sexta-feira, 25 de setembro de 2026

As ciências humanas na defesa da democracia brasileira - Paulo Roberto de Almeida

  

As ciências humanas na defesa da democracia brasileira

 

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Alocução no encerramento do I Congresso da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e o II Congresso do Fórum de Ciências Humanas do Estado do Mato Grosso do Sul, dia 25/09/2026.

  

Minhas primeiras palavras são de cumprimentos ao debatedor nesta mesa, professor Gustavo Santiago Torrecilha Cancio, diretor da Aginter da UFMS, assim como ao professor Vinicius Carvalho da Silva, do Grupo de Pesquisa Physikós, da Faculdade de Ciências Humanas da UFMS, meu agradecimento a este meu novo amigo acadêmico, quem me formulou este distinguido convite para participar da sessão de encerramento do vosso duplo Congresso, numa área que sempre foi a minha, ao lado de minha profissão de quase meio século como diplomata de carreira, na qual ingressei quando, provavelmente, mais da metade do auditório ainda não havia nascido. O segundo agradecimento vai a meu amigo virtual, professor Daniel Afonso da Silva, quem articulou, ou confabulou, este convite a um colega também acadêmico, mas apenas virtual, online, pelos últimos 20 anos.

Não pretendo fazer uma conferência erudita, estilo ex cathedra, em torno do título desta minha alocução: “As ciências humanas na defesa da democracia brasileira”; coloquei tudo em letras minúsculas, como para sinalizar a situação periclitante, na atual conjuntura, de todos os termos aqui retidos. Não será erudita, para não ter virtudes “dormitivas”, se eu decidisse adotar uma revisão enciclopédica desse vasto campo, que é também o meu, como sociólogo de formação. E usei letras minúsculas, para justamente chamar a atenção para a gravidade da hora que vivemos, não só nas ciências humanas, mas sobretudo na esfera política, pois são grandes os perigos que ameaçam a preservação de nossas virtudes republicanas, se por acaso elas existem.

Ela não poderia ser erudita, esta minha alocução, pela vastidão do campo de estudos atinente às ciências humanas, ou seja, humanidades, no sentido estrito, mais as ciências sociais aplicadas, que podem incluir também a economia política, que é uma outra área de minha predileção, tendo feito um mestrado em desenvolvimento econômico. Depois eu voltei para um doutoramento em sociologia histórica, tratando, aliás, de um objeto “florestânico” absolutamente frustrado em nossa história, a impossível, jamais realizada, “revolução burguesa no Brasil”.

Nossa compreensão da história, da filosofia, da política, das ciências humanas em geral, deriva, em todas essas disciplinas, da Grécia antiga, à diferença da astronomia, que veio dos babilônios, da matemática, que veio da Índia antiga, mas isso já faz parte de outras ciências, digamos assim. Mas, os gregos também nos legaram conhecimento nas ciências naturais, um pouco na medicina, outro tanto na biologia, e muita confusão em matéria de religião, uma mixórdia, tanto que temos hoje duas Igrejas gregas, em duas vertentes do cristianismo.

O Brasil herdou todas essas áreas de pesquisa e de estudo via Portugal, o que talvez não tenha sido a melhor fonte para dar início às humanidades – por causa da Contrarreforma –, assim como à ciência e tecnologia, às quais também chegamos relativamente atrasados, pelas limitações educacionais e científicas de nossa pátria de origem. Mas o Brasil se fez sobretudo pela mistura de raças, algumas já instaladas aqui, conquistadas pelos desbravadores portugueses, outras importadas compulsoriamente, para trabalhar para os novos donos das terras, mais adiante pelos aportes voluntários ou importados de quase todos os povos do mundo. De uns tempos para cá, estamos exportando gente, antes braços pouco instruídos, agora cérebros diplomados.

Olhando de perto, basta consultar o diretório dos professores desta universidade, como de todas as outras, compulsar os nomes de todos os trabalhadores, empresários, cientistas, os dos burocratas servindo as instituições públicas, dos cidadãos em geral, para constatar que somos um verdadeiro microcosmo mundial, uma amostra das possibilidades étnicas, raciais, culturais, religiosas e linguísticas, todas elas num sincretismo originalíssimo, aliás muito cobiçado pelos traficantes de passaportes em todas as partes, pelos malfeitores internacionais em geral.

No que me concerne, eu cheguei às ciências humanas pela irrupção de uma experiência prática: o golpe militar de 1964 que derrocou o último governo democraticamente eleito da República de 1946, a quarta ou a quinta desde o golpe que desbancou o regime monárquico em 1889. Até então, vindo de uma família muito modesta, meu destino teria sido fazer um curso técnico no Sesi ou Senac, para me tornar marceneiro ou qualquer outra profissão manual, que era o destino de um filho de pais semiletrados, com primário incompleto, neto de avós imigrantes totalmente analfabetos, que tinha vindo ao Brasil para substituir os escravos nas fazendas de café de São Paulo e Minas Gerais. Os militares me desviaram para a sociologia, que é, segundo Mário de Andrade, a “arte de fazer revoluções”.

O golpe de 1964 me despertou para a política, e na sua sequência eu passei a ler toda a literatura de ciências humanas e sociais, dos professores da USP, vários anos antes de ingressar no curso de Ciências Sociais da Fefelech, em 1969, na primeira turma dos barracões da Cidade Universitária, depois da batalha da rua Maria Antônia, contra os direitistas do Mackenzie, quando eu prestava vestibular. Como, logo no primeiro semestre, metade dos meus professores foram compulsoriamente aposentados pelo AI-5 – entre eles Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso – e que, na sequência, forças do Exército invadiam a USP seguidamente, para prender estudantes subversivos, entre os quais eu me incluía, resolvi sair do país para evitar uma possível prisão.

Minha formação em Ciências Humanas e Sociais continuou, então, na Europa, primeiro no socialismo real, onde eu esperava estudar gratuitamente, depois num país do capitalismo ideal, que foi a Bélgica, para onde fui depois de constatar, em Praga, invadida dois anos antes pelas forças soviéticas, que o socialismo real não era apenas uma miséria material, evidente nas prateleiras vazias dos armazéns, mas sobretudo uma miséria moral, pelo clima de repressão, de delação, de controle absoluto sobre os meios de informação. Aqui chegamos, então, ao segundo elemento de minha alocução, ao lado das Ciências Humanas, a democracia, e os perigos que a rondam, como em outras épocas no socialismo real, mas também no Brasil, em diversas etapas de nosso itinerário político passado, ainda ameaçadoramente presentes, em nossos dias.

Tivemos, uma experiência relativamente recente, nessas tentativas recorrentes de ruptura com a democracia de baixa qualidade que sempre tivemos desde a independência, que foi, sob o horrendo bolsonarismo, a tentativa de golpe planejada por um militar incompetente até para dar um golpe comme il faut. Quando digo horrendo não é apenas pela tentativa de um golpe ao estilo do filme Bananas do jovem Woody Allen, um dos piores que ele fez numa brilhante carreira. Eu me refiro especialmente às centenas de milhares de mortos excedentários durante a pandemia, ou seja, em número desproporcional ao volume da população brasileira: 3% dos habitantes da Terra, mas 11% das vítimas da epidemia em todo o planeta. Isso foi horrendo, o descaso com a saúde da população, o desprezo contra as universidades, os atentados aos povos indígenas, a destruição do meio ambiente, enfim, tudo aquilo que prezamos numa sociedade minimamente civilizada.

Durante a era bolsonarista, que ameaça voltar, ciências humanas e democracia não apenas se escreviam em letras minúsculas, como estavam reduzidas à sua menor extensão possível, a uma profundidade igual à das canelas de uma formiguinha atravessando um regato. Não estou exagerando tão somente quanto ao perigo de um retorno a essa era de tentações autoritárias, mas sobretudo em relação a uma inevitável subordinação diplomática – o que me toca pessoalmente – ao chamado “imperador hemisférico”, o dirigente demencial que pretende tutelar todos os países da América Latina por meio do “Escudo das Américas” e do seu equivocado “corolário Trump” à Doutrina Monroe.

Até nessa designação, ele e seus serviçais revelam toda a ignorância histórica e estupidez política de uma equivalência totalmente anti-histórica e absurda. Eles se referem, na verdade, ao chamado “corolário Roosevelt” à Doutrina Monroe, que, diferentemente da declaração de 1823, dirigida à Santa Aliança e suas ameaças de recolonização das repúblicas hispano-americanas recentemente independentes, a de 1904 proclamava o direito arrogante do jovem imperialismo americano de interferir nos assuntos internos de países podendo representar alguma ameaça aos interesses e propriedades de americanos e suas empresas, no entorno imediato do Caribe e da América Central, podendo até chegar à Venezuela, que havia recém descoberto jazidas de óleo, rapidamente explorado por companhias petrolíferas americanas.

Além dessa ameaça de neocolonialismo trumpista, a ameaça à democracia no Brasil não se faria pelos velhos métodos golpistas do passado, pois se alguma coisa melhorou aqui, depois da tentativa canhestra, bananeira, de golpe bolsonarista, foi o alheamento, talvez temporário, dos militares de qualquer nova intervenção em nossa precária democracia. Com as visitas de altos enviados de Biden nos dois últimos anos do governo do capitão, o chefe da CIA, o conselheiro de Segurança Nacional e o próprio Secretário da Defesa, nossos chefes militares foram alertados pelos americanos que, à diferença de 1964, eles não apoiariam qualquer interrupção do regime democrático no Brasil, e que não interfeririam nas eleições, como em 1962.

A eventual autocratização do Brasil, sob um rebento corrupto do golpista incompetente, se faria num molde conhecido em outras democracias de baixa qualidade, como o autoritarismo à la Erdogan da Turquia, a derrocada gradual da democracia no modelo chavista da Venezuela bolivariana – hoje reduzida a um protetorado trumpista – ou o regime dito iliberal do derrocado Viktor Orban da Hungria. Existem muitas formas de reduzir os espaços democráticos abertos à sociedade civil, não só no Brasil como em vários outros países, mas o fato é que, pelos critérios do V-Dem, nosso país está classificado, não no grupo das democracias liberais, como o pequeno Uruguai, mas no segundo time, o das democracias simplesmente eleitorais.

Pois é no domínio da organização política-eleitoral do Brasil que as Ciências Humanas, desta vez em maiúsculas, podem ser chamadas a colaborar no oferecimento de melhorias, de tipo institucional ou de cunho político-administrativo, para que nossa frágil democracia possa galgar patamares mais elevados de qualidade formal e substantiva. Não sou especialista em organização do Estado, ou em reformas eleitorais, mas acredito que nossos colegas da Ciência Política e do Direito Administrativo e Constitucional possuem ampla capacidade para propor reformas num sentido de construir uma governança de qualidade no Brasil, nas diferentes instâncias do Estado.

Esse processo deveria começar por importantes reformas no Judiciário, não apenas em função da mais grave crise jamais conhecida em toda a sua história, em vista da disseminação da corrupção em todos os seus escalões, mas também e principalmente em seus aspectos de tipo operacional, como, por exemplo a revisão dos códigos processuais, dado o surgimento de novos tipos de infrações e crimes de um novo tipo. Penso igualmente numa revisão radical dos enormes abusos pecuniários, que infestam os vários níveis da magistratura, no topo da qual existe uma nova aristocracia do Judiciário, extraindo, com outros altos mandarins do poder, os recursos duramente amealhados da população pagadora de impostos. Penso também na supressão total e completa da Justiça do Trabalho, uma aberração corporativista dos tempos do Estado Novo, com a atribuição de suas competências a varas especializadas e o recurso amplo a soluções arbitrais, com o objetivo mais geral de diminuir o peso do Estado sobre a regulação do trabalho. A Justiça do Trabalho produz, na verdade, mais conflitos trabalhistas do que ela os resolve, e o seu custo puramente burocrático ultrapassa em muito os valores somados das indenizações atribuídas.

