sábado, 20 de junho de 2026

Conselho Nacional da Política Externa companheira passará a controlar o Itamaraty? (2014) - Paulo Roberto de Almeida

 Não é a primeira vez que os companheiros tentam controlar, manietar, "orientar" o Itamaraaty, por meio de um Conselho Nacional de Política Externa". Doze anos atrás eu já chamava a atenção para oa avanços que eram feitos nesse sentido. Agora voltou a ocorrer. Transcrevo abaixo um primeiro alerta que eu fiz em 2014, sobre as mesmas tentativas. PRA, 20/06/2026

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O bolivarianismo soft dos companheiros descambou na politica externa? - Paulo Roberto de Almeida

Novos atores na diplomacia brasileira: o Itamaraty passará a ser “assessorado” por um Conselho Nacional de Política Externa?

Paulo Roberto de Almeida

Uma das características do aparelhamento do Estado brasileiro pelo Partido dos Trabalhadores, hegemônico na atual conjuntura política brasileira, tem sido a penetração das diversas instâncias decisórias e consultivas do governo federal por meio de organizações políticas que se proclamam participantes interessados em determinadas políticas setoriais. Essa infiltração se dá mediante organizações que são aparentemente autônomas, ou seja, consideradas como sendo da “sociedade civil”, mas que são, de fato, controladas pelo PT ou por grupos que se movimentam no mesmo espectro ideológico. 
O objetivo, obviamente, é o de controlar, ou pelo menos constranger, os decisores políticos e a própria burocracia profissional de cada um dos setores visados, preferencialmente aqueles com maior interface social. Aqueles setores de maior relevância social são objeto da criação de “conselhos nacionais”, cuja institucionalidade foi estimulada desde o início do governo do PT, em 2003. A metodologia é conhecida: o governo já aparelhado pelos companheiros do PT estimula a formação de Conselhos Nacionais, e depois passa a convocar encontros nacionais, organizados cuidadosamente pelo próprio governo, aos quais, sem surpresas, são convidados preferencialmente – ou exclusivamente? – órgãos e movimentos controlados pelo próprio partido hegemônico. 
Trata-se aqui de uma típica tática gramsciana – que os franceses chamariam de noyautage –, como várias outras utilizadas pelo partido hegemônico, que já domina uma fração substancial do movimento sindical: por meio de decisões aprovadas de forma aparentemente “consensual” nesses encontros nacionais dos “conselhos” que o próprio partido hegemônico criou dentro da máquina governamental, os companheiros gramscianos pretendem guiar e controlar a adoção de políticas que confirmariam justamente sua hegemonia, não mais apenas sobre o governo, mas sobre toda a sociedade brasileira. Recorrendo não apenas ao velho Gramsci – que poucos dos companheiros leram de fato – mas sobretudo a recomendações dos companheiros cubanos – eles, sim, presentes, direta e indiretamente, via Foro de São Paulo e outros canais menos transparentes –, os seus companheiros tupiniquins cercam todas as possibilidades de ter a sociedade brasileira sob seu controle. Não que eles pretendam fazer o Brasil adotar um modelo de organização social e política baseado no socialismo à la cubana, pois eles não seriam estúpidos a esse ponto: a intenção é a de “apenas” controlar o capitalismo brasileiro, fazendo com que este alimente, sustente e subsidie o seu próprio poder monopólico, se possível por prazo indefinido.
Não existe, até o momento, nenhum Conselho Nacional de Política Externa, mas se depender do partido dos companheiros poderá existir algum dentro de breve tempo, pelo menos no que depender da continuidade das tentativas bolivarianas e da possível implementação do famoso decreto n. 8.243, que instituiu uma “política nacional de participação social”. As pressões para a criação de um conselho desse tipo existem e devem ser reforçadas, independentemente do destino final que tenha tal decreto, e elas são exercidas em diversas instâncias. Pode-se ler, por exemplo, numa declaração emitida ao final da IV Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional”, realizada em Brasília, de 18 a 20 de março de 2014, o seguinte trecho, que interessa de perto às atividades da diplomacia brasileira (ênfase acrescida):
“Na área internacional, faz-se necessário que o direito humano à alimentação adequada (DHAA) e à soberania e a segurança alimentar e nutricional (SSAN) orientem as relações transfronteiriças e as obrigações extraterritoriais, as negociações internacionais de clima comércio e tratados bilaterais, bem como projetos de investimentos de empresas estrangeiras no Brasil e de empresas brasileiras realizadas em outros países, nas áreas de mineração, agronegócio e construção civil, que contam com o apoio do governo brasileiro. A política externa brasileira no que se refere à segurança alimentar e nutricional precisa ser mediada em instâncias plurais e representativas, como o CONSEA. Requer, sobretudo, a criação de um espaço institucionalizado de participação social, voltado para a inserção externa do país. Nesse sentido, apoiamos a criação de um Conselho Nacional de Política Externa onde as distintas visões, interesses e propostas em disputa sejam apresentados  e processados.”
George Orwell e sua novilíngua estão claramente presentes nesse comunicado. Através de expedientes como estes os companheiros prosseguem em sua obra de penetração, de controle e de dominação das diversas instâncias da governança no Brasil. Pode-se dizer que se trata de um bolivarianismo soft, adaptado às circunstâncias nacionais. Não por isso menos nocivo à democracia e às liberdades em nosso país.

Hartford, 30 de junho de 2014.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Pensamento brasileiro em Relações Internacionais: proposta preliminar para um projeto de trabalho - Paulo Roberto de Almeida

Eis a origem do Pensamento Diplomático Brasileiro, um projeto que eu tinha concebido originalmente numa abordagem temática, e que depois derivou para um formato biográfico. Eu fiz vários projetos, esse foi um deles: 

2445. “Pensamento brasileiro em Relações Internacionais: proposta preliminar para um projeto de trabalho”, Brasília, 16 novembro 2012, 5 p. Esquema de seminário e publicação para 2013, elaborado em nome do presidente da Funag, com base no trabalho 2428, e esquema de livro. Apresentado na Conferência de Relações Exteriores (CORE), realizada pela Funag e Unifor, em Fortaleza, CE, dia 30/11/2012. Divulgado no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2012/11/pensamento-brasileiro-em-politica.html).

Pensamento Brasileiro em Política Internacional

Proposta preliminar para um projeto de trabalho

 

Paulo Roberto de Almeida, para:

Embaixador José Vicente Pimentel

Texto preparado para servir de base a projeto de trabalho coletivo

sobre a formação e desenvolvimento das grandes linhas da diplomacia brasileira.

Esquema preliminar: 16 de novembro de 2012,

para apresentação e discussão em Fortaleza (30/11/2012).

 

Esquema deste documento: 

Objeto

Metodologia

Implementação

Desenvolvimento Cronológico

Objetivo Final

Responsabilidades

Possível esquema de trabalho coletivo e publicação

 

Objeto

O objeto deste texto, no momento uma mera proposta preliminar de trabalho, é a realização de um projeto de pesquisas e de elaboração de textos acadêmicos em torno da temática coberta pelo seu título, doravante referido simplesmente como PBPI. O termo cobre, grosso modo, aspectos essenciais da formulação e da execução da política internacional do Brasil, o que compreende não apenas as suas relações exteriores (conduzidas pelo Executivo e pelo seu instrumento diplomático, o MRE), mas também concepções sobre as relações internacionais do Brasil, tanto pelo lado do pensamento de intelectuais e de diplomatas (tal como refletido em seus escritos), como também pelo lado daqueles executores que deixaram registro de alguma formulação sistemática em torno do que deveria, ou do que poderia, ser, idealmente, a política internacional do Brasil (implementada ou não pelo Executivo).

