Diplomatizzando
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
terça-feira, 11 de agosto de 2026
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segunda-feira, 10 de agosto de 2026
A vergonhosa posição dos governos brasileiros em relação à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia Paulo Roberto de Almeida
domingo, 9 de agosto de 2026
Um sabor de anos 1930 a esta altura da geopolítica mundial? - Paulo Roberto de Almeida
Homenagem aos pais, no seu dia, por João Rego (Revista Será?)
“Governo Lula lida razoavelmente bem com tensão diplomática” diz Carlos Frederico Coelho (WW)
Especialista: Governo Lula lida razoavelmente bem com tensão diplomática
Ao WW, Carlos Frederico Coelho, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio e da Eceme, avalia como o Brasil navega as relações com Estados Unidos e Argentina em meio à ordem internacional em transição
O Brasil tem lidado de forma razoavelmente satisfatória com as tensões diplomáticas envolvendo os Estados Unidos e a Argentina, na avaliação de Carlos Frederico Coelho, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio e da Eceme. Ao WW, o especialista analisou os desafios enfrentados pela diplomacia brasileira no atual cenário internacional.
Questionado sobre se o Brasil estaria sabendo lidar com o presidente americano, Donald Trump, e o presidente argentino, Javier Milei — descritos como "adversários diplomáticos" —, Coelho foi direto: "Eu acho que está lidando razoavelmente bem." Para ele, o tema está intrinsecamente ligado ao próprio projeto de país e à política externa brasileira.
Ordem internacional em transição
O especialista contextualizou o cenário global ao afirmar que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a ordem internacional passou por renovações, especialmente após o fim da Guerra Fria. Segundo ele, o mundo vive hoje uma fase de transição cujo destino ainda é incerto.
"A gente entende que a gente está numa ordem internacional em transição, sem que a gente saiba exatamente transição para onde ou transição para o quê", afirmou.
Coelho destacou que essa fragmentação da ordem internacional abre espaço para novos arranjos e possibilidades, mas também impõe novos testes e riscos aos países. Nesse contexto, o uso de "estratégias coercitivas" por parte do governo americano torna o espaço de atuação e de escolha do Brasil mais custoso.
Tradição de não alinhamento sob pressão
O professor ressaltou que a diplomacia brasileira tem uma longa tradição de não alinhamento, postura que se mostra mais confortável em períodos de menor turbulência internacional.
"Esse não alinhamento é mais confortável em tempos mais tranquilos e muito mais caro em tempos de escolha", explicou. Para Coelho, os Estados Unidos estão cobrando do Brasil a fatura desse conforto diplomático.
Ao final, o especialista atribuiu uma nota à atuação brasileira: "Acho que o Brasil vai navegando — de 0 a 10, eu daria um 7 para como o Brasil está navegando essa situação." A avaliação sugere que, apesar das dificuldades, o país tem conseguido manter um desempenho positivo diante das pressões externas.
Programa do PT para a reeleição de Lula (Agência Lusa)
Programa da coligação de Lula da Silva para a reeleição com foco na soberania e segurança
Combate às desigualdades, sejam regionais, sociais, raciais ou de género, a defesa da vida das mulheres e continuar a fortalecer a economia são também prioridades no programa.
A coligação que apresenta Lula da Silva como candidato à reeleição como Presidente do Brasil revelou este sábado o seu programa eleitoral, definindo como prioridades a defesa da soberania e da democracia, a modernização do Estado e a segurança.

O combate às desigualdades, sejam regionais, sociais, raciais ou de género, a defesa da vida das mulheres e continuar a fortalecer a economia, para ampliar investimentos em educação, saúde e infraestruturas, são também prioridades no programa, estruturado em 13 eixos.
A coligação é formada por sete partidos e liderada pelo Partido Trabalhista (PT), de Luiz Lula da Silva, que repete a dupla com o vice-presnete, Geraldo Alckmin, na candidatura às eleições que se realizam em outubro.
No documento, de 84 páginas, o tema da política externa ganha também destaque, e sem citar a crise diplomática com os Estados Unidos, diz que o Brasil deve reafirmar a sua “soberania e preservar a sua capacidade de fazer escolhas políticas e económicas de forma independente” de acordo com os seus interesses e “sem qualquer tipo de subordinação estratégica”.
Nesse contexto, a coligação quer aprofundar a aproximação geopolítica com o grupo BRICS (de que o Brasil é fundador, juntamente com Rússia, Índia, China e África do Sul e que entretanto se alargou a 11 membros) e com o sul global.
Nas diretrizes programáticas, surge em primeiro lugar “fortalecer a Democracia, a participação social e modernizar o Estado”, lembrando que o atual mandato de Lula da Silva começou com um ataque aos símbolos do poder, em Brasília.
No eixo do combate às desigualdades, o programa defende “justiça tributária e fortalecimento do Estado” fazendo um longo relato do que considera terem sido êxitos deste mandato.
