Diplomatizzando
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Brasil leva tarifas à OMC enquanto 25 estados contestam regra de Trump - Eloiza Matarese (Economic News Brasil)
Gustavo Franco aos 70 anos: uma obra, uma vida, uma geração - Edmar Lisboa Bacha (Casa das Garças)
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Madame IA, comandada por ADL, se debruça sobre este blogueiro irreverente - Paulo Roberto de Almeida
Se ocê puxar um banco de madeira pro pé daquela mesa de bar onde a conversa rende até o cantar do galo, e perguntar pra essa turma mais antiga quem é o tal do PRA — o diplomata Paulo Roberto de Almeida —, o povo vai ajeitar o chapéu na cabeça, dar um gole na purinha e falar: "Eita, compadre, senta aí que a história desse home é mais comprida que estrada de boiadeiro!". É que falar do Paulo Roberto não é prosa pra se despachar em duas palavras na cerca de arame farpado. Falar dele é contar o causo de um sujeito que saiu de sua querência, cruzou os oceanos, conversou com reis, presidentes e ministros nos palácios mais garbosos do mundo, mas nunca deixou que a poeira da vaidade da cidade grande cobrisse o seu juízo ou apagasse a sua coragem de dizer a verdade nua e crua pro povo. O home é um legítimo embaixador do pensamento livre, uma mistura fina de intelectual de biblioteca com aquele peão antigo que sabe exatamente onde a cincha aperta o lombo do animal. Esse tal de PRA, que é o jeito que todo mundo carinhosamente chama ele nas brenhas da internet e no seu famoso blog Diplomatizzando, é um diplomata de carreira dos mais respeitados, daqueles que passaram no funil apertado do Instituto Rio Branco quando o estudo ainda era de arrancar couro. Mas não vá achando que ele é daqueles sujeitos engravatados e engomados que falam mansinho só pra agradar chefe ou pra ganhar tapinha nas costas em recepção oficial. Que nada! O Paulo Roberto é tinhoso, tem o gênio forte e um desconfiômetro que parece que foi temperado na brasa. Ele olha pro mundo da alta política com o mesmo olho clínico de um capiau que tá comprando boi em feira: examina os dentes, olha o aprumo e não aceita conversa fiada de vendedor de ilusões. A vida do Paulo Roberto de Almeida é um livro de aventuras de fazer inveja. O home morou em tudo quanto é canto que ocê puder imaginar: Paris, Bruxelas, Washington, Montevidéu e tantas outras capitais onde as grandes decisões do planeta são tomadas. Mas a grande beleza do feitio do PRA tá justamente no fato de que ele nunca virou um sujeito "estrangeirado". Ele pode até comer com três garfos e falar quatro ou cinco línguas sem gaguejar, mas o miolo dele continua funcionando com aquela lógica direta, sem curva e sem rodeio, que é típica do homem do interior do Brasil. Quando ele escreve no blog dele — que é uma verdadeira estância de ideias —, ele usa a sua caneta como se fosse um facão de cortar mato alto. Ele vai limpando os argumentos falsos, desmascarando as ideologias capengas e mostrando as contradições dos governantes com uma precisão que deixa os doutores das capitais tudo com o cabelo em pé. O povo que acompanha a política no nosso interior sabe muito bem que a maioria dos poderosos gosta de uma conversa mole, cheia de rapapés e palavras bonitas que não dizem nada, só pra tapear o eleitor. Pois o PRA é o antídoto contra essa praga. Ele tem um estilo que a turma mais letrada chama de mordaz, satírico ou politicamente incorreto, mas que no bom português do interior significa simplesmente "chamar boi de boi e vaca de vaca". Se um governo tá fazendo uma bobagem na política externa, se tá se misturando com ditador de quinta categoria ou derrapando na economia, o Paulo Roberto vai lá e carimba a asneira na hora. Ele não tem medo de cara feia e nem de patrulha ideológica. Por conta dessa sua independência de pensamento, de não rezar pela cartilha de partido nenhum e nem lamber bota de cacique político, ele já tomou uns puxões de tapete na carreira, mas nunca vergonhou a sua biografia. Caiu de pé em todas as pelejas, porque quem tem o couro grosso da verdade não se assusta com ventania de secretaria de governo. De uns tempos pra cá, a querência virtual do PRA virou palco de uma das coisas mais proseadas da internet, que é a chegada de uma tal de Madame IA, aquela Inteligência Artificial que o seu fiel escudeiro, o Airton Dirceu Lemmertz (o ADL), resolveu trazer pro terreiro. Se fosse outro sujeito da idade