Uma reforma administrativa geral no Estado brasileiro é missão complexa demais para ser descrita neste momento, mas constitui igualmente tarefa básica no sentido da diminuição geral do peso do Estado na vida social. O Legislativo, nesse mesmo terreno, é fonte notória de distorções, não apenas orçamentárias – pois custa muito mais caro do que congêneres em outros países – mas também em sua administração e funcionamento, com um inchaço inaceitável em todos os níveis em que ele existe na federação. O debate sobre a redução dos legislativos, a diminuição de seus custos, a redução da dispersão e da fragmentação partidária e a correção das deformações eleitorais e de representação proporcional, deveria começar de imediato, com vistas à adoção de um sistema distrital adequado às peculiaridades regionais e demográficas do país.

Para além do trabalho prático na defesa da democracia brasileira, essa missão reformista das Ciências Humanas deve ter igualmente a compreensão de que estamos enfrentando uma ameaça bem mais grave do que a não consecução dessas reformas, ou a introdução de outras, menos democráticas, no próximo mandato presidencial. Quero me referir à possibilidade de um retorno altamente indesejável aos instintos primitivos daquela visão do mundo que Umberto Eco chamava de fascismo eterno. Essa não é uma possibilidade teórica, mas sim uma e(in)volução possível, dado o nosso histórico de experimentos e organizações fascistas num passado não muito distante, há menos de três gerações, como cabe rememorar agora. Aqui já entramos num outro ramo das Humanidades, o da História.

O surgimento do Partido Nacional Fascista na Itália do pós-guerra, em 1919, por um egresso das correntes marxistas, Benito Mussolini, teve, ademais de seu impacto relevante na crise larvar da democracia burguesa do Risorgimento, repercussões em outros países, entre eles no próprio Brasil, onde existiam, por sinal, jornais em italiano circulando na comunidade dos trabalhadores emigrados, muitos adeptos das ideias socialistas, anarquistas, até comunistas, na década seguinte. O fascismo cresceu com a adesão do futurismo de Marinetti à doutrina, a ela agregando o culto à guerra e à violência. O filósofo Giovanni Gentile foi o principal elaborador da doutrina fascista, desde a Marcha sobre Roma, em 1922, o que levou o fraquíssimo rei Vitor Emanuel III a entregar o cargo de primeiro-ministro a Mussolini, quando Gentile se torna então ministro da Instrução Pública. Um dos seus primeiros escritos nessa vertente foi o Manifesto dos Intelectuais Fascistas (1925), seguido logo depois por O que é o fascismo (do mesmo ano), de Fascismo e Cultura (1928) e de algo mais elaborado: Origens e doutrina do fascismo (1929).

As doutrinas políticas de corte fascista tiveram ampla repercussão no Brasil, em especial entre intelectuais, muitos dos quais se converteriam, mais tarde, em progressistas avançados ou até em fiéis adeptos do socialismo. Poucos sabem, por exemplo, que um dos principais tribunos democráticos da República de 1946, grande estadista da Política Externa Independente, San Tiago Dantas, foi fortemente atraído, na juventude, pela mensagem do fascismo mussoliniano e chegou mesmo a escrever um estatuto para um Partido Fascista do Brasil em 1930. O relato está na grande biografia de Pedro Dutra: San Tiago Dantas, cujo primeiro volume, A razão vencida (2014), informa, no capítulo “IX – O Jovem Ideólogo”, que o jovem terceiro-anista de Direito, escreveu, de seu próprio punho, no segundo semestre de 1930, “o esboço da estrutura de um Partido Nacional Fascista – o mesmo nome do partido fundado em 1922 na Itália por Mussolini” (p. 205 e 581). Pedro Dutra informa ainda sobre o que resultou dessa iniciativa:

A idealização de um partido fascista era sugestiva e contemporânea à constatação a que San Tiago chegara de que, àquela altura, os principais elementos do regime fascista, implantado no Itália havia sete anos – e os quais ele havia estudado –, poderiam servir à formulação de uma linha de ação política no Brasil e, portanto, um partido fascista que os promovesse entre nós deveria ser criado. A criação de um Partido Nacional Fascista não encontrou, porém, ambiente no Brasil. (p. 206)

 

San Tiago Dantas continuou associado a Plínio Salgado, o principal ideólogo do integralismo, a versão brasileira do fascismo italiano, mas, a partir do golpe do Estado Novo, em 1937, se dissociou de Francisco Campos, o autor da constituição “polaca”, e enveredou por um caminho que o levou a defender uma doutrina baseada no trabalhismo inglês, tendo se distanciado de Plínio Salgado em 1942; mais adiante, no retorno à democratização, San Tiago passou a ser eleito pelo PTB nos anos 1950.

Em 1932, Giovanni Gentile assina, com Benito Mussolini, um verbete na Enciclopedia Italiana, “A Doutrina do Fascismo”, dividido em “Ideias Fundamentais”, por ele mesmo, e “Doutrina Política e Social”, por Mussolini. O texto foi imediatamente traduzido e publicado no Brasil, com várias edições posteriores. Logo após, em outubro, Plínio Salgado e Miguel Reale assinam um manifesto-programa, dando nascimento a um partido, a Ação Integralista Brasileira, cujo lema era “Deus, Pátria e Família”, por acaso o mesmo slogan que, em nossos dias, seria utilizado centenas de vezes nos meios bolsonaristas, durante toda a presidência do capitão, e mais amplamente nas correntes que se abrigaram nesse fenômeno que se tornou um verdadeiro movimento a partir dessa conjuntura histórica de involução mental.

Em 1933, Plínio Salgado publicou O que é o Integralismo, a nova base de sua filosofia política, num molde já especificamente fascista mussoliniano; adotou, logo após, as “camisas verdes” para os seus seguidores, militarizadas ao estilo dos fasci di combattimento italianos. No ano seguinte passa a se considerar o Führer brasileiro, sem aderir, contudo, ao racismo e ao antissemitismo de outros integralistas brasileiros (como Gustavo Barroso), uma vez que tinha iniciado sua trajetória literária por um romance de fortes tinturas nacionalistas e indianistas. Era tido como o virtual vencedor das eleições de 1938, mas apoia, ao início, a decretação do Estado Novo por Getúlio Vargas, em novembro de 1937, para se dissociar logo em seguida, já que esperava ser designado ministro da educação nacional, como tinha sido o caso de Giovanni Gentile com Mussolini.

Plínio Salgado tenta um golpe, fracassado, em maio de 1938, o que o leva a um exílio de sete anos em Portugal (onde se afeiçoa ao Estado Novo salazarista). O Partido de Representação Popular, que fundou em seu retorno ao Brasil, obteve certo apelo popular, sem, contudo, ser suficientemente forte para elegê-lo presidente em 1955, embora com forte apoio em alguns meios militares. Plínio Salgado aderiu em 1965 ao partido do regime militar, a Arena, mas encerrou a sua carreira em 1974. Independentemente dos caminhos erráticos do fascismo brasileiro, as sementes existentes nos anos 1930 deixaram fortes raízes que continuaram a moldar a ideologia de muitos militares e civis nas décadas seguintes, cujos frutos amadureceram ainda em nosso século.

Mas, vamos agora deixar a História um pouco de lado, para debruçarmo-nos sobre a questão-título desta alocução, o papel das ciências humanas na defesa da democracia brasileira. O Brasil, como disse uma vez o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não é um país pobre, mas é um país com muitos pobres, em número certamente muito elevado para o grau já alcançado na industrialização de sua economia e na modernização de seu tecido social. No entanto, os indicadores de IDH, as desigualdades distributivas e a persistência de inúmeros bolsões de pobreza, e mesmo de miséria, no ambiente rural e em muitas aglomerações urbanas comprovam o grau anormalmente elevado de iniquidades sociais.

A questão da miséria e da pobreza pode ser um problema econômico, mas ela é, sobretudo uma questão social, expressamente vinculada à questão da educação, ou melhor, à falta de oportunidades e de condições adequadas para que a população socialmente marginal tenha acesso a uma educação de qualidade, de forma a capacitá-la tecnicamente para empregos de produtividade superior e de remuneração mais elevada. Capital humano é provavelmente o handicap mais eloquente da dificuldade do Brasil em ascender na escala da competitividade internacional, e assim inserir-se nas cadeias globais de valor.

Não tenho certeza do quê, exatamente, nosso pequeno nicho de inteligência acadêmica, o das Ciências Humanas, poderia fazer para elevar o nível da dotação de fatores do Brasil em prol de um processo de desenvolvimento econômico sustentado. Adam Smith, conhecido como pai da Economia Política, ao descrever, logo no primeiro capítulo da sua grandiosa obra de 1776, os fatores de produção, falava, na verdade, de skilled labour, ou seja, mão-de-obra qualificada, o que foi mais tarde identificado por seu discípulo brasileiro, José Maria Lisboa, como sendo um quarto fator de produção, a inteligência.

Deixo, em todo caso, a recomendação para que nossos trabalhadores intelectuais das Ciências Humanas se dediquem às principais causas que obstaram, até hoje, a que o Brasil ascendesse, via qualificação do capital humano, a níveis mais altos de desenvolvimento econômico e social. Tenho para mim que a razão principal reside em que a governança política no Brasil sempre foi o monopólio das oligarquias, de diversos tipos, os donos do poder, como dizia Raymundo Faoro, um fenômeno sociologicamente conhecido como patrimonialismo. Essas oligarquias nunca atribuíram à educação da população subalterna o valor que ela precisa ter em qualquer processo de formação de capital humano.

Se o itinerário político do Brasil foi uma contínua sucessão de oligarquias conservadoras ao longo da história – primeiro os senhores de escravos, depois os barões do café, seguidos pelos industriais e banqueiros –, neste primeiro quarto do século XXI tivemos, finalmente, um partido saído das chamadas classes populares conquistando o poder político e imprimindo sua própria marca na proposição e execução de políticas públicas, que inverteram, modestamente, o curso político da governança. Grosso modo, assistimos no Brasil a uma polarização sui generis que corresponde, aparentemente, à luta entre esquerda e direita pelo domínio do Estado, situação bem conhecida nas democracias ocidentais que, desde a segunda metade do século passado, oscilam entre partidos socialdemocratas e partidos conservadores, se alternando no poder.

A esquerda conquista o poder com promessas otimistas de distribuição social da renda e de valorização da classe trabalhadora, mas pode incorrer num excesso de gastança estatal, que produz inflação e possível crise no balanço de pagamentos. A direita conservadora retorna ao poder com o intuito de promover um ajuste fiscal e um novo equilíbrio nas contas públicas, o que passa a ser atacado pelos socialdemocratas como sendo um excesso de austeridade. Tem sido assim nos dois lados do Atlântico Norte no último meio século. O Brasil chegou tarde nesse tipo de jogo, mas é possível que a oposição entre esquerda e direita, temporariamente representados pelos lulopetistas e pelos bolsonaristas, tenha esgotado suas possibilidades de seduzir a maioria da população votante, tendo em vista as taxas de rejeição de ambos os extremos. Entre os dois polos do jogo político existem simetrias e antagonismos, como talvez possamos identificar.

