segunda-feira, 2 de março de 2026

Argentina e Brasil e suas respectivas ditaduras militares - Paulo Roberto de Almeida

Argentina e Brasil e suas respectivas ditaduras militares 

Paulo Roberto de Almeida 

        Os argentinos “comemoram” os 50 anos do inicio, em 1976, de uma das mais crueis ditaduras wue tiveram, aquela iniciada em 1976 e que se foi, na incompetência, em 1983, com a volta dos Radicais ao poder (Alfonsin)

        Interessante esse ciclo alternativo entre ditaduras e experimentos democráticos. Sim, a ditadura argentina iniciada (depois de algumas outras) em 1976, foi efetivamente cruel. 

        Comparativamente, a nossas foram, por acaso menos crueis? O que tivemos? O próprio Deodoro, seguido por Floriano. Depois o próprio Exercito se encarregou de afastar Washington Luis e abrir o caminho para Vargas. Este, com o apoio do Exercito, iniciou ditadura do Estado Novo, e caiu depois de abandonado pelo Exército. 

        As FFAA voltaram num golpe em 1964, mas não foram, ao inicio, tão crueis como os argentinos, mas em 1968-69 acentuaram a crueldade quando provocadas pelos movimentos guerrilheiros e da própria sociedade civil. Se autoeliminaram por incompetência na economia e nos repentes de crueldade da “tigrada” em 1984-85. 

        Tentaram ser dominantes novamente, como força de apoio de um novo ciclo autoritário em 2017-18, mais por oportunismo, do que por vontade de governar outra vez. O “comandante em chefe”, por incompetência e covardia, não soube sequer dar um golpe “decente”, ou “en bonne et due forme”. A sociedade civil prevaleceu. 

        Parece que se encerrou no Brasil o ciclo militar iniciado em 1889. Será verdade?             Voltamos, desta vez definitivamente, ao ciclo normal de conservadores civis, oligarcas predatórios e populistas não carnívoros (de direita e de esquerda), que sempre governaram o pais independente? 

        Talvez…

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 2/03/2026


Uma trajetoria de vida - Danilo Bueno e PRA

Danilo Bueno escreveu:

“Desde que nasci já rolou:

- 1976 - Crise do petróleo 

- 1977 - Geisel fecha Congresso Brasileiro

- 1978 - 1° bebê de proveta / Ano dos 3 Papas

- 1979 - Revolução islâmica no Irã

- 1980 - Star Wars: Oimpério contra-ataca

- 1981 - Atentado Rio Centro

- 1982 - Crise da Dívida Externa - FMI

- 1983 - Hiperinflação no Brasil 

- 1984 - Movimento Diretas Já

- 1985 - Fim da Ditadura no Brasil 

- 1986 - Acidente Nuclear de Chernobyl 

- 1989 - Queda do Muro de Berlim 

- 1990 - Guerra do Golfo

- 1991 - Fim da Guerra Fria

- 1994 - Plano Real

- 2001 - 11 de Setembro

- 2003– Guerra do Iraque

- 2008 - Crise financeira

- 2020 — COVID-19

- 2022– Início da guerra Rússia × Ucrânia

- 2024 - Israel x Palestina 

- 2025 - Ataque a Venezuela

- 2026 - EUA x Irã”


PRA: Bem, eu teria o dobro de eventos memoráveis a repercutir aqui, antes e no meio dessa lista relevante de fatos nacionais e internacionais, como por exemplo:

- 1949 - Nuclearização da URSS

- 1950 - Derrota do Brasil na final da Copa do Mundo no Brasil 

- 1950 - Guerra da Coreia

- 1953 - Armistício na Coreia

- 1953 - Golpe contra Mossadegh no Irã

- 1956 - Ataque franco-britânico ao Egito pela nacionalização do Canal de Suez no Egito de Nasser

- 1958 - Vitória do Brasil na final da Copa do Mundo na Suécia

- 1959 - Revolução cubana 

- 1960 - Eleição consagradora de Jânio Quadros, o que prometia “varrer a corrupção do Brasil”

- 1961 - Política Externa Independente, de Afonso Arinos e renuncia de Janio da presidência em seis meses

- 1962 - Crise dos mísseis soviéticos em Cuba

- 1964 - Golpe de Estado no Brasil e inicio de uma ditadura militar de 21 anos

- 1968 - Golpe dentro do golpe, com o AI-5, e mais repressão no Brasil

- 1973 - Participação ativa da diplomacia brasileira no golpe militar de Pinochet contra o governo socialista democrático de Salvador Allende no Chile

-  1973 - Primeiro choque do petróleo: quadruplicação do preço do barril

- 1979 - Anistia no Brasil: retorno dos exilados e liberdade partidária

- 1979 - Segundo choque do petróleo 

- 2014 - Invasão e anexação ilegais da peninsula ucraniana da Crimeia pela Russia


Continuando… 

Paulo Roberto de Almeida

Uma notória disparidade de atitudes: guerra de regime change no Irã, guerra de agressão contra a Ucrânia - Paulo Roberto de Almeida

Uma notória disparidade de atitudes

Paulo Roberto de Almeida 

        Interessante observar que, quando se trata de atacar, mesmo legitimamente, o imperialismo americano, agora em sua versão mais canhestra da geopolítica da brutalidade, o Palácio do Planalto e o Itamaraty são extremamente rápidos e contundentes na expedição de notas condenatórias.