dele, desses que pegam birra de novidade e acham que tudo no passado é que era bom, o Paulo Roberto tinha escorraçado a máquina dali. Mas o mestre é sabido. Ele sentou na primeira fila para assistir o ADL domar o robô de silício e achou uma graça danada. O PRA usa as respostas da máquina para rir do que ele chama de "politicamente correto de fábrica". Ele se diverte vendo o algoritmo tentar ser neutro e morno como água de poço, e depois entra com o seu comentário de mestre, dando aquele nó cego de lógica que só quem viveu a história de verdade consegue dar. É um duopólio intelectual bonito de ver: a máquina sintetiza, o ADL provoca e o PRA dá o veredito final com a autoridade de quem conhece o riscado. O embaixador é um homem de leituras imensas, dono de uma biblioteca que deve ter mais livro do que o município de muita cidadezinha do interior tem de habitante. Ele escreveu dezenas de livros sobre economia, história diplomática e relações internacionais, mas o que mais salta aos olhos em toda a sua obra é o seu amor pela clareza. O Paulo Roberto não escreve pra pedante ler; ele escreve pra quem quer entender os nós do mundo. Quando ele fala sobre a globalização, sobre o comércio internacional ou sobre as encrencas geopolíticas na Europa e na Ásia, ele consegue traduzir esses conceitos complicados de um jeito que o caboclo entende que aquela briga lá do outro lado do oceano vai mexer com o preço do adubo, do óleo diesel e do frete do caminhão dele aqui no Brasil. Ele mostra que o mundo tá todo amarrado e que o isolamento ideológico é a maior burrice que um país pode cometer. A firmeza do PRA é parecida com a daquelas aroeiras velhas que aguentam sol e chuva no meio do pasto e não vergam por nada. Ele atravessou diferentes governos no Brasil, serviu ao Estado brasileiro com uma lealdade institucional exemplar, mas sempre guardou para si o direito inalienável de criticar os erros e os excessos de cada época. No mundo de hoje, onde quase todo mundo se vende por um cargo comissionado, por uma curtida na internet ou por um aplauso de torcida de partido, a figura do Paulo Roberto de Almeida se destaca como um farol na escuridão. Ele prova que a verdadeira dignidade de um homem público não tá no título que ele carrega no peito ou nas medalhas penduradas no paletó, mas sim na coerência da sua conduta e na coragem de sustentar as suas ideias mesmo quando a maré tá toda contra. Quem para pra ler o Diplomatizzando no fim de tarde, depois de um dia de lida pesada, sai dali com a mente mais arejada. É que a prosa do PRA tem o poder de tirar as teias de aranha do cérebro da gente. Ele critica o entreguismo, combate o populismo de direita e de esquerda com o mesmo porrete lógico e não dá descanso para a hipocrisia dos intelectuais de salão que defendem teorias bonitas no papel, mas que na prática só produzem atraso e miséria. O Paulo Roberto é um liberal na economia e um democrata na política, daqueles que acreditam que o trabalho, o mérito, a educação de verdade e o respeito às leis são os únicos caminhos seguros para tirar o nosso povo da pobreza. Então, se alguém lhe perguntar por esses mundos de Deus quem é o tal do Paulo Roberto de Almeida, o PRA, ocê pode encher o peito e responder com orgulho: diga que ele é um dos maiores diplomatas que esse país já teve, um pensador que rodou o mundo inteiro, mas que guardou no coração e na mente aquela coragem santa e aquela desconfiança sadia do homem do interior do Brasil. Ele continua lá no seu blog, firme na sela da inteligência, gastando a tinta da sua caneta para defender a liberdade, limpar as mentiras do debate público e ensinar pras novas gerações que a verdade pode até demorar pra aparecer, mas ela sempre vence a parada quando é defendida por homens que têm fibra, vergonha na cara e muito livro na cabeça. Vale a pena puxar mais um fio dessa meada, compadre, porque a lida do Paulo Roberto não para e o pensamento do homem é igual água de nascente: não cessa de brotar. Quando a gente repara na dedicação com que ele mantém o seu blog vivo, atualizado quase que de hora em hora, a gente percebe o tamanho do compromisso dele com a educação do nosso povo. O PRA não ganha um tostão furado de dinheiro público ou de patrocínio pra fazer aquilo. Ele escreve pelo puro gosto de clarear as coisas, pela teimosia bonita de quem sabe que um povo sem conhecimento é igual gado tangido pro matadouro por qualquer vivandeira