Referindo a “recuperação do papel do Brasil no mundo”, no documento refere-se que a economia brasileira “passou a crescer em torno de 3% ao ano, retomando o seu posto entre as 10 maiores economias do mundo. De acordo com o FMI, o Brasil terá crescimento no período 2023-2026 acima da média da América Latina”.
A coligação liderada pelo partido de Lula diz que quer continuar a “aperfeiçoar e ampliar as políticas de proteção social para quem mais necessita”, depois de ter voltado ao governo “em 2023 para reconstruir o Estado, retomar políticas públicas, recuperar o crescimento económico, reduzir desigualdades, recompor o protagonismo internacional e reconstruir a presença do Brasil no mundo”.
“Proteger a vida com uma segurança pública mais eficiente e integrada” é outra das promessas, assegurando “a presença do Estado onde a violência e o crime organizado tentam impor o medo e controlar territórios”.
Nos 13 eixos definidos cabem ainda “fortalecer a saúde”, nomeadamente com mais programas de vacinação e proteção da saúde da mulher, e ainda ampliar o acesso à cultura e ao desporto.
O Partido dos Trabalhadores (PT) oficializou há uma semana o Presidente brasileiro, Lula da Silva, como candidato à reeleição, num cenário em que lidera as intenções de voto nas eleições gerais, segundo as principais sondagens do país.
Aos 80 anos, Lula da Silva concorre a um quarto mandato, não consecutivo, tendo como principal adversário nas urnas o senador e candidato do Partido Liberal (PL) Flávio Bolsonaro de 45 anos, filho mais velho do ex-Presidente Jair Bolsonaro.
Lula fundou, em 1980, o PT, e entrou na vida pública como líder de um sindicato de metalúrgicos em São Paulo, tendo liderado greves históricas de trabalhadores do país na década de 1970, sendo preso pelo regime militar.
Desde que assumiu o terceiro mandato, em 2023, Lula tem sido crítico do próprio PT e da esquerda brasileira, por entender que direita e grupos conservadores aproximaram-se de forma mais eficaz da sociedade brasileira na última década.
A eleição presidencial e o comércio exterior - José Eduardo Faria (Jota Eleições)
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
A eleição presidencial e o comércio exterior
Pleito deve definir como Brasil equilibrará relações com EUA e China

Os jornais têm noticiado que mais de 200 milhões de chineses deixaram o campo e foram para os centros urbanos, nos últimos anos, atraídos pelo crescimento industrial de seu país. A expansão econômica da China foi tão expressiva que levou ao surgimento de uma classe média emergente, com alto consumo de laticínios, carne e alimentos processados.
O que diriam os dois principais candidatos à Presidência se, num debate frente a frente entre eles, fossem indagados sobre o que pretendem fazer nesse setor, se vierem a ser eleitos?
Comecemos com Flávio Bolsonaro. Conhecido por sua submissão à política americana unipolar proposta pela Casa Branca, em junho ele enviou carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, dizendo que está confiante de que será o vencedor e prometendo colocar uma equipe de transição à disposição do governo Trump.
“Nossas nações foram construídas sobre os princípios dos mercados livres, do respeito mútuo e da aliança estratégica a que nossos povos merecem”, escreveu. Com essa afirmação, o candidato revelou seu despreparo em matéria de relações internacionais. Mostrou não ter ideia da trajetória da política externa brasileira entre a segunda metade do século 20 e a década de 2010. E sequer sabe que, nesse período, o Brasil adotou uma exitosa política externa com o objetivo de diversificar o leque de compradores de produtos brasileiros e de reduzir sua dependência dos Estados Unidos na área comercial.
O acerto da chamada “Política Externa Independente”, que almejava equilibrar nossas relações internacionais mantendo portas abertas com diferentes polos de poder político e econômico por meio de alianças pragmáticas, levou o Brasil a ser visto como parceiro confiável. O desconhecimento desse fato por Flávio foi explicitado ainda mais pelo tarifaço imposto pela Casa Branca, justificada por Trump como resposta a “práticas comerciais negativas contra os interesses americanos”.
Em 2 de abril de 2025, que chamou de “dia da libertação”, Trump desorganizou a ordem comercial internacional ao impor altas tarifas de importação a dezenas de países. No caso do Brasil, os analistas apontam que, atualmente, só 12% de nossas exportações vão para os Estados Unidos. Por isso, o impacto do tarifaço sobre os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos teria sido menos desastroso quando comparado com o impacto causado em outros países.
Não passou pela cabeça de Flávio que, ao converter o comércio exterior em instrumento de pressão geopolítica, Trump enfraqueceu uma ordem internacional cooperativa forjada há décadas. Flávio também não entendeu que os tarifaços trumpistas só estimularão o Brasil a diversificar ainda mais a rede de mundial de importadores de produtos brasileiros. Ao enfatizar o que chamou de “princípios de mercados livres” e revelar a disposição de fazer do Brasil um “fiel aliado americano”, Flávio foi além do aulicismo.
