domingo, 2 de agosto de 2026

Ricardo Bergamini alerta para a trajetória preocupante da divida pública brasileira

 PRA: Ricardo Bergamini alerta para a trajetória preocupante (ele acha catastrófica) da divida pública brasileira, como sendo um estrangulamento fiscal apontando no horizonte:


A combinação entre arrecadação recorde e déficit fiscal nominal recorde levará o próximo presidente eleito ao impedimento (Ricardo Bergamini)

Prezados Senhores

Qualquer que seja o presidente eleito, não terá força política para enfrentar a tragédia atual vivida pelo Brasil, assim sendo o impedimento do próximo presidente eleito será inevitável para nova composição de forças políticas, haja vista que o centrão já se posicionou para votar a favor do impedimento do próximo presidente eleito.

´É humanamente impossível o Brasil sobreviver por mais 4 anos com um presidente eleito por ser o menos rejeitado. O impedimento é a forma democrática de exterminar essa anomalia gerada pelos irmãos gêmeos xifópagos primatas Bolsonaro/Lula.

1 - Política Fiscal (BCB)

Até junho de 2026, o governo para obter um déficit fiscal primário de R$ 157,2 bilhões (1,19% do PIB), pagou R$ 1.160,5 bilhões (8,80% do PIB) de juros.

No acumulado em doze meses até dezembro de 2022, registrou-se superávit fiscal primário de R$ 126,0 bil3hões (1,28% do PIB). No acumulado em doze meses até junho de 2026, registrou-se déficit fiscal primário da ordem de R$ 157,2 bilhões (1,19% do PIB), Aumento real em relação ao PIB de 192,97%, comparativamente ao acumulado em doze meses até dezembro de 2022.

No acumulado em doze meses até dezembro de 2022, os juros nominais alcançaram R$ 586,4 bilhões (5,96% do PIB). No acumulado em doze meses até junho de 2026, os juros nominais alcançaram R$ 1.160,6 bilhões (8,80% do PIB). Aumento real em relação ao PIB de 47,65%, comparativamente ao acumulado em doze meses até dezembro de 2022.

No acumulado em doze meses até dezembro de 2022, o déficit fiscal nominal alcançou R$ 460,4 bilhões (4,68% do PIB). No acumulado em doze meses até junho de 2026, o déficit fiscal nominal alcançou R$ 1.317,8 bilhões (9,99% do PIB). Aumento real em relação ao PIB de 111,54%, comparativamente ao acumulado em doze meses até dezembro de 2022.

2 – Patrimônio líquido negativo da união (MF)

É lamentável que a grande maioria dos brasileiros não tenha interesse em números, gráficos e tabelas, se tivessem conhecimento do balanço patrimonial da União, que apresentou um patrimônio líquido negativo de R$ 2,5 trilhões em 2018. Em 2022 migra para R$ 5,3 trilhões. Crescimento do patrimônio líquido negativo de 112,00% em relação ao ano de 2018. Em 2025 migra para R$ 6,8 trilhões. Crescimento do patrimônio líquido negativo de 28,30% em relação ao ano de 2022.

No consolidado (união, estados e municípios) de 2025 o patrimônio líquido negativo foi de R$ 10,1 trilhões.

Arrecadação federal bate recorde histórico e chega a R$ 1,58 trilhão no 1º semestre

Receita cresceu 6,6% no primeiro semestre, impulsionada pela alta do PIB e pelo aumento da tributação promovido pelo

Este é um trecho original publicado em Exame.com. Leia a matéria completa em https://exame.com/economia/arrecadacao-federal-bate-recorde-historico-e-chega-a-r-158-trilhao-no-1o-semestre/?utm_source=copiaecola&utm_medium=compartilhamento

sábado, 1 de agosto de 2026

A diplomacia brasileira numa nova conjuntura política - Paulo Roberto de Almeida (boletim Mundorama)

Divulgando no blog pessoal dada a descontinuidade das postagens em Mundorama.

A diplomacia brasileira numa nova conjuntura política

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 26 novembro 2010, 4 p. Artigo para sobre a possível diplomacia do governo que toma posse em 1 de janeiro de 2011. Publicado no Boletim Mundorama; revista de divulgação científica em relações internacionais (29/12/2010).

  

A crer nas declarações, após o 31 de outubro de 2010, do presidente Lula, responsável inquestionável pela vitória eleitoral da candidata oficial Dilma Rousseff, o novo governo será constituído e conduzido à imagem e semelhança da presidente eleita. Ele também negou que vá ter, pessoalmente, qualquer influência sobre as decisões de governo a partir de 2011. A despeito dessas declarações, é provável que o novo governo conserve, grosso modo, as grandes linhas seguidas durante os dois mandatos do presidente Lula, o que foi aliás confirmado pela candidata eleita, que pautou sua campanha como estando marcada pela continuidade das mudanças empreendidas desde 2003. A rigor, a afirmação vale tanto para a economia e para as políticas sociais, que respondem por grande parte do sucesso do mandato que se encerra, quanto para a política internacional do Brasil e suas relações diplomáticas, de modo geral, terreno no qual as avaliações são mais circunspectas.

Partindo, justamente, do pressuposto de que a base política do novo governo se manteve, e até se reforçou, como resultado das eleições de outubro de 2010, bem como da possibilidade de que o principal artífice pela vitória de Dilma nestas eleições pretenda, em função de projetos políticos futuros, manter-se ativo no “mercado de consultoria presidencial”, é possível, assim, vê-lo articulando contatos e iniciativas que compreendam a frente interna, mas que também alcancem, de algum modo, a esfera diplomática. Independentemente, porém, desse tipo de interface operacional, aparentemente inevitável nas circunstâncias que cercaram o mais recente escrutínio presidencial – a mais de um título inédito na história política nacional –, a força do cargo, quando assumido plenamente, e características pessoais ligadas a cada uma das personalidades citadas, fazem com que se venha a assistir, necessariamente, um cenário bastante diferente daquele registrado nos últimos oito anos.