Nas políticas econômicas, macro e setoriais, não existem, finalmente, diferenças radicais entre os dois opostos. O PT, pela adesão talvez inconsciente ao desenvolvimentismo estatizante da era Vargas, prolongado no período da ditadura militar, demonstrou sua aquiescência a um tipo de política econômica, centralizadora, intervencionista e protecionista, que não se distanciou muito, em última instância, do modelo de condução econômica preferido pelas oligarquias mais tradicionais, dado o peso dessas elites econômicas na vida nacional. As diferenças são maiores, evidentemente, nas políticas sociais e humanitárias, dada a preferência da esquerda por políticas distributivas, promotoras de benefícios para os setores subalternos da sociedade, sem, contudo, alterar de modo mais afirmado as bases fundamentais da iniquidade social estrutural, objetivo que só poderia ser alcançado pela via da qualificação radical do capital humano nos setores subalternos, vale dizer, um programa radical de educação de qualidade para os mais pobres.

A correção de rumos nas políticas promotoras de maior igualdade social é possível de ser feita numa democracia fundamentada em sólidos partidos políticos, dotados de programas identificados com os desejos e interesses de camadas mais amplas da população. Daí a tendência da direita, ou seja, dos partidos conservadores, de favorecer regimes autoritários, com o objetivo de defender privilégios e mecanismos concentradores de renda, tendentes a afirmar as consignas de defesa da lei e da ordem, em contraposição a programas do tipo distributivista. O Brasil pode ter chegado a esse impasse entre esquerda e direita, um equilíbrio altamente instável que parece estar perto de produzir uma nova fratura política nas bases de uma governança aceitável, vista como legítima por cada um dos polos. Vejamos a alternância nas similitudes e nos antagonismos.

Poderia ser uma reprodução da alternância entre socialdemocratas e conservadores como observado no Atlântico Norte, com a diferença que não temos partidos representativos, realmente dotados de programas políticos claros, numa linha ou noutra, numa conjuntura da vida política da nação na qual o famoso “presidencialismo de coalizão” já não mais produz as bases de uma governança estável, uma vez que as maiorias conservadoras do Parlamento (que está fracionado ao extremo) conseguem se impor em face de um presidente eleito pelo voto majoritário direto, mas sem a correspondente base congressual que forneça o apoio necessário à implementação de suas políticas executivas. A emenda das reeleições majoritárias piorou, e muito, as coisas.

Esse tipo de confronto, que sempre esteve na origem das crises que agitaram de forma recorrente a política nacional, desde a República de 1946 – ignorando aqui o bipartidarismo artificial da ditadura militar –, poderia significar tão somente a necessidade de uma barganha recíproca e inevitável entre os dois poderes saídos do voto popular. Mas, o fato é que o Brasil não mais possui partidos políticos de verdade, apenas aglomerações predatórias integradas por castas (e dinastias) de políticos profissionais, dirigidos por caciques sôfregos por recursos do Estado, que administram os dois fundos ilegítimos – o Partidário e o Eleitoral – e que, desde o governo de Dilma Rousseff, passaram a perpetrar o exercício anual do estupro orçamentário pela via das emendas compulsórias, a via mais fácil para a disseminação da corrupção; ela decuplicou em poucos anos, passado a representar várias vezes investimentos em projetos científicos. O fato é que deputados e senadores se tornaram “vereadores federais”, capturando recursos para suas bases, o que praticamente destruiu qualquer sentido de grandes investimentos estratégicos.

Essa involução do sistema político-partidário brasileiro começou na década passada, se tornou mais aguda com a radicalização da direita, mas isso não se deu pelo aprofundamento do populismo de esquerda no âmbito nacional apenas, pois correspondeu, mutatis mutandis, ao crescimento, na Europa e nos Estados Unidos, de uma nova direita xenófoba, antiglobalista, racista (supremacista nos EUA), ainda assim relativamente contida nos espaços nacionais, pelo menos até o aparecimento de Trump 1, com um extraordinário recrudescimento sob Trump 2. É certo que o ambiente internacional, desde a agressão de Putin contra a Crimeia em 2014, que extravasou em fevereiro de 2022 contra toda a Ucrânia, é certo que desde as primeiras agressões de Trump 1 contra o Nafta, contra alguns parceiros comerciais dos EUA, como o Canadá, a China, a União Europeia, o próprio Brasil, agora com a exacerbação da insanidade tarifária de Trump 2 contra absolutamente todos os parceiros comerciais dos EUA, sua ofensiva político-diplomática contra os ainda incontrolados regimes progressistas do hemisfério, como o Canadá, o México e o Brasil, o afã dos trumpistas em controlar todo o hemisfério pela proposta de um fabuloso “Escudo das Américas” – que já conseguiu a adesão de muitos governos latino-americanos –, uma invenção tão bizarra quanto o seu fantástico simulacro de um novo Conselho de Paz, no lugar da ONU, para tentar controlar os ardores guerreiros no Oriente Médio, no qual os “aliados” precisam pagar alguns bilhões de dólares para ter o privilégio de se sentar ao lado de Trump para “promover a paz” na região, e abri-la a lucrativos negócios promovidos por familiares e amigos, é certo que tudo isso agrega ao potencial de confusão externa introduzida no Brasil pelos aliados trumpistas congregados na candidatura bolsonarista contra a recondução de Lula, Lula 4, ao poder no Brasil, todos esses elementos do ambiente regional ou internacional não possuem o poder, não têm a capacidade de influenciar decisivamente as eleições no Brasil.

Mas, ao lado da propaganda agressiva dessa direita extrema contra o ambiente globalista, supostamente progressista, woke na linguagem da nova direita, que dificulta extraordinariamente a projeção internacional do Brasil, tal como desejada pela “diplomacia ativa e altiva” do governo Lula, ao lado de todos esses fatores independentes do que possam pensar, ou, fazer, os defensores de um governo minimamente comprometido com a democracia no Brasil, existe uma outra percepção, de grande parte da população, do público eleitor, que não é captada pelas mídias tradicionais, existe uma sensação diferente no país que ultrapassa essa noção, da maior parte dos “trabalhadores das Ciências Humanas” do Brasil, que pode se contrapor aos nossos instintos simplesmente humanitários e democráticos deste nosso público, nossa audiência, uma outra percepção difusa, mas que se dá num outro ambiente mental que talvez não seja captado de maneira adequada por jornalistas, colunistas sociais, intérpretes sofisticados da “mentalidade brasileira”, uma sensação do povinho miúdo que trabalha e que “chacoalha no trem da Central”, como rezava uma antiga canção de Chico Buarque, um povinho que frequenta alguns dos 150 mil templos evangélicos, das mais diferentes denominações, nos 5.570 municípios espalhados por todo o Brasil – ou seja, quase 27 templos em cada um, ou bem mais do que isso nas principais aglomerações urbanas – existe essa outra percepção de que a democracia, como a existente no Brasil atual, não mais interessa, não mais favorece os interesses desse povo quase desconhecido, que não tem um compromisso maior com a democracia que os “trabalhadores das Ciências Humanas” defendem, com uma democracia que não representa muito para eles.

Ao contemplar o espetáculo promovido pelo STF na sua fatídica sessão do dia 16 de setembro, pode ser que esse grande povo desconhecido não tenha mais interesse em defender a nossa democracia, pode ser que ele já tenha chegado à conclusão de que o que está aí não serve mais, e que cabe agora experimentar outra coisa, ainda um pouco desconhecida, mas talvez já solidificada na consciência daqueles que defendiam o capitão e que ainda o defendem. Pode ser que a percepção dos “integrados” na realidade brasileira, que é basicamente a nossa, a deste ambiente social, talvez não seja a mesma dos “desintegrados”, daqueles que não possuem as mesmas ferramentas analíticas que os “trabalhadores das Ciências Humanas”, e que pode resultar numa grande surpresa no próximo dia 4 de outubro, uma jornada dominical que pode nos levar a um ambiente ainda desconhecido, mas provavelmente muito incerto.

Acredito que havia uma percepção similar de mudança, de transformação, que poderia ter ocorrido em 1989, mas que não ocorreu, que talvez tenha sido frustrada pela Rede Globo e por certo debate televisionado; uma sensação de conforto com uma esperança renovada em 1994 e depois em 1998, com a eleição de um presidente duas vezes em primeiro turno, pelas benesses do Plano Real, mas que depois se frustrou; uma sensação que finalmente se fez presente novamente em 2002, dessa vez com sucesso, que se renovou em 2006, e até em 2010, mas que depois afundou num mar de decepções com a crise fatídica de 2014-2015, a maior da história econômica do Brasil, maior do que a esquecida crise de 1929-1930, e que se manifestou em 2018, mas que falhou em 2022, pelas misérias da pandemia e do descalabro em muitas áreas sociais, inclusive a universitária, a ambiental, a das minorias, inclusive porque houve aquela precipitação dos radicais na preparação de um golpe mais ao estilo do filme Bananas do Woody Allen, do que os antigos golpes militares, desta vez por uma intervenção externa democrática da principal potência planetária, enfim, uma sensação que perpassa amplas camadas sociais e que talvez precipite uma nova mudança em 2026, dessas mudanças que exigirão muito esforço de explicação da parte dos “trabalhadores das Ciências Humanas” que somos nós. A ver...

Nossa percepção é a de que existem duas opções políticas ao alcance dos brasileiros nas próximas urnas, eletrônicas, confiáveis, mas imprevisíveis. Gilberto Amado, um crítico de poesia que iniciou sua vida política matando um suposto adversário de sua poesia debutante, dizia que, na República Velha, que “as eleições eram falsas, mas a representação era verdadeira”. Nos dias que correm as eleições são perfeitamente verdadeiras, pela fiabilidade do maquinário eletrônico, mas a representação pode não mais ser verdadeira, contemplando-se o plantel de velhos e de novos eleitos que vão determinar, de verdade, o que será a política e a governança no Brasil nos próximos quatro anos, e talvez um pouco mais. Essas duas opções estão teoricamente alinhadas com o que prometem os seus promotores na propaganda política, mas também com as ações já conduzidas desde o último quarto de século, e que podem estar sofrendo certo desgaste agora.

De um lado, um projeto imaginado, ou promovido, de desenvolvimento social, cientificamente sustentável, inclusivo, mais ou menos identificado com a socialdemocracia ocidental e até brasileira, que possui um caráter civilizatório moderado, prometendo mudanças favoráveis às melhorias progressivas no Brasil, mas num sentido dito progressista, e certamente não conservador ou reacionário. De outro lado, uma candidatura saída das milícias do Rio de Janeiro, a cidade que parece ser uma mistura de Palermo com Medellin, dos tempos terríveis e mais sombrios dessas duas metrópoles, uma tropa que já trabalhou para o golpe nos anos 1950, contra o governo democrático de JK, que trabalhou ativamente pelo golpe a partir de 1962, e que o obteve em 1964, um público que se sentia confortável com a visão do “Brasil grande potência”, uma tropa que usou de todas as faculdades do regime democrático para lutar contra ele, que conspirou ativamente contra ele, que recusou vacinas na pandemia, que nunca hesitou em promover uma outra tropa, a dos garimpeiros e dos desmatadores, contra os habitantes das florestas amazônicas, e até disseminou coisas absurdas como o terraplanismo, que se sentiu confortável com a intromissão da grande potência planetária em nossos assuntos internos, e que até o promove continuamente, pretendendo a subordinação de nossa política externa e de nossa diplomacia aos ditames do aloprado imperador hemisférico, enfim, os representantes daquele “fascismo eterno” de que falava Umberto Eco, contra as causas progressistas, a inclusão social, a simples igualdade de gêneros ou a liberdade sexual ou marital, a favor do armamentismo de justiça expedita, se possível a cargo da polícia diretamente, por último, a completa falta de ética, como uma ética própria e exclusiva da sua tropa.