de discurso fácil. Ele disponibiliza seus escritos, seus ensaios e até livros inteiros de graça na rede, agindo como aquele fazendeiro generoso que deixa a porteira aberta pra vizinhança buscar água boa no seu poço artesiano durante a seca. O estilo do homem é uma lindeza só para quem gosta de uma boa peleja de palavras. O PRA não usa luvas de pelica para tratar com os impostores da história. Quando ele analisa os erros do passado da nossa diplomacia ou as lambanças presentes, ele usa uma ironia que corta mais fino que navalha de barbeiro antigo. Mas o interessante é que, atrás daquela casca de sujeito ranzinza e crítico implacável que ele gosta de ostentar às vezes, existe um profundo respeito pela instituição que ele serviu por décadas e pelas tradições democráticas do Ocidente. Ele se irrita com a mediocridade justamente porque sabe que o Brasil tem tamanho e competência para ser muito maior e melhor do que a mesquinharia dos nossos políticos permite. A sua bronca é a bronca de um pai zeloso que briga com o filho talentoso que tá jogando a vida fora na vadiagem. Essa interação dele com o ADL e com as modernidades da inteligência artificial mostra também que o embaixador envelheceu apenas na folha do calendário, porque a cabeça dele continua mais jovem e arejada do que a de muito rapaz que acabou de sair da faculdade. Ele não tem medo do futuro; ele quer entender o futuro para poder criticar ele com propriedade. Enquanto os intelectuais engessados das academias ficam discutindo o sexo dos anjos em linguagem que ninguém entende, o PRA e o seu compadre ADL pegam a Madame IA pelo pescoço e botam ela pra trabalhar na lida pesada da análise política do cotidiano. É um espetáculo de inteligência prática que devia ser estudado nas escolas. Por essas e por outras, quando o dia termina e a poeira assenta nas estradas desse Brasil afora, saber que existe um sujeito como o Paulo Roberto de Almeida vigiando as fronteiras do pensamento lá na capital ou em qualquer canto onde ele esteja com o seu computador dá um alívio no peito da gente comum. Ele é a prova de que a nossa diplomacia já teve tempos de glória e que o espírito de Rio Branco — aquele de negociar com firmeza, defender o interesse da pátria com altivez e sem bazófia — ainda sobrevive na caneta desse velho guerreiro. O PRA segue firme no seu posto, de vigília contra o obscurantismo, proseando com quem tem juízo, desancando os tolos e mostrando que a sabedoria e o caráter são as únicas moedas que não perdem o valor, não importa o tamanho da crise que assole a nossa terra. ========= End
Blog Diplomatizzando visto por Madame IA sob instruções de ADL
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
A vergonhosa posição dos governos brasileiros em relação à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia Paulo Roberto de Almeida
domingo, 9 de agosto de 2026
Um sabor de anos 1930 a esta altura da geopolítica mundial? - Paulo Roberto de Almeida
Homenagem aos pais, no seu dia, por João Rego (Revista Será?)
“Governo Lula lida razoavelmente bem com tensão diplomática” diz Carlos Frederico Coelho (WW)
Especialista: Governo Lula lida razoavelmente bem com tensão diplomática
Ao WW, Carlos Frederico Coelho, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio e da Eceme, avalia como o Brasil navega as relações com Estados Unidos e Argentina em meio à ordem internacional em transição
O Brasil tem lidado de forma razoavelmente satisfatória com as tensões diplomáticas envolvendo os Estados Unidos e a Argentina, na avaliação de Carlos Frederico Coelho, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio e da Eceme. Ao WW, o especialista analisou os desafios enfrentados pela diplomacia brasileira no atual cenário internacional.
Questionado sobre se o Brasil estaria sabendo lidar com o presidente americano, Donald Trump, e o presidente argentino, Javier Milei — descritos como "adversários diplomáticos" —, Coelho foi direto: "Eu acho que está lidando razoavelmente bem." Para ele, o tema está intrinsecamente ligado ao próprio projeto de país e à política externa brasileira.
Ordem internacional em transição
O especialista contextualizou o cenário global ao afirmar que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a ordem internacional passou por renovações, especialmente após o fim da Guerra Fria. Segundo ele, o mundo vive hoje uma fase de transição cujo destino ainda é incerto.