Peculiaridades especiais na forma de conduzir os assuntos de Estado, seja na frente interna, seja no âmbito externo, assim como simbologias ligadas a histórias de vida diferentes, sustentam o diferencial que pronto se observará. Dificilmente se poderá reproduzir, por exemplo, o protagonismo de Lula nos foros internacionais e nas relações bilaterais (em especial na África), assim como não se deve assistir novamente às suas formas especiais de interlocução, mais baseadas no instinto e no gosto da improvisação, do que propriamente no seguimento dos cânones burocráticos tradicionalmente ligados à figura presidencial. Assim, mesmo deixando de lado escolhas funcionais quanto ao novo titular da chancelaria – se de carreira ou não, de um ou outro gênero, como especulado abundantemente na imprensa – o mais provável é que a nova presidente imprima suas preferências pessoais e suas prioridades políticas à diplomacia que lhe caberá comandar a partir de 1o. de janeiro de 2011. Nessa área, porém, o peso da continuidade costuma ser maior do que no campo das políticas internas, inclusive porque a agenda vem em grande parte “pronta” do exterior. Alguns temas encontram-se inclusive na ordem do dia, como é sempre o caso nesse tipo de atividade, a exemplo dos que serão examinados a seguir.

Das três grandes prioridades do governo Lula na frente diplomática, não se pode dizer que alguma tenha sido encaminhada a seu termo lógico ou a resultados exitosos do ponto de vista do Brasil: o ingresso do Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas, por exemplo, encontra-se no terrenos das possibilidades difusas, e assim promete permanecer no futuro indefinido, ainda que o status do Brasil, como ator de relevo no cenário internacional, seja hoje amplamente reconhecido; as negociações comerciais multilaterais, por sua vez, devem se arrastar penosamente por pelo menos mais um ano inteiro, completando assim um ciclo frustrante de dez anos de tergiversações, mas sempre com o ativo envolvimento do Brasil em todas as fases e configurações negociadoras; a integração sul-americana, finalmente, caminha num ritmo ambíguo, com muitas iniciativas no plano político, mas resultados menos seguros nos terrenos econômico e comercial (que deveriam ser, aliás, a base da integração). Todos esses temas serão retomados pela nova administração, que talvez queira imprimir novas características às demandas e ofertas brasileiras nos diferentes capítulos e frentes de negociação. Vários dos itens na agenda, não dependem, a rigor, da postura brasileira, já que cada um deles, em seus contextos respectivos, carregam o peso de interesses muito diversificados por parte dos principais parceiros envolvidos.

No plano da governança global, os avanços continuam sendo muito lentos ou frustrantes: meio ambiente, coordenação econômica internacional, segurança e terrorismo, constituem, por sinal, temas que transcendem a tradicional postura Norte-Sul, que, segundo certas visões maniqueístas, dividiria o mundo em países desenvolvidos, de um lado, e em desenvolvimento, do outro. Não se pode dizer, assim, que a ênfase na diplomacia Sul-Sul que caracterizou o governo Lula tenha as respostas e o formato adequados ao encaminhamento de todos esses temas inscritos na ordem do dia das negociações internacionais, tanto porque alguns dos supostos aliados na causa do desenvolvimento podem perfeitamente exibir posturas protecionistas e subvencionistas que confrontam diretamente nossos interesses exportadores agrícolas, entre outros exemplos. Assim, algum pragmatismo na formação de coalizões negociadoras é sempre recomendável.

Em temas como o da integração regional, qualquer observador isento pode constatar a imensa distância que existe entre um modelo tradicional de liberalização comercial e de abertura econômica – que deveria situar-se, lógica e necessariamente, na base de qualquer processo “normal” de integração baseado em clássicas vantagens ricardianas – e um outro “modelo”, de caráter mercantilista, dirigista, estatizante e politizado, avesso ao capital estrangeiro e aos sistemas de mercados, como o que vem sendo impulsionado por alguns países na região. Assim, dificilmente se poderá dizer que o Mercosul sairá reforçado ou dotado de maior coerência intrínseca ao integrar novos membros que de fato perseguem um modelo situado nas antípodas do que se entende normalmente por integração econômica.

Em temas essencialmente políticos, talvez se tenha, igualmente, de proceder a uma revisão de conceitos, a partir de questionamentos que surgiram quanto à postura brasileira em matéria de direitos humanos, por exemplo. Observadores da área, em geral representantes de ONGs humanitárias, não deixaram de observar – e alguns interlocutores até a questionar concretamente votos brasileiros nos foros pertinentes – a mudança de postura do Brasil em diversas ocasiões que envolveram resoluções críticas em relação a países reconhecidamente violadores dos direitos humanos, a pretexto de “não politização” desses temas e de uma preferência pelo “diálogo direto”. Causou especial constrangimento, nessas áreas, visitas e palavras amigáveis dirigidas pelo presidente Lula a dirigentes desses países, que são os mais visados pela comunidade internacional envolvida na proteção dos direitos humanos e na defesa das liberdades democráticas de maneira geral.

Em qualquer hipótese, a presença do Brasil cresceu enormemente no cenário internacional nesses anos de intenso protagonismo político e de uma ativa diplomacia presidencial, a um ritmo que talvez seja difícil de manter para personalidades menos carismáticas ou menos suscetíveis de manter a credibilidade nacional em situações de ambiguidade em face dessas questões de direitos humanos ou de clara seletividade no tratamento do princípio de não-intervenção. Amizades ostensivas com personalidades autoritárias e relações políticas com países vistos com desconfiança pela comunidade internacional – geralmente pelas mesmas razões, acima apontadas, que preocupam entidades voltadas para os direitos humanos e as liberdades democráticas – podem até se inscrever na lógica política de partidos cujos instintos primários se situem nessa tradição filosófica antidemocrática, mas certamente não contribuem para elevar a reputação moral de um país ou de seus dirigentes.

Finalmente, a questão das parcerias seletivas certamente ganharia em ser vista menos do lado do antihegemonismo instintivo, com alguns laivos de anti-imperialismo démodé, e mais pelo lado pragmático dos benefícios que possa trazer uma cooperação bilateral fundada em critérios de excelência, independentemente de suas coordenadas geográficas. Para todos os efeitos práticos, fases de transição política são sempre carregadas de incerteza quanto ao itinerário futuro, mas nunca se pode excluir boas surpresas com base na renovação de quadros e de políticas.