Ele evidenciou não ter ideia de que o objetivo de uma política externa responsável é equilibrar relações diplomáticas, ampliar mercados e manter portas abertas com diferentes polos de poder no cenário mundial. Subserviente, a ponto de abrir caminho para que Trump interfira na eleição brasileira, Flávio chegou a pedir à Casa Branca que esperasse passar a eleição para impor mais tarifas a produtos brasileiros. Ao desprezar a China por motivo ideológico, Flávio também relegou o fato de que o Brasil mantém uma importante relação comercial com esse país, independentemente de seu regime político.
Em 2024, a China foi responsável por 28% das exportações brasileiras. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para esse país cresceram 22%, enquanto para o Estados Unidos recuaram 13%. Ainda que a pauta de exportações para os Estados Unidos envolva produtos de alta tecnologia e valor agregado, esses números revelam que o futuro do Brasil no comércio exterior dependerá de como o país vier a agir, tendo de lidar simultaneamente com Estados Unidos e China, dois países hostis um ao outro.
Neste ponto, Lula destacou-se por olhar para outros lugares do mundo e demonstrou bom senso ao não se deixar levar pelo alinhamento automático com os Estados Unidos. Sem colidir frontalmente com este país, como evidenciou em sua visita a Trump em maio, o presidente optou por buscar alianças estratégicas, aprofundando o relacionamento do Brasil com a China.
Se por um lado Lula carece de uma visão de mundo refinada, deixando-se levar por declarações de inspiração nacionalista e soberanista, por outro teve o bom senso de, em seu terceiro, de deixar o Itamaraty sob controle de diplomatas respeitados. E estes o persuadiram a rejeitar retaliações aos Estados Unidos, ao menos num primeiro momento.
Também o advertiram para as armadilhas da polarização. E ainda o lembraram dos riscos de um eventual acionamento da Lei de Reciprocidade, o que, longe de quebrar as patentes de empresas americanas no país, poderia agravar muito mais a situação. Ao mesmo tempo, estimularam Lula a valorizar negociações, priorizando interesses econômicos de médio prazo, sem dar maior ênfase aos interesses políticos de curto prazo.
Contudo, após ter seguido esses conselhos num primeiro momento, com o tempo o presidente retomou suas falas recorrentes. Falou em defesa da Nação. Criticou os traidores da pátria. Disse que “ninguém nos vencerá com mentiras”. Voltou a ressaltar a importância da aproximação com a Ásia. E, em ligação telefônica com o presidente chinês Xi Jinping, voltou a falar no fortalecimento dos Brics sem, contudo, ter ideia de que alguns países que compõem esse bloco nem sempre falam a mesma linguagem nem as mesmas ambições – pelo contrário, têm interesses próprios que, muitas vezes, são divergentes. Além disso, muitos desses países não constituem fontes de capital significativas nem mesmo para si próprios.
No caso específico de Flávio Bolsonaro, se ele for eleito o Brasil terá um presidente incapaz de avaliar o custo que o país terá de arcar em decorrência do alinhamento automático com os Estados Unidos. Recorrendo a mentiras como palavras de ordem, Flávio é incapaz de compreender o quanto o país precisa agir de modo responsável no cenário internacional, abrindo caminhos, ampliando espaços, multiplicando fontes de capital e diversificando fluxos de comércio.
Já no caso da reeleição de Lula, o problema será outro. Como sua visão da economia mundial é mais ideologizada do que analítica, muitas vezes ele tende a ser raso e dúbio. Após o novo tarifaço, a chancelaria preparou para Lula minutas de artigos moderados mas oportunos que foram publicados pela imprensa americana. Ao mesmo tempo, o Itamaraty e o Ministério da Fazenda e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços agiram com sensatez ao enfatizar a importância de se identificar interesses comuns no cenário mundial.
Em termos concretos, porém, o presidente cogitou em tomar iniciativas perigosas, como a impetração de um recurso na OMC com base na Lei de Reciprocidade para “marcar posição”, esquecendo-se de que retaliações americana podem ter alto custos. De concreto, seu governo limitou-se até agora a lançar uma nova fase do controvertido Brasil Soberano, um programa concebido há um ano com para atender empresas brasileiras atingidas pelo tarifaço de 2025.
A verdade é que, além da falta de prudência e pragmatismo, o candidato incumbente carece de uma visão estratégica de médio e longo prazo para o país. Como advertiu o diplomata Rubens Barbosa, que foi embaixador em Washington entre 1999 e 2004, se nada for feito nesse sentido “o Brasil continuará administrando as influências externas sem capacidade de se beneficiar das transformações políticas, econômicas e tecnológicas em curso no cenário global”.
Barbosa está certo. É por isso que só um debate entre estes dois presidenciáveis pode abrir caminho para que a retórica seja substituída por uma discussão responsável e substantiva sobre um tema vital para o futuro do país.