Eu me pergunto, para terminar, se não estamos próximos de algum momento decisivo na história do Brasil, no qual pequenos, indistintos gestos, não percebidos pelos “trabalhadores das Ciências Humanas” que somos nós, e que venha a nos cair sobre nossas cabeças, como temia aquele chefe da irredutível aldeia dos gauleses, e que poderia sinalizar algum desastre não percebido pelo nosso modesto senso comum, e que talvez não corresponda ao “senso comum” de uma outra parte dos brasileiros. Deixo aqui este desafio, esta dúvida a todos os meus colegas das Ciências Humanas, esperando que tenhamos, um pouco mais adiante, alguma resposta a esta pletora de indefinições que eu acabo de transmitir a vocês.

Muito obrigado, vamos ficar atentos nos próximos dez dias...

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5460: 17 setembro 2026, 14 p. Disponível no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/as-ciencias-humanas-na-defesa-da.html)

 

 

Ciência, soberania nacional e relações internacionais - Paulo Roberto de Almeida

  

Ciência, soberania nacional e relações internacionais

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Texto para interação com alunos e professores do grupo de estudos de Filosofia da Física, na UFMS, em 24/09/2026, 18hs; coordenação Prof. Vinicius Silva. Apresentado a uma audiência numerosa e curiosa.

 

Concebo este primeiro encontro que tenho na UFSM — desde que aqui estive em 1977, para um curso sintético sobre processos de urbanização e democratização para funcionários do Estado criado poucos anos antes, num programa de cooperação com a UniCamp —, mais como uma oportunidade de interagir com pares, em maioria mais jovens do que eu mesmo, do que para proferir uma palestra ex-cathedra para todos vocês. Em todo caso, procurarei ater-me aos temas sugeridos: “Ciência, soberania nacional e relações internacionais”, com algumas inovações.

Então vou simplesmente colocar algumas poucas ideias sobre os três conceitos e aguardar reações, inquirições e contestações, a partir de minha já longa imersão nesses mesmos temas, desde meados dos anos 1960, aproximadamente, quando, ainda adolescente, comecei a mergulhar em “leituras de gente grande”, não apenas marxismo, e muito marxismo, mas sobretudo os grandes mestres da teoria social brasileira, alguns dos quais eu esperava ter como professor ao ingressar em Ciências Sociais da Fefelech-USP, em 1968, mas que foram, em seguida ao AI-5, aposentados compulsoriamente no início de 1969. Fiquei sem os professores dos quais já havia lido algumas obras, e depois de ver a universidade invadida diversas vezes por tropas armadas do Exército, resolvi abandonar o curso e rumar para um autoexílio na Europa.

Vejamos, então, o que eu poderia dizer de inteligente sobre os três temas do título.

Ciência é uma construção coletiva, sobretudo atualmente, depois dos lampejos individuais entre a revolução cientifica do século XVII e a segunda revolução industrial, o que deu lugar à explicação kuhniana sobre a emergência e prevalência de repturas teóricas no itinerário da pesquisa cientifica. Portugal e o Brasil chegaram infelizmente um pouco tarde na preeminência dos métodos científicos, dada a prevalência da Contrarreforma e do excesso de centralidade estatal. Mas o Brasil possui na atualidade um establishment de pesquisas que consegue acompanhar o estado da arte científica dos centros avançados, mas infelizmente sem dispor dos meios e dos recursos necessários para dar grandes saltos coletivos, embora produzindo boas surpresas em caráter e escala mais restritos.

A soberania nacional, por sua vez, é muito alardeada, geralmente em tonalidades patrioteiras, para fins de populismo politico oportunista, sem que ela esteja realmente em risco, a não ser por arroubos externos, e histéricos, de um dirigente demencial, como ocorre atualmente no plano hemisférico, e que encontra repercussão interna, de forma abjetamente submissa e voluntária por parte de deploráveis personagens políticos. O primeiro mandato do capitão elogiador de torturadores, que conseguiu a proeza desprezível de vincular os três conceitos no primeiro mandato, da pior forma possível: ele desprezou, ofendeu e humilhou a ciência e os cientistas, atacando as universidades, sobretudo as faculdades de ciências humanas, alienou deliberadamente, sistematicamente, repetidamente a soberania nacional, ao se submeter aos arreganhos de Trump 1 – a quem declarou amar, num inglês simplório – e, em terceiro lugar, desmantelou completamente a credibilidade da diplomacia profissional, ao defender teses vinculadas à franja lunática dos grupos direitistas americanos que defendem as teorias conspiratórias sobre as relações internacionais.

Justamente, o último termo da tríade proposta, concerne as relações exteriores do Brasil e o cenário internacional, que arrisca repetidamente nos cair sobre nossas cabeças, como sempre temeu o chefe Abraracourcix, da valente aldeia dos irredutíveis gauleses. O Brasil não tem nenhuma poção mágica, para resistir às investidas das modernas legiões de invasores arrogantes de um império já declinante, mais mentalmente do que materialmente. Temos apenas a defesa do Direito Internacional e a faculdade de nos aliarmos a outras potências médias, para evitar sermos tragados nos projetos imperiais das grandes potências. Cabe esclarecer que a fragmentação do sistema onusiano e o desmantelamento das grandes regras e princípios sobre os quais deveriam reger-se as relações entre Estados soberanos não começou com o desequilibrado dirigente do império americano, mas teve a sua partida começou desde o início do presente século, com o ambicioso programa do neoczar de restabelecer a dimensão dos passados domínios imperiais do czarismo e do sovietismo.

Tendo me exercido como diplomata profissional, nem sempre disciplinado, por mais de quatro décadas – com treze mudanças acumuladas, e milhares de quilometros percorridos nos mais diversos continentes – creio que tenho algo a dizer sobre os três temas mencionados, por razões mais ou menos prosaicas: em diversos dos postos nos quais trabalhei, ademais das questões de relações econômicas internacionais, minha principal especialização profissional, também me exerci como encarregado dos temas de ciência e tecnologia, em Genebra, por exemplo, onde cobri as atividades da OMPI e da Unctad e cheguei a assinar, pessoalmente, algumas revistas científicas, ademais de me abastecer de livros nessa área. Em Washington, também foi o caso, justo no momento em que o governo FHC assinava, com o governo de Bill Clinton, um primeiro acordo de salvaguardas tecnológicas para o lançamento de satélites com componentes americanos a partir da Base de Alcântara, infelizmente sabotado pelo Congresso, com o que o Brasil perdeu não apenas anos, mas décadas de aproveitamento da base para lançamentos comerciais, podendo portanto competir com base francesa de Kourou, na Guiana. Quando o Itamaraty do primeiro governo Lula me recusou qualquer cargo na Secretaria de Estado – e isso durou treze anos e meio, todo o primeiro período de governos petistas –, o Secretário de Comunicação Luiz Gushiken, um dos membros da Troika (com Palocci e José Dirceu) me convidou como assessor especial no Núcleo de Assuntos Estratégicos da PR, uma aventura que durou três anos aproximadamente, até a saída do grão-petista, por razões de saúde.

No que se refere ao segundo item, soberania nacional, sempre mantive uma postura cética quanto a grandes proclamações patrioteiras nessa área, pois imagino que a soberania não se defende com palavras, proclamações, ou declarações entusiásticas ou indignadas, mas ela se exerce, na prática, pelos meios defensivos adequados, mas sobretudo com a construção de meios próprios de suficiência no abastecimento estratégico – alimentação, energia, comunicações e segurança, no seu conceito mais amplo –, assim como, eventualmente, por meio da cooperação com parceiros confiáveis, com base numa compreensão convergente das ameaças e desafios que podem se apresentar em circunstâncias excepcionais. Poucos países são inteiramente autônomos em todas as vertentes da defesa da soberania nacional, talvez apenas os EUA e a China, ainda assim com várias necessidades cobertas pelo comércio exterior ou por acordos especiais do lado militar, tecnológico, energético e outros. A Rússia, por exemplo, supostamente a segunda força militar do mundo, faz apelo a drones iranianos e a mísseis e soldados norte-coreanos, ademais de uma ampla variedade de insumos chineses, para manter sua guerra de agressão contra a Ucrânia.

Acredito, pessoalmente, que a soberania nacional começa fundamentalmente pelo ensino primário de qualidade, algo que o Brasil ainda não conseguiu oferecer a todos os seus cidadãos em idade de alfabetização obrigatória, a não ser alcançar a taxa de escolarização adequada mais ou menos 150 anos depois dos países líderes em cobertura educacional; mas aqui estamos falando apenas do lado quantitativo do ensino, não do seu conteúdo substantivo, que é o que conta mais, como aprendemos pelos testes da OCDE do PISA, nos quais figuramos tristemente nas últimas e vergonhosas colocações, nos três testes, língua nacional, matemáticas e ciências elementares, para estudantes secundaristas. Ainda temos analfabetos funcionais em várias partes.

Relações internacionais, finalmente, não é algo que possamos controlar, influenciar ou sequer moldar para a melhor adaptação às nossas necessidades. Cabe observar que, a partir de meados do século XIX, a diplomacia brasileira participou ativamente de todos os arranjos discutidos e adotados em conferências internacionais: patentes, cabos telegráficos, propriedade intelectual, segurança, arbitragem, acordos comerciais (primeiro bilaterais, depois coletivamente na era do Gatt), e tudo o que se possa pensar como produtos multilaterais no âmbito da ONU. Nossa interação é suficientemente ampla, mas nossa capacidade decisória é limitada, daí o apelo a coalizões, geralmente no âmbito do chamado Terceiro Mundo, ou atualmente o tal de Sul Global, a mais recente designação de uma realidade que nos acompanha há séculos. Mas, se quiséssemos realmente defender nossa soberania, no âmbito da política externa, já teríamos ingressado na OCDE, em lugar de estar no Brics+, esse Frankenstein diplomático que apenas serve aos interesses nacionais da China e da Rússia, ou teríamos buscado coalizões com like-minded countries, que são outras potências médias, do Norte e do Sul (o que é irrelevante), em lugar de buscar liderança no âmbito dessa fantasmagoria chamada Sul Global, ou mesmo no contexto da América do Sul (o que é recusado pelos demais países de nossa circunstância geográfica orteguiana). 

Mas, prefiro encerrar provisoriamente minhas considerações pessoais sobre os três temas indicados no menu de entrada, e passar a interagir com todos vocês sobre as questões realmente sunstantivas que possam suscitar curiosidade, contestação, contradição da parte de todos, agora esperando que eu possa dizer algumas coisas inteligentes sobre as dúvidas subjacentes às minhas provocações intelectuais dirigidas a vocês. Vamos, portanto, às questões principais que possam agitar esta nossa oportunidade de diálogo nos assuntos nos quais o engenho e a arte desde modesto acadêmico diplomático possam oferecer alguns argumentos racionais.

Muito obrigado, passemos à parte mais interessante: a interação entre iguais.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5450: 8 setembro 2026, 4 p.