A Política Internacional do Brasil não se confunde com sua política externa, de caráter mais executivo, mas tampouco cobre o vasto campo das Relações Internacionais do país, que compreende não apenas o conjunto de interações mantidas pelos diferentes agentes nacionais (inclusive privados) com a comunidade internacional, mas também, na sua extensão acadêmica, a produção relevante, por parte de autores brasileiros, de trabalhos e análises de política externa (ou de relações exteriores), bem como de história diplomática (eventualmente feita, também, por diplomatas com vocação acadêmica). Embora mais raros, começam a despontar textos de relações internacionais, verdadeiramente conceituais, feitos no Brasil, mas este não será o enfoque privilegiado por este projeto. Optamos aqui pelo termo PI por ser, justamente, indicativo do que se pretende como objeto próprio do projeto, e por ser suficientemente abrangente para abrigar concepções, propostas e formulações de políticas, que foram e são os campos de trabalho dos pensadores e dos operadores brasileiros dessa área.

O período coberto pelo projeto é, idealmente, o do Brasil independente, mas é óbvio que o período pós-Segunda Guerra Mundial, até a fase imediatamente anterior à administração em curso, tende a concentrar a maior parte das atenções dos participantes e colaboradores do trabalho que se pretende oferecer, a partir da elaboração de textos, discussão e análise crítica e redação final de textos selecionados. O projeto se desenvolverá, portanto, em duas fases, constantes, primeiro, da organização e realização de um seminário fechado (provavelmente dividido em duas sessões), de caráter acadêmico-profissional, voltado para os fundamentos conceituais e as derivações operacionais do que já foi designado de PBPI, seguida de uma conferência aberta na qual serão apresentados os resultados do projeto, etapa final prévia à publicação dos textos redigidos em seu formato definitivo.

O “pensamento” brasileiro de que trata o presente projeto é aquele expresso pela voz, escritos, memórias e registros de formuladores conceituais da política internacional do Brasil, bem como pela ação de executores que marcaram época pelo papel renovador e definidor dessa política durante suas respectivas gestões ou participação na formulação e execução da política externa brasileira. Em outros termos, a análise do PBPI seria feita pela via de seus propositores individuais e de alguns operadores da política externa brasileira, numa perspectiva relativamente linear, isto é, cronologicamente alinhada e vertical.

A exposição e análise dos fundamentos conceituais da diplomacia brasileira seria feita, portanto, pelo exame dos escritos dos que influenciaram a política externa brasileira, desde a independência, representativos, portanto, do PBPI: estadistas, diplomatas (profissionais ou não), políticos que atuaram na política externa, militares que abordaram aspectos políticos de estratégia e de segurança, e vários acadêmicos (universitários ou intelectuais autônomos) que possam ter influenciado o PBPI.

 

Metodologia

Após uma definição inicial, e ideal, dos objetivos do presente projeto, caberia partir para uma seleção criteriosa dos objetos próprios que devem integrar o projeto, ou seja, dos “representantes” do PBPI; em função dessa seleção serão escolhidos, em seguida, colaboradores possíveis, convidados a escrever textos-síntese – sob estrita direção editorial, que lhes ditarão os termos de referência – sobre os personagens selecionados; se procederá igualmente a uma escolha adicional quanto a possíveis debatedores ou comentaristas dos textos, que serão apresentados em do seminário fechado. Tal seminário fechado poderá, se necessário, ser realizado em duas etapas: uma de apresentação preliminar e de debate inicial; uma segunda etapa dedicada ao exame dos trabalhos revistos. Idealmente, cada expositor contaria com pelo menos dois debatedores, talvez de perspectivas metodológicas diversas, para comentar e oferecer contrapontos e sugestões aos textos. 

 

Implementação

Após a elaboração de um documento-guia e de planejamento de trabalho, que deverá orientar e dirigir todo o processo, serão expedidos convites para participação no projeto, com prazos para redação e ulterior apresentação dos trabalhos designados num seminário fechado de exame e discussão do PBPI. O debate em torno dos trabalhos apresentados deverá ser pautado pelo rigor acadêmico e, tanto quanto possível, desprovido de vieses políticos e de visão “presentista” (curto prazo, ou momentâneo). Um segundo seminário, já com os textos revistos, poderia ser aberto ao público externo, eventualmente sob a forma de conferência nacional. 

Como base nesse documento de planejamento serão previstos os meios e adotados os procedimentos para a convocação de autores-colaboradores, o convite a debatedores-comentaristas, e dada a partida à realização dos seminários. O objetivo último, se o projeto e o processo forem exitosos, seria a publicação de um volume de referência, organizado e editado pela Funag, sob a direção de seu presidente.

 

Desenvolvimento Cronológico

Novembro e dezembro de 2012: Etapa preparatória, por meio de consultas, questionamentos, conversas informais, subsídios e exame das alternativas possíveis quanto à escolha dos “personagens” do PBRI; fixação de um esquema preliminar, possivelmente com base no que vem oferecido in fine a este documento. 

Janeiro de 2013: Fixação do documento de trabalho, ou de planejamento, com o orçamento pertinente e o cronograma (quase definitivo) da implementação do projeto e do processo, e expedição dos convites aos colaboradores principais; essa etapa implica uma definição precisa quanto aos termos de referência, bem como das diretrizes de trabalho pelas quais deverão se pautar os autores convidados. 

Julho de 2013: possível realização do primeiro seminário, fechado, para apresentação da primeira versão dos trabalhos, provavelmente em dois ou três dias de trabalhos intensos e extensos, e discussão obrigatória da coerência metodológica, adequação intrínseca dos trabalhos às diretrizes propostas pelo diretor do projeto.

Agosto-setembro de 2013: revisão dos trabalhos pelos autores e novo envio aos comentários e debatedores do primeiro seminário, eventualmente também a consultores externos e outros especialistas do assunto; eventualmente se poderá efetuar novo seminário fechado para discussão final.

Novembro-dezembro de 2013: Apresentação dos trabalhos em evento aberto ao público; definição da estrutura final de possível publicação.

Janeiro-março de 2014: revisão, edição, editoração de livro, se tal resultar factível do desenvolvimento do projeto, a partir do desenvolvimento exitoso do processo.

 

Objetivo Final

Idealmente, um livro de referência na área, a ser editado exclusivamente pela Funag, ou em regime de coedição com editora comercial. Registre-se que, na presente concepção do projeto, não se trata, especificamente, de uma história da diplomacia brasileira, que poderia ser objeto de um outro projeto, ou de um outro livro, de caráter institucional, ou seja, sobre como o Itamaraty conduziu a diplomacia brasileira. O presente projeto trata do pensamento, ou seja, as elaborações conceituais que fundamentaram a diplomacia brasileira ao longo do tempo, não exclusivamente restritas ao ambiente profissional diplomático. 

 

Responsabilidades

Todo o projeto e o seu processo de implementação, tanto do ponto de vista executivo, quanto operacional, estarão sob a responsabilidade exclusiva do presidente da Funag. Ele constituirá dois grupos de trabalho: um, organizador, encarregado das grandes definições substantivas do ponto de vista intelectual; um outro, executivo, que tratará da implementação prática do projeto. O orçamento do projeto estará a cargo da Funag. 