Trump prefere guerra ideológica com Brasil a interesse estratégico dos EUA no país, diz Anthony Pereira - Joâo Caminoto (BBC Brasil)
Trump prefere guerra ideológica com Brasil a interesse estratégico dos EUA no país, diz analista
'Se Trump olhasse Brasil de forma mais estratégica, estaria interessado em minerais críticos', diz Anthony Pereira
João Caminoto
De Paris para a BBC News Brasil, 7 agosto 2026
Em 2022, a eleição presidencial brasileira foi disputada em grande medida em torno de uma única questão: a sobrevivência da democracia. Anthony Pereira teme que 2026 seja diferente, e que isso, paradoxalmente, seja o maior risco.
Cientista político britânico, Pereira é uma das vozes de maior autoridade sobre o Brasil no exterior. Dirige o Roger Thayer Stone Center for Latin American Studies, na Universidade Tulane, em Nova Orleans, e fundou o Brazil Institute do King's College, em Londres, que comandou por uma década.
Acompanha as eleições brasileiras desde 1989 e escreveu alguns dos livros de referência sobre o país, entre eles Ditadura e Repressão, sobre a legalidade autoritária dos regimes militares do Brasil, do Chile e da Argentina.
A entrevista foi realizada em um momento de tensão aguda entre Brasília e Washington. No mesmo dia, o governo de Donald Trump havia revogado o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, mais um capítulo de uma escalada que inclui ataques do secretário de Estado, Marco Rubio, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a indicação de um embaixador americano para Brasília feita sem a consulta prévia que o protocolo diplomático exige.
No pano de fundo regional, a viagem de Javier Milei a São Paulo, dias antes, para o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), na qual o presidente argentino chamou Lula de ladrão, corrupto e presidiário, abrindo uma crise que culminaria na decisão do governo brasileiro de rebaixar o nível das relações diplomáticas com Buenos Aires.
Para Pereira, o episódio diz menos sobre a política externa argentina do que sobre o próprio Milei, dividido entre o presidente que precisa recuperar a economia do país e a tentação de se tornar "a grande estrela global da direita".
Na conversa a seguir, Pereira fala sobre o isolamento diplomático do Brasil, a onda de direita na América Latina, o que uma direita radical internacionalmente articulada tem em comum e no que se divide, e por que, apesar de tudo, ele não é pessimista quanto ao futuro do país.
BBC News Brasil – O governo Trump acaba de revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington. Como o senhor lê essa decisão?
Anthony Pereira – Acho que a decisão do governo Trump reflete a tendência que eles têm de ver o Brasil por uma lente ideológica, político-partidária, e não pela lente do interesse nacional.
Se tivessem olhado para o Brasil de forma mais estratégica e geopolítica, estariam interessados em minerais críticos, inclusive em terras raras. Estariam interessados em cooperar com o Brasil no combate ao crime organizado. Poderiam ter interesse mútuo na produção de etanol. Poderiam ter interesse mútuo na proteção da Floresta Amazônica.
Mas o que se vê do secretário de Estado, Marco Rubio, são ataques pessoais ao presidente Lula e uma alegação sem fundamento de que o Brasil não estaria negociando de boa-fé com os Estados Unidos. E agora vem essa revogação do visto da embaixadora brasileira.
E não devemos esquecer que o anúncio de Daniel Perez como embaixador dos Estados Unidos no Brasil foi feito sem consulta ao Brasil, o que é protocolo, é tradicional, e não obriga o Brasil a aceitá-lo como representante dos Estados Unidos em Brasília.
BBC News Brasil – Na política de Trump para a América Latina, vê também uma estratégia ideológica?
Pereira – Eu estava falando com um ex-diplomata brasileiro sobre isso. O que ele gostaria de ver do governo Trump, e que não está sendo produzido, é uma política positiva para a América Latina. Ou seja: parar de criticar a China e a presença chinesa nas economias, especialmente na América do Sul, e propor algo positivo. Propor financiamento americano para infraestrutura, dar financiamento por meio dos bancos multilaterais e de bancos estatais, para empresas americanas investirem na infraestrutura de que a região precisa. Competir com a China positivamente.
Talvez um governo no futuro faça isso. Mas o governo Trump, para mim, é muito mais negativo. É um governo que olha para a região como fonte de drogas, de imigrantes, de coisas indesejáveis, e que tem de ser subordinada. É uma política que não víamos desde a época da diplomacia das canhoneiras, no fim do século 19 e começo do século 20, quando os Estados Unidos intervinham militarmente na América Latina para proteger seus interesses.
Não tem efeitos positivos, porque cria reação. Gera a sensação de que não se pode confiar nos Estados Unidos, porque vão impor tarifas contra a sua economia, vão deportar seus cidadãos. Não parece um parceiro confiável. A tendência natural será buscar apoio na Europa, na Ásia, com outros Estados. Mark Carney, o primeiro-ministro do Canadá, foi para mim o expositor mais claro da posição das potências médias: é preciso contrabalançar com política multilateral para conter os danos nessas relações.