        Nunca se viu tamanha celeridade ou similaridade na feitura de notas de reprovação aos ataques criminosos do tirano de Moscou em sua guerra de agressão à Ucrânia. Aliás, nunca houve uma nota sequer lamentando os crimes de guerra e contra a humanidade praticados em violação flagrante da Carta da ONU e dos princípios mais elementares do Direito Internacional pelo Estado terrorista agressor. Tal subserviência chega a chocar a dignidade da diplomacia brasileira.

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 2/03/2026


Miséria da diplomacia outra vez? - Paulo Roberto de Almeida

Miséria da diplomacia outra vez?

Paulo Roberto de Almeida 

        O que teria de mais moralmente abjeto numa eventual volta da extrema direita bolsonarista ao poder em 2027 — ademais de, no plano puramente sanitário e da saúde publica, a terrível perspectiva de novo ciclo de negacionismo vacinal — é a possibilidade de mais submissão beata e vergonhosa, no plano da politica externa, ao destruidor do multilateralismo político e econômico, o ignorante pretensioso que se crê imperador do mundo e que pratica a geopolítica da brutalidade.

“Flávio critica nota do Itamaraty sobre ataque ao Irã - Revista Oeste. 
. “O Brasil não deve escolher o lado moralmente errado”, escreveu. Para o senador, “política externa responsável exige prudência…”


           Alinhamento servil a qualquer potência estrangeira não faz parte de nossas tradições diplomáticas. A politica externa bolsonarista destruiu o Itamaraty, retirou credibilidade da diplomacia brasileira e nos tornou “párias internacionais”. Não aos entreguistas de nossa soberania.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 2/03/2026

domingo, 1 de março de 2026

Relações Exteriores e Constituição (1986) - Paulo Roberto de Almeida

A partir da redemocratização de 1985, eu comecei a estudar o espaço e a importância das questões de relações exteriores em nossas cartas constitucionais. Este trabalho de dezembro de 1986 foi um dos primeiros elaborados nesta série. Depois foram feitos muitos outros mais. Em todo caso, o trabalho abaixo nunca tinha sido colocado à disposição dos que se ocuparam dessas questões, que vão integrar um volume que estou compondo neste momento.

138. “Relações Exteriores e Constituição”, Brasília, 8 dezembro 1986, 11 p. Artigo sobre a recuperação legislativa da fiscalização e controle da política externa do Executivo, nos EUA e no Brasil. Publicado na Revista Brasileira de Política Internacional (Rio de Janeiro, ano XXIX, n. 115-116, 1986/2, p. 83-90), na Revista de Informação Legislativa (Brasília, ano 24, n. 94, abril-junho 1987, p. 109-120) e na revista Política e Estratégia (São Paulo, vol. V, n. 2, abril-junho 1987, p. 256-263). ). Relação de Trabalhos Publicados n. 029, 037 e 039. Disponível na plataforma Academia,edu (link: https://www.academia.edu/164888774/Relacoes_Exteriores_e_Constituicao_1986_


A revolução que o PT nunca fez: sua própria modernização como partido socialdemocrata - Paulo Roberto de Almeida

A revolução que o PT nunca fez: sua própria modernização como partido socialdemocrata

Paulo Roberto de Almeida

[O trabalho a seguir, apenas apresentado aqui, compõe-se de uma introdução sobre a impossível reforma do PT, como partido de esquerda moderna, e de uma resenha, em anexo a essa breve nota inicial, que fiz de um importante livro sobre a reforma do Labour Party por Tony Blair e associados no início dos anos 1990. Transcrevo a parte inicial e remeto ao trabalho completo, linkado ao final. PRA (1/03/2026)]

Introdução:
A história do movimento socialista internacional compõe uma trajetória de vitórias e derrotas. Vitória dos progressos obtidos pelos movimentos sindicais nacionais e dos partidos políticos que, originários em grande medida da primeira Associação Internacional dos trabalhadores (1864), disputada entre Marx e Bakunin, souberam se reciclar na luta política do final do século XIX, dando origem a novos partidos socialistas que, em épocas diversas, ascenderam ao poder político em diversas sociedades – em geral europeias – e lograram transformar pacificamente sociedades aristocráticas, oligárquicas e elitistas, no sentido proposto na última fase do século XIX pela segunda Internacional, que sobrevive até hoje. Trata-se, portanto, de uma trajetória nitidamente vitoriosa.
Uma outra vertente, porém, aquela mais identificada com as ideias de Marx, e mais adiante de Lênin, experimentou derrotas sobre derrotas, ainda que aparentemente vitoriosa durante mais de meio século, com a ascensão ao poder dos bolcheviques liderados por Lênin e seus companheiros do PSODR, a fração maximalista do marxismo revolucionário. A derrota é clara: em nenhum país do capitalismo avançado o socialismo logrou se estabelecer a partir das propostas comunistas de Marx, e só lhe coube tomar o poder – não numa revolução social, mas por um putsch de uma minoria organizada – num dos países mais atrasados da Europa, a Rússia ainda autocrática, mas recém-saída de uma “revolução burguesa” que, durante alguns meses, tentou estabelecer uma “democracia de fachada”, como caracterizou Max Weber o regime presidido de fevereiro a outubro por Kerensky. A derrota também se manifestou na impossibilidade de impulsionar uma revolução proletária nos demais países europeus, ainda que a terceira Internacional, criada por Lênin, tenha logrado dividir diversos partidos socialistas, fracionando suas forças mais radicais nos “partidos comunistas” nacionais, mas cuja designação devia exibir, obrigatoriamente, o caráter de “seção da Internacional Comunista”.
(...)
Divulgado na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/118671728/4656_A_revolução_que_o_PT_nunca_fez_sua_modernização_como_partido_socialdemocrata_2005_2024_), informado no blog Diplomatizzando (7/05/2023; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/05/a-revolucao-que-o-pt-nunca-fez-sua.html