 

 

Um pequeno aviso preliminar ao mundo em geral - Paulo Roberto de Almeida

 Aviso aos navegantes:
A word to the wise:
Avis aux navigateurs:
Aviso a los navegantes:


O Brasil vai entrar nas eleições numa situação muito ruim.
Brazil is going to enter the elections in a very bad situation.
Le Brésil va aborder les élections dans une très mauvaise situation.
Brasil llegará a las elecciones en una situación muy mala.

O Brasil vai sair das eleições numa situação ainda pior.
Brazil will emerge from the elections in an even worse situation.
Le Brésil sortira des élections dans une situation encore pire.
Brasil saldrá de las elecciones en una situación aún peor.

Pronto, acho que meu aviso ao mundo está feito!

Brazil turns its back on the future - The Economist

 Editorial da The Economist (25/09/2026)

Brasil dá as costas ao futuro.

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“O Brasil é abençoado. Suas reservas comprovadas de petróleo são enormes e estão crescendo. Dentro de suas fronteiras, o maior rio do mundo, o Amazonas, flui através de sua maior floresta tropical. Mais da metade da eletricidade do Brasil vem da energia hidrelétrica. Suas terras agrícolas estão entre as mais produtivas do planeta; em breve se tornará o maior exportador de alimentos, ultrapassando a América. Sob seus solos estão vastos depósitos de minerais de terras raras. Seus  220 milhões de habitantes são empreendedores, criativos e diversos. O vasto potencial do Brasil é aparente há muito tempo. Quando a capital, Brasília, foi construída na década de 1950, suas ruas foram dispostas em forma de avião, simbolizando um país pronto para decolar.


No entanto, ainda está parado na pista. Durante o último meio século, em vez de tomar asas, a economia do Brasil estagnou em relação aos seus pares e ao crescimento global médio. A eleição geral de 4 de outubro oferece pouca esperança de uma reviravolta. A escolha antes dos brasileiros é sombria.


O atual presidente de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Lula, enfrenta Flávio Bolsonaro, o filho mais velho de seu antecessor populista de direita, Jair. Lula está prestes a fazer 81 anos, a mesma idade que Joe Biden tinha quando abandonou sua candidatura à reeleição em 2024. Ele é um democrata e a favor do meio ambiente. Mas ele fez muito pouco para desencadear o crescimento ou conter os gastos. Ele não conseguiu impulsionar reformas econômicas, proibiu uma simplificação do imposto sobre vendas e chama a disciplina fiscal de “babaquice”. Seu governo está a caminho de encerrar o mandato com o maior projeto de lei de juros da dívida pública em um quarto de século.


O júnior Bolsonaro, que tem apenas 45 anos, nega que os humanos estejam causando mudanças climáticas, questiona a integridade das máquinas de votação e sugere que não honrará o resultado se Lula vencer. Ele foi investigado por supostos laços com criminosos violentos, o que ele nega. Sua principal política é perdoar seu pai, que em setembro de 2025 recebeu uma sentença de 27 anos por planejar um golpe - incluindo um plano para assassinar Lula - depois de perder sua candidatura à reeleição em 2022.


A dupla está empatada nas pesquisas, com Flávio em ascensão. Nenhum dos homens é confiável quando se trata de enfrentar os dois maiores problemas do Brasil: a corrupção arraigada e a expansão implacável dos gastos públicos. Sem um plano sólido para reduzir a dívida pública em relação ao PIB, o risco de uma espiral de juros da dívida manterá os custos de empréstimos altos, matando a economia do capital necessário para aumentar a produtividade e o crescimento. Os gastos governamentais em expansão cada vez maior impulsionam a inflação, forçando o banco central a manter as taxas de juros altas. Reduzir essa dívida e reduzir as taxas exigirá cortes profundos nos gastos do governo, 92% dos quais são exigidos por lei ou pela constituição absurdamente prescritiva do Brasil.


Na ausência de um crescimento mais forte, o jogo das elites políticas para controlar os recursos públicos faz com que muitos brasileiros comuns se sintam desesperados, uma vantagem para os políticos que operam nos extremos. A corrupção também prejudica as instituições que fornecem os freios e contrapesos do Brasil. Algumas semanas após a condenação de Jair, um escândalo conhecido como Banco Master irrompeu e rapidamente envolveu a Suprema Corte. As investigações policiais até agora mostraram que cinco dos 11 juízes do tribunal tinham conexões com Daniel Vorcaro, o mentor playboy por trás do banco. Isso alimenta o cinismo público, tornando mais fácil para os brasileiros ignorar a convicção de Jair por conspirar um golpe e apoiar seu filho.


O candidato cujas ideias combinam mais de perto com o momento é Renan Santos, um libertário que se esforça. Ele quer promulgar uma reforma estrutural profunda e cortes de gastos para transformar o Brasil em uma grande potência. Mas nem ele nem qualquer outro estranho fizeram progressos contra as máquinas políticas opostas de Lula e do Sr. Bolsonaro. O país está se movendo em direção a uma crise previsível, mas a maioria de sua elite política está muito confortável com a maneira como as coisas estão para mudar de rumo.


E assim o futuro brilhante do Brasil ficará em espera por pelo menos mais quatro anos. Não está totalmente morto. Apesar da corrupção e do pensamento insular dos políticos rastaqueras, muitas das instituições vitais do país ainda funcionam. A polícia federal atuou bem para investigar a fraude de Vorcaro e a trama do golpe antes disso; a imprensa permanece feroz, independente e relativamente bem financiada; o corpo diplomático é respeitado em todo o mundo. Até mesmo a Suprema Corte, apesar de suas abundantes falhas, conseguiu enviar um golpista para a prisão.


O gatilho mais provável para uma crise seria uma aceleração acentuada no nível de dívida e custos de empréstimos, levando a um agravamento da economia. Esse é um círculo vicioso, familiar dos brasileiros mais velhos, que pode levar a quedas no valor do real, mais inflação e uma recessão dolorosa. Talvez só então os brasileiros se voltassem para alguém preparado para fazer uma política impopular onde sacrifícios serão necessários para um futuro em que um país abençoado nunca mais seja condenado a escolher entre dois candidatos tão sombrios.”

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Institute for the Study of War on Russia’s behavior towards Ukrsine, Europe and NATO

 Institute for the Study of War on Russia’s behavior towards Ukrsine, Europe and NATO

Introduction

Russia is operating within a war framework against Europe while Europe continues to function within a peace framework. It does not follow that a full-scale war between Russia and NATO is inevitable, let alone imminent. NATO and European states must recognize the framework the Kremlin is using in order to enable European states to make appropriate, calm, but determined efforts to deter Russian escalation and avoid full-scale war. It is difficult to strike the necessary balance between openly acknowledging Russia’s war framework and hyperbole or alarmism. European leaders have — with some exceptions — gone too far in obfuscating the reality of the Russian approach, however, to the detriment of Europe’s ability to develop coherent and sensible policy responses. This report does not aim to stoke war fever in Europe, still less to encourage European states to seek conflict with Russia. It instead aims to present the suite of Russian actions in Europe within the framework ISW assesses that the Kremlin is using. Europe can develop and execute policy responses to deter and, if necessary, defeat Russian escalation and war. Europe can only do so, however, if it recognizes the coherence binding Russian actions together and speaks frankly but deliberately about the challenge it faces.

NATO and European states must orient their policy planning on the coherence of the Kremlin’s kinetic and informational campaigns against Europe and the objectives of these campaigns, instead of seeing a disconnected series of various sorts of Russian kinetic and cognitive actions. The Kremlin is conducting several mutually supporting campaigns against Europe in order to support its full-scale invasion of Ukraine and advance its longstanding grand strategic objectives of breaking NATO and reestablishing dominant influence over former Soviet states. Each of the Kremlin’s individual lines of effort — such as airspace incursions or sabotage against European industrial base facilities — supports several Kremlin campaigns. NATO and European states must understand the overall objectives of Russia’s campaigns in order to understand the context of individual Russian actions and develop and execute appropriate responses. This report presents an initial assessment of the objectives of Russia’s military campaign against Europe and their constituent lines of effort, expanding on ISW’s September 16 report “The Russian Military Campaign Against Europe: Defining the Threat.”[1] ISW will assess each of Russia’s campaigns against Europe in forthcoming reports building on this report.

Russian Grand Strategic Objectives Toward Europe

The Kremlin has long considered itself to be in a protracted conflict with the West and is waging this conflict in support of several longstanding grand strategic aims, which have remained largely the same throughout Putin’s rule.[2] The Kremlin is conducting its full-scale invasion of Ukraine and its ongoing kinetic campaigns against Europe to advance these grand strategic objectives. The Kremlin’s individual campaigns against Ukraine and NATO do not each nest one-to-one under the Kremlin’s grand strategic objectives, but understanding the long-term end state Putin is working towards is essential to properly assessing the Kremlin’s campaigns against Europe and planning proper policy responses to them.

ISW assesses that the Kremlin has four primary strategic objectives:

Reestablish Russia as a great power, which requires subjugating Ukraine and Belarus: For all the Kremlin’s varied justifications for its invasion of Ukraine and soft annexation of Belarus, the Kremlin rejects the reality that Belarus and Ukraine are legitimate states and independent peoples, and its efforts proceed from the conviction that Russia will not be whole until Ukraine and Belarus are brought back under Moscow’s control.[3] Putin’s worldview contains a circular argument — Russia cannot be a great power without control of its “ancestral” lands in Belarus and Ukraine; Russia is a great power, so it has the right to control Belarus and Ukraine. The Kremlin’s invasion of Ukraine is fundamentally an imperial project. Putin has made his war with Ukraine an existential issue for his regime’s survival and Russia’s place in the world, and he regards Russia’s status as a superpower and his regime’s survival as inextricably linked. Many of the Kremlin’s ongoing campaigns against Europe directly support its war in Ukraine as well as the pursuit of its larger objectives, as discussed below, and thus support achieving this objective.

Regain dominant influence over the former Soviet states, specifically including the Baltics and Moldova: Putin desires dominant influence over the former Soviet states. His aims go beyond suzerainty — the control of the foreign affairs of a vassal state while allowing it sovereign internal authority — and into direct influence over aspects of the internal policies of post-Soviet states, which the Kremlin views as rightful parts of its sphere of influence.[4] The Kremlin does not inherently seek to regain full, sovereign control over every former constituent entity of the Soviet Union or former Warsaw Pact member states. The Kremlin rather intends to establish the norm that these states have only truncated sovereignty and should at most be “neutral,” by which the Kremlin means that they cannot join alliances such as NATO or economic blocs such as the EU; and that Russia has a special right to protect “Russian speakers” (a nebulous, Kremlin-defined category not recognized under international law) using military force.[5] The Kremlin is therefore working to divide NATO and the EU. It specifically aims to separate the Baltic States and Poland from the rest of Europe to strip them of the protections and benefits of NATO and EU membership.