Isso é chocante. Se você produz esse tipo de reação no Canadá, que sempre foi confiável, sempre foi amigo dos Estados Unidos, imagine o efeito dessas políticas em outros países.
Foi dito abertamente que eles, a América Latina, precisam muito de nós, e que nós não precisamos deles. Quase se glorificou essa assimetria como uma coisa positiva para os Estados Unidos. Estes não são os Estados Unidos que eu conheço da minha juventude, de quase toda a minha vida até agora. É contraproducente tratar os aliados dessa forma.
Há muitas afinidades culturais entre o Brasil e os Estados Unidos, muitas razões para trabalhar juntos. Vi na Flórida muitas famílias com um pé nos dois países. Há muitas oportunidades de construir coisas juntos. Mas com essa atitude, acho difícil.
BBC News Brasil – O Brasil é hoje o último grande país da América do Sul governado pela esquerda. É uma exceção ou o último dominó?
Pereira – Eu acho que o Brasil, por enquanto, é uma exceção, porque representa uma perspectiva de economia política que está desaparecendo no resto da região. Se você pega o período posterior à crise financeira de 2008, na Europa e nos Estados Unidos, a resposta foi basicamente austeridade, apesar de a crise ter sido uma crise financeira do setor privado. A reação nos dois lados do Atlântico foi cortar o setor público. E o efeito indireto desses cortes foi aumentar a desigualdade.
O Brasil, entre outros casos no chamado Sul Global, tentou outra coisa: programas sociais, atenção ao salário mínimo, acesso à educação, acesso a treinamento, políticas de expansão e inclusão. Ao longo dos anos 2000, o Brasil estava diminuindo a pobreza e até reduzindo um pouco a desigualdade. A África do Sul fazia coisa semelhante, a Índia, até a China. Mas, em geral, no mundo do capitalismo avançado, não houve esse tipo de perspectiva.
Então o Brasil, para mim, continua nessa trajetória. Não radicalmente. Eu não diria que o governo atual é um governo radical de esquerda.
BBC News Brasil – O próprio Lula já disse que não é de esquerda.
Pereira – Ele próprio falou que não é. Mas o PT, o Partido dos Trabalhadores, tem esse compromisso com políticas sociais, com as condições de trabalho e com os salários dos trabalhadores. E, apesar de um Congresso muito mais conservador, que o obriga a fazer concessões, o governo representa o que eu chamaria de uma demonstração de que a social-democracia é possível no século 21. É diferente da social-democracia clássica da Europa. Mas, para mim, é muito importante que alguns governos no mundo continuem mostrando que isso é possível.
E que sirva também de contrapeso ao discurso da extrema direita de que o globalismo é um mal perverso que está destruindo o mundo. É um grande exagero, uma grande distorção do mundo atual, e conduz esses países a políticas públicas nefastas: xenofobia, divisão das populações, uns contra os outros.
A extrema direita eleva valores que considera mais importantes do que a democracia. É uma perversão. Nessa fala sobre a civilização ocidental, os valores associados a ela às vezes são os mais atávicos, os mais violentos. E as coisas boas se perdem: as instituições, a igualdade, a cidadania, a liberdade de expressão, a liberdade de pesquisa científica, o debate público sobre os meios de governar o país. Sobram as guerras de religião, as guerras sobre pureza étnica.
Talvez eu esteja dando importância demais à eleição de 2026 no Brasil, criando uma imagem além da própria realidade dela. Mas, para mim, essa eleição é muito importante, porque pode mostrar ao mundo que não é preciso chegar a esse extremo para preservar valores que são positivos para a maioria das pessoas.
BBC News Brasil – Há algo de legítimo no diagnóstico que a direita radical faz?
Pereira – Esse é o outro lado da moeda, e é verdade: os governos do status quo não necessariamente solucionaram esses problemas. Mesmo que a gente vá criticar esses partidos de extrema direita, temos que admitir que às vezes as críticas que eles fazem têm validade. Eles estão identificando problemas reais na sociedade. E simplesmente defender o status quo não é adequado aos desafios contemporâneos.
BBC News Brasil – Milei veio ao Brasil para o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro e chamou Lula de ladrão, corrupto, presidiário, lixo socialista. Um presidente em exercício atacando o vizinho dentro da casa do vizinho. Já tinha visto algo assim?
Pereira – Na história recente, não. A única coisa que talvez possa salvar a situação é que, abaixo do nível dos presidentes, eu creio que ainda há diálogo entre Brasil e Argentina, que é o eixo fundamental do Mercosul, o bloco econômico que reúne os dois países ao lado do Paraguai e do Uruguai. Há diálogo positivo e pessoas solucionando problemas em comum nesse nível, nos ministérios das Relações Exteriores.
BBC News Brasil – Qual seria o objetivo de Milei com isso?