 

Paulo Roberto de Almeida

Divulgado no blog Diplomatizzando (1/08/2026; link:).

 



Ascensão e queda da ficção compartilhada da democracia liberal - Macario Schettino, Noema (Instituto Berggruen)

 A instabilidade promete durar mais algum tempo. PRA

Ascensão e queda da ficção compartilhada da democracia liberal



Macario Schettino, Noema (Instituto Berggruen) (30/07/2026)

Dependendo de quem você perguntar, as origens da crise atual da democracia liberal variam bastante. Alguns apontam para a pandemia da Covid-19; outros para 2016, com a primeira presidência de Trump e o Brexit; outros ainda para a Grande Recessão, cujo impacto atingiu o pico nos Estados Unidos em 2009 e na Europa em 2012. Independentemente de quando a crise começou, ela ficou evidente em 14 de fevereiro de 2025.

Foi então que, na Conferência de Segurança de Munique, o vice-presidente JD Vance disse aos líderes europeus reunidos que a maior ameaça ao continente vinha de dentro: governos que não confiavam mais em seus próprios cidadãos, tribunais que anulavam eleições, o constante retrocesso da liberdade de expressão. Os Estados Unidos, disse ele, não podiam ser responsabilizados pela defesa de uma civilização que não se reconhecia mais. Horas depois, o secretário de Estado Marco Rubio ecoou sua mensagem: a ordem do pós-guerra havia acabado; o que viria a seguir seria transacional e multipolar. A reação europeia foi contundente. Friedrich Merz, a poucos dias de ser eleito chanceler alemão, afirmou que a Europa não podia mais contar com Washington. Editoriais por todo o continente recorreram à palavra traição.

Em um nível mais profundo, a crise atual, assim como outras de natureza semelhante antes dela, foi impulsionada pelo colapso de “ficções compartilhadas”: termo cunhado pelo filósofo Yuval Noah Harari para descrever crenças comuns sobre o poder do dinheiro, religiões e nações. Em sua obra fundamental, “Sapiens”, ele argumenta que a cooperação humana em larga escala requer convicção coletiva nessas ficções. Compreender como as ficções compartilhadas se formam e desmoronam oferece uma estrutura útil para navegarmos pelo momento atual.

As sociedades se organizam em torno de um tipo específico de ficção, que chamo de crenças transcendentes : a fé em algo que perdura além da morte individual e, portanto, orienta os vivos. Somos os únicos animais que sabem que vão morrer e os únicos que construíram ficções coletivas permanentes em torno desse conhecimento. Somos também os únicos que desenvolveram uma linguagem complexa que permite essas ficções. Ao longo da história, nossos sistemas de crenças permaneceram relativamente estáveis ​​até que algo os perturbasse e, por muito tempo, essas perturbações foram causadas por mudanças climáticas.

Considere o fim da última Era Glacial, que coincidiu com o surgimento do culto aos ancestrais em partes do Oriente Próximo. Os mortos não eram considerados como tendo desaparecido completamente, mas sim como permanecendo presentes na comunidade, ancorando a cooperação entre grupos cada vez mais sedentários. Esse sistema de crenças transcendentais ajudou a estabilizar os primeiros assentamentos e, após o fim da onda de frio conhecida como Dryas Recente, apoiou o desenvolvimento da agricultura e de uma organização social mais permanente e em maior escala.

Milhares de anos depois, o evento de 8,2 mil anos atrás levou à ascensão de “pequenos deuses” politeístas, que integraram múltiplos clãs em centros urbanos primitivos, gerenciando tanto a solidariedade interna quanto as relações interclânicas. O subsequente evento de 4,2 mil anos atrás marcou uma transição ainda maior em direção a “Grandes Deuses” moralizantes, cuja autoridade universal sustentava estados territoriais maiores e impérios primitivos. Essas estruturas evoluíram gradualmente para monoteísmos universais, que forneceram estruturas legitimadoras para civilizações de milhões de habitantes.

Repetidamente, os choques climáticos serviram como marcos da evolução cultural, desestabilizando as ordens sociais existentes e gerando novos sistemas de crenças transcendentes que possibilitaram a cooperação em larga escala. Mas, no século XVI, a origem das rupturas mudou. Passou a ser a comunicação. Como nossas ficções coletivas são construídas sobre a linguagem, as novas tecnologias de comunicação implicam a necessidade de novas ficções. Cada novo meio de comunicação forçou uma reformulação da estrutura transcendente, que passou a se concentrar na vida dos indivíduos: cidadania, nação, classe.

Estamos vivenciando agora uma dessas reformulações e, quer tenham percebido ou não, as pessoas presentes no Munich Hall em 14 de fevereiro de 2025 testemunharam o desmoronamento de uma crença transcendental em tempo real.

Um novo motor de mudança

Em 1517, a imprensa mudou tudo. O padre e teólogo alemão Martinho Lutero escreveu suas “95 Teses” à mão naquele ano para protestar contra a venda de indulgências pela Igreja Católica Romana. Logo depois, as teses foram traduzidas do latim para o alemão, reproduzidas usando a imprensa de tipos móveis e amplamente distribuídas. Em uma geração, centenas de milhares de panfletos espalharam os argumentos de Lutero pelo norte da Europa mais rápido do que a Igreja conseguia responder, dando início à Reforma Protestante. Pela primeira vez, a estrutura transcendental não mudou por causa de um evento climático, mas sim por causa de uma transformação na tecnologia da comunicação.

Não só a força disruptiva mudou, como também houve uma mudança transcendental em direção à individualidade em vez da coletividade. Entre outras ideias, a proposta de Lutero de que a relação com Deus poderia ser pessoal e direta — que a Bíblia poderia ser lida por qualquer pessoa, sem a necessidade da intermediação de um sacerdote ou da Igreja — permitiu que as correntes individualistas florescessem, especialmente no norte da Europa. As tensões religiosas que foram indiretamente fomentadas pelo uso da imprensa para disseminar as ideias de Lutero lançaram as bases para a Guerra dos Trinta Anos. Os indivíduos não precisavam mais acreditar no mesmo deus, ou da mesma maneira, mas ainda tinham que viver juntos. Aproximadamente um terço da população da Europa Central morreu na guerra.