Establish a world order in which US influence is diminished, NATO’s unity is broken, and Russia has decisive influence: The Kremlin desires to create a multipolar world order in which it is one of a few key poles, crucially by diminishing US influence and ensuring that NATO and the EU — which collectively vastly overmatch Russia’s economic and military potential — cannot act as unified blocs. The Kremlin is therefore striving to ensure that the United States largely withdraws from Europe; to break NATO as a cohesive alliance; to end Russia’s partial diplomatic and economic isolation; and to establish the norm that Russia must at minimum be consulted on all major geopolitical issues around the world.[6]

Preserve Putin’s regime: Putin is an autocrat, and his paramount strategic objective is his own personal survival — and by extension, the survival of his regime. Putin relies on a complex series of narratives to justify his continued rule and to deflect criticism of Russia’s problems onto the West by claiming that the West is waging a coherent, aggressive campaign to keep Russia down, and to argue that Putin himself is the only man who can lead Russia in this conflict.[7] Putin and many senior Russian political and military officials additionally genuinely believe their own narratives that the West is actively plotting a “color revolution” in Russia and that NATO could conduct a preemptive war against Russia, and therefore the Kremlin must break NATO as an Alliance.[8] This report is in no way intended to support this Kremlin framing or even to treat it as understandable, but it is important for European policymakers to keep in mind Putin’s decision making framework based on a deeply flawed view of history and current reality. 

Russian Objectives Against Europe and Current Lines of Effort

The Kremlin is conducting a series of coordinated, mutually supporting kinetic and cognitive campaigns against Europe in pursuit of its strategic objectives. ISW assesses that the Kremlin is conducting a series of overlapping campaigns to achieve at least two overarching strategic objectives in the Ukrainian and European theaters:

  • Reduce or eliminate European military and diplomatic support for Ukraine to enable the Kremlin to achieve its military objectives in Ukraine; and
  • Neutralize NATO as a unified alliance capable of opposing Russia to regain dominant influence over the post-Soviet space and establish a multipolar world order.

The Kremlin is conducting numerous lines of effort in support of these campaigns. Many Russian lines of effort support multiple objectives — the Kremlin’s campaign to sabotage Polish railways is intended to interdict Western aid to Ukraine as well as to raise the threshold of what NATO considers “normal” Russian kinetic actions, for example, and this report discusses some Russian lines of effort in the context of multiple Russian objectives. This report presents ISW’s assessment of the Kremlin’s objectives vis-à-vis Europe and surveys the Kremlin’s lines of effort in support of these objectives, which ISW’s recently launched Defense of Europe Project will assess in greater detail in forthcoming reports.

Reduce or eliminate European military and diplomatic support for Ukraine

The Kremlin’s theory of victory in Ukraine is dependent on Russia outlasting Western support for Ukraine, which the Kremlin correctly assesses is essential to enable Ukraine to militarily defeat Russia’s full-scale invasion and achieve an end to the war acceptable for Kyiv and its supporters.[9] The Kremlin seeks to reduce or eliminate European support for Ukraine by physically impeding Europe’s means and ability to provide those means to Ukraine and to coerce European states into halting their support for Ukraine with cognitive effects.  

Physically impede Europe’s ability to provide military support to Ukraine

The Kremlin is conducting a campaign of sabotage efforts, primarily arson attacks, targeting European defense factories and warehouses to degrade the ability of European defense companies and governments to produce aid and transport it to Ukraine. Estonian Prime Minister Kristen Michal announced on August 18, for example, that Estonian investigators were examining a possible Russian-linked arson attack on August 14 against Estonian defense technology company Milrem Robotics, which provides drones to Ukraine’s Armed Forces.[10] Lithuanian authorities arrested six suspects in January 2026 linked to Russia’s Main Directorate (GRU, Russia’s military intelligence service) for a September 17, 2024, arson attack against a facility operated by Lithuanian defense company TVC Solutions, which produces signals intelligence systems for Ukraine’s Armed Forces.[11] Russian intelligence services predominantly execute these actions by recruiting disposable proxies through online platforms and local criminal networks, rather than through direct action by Russian personnel. Russian handlers often target financially vulnerable individuals, low-level local criminals, Ukrainian refugees, or local youths looking for a quick way to make money.[12] Russian intelligence services use these disposable proxies to achieve effects at low risk to Russian personnel, to maintain the pretense of plausible deniability, and as an adaptation to Europe’s previous mass expulsions of Russian intelligence agents operating under diplomatic cover.[13] Russian-instigated arson attacks and other sabotage efforts provide the Kremlin a low-cost method of disrupting the production and transport of Western aid to Ukraine (particularly drones) and are functionally tactical activities that are part of a larger disruption campaign. These attacks additionally force European companies to spend more time and effort protecting their facilities.

The Kremlin is taking advantage of the fact that European states are treating these activities as primarily law enforcement problems. Europe’s lengthy timelines for investigating, prosecuting, and attributing individual actions to the Kremlin additionally increase the difficulty of designing and executing effective European responses. European states must of course uphold the rule of law and provide due process to individuals accused of crimes, but they must also develop coherent mechanisms for assessing these activities in a timely fashion as part of the concerted Russian campaign to disrupt European defense industrial support to Ukraine and design appropriate countermeasures.

Kremlin-linked agents are also conducting higher profile efforts to disrupt Europe’s defense industrial base, such as drone attacks, attempts to plant explosives on civilian aircraft, and plots to assassinate European defense industry executives — all predominantly tied to European support for Ukraine. The August 5 drone attack against a Ukrainian cargo plane at Germany’s Leipzig/Halle airport was intended to directly target a nexus of European aid to Ukraine.[14] Russian-linked operators previously attempted to smuggle incendiary devices onto US and Canadian cargo and passenger planes in Europe in July 2024, which caused fires at logistics hubs in Poland, the UK, and Germany, including at Leipzig/Halle airport.[15] Both the July 2024 and August 2026 incidents showcase Russia’s willingness to target the civilian aviation network in ways that risk civilian casualties. European intelligence agencies and European defense companies have warned of repeated Russian-linked efforts to assassinate executives of European defense companies that produce material supplied to Ukraine. The most notable of these was the US intelligence community’s disclosure of a 2024 plot by Russian intelligence agencies to assassinate the CEO of German defense company Rheinmetall, Armin Papperger.[16] None of Russia’s higher profile attacks or assassination attempts have fully succeeded to date, but the Kremlin is clearly willing to take actions that — if they achieved their intended effects — would result in civilian casualties in a NATO member state. NATO member states are generally downplaying these Russian actions because they have not fully succeeded, but NATO must not wait for a large-scale Russian sabotage or assassination attempt to succeed, potentially with civilian casualties, before it formulates and executes a response.  NATO officials, including Secretary General Mark Rutte, have said that NATO has, in fact, responded, but covertly.[17] NATO’s covert responses so far have apparently been insufficient to deter continued Russian escalation in attacks of these kinds.

The Kremlin has extended its military strike campaign from Ukraine to other operational theaters in Europe in three coordinated military campaigns that aim to interdict aid and to preclude Ukraine’s use of drone routes near Baltic airspace. These three military campaigns target the airspace and territory of NATO member states and Moldova but are primarily planned and conducted as elements and, in some cases, extensions of the Russian military’s strike campaign against Ukraine (and efforts to defend against Ukrainian strikes), unlike the other Russian campaigns discussed in this report.

First, the Kremlin’s campaign of strikes on the Polish/Ukrainian border and sabotage efforts against Polish railways are coordinated elements of the Russian military’s campaign to interdict Western aid to Ukraine. The Kremlin has sought to interdict Western aid to Ukraine within Ukraine since 2022 and is increasingly expanding this campaign beyond Ukraine itself. Russian-directed networks have repeatedly targeted key Polish rail networks that transport Western military deliveries to Ukraine. Russian-linked actors most notably targeted Polish train tracks along the Dorohusk Poland-Ukraine crossing using explosives and physical barriers on November 15, 2025.[18] Polish Prime Minister Donald Tusk stated that the targeted rail line is crucially important for delivering aid to Ukraine and called the attack an unprecedented act of sabotage aimed at the security of the Polish state and its citizens.[19] Russia has increasingly hit Ukrainian border crossings and targets along the Ukrainian-Polish border with drone strikes in September 2026.[20] Russia conducted a drone strike against a passenger train in Volyn Oblast, Ukraine, two kilometers from the Polish border on September 13, 2026, likely intending to injure or kill European officials who were crossing the border at the same time in another train.[21] All three of these lines of effort — sabotage against Polish railways; strikes on the Ukrainian/Polish border; and the Kremlin’s willingness to injure or kill Western officials entering or leaving Ukraine, or at minimum intimidate them into reducing their travel to Ukraine — are part of the Kremlin’s campaign to interdict Ukraine’s ground lines of communication with Europe.

Second, the Russian military is conducting a coordinated campaign of strikes against Ukraine’s borders with Romania and Moldova. Russia has increasingly targeted Ukrainian-Moldovan border infrastructure along key import and export routes since August 2026, likely in an effort to isolate Ukraine from Europe and to deter Romania and Moldova from supporting Ukraine.[22] Russian forces struck crossings along the Moldova-Odesa Oblast border three times from August 20 to August 25.[23] ISW assesses that the Kremlin has at minimum accepted the risk that drones and other munitions used in these strikes would enter NATO airspace and potentially injure or kill NATO civilians, and some of these incidents are almost certainly intentional to advance the wider objectives of Russian aerial incursions discussed below. A Russian military drone most notably entered Romanian airspace on May 29 and crashed into an apartment building in Galati, Romania, injuring two civilians.[24] Russia has repeatedly struck targets in Ukraine near the Moldovan border and has risked Moldovan civilian casualties, including on July 13 when a Russian military drone armed with 40 kilograms of explosives violated Moldovan airspace.[25] These strikes increase regional political and commercial risks and are intended to deter Romania and Moldova from supporting Ukraine.

Third, the Kremlin is conducting a campaign of airspace violations against the Baltic states and Finland as part of its effort to reduce the impact of Ukrainian strikes against targets in Russia. The Kremlin assesses that the Baltic states are at minimum facilitating Ukraine’s campaign of strikes against targets in Russia, particularly around St. Petersburg and Leningrad Oblast. The Kremlin is taking advantage of Ukraine’s strike campaign against Russia to redirect Ukrainian drones into Baltic and Finnish airspace with electronic warfare (EW). More than a dozen Ukrainian drones have entered Baltic or Finnish airspace since March 2026 due to Russian EW.[26] These Russian efforts to redirect Ukrainian drones result in airspace violations that advance Russia’s Europe-focused objectives discussed below, but they are also a direct component of Russian air defense efforts. The Kremlin seeks to coerce Baltic and Scandinavian states into forcing restrictions on Ukrainian strikes in order to mitigate the risk of Ukrainian drones entering NATO airspace — or to coerce Ukraine to do so itself in order to avoid angering its partners. The Baltic states and Finland are maintaining strong responses to these instances, however, correctly blaming them on Russia and declining to overtly criticize Ukraine, but the Kremlin seeks to create further tensions.[27] 

Coerce European states into reducing or halting support for Ukraine

The Kremlin is conducting a cognitive campaign to convince the West that Russian victory against Ukraine is inevitable and that the United States and Europe should force Ukraine to accept a Kremlin favorable settlement and re-normalize relations with Russia on the Kremlin’s terms, a series of false narratives that ISW has repeatedly documented and debunked.[28] The Kremlin conducts many of its kinetic actions to support informational objectives, and individual Russian kinetic attacks should be understood in the context of the information campaigns they support, rather than as scattered individual events. The Kremlin seeks to coerce European states to reduce aid to Ukraine by achieving three effects: fix European air defenses in place; encourage the existing tendency for Western states to reserve equipment and capabilities for a future war with Russia instead of providing it to Ukraine immediately; and facilitate Russia-amenable European actors who claim that Europe, and European aid to Ukraine, is provoking Russia. These Russian cognitive campaigns pose a particular challenge, as NATO states must walk a fine line — Russian airspace violations do impose a requirement for more robust air defenses in the Baltic States, Poland, and Romania, for example, and NATO states must think about their own capabilities — but the Kremlin is successfully keeping the amount of aid European states provide Ukraine far below what Europe could comfortably provide.