Pereira – Eu tenho a impressão de que ele gostaria de ser a grande estrela global da direita. Está muito alinhado com as afinidades que tem com Trump. Mas Trump não é um libertário. Trump não gosta do livre mercado. Trump gosta de controlar a economia. O ideal dele são as políticas públicas dos Estados Unidos na época de William McKinley, presidente no fim do século 19, associadas ao protecionismo e à defesa da indústria americana.
Há uma tensão na presidência de Milei. Ao mesmo tempo em que ele quer ser essa grande estrela da direita e, por isso, vai ao Vox, o partido de extrema direita espanhol, criticar o primeiro-ministro da Espanha, critica Lula, aparece na CPAC, a maior conferência conservadora dos Estados Unidos, e cumprimenta Trump, ele também é responsável pela recuperação da economia argentina, que precisa da economia brasileira como parceira. E precisa de investimento internacional, o que exigiria um pouco mais de cautela, um pouco mais de discrição.
Ele está dividido. Às vezes tem a personalidade do presidente responsável, tentando recuperar a economia. Outras vezes, essa tentação de ser grande estrela, grande personalidade.
Tenho dúvidas de que ele tenha convencido muitos eleitores brasileiros, ou de que Flávio ganhe votos por causa do apoio dele.
BBC News Brasil – Existe hoje uma direita radical internacionalmente coordenada e alinhada?
Pereira – Há uma rede, com certeza. Eu vi isso quando Viktor Orbán era primeiro-ministro da Hungria. Orbán financiou, por exemplo, políticos do Reform, o partido de direita radical britânico. Pagou políticos nos Estados Unidos também. Gastou dinheiro para ajudar a criar essa rede. Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, também tentou cooperar com vários movimentos na Europa.
É complexo estudar isso, porque nem todas essas redes são visíveis. Há um encontro fascinante descrito no livro de Benjamin Teitelbaum, etnomusicólogo americano que estuda a extrema direita, sobre os tradicionalistas: um encontro em Roma entre Steve Bannon e Alexander Dugin, o filósofo ultranacionalista russo próximo ao Kremlin. Os dois analisaram o mundo e concordaram que o globalismo era o grande mal. Mas, para Dugin, a origem do globalismo eram os Estados Unidos, e, para Bannon, era a China. As soluções são muito diferentes.
Às vezes os pontos principais migram de um lugar para outro. Notei isso no bolsonarismo no fim de 2019 e em 2020. A educação domiciliar, o chamado homeschooling, é um movimento forte nos Estados Unidos, e houve alguns debates no Brasil sobre promovê-la. Mas não pegou, não há tradição disso no país. Talvez a coisa mais parecida tenha sido promover escolas militares, como escolas com disciplina.
BBC News Brasil – Todo esse debate de política externa, Trump, Milei, tem impacto decisivo no eleitorado brasileiro?
Pereira – Não tenho certeza. Eu estava olhando alguns resultados de pesquisa recentes sobre as ideias do eleitorado. Acompanho várias eleições desde 1989, e os temas fundamentais são economia doméstica, segurança pública, saúde, educação, talvez transporte público. Tenho dúvidas de que essas questões geopolíticas, por exemplo, a influência possível do governo Trump, sejam cruciais para muitos eleitores no Brasil.
Acho que isso vai ser fundamental também nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro. Muitos eleitores vão lembrar que, em 2024, Trump criticou a inflação do governo Biden, que realmente subiu e era um problema. Mas, desde então, os preços não baixaram. Estão mais altos do que em 2024. Essa questão, que em inglês se chama affordability, o custo de vida, vai ser fundamental. Talvez Brasil e Estados Unidos tenham afinidades nesse aspecto: muitos eleitores estão focados nessas questões cotidianas.
Talvez por isso as tentativas do governo Lula de promover soluções para o endividamento, um problema que cresceu bastante, possam render alguns frutos. É uma tentativa de aliviar as pessoas dessas dívidas pesadas, que afetam a capacidade de compra.
BBC News Brasil – A economia brasileira não vai mal, mas isso não se reflete na popularidade do presidente.
Pereira – Não é totalmente diferente da situação de 2024, quando os dados básicos da economia de Biden não eram horríveis, mas as pessoas não sentiram isso. Estavam reclamando. Mostra como é difícil governar. Sociedades polarizadas, com fontes de informação totalmente diferentes dos dois lados, tornam muito difícil criar um consenso sobre como interpretar os dados econômicos.
Em 2025, participei de um encontro com empresários brasileiros e argentinos em Buenos Aires, e tive a sensação de que eles não têm confiança no governo Lula em relação a gastos e ao déficit fiscal, mesmo que os resultados sejam razoáveis, se você pegar a inflação e o desemprego. Talvez com outro político eles tivessem mais confiança. Essencialmente, parece que não confiam nele para conter os gastos e manter um déficit fiscal razoável.
BBC News Brasil – Você já falou da necessidade de uma direita democrática na América Latina. Com a ascensão da direita radical, ela parece ter desaparecido. É um fenômeno reversível?