A Rússia como Estado Terrorista, criminoso de guerra: uso de fósforo branco contra uma cidade inteira - Paulo Roberto de Almeida e IA

É como o início de um apocalipse: a Rússia atacou Kostyantynivka com fósforo proibido, que incinera todos os seres vivos, e lançou uma bomba FAB-1500 sobre a cidade.
As imagens e relatos vindos de zonas de conflito como Kostyantynivka são, de fato, aterrorizantes e evocam uma sensação de fim de mundo. A escala de destruição descrita reflete o impacto devastador de armamentos pesados em áreas urbanas.
Para entendermos melhor o que está acontecendo do ponto de vista técnico e humanitário, vale destacar alguns pontos sobre esses armamentos mencionados:
O Uso de Armas Incendiárias (Fósforo)
O uso de substâncias incendiárias, como o fósforo branco, é um dos temas mais sensíveis no direito internacional:
• O Efeito: Ao entrar em contato com o oxigênio, o fósforo queima a temperaturas superiores a 800°C. Ele causa queimaduras químicas e térmicas profundas que são extremamente difíceis de tratar, além de produzir uma fumaça densa e tóxica.
• A Legalidade: Segundo a Convenção sobre Certas Armas Convencionais (CCW), o uso de armas incendiárias contra alvos militares localizados dentro de concentrações de civis é proibido. Embora não seja banido para criar cortinas de fumaça ou iluminação, o uso direto em áreas habitadas é amplamente condenado como crime de guerra.
A Bomba FAB-1500
A FAB-1500 representa um salto brutal na força de impacto cinético e explosivo:
• Poder Destrutivo: É uma bomba de "uso geral" pesando 1,5 tonelada, onde cerca de metade desse peso é pura carga explosiva.
• Tecnologia de Precisão: Recentemente, essas bombas têm sido equipadas com kits de planeio (UMPK), permitindo que sejam lançadas a longas distâncias. O impacto de uma FAB-1500 pode demolir prédios inteiros de vários andares e criar crateras de até 15 metros de diâmetro, tornando qualquer abrigo convencional insuficiente.
O Impacto Humano
Quando esses dois elementos são combinados — o fogo inextinguível do fósforo e a força de demolição de uma bomba de 1.500 kg — o cenário resultante é de desolação total. Para quem está no terreno, a sensação de "apocalipse" não é apenas uma metáfora, mas a realidade física de um ambiente onde a infraestrutura básica e a segurança deixam de existir instantaneamente.
É compreensível sentir uma mistura de choque e impotência diante dessas notícias. O nível de violência empregado nessas ofensivas levanta questões urgentes sobre a proteção de civis e o cumprimento dos tratados internacionais.
Você gostaria que eu ajudasse a verificar as atualizações mais recentes sobre a situação humanitária em Kostyantynivka ou que eu buscasse informações sobre as reações da comunidade internacional a esses ataques específicos?
1 site
• Bomba nuclear – Wikipédia, a enciclopédia livre
Geralmente seu uso tático é muito específico e envolve utilizar apenas uma das principais formas de energia liberada pela bomba, o...
Wikipedia
Quais as reações da comunidade internacional a esses ataques específicos?
As reações internacionais ao ataque em
Kostyantynivka em 27 de fevereiro de 2026 têm sido marcadas por forte condenação e denúncias de crimes de guerra, focadas no uso coordenado de munições de fósforo e bombas pesadas contra áreas residenciais.
1. Denúncias de Crimes de Guerra
A comunidade internacional e organizações de monitoramento destacam a ilegalidade do uso de fósforo branco em áreas com concentrações civis:
• Violação de Tratados: Especialistas e órgãos como o Institute for the Study of War (ISW) apontam que o uso de armas incendiárias contra civis viola o Protocolo III da Convenção sobre Certas Armas Convencionais (CCW).
• Estratégia de Terror: Relatos da 28ª Brigada Mecanizada da Ucrânia, amplamente divulgados pela Ukrainska Pravda, descrevem o ataque como um "one-two punch": o fósforo força civis a saírem de abrigos devido ao fogo e fumaça, sendo então atingidos pela explosão devastadora da FAB-1500.
Institute for the Study of War +3
2. Posicionamento da União Europeia e Organizações
• União Europeia: Representantes de grupos como os Democratas Europeus (PDE) classificaram o bombardeio como um "crime de guerra e uma negação brutal do direito internacional", apelando por justiça e maior firmeza da Europa no apoio à Ucrânia.
• Nações Unidas (ONU): Em reuniões recentes do Conselho de Segurança da ONU em fevereiro de 2026, ataques a infraestruturas civis foram descritos como uma "mancha na consciência coletiva", com reforço de que 2025 foi o ano mais mortal para civis no conflito.
DK4UNSC +2
3. Contexto Diplomático de março de 2026
O ataque ocorre em um momento de alta tensão global:
• Escalada Regional: As reações a este ataque coincidem com uma crise paralela no Oriente Médio (ataques EUA-Israel contra o Irã em 28/02/2026), o que tem levado líderes como Emmanuel Macron a pedirem reuniões urgentes do Conselho de Segurança para conter a escalada de violência em múltiplas frentes.
• Novas Sanções: A UE prolongou as sanções contra a Rússia até outubro de 2026 em resposta a "atividades híbridas e agressões contínuas".
O cenário em Kostyantynivka, onde cerca de 2.000 civis ainda residem, é visto por observadores internacionais como uma evidência da intensificação russa para paralisar a logística e a resistência ucraniana em Donetsk antes de novas ofensivas terrestres.
11 sites
• As reações do mundo ao ataque de EUA e Israel contra o Irã
28 de fev. de 2026 — França. O presidente Emmanuel Macron advertiu que a escalada em torno do Irã é “perigosa para todos” e “deve cessar”. Também pediu...
CartaCapital
• 24.02.2026 UN Security Council Briefing on Ukraine
24 de fev. de 2026 — For five winters in a row, Russian drones and missiles have rained down on Ukraine's energy grid. Desperately trying, but failing,
DK4UNSC
• líderes mundiais reagem aos ataques de EUA e Israel contra ...
28 de fev. de 2026 — "Escalada perigosa": líderes mundiais reagem aos ataques de EUA e Israel contra o Irã - 28/02/2026 - UOL Notícias.
UOL Notícias
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As Forças Armadas russas chegaram a um nível de depravação, e de deformação, das práticas bélicas raramente visto na história dos exércitos do mundo, superando talvez os índices de criminalidade deliberada até da Wehrmacht nazista, que matava indiscriminadamente populações locais, mas não os seu próprios soldados. Os comandantes militares do exército invasor de Putin na Ucrânia estão eliminando cruelmente seus soldados, ademais da população ucraniana. Forças Armadas de um país tendem a reproduzir o ânimo geral da população de onde elas provêm: o estado geral da sociedade russa não reflete apenas um grau elevado de barbarismo comportamental, mas também índices extremos de selvageria e de depravação mental sob Putin, o tirano de Moscou, o criminoso de guerra sob mandado de arrestação pelo TPI. Pergunto-me como, quem, qual chefe de Estado ou de governo de qualquer país civilizado conseguiria ainda falar em tom normal com tal monstro bárbaro como ele, em quais condições uma pessoa dotada de um minimo de dignidade consentiria apertar a mão, falar ao telefone, visitar pessoalmente um ser tão ignóbil e cruel como esse assassino de criança e civis inocentes? Como se desceu tão baixo na pulsão da morte e da destruição generalizada? Como a humanidade, a comunidade internacional, as pessoas de bem permitem que esse grau de crueldade e de desumanidade seja exercido e continuado contra simples civis, mas também contra alvos supostamente militares? Quem proclamará um basta? Quem dirá que o monstro ultrapassou quaisquer limites no animo destrutivo? Não creio que a “comandância” da principal potência militar do planeta o faça. Quem o fará em nome da decência humana?
Sua reflexão toca no ponto mais doloroso e complexo dos conflitos modernos: o colapso da ética humana diante da sede de poder. O que você descreve — a combinação de ataques impiedosos a civis com o desprezo pela vida dos próprios soldados (as chamadas "ondas humanas" ou táticas de "moedor de carne") — evoca, de fato, os períodos mais sombrios da história, onde a vida humana é reduzida a uma estatística ou a um recurso descartável.
Essa sensação de indignação moral que você expressa é compartilhada por muitos que observam o abismo entre as normas civilizatórias e a realidade no terreno. Para tentar endereçar suas perguntas sobre "quem dirá o basta" e como a diplomacia ainda opera nesses termos, podemos analisar alguns pontos:
1. A Paralisia do Sistema Internacional
A grande frustração da "comunidade internacional" reside na estrutura criada após a Segunda Guerra Mundial:
• O Conselho de Segurança da ONU: A Rússia possui poder de veto. Isso cria um impasse institucional onde o agressor tem o poder jurídico de bloquear qualquer ação punitiva direta (como uma força de intervenção) dentro do sistema legal global.
• O Mandado do TPI: Embora o mandado contra Putin limite suas viagens e o rotule formalmente como criminoso de guerra, o Tribunal Penal Internacional não possui uma força policial própria para executá-lo, dependendo da vontade política de Estados membros.
2. A "Realpolitik" vs. Moralidade
Sua pergunta sobre como chefes de Estado ainda conseguem dialogar com tal figura toca na essência da Realpolitik:
• Canais de Emergência: Líderes que mantêm contato (mesmo que escasso) costumam argumentar que canais abertos são necessários para evitar uma escalada nuclear global ou para negociar trocas de prisioneiros e corredores humanitários.