[Segue possível esquema da publicação planejada)

Evolução do Pensamento Brasileiro em Política Internacional:

a contribuição dos principais formuladores e dos grandes atores

 

00. Apresentação geral do Projeto (Embaixador José Vicente Pimentel – Pres. Funag)

01. Introdução metodológica e de conteúdo (Paulo Roberto de Almeida)

 

Parte I – Concepções iniciais do pensamento diplomático

02. José Bonifácio e a inserção do Brasil no mundo na era das independências ibéricas

03. Paulino Soares de Souza e a construção do instrumento diplomático

04. Francisco Adolfo Varnhagen e a primeira historiografia brasileira

 

Parte II – Consolidação de uma diplomacia nacional

05. Duarte da Ponte Ribeiro e a concepção geográfica do território nacional

06. O Visconde do Rio Branco e a defesa da soberania do Império

07. Joaquim Nabuco e a consciência do atraso nacional

08. O Barão do Rio Branco e a fixação das fronteiras da pátria

09. Manoel de Oliveira Lima e a nova historiografia brasileira

 

Parte III – A política internacional da Velha República

10. Euclides da Cunha e os desafios do Brasil na América do Sul

11. O episódio da Liga das Nações e seus atores políticos e diplomáticos

12. Pandiá Calógeras e a primeira síntese da história diplomática

13. Octávio Mangabeira e a reforma do instrumento diplomático

 

Parte IV – A reforma do Estado e a modernização da diplomacia

14. Oswaldo Aranha e a busca de uma relação especial com os Estados Unidos

15. Presentes na criação: diplomatas e estadistas na construção da ordem internacional

16. As bases da política externa independente: o IBRI, a RBPI e os desalinhamentos

17. Afonso Arinos e San Tiago Dantas: mudanças numa fase de transição

 

Parte V – O regime autoritário e a diplomacia do desenvolvimento

18. O pensamento conservador e os alinhamentos internacionais: atores e pensadores

19. O impulso desenvolvimentista: Araújo Castro e a recusa do congelamento

20. Brasil potência e suas fragilidades: os diplomatas no comando do Itamaraty

21. Roberto Campos, a interdependência necessária e os capitais estrangeiros

 

Parte VI – A reconciliação democrática

22. Meira Penna e crítica do terceiro-mundismo

23. Reafirmando o projeto desenvolvimentista: Rubens Ricupero

24. Regionalização, globalização, valores: Celso Lafer e a cultura diplomática

25. Bases institucionais e políticas da nova diplomacia brasileira

 

Apêndices:

26. Cronologia da diplomacia brasileira

27. Ministros das relações exteriores

28. Fontes primárias e documentos fundacionais da diplomacia brasileira

29. Bibliografia geral sobre as relações internacionais do Brasil

 

Brasília, 16 novembro 2012

 

Minhas Previsões Imprevisíveis para 2013 - Paulo Roberto de Almeida

 Antigamente eu fazia previsões imprevisíveis, mas pelo fato do Brasil ser um país totalmente imprevisível, elas perderam a graça e eu parei de fazer. Seria o caso de retomar o exercício.

Em todo caso aqui estão as previsões para 2013, feitas no final de 2012...

terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Revisando as previsoes imprevisiveis para 2013, e preparando as de 2014
Todo final de ano, como muitos já sabem, eu, atrevendo-me a competir com os astrólogos, videntes e outros seres preparados para o que der e vier, costumo fazer as minhas previsões imprevidentes.
Elas têm essa peculiaridade, e bizarrice, de serem concebidas para justamente não se realizar. Fico totalmente realizado quando todas elas falham, pois isso significa que eu acertei pelo contrário, ou al revés, como diria o finado presidente Hugo Chávez, que também praticava, à sua maneira, a economia política ao contrário, de que é mostra o brilhante estado da economia venezuelana.
Mas, o mundo, o Brasil em especial, sempre nos prega surpresas, e algumas previsões imprevidentes acabam se realizando, contra qualquer racionalidade.
Que seja, nem todo astrólogo acerta e este "previsor" por vezes acerta sem querer, ou seja, algumas coisas boas acabam acontecendo sem que as intenções iniciais fossem essas.
Mas, como todo cidadão honesto, também tenho de prestar contas do que acertei, e do que errei.
Nada melhor, neste sentido, do que colocar aqui as previsões feitas no final de 2012, válidas para 2013, para que todos e cada um possam verificar como eu me desempenhei e qual seria, exatamente, minha "taxa de sucesso".
Pelo que ouso chutar, acho que acertei (no caso, desacertei) 70% das previsões, o que me parece uma taxa razoável de desacertos, maior, em todo caso, do que a maioria dos videntes e astrólogos.
Quero, neste momento, agradecer ao governo dos companheiros e todos os seus aliados aloprados, que muito fizeram para aumentar a minha taxa de desacertos, sobretudo nos terrenos da corrupção, da economia, das políticas setoriais improvisadas, que continuam tão confusas quanto sempre foram.
Só faltou acertar que o pequeno Uruguai seria o país do ano, por tentar legalizar a maconha de todos os dias. Vai dar certo em 2014, ou seja, o programa vai ser um fracasso monumental. Acrescento, portanto, o experimento da maconha estatal, na lista das previsões imprevidentes de 2014.
Boa sorte, podem conferir o que escrevi no ano passado, e aguardem mais previsões imprevidentes que elas estão sempre se manifestando espontaneamente, com a ajuda do governo companheiro.
Paulo Roberto de Almeida


Minhas Previsões Imprevisíveis para 2013
(não custa continuar tentando, para ver se em algum ano dá certo...)

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 20 de dezembro de 2012.