Ukraine desperately needs additional air defenses and munitions stockpiles, particularly prior to what will be a challenging Russian strike campaign in Winter 2026-2027, and the Kremlin seeks to functionally achieve the military effects of fixing these European capabilities in place through a low-cost series of airspace incursions in European states. Russian drone incursions into NATO airspaces (and Russian efforts to redirect Ukrainian drones into NATO airspace using electronic warfare) are in part intended to put the governments and populations of frontline NATO states on edge and spur them to withhold air defenses and munitions. Airspace incursions have already imposed costs on Baltic states and have been effective in shaping frontline states’ priorities. Lithuanian Defense Minister Robertas Kaunas confirmed that Lithuania is prioritizing air defense procurement in an interview on September 20, 2026, five days after a NATO fighter jet shot down a drone in Lithuanian territory.[29] The Kremlin is successfully imposing a conundrum on NATO, as frontline states do need to prioritize their own air defenses in response to Russian aerial incursions while NATO as a whole continues to support Ukraine. The Baltic States are meeting this challenge admirably, however, and no Baltic official has stated they need to retain systems for their own use at the expense of Ukraine. The Polish response to this Russian effort has been particularly prudent — Polish leaders have repeatedly noted that strengthening Ukrainian air and missile defense is the best way to protect Poland, even as the Polish military has raised its air defense alert status and lowered its threshold for scrambling air defense aircraft.[30]

Russia’s campaign of threats to Europe, both kinetic and informational, is also intended to coerce the United States and non-frontline NATO states into withholding capabilities from Ukraine in order to reserve them for a potential NATO war with Russia. This Russian campaign has unfortunately achieved substantial successes delaying Western aid to Ukraine since 2022, as ISW has documented.[31] The United States and NATO justified withholding crucial aid to Ukraine for long stretches of the war by arguing that NATO needed to retain that equipment to fight a potential war with Russia — ignoring the reality that Ukraine is actively fighting a war with Russia, and that the best way to limit the Russian military threat to Europe is to enable Ukraine to defeat the Russian military now. This Russian campaign continues to have effects in 2026. Bulgarian Defense Minister Dimitar Stoyanov announced in early June 2026 that Bulgaria will stop donating weapons to Ukraine from its military stockpiles, citing in part concerns about the Bulgarian Armed Forces’ own inventory.[32] The global shortage of US-supplied air defense interceptors and other munitions is also having compounding effects that the Kremlin is exploiting, as many European states are prioritizing withholding increasingly scarce interceptors for their own use.[33] German Brigadier General Jurgen Schrodl, Deputy Chief of Staff Strategic Plans and Policy in the Supreme Allied Command Transformation, stated at a July 9 panel hosted by the German Atlantic Society that Germany is “really reaching our limits here” in terms of providing Ukraine more of Germany’s stockpile of Patriot interceptors and must also ensure its own protection.[34]

Finally, the Kremlin’s kinetic actions and narratives support a cognitive campaign to intimidate European states by showing them that they are under threat (such as from drone incursions) due to their support for Ukraine, and that the threat will end if they stop supporting Ukraine. The Kremlin relies on Russia-amenable or overtly pro-Russian parties in Europe to espouse and magnify these messages. The governments of the Baltic States and Poland have correctly unified around the framing that drone incursions, even by Ukrainian drones under the effect of Russian electronic warfare (EW), are consequences of Russia’s full-scale invasion of Ukraine, and that the quickest way to halt these threats is for Putin to end his war.[35] Russia’s actions have supported the narrative in some European states, however, that European states are under threat due to their support for Ukraine, and that the quickest way to end the threat is to coerce Ukraine to accept Moscow’s terms. Slovak Prime Minister Robert Fico warned on September 17, 2026 that a drone could enter NATO territory and kill civilians and stated that he does not want Slovakia drawn into a war “because of some Article 5.”[36] Kremlin propagandists intentionally advance this narrative, such as when Russian Deputy Security Council Chairman Dmitry Medvedev amplified a Russian Ministry of Defense list of European factories and locations that produce drones for Ukraine and said on April 17, 2026, “when strikes ⁠become a reality depends on what comes next. Sleep well, European partners.”[37]

Russia’s incursions are also eroding public confidence in NATO’s ability to protect frontline populations. A POLITICO poll from December 2025 found that more French and German respondents wanted their governments to decrease rather than increase aid to Ukraine.[38] Respondents listed domestic issues, fears that providing support to Ukraine risks provoking Russia, and concerns that providing aid to Ukraine negatively impacts domestic security as reasons to decrease support.[39] After a Russian drone struck an apartment building in Galati, Romania, on May 29, 2026, one resident told the BBC that “they told us we are protected by NATO, not to worry. But look where we are now!”[40] The vast majority of European governments remain committed to supporting Ukraine, but the Kremlin hopes that popular perceptions such as these will generate European apathy and enable the election of Russia-amenable parties — an explicit Russian line of effort discussed further below.

Neutralize NATO as a unified alliance capable of opposing Russia

The Kremlin seeks to divide and neutralize NATO, facilitate a US withdrawal from Europe, and fragment the European Union to grant itself a free hand in the post-Soviet space and create a global state of multipolarity.The Kremlin is setting conditions to potentially wage a future conventional war with one or more NATO member states, though ISW does not assess that the Kremlin has decided that a conventional war would be the best — or even necessarily a favorable — method to achieve its strategic objectives. The Kremlin’s calculus at this time differs from that in summer 2021, when Putin seemingly decided that invading and occupying Ukraine would more effectively achieve his objectives than his then-ongoing information and pressure campaigns against Ukraine.[41] The Kremlin seeks to achieve its objectives against NATO and Europe at low cost by fragmenting the Alliance without a substantial conventional escalation, as well as to set conditions for potential future limited or full-scale conventional aggression against NATO.

Divide and delay intra-European policymaking against Russia 

The Kremlin’s primary campaign against Europe is its efforts to ensure that NATO cannot promptly and cohesively respond to Russian actions and ideally to fragment NATO entirely by neutralizing Article 5. The Kremlin seeks to create differing perceptions of risk and urgency between NATO states (and within the political discourses of individual states) and to exacerbate policy divides through targeted information campaigns and carefully scoped kinetic actions. The Kremlin’s kinetic lines of effort, including airspace violations by drones; aggressive posturing by Russian military aircraft; sabotage and arson attacks; and information campaigns, mutually support this objective, and this report focuses on assessing the holistic intent of Russian actions rather than examining each type of Russian action in detail, which ISW will do in forthcoming reports.

The growing pace of Russian kinetic actions against Europe is intended to cause two cognitive effects: to raise NATO’s threshold of what actions are considered worthy of a response by individual states or NATO as a whole versus what constitutes “normal” Russian actions; and to inure NATO governments and populations to constant alerts to increase the likelihood that they do not respond to any individual Russian action seriously, potentially granting the Kremlin greater freedom to escalate without triggering a NATO response. European officials increasingly treat escalating Russian activity (such as airspace incursions, discussed further below) as normal while avoiding defining what would warrant a collective response. Finnish President Alexander Stubb, for example, explicitly characterized increased Russian attacks as the “new normal” in January 2025.[42] Lithuanian presidential advisor Deividas Matulionis stated on September 4 that NATO’s Article 5 threshold is difficult to predict.[43] German Chancellor Friedrich Merz stated on July 15 that Europe is “not yet living in a state of war, but we are already not in peace.”[44] Unnamed NATO diplomats similarly told POLITICO in early September 2026 that the Alliance has no formal response plans for “sub-threshold” incidents and no consensus on whether a series of such attacks could justify invoking Article 5.[45] Polish Prime Minister Donald Tusk warned on September 17 that Russia may attempt to exploit this ambiguity in order to show that Article 5 is more “theoretical than practical.”[46] NATO Secretary General Mark Rutte said on September 22 that the alliance is being deliberately ambiguous to avoid greenlighting Russian actions below a certain threshold.[47] That argument makes sense, except that it has apparently left the Russians considerable latitude to push the Kremlin’s perception of NATO’s limits in a dangerous escalation pattern.

The Kremlin also intends to accustom NATO militaries and governments to a baseline level of Russian activity and airspace violations in an effort to create tactical surprise if or when the Kremlin conducts further escalations — such as direct drone strikes on NATO targets. The clearest historical comparison is Egypt’s actions in the leadup to the 1973 Yom Kippur War, when it conducted regular military exercises near the Israeli border that initially prompted Israeli reactions but were gradually treated as routine –with the result that the Israeli military partially dismissed Egypt’s actual deployments to invade as just another exercise.[48] The Russian military is not conducting a rapid military buildup on NATO’s borders, to be clear, and this is an inexact analogy — but NATO must ensure that it does not relax into treating Russian drone incursions and aggressive flight paths by Russian military aircraft as routine and unimportant occurrences, either in terms of raising the threshold of what Russian action merits a NATO response (a fight the Kremlin has unfortunately already partially won) or in terms of reducing the urgency with which NATO states and populations respond to individual Russian actions.

The Kremlin’s kinetic actions and supporting information operations are also intended to exacerbate existing debates among NATO members on the nature of the Russian threat and necessary responses. Officials from several states, notably Poland, have begun to directly label Russian actions as part of a war with Europe, but most NATO state officials use euphemistic and unclear language to refer to Russian actions.[49] Lithuanian Prime Minister Mindaugas Sinkevičius stated on July 6, 2026, that “Russian aggression continues, we see various situations not only in Lithuania, we also see them in Germany, at the airport, drones, explosives.”[50] Latvian Defense Minister Raivis Melnis stated on July 29 that Latvia is “preparing our forces for both provocations and for defending the country,” explicitly bifurcating Russian actions into “provocations” and a conventional attack that would require defense activities.[51] UK Member of Parliament Graeme Downie stated on July 8 that the UK is in a “sustained confrontation” with Russia, describing it as a “prolonged campaign of hostile activity” rather than “a conventional shooting war.”[52] ISW will assess the implications of different European perceptions of the Russian threat and the language used to discuss it in a forthcoming report.