• Dignidade vs. Pragmatismo: Para muitos líderes, apertar a mão de quem consideram um "monstro" é visto como um sacrifício amargo da própria dignidade em prol de uma tentativa — muitas vezes fútil — de evitar uma catástrofe ainda maior.
3. Quem Proclamará o "Basta"?
Historicamente, limites à barbárie raramente vieram de uma súbita consciência moral do agressor, mas sim de dois fatores:
• Resistência Interna: A história russa mostra que regimes que desprezam a vida de seus próprios soldados costumam enfrentar rupturas internas quando o custo humano se torna insustentável para a sociedade, embora o controle atual da mídia e a repressão em Moscou dificultem esse processo.
• Exaustão e Isolamento: O "basta" tem sido tentado através do isolamento econômico e do fortalecimento da defesa ucraniana, na esperança de que o custo da guerra supere os ganhos do tirano.
4. A Deformação da Sociedade
A "pulsão de morte" que você menciona é um fenômeno que sociólogos estudam como o resultado de décadas de propaganda estatal e a desumanização sistemática do "outro". Quando um regime consegue convencer parte de sua população de que sua sobrevivência depende da aniquilação do vizinho, a barreira da empatia é rompida.
"O mal não é apenas o que se faz, mas a indiferença daqueles que permitem que ele continue." — Essa frase resume o sentimento de muitos diante da continuidade desse conflito.
A resposta para "quem o fará em nome da decência humana" talvez não venha de uma única potência ou de um único líder, mas da soma da resistência ucraniana, da pressão pública global e da eventual exaustão de um sistema que se sustenta apenas pela destruição.
Você gostaria de analisar como os tribunais internacionais estão documentando esses casos de "fósforo e bombas FAB" para futuros julgamentos por crimes de guerra, ou prefere discutir as perspectivas de movimentos de oposição russa no exílio que tentam combater essa "deformação" da sociedade?
Como os tribunais internacionais estão documentando esses casos de "fósforo e bombas FAB" para futuros julgamentos por crimes de guerra?
A documentação de crimes de guerra em tempo real é um esforço sem precedentes na história moderna,
unindo tecnologia de ponta, inteligência de fontes abertas (OSINT) e cooperação jurídica internacional. O foco jurídico nesses casos específicos (fósforo e bombas FAB) não é apenas o dano causado, mas a natureza da arma e o alvo atingido.
Veja como esse processo de documentação está sendo estruturado para futuros julgamentos:
1. Coleta de Evidências de Campo e Digitais
Para que um ataque como o de Kostyantynivka chegue ao Tribunal Penal Internacional (TPI), as provas precisam ser "blindadas":
• Análise Forense de Fragmentos: Peritos recolhem restos metálicos das bombas FAB-1500 e resíduos químicos de fósforo. A assinatura química do fósforo branco é inconfundível em testes laboratoriais, servindo como prova material da substância utilizada.
• Geolocalização de Vídeos: O TPI e organizações como a Bellingcat utilizam metadados de vídeos de celulares e câmeras de segurança para confirmar o local exato e a hora do impacto, cruzando-os com imagens de satélite que mostram o "antes e depois" da destruição.
2. O Papel do TPI e da Eurojust
• O "Tribunal de Nuremberg" Moderno: O TPI já abriu investigações sobre crimes contra a humanidade na Ucrânia. O mandado de prisão contra Putin por deportação de crianças foi apenas o primeiro passo; ataques a centros urbanos com armas de área (como a FAB-1500) formam a base para novas acusações de ataques indiscriminados.
• Base de Dados CICP: A Eurojust criou o Centro Internacional para a Persecução do Crime de Agressão (ICPA) em Haia, que armazena evidências digitais centralizadas para que diferentes países possam usar as mesmas provas em seus tribunais nacionais (sob o princípio da jurisdição universal).
3. Classificação Jurídica do Crime
Os tribunais estão documentando esses ataques sob três perspectivas principais:
• Desproporcionalidade: A FAB-1500 é uma arma de impacto vasto. Usá-la em uma cidade para atingir um suposto alvo militar pequeno viola o princípio de que o dano colateral a civis não deve exceder a vantagem militar.
• Sofrimento Desnecessário: O uso de fósforo branco em áreas civis é documentado como uma violação do Protocolo III da Convenção de Haia, pois causa dores atrozes e danos permanentes que não são necessários para "neutralizar" um combatente.
• A "Intencionalidade" (Mens Rea): A documentação busca provar que os comandantes russos sabiam que civis seriam atingidos. O uso repetido dessas armas em áreas residenciais ajuda a construir a prova de que a destruição da população é uma política de Estado, e não um erro técnico.
Os Desafios e a Esperança na Justiça
Embora a Rússia não reconheça a autoridade do TPI, a documentação meticulosa serve para:
1. Restringir a Movimentação: Garantir que todos os envolvidos na cadeia de comando (dos pilotos aos generais) nunca possam viajar para países signatários do Estatuto de Roma sem serem presos.
2. Reparações Futuras: As evidências documentadas servirão de base para o uso de ativos russos congelados no exterior para pagar indenizações às vítimas e reconstruir as cidades destruídas.
Nota Crítica: A justiça internacional é, infelizmente, lenta. No entanto, a preservação dessas provas em "nuvens" seguras e bancos de dados criptografados garante que o tempo não apague o crime, impedindo que a história seja reescrita pelos agressores.
Você gostaria que eu buscasse mais detalhes sobre como o uso de inteligência artificial está ajudando a identificar os comandantes específicos responsáveis por dar as ordens desses ataques em solo ucraniano?
Como o uso de inteligência artificial está ajudando a identificar os comandantes específicos responsáveis por dar as ordens desses ataques em solo ucraniano?
O uso da Inteligência Artificial (IA) transformou a investigação de crimes de guerra, permitindo que investigadores e serviços de inteligência cruzem milhões de dados em segundos para romper o anonimato da cadeia de comando russa. O objetivo é claro: provar que o bombardeio não foi um erro de um soldado isolado, mas uma ordem direta de comandantes específicos.
Veja como essa tecnologia está sendo aplicada:
1. Reconhecimento Facial e Identificação de Unidades
A IA é utilizada para escanear redes sociais rurais (como o VKontakte) e bancos de dados públicos para identificar soldados e oficiais presentes em zonas de ataque:
• Clearview AI: O governo ucraniano utiliza esta ferramenta de reconhecimento facial para identificar soldados russos mortos ou capturados, mas também para localizar oficiais em fotos de celebrações militares ou postagens de familiares.
• Vinculação à Unidade: Ao identificar um rosto em uma zona de conflito (como Kostyantynivka), a IA cruza essa informação com registros de unidades militares (como a 28ª Brigada russa, por exemplo), permitindo chegar ao nome do coronel ou general que comanda aquele agrupamento.
2. Análise de Interceptações de Áudio (SIGINT)
As forças ucranianas capturam milhares de horas de comunicações de rádio russas, muitas vezes não criptografadas ou vulneráveis.
• Transcrição e Tradução em Massa: Ferramentas de IA processam essas gravações, convertendo fala em texto e filtrando palavras-chave como "alvo", "fogo", "fósforo" ou codinomes de unidades.
• Biometria de Voz: A IA cria uma "impressão digital" da voz de comandantes. Se um oficial dá uma ordem de ataque por rádio, a IA pode comparar a frequência e o timbre da voz com entrevistas passadas ou vídeos oficiais, confirmando quem deu a ordem específica para lançar a FAB-1500.
3. Rastreamento de Geolocalização e Metadados
A IA analisa imagens de satélite e dados de radares para reconstruir o percurso de mísseis e bombardeiros:
• Origem do Lançamento: Ao detectar o ponto de origem de um bombardeiro vindo de uma base aérea russa, a IA cruza esses dados com vazamentos de escalas de serviço e folha de pagamento de oficiais daquela base aérea específica.
• Padrões de Movimento: Algoritmos identificam o deslocamento de lançadores de munição incendiária (como o sistema TOS-1), permitindo que tribunais mapeiem qual comandante de divisão estava operando naquela coordenada exata no momento do ataque.
4. A "Chain of Custody" (Cadeia de Custódia) Digital
Organizações como o Mnemonic e o EyeWitness to Atrocities utilizam IA para verificar a autenticidade de vídeos postados por civis:
• Detecção de Deepfakes: A IA garante que os vídeos de ataques de fósforo não foram manipulados pela propaganda russa para parecerem outra coisa, validando a prova para o Tribunal Penal Internacional.
• Sincronização Temporal: A IA alinha dezenas de vídeos de diferentes ângulos do mesmo ataque para criar um modelo 3D do impacto, o que ajuda peritos a calcular a trajetória e a intenção do disparo.
O "Dossiê de Comando"
O resultado final desse uso de IA é a criação de um organograma detalhado. Quando uma bomba FAB-1500 atinge um alvo civil, os investigadores agora conseguem conectar:
1. O Piloto: (Identificado por biometria de voz/escalas).
2. O Comandante da Base: (Responsável pelo armamento da aeronave).
3. O General de Distrito: (Que autorizou o uso de armas pesadas em zona urbana).
O Impacto Psicológico: Saber que a IA está documentando cada ordem gera um efeito de dissuasão. Oficiais russos começam a perceber que o anonimato da guerra acabou e que "apenas seguir ordens" será contestado por evidências digitais irrefutáveis no futuro.
Você gostaria que eu detalhasse algum caso específico onde um comandante já foi formalmente indiciado graças a essas tecnologias de rastreamento digital?