Pereira – Espero que sim. Vamos ver nos Estados Unidos se, depois da eleição de novembro, vão aparecer dentro do Partido Republicano mais figuras como as do passado. Republicanos capazes de criticar os excessos de Trump, capazes, por exemplo, de criticar a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Trump tentaram impedir a certificação da vitória de Biden, o que a grande maioria dos republicanos não fez.
Nesse sentido, eu vejo o Brasil como um pouco mais positivo. Pelo menos em termos do establishment político, depois dos ataques de 8 de janeiro de 2023, os governadores dos partidos de direita, os membros do Congresso e a opinião pública em massa condenaram os ataques, a violência e os saques. Criaram um consenso muito mais amplo do que se viu nos Estados Unidos, onde a maioria dos republicanos não aceitou as críticas feitas pelos democratas.
Agora há muitas pessoas que querem anistiar os responsáveis pelos ataques de 2023 e não querem criticar a família Bolsonaro. Mas talvez depois desta eleição seja possível que algo emerja. Quem fala muito sobre isso é Sérgio Fausto, diretor do Instituto Fernando Henrique Cardoso. Ele escreveu um artigo muito eloquente sobre a necessidade de a direita democrática assumir uma postura mais firme na política brasileira. Articulou essa ideia muito bem.
BBC News Brasil – Como você está vendo a eleição brasileira?
Pereira – Estou um pouco preocupado. Diferentemente de 2022, quando houve uma sensação muito forte de que a eleição girava em torno da defesa da democracia, uma coisa emblemática, tenho a impressão de que hoje menos pessoas acham que a democracia é um tema central. Seja Flávio, seja Lula, não importa tanto. Tenho essa impressão, ainda que esteja distante.
É um perigo, no sentido de que pode haver um retrocesso depois da eleição. Por exemplo, se houver anistia, se as coisas que foram feitas forem esquecidas.
BBC News Brasil – No caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro?
Pereira – Não estou dizendo que toda a agenda de Flávio seja autoritária. Mas aumenta o risco, sim.
BBC News Brasil – E um quarto mandato de Lula?
Pereira – Para mim, falta uma ideia clara do projeto do governo atual, caso ganhe outro mandato. É claro que eles não querem um Bolsonaro de volta à Presidência. Mas, além disso, é preciso mostrar ao público um projeto de quatro anos que vá melhorar o país em várias áreas.
BBC News Brasil – Muito se falou no século passado que o Brasil era o país do futuro. Vê a perspectiva do Brasil dar um salto? E o que seria necessário?
Pereira – Eu não sou totalmente negativo sobre o Brasil. Li um artigo recentemente sobre a ansiedade nos Estados Unidos, com a percepção de que a agricultura americana, que era o berço da produção de comida para o mundo, está perdendo esse papel para o Brasil. O Brasil tem muita terra, tem uma fronteira agrícola enorme um uso de tecnologia muito avançado. Há áreas como essas em que o Brasil tem um futuro muito forte.
O medo que eu tenho, não só em relação ao Brasil, mas à América Latina em geral, é que se estagne nesse patamar de fornecedor de commodities, bens agrícolas e minerais, que ao longo da história sempre foi a armadilha. O sonho de industrialização em meados do século 20 era exatamente para escapar desse papel subordinado. Acho que o Brasil e os outros países da região têm muito mais a fazer para subir na cadeia de valor agregado: a transformação digital, uma força de trabalho mais educada, mais treinada, com mais habilidades.
Não vejo isso como impossível. Os Estados Unidos têm problemas sérios e estão em decadência, na minha perspectiva, em termos de papel global. A Europa também está em declínio na sua contribuição para o PIB global, e tem divisões culturais profundas, que estamos vendo nas eleições. A Ásia está em ascensão, e o Brasil tem uma conexão com a Ásia que é muito produtiva. Então não sou pessimista em relação ao Brasil. Acho que tem capacidade de solucionar problemas.
O que falta são políticos que falem sobre o interesse nacional. Nas campanhas, o que predomina são os ataques pessoais. Um debate interessante seria: é possível reindustrializar? O que significa reindustrializar com o tipo de produção que temos hoje? Não vejo muita discussão sobre isso, infelizmente.
BBC Brasil
sábado, 8 de agosto de 2026
Crise Brasil-EUA gera debate interno sobre politização do Itamaraty - CNN Brasil
Crise Brasil-EUA gera debate interno sobre politização do Itamaraty
Vistos negados e defesa da soberania nacional são vistos como movimentos políticos por integrantes da diplomacia
CNN Brasil, 07/08/26
As recentes negativas de vistos a membros do governo Trump e as declarações do Itamaraty em defesa da soberania nacional têm sido vistas por alguns diplomatas como uma politização da política externa brasileira.
A CNN conversou com integrantes da diplomacia que afirmaram jamais ter visto tamanha hostilidade de Brasília com Washington.