Como faço a cada ano (salvo nos bissextos), vou continuar meu tresloucado exercício de fazer previsões ao contrário, isto é, minhas expectativas para o que não tem nenhuma chance de acontecer no ano que pronto se iniciará. É claro que, dada a múltipla natureza bizarra, sempre inovadora, criadora, simpática e decepcionante, e até mesmo surpreendente deste país surrealista que se chama Brasil, corremos o sério risco de sermos desmentidos, e sairmos humilhados, pela absolutamente inacreditável realização de algumas dessas previsões malucas. As surpresas podem ocorrer, especialmente as vindas de certas esferas da alta política, previsíveis na sua imprevisibilidade, e que costumam confirmar aquela máxima do Barão de Itararé: de onde menos se espera é que não sai nada mesmo. Mas isso fica pela conta do seguro contra acidentes não previstos, que renovo a cada ano nessa época, para evitar, justamente, ser processado por algum leitor, e aí cair naquela previsão ainda mais imprevisível de ter o caso julgado por um “auto” tribunal em menos de 20 anos, o que atrapalharia sobremaneira minha aposentadoria.
Sem mais delongas e tergiversações, vamos pois à lista atualizada das previsões imprevisíveis para 2013. Se algumas delas se realizar, os leitores podem me cobrar a conta, mas apenas em 2014, quando terei um estoque inteiramente novo de ofertas do impossível.
Começo pelo mais comum, frequente e corriqueiro: corrupção. Se não sobreviver o fim do mundo antes, vamos ficar inteiramente livres de qualquer novo caso de “malfeitos” em 2013. Tendo aprendido com sua própria experiência, na carne, por assim dizer, os companheiros vão inaugurar uma tecnologia inteiramente nova de combate à corrupção, pela simples razão de que – como a nova nota fiscal que já declara os impostos – a corrupção já virá integrada a todos os negócios públicos. O Partido dos Companheiros está criando uma Secretaria Especial de Negócios Não-Contabilizados, aqui se antecipando ao financiamento público das campanhas eleitorais, o que vai facilitar tremendamente as coisas. Transpondo a tecnologia para o nível estatal, vai ser possível nos livrarmos inteiramente da corrupção, em virtude do expediente já referido de sua integração oficial, formal e carimbada, em todas as transações que envolvem instituições e agentes públicos. Vai ser assim uma espécie de CPMF destinada inteiramente ao caixa 2, mas de forma explícita. Resolvido o problema, não é mesmo?
Fim do Mundo: parece que não deu certo desta vez, mas não custa apostar mais um pouco, inclusive porque esta catástrofe natural – ou dos deuses? – vai resolver todos os outros problemas, inclusive a obrigação deste escriba ficar perdendo tempo neste tipo de besteirol. As apostas ficaram um pouco mais caras, dada a frustração com as últimas cinco previsões e meia. Também: os maias têm aquela escrita complicada, impossível de ler, e números que não são em base decimal. Mais passons...
Economia: depois do insucesso dos quinze últimos pacotes de estímulo à economia, o governo promete que não vai mais fazer pacotinhos de estímulo à economia; pode ser um pacotão, de tempos em tempos, mas essa coisa de a presidente e o ministro da Fazenda anunciarem, a cada semana, que “estão tomando medidas para estimular a economia” vai finalmente sair de moda. E não tem mais essa coisa de improvisações setoriais; doravante só terão direito a pacotes de estímulos, pacotões, na verdade, os setores minoritários, que já gozam de várias cotas de favor. Isso muda! Os afrodescendentes, por exemplo: com base na auto-declaração, eles já são mais de 55% da população brasileira. Todos os pacotes de favor serão agora para setores minoritários e prejudicados nas políticas dos últimos anos, como os loiros de olhos azuis, coitados.
Política: o Congresso proclama sua independência, enfim! Só vai trabalhar para o governo nas quartas-feiras, quando o expediente é total. Nas terças e quintas, e só em regime de meio expediente, trabalhará para ele mesmo, que ninguém é de ferro. Estão abolindo o 14o. e o 15o. salários, mas vão criar a semana de expediente ainda mais reduzido. E já avisaram; só vão cassar companheiros legisladores em anos bissextos. O Stalin Sem Gulag, aliás, aproveita para mandar dizer que a luta continua, agora dentro da cadeia, com o apoio do PCC, que é um partido quase alinhado com suas teses.
Justiça: o Supremo diz vai parar de se meter na vida dos demais poderes; mas já avisou que não quer nenhum parlamentar se metendo na fixação dos seus próprios salários, que devem ser proporcionais aos quatro milhões de casos “a julgar”, parados há mais de oito anos nos escaninhos dessas varas que já viraram palácios de papel. Também vão modernizar o figurino: aquelas togas incomodas ficam sempre caindo e atrapalhando o movimento dos braços; vão adotar um simples avental, com os dizeres mais do que atuais: A justiça é cega...
Esporte: a Seleção de futebol da França se exila por completo na Bélgica, por razões fiscais. Os integrantes da seleção da Bélgica, por sua vez, fazem greve para não ter de pagar imposto de renda e ameaçam se exilar no vizinho Luxemburgo. A seleção brasileira adota um uniforme mais largo e mais comprido, daqueles antigos, para acomodar todas as mensagens publicitárias que a CBF negociou com importantes empresas multinacionais e várias estatais tupiniquins. Alguns jogadores vão negociar tatuagens publicitárias na barriga e no bum-bum (este mais caro). Mas, na copa das confederações, a seleção brasileira perde da seleção do Burundi por 1 a 0. Pano...
Economia mundial: a gangorra continua. Depois que o Brasil perdeu a condição de sexta economia mundial, para se converter na oitava economia, o governo reagiu e, via flutuação cambial do Banco Central, conseguiu trazê-la de volta para a sétima posição; os mercados reagem, fazem dois ataques especulativos e levam o Brasil à nona posição, mas o governo faz novo pacote e consegue trazer a economia para a oitava posição outra vez; os mercados, só de birra, provocam fuga de capitais e arrastam o Brasil para a décima-segunda posição; governo, emburrado e amuado desiste de brincar de gangorra cambial. Enquanto isso, a China e os Estados Unidos criam um programa conjunto de manipulações cambiais: pronto, era o que faltava para o governo brasileiro se enfurecer de vez; mas o seu tsunami financeiro não passa de uma marolinha...
Economia doméstica: o Ministério do Planejamento cria o PAC-III, com taxa de realização pré-programada em 35,7% dos recursos empenhados (incluídos restos a pagar...); o TCU também criou um software novo, de embargo preventivo das obras suspeitas de irregularidades: ele também vem pré-programado para embargar metade das obras, inclusive retroativamente, do PAC-I e do PAC-II, mas aí se descobre que as obras paradas são mais do que 75% do total dos volumes empenhados;
Economia sentimental: o governo cria o plano Brasil Amoroso, para distribuir beijos e abraços a quem vive sem companhia; Senadores mais sentimentais que outros, como Suplicy e Buarque, pensam instituir uma Bolsa Carinho, de meio salário de senador, para os contemplados no programa; executivo reage e cria o vale-beijo.
Cultura: as editoras brasileiras pedem proteção contra a Amazon, e querem taxa especial sobre o livro eletrônico, para compensar os custos que tem de estocar um monte de papel impresso que não vende; a Amazon resolve diversificar suas operações nacionais e começa a vender tapioca express-delivery. Deputado Aldo Rebelo reage, e diz que só pode se estiver escrito em língua nacional.
Política Externa: Cuba decide ingressar no Mercosul, antes do Paraguai voltar, e diz que tem direito a receber metade das verbas do Fundo de Recuperação e Apoio à Correção das Assimetrias Sociais Socialistas (FRACASSO), criado na cúpula do meio do ano. Guiana e Suriname reagem e dizem que também querem entrar no Mercosul para se beneficiar do maná brasileiro, à razão de 70% do total. Ministros decidem então criar uma Casa da Moeda do Mercosul (CMM), o mais novo órgão do vasto empreendimento integracionista, que não cessa de se ampliar no continente e surpreender o mundo pela sua criatividade e versatilidade. Obama diz que EUA consideram se tornar membro associado do Mercosul. É a apoteose...
Fim do Mundo, outra vez: guru de Cabrobó da Serra diz que ele descobriu um erro de cálculo no calendário maia, e atrasa do fim do mundo para meados de 2014, o que permite passar o fim de ano sem maiores preocupações com seguro de vida.
Bom ano a todos...

Brasília, 20 de dezembro de 2012.
Divulgado no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2012/12/minhas-previsoes-imprevisiveis-para.html

História, Diplomacia e Comércio Internacional: uma aproximação ao pensamento de Rubens Ricupero - projeto de livro Paulo Roberto de Almeida

Em 2012 eu já pensava em fazer um livro em homenagem ao embaixador Rubens Ricupero, e tinha preparado um esquema para organizar um Festschrift. como no esquema abaixo. Demorou um bocado e só saiu em 2025, como relatado nesta postagem: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/08/vidas-paralelas-rubens-ricupero-e-celso_10.html

2432. “História, Diplomacia e Comércio Internacional: uma aproximação ao pensamento de Rubens Ricupero”, Brasília-Florianópolis, 5 outubro 2012, 3 p. Esquema e explicação de proposta de livro tipo Festschrift, em homenagem a Rubens Ricupero, com organização pessoal e de Gelson Fonseca e convidados selecionados. Em revisão e complementação. Título e estrutura alternativos: “Um Estadista da Nova República: ensaios em homenagem a Rubens Ricupero” (Passo Fundo, 19/10/2012); revisto em Brasília, 18/11/2012. Encaminhado a RR e a diversos correspondentes. 


História, Diplomacia e Comércio Internacional:

ensaios em homenagem a Rubens Ricupero 

 

Paulo Roberto de Almeida

Projeto de obra em homenagem a RR: em preparação

 

Organizadores: Paulo Roberto de Almeida, Gelson Fonseca

 

Esquema tentativo: 

Prefácio: Gelson Fonseca

1. Introdução: Paulo Roberto de Almeida

 

Parte I: História: a mais constante das companhias

2. Leituras de iniciação, de formação e como fontes de reflexão (Rubens Ricupero)

3. Método e reflexão aplicados à diplomacia (José Antonio Macedo Soares)

4. O exercício didático como guia para a ação (Carlos Henrique Cardim)

 

Parte II: Diplomacia: princípios, regras e valores 

5. Valores essenciais do diplomata pensador (Celso Lafer)

6. O entorno regional como circunstância do Brasil (Sérgio Danese)

7. O multilateralismo, suas regras políticas e o Brasil (Marcos Azambuja)

8. O sistema onusiano e a força do direito (Ronaldo Mota Sardenberg)

9. A diplomacia brasileira pelos pensadores e formuladores (Alberto da Costa e Silva)

 

Parte III: Políticas Públicas: formulação e execução

10. A transição para a democracia: a conciliação sem o conciliador (Sérgio Amaral)

11. Conselheiro do Príncipe: a arte de ser invisível (Luiz Felipe Seixas Corrêa)

12. No coração do Império: a relação assimétrica (José Vicente Pimentel)

13. Amazônia e Meio Ambiente (Luiz Filipe Macedo Soares Guimarães)

14. Finança e confiança: a caminho do Plano Real (Marcos Galvão)

 