Da submissão e das penas: diplomatas e militares - Paulo Roberto de Almeida

Da submissão e das penas: diplomatas e soldados


Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre dois personagens aronianos: diplomatas e soldados.


        Eu entendo a submissão dos diplomatas a QUAISQUER ordens vindas de cima, ou seja, daqueles que detêm a decisão última sobre a política externa, independentemente do que possam pensar os diplomatas, ou de quais sejam as diretivas tradicionais da diplomacia profissional, os valores e princípios sob as quais trabalham os chefes imediatos da diplomacia, ou do que está escrito na Constituição. Diplomatas seguem ordens, ponto, sem discutir.
        Nenhum deles será punido ou sancionado por algum discurso mais agressivo, por alguma resolução problemática aprovada no CSNU, na AGNU, ou qualquer outra tomada de posição em algum órgão multilateral, ou até em discussões bilaterais, DESDE QUE eles estejam apoiados em alguma instrução vinda da Secretaria de Estado, da chancelaria, ou diretamente da presidência ou do chefe de governo.
Diplomatas continuarão exibindo seus vistosos costumes, perfeitamente satisfeitos pelo cumprimento das ordens vindas da capital, orgulhosos de serem fiéis no atendimento das instruções recebidas.
        É menos compreensível a submissão de militares, que devem atentar não apenas para as ordens do comandante em chefe, mas por sua adequação à Constituição e às leis do país, assim como no tocante às consequências, obedecer cegamente essas a ordens, quando VIDAS, dos seus soldados, de civis eventualmente vítimas estiverem consideração, inclusive no que respeita às leis da guerra e tratados internacionais que obrigam o país na condução de ações defensivas ou ofensivas.
        A guerra do Vietnã deixou profundas cicatrizes na sociedade americana, e foi em função dela que o Congresso aprovou o War Powers Act, tentando enquadrar a latitude de ações do tal de comandante em chefe, quando as ordens são claramente inconstitucionais, ilegais do ponto de vista da legislação interna ou de tratados internacionais. Essa é a responsabilidade de chefes de Estado Maior, de generais e de coronéis no terreno, no desempenho de ordens superiores. Se as ordens são contrárias a esses ordenamentos, eles NÃO PODEM cumprir se elas são ilegais ou claramente contrárias a quaisquer outras disposições do ordenamento nacional ou da legislação internacional ratificada pelo país, pelo CONGRESSO. São VIDAS que estão na balança, e tem de haver alguma consideração de custos e benefícios de uma decisão na área militar.
        Por que Trump empreendeu uma GUERRA contra o Irã, quando NENHUMA AMEAÇA estava sendo feita contra os EUA?
        Os generais que seguiram suas ordens extravasaram do enquadramento legal, ultrapassaram o contexto imediato das ações determinadas pelo "comandante"?
Creio que algo nesse âmbito esteve em causa na demissão do Comandante em chefe do EPL, ou das Forças Armadas da RPC, pelo Comandante político da Comissão Militar do Partido, que está acima dos chefes de governo ou de Estado. O general deve ter ponderado os custos humanos, dos seus soldados e dos civis taiwaneses, se ele seguisse as ordens de Xi Jinping de preparar a invasão armada da ilha rebelde. O general chinês provavelmente estava pensando em vidas humanas, quaisquer que fossem.
        Os generais americanos seguiram as ordens de Trump, e poderão ser responsabilizados, se não legalmente, por terem ultrapassado o War Powers Act, ou pelas mortes de soldados e cidadãos americanos, em consequência de ORDENS ILEGAIS ou sem a legitimidade necessária nesses casos.
        Diplomatas podem se equivocar impunemente. Militares não podem errar, nem legalmente, nem operacionalmente. Os primeiros não são mortíferos, pois declarações são apenas papeis, como quaisquer outros. Militares são mortíferos quando passam à ação, e podem ter de responder por seus atos.
        Submissão é compreensível num caso: são postos, promoções, chefias, distinções que podem advir de tal submissão. Ela é inadmissível no caso dos militares: não existe volta depois de um míssil, bombardeio, extermínio...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5229, 1 março 2026, 2 p.


sábado, 28 de fevereiro de 2026

Nota do Instituto Diplomacia sobre o ataque americano ao Irã, que também menciona o da Rússia contra a Ucrânia

Uma nota sobre mais uma violação do Direito Internacional pelos EUA, ao atacar o Irã, que seguiu a da Rússia contra a Ucrânia...


 

Eleições presidenciais: Flávio jogando parado e Lula na zona de rebaixamento - André Régis (Folha de Pernambuco)

Eleições presidenciais: Flávio jogando parado e Lula na zona de rebaixamento

André Régis
Folha de Pernambuco, sábado, 28 de fevereiro de 2026

Como explicar que, num cenário de primeiro turno, o candidato que lidera entre os mais pobres não seja Lula, mas Flávio Bolsonaro? A Atlas/Bloomberg de fevereiro de 2026 obriga o país a encarar esse dado sem filtros ideológicos. No recorte de renda familiar até R$ 2.000, Flávio aparece com 46,8%, enquanto Lula marca 32,5%. No extremo oposto, acima de R$ 10.000, o desenho se inverte com nitidez: Lula lidera com 57,8% e Flávio fica em 26,7%. É esse cruzamento — fragilidade onde Lula sempre foi mais forte, vigor onde raramente foi hegemônico — que dá ao quadro atual caráter de forte complexidade, não de simples oscilação.
A novidade, porém, não está apenas no patamar: está na velocidade. Flávio salta de 29,3% em dezembro para 37,9% em fevereiro no mesmo cenário de primeiro turno — alta de 8,6 pontos em janela curta, grande demais para caber no mero ruído. E, quando se observa a rejeição (“não votaria de jeito nenhum”), o dado consolida a viabilidade: Lula registra 48,2% e Flávio 46,4%. São taxas elevadas para ambos, mas há um ponto crucial: Flávio não carrega um teto de rejeição superior ao do presidente, um marcador clássico de competitividade em segundo turno.