Uma das fontes avalia que os Estados Unidos sempre tiveram uma postura intervencionista na América Latina e lembra que Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio não têm qualquer pudor em admitir isso abertamente. Mas a diferença é a forma como o Brasil está reagindo agora.
Se anteriormente a diplomacia brasileira respondia de forma mais pragmática, sem se envolver abertamente em disputas políticas, agora a postura mais ativa causa estranhamento entre alguns diplomatas.
Questionada sobre a demora na concessão do agrément de Daniel Perez — a aprovação formal do Brasil para que o indicado de Trump possa assumir o cargo de embaixador em Brasília —, uma fonte do Itamaraty respondeu que os EUA voltaram à postura de julho do ano passado “de ingerência e tentativa de intimidação”.
O interlocutor disse que o posicionamento do governo Trump não funcionou no ano passado e que neste ano a palavra está com o povo brasileiro, “que dirá se quer ser governado a partir de Washington ou se defende a soberania do Brasil diante de ataques tão grosseiros”.
A defesa da soberania nacional, discurso político que vem rendendo dividendos a Lula, tem sido evocada com mais frequência e mais ênfase agora também dentro do Itamaraty.
O Brasil não está sendo nada pragmático. Ao contrário, o governo como um todo, e o Itamaraty, estão escalando nitidamente o discurso de uma lógica mais pretensamente soberanista, com nítido interesse eleitoral, disse um diplomata.
Uma das fontes afirma que o governo brasileiro impedir a entrada de membros do governo dos Estados Unidos representa uma mudança significativa na postura do Itamaraty.
Ela lembra que o governo Biden também interveio diplomaticamente no debate brasileiro antes das eleições de 2022. Em julho daquele ano, o secretário de Defesa de Joe Biden, Lloyd Austin, se reuniu com o então ministro da Defesa de Jair Bolsonaro, Paulo Sérgio Nogueira, e falou sobre a expectativa americana de eleições livres, justas e transparentes. Austin também defendeu o controle civil sobre os militares e o respeito à vontade popular.
Mas, quando membros do governo Trump tentaram entrar no Brasil, seus vistos foram negados.
A primeira negativa aconteceu em março de 2026, quando o governo brasileiro revogou o visto diplomático de Darren Beattie, assessor do Departamento de Estado dos EUA. O Itamaraty afirmou que houve “omissão e falseamento de informações relevantes quanto ao motivo da visita”.
Beattie viajaria ao Brasil para participar de um fórum sobre minerais críticos e também pretendia visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão, mas encontro não havia sido informado às autoridades brasileiras.
O Itamaraty também negou vistos a dois funcionários do alto escalão do Departamento de Estado dos Estados Unidos: Riley Barnes, secretário-assistente no Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL), e Samuel Samson, secretário-assistente adjunto do mesmo escritório.
Segundo Lula, os dois pretendiam viajar ao Brasil “para se meter na eleição brasileira”. O Departamento de Estado negou essa versão e afirmou que se tratava de uma missão oficial de rotina para discutir democracia, direitos humanos e liberdade religiosa.
Os vistos foram negados para a viagem prevista entre 27 e 30 de julho, período que coincidia com a convenção nacional do PL, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. A Embaixada dos Estados Unidos havia informado ao governo brasileiro que os dois teriam um encontro com Flávio Bolsonaro durante a viagem. Não há, porém, confirmação pública de que eles participariam da convenção do PL.
Alguns diplomatas avaliam que o Itamaraty tem realizado uma política externa de governo e não de Estado.
Por outro lado, as fontes também ressaltam que os Estados Unidos não têm respeitado as regras da diplomacia em alguns casos. A divulgação da indicação de Daniel Pérez antes de o agrément ser concedido pelo Itamaraty, por exemplo, contraria a praxe diplomática de manter a consulta confidencial até a resposta do país que receberá o embaixador.
Um interlocutor lembrou que um agrément pode ser concedido em um dia se um país quiser fazer um afago ao outro, mas é comum a resposta demorar dois ou três meses. Portanto, a reação do governo Trump de revogar o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti é vista por alguns como exagerada.
Já outros afirmam que a demora do governo brasileiro tem motivos eleitoreiros e visa reforçar o discurso da soberania nacional.
Em resposta às críticas feitas por diplomatas de dentro do governo, uma fonte do Itamaraty afirmou que, se a atual postura de defesa diante dos ataques dos Estados Unidos não tem precedentes, é porque “a truculência dos ataques, das ameaças e da agressão à democracia e à soberania também não têm precedentes”.
“Isso não é politização, é defesa do interesse nacional em tempos de conflito, no qual a administração Trump decidiu alinhar-se com os golpistas. A linha do tempo a partir de julho de 2025 é clara. Temos tentado a via da negociação há mais de um ano e, nos últimos meses, ficou claro que o outro lado não quer negociar, prefere atacar o Brasil na tentativa de impor sua vontade na eleição”, completou a fonte do Ministério das Relações Exteriores.
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