The Kremlin is conducting numerous lines of effort intended simply to disrupt European civilian life and to cause anxiety and unease in European populations. Russian electronic warfare activity consistently disrupts civil aviation and public transport and degrades mobile networks and GPS services across Poland and the Baltic states.[53] Russian and pro-Russian hackers consistently target European civilian infrastructure and public services. Various Russian-linked hacking groups attacked Polish heating and power plants in December 2025, conducted a cyber-attack against a Danish water utility in 2024, and attacked Norwegian government digital services in August 2026, for example.[54]

Increasingly frequent Russian actions are additionally designed to make NATO civilians and governments grow accustomed to regular alerts, in the hope that they will not respond to potential future Russian actions with sufficient urgency. Between September 1 and September 21, 2026, frontline NATO states have issued a substantial number of alerts related to potential airspace threats. For example, Poland issued emergency warnings to residents in eastern Poland on September 5, 7, 8, 10, 12, 14, 16, 17, and 21; and Romania issued RO-alert (emergency alert) warnings on September 5, 8, 10, 11, 12, 15, and 21 in response to air threats in Ukraine that approached or crossed into Romanian or Polish national airspace.[55] Romanian public broadcaster Radio Romania News published a report on August 17 stating that many residents of Tulcea county, Romania, where most RO-ALERT messages have been issued, have disabled the alerts and have told reporters that they no longer care about the warnings.[56]

The Kremlin is creating a conundrum for frontline governments, who must keep their civilians at the proper state of readiness to respond to Russian actions without (as frontline governments see it) overly alarming their populations and creating panic or unwanted economic shocks. Western analysts and policymakers must similarly ensure they treat the Russian threat with urgency but not scaremongering, and the Kremlin seeks to polarize perceptions of its own actions. Estonian Foreign Minister Margus Tsahkna warned in April 2026 that speculation about a Russian attack on the Baltics served Moscow’s goal of stoking fear.[57] It is a reductionist argument, however, to assert that discussing Russian attacks advances the Kremlin’s objectives, creating a circular logic that Europe should not frankly discuss the Russian threat out of fear of stoking fear. It is certainly true that the Kremlin seeks to provoke alarmist warnings of an imminent Russian invasion. The Kremlin also benefits, however, from European underreaction to the Kremlin’s ongoing campaigns, and particularly from the analysts and public officials who reject any discussion of ongoing Russian kinetic campaigns against Europe or warnings of the near-term Russian threat out of hand. The Finnish government is working hard to message the need for concern and preparation without panic: President Alexander Stubb told the Finnish public on September 18 to “prepare mentally” for the possibility of Russian drone incursions into Finland and increased “hybrid operations,” but also reminded the public in a separate statement on September 21 that Russia will “continue to intimidate and we just have to be… calm and collected.”[58] Finding a balance between these two poles will be incredibly challenging in the face of both Russian information operations and good faith policy disagreements, but it must be addressed.

The Kremlin seeks to create and exploit divisions over politically charged issues to cause crises in NATO governments. Many European leaders and parties are unfortunately already aligned with the Kremlin’s desired end state of NATO skepticism, such as Slovak Prime Minister Robert Fico, who said on September 17 that he does not want Slovakia drawn into a conflict “because of some Article 5” and stated on September 20 that the West’s “military rhetoric and the search for a pretext for a military conflict with Russia” represent Western attempts to distract from “basic challenges” like gas prices.[59] Debates over air defense responses to Russian and stray Ukrainian drones have also cost Baltic officials their positions: Latvian Defense Minister Andris Spruds resigned on May 10, 2026, after two drones struck an oil storage facility in Rezekne, Latvia; and Latvian Prime Minister Evika Silina resigned several days later due to political fallout.[60] Baltic states have also struggled to contain weaponized migration from Belarus throughout 2026, a campaign that supports Russian objectives by straining resources and testing burden-sharing among the affected frontline states.[61] Latvian Interior Minister Janis Dombrava asked Lithuania in late July 2026 to deploy roughly 100 border guards to Latvia’s border with Belarus.[62] Lithuania declined, citing insufficient capacity.[63] Lithuania has sent limited rotations of Lithuanian personnel to the Latvian border since July 1 and has argued that Latvia must first commit more of its own resources, including Latvian military personnel, to support its own border guard.[64]

The Kremlin additionally seeks to provide Russia-amenable European officials and political parties (such as the German political party the Alternative for Deutschland [AfD] or Slovakian Prime Minister Robert Fico) opportunities and arguments with which to criticize and impede NATO efforts to defend against Russia.[65] Kinetic Russian actions are primarily intended to support other objectives, to be sure, but secondarily provide Russia-amenable parties rhetorical ammunition to advance the Kremlin’s objectives. AfD party members have stated that Germany should reconsider its NATO membership, falsely asserted that Russia has already won the war in Ukraine, and advocated that Europe should stop supporting Ukraine and remove sanctions targeting Russia.[66] Slovakian Prime Minister Robert Fico stated on September 19 that a drone incursion could start a war between NATO and Russia and asserted that “certain war hawks within NATO are trying, any ⁠cost, to turn this war [in Ukraine] into a conflict between Russia and NATO.”[67] The Kremlin’s efforts to exacerbate political divisions have limits, however. French politician Marine Le Pen and members of her National Rally party are campaigning on drastically cutting aid to Ukraine, but Le Pen and her political partner Jordan Bardella released a formal statement on September 19 that “these debates [over aid to Ukraine] are legitimate” but “foreign pressure is not,” and asserted that “we will never tolerate a foreign power, in this case Russia, hoping to dictate our country’s policy directly or indirectly.”[68] Le Pen and Bardella reaffirmed French unity with allied European states “that have been the targets of hostile acts or stabilization campaigns,” even while disagreeing on the scale of aid to Ukraine.

Finally, the Kremlin is conducting information campaigns targeting European electoral processes that have long been documented.[69] The Kremlin is currently focusing on influencing the Latvian 2026 parliamentary elections, French 2027 presidential election, and Estonian 2027 parliamentary election, in addition to expending significant effort on the recent German regional elections.[70] Russian information operations have targeted the Latvian public in the run-up to the October 3, 2026 election by asserting that Latvian independence is illegitimate and stating that Latvia has failed since moving away from Russia.[71] French authorities have publicly disclosed information campaigns targeting specific French candidates and linked the efforts to Russia with a high degree of confidence.[72] The Kremlin’s efforts are intended to get Russia-favorable candidates elected, as well as simply to cast doubt on the efficacy of European democratic processes.

Set conditions for a potential future conventional war between Russia and one or more NATO member states

The Kremlin’s kinetic campaigns against Europe are also intended to set conditions for a potential conventional war with one or more NATO states. ISW does not currently assess that the Kremlin has explicitly decided that it is in its best interests to fight a conventional war with NATO, to be clear, but the Kremlin is undoubtedly setting conditions to do so in the future if it so chooses. Many of the Kremlin’s lines of effort discussed previously — namely its efforts to fragment NATO and sabotage attacks against defense industrial base targets — secondarily support preparations for a future conventional war, but the Kremlin is additionally conducting several lines of effort more directly intended to support a future war.

Kremlin-linked agents conduct regular land and air reconnaissance of sensitive European locations such as military bases or defense industrial base infrastructure. An Estonian court found dual Estonian and Russian citizen Nikita Kuzmin guilty of espionage on August 25, 2026, for collecting information on military and civilian objects in and around Narva, Estonia, on behalf of the GRU during an unspecified time period during and after 2024, for example.[73] Moldovan police announced that they detained an Azerbaijani citizen on September 8 for illegally collecting information on military facilities in Moldova on behalf of Russian intelligence services.[74] European authorities regularly report overflights by unidentified drones near military facilities and defense industrial base facilities, including an explosive laden drone that crashed near the German Bundeswehr’s Wunstorf Air Base on September 14; a drone that was identified near USA Naval Support Activity Naples’ Support Site on August 13; and at least two drones identified flying over a German Bundeswehr site in Mechernich on August 6.[75] European states have not publicly attributed all of these actions to Russian, but the pattern indicates that an actor — almost certainly Russia — is using drones to obtain information on European military and military support assets. These reconnaissance efforts set conditions for Russian strikes against these targets in a future conventional war and additionally support further near-term sabotage efforts.

The Kremlin’s ongoing campaigns of drone incursions and aggressive actions by Russian military aircraft and naval vessels near NATO airspace are intended to test NATO reactions and defenses, in addition to advancing the previously discussed objectives of dividing NATO policymaking.[76] The UK Ministry of Defense reported a 25 percent increase in Russian ship activity in UK territorial waters and the North Atlantic from January 1, 2026, to July 31, 2026, compared to the same period in 2025.[77] Russian drones violated Romanian airspace at least 23 times between January 1, 2026, and August 17, 2026, compared to only 18 violations between the start of the war in Ukraine in February 2022 and the end of 2025.[78] NATO Military Committee Chairman Admiral Giuseppe Cavo Dragone stated on September 7 that NATO fighter jets scrambled approximately 700 times to intercept Russian aircraft from September 2024 to September 2026, almost once per day.[79] Every time NATO aircraft conduct an “alpha scramble,” NATO forces activate air defense radars, or conduct other military actions, the Russian military can collect data on responses. The Russian military likely already knows the locations and capabilities of the vast majority of frontline NATO systems but can gather valuable intelligence on response thresholds and communication patterns of NATO air defenses, as well as additional data to enable low-altitude drone strikes as opposed to missile or airstrikes. The need to respond to Russian actions also runs up NATO’s operational tempo, though this is likely an added benefit to the Kremlin rather than the main objective of its actions.

The Kremlin’s campaign of sabotage against critical infrastructure targets is likely primarily intended to set conditions for potential attacks in the future, either as individual escalations or as part of a conventional war, though it partially supports the Kremlin’s previously discussed efforts to disrupt European civilian life and test NATO’s response thresholds. Efforts by Russia-linked agents to damage European power stations and other civilian infrastructure are unlikely to have an immediate kinetic effect on either NATO capabilities or Europe’s ability to support Ukraine. These attacks are likely probing actions to set conditions for more expansive attacks in the future, such as putting capabilities in place to take down European power grids either as major escalatory actions or as part of a conventional war. European and US authorities have repeatedly identified Russian efforts to conduct reconnaissance and sabotage related to undersea cables.[80] The US Congressional Research Service identified six suspected undersea cable disruptions in the Baltic Sea from December 2025 to January 2026.[81] These Russian actions are likely intended to enable Russia to target European communications on day zero of a conventional war, rather than trying to fully disrupt European communications at this time. Chairman of the board of the Latvian Transatlantic Organization, Jānis Karlsbergs, stated on July 23 that NATO has recorded a significant decrease in undersea cable damage in the Baltic Sea since the beginning of NATO enhanced vigilance activity Baltic Sentry, however.[82] Previously discussed Russian efforts against European defense industrial base targets naturally indirectly degrade NATO’s capabilities as well, but ISW assesses these ongoing efforts are primarily focused on interdicting support to Ukraine rather than directly degrading NATO’s ability to rearm its own militaries.

Conclusion

Europe has the resources to handle the Russian threat at this stage. Russian ground forces cannot conduct a large-scale invasion of a European state while the war in Ukraine continues and for some time after it concludes. Even then, European states have the wherewithal needed to defeat a Russian invasion if they cannot deter it. It is common to criticize Europe in general or particular European states for lacking the will or willingness to mobilize the resources necessary to deter and defeat Russian aggression, but that criticism (which is not entirely accurate) misses an important point. A state cannot effectively mobilize resources to confront an adversary without understanding what the adversary is actually trying to do and how. An essential first step is understanding the coherence of the efforts Russia is directing at Europe and the objectives those efforts are meant to achieve. Europe must take that step now.

The difficulty European governments face in acknowledging that Russia is operating within a war framework and pursuing actual military lines of effort against and within European states is proof of the success of Russian cognitive warfare efforts. It now requires great courage for European leaders, especially leaders of states that do not border Russia directly, to say that Russia is engaging in a military campaign against them. Russian cognitive warfare efforts have created antibodies to any such statements. European leaders who call Russian actions what they are are called warmongers, accused of scaremongering to distract from domestic failures, blamed for “provoking” Russia, or charged with trying to go to war with Russia. European political parties and populations must understand the degree to which they have been conditioned by extensive Russian efforts to avoid calling Russian actions what they are — parts of a military campaign intended to achieve discrete effects.

No one desires a war with Russia. The purpose of describing the Russian war framework and advocating for responses to it is to avoid escalation and conventional war. Europe (and the United States) must find a way to open their discourse to the idea that they must recognize the war framework under which Russia is operating in order to pursue peace.

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