Parte IV: Comércio e Desenvolvimento nos contextos regional e internacional

15. Uma diplomacia comercial para o Brasil (José Alfredo Graça Lima)

16. O desenvolvimento no plano multilateral (José Estanislau do Amaral)

17. A América Latina no sistema multilateral de comércio (Renato Baumann)

18. A Unctad: eixo conceitual dos países em desenvolvimento (Joseph Marques)

 

Parte V: Globalização: problemas e perspectivas

19. Globalização prêt-à-porter e à la carte (Richard Kozul-Wright)

20. Finanças internacionais e crises financeiras (Yilmaz Akyüz)

21. A perspectiva Norte-Sul (Martin Khor)

22. A visão do Sul (C. Raghavan)

 

23. O professor e o homem público: uma reflexão (Georges D. Landau)

24. Conclusão: vida e pensamento de Rubens Ricupero (Gelson Fonseca)

 

Bibliografia completa de RR (a cargo da FAAP)

Referências bibliográficas (PRA)

 

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(Nota explicativa)

 

Apresentação ao Festschrift

 

É comum, no ambiente acadêmico, a organização de volumes comemorativos em homenagem àqueles que se distinguiram em carreiras especialmente bem sucedidas na docência e na pesquisa de uma área qualquer; a prática, é verdade, é bem mais usual e frequente nas humanidades do que nas ciências exatas. O objetivo é justamente o de se render tributo, geralmente por parte de colegas, a quem soube exercer-se com talento e dedicação nas diversas vertentes e feituras do magistério e da pesquisa ao longo de todo um itinerário que costuma estender por uma geração inteira, senão mais, alcançando, ano a ano, dezenas de graduações acadêmicas e de cursos complementares, com possível e não rara influência fora do ambiente estritamente universitário.

Esses volumes – que na designação alemã recebem o substantivo combinado de Festschrift, na versão francesa o qualificativo de Mélanges offerts à..., e na inglesa o tradicional Essays in Honor of... – são menos conhecidos fora da academia, isto é, nas corporações de ofício que também possuem no trabalho intelectual a base fundamental de suas reflexões práticas: estas seriam, por exemplo, a magistratura, a advocacia, gestores de políticas públicas (como funcionário dos tesouros nacionais, dos bancos centrais etc.) e outras. Poderiam também merecer tais distinções algumas categorias da burocracia pública que, na maior parte dos casos, possuem instituições próprias de ensino, formação e treinamento, bibliotecas especializadas e, por vezes até um corpo de professores estável, dedicados a instruir e aperfeiçoar, nos ossos do seu ofício, os novos recrutas e os funcionários concursados da profissão em causa. 

Este deveria ser também o caso da diplomacia, uma carreira de Estado altamente intelectualizada, dotada de instituições próprias de seleção, recrutamento e treinamento, com professores designados, dentro e fora da carreira, para o processo de socialização, homogeneização e aperfeiçoamento dos ingressados na carreira. A mais forte razão, os diplomatas são, junto com os soldados e marinheiros, agentes do Estado por excelência, dos quais se exige, justamente a mais alta qualificação técnica e intelectual na defesa dos interesses do país e na consecução dos grandes objetivos nacionais. E, no entanto, não se tem notícia, no caso do Brasil, de que o Instituto Rio Branco, que exerce, desde 1945, o monopólio nessas tarefas, ou o braço editorial do Itamaraty, a Fundação Alexandre de Gusmão, tenham jamais prestado homenagem, sob a forma aqui mencionada, aos mais brilhantes mentores e profissionais da carreira, muito embora se publiquem, ocasionalmente, volumes de compilação de escritos esparsos de um ou outro diplomata que deixaram marcas em algum setor da Casa. 

Volumes comemorativos da entrada em funções, em 1902, do ícone ímpar da diplomacia brasileira, o Barão do Rio Branco, e de sua morte no exercício do cargo, dez anos depois, foram assim publicados pela Funag, em 2002 e em 2012, respectivamente, ao lado de uma série de outras coletâneas de textos esparsos de alguns diplomatas que legaram escritos de cunho meramente burocrático ou de natureza mais testemunhal do que propriamente conceitual. Mas não se trata, obviamente, de algo comparável ao espírito e ao estilo de um Festschrift, com suas características de comemoração na própria presença do homenageado. 

Um exercício vagamente assimilável a esse gênero – mais exercendo-se apenas em direção de personagens falecidos – foi constituído pela obra organizada em 2001 pelo diplomata e acadêmico Alberto da Costa e Silva, em torno da presença de figuras relevantes do “Itamaraty na cultura brasileira”, certamente título ambicioso, mas que permitiu registrar a registrar a trajetória de um número seleto de diplomatas intelectuais que se exerceram com talento nas letras e nas humanidades, em geral. Embora reconhecendo o mérito do empreendimento, foi como se a iniciativa dissesse algo do gênero: “Aos mortos, todas as nossas homenagens; aos vivos, mais um pouco de paciência: contentem-se, por enquanto, com essas medalhinhas, antes que possamos nos ocupar, no devido tempo, de seus despojos literários”. 

Talvez seja uma sábia medida, pois, por um lado, os mortos já não poderão reclamar do que se escrever sobre eles, e caso, por outro lado, os vivos fossem contemplados, correríamos o risco de cair no conjuntural ou, pior, na pressão política para que pessoas do presente, com influência, fossem entronizados como supostos arautos geniais da verdadeira doutrina diplomática e da melhor prática nesse terreno. Não há coisa pior, comparativamente aos exagerados elogios fúnebres aos que, recentemente desaparecidos, possuem todas as virtudes, e nenhum vício, do que algum tipo de panegírico aos poderosos do momento ou a ególatras compulsivos.

Por que, então, decidimos romper com essa sadia precaução e homenagear um colega de carreira ainda em intensa produção intelectual? Poderíamos alinhar parágrafos e mais parágrafos de justificativas e explicações, mas dispensamo-nos da redundância. Bastaria o atestado, informal, de quem conhece o personagem e sua produção. Quem quer que tenha acompanhado a diplomacia brasileira nos últimos cinquenta anos, quem sorveu suas aulas na Universidade de Brasília ou no Instituto Rio Branco, quem assistiu a qualquer uma de suas centenas, talvez milhares, de palestras em algum canto do mundo, quem percorreu, nas últimas décadas, as páginas dos jornais mais importantes do país, nas seções de economia ou de atualidade internacional, quem acompanhou a saga da implementação do Plano Real, ou quem cotidianamente segue a discussão bem informada e responsável, em quaisquer veículos, em torno dos temas do comércio, do meio ambiente, os diplomáticos e, de modo geral, os de relações internacionais, ou de qualquer outro assunto, quem já leu seus artigos e ensaios, ouviu suas opiniões, assistiu a entrevistas de Rubens Ricupero, qualquer um deles pode responder melhor do que os organizadores desta coletânea sobre a razão de um livro como este estar sendo editado e publicado, sendo apenas de se estranhar o atraso na tarefa. Não parece caber, assim, qualquer justificativa para o presente volume: o personagem, e suas produções, constituem sua própria mensagem e apresentação, sem qualquer campanha publicitária.

Esta tardia iniciativa, portanto, deve ser vista no sentido preciso que possui um Festschrift: uma homenagem, singela, mas sincera, de amigos e admiradores de Rubens Ricupero a um dos mais distinguidos diplomatas e homens públicos do Brasil do último meio século. Os textos aqui compilados percorrem alguns dos domínios – certamente não todos – que frequentou nosso personagem: todos os convidados possuem, em relação a ele, aquilo que Goethe chamou de afinidades eletivas; talvez pudéssemos também classificar os textos em sua homenagem, numa pequena inversão goethiana, de escolhas afetivas. Este é o sentido do livro. Desfrutem...