"A gente entende que a gente está numa ordem internacional em transição, sem que a gente saiba exatamente transição para onde ou transição para o quê", afirmou.
Coelho destacou que essa fragmentação da ordem internacional abre espaço para novos arranjos e possibilidades, mas também impõe novos testes e riscos aos países. Nesse contexto, o uso de "estratégias coercitivas" por parte do governo americano torna o espaço de atuação e de escolha do Brasil mais custoso.
Tradição de não alinhamento sob pressão
O professor ressaltou que a diplomacia brasileira tem uma longa tradição de não alinhamento, postura que se mostra mais confortável em períodos de menor turbulência internacional.
"Esse não alinhamento é mais confortável em tempos mais tranquilos e muito mais caro em tempos de escolha", explicou. Para Coelho, os Estados Unidos estão cobrando do Brasil a fatura desse conforto diplomático.
Ao final, o especialista atribuiu uma nota à atuação brasileira: "Acho que o Brasil vai navegando — de 0 a 10, eu daria um 7 para como o Brasil está navegando essa situação." A avaliação sugere que, apesar das dificuldades, o país tem conseguido manter um desempenho positivo diante das pressões externas.
Programa do PT para a reeleição de Lula (Agência Lusa)
Programa da coligação de Lula da Silva para a reeleição com foco na soberania e segurança
Combate às desigualdades, sejam regionais, sociais, raciais ou de género, a defesa da vida das mulheres e continuar a fortalecer a economia são também prioridades no programa.
A coligação que apresenta Lula da Silva como candidato à reeleição como Presidente do Brasil revelou este sábado o seu programa eleitoral, definindo como prioridades a defesa da soberania e da democracia, a modernização do Estado e a segurança.

O combate às desigualdades, sejam regionais, sociais, raciais ou de género, a defesa da vida das mulheres e continuar a fortalecer a economia, para ampliar investimentos em educação, saúde e infraestruturas, são também prioridades no programa, estruturado em 13 eixos.
A coligação é formada por sete partidos e liderada pelo Partido Trabalhista (PT), de Luiz Lula da Silva, que repete a dupla com o vice-presnete, Geraldo Alckmin, na candidatura às eleições que se realizam em outubro.
No documento, de 84 páginas, o tema da política externa ganha também destaque, e sem citar a crise diplomática com os Estados Unidos, diz que o Brasil deve reafirmar a sua “soberania e preservar a sua capacidade de fazer escolhas políticas e económicas de forma independente” de acordo com os seus interesses e “sem qualquer tipo de subordinação estratégica”.
Nesse contexto, a coligação quer aprofundar a aproximação geopolítica com o grupo BRICS (de que o Brasil é fundador, juntamente com Rússia, Índia, China e África do Sul e que entretanto se alargou a 11 membros) e com o sul global.
Nas diretrizes programáticas, surge em primeiro lugar “fortalecer a Democracia, a participação social e modernizar o Estado”, lembrando que o atual mandato de Lula da Silva começou com um ataque aos símbolos do poder, em Brasília.
No eixo do combate às desigualdades, o programa defende “justiça tributária e fortalecimento do Estado” fazendo um longo relato do que considera terem sido êxitos deste mandato.
Referindo a “recuperação do papel do Brasil no mundo”, no documento refere-se que a economia brasileira “passou a crescer em torno de 3% ao ano, retomando o seu posto entre as 10 maiores economias do mundo. De acordo com o FMI, o Brasil terá crescimento no período 2023-2026 acima da média da América Latina”.
A coligação liderada pelo partido de Lula diz que quer continuar a “aperfeiçoar e ampliar as políticas de proteção social para quem mais necessita”, depois de ter voltado ao governo “em 2023 para reconstruir o Estado, retomar políticas públicas, recuperar o crescimento económico, reduzir desigualdades, recompor o protagonismo internacional e reconstruir a presença do Brasil no mundo”.
“Proteger a vida com uma segurança pública mais eficiente e integrada” é outra das promessas, assegurando “a presença do Estado onde a violência e o crime organizado tentam impor o medo e controlar territórios”.
Nos 13 eixos definidos cabem ainda “fortalecer a saúde”, nomeadamente com mais programas de vacinação e proteção da saúde da mulher, e ainda ampliar o acesso à cultura e ao desporto.