A segunda mudança impulsionada pela comunicação ocorreu com o surgimento dos jornais e cafés no século XVIII. Pessoas sem formação religiosa agora podiam acompanhar debates públicos em tempo real e discuti-los. Quando o terremoto de Lisboa de 1755 destruiu uma importante capital europeia no Dia de Todos os Santos, as explicações oferecidas — castigo divino versus desastre natural — tornaram-se um teste público para determinar qual perspectiva transcendental prevaleceria. O Iluminismo foi a resposta que emergiu, oferecendo uma nova maneira de compreender o mundo sem depender de dogmas religiosos. Deu origem a duas experiências políticas: a Revolução Americana, ainda enraizada no sistema anterior, e a Revolução Francesa, na qual uma nova entidade transcendental foi coroada no centro — o cidadão, portador de direitos inalienáveis, membro de um povo soberano.

A estrutura centrada no cidadão estabilizou-se por volta de 1815 e manteve-se durante um século. A próxima ruptura na comunicação foi a mídia de massa, especialmente o rádio e o cinema. Essas tecnologias foram fundamentais para a propaganda durante a Primeira Guerra Mundial, mas foram ainda mais importantes para alimentar os medos e a raiva que levaram à Segunda: desde o filme de 1915 “O Nascimento de uma Nação”, que incitou o racismo nos EUA, até os discursos radiofônicos de Mussolini e Hitler, e a glorificação de Hitler pelos filmes de Leni Riefenstahl na década de 1930 e dos soviéticos por Sergei Eisenstein na década de 1920. A mídia de massa possibilitou que uma única voz alcançasse milhões, o que, por sua vez, tornou possível a marca registrada do totalitarismo: a emoção nacional fabricada.

Após a Segunda Guerra Mundial, a televisão proporcionou um equilíbrio mais estável. Uma pessoa diante de uma tela podia agora alcançar milhões com um punhado de ideias simples — emprego, salários, impostos, o estado de segurança — e os partidos políticos se organizavam em torno dessas ideias, as agrupavam em plataformas e as vendiam nas eleições. Esse era o sistema da democracia liberal do pós-guerra: o cidadão como consumidor das opções de política nacional.

Esse sistema começou a se dissolver em 2006 com o lançamento das plataformas modernas de mídia social, acelerou-se em 2007 com o smartphone e entrou em colapso entre 2008 e 2011 com a Grande Recessão. A televisão havia concentrado a influência nas vozes de um grupo seleto; as mídias sociais a fragmentaram novamente entre centenas de milhões. As ideias nacionais simples em torno das quais a democracia do pós-guerra se organizou não conseguiam mais prender a atenção diante de um fluxo de identidade, queixas, teorias da conspiração e guerra cultural. O espaço compartilhado da televisão aberta tornou-se o mercado barulhento das redes sociais.

Munique e arredores

Em Munique, no ano passado, a crença transcendental com a qual J.D. Vance rompeu foi a convicção na cidadania — especificamente, a versão do pós-guerra que os próprios Estados Unidos haviam construído. Essa versão sustentava que um cidadão é um cidadão em qualquer lugar, que os direitos dos seres humanos são universais e precedem os Estados, que a democracia liberal é a única forma política legítima e que o Ocidente é a comunidade de nações que compartilha essas convicções. Essa é a estrutura que permitiu que mais de 300 milhões de americanos, meio bilhão de europeus e vários bilhões de pessoas em todo o mundo cooperassem em uma escala sem precedentes como uma comunidade internacional de parceiros comerciais e aliados. É uma estrutura transcendental no verdadeiro sentido da palavra: uma ficção que nos permite cooperar além de nossos limites biológicos.

Essa estrutura tem sido frágil desde o início porque, de certa forma, nos pede para aceitar que não existe alma, nenhuma outra dimensão, nenhum ancestral que esteja observando, nenhum deus que nos reconheça. Pede-nos para aceitar que o que nos une, milhões de estranhos dentro de uma nação, é principalmente um equilíbrio entre preços de mercado e votos. Isso é difícil. É a estrutura transcendente mais difícil que os humanos já tentaram adotar, porque não oferece nenhum conforto. Todas as estruturas anteriores eram acompanhadas pela crença de que fazíamos parte de algo que jamais poderia morrer por completo.

Talvez por causa dessa verdade incômoda, a história da estrutura da cidadania inclua duas saídas, duas aparentes vias de fuga, que surgiram e ressurgiram em diferentes formas ao longo dos últimos séculos. A primeira é restauracionista: a convicção de que devemos retornar a um mundo ordenado pela religião e seu reflexo terreno. Essa era a posição do Antigo Regime contra a Revolução Francesa, do carlismo espanhol, dos vários movimentos clerical-monárquicos do século XIX. É a estrutura de grande parte do populismo de direita contemporâneo. O movimento americano MAGA, em suas formas mais desenvolvidas, é restauracionista: imagina um retorno a uma nação pré-globalista, mais religiosa e mais homogênea racialmente. Os populistas europeus da última década, de Viktor Orbán, da Hungria, a Marine Le Pen, da França, se basearam em ideias semelhantes. Estruturalmente, todos são tentativas de trazer de volta o deus da tribo.

A segunda via de saída é utópica: a convicção de que podemos construir uma nova ordem transcendente, mas uma ordem concebida pela minoria iluminada que compreende a direção correta da história. Isso foi o jacobinismo, depois o marxismo-leninismo e, em seguida, os vários totalitarismos de esquerda do século XX. O projeto identitário progressista que emergiu nas universidades ocidentais e se espalhou pelas instituições na última década — às vezes chamado de “Woke” por seus críticos, embora tenha muitos nomes e muitas variações internas — é descendente do mesmo impulso: uma teoria sagrada da história (opressão, interseccionalidade, libertação), uma vanguarda iluminada, um projeto de reformulação das instituições para alinhá-las à teoria e uma acusação moral contra aqueles que resistem.