(...)

Paulo Roberto de Almeida

 

[Brasília-Florianópolis, 5/10/2012]

Passo Fundo, 19/10/2012;

Brasília, 18/11/2012]

A Espada e a Pluma: um poema alegórico na era das trevas - Paulo Roberto de Almeida

quinta-feira, 22 de abril de 2021

A Espada e a Pluma: um poema alegórico na era das trevas - Paulo Roberto de Almeida

A Espada e a Pluma: 

um poema alegórico na era das trevas


Paulo Roberto de Almeida

 

A espada é muito mais poderosa do que a pluma, 

infinitas vezes mais poderosa, e de forma mais contundente.

A espada pode cortar quantas plumas quiser, à vontade;

a pluma não consegue vencer uma só espada, ainda que multiplicada em mil.

 

A espada corta, fere, penetra, rasga, decepa e esquarteja

a pluma não tem qualquer poder contundente nas coisas da matéria.

A espada impõe respeito, intimida, aterroriza e submete;

uma pluma mal consegue provocar cócegas nas pessoas.

 

A espada tem o poder de comandar vontades, mesmo contra a vontade;

a pluma, no máximo, só consegue influenciar as mentes, nunca os músculos.

A espada desperta a adrenalina, faz o coração bater forte, o sangue subir à cabeça;

a pluma, se tanto, conquista alguma consciência mais aberta aos conhecimentos.

 

A espada sempre vence, pelo argumento da força,

a pluma nem consegue se impor pela força do argumento.

A espada sempre tem razão, mesmo quando nenhuma razão tem,

a pluma pode até tê-la de sobra, mas a razão do mais forte é sempre a melhor.

 

A espada dobra os seres, pela sua presença cortante, definitiva;

a pluma busca converter consciências, mesmo ausente ou distante.

A espada não pede licença a ninguém: ela se instala, sem pedir permissão;

a pluma sempre tem de negociar alguma licença para se exercer.

 

A espada compra mercenários, torna os homens seus escravos;

a pluma é libertária, e quer sempre livrar as pessoas da opressão.

A espada manipula súditos, envia espiões, aprisiona os cortesãos;

a pluma pretende, apenas e tão somente, formar livres cidadãos.

 

Todos os impérios foram construídos na base da espada, do ferro e do fogo;

nenhum império ruiu apenas pela força da pluma, mesmo coalizada a outras plumas.

A soberania começa onde existe o monopólio da força por algum dono de espadas;

a pluma é anarquista, não quer deuses ou senhores; só promete autonomia.

 

A espada é o último argumento de defesa, e a última instância da liberdade;

mas ela também serve para dominar, mesmo o cidadão sem qualquer pluma.

A pluma pode gritar, mas o tilintar da espada fala mais alto, bem mais alto;

aliás, a espada não precisa dizer nada: o simples desembainhar já é um discurso.

 

A espada invade casas, destrói culturas, mata animais e outros homens;

a pluma não consegue mover um grão de centeio, não traz água, nem abrigo.

A espada impõe a ordem, lá onde reinava a mais perfeita desordem;

a pluma contribui para a desordem, ao pretender desobedecer à espada.

 

A espada serve para resguardar viúvas e órfãos, os fracos e os indefesos,

mas também desperta ambições e cobiças desmedidas, sempre crescentes.

A pluma pode falar em prol dos de menor poder, dos desvalidos e dos ingênuos,

mas ela não impede a corrupção dos costumes e o roubo da riqueza alheia.

 

A espada alicia servidores, áulicos e até mesmo conselheiros emplumados,

mas ela não consegue dominar o que lhes vai nas mentes e sentimentos.

A pluma agita os corações, desperta vontades, cria novas aspirações, 

mas ela não dá aos que a seguem qualquer alavanca ou motor de arranque.

 

A espada sempre predomina, mesmo quando o fio se desgasta e a visão fica míope;

a pluma sozinha não faz nada: precisa de um tinteiro e de um papel, ou pergaminho.

A espada é o prolongamento natural de mãos fortes, másculas, decididas;

a pluma hesita ao simples tracejar das letras, e só funciona com mentes atiladas.

 

E no entanto, e no entanto...

a espada enferruja, fica cega, e pode quebrar, num simples embate mais feroz.

A pluma é móvel, flutua com o vento, mesmo nas mais fortes tempestades,

Ela é mais durável que a espada, pois as palavras voam, e as ideias se transmitem...

 

Uma espada fere gravemente, mas uma ideia mergulha mais fundo.

A espada geralmente está nas mãos de mercenários e de esbirros a soldo,

as ideias só podem sobreviver e se disseminar na mais completa liberdade.

Espadas agridem a esmo; ideias possuem lógica, sentido, direção e propósitos.

 

Por mais fortes que sejam os braços, as pernas, por mais couraças e capacetes,

por mais afiadas que sejam as espadas, elas só podem alcançar um de cada vez.

Ideias, ao contrário, atingem todos e cada um, num raio de 360 graus,

elas perfuram os elmos mais duros, atravessam cotas do aço mais temperado.

 

Espadas enferrujam, guerreiros morrem ou ficam estropiados, desaparecem...

Ideias, se são boas, permanecem, por séculos e até milhares de anos, sempre jovens.

As ideias, finalmente, são mais fortes que as espadas, elas vencem as espadas.

Espadas deixam apenas destruição e morte; as plumas semeiam conhecimento.

 

Espadas, no fundo, têm inveja das plumas, queriam ser livres como as plumas,

não viver em coldres cheirando a sangue e a mofo, asfixiadas em couro velho.

As plumas são ágeis, leves, flexíveis; mudam de acordo com as circunstâncias;

plumas expressam o que de melhor a humanidade produziu, em todos os tempos.

 

Espadas têm ódio das plumas, pois nunca poderão ser o que estas são:

instrumentos de beleza, de saber e de conhecimento, de paixão e de ciência.

Espadas são instrumentos profundamente complexados, e com razão: 

Elas estão do lado da morte e do sofrimento; as plumas são o eterno renascer...

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 2415: 27/07/2012 


Grande estratégia e idiossincrasias corporativas: uma reflexão a partir da experiência de George Kennan - Paulo Roberto de Almeida

 2409. “Grande estratégia e idiossincrasias corporativas: uma reflexão baseada em George Kennan”, Brasília, 14 julho 2012, 7 p. Considerações sobre posturas na carreira diplomática, com base em trecho da biografia do diplomata e historiador americano por John Lewis Gaddis: George F. Kennan: An American Life (New York: The Penguin Press, 2011). Postado no blog Diplomatizzando (http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2012/07/uma-reflexao-baseada-em-george-kennan.html). Postado novamente no Diplomatizzando em 2016 (link: http://www.diplomatizzando.blogspot.com.br/2016/01/george-kennan-era-um-contrarianista.html) e em 2018 (https://diplomatizzando.blogspot.com/2018/11/grande-estrategia-e-idiossincrasias.html).