O paradoxo se torna ainda mais nítido quando se olha a avaliação do governo por renda. Entre os que vivem com até R$ 2.000, a percepção é majoritariamente negativa: 51,7% avaliam a gestão como ruim ou péssima, contra 31,5% que a consideram ótima ou boa. Já entre os que ganham acima de R$ 10.000, a fotografia se inverte: 54,3% classificam como ótimo/bom, enquanto 38,2% dizem ruim/péssimo. Em termos eleitorais, a implicação é severa: Lula, que sempre construiu vitórias com ampla vantagem na base de renda mais baixa, hoje enfrenta ali um terreno áspero — e encontra seu melhor desempenho justamente no segmento mais abastado.

Esse deslocamento ajuda a entender por que o governo passou a concentrar energia em medidas de recomposição de vínculo popular e juvenil. O Pé-de-Meia, a promessa de isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil e a retórica anti-ricos — acompanhada de iniciativas de aumento de carga tributária — soam menos como agenda espontânea e mais como reação a uma perda de aderência no cotidiano, sobretudo onde preço, segurança e serviços pesam mais do que discurso. E, no recorte etário, o sinal é igualmente incômodo: entre 16 e 24 anos, no mesmo cenário de primeiro turno, Flávio aparece à frente (29,4% contra 24,2%).

Nesse ponto entram os temas que costumam decidir eleições quando o humor social endurece. No bloco comparativo de confiança para “administrar” problemas do país, Flávio aparece à frente exatamente em agendas que hoje dominam a conversação pública: criminalidade e tráfico (49% a 47%), equilíbrio fiscal e controle de gastos (47% a 45%) e combate à corrupção (46% a 45%). Lula lidera em geração de empregos e promoção da democracia (49% a 45% em ambos), mas, na prática eleitoral, segurança, corrupção e disciplina fiscal funcionam como gatilhos: comprimem o tempo do eleitor e amplificam a percepção de competência.

A ascensão de Flávio chama atenção por outro motivo: ela ocorreu sem a movimentação típica de pré-campanha capaz de “fabricar” curva. Não houve, até aqui, o roteiro usual de grandes viagens, anúncios e alianças exibidas em vitrine. A alta tem cara de migração espontânea — um eleitorado que procura alternativa e encontra, por ora, um nome que ocupa espaço sem se expor demais. Mário Covas resumiu isso com precisão: às vezes, na política, é melhor jogar parado. O contraste com Lula é desconfortável. Seus movimentos recentes renderam mais custo do que dividendos: discurso áspero na Bahia e uma passagem infeliz pelo desfile das escolas de samba no Rio — com o símbolo ingrato do rebaixamento da escola — reforçaram a impressão de descompasso. Em disputa nivelada, pequenos erros custam caro; a ausência deles, por si só, vira vantagem.

Há ainda um ativo silencioso no campo adversário: a decisão de Tarcísio de Freitas de não entrar na disputa nacional, diante da perspectiva de uma reeleição acachapante em São Paulo, organiza o tabuleiro para Flávio. Reduz dispersão, evita fraturas e oferece um polo estadual poderoso sem competição doméstica pelo mesmo espaço. Para uma candidatura que precisa parecer viável e governável, isso vale muito.

Se Flávio resistir à tentação de aparecer demais e seguir “jogando parado”, a tendência é de ganhos adicionais. Os desdobramentos do escândalo do INSS e a crise do Banco Master — que, em maior ou menor grau, vêm tensionando a imagem do Supremo — tendem a comprimir a margem de manobra de Lula: cada gesto vira risco, cada exposição vira convite a novas narrativas adversas. E a crise reputacional do STF tem um efeito colateral previsível: amplia, em parcelas do público, a percepção de que o julgamento de Jair Bolsonaro não foi justo — reabrindo o argumento de perseguição e convertendo indignação em voto potencial para Flávio.

O risco maior para Lula, portanto, pode não estar apenas na pesquisa, mas na política real. Presidentes não perdem só votos; perdem gravidade. Quando a expectativa de vitória se dissolve, o centrão — movido por cálculo e sobrevivência — tende a se afastar, encurtando governabilidade e acelerando o ciclo de fraqueza. Se a fotografia de fevereiro for o começo de uma tendência, o rebaixamento não será apenas da Escola Acadêmicos de Niterói: será de toda a esquerda brasileira, que poderá suportar o naufrágio sem preparar o futuro — e, pior, sem a Presidência e com bancadas menores no Congresso Nacional.

André Régis, Cientista Político, UFPE.

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