Tarifaço de Trump mostra que ‘relações comerciais entre países ficaram menos previsíveis’, avalia pesquisador - O Globo
Professor da UFF e pesquisador em Harvard avalia que, em vez de se basear em regras
estáveis, o comércio internacional tem sido utilizado como instrumento de pressão
política
Por João Sorima Neto — São Paulo
20/07/2026 04h00 Atualizado 20/07/2026 04h00
Donald Trump, presidente dos EUA segura um gráfico enquanto discursa sobre tarifas
recíprocas durante um evento na Casa Branca em abril de 2025 — Foto: Brendan
SMIALOWSKI / AFP
RESUMOA possibilidade de uma tarifa de importação ser alterada por uma decisão política num
país importante como os Estados Unidos — algo que o presidente Donald Trump tem
feito recorrentemente — leva empresas a adiar investimentos, revisar cadeias de
suprimentos e elevar estoques para se protegerem dessas mudanças bruscas.
Esse cenário de insegurança aumenta custos e reduz a eficiência dos negócios no
mundo, avalia Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais na Universidade
Federal Fluminense (UFF), que também atua como pesquisador de Direito e História da
Ciência em Harvard (EUA).
Na semana passada, a Casa Branca confirmou a decisão de aplicar novas tarifas de
importação de 25% sobre o valor de produtos brasileiros que entram no mercado
americano, o que na prática os torna muito mais caros naquele país, a despeito dos
esforços diplomáticos do governo brasileiro.
Vitelio Brustolin, especialista em relações internacionais, é professor da UFF e
pesquisador de Harvard — Foto: Acervo pessoalNo entanto, houve uma lista de exceções ainda maior que a do tarifaço anterior,
estimada em 60% da pauta de exportação do Brasil para os EUA, mas manufaturados
como máquinas, calçados e têxteis não foram isentos.
O Brasil não é o único na mira da metralhadora tarifária de Trump desde o início de seu
segundo mandato — 60 países estão sob a ameaça dos EUA de uma tarifa de 12,5%
por supostamente comercializarem produtos fruto de trabalho forçado.
Ainda assim a sobretaxa aos produtos brasileiros ilustra bem como fatores políticos se
misturam em discussões técnicas na atual escalada protecionista de Trump, que
acaba se refletindo na forma como os outros países se colocam no mercado global.
Em entrevista ao GLOBO, Brustolin avalia que Trump usa a política comercial como
instrumento de pressão política e geopolítica, trocando a estabilidade das regras
regidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) por um ambiente de incerteza
na relação econômica entre os países, onde prevalece uma “lógica mais transacional e
personalista”. Veja a seguir os principais trechos da conversa.
As negociações comerciais entre países, que antes dependiam menos de governos
específicos e mais de acordos de Estado, estão mudando?
Sim, há uma mudança importante. O comércio internacional do pós-guerra foi
estruturado justamente para reduzir a dependência das preferências de governos
específicos. Então, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), de 1947, para
reduzir barreiras alfandegárias, e depois a própria Organização Mundial do Comércio
(OMC), além de acordos bilaterais e regionais, buscavam dar previsibilidade, não só às
empresas, mas à economia em geral dos países, através de regras previamente
estabelecidas, além de mecanismos de solução de controvérsias.
A estratégia adotada pelo governo Trump representa um deslocamento desse modelo
para uma lógica mais transacional e personalista.
E quais são as consequências?
Em vez de privilegiar negociações baseadas em regras previamente estabelecidas, a
política comercial passou a ser utilizada como instrumento de pressão política egeopolítica. Isso aumenta a margem de discricionariedade do Executivo americano e
reduz a previsibilidade das relações econômicas internacionais. Ainda que, no caso
brasileiro, a Casa Branca tenha fundamentado a medida em uma investigação
conduzida sobre a Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reunião com o presidente dos EUA, Donald
Trump, na Malásia, no ano passado: "química" não foi suficiente para deter tarifaço —
Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
Isso está acontecendo especificamente no governo Trump?
Isso não vem apenas do governo Trump, porque a OMC passou a ser desmantelada nos
Estados Unidos, ainda em governos anteriores ao dele, e inclusive de Barak Obama,
quando o país deixou de indicar juízes para o mecanismo de apelação da OMC. Claro, o
governo Trump intensificou esse tipo de estratégia.