Grande estratégia e idiossincrasias corporativas:
uma reflexão a partir da experiência de George Kennan

Paulo Roberto de Almeida


Lendo a biografia de John Lewis Gaddis, sobre o grande diplomata e historiador americano, que dominou a segunda metade do século XX, George F. Kennan: An American Life (New York: The Penguin Press, 2011), deparo-me com um trecho, relativo ao ano de 1943, quando Kennan era encarregado de negócios na legação dos Estados Unidos em Lisboa; negociações eram conduzidas na capital portuguesa para assegurar o uso, por forças americanas, dos Açores, como plataforma absolutamente indispensável para conduzir as operações europeias da Segunda Guerra Mundial em sua vertente norte-atlântica:
“[George Kennan] began to develop... a new sense of responsibility within the duties assigned to him: at several points over the next few years Kennan took risks that jeopardized his own Foreign Service career because he thought that the national interest demanded that he do so. Obliged to operate for the first time at the level of grand strategy, he found the rules oh his profession falling short. He chose, successfully but dangerously, to violate them.” [Loc 3387 of 18204 Kindle edition,  Amazon].
Gaddis informa ainda, na sequência dessa passagem, as circunstâncias em que Kennan decidiu assumir vários riscos em sua carreira, violando deliberadamente várias regras do jogo, tal como definidas por instituições excessivamente burocráticas ou muito conservadoras, quanto o Departamento de Estado ou o comando das Forças Armadas, como se pode depreender desta transcrição adicional:
“During the Azores base negotiations [com o próprio Primeiro-Ministro português Antonio de Oliveira Salazar], Kennan violated at least four rules, any one of which could have him sacked from the Foreign Service. He exceeded his instructions in a conversation with a foreign head of government. He refused to carry out a presidential order. He lied, to another government, about the position of his own. And he went over the heads of his superiors in the State Department – as well as the secretary of war and the Joint Chiefs of Staff – to make direct appeal to the White House.” (Loc 3436 of 18204 Kindle edition,  Amazon).