O Partido dos Trabalhadores (PT) oficializou há uma semana o Presidente brasileiro, Lula da Silva, como candidato à reeleição, num cenário em que lidera as intenções de voto nas eleições gerais, segundo as principais sondagens do país.
Aos 80 anos, Lula da Silva concorre a um quarto mandato, não consecutivo, tendo como principal adversário nas urnas o senador e candidato do Partido Liberal (PL) Flávio Bolsonaro de 45 anos, filho mais velho do ex-Presidente Jair Bolsonaro.
Lula fundou, em 1980, o PT, e entrou na vida pública como líder de um sindicato de metalúrgicos em São Paulo, tendo liderado greves históricas de trabalhadores do país na década de 1970, sendo preso pelo regime militar.
Desde que assumiu o terceiro mandato, em 2023, Lula tem sido crítico do próprio PT e da esquerda brasileira, por entender que direita e grupos conservadores aproximaram-se de forma mais eficaz da sociedade brasileira na última década.
A eleição presidencial e o comércio exterior - José Eduardo Faria (Jota Eleições)
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
A eleição presidencial e o comércio exterior
Pleito deve definir como Brasil equilibrará relações com EUA e China

Os jornais têm noticiado que mais de 200 milhões de chineses deixaram o campo e foram para os centros urbanos, nos últimos anos, atraídos pelo crescimento industrial de seu país. A expansão econômica da China foi tão expressiva que levou ao surgimento de uma classe média emergente, com alto consumo de laticínios, carne e alimentos processados.
O que diriam os dois principais candidatos à Presidência se, num debate frente a frente entre eles, fossem indagados sobre o que pretendem fazer nesse setor, se vierem a ser eleitos?
Comecemos com Flávio Bolsonaro. Conhecido por sua submissão à política americana unipolar proposta pela Casa Branca, em junho ele enviou carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, dizendo que está confiante de que será o vencedor e prometendo colocar uma equipe de transição à disposição do governo Trump.
“Nossas nações foram construídas sobre os princípios dos mercados livres, do respeito mútuo e da aliança estratégica a que nossos povos merecem”, escreveu. Com essa afirmação, o candidato revelou seu despreparo em matéria de relações internacionais. Mostrou não ter ideia da trajetória da política externa brasileira entre a segunda metade do século 20 e a década de 2010. E sequer sabe que, nesse período, o Brasil adotou uma exitosa política externa com o objetivo de diversificar o leque de compradores de produtos brasileiros e de reduzir sua dependência dos Estados Unidos na área comercial.
O acerto da chamada “Política Externa Independente”, que almejava equilibrar nossas relações internacionais mantendo portas abertas com diferentes polos de poder político e econômico por meio de alianças pragmáticas, levou o Brasil a ser visto como parceiro confiável. O desconhecimento desse fato por Flávio foi explicitado ainda mais pelo tarifaço imposto pela Casa Branca, justificada por Trump como resposta a “práticas comerciais negativas contra os interesses americanos”.
Em 2 de abril de 2025, que chamou de “dia da libertação”, Trump desorganizou a ordem comercial internacional ao impor altas tarifas de importação a dezenas de países. No caso do Brasil, os analistas apontam que, atualmente, só 12% de nossas exportações vão para os Estados Unidos. Por isso, o impacto do tarifaço sobre os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos teria sido menos desastroso quando comparado com o impacto causado em outros países.
Não passou pela cabeça de Flávio que, ao converter o comércio exterior em instrumento de pressão geopolítica, Trump enfraqueceu uma ordem internacional cooperativa forjada há décadas. Flávio também não entendeu que os tarifaços trumpistas só estimularão o Brasil a diversificar ainda mais a rede de mundial de importadores de produtos brasileiros. Ao enfatizar o que chamou de “princípios de mercados livres” e revelar a disposição de fazer do Brasil um “fiel aliado americano”, Flávio foi além do aulicismo.
Ele evidenciou não ter ideia de que o objetivo de uma política externa responsável é equilibrar relações diplomáticas, ampliar mercados e manter portas abertas com diferentes polos de poder no cenário mundial. Subserviente, a ponto de abrir caminho para que Trump interfira na eleição brasileira, Flávio chegou a pedir à Casa Branca que esperasse passar a eleição para impor mais tarifas a produtos brasileiros. Ao desprezar a China por motivo ideológico, Flávio também relegou o fato de que o Brasil mantém uma importante relação comercial com esse país, independentemente de seu regime político.