No século XX, os defensores do restauracionismo e do utopismo — fascismo e comunismo — lutaram contra o liberalismo e o modelo de cidadania, mas também entre si, pelo controle dos Estados. No século XXI, lutam pelo controle das culturas dentro dos Estados. O conflito não gira mais em torno dos meios de produção, mas sim da produção de significado. O rumo da disputa, país por país, depende de qual vertente prevalece nas instituições de elite e nas redes sociais. Munique, em fevereiro de 2025, foi o momento em que a resposta restauracionista deixou de ser uma questão interna americana e se tornou uma ameaça à própria arquitetura do Ocidente.

O que nenhum dos lados admite é que ambas as soluções são anacrônicas. Ambas buscam deuses do passado. Nem o restauracionismo nem o utopismo conseguem responder ao problema mais profundo, que é a ausência de uma estrutura transcendente estável para um mundo de 8,3 bilhões de pessoas conectadas por algoritmos. Essa estrutura ainda não existe. Não sabemos como ela será. Não será como a cidadania de um Estado-nação, nem como a cristandade medieval, nem como a ditadura do proletariado.

Pode levar muito tempo para que isso aconteça. A Reforma Protestante precisou de 131 anos para se consolidar na Paz de Vestfália. O Iluminismo precisou de ainda mais tempo. A transição para a era da mídia de massa gerou duas guerras mundiais e uma Guerra Fria antes que a ordem pós-guerra se estabilizasse. A transição para as mídias sociais ainda está em seus estágios iniciais.

O que vem a seguir

Existe um padrão aqui que pode nos dar um motivo para ter esperança: cada uma das interrupções anteriores causadas pela comunicação foi eventualmente controlada pela mesma tecnologia que as provocou.

A imprensa desmantelou a estrutura medieval por meio do panfleto polêmico e, mais lentamente, construiu uma nova estrutura por meio do tratado impresso e da enciclopédia. A imprensa que rompeu com a Cristandade foi a mesma que produziu o Iluminismo. Os primeiros jornais do século XVIII alimentaram o espírito revolucionário que derrubou o Antigo Regime ; o jornal maduro do século XIX tornou-se o companheiro diário da estável democracia cidadã de 1815 a 1914. Os meios de comunicação de massa do período entre guerras — filmes de propaganda, a voz radiofônica do demagogo — produziram a emoção fabricada que sustentava os regimes totalitários; os meios de comunicação de massa do período pós-guerra — a televisão aberta, o jornalismo regulamentado, os noticiários da noite — produziram o debate nacional mais sereno que a ordem pós-guerra exigia. Em cada caso, o que inicialmente fragmentou a esfera pública foi o que, em sua forma mais madura, acabou por reconstruí-la.

Se o padrão se mantiver, a ruptura causada pelas redes sociais não será resolvida com o abandono delas. Será resolvida pela próxima iteração das redes sociais, moldada pela inteligência artificial. Ainda estamos na fase caótica, a fase que historicamente corresponde às Guerras de Religião ou ao rádio dos demagogos. A interação da IA ​​com as plataformas sociais pode aprofundar o caos atual, mas também é a candidata mais plausível para, eventualmente, domar a desordem. A nova estrutura transcendente, seja qual for o seu conteúdo, não surgirá apesar dessas tecnologias. Ela surgirá por meio delas.

Ao longo dos últimos 500 anos, três grandes transformações resultaram das novas tecnologias de comunicação, cada uma delas gerando inicialmente um enorme caos e até mesmo a expectativa de um desastre iminente. Mas o resultado foi um mundo cada vez mais democrático: a imprensa possibilitou a liberdade de religião, de expressão e de organização; os jornais puseram fim à velha ordem e promoveram a expansão do liberalismo por toda a Europa; os meios de comunicação de massa permitiram a ascensão de autocratas como Mussolini, Hitler e Stalin, mas, posteriormente, expandiram a democracia.

As redes sociais e a IA oferecem a possibilidade de avançarmos rumo a uma hiperdemocracia. Agora é possível construir uma plataforma onde cada um de nós possa se conectar com as questões relevantes: recebendo informações, debatendo-as e votando. Isso pode moldar políticas públicas, influenciando as ações do Congresso. O enorme potencial da IA ​​para coordenar as contribuições de bilhões de pessoas e traduzi-las em opções, objetivos e estratégias a serem votadas — seja por grupos de interesse ou pela população em geral — não pode ser subestimado.

Como sempre, existe o risco de algum grupo controlar a plataforma, o que também aconteceu com os livros que podiam ser publicados, as notícias que acabavam impressas e, notoriamente, o controle dos meios de comunicação de massa. Nada é perfeito, mas a história mostra que a evolução funciona.

Enquanto isso, vivemos na lacuna. Perdemos a estrutura anterior e ainda não construímos uma nova. Nossas instituições ainda funcionam, mas com legitimidade decrescente, porque foram concebidas para cidadãos organizados pela mídia. Nossos populistas ascendem, mas não conseguem construir, porque suas propostas são versões de sistemas antigos que não conseguem abranger toda a nossa sociedade. Nossos intelectuais diagnosticam a crise, mas não conseguem resolvê-la, porque a solução exige uma mudança transcendente que ainda não é possível.

O sentimento por trás do discurso de Vance em Munique não começou em 2025. Começou em 2006, ou até antes. A pergunta que ele fez é a mesma que foi colocada em todas as transições anteriores: Que nova narrativa podemos contar a nós mesmos que nos permita cooperar na escala em que vivemos hoje?

Não sabemos qual será a nova estrutura. Mas a longa trajetória da evolução cultural humana sugere duas coisas. Primeiro, que uma nova estrutura se formará, porque sempre houve uma, embora frequentemente por meio de um processo muito doloroso. Segundo, que ela será construída a partir dos mesmos materiais que atualmente nos fragmentam — as redes, os algoritmos, as inteligências artificiais que estão remodelando a forma como nos conectamos, raciocinamos e decidimos o que é real.