Estas passagens chamaram-me obviamente a atenção, ou “struck a cord on me”, como diria o próprio Gaddis, provavelmente o maior historiador vivo da Guerra Fria e o único biógrafo autorizado de George Kennan. Explico por que, já que isso tem a ver com a mesma sensação de barreiras burocráticas e conservadoras, em assuntos que demandariam uma visão mais larga dos processos diplomáticos, que eu já enfrentei na carreira. Não querendo me comparar a George Kennan, possivelmente o maior especialista diplomático americano em assuntos russos que jamais existiu nos anais daquele serviço diplomático, mas eu também adquiri, ainda antes de ingressar no serviço diplomático, uma percepção histórica e estrutural de muitos dos temas que compõem, burocraticamente, a agenda diplomática corrente.
Tendo começado a estudar os assuntos brasileiros desde muito cedo – compulsando uma bibliografia de nível universitário, ou de pesquisa especializada, ainda quando estava em meio aos estudos do ciclo médio – desenvolvi provavelmente de maneira muito precoce um cuidado com a análise do contexto, dos precedentes históricos, e dos impactos estruturais ou implicações políticas de cada um dos problemas com que me deparava em minhas leituras ou pela leitura dos jornais de maior qualidade em suas edições dominicais (invariavelmente o velho jornal conservador O Estado de São Paulo, ainda quando discordasse profundamente de seus editoriais, que julgava representativos das opiniões da “classe dominante”). Foram anos, em meados da década de 1960, em que eu lia os grandes mestres da teoria social brasileira, entre eles os representantes da “escola paulista de Sociologia” – que pouco depois se tornaria minha alma mater, ao ter ingressado no curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP – e através dos quais eu filtrava minhas reações aos editoriais “reacionários” do Estadão, combinando todas essas leituras para refletir sobre os caminhos do desenvolvimento econômico e político brasileiro, no quadro das crises contínuas que agitavam o período que se tinha iniciado com o golpe de 1964, e que eu imaginava combater pela via do socialismo e de um governo comprometido com a “ditadura do proletariado”.
Independentemente dessas ilusões e descaminhos ideológicos – que foram sendo corrigidos tão pronto eu deixei o país, no final de 1970, para conhecer o triste cenário do socialismo real do leste europeu e as nuances dos capitalismos realmente existentes na Europa, durante quase sete anos – eu adquiri, a partir desses hábitos juvenis de leitura, um sentido de abrangência analítica e de inserção contextual que me acompanharia pelo resto da vida, sobretudo no domínio profissional, quando ingressei na carreira diplomática, poucos meses depois de voltar da Europa em 1977. Mas o que isso quer dizer, no quadro desta seleção de trechos da biografia de Kennan por Lewis Gaddis? Explico-me agora mais detalhadamente.
Ingressei no Itamaraty ainda na era militar, quando ainda pensava em derrubar o regime, embora não mais pela via das armas e sim pela via da pressão democrática. Tampouco pretendia converter o Brasil em uma nova Cuba ou uma nova China, como talvez fosse a intenção em meados dos anos 1960; mas o modelo ainda seria algo bem próximo do socialismo democrático europeu, que eu julgava bem mais propenso a empreender a correção das tremendas injustiças sociais em vigor no Brasil, desde sempre, do que, alternativamente, a visão mais pró-mercado que não tenho hesitação em defender atualmente. Nessa época, eu ainda era obrigado a escrever artigos com algum nom de plume, já que minhas “convicções radicais” provavelmente chocariam meus colegas e superiores diplomáticos – que eu considerava todos alinhados ao regime – e chamariam a atenção dos órgãos de segurança, especialmente ativos naquela conjuntura, quando a repressão física tinha amainado, mas o controle de inteligência continuava atento a todas as manobras da oposição ao governo militar.
Tendo iniciado minha carreira no Itamaraty por uma divisão secundária, a do Leste Europeu (então todo ele dominado pela União Soviética), pude distinguir-me rapidamente em alguns trabalhos analíticos, inclusive porque, ademais dos boletins da Radio Free Europe e da Radio Liberty – ambas financiadas pela CIA, obviamente – que líamos na DE-II, eu possuía um conhecimento interno, se ouso dizer, sobre o funcionamento desses regimes autoritários, já que tinha militado na esquerda marxista durante tempo suficiente para aprender – e apreender – todos os trejeitos vocabulares e as muitas peculiaridades políticas do mundo comunista. Recordo-me, em todo caso, de uma informação que preparei sobre o quadro político no leste europeu, em especial sobre a situação da Polônia, no imediato seguimento, em 1978, da surpreendente eleição do cardeal Karol Wojtila como o novo papa, de nome João Paulo II. Ao que parece, minha análise abrangente das implicações dessa escolha para todo o leste europeu e para o poder comunista foi devidamente apreciada pelos meus superiores, para ascender ao conhecimento do Gabinete do ministro, o que constitui, no Itamaraty, uma marca de distinção a dividir os assuntos que permanecem na “senzala”—como sempre foram depreciativamente chamados os serviços setoriais das divisões, no Anexo – e os que ascendem ao conhecimento da Casa Grande, como se designavam, respeitosamente, os dois gabinetes do Palácio.
Não exatamente por esse episódio específico, mas talvez mais pelo meu jeito histórico-intelectual de interpretar cada iniciativa ou resposta do serviço diplomático brasileiro, em função de um contexto mais vasto, no tratamento dos assuntos da agenda corrente, fui sendo considerado um diplomata especial, ou diferente, talvez bizarro, em todo caso colocado num clube à parte, não necessariamente melhor, dessa tribo de elite dos servidores do Estado. De um lado, nunca tive que mendigar postos ou posições no curso da carreira, já que em geral recebia convites para servir em tal posto ou tal unidade da Secretaria de Estado; de outro lado, jamais me dediquei a “pescar” votos de colegas ou implorar apoio de chefes para ser promovido na escala funcional, o que ofenderia meus princípios pessoais, ou minha maneira de ser, mas que pode ter irritado muita gente da corporação.
Tampouco pedia permissão para escrever à minha maneira – e não naquele burocratês diplomático que tanto desprezo – ou sequer me desculpava por pensar de forma muito diferente da maior parte dos colegas ou mesmo dos superiores, e mais de uma vez ousei contestar opiniões de chefes em reuniões de coordenação, quando os fundamentos de minha posição me pareciam suficientemente sólidos para levantar o dedo e exclamar – algumas vezes na estupefação dos colegas e alguns superiores – uma frase do tipo: “Não é bem assim [Fulano]!” Acho que isso talvez não tenha ajudado no curso ulterior, ou superior, da carreira. Já ao ingressar na carreira, revoltei-me contra a exigência, que sempre julguei absurda – e anticonstitucional, em todo caso violadora dos direitos individuais, que invariavelmente coloco acima dos interesses do Estado –, de ter de pedir permissão às autoridades pertinentes para contrair matrimônio com minha esposa: um abuso e uma indignidade, a que meu espírito anarquista jamais consentiu por princípio. Numa etapa intermediária, cansado do ritual de ter de pedir permissão para publicar que fosse uma simples resenha de livro sobre temas da diplomacia, deixei de submeter textos à apreciação superior, e passei a publicar o que julgava apropriado e conveniente (ainda que exercendo algum grau de autocensura no que era cabível dizer de público sobre tão augusta Casa e tão distinguido Serviço Exterior).
De fato, se ouso julgar, agora, as características do serviço em prol do qual exerci meus talentos nas últimas três décadas e meia, eu diria que o Itamaraty tem uma cultura muito especial, em todo caso diferente das demais corporações a serviço do Estado. Confessadamente, eu nunca fui muito adepto das manias e trejeitos dos meus colegas diplomatas: trata-se de uma carreira ultra competitiva, com altas doses de autocontenção, marcada por dogmas de disciplina e hierarquia que nunca se encaixaram bem ao meu natural libertário, exigindo ainda certo enquadramento nos rituais internos para que essa competição seja bem sucedida no plano individual, ou seja, para que ela se reflita na progressão funcional, na atribuição de postos e outras distinções. Visivelmente, eu nunca pretendi me enquadrar no estilo de rigor. Sempre mantive meus hábitos de trabalho, em parte isolado, estudando e escrevendo, de outra parte falando com sinceridade aquilo que me parecia negativo do ponto de vista da pura racionalidade instrumental dos objetivos diplomáticos. Ainda que tal tipo de atitude possa suscitar admiração em certas áreas, acredito que essas não são as qualidades requeridas para se triunfar numa Casa que faz da obediência estrita aos superiores a pedra de toque para a inserção no inner circle dos premiados oficiais.
Tomando como base o que acima vai descrito, não tenho qualquer restrição mental em confessar que, em diversas ocasiões, dissenti das opiniões oficiais da Casa – ou seja, aprovadas em alguma instância superior – no tratamento de temas específicos ou na condução de algumas negociações para as quais eu me julgava especialmente preparado, em função, justamente, dos estudos que eu conduzia paralelamente à carreira, para aprofundar-me nos assuntos que me eram atribuídos. Uma atitude desse tipo não é fácil de ser assumida, quando se trata, não das preliminares para a formulação de uma posição negociadora, mas de instruções formais, consubstanciadas em telegrama da série, com base na qual a resposta invariável do diplomata obediente deve ser: “Cumpri instruções”, e o chefe do posto passa a relatar como ele se ateve fielmente às ordens emanadas da Santa Casa.
Pessoalmente, já passei por esse tipo de situação, envolvendo uma negociação internacional de um tratado multilateral. Tendo me ocupado do tema durante meses e meses, eu literalmente dominava o assunto, técnica e diplomaticamente, e as instruções formuladas em Brasília, de nítido corte tradicional, eram claramente inadequadas. Os argumentos que poderiam ser mobilizados em favor de teses diferentes ou alternativas, por mais racionais ou “probatórios” que sejam (com base numa análise histórica, nos dados da economia, numa visão de longo prazo), nem sempre são convincentes ou suficientes para “dobrar” o burocrata na outra ponta do processo ou até fazer com que a instituição como um todo se mova em outra direção. Esse tipo de situação pode ser terrível, pois aparentemente (ou concretamente) o diplomata em causa pode estar se colocando contra as instruções da sua instituição.
Não tive medo de fazê-lo, naquele momento preciso, assim como em outras circunstâncias posteriores. De certa forma, esse tipo de atitude me prejudicou, pois fiquei com fama de rebelde, de dissidente, de arrogante, de pretencioso “sabe-tudo” e outros qualificativos mais, que nem são do meu conhecimento. Se insisto em certas teses é, contudo, com base num estudo profundo das problemáticas das quais me é dado ocupar. Sou por excelência um estudioso compulsivo, e não costumo me dobrar a nenhum argumento de autoridade, e sim à autoridade do argumento. Numa casa “feudal”, como é o Itamaraty, isso é quase um crime de lesa-majestade.
Mas o assunto supera as atitudes individuais de um diplomata, para adentrar no terreno mais complicado das questões macro-políticas, ou se quisermos, no eterno debate sobre como interpretar o chamado “interesse nacional”, um conceito altamente difuso para permitir qualquer tipo de argumento não fundamentado ou especioso. Não vou tratar das bases epistemológicas do que, exatamente, constituiria o interesse nacional nos limites desta reflexão, mas vou tratar da questão no contexto da própria formação e educação dos diplomatas. Acredito, com base numa avaliação puramente subjetiva, que poucos diplomatas têm uma cultura econômica verdadeira, ou seja, o instrumental analítico de cunho histórico e econômico que poderia levá-los a analisar uma questão qualquer de política externa do ponto de vista daquilo que os economistas chamam de custo-oportunidade do capital, ou seja, a eficiência paretiana dos meios e fins, que não se restringe ao melhor emprego dos recursos, ou a um cálculo sobre o retorno dos investimentos, mas envolve todos os “fatores de produção” de um determinado assunto diplomático. Tudo, ou quase tudo, na diplomacia, é feito de forma muito politizada e, por vezes, de forma irracional, já que levando em conta circunstâncias imediatas e as preferências políticas de quem manda, não necessariamente os interesses de mais longo prazo da nação.
Teríamos inúmeros exemplos de decisões claramente absurdas, no contexto mais vasto das tradições diplomáticas brasileiras, tomadas em certo período, e que no entanto foram tomadas, ao arrepio de qualquer racionalidade administrativa ou mesmo política; eximo-me, por razões diversas, mas claramente compreensivas, de discorrer sobre elas neste momento. O fato é que, em momentos como esses, o ator em questão tem várias escolhas, todas elas difíceis: submeter-se passivamente a instruções que ele pode julgar prejudiciais ao país ou ao serviço, no contexto dos interesses de mais longo prazo; negar cumprimento e argumentar alternativamente ao que julga contrário a suas convicções ou avaliação do tema em apreço; afastar-se do processo, com prejuízo pessoal ou fricção funcional.
Minhas próprias atitudes sempre foram pautadas em função de minha trajetória habitual de estudos e de busca de coerência lógica no processo decisório, esforçando-me por manter minha indispensável integridade intelectual, em face de eventuais adversidades momentâneas, que sempre julgo devam ser afrontadas com serenidade e com a dignidade funcional que devem guiar o comportamento de membros de uma corporação como esta à qual pertenço. Em tempos difíceis de submissão a vocações autoritárias essas atitudes cobram um preço por vezes difícil em termos pessoais, mas a coerência e a honestidade na defesa de certos princípios, que reputamos mais elevados do que a acomodação servil, e a consciência de se estar defendendo causas mais altas do que as escolhas sectárias do momento constituem os prêmios mais gratificantes que se possa ter num itinerário de vida.
Vale persistir, como aliás demonstrou o próprio George Kennan, ao abandonar a carreira diplomática, para ingressar numa categoria à parte da história intelectual de seu país, como um grande pensador das relações internacionais dos Estados Unidos. Sem aspirar a tanto, e sem renunciar a uma carreira que me trouxe tantos benefícios intelectuais e pessoais, vou persistir na defesa da coerência com o livre pensamento mesmo nos tempos sombrios e tristes de um outro regime autoritário.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 2409: 14 de julho de 2012.
Postado no blog Diplomatizzando (http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2012/07/uma-reflexao-baseada-em-george-kennan.html).
Postado novamente no Diplomatizzando em 4/01/2016 (link: http://www.diplomatizzando.blogspot.com.br/2016/01/george-kennan-era-um-contrarianista.html).
Novamente postado no blog Diplomatizzando (https://diplomatizzando.blogspot.com/2018/11/grande-estrategia-e-idiossincrasias.html ).

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