Em 2024, a China foi responsável por 28% das exportações brasileiras. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para esse país cresceram 22%, enquanto para o Estados Unidos recuaram 13%. Ainda que a pauta de exportações para os Estados Unidos envolva produtos de alta tecnologia e valor agregado, esses números revelam que o futuro do Brasil no comércio exterior dependerá de como o país vier a agir, tendo de lidar simultaneamente com Estados Unidos e China, dois países hostis um ao outro.
Neste ponto, Lula destacou-se por olhar para outros lugares do mundo e demonstrou bom senso ao não se deixar levar pelo alinhamento automático com os Estados Unidos. Sem colidir frontalmente com este país, como evidenciou em sua visita a Trump em maio, o presidente optou por buscar alianças estratégicas, aprofundando o relacionamento do Brasil com a China.
Se por um lado Lula carece de uma visão de mundo refinada, deixando-se levar por declarações de inspiração nacionalista e soberanista, por outro teve o bom senso de, em seu terceiro, de deixar o Itamaraty sob controle de diplomatas respeitados. E estes o persuadiram a rejeitar retaliações aos Estados Unidos, ao menos num primeiro momento.
Também o advertiram para as armadilhas da polarização. E ainda o lembraram dos riscos de um eventual acionamento da Lei de Reciprocidade, o que, longe de quebrar as patentes de empresas americanas no país, poderia agravar muito mais a situação. Ao mesmo tempo, estimularam Lula a valorizar negociações, priorizando interesses econômicos de médio prazo, sem dar maior ênfase aos interesses políticos de curto prazo.
Contudo, após ter seguido esses conselhos num primeiro momento, com o tempo o presidente retomou suas falas recorrentes. Falou em defesa da Nação. Criticou os traidores da pátria. Disse que “ninguém nos vencerá com mentiras”. Voltou a ressaltar a importância da aproximação com a Ásia. E, em ligação telefônica com o presidente chinês Xi Jinping, voltou a falar no fortalecimento dos Brics sem, contudo, ter ideia de que alguns países que compõem esse bloco nem sempre falam a mesma linguagem nem as mesmas ambições – pelo contrário, têm interesses próprios que, muitas vezes, são divergentes. Além disso, muitos desses países não constituem fontes de capital significativas nem mesmo para si próprios.
No caso específico de Flávio Bolsonaro, se ele for eleito o Brasil terá um presidente incapaz de avaliar o custo que o país terá de arcar em decorrência do alinhamento automático com os Estados Unidos. Recorrendo a mentiras como palavras de ordem, Flávio é incapaz de compreender o quanto o país precisa agir de modo responsável no cenário internacional, abrindo caminhos, ampliando espaços, multiplicando fontes de capital e diversificando fluxos de comércio.
Já no caso da reeleição de Lula, o problema será outro. Como sua visão da economia mundial é mais ideologizada do que analítica, muitas vezes ele tende a ser raso e dúbio. Após o novo tarifaço, a chancelaria preparou para Lula minutas de artigos moderados mas oportunos que foram publicados pela imprensa americana. Ao mesmo tempo, o Itamaraty e o Ministério da Fazenda e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços agiram com sensatez ao enfatizar a importância de se identificar interesses comuns no cenário mundial.
Em termos concretos, porém, o presidente cogitou em tomar iniciativas perigosas, como a impetração de um recurso na OMC com base na Lei de Reciprocidade para “marcar posição”, esquecendo-se de que retaliações americana podem ter alto custos. De concreto, seu governo limitou-se até agora a lançar uma nova fase do controvertido Brasil Soberano, um programa concebido há um ano com para atender empresas brasileiras atingidas pelo tarifaço de 2025.
A verdade é que, além da falta de prudência e pragmatismo, o candidato incumbente carece de uma visão estratégica de médio e longo prazo para o país. Como advertiu o diplomata Rubens Barbosa, que foi embaixador em Washington entre 1999 e 2004, se nada for feito nesse sentido “o Brasil continuará administrando as influências externas sem capacidade de se beneficiar das transformações políticas, econômicas e tecnológicas em curso no cenário global”.
Barbosa está certo. É por isso que só um debate entre estes dois presidenciáveis pode abrir caminho para que a retórica seja substituída por uma discussão responsável e substantiva sobre um tema vital para o futuro do país.
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