A nova ficção transcendente provavelmente será construída pela próxima geração, pessoas que estão crescendo em meio às novas tecnologias e que aceitarão como evidentes condições que consideramos frustrantes ou mesmo insustentáveis. Quando essa estrutura finalmente se consolidar, as convulsões do nosso tempo se tornarão compreensíveis da mesma forma que o debate sobre o direito divino dos reis é hoje entendido: como a longa morte de um sistema cujo deus já havia desaparecido e a lenta chegada de qualquer deus — ou crença transcendente — que a tecnologia e a máquina estejam preparando para colocar em seu lugar.

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O mais idiota dos colapsos imperiais da História - Paulo Roberto de Almeida

O mais idiota dos colapsos imperiais da História: ou como destruir um império ainda jovem em menos de oito anos

Paulo Roberto de Almeida

Este jornalista americano, Ryan Cooper, caracterizou exatamente, logo ao início da aventura trumpista, no começo do seu segundo mandato, a história recente do que foram, antigamente, os Estados Unidos da América, agora transformado num decadente, patético e declinante império de apenas 250 anos. Pouco nos registros históricos: Roma durou seis séculos, o império otomano também, o dos Habsburgos um pouco menos, mas o americano não conseguiu ultrapassar cem anos, desde 1917, quando tropas americanas desembarcaram no norte da França, para ajudar a combater os soldados do Império alemão, o segundo Reich. 2017 foi exatamente quando DJT começou a presidir um império hesitante, mas ainda vigoroso. Trump deu início à auto-desescalada, agora acelerada, graças à sua ignorância prepotente, e ao cálculo mal feito de seu amigo israelense. Eis o artigo, de título esplendoroso:


 Ryan Cooper: 

Musk and Trump Are Causing the Dumbest Imperial Collapse in History” 

The American Prospect, February 19, 2025


Agora que Musk já voltou a cuidar de seus negócios, o papel de provocar o mais idiota dos colapsos imperiais passou a ser desempenhado pelos guardas revolucionários da República Teocrática do Irã. 

Não é irônico? E quem diria?


Xi Jinping assiste impassível a tudo isso, sabendo que não precisa fazer nada: uma hegemonia universal que ele não deseja, ou que não planejou, lhe está sendo oferecida gratuitamente.


Putin, por sua vez, assiste a tudo isso muito desesperado: o bobalhão “transacional”, conquistado décadas atrás pelo KGB (hoje administrado pelo FSB e seu chefe mafioso e cleptocrático) está destruindo não apenas uma República de 250 anos, mas levando também consigo o seu império despótico multissecular.


Nos anos 1930, as turbulências inter-imperiais conduziram, pela estranha aliança entre dois tiranos, Hitler e Stalin,  à mais terrivel das conflagrações da História em escala mundial. Improvável que isto volte a acontecer: os dois atuais produtores de instabilidade não conseguirão produzir nova catástrofe, não porque não queiram, mas porque seus respectivos chefes militares lhes denegarão o acesso ao botão nuclear.


E quanto ao nosso Brasil?

Como potência média, devemos ater-nos à nossa circunstância orteguiana, que é constituída pela América do Sul, que Trump pretenderia converter no seu domínio hemisférico. Mas isso não vai acontecer: Canadá, México e Brasil nunca consentirão em se tornar colônias de um império temporariamente afetado por um desequilibrado narcisista maligno, psicopata e doentio.

Embora, no caso do Brasil, podemos ser afetados por dois fatores indesejáveis: por um lado, uma vontade infantil, mas motivada por um anacrônico anti-imperialismo antiamericano, de construir, segundo propostas de um outro império disfuncional, uma “nova ordem global multipolar”, e, por outro lado, a estúpida servidão voluntária de quem pretende ser submisso ao império do Norte, dirigido no momento pelo já citado psicopata megalomaníaco.

Deveríamos ater-nos aos fundamentos doutrinais de nossa diplomacia, que sempre recomendou preservar nossa autonomia decisória em política externa e não nos envolvermo-nos nos conflitos entre as grandes potências. Rio Branco (os dois, mas sobretudo o pai), Rui Barbosa, Oswaldo Aranha, San Tiago Dantas precisam ser lidos, conhecidos, por quem pretenderia comandar o Brasil.

É a minha recomendação.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 1/08/2026

Divulgado no blog Diplomatizzando (1/08/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/o-mais-idiota-dos-colapsos-imperiais-da.html).  

Ditadura Constitucional: o regime preferido de DJT - Regime Change: Inside the Imperial Presidency of Donald Trump - Maggie Haberman, Jonathan Swan, Mark Danner, The New York Book Review of Books

Book Review:

Regime Change: Inside the Imperial Presidency of Donald Trump

Maggie Haberman, Jonathan Swan

(Simon and Schuster, 464 pp.)

(Minhas elaborações a partir de resenha por Mark Danner, na New York Review of Books, August 20, 2026) (jpeg do artigo mais abaixo)

        Ditadura Constitucional, este é o regime, o império quase monárquico absoluto, o desejado governo autoritário do desequilibrado, egocêntrico e narcisista presidente americano, que aparentemente está conseguindo mudar a face, a arquitetura e o modo de funcionamento da antiga e exaurida democracia americana, exatamente quando a República nascida de uma Declaração libertária (mas hipócrita) está “comemorando” 250 anos de uma existência geralmente bem-sucedida, mas agora patética e deplorável em sua feição mais ridícula, mais perigosa e objetivamente prejudicial, não só para si mesma, mas para o mundo inteiro, inclusive para o Brasil, que está sendo objeto de uma incessante campanha persecutória para fazê-lo dobrar-se à vontade do ditador improvisado, que se imagina um êmulo de um Stalin, de um Mao, eventualmente até de um Hitler, mas que não é nada mais do que um joguete nas mãos de um verdadeiro seguidor de um dos tiranos mais insossos da longa história do velho e anacrônico imperialismo russo.

