionamento agreste dos trópicos […]”.

Polêmicas à parte, celebremos os 90 anos deste clássico incontornável: “Sobrados e mucambos”.


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