Qual o dano que esse tipo de abordagem causa para as relações comerciais não só
Brasil-EUA, mas também para o multilateralismo, para o comércio global?
O principal dano é o aumento da incerteza, e com isso, há uma escalada do
protecionismo. O investimento privado depende da previsibilidade. Quando as tarifaspodem ser alteradas rapidamente por decisão política, significa que empresas adiam
investimentos, revisam cadeias de suprimentos, elevam estoques. Tudo isso como
forma de proteção. Isso aumenta custos e reduz eficiência.
Numa escala global, há redução do crescimento do comércio, menor investimento
produtivo, perda de produtividade, maior inflação em alguns setores. Esse efeito sobre
o PIB mundial não decorre apenas da tarifa em si, mas da fragmentação das cadeias
globais de valor. Quando aumenta a percepção de risco, o custo do capital sobe e a
economia internacional cresce menos.
Sede da OMC, em Genebra: organização multilateral foi esvaziada pelos EUA — Foto:
Divulgação/OMC
Também há impacto no emprego?
Estudos recentes mostram também que há evidências de que escalada tarifária pode
produzir perdas relevantes de emprego em escala global, especialmente quando
acompanhada de retaliações. Há menor geração de empregos ligados às exportações,
por exemplo.Hoje as empresas não analisam apenas custos de produção ou logística, elas
passaram a incorporar o chamado risco geopolítico. Isso significa avaliar a
possibilidade de novas tarifas, de sanções, de restrições tecnológicas, controles de
exportação, até mudanças regulatórias decorrentes de disputas entre governos. Então
tem que ter muito cuidado com o direcionamento que o Brasil vai dar para isso.
Nesse contexto, há uma reorganização das cadeias globais de produção?
Essa tendência ficou evidente, primeiro na disputa entre Estados Unidos e China, e se
ampliou após a guerra na Ucrânia. Agora ela alcança parceiros tradicionais dos Estados
Unidos, como o Brasil. Sim, o resultado é uma reorganização das cadeias globais de
produção, baseada não apenas na eficiência econômica, mas também na segurança
política. Ou seja, passa-se a mensurar, quando é possível, se há segurança ou
insegurança entre uma relação comercial e outra.
Como isso afeta os planos das empresas?
As empresas trabalham com planejamento de longo prazo. Uma indústria que decide
instalar uma fábrica ou desenvolver fornecedores locais, projeta investimentos para
dez ou vinte anos. Quando Trump impõe tarifas, ele quer que as empresas mudem as
suas fábricas para os Estados Unidos. É o que vimos acontecer com a Toyota, que se
mudou do México para os EUA. Agora, quando existe a possibilidade de mudanças
abruptas nas regras comerciais, há adiamentos de investimentos, diversificação de
fornecedores, realocação de fábricas, aumento dos custos de logística e redução do
comércio internacional. Na prática, o mundo passa a operar com menor eficiência
econômica.Diversificação de parcerias: solenidade de assinatura do acordo Mercosul-UE em
Assunção, no Paraguai — Foto: Luis ROBAYO / AFP/17/01/2026
Qual é a importância de diversificar mercado neste atual cenário de
protecionismo?
O Brasil precisa diversificar mercados, não só por causa dos Estados Unidos. Qualquer
democracia estabelecida, e que siga o direito internacional, vai buscar diversificar
mercados o tempo todo, vai buscar o comércio. No caso atual, isso se intensifica.
E não é só o Brasil, a China diversificou muito os seus parceiros comerciais. O acordo
Mercosul e União Europeia, que está provisoriamente em vigor, é fundamental que seja
aprofundado. Também é preciso ampliar o comércio com a Índia, com o Sudeste
Asiático, com a própria China, e fortalecer relações com países do Oriente Médio e da
África.
Estou falando de uma perspectiva do nosso país. Nenhuma economia de porte
continental pode depender excessivamente de um único mercado consumidor. E não é
o caso do Brasil, que não é absolutamente dependente dos Estados Unidos. A
diversificação reduz vulnerabilidades externas e aumenta o poder de negociação dopaís. Isso não significa substituir os Estados Unidos pela China, significa ampliar
alternativas para reduzir riscos.
Fonte: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/07/20/tarifaco-de-trump-
mostra-que-relacoes-comerciais-entre-paises-ficaram-menos-previsiveis-avalia-pesquisador.gtml