        A New York Review of Books de 20 de agosto de 2026 tem uma resenha desse livro escrito por dois jornalistas do New York Times, que recuperaram o conceito de “ditadura constitucional” de um historiador americano em um livro de 1948, e que não estava destinado a caracterizar a então presidência de Harry Truman. 

O livro do  historiador e cientista  político Clinton Rossiter é este aqui: Constitutional Dictatorship: Crisis Government in the Modern Democracies (Princeton University Press, 1948). 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5419, 1 agosto 2026, 1 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (1/08/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/ditadura-constitucional-o-regime.html)

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KMT y PCCh: Una Tercera Cooperación? - Xulio Rios ( Observatório Política China)

KMT y PCCh: Una Tercera Cooperación?

 Xulio Rios

Observatório Política China, 24/07/2025 

El Kuomintang (KMT) y el Partido Comunista de China (PCCh) han protagonizado buena parte de la historia contemporánea china. Durante más de un siglo han representado dos proyectos políticos enfrentados, enfrentamiento que desembocó en una larga guerra civil y en la división política que persiste hasta nuestros días entre el continente y Taiwán. Sin embargo, reducir su relación a una mera sucesión de conflictos sería una simplificación. Ambos partidos comparten un origen histórico, ciertos rasgos organizativos, una preocupación común por la reconstrucción nacional y, aunque de forma desigual, también han terminado influyéndose mutuamente.

En cierto modo, la historia del KMT y del PCCh es la historia de dos respuestas diferentes a una misma pregunta: cómo devolver a China la unidad, la estabilidad y la prosperidad tras el colapso del orden imperial y el llamado “siglo de las humillaciones”. De entrada, ambos surgieron de la misma crisis histórica -la descomposición del Estado imperial y la necesidad de reconstruir China- y compartieron durante sus orígenes no solo aliados y enemigos, sino también métodos de organización, cultura política y una misma ambición

Su propia génesis revela más afinidades de las que habitualmente se reconocen. La fundación del PCCh en 1921 coincidió con un profundo proceso de reorganización del KMT impulsado por Sun Yat-sen. En aquellos años, la Unión Soviética desempeñó un papel decisivo favoreciendo la cooperación entre ambos partidos. Moscú entendía que la revolución china debía desarrollarse mediante una alianza entre nacionalistas y comunistas capaz de acabar con el poder de los caudillos militares -los temidos “señores de la guerra”- y completar la unificación nacional.

Ese acercamiento dio lugar al Primer Frente Unido (1924-1927). La influencia soviética no se limitó a la cooperación política. Alcanzó también la propia organización interna de ambos partidos. La influencia soviética también introdujo en China una nueva forma de organización política simbolizada por el partido de cuadros disciplinados, jerarquizado y dotado de una dirección central fuerte. Tanto el KMT reorganizado por Sun Yat-sen como el joven PCCh incorporaron elementos de ese modelo leninista. De ahí que todavía hoy sus estructuras presenten sorprendentes semejanzas en la denominación y funcionamiento de muchos de sus órganos dirigentes. El KMT incorporó numerosos elementos inspirados en el centralismo democrático y en el modelo leninista de partido vertical, mientras el PCCh asumía naturalmente esa misma concepción organizativa. No es casual que ambos desarrollaran estructuras sorprendentemente similares, con congresos nacionales, comités centrales, burós políticos, departamentos especializados y una fuerte disciplina interna.

La creación de la Academia Militar de Whampoa simbolizó esa etapa. Allí coincidieron dirigentes nacionalistas y comunistas bajo la misma misión de construir un ejército revolucionario capaz de reunificar el país. Durante algunos años, la diferencia fundamental entre ambos no residía tanto en el objetivo nacional como en el modelo social y político que debía seguir a la revolución.

Precisamente esa proximidad explica el persistente esfuerzo soviético por mantener unidos a ambos movimientos durante la década de 1920. Desde Moscú se consideraba que la cooperación era indispensable para culminar la revolución nacional china. Sin embargo, la creciente influencia del ala conservadora del KMT, encabezada por Chiang Kai-shek, hizo cada vez más difícil la convivencia. La ruptura de 1927, con la represión de los comunistas en Shanghái, puso fin a aquella “primera cooperación” y marcó el inicio de una confrontación que solo quedó temporalmente suspendida durante la guerra de resistencia contra Japón mediante la “segunda cooperación”.

A partir de entonces, ambos partidos emprendieron caminos claramente diferenciados. El KMT consolidó un régimen nacionalista que, tras la derrota en la guerra civil, se trasladó a Taiwán. El PCCh, por su parte, estableció la República Popular China en 1949 e inició la construcción de un sistema socialista bajo el liderazgo de Mao Zedong.

Influencias cruzadas

Paradójicamente, la separación política no impidió que décadas después aparecieran influencias cruzadas. El desarrollo económico experimentado por Taiwán bajo los gobiernos del KMT constituyó una referencia observada con atención desde el continente. Aunque las circunstancias históricas eran muy distintas, la combinación taiwanesa de reforma agraria, fuerte intervención estatal, planificación estratégica, promoción de la industria exportadora y apertura gradual a la economía internacional presentaba elementos que encontrarían eco en las reformas impulsadas por Deng Xiaoping a partir de 1978. El PCCh no imitó el modelo taiwanés, pero sí ponderó atentamente sus resultados.

Naturalmente, las diferencias seguían siendo profundas. Mientras Taiwán evolucionaba hacia una economía de mercado sustentada sobre la propiedad privada, el continente mantuvo el predominio del sector público y el liderazgo político hegemónico del PCCh. Sin embargo, ambos acabaron compartiendo una convicción semejante basada en la idea de que el desarrollo económico constituía el principal fundamento de la legitimidad política y de la recuperación nacional.

La influencia del KMT resultó todavía más visible en otro terreno: la evolución institucional de Taiwán. Entre finales de los años ochenta y la década de los noventa, el partido protagonizó una transición relativamente ordenada desde un régimen autoritario hacia una democracia liberal. Aquella transformación alimentó durante años numerosas interpretaciones occidentales según las cuales el crecimiento económico del continente desembocaría inevitablemente en una evolución política semejante.

El PCCh nunca compartió ese diagnóstico. Desde su perspectiva, la democratización taiwanesa no constituye un modelo exportable sino el resultado de circunstancias históricas específicas. Lejos de considerar agotado su sistema político, el Partido sostiene que la estabilidad institucional y el liderazgo unificado constituyen condiciones indispensables para culminar la modernización socialista y alcanzar la reunificación nacional. De ahí su insistencia en reforzar la capacidad dirigente del Partido en lugar de avanzar hacia un modelo liberal basado en la alternancia multipartidista.

A pesar de sus diferencias, existen todavía importantes puntos de encuentro entre el KMT y el PCCh. El más significativo continúa siendo la oposición a una declaración formal de independencia de Taiwán. Aunque discrepan profundamente sobre la naturaleza del futuro marco político, ambos siguen considerando que existe una sola China y que la separación definitiva de la isla supondría una ruptura inaceptable del proceso histórico nacional.

Ese terreno compartido explica que, especialmente desde comienzos del siglo XXI, ambos partidos hayan recuperado canales de diálogo. El encuentro entre Lien Chan y Hu Jintao en 2005 simbolizó la posibilidad de una interlocución directa entre antiguos enemigos históricos, posteriormente reforzada durante los gobiernos de Ma Ying-jeou (2008-2016). Ese fue el marco que instituyó la “tercera cooperación” entre ambas formaciones.

Más allá de la cuestión territorial, ambos partidos comparten una creciente reivindicación del nacionalismo chino entendido como proyecto de rejuvenecimiento nacional. También coinciden en la importancia atribuida a la continuidad histórica de la civilización china, a la recuperación de las tradiciones culturales y a la necesidad de fortalecer una identidad nacional capaz de sostener la modernización. Resulta significativo que el PCCh haya incorporado progresivamente elementos procedentes del pensamiento clásico confuciano, de la tradición imperial y de la cultura china como parte de un discurso ideológico cada vez más ecléctico, en el que el marxismo convive con referencias al patrimonio civilizatorio nacional.

Surge entonces una cuestión particularmente sugerente. Si el continente terminó incorporando instrumentos económicos que habían demostrado su eficacia en otros contextos asiáticos, entre ellos el taiwanés, ¿podría producirse una influencia semejante en el plano ideológico o institucional?

Todo indica que esa posibilidad resulta hoy mucho más limitada. Las reformas económicas respondían a un problema eminentemente instrumental, es decir, cómo desarrollar las fuerzas productivas sin renunciar al liderazgo político del Partido. En cambio, el pluralismo político afecta directamente al núcleo del sistema de poder construido por el PCCh. La dirección china considera que coquetear con el abandono de la hegemonía política equivaldría a poner en riesgo tanto la estabilidad interna como el propio proceso de modernización en su adjetivación socialista.

Ello no significa que la evolución ideológica haya quedado congelada. Al contrario, el Partido ha demostrado una notable capacidad de adaptación doctrinal. La incorporación de empresarios privados, la formulación de la “triple representatividad”, el concepto de desarrollo científico o la actual reivindicación de la revitalización cultural muestran un elevado grado de flexibilidad. Sin embargo, esa adaptación se produce siempre dentro del marco de continuidad del liderazgo del Partido y no mediante su cuestionamiento sino apelando a su reafirmación.

La cultura, eje de un nuevo acercamiento: la “tercera cooperación +”

Precisamente la revitalización cultural impulsada en los últimos años puede desempeñar un papel relevante. Al integrar tradiciones confucianas, referencias históricas, patriotismo, socialismo y objetivos de modernización, el PCCh ha construido una narrativa mucho más amplia que la estrictamente marxista. En ese terreno, algunos elementos tradicionalmente reivindicados por el KMT -la continuidad de la civilización china, la centralidad de la cultura nacional o la recuperación del orgullo histórico- han dejado de ser patrimonio exclusivo del nacionalismo republicano para incorporarse también al discurso oficial del continente.

Ello no supone una convergencia ideológica plena entre ambos partidos, pero sí refleja la existencia de un espacio común definido por el nacionalismo, la continuidad civilizatoria y la aspiración compartida al rejuvenecimiento de China.

¿Cabe esperar, entonces, un giro de ciento ochenta grados por parte del PCCh? A la luz de su evolución histórica, parece improbable. La experiencia de las últimas décadas sugiere que el Partido modifica instrumentos, políticas y discursos cuando considera que ello fortalece su capacidad de gobierno, pero preserva cuidadosamente aquello que identifica como el fundamento de su legitimidad, es decir, el liderazgo político del Partido y la continuidad del proyecto nacional.

Más que una transformación abrupta, resulta más plausible prever nuevas formas de adaptación, combinando innovación institucional, flexibilidad doctrinal y continuidad política. En ese proceso, el KMT probablemente seguirá desempeñando un papel como interlocutor privilegiado en las relaciones entre ambas orillas del Estrecho y como recordatorio permanente de que, pese a recorrer caminos distintos desde hace casi un siglo, ambos partidos siguen compartiendo una misma cuestión histórica sin resolver: cómo culminar la reunificación nacional y definir el futuro político de China.

Quizá la cuestión ya no sea si el PCCh acabará pareciéndose al KMT en términos políticos. La experiencia de las últimas décadas sugiere lo contrario. La verdadera pregunta es otra: hasta qué punto el Partido Comunista seguirá incorporando componentes del viejo nacionalismo chino -historia, cultura, civilización y unidad nacional- para reforzar su propia legitimidad. La propia existencia del KMT recuerda al PCCh que la legitimidad en China no puede basarse solo en la ideología de signo socialista, sino también en la capacidad de representar a la sociedad china en su conjunto. Si esa tendencia continúa, la paradoja será aún mayor: después de un siglo de guerra, revolución y separación, los dos grandes partidos de la China moderna podrían encontrarse menos divididos por la idea de “nación” que por la forma de organizar el poder que debe gobernarla.

El reconocimiento recíproco del valor de la cultura común otorga entonces un plus de incalculable valor para estabilizar su entendimiento.

Artículo publicado en: xuliorios.com

 

 

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