
Adam Smith x Karl Marx
“Nota sobre a Grande Deformação da era contemporânea.”
O mundo político costuma ser dividido
nas diferentes gradações entre dois extremos, numa tipologia herdada da
Revolução francesa: esquerda e direita, com muitas variações no centro e
exageros nos dois extremos. Essa é a perspectiva de um cenário dominado
de forma estéril por uma luta pelo poder e pela dominação de alguns
sobre muitos. Essa luta não cria riqueza ou prosperidade, apenas
redistribui o estoque existente de riqueza entre os diversos contendores
da luta política.
Antes da Revolução francesas, porém, um
professor de Glasgow, Adam Smith, já havia delimitado alguns parâmetros
sob os quais se moviam as paixões humanas, em seu livro Teoria dos Sentimentos Morais.
Mas ele fez mais: no ano da independência americana da dominação
britânica, 1776, autonomia sob o livre comércio, que ele preconizava,
publicou o livro seminal da economia política, aquele que deveria guiar
os verdadeiros estadistas do Estado, de qualquer Estado, na busca de
prosperidade socialmente bem distribuída: Um Inquérito sobre a Riqueza das Nações,
uma investigação sobre como se poderia criar e aumentar a riqueza
social, ao mesmo tempo fazendo com que ela fosse bem distribuída entre
os súditos ou os cidadãos de uma nação, de um Estado constituído em
conformidade com as leis estabelecidas consensualmente, não pela força
ou dominação de alguns poucos.
Seu livro se tornou influente nas ilhas
britânicas e em alguns outros países do continente europeu (mas só
chegou à China muito tempo depois, aliás “importado” por alguns
comunistas esclarecidos que corrigiram os erros demenciais de Mao
Tsetung, que produziram mais mortos entre os próprios chineses do que
Stalin o havia feito entre seus “súditos” russos). O livro de Adam Smith
foi “corrigido” por uma outra obra das mais negativas não só na
história da economia politica, mas também na trajetória de boa parte da
humanidade. Essa obra foi O Capital, de um radical hegeliano
expatriado chamado Karl Marx. Esse livro, que pretendia colocar a
economia smithiana sobre seus pés, as forças produtivas, alterava, na
verdade, as bases de funcionamento da economia política pela via de uma
política econômica que invertia completamente os fundamentos da criação
de riqueza e prosperidade: seria o Estado, e não a liberdade dos agentes
econômicos, quem deveria ordenar a organização da vida econômica, o
“promotor” da prosperidade igualitária.
A mensagem era poderosa, numa fase em que o
primeiro capitalismo explorava, literalmente, os esforços de
trabalhadores em prol da acumulação de riqueza, criando continuamente
uma desigualdade de tipo rousseauniano, pois que fundamentada no “pecado
original” da propriedade privada. Estavam dadas as condições para o
surgimento de uma nova forma de organização econômica baseada não
exatamente na propriedade privada, mas na propriedade coletiva dos meios
de produção, o socialismo dito científico, ou o coletivismo (que seria
aplicado tanto por regimes supostamente de esquerda, como o bolchevismo,
como por regimes declaradamente de direita, como o fascismo e o
nazismo).
Estava criada a via para a implementação do
“socialismo”, não exatamente nos países do primeiro capitalismo, na
Inglaterra e na Nova Inglaterra, assim como em diversos países da Europa
continental, mas num país autocrático, a Rússia atrasada dos mujiques e
da nobreza czarista, vivendo num capitalismo incipiente, e sobretudo no
despotismo brutal da aristocracia dos boiardos. Isso se deu por um
pequeno “acidente” político, o famoso “trem blindado” que transportou o
emigrado russo Lênine de volta à Rússia em meio a um processo
revolucionário, iniciado em fevereiro de 1917: isso se fez por um ardil
do Império alemão, que pretendia desmantelar a guerra no lado oriental
da Prússia, para se concentrar nas frentes de batalha do lado ocidental,
contra franceses, britânicos e, mais recentemente, americanos.
O putsch de outubro (ou novembro) de 1917
colocou no poder um novo regime despótico, desta vez guiado por
bolcheviques que acreditavam piamente nas fabulosas teorias econômicas
de Karl Marx, de que seria possível criar riqueza e prosperidade não
pela via da liberdade econômica, mas pela via da monopolização total dos
meios de produção nas mãos do Estado, criando um sistema imaginário,
“de cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo as suas
necessidades”, como afirmou o mesmo Marx na Crítica ao Programa de Gotha,
em oposição ao recém criado Partido Social Democrata alemão, que
pretendia criar, não um sistema de estatização completa da economia, mas
um regime flexível, combinando propriedade privada e meios públicos de
criação de oportunidades para todos.
Lênin podia ser um gênio em política, ou
pelo menos um lídes partidário astuto, mas ele era uma nulidade em
economia. Seu programa de “coletivização total” da economia russa
provocou de imediato uma contração terrível na oferta de bens e
serviços, levando o povo a uma crise alimentar ao ponto da fome
generalizada (refreada generosamente por americanos e outros europeus),
com o que Lênin teve de improvisar uma “NEP”, permitindo a existência
provisória de negócios privados em certos setores da economia.
Imediatamente após o início da coletivização, um jovem economista
austríaco, Ludwig von Mises, escrevia um “panfleto” contra os
socialistas austríacos, intitulado sinteticamente O Cálculo Econômico na Comunidade Socialista,
explicando que o socialismo não poderia funcionar pois que ele ignorava
completamente o mecanismo de formação de preços, baseado nas leis
universais da oferta e da procura, da produção e do consumo. Não podia
funcionar, como um elefante não pode voar, mas Stalin fez o “socialismo”
se sustentar nos ares pela via de formas modernas da antiga escravidão,
ou do antigo regime servil da própria velha Rússia.
O socialismo não morreu por ter sido
combatido pelo capitalismo, longe disso: os “capitalistas” ocidentais
até procuraram suavizar o sofrimento dos povos “socialistas” pela via de
empréstimos ou algum apoio material sempre quando necessário, mas era
difícil fazer o elefante voar; o sistema se desmantelou sozinho pela
força de suas próprias contradições econômicas. Mas a mensagem
socialista era muito poderosa: a “igualdade” deveria, pelas mãos do
Estado, passar na frente da liberdade preconizada pelos liberais, e
assim se fez em diversos países em diversos continentes, inclusive na
América Latina, na qual as receitas keynesianas de luta contra as crises
e as depressões cíclicas do sistema foram convertidas, de meios
provisórios de inversão do ciclo econômico, em verdadeira teoria do
desenvolvimento; essa foi a origem do prebischianismo, a versão original
do desenvolvimentismo cepaliano.
O Brasil foi o país no qual essa nova
“teoria” encontrou terreno fértil, inclusive porque ele já vivia, desde
os anos 1930, numa espécie de “capitalismo estatizado”, o que
complementava o seu mercantilismo tradicional, um protecionismo que
existia desde os tempos coloniais e que encontrou também terreno fértil
no Império e da República. Nos anos 1950, o desenvolvimentismo conheceu
grandes possibilidades de expansão, tanto que ganhou espaço ainda mais
ampliado no regime semiautárquico da ditadura militar, perfeitamente
estatizante e centralizado que o país conheceu entre os anos 1960-80. A
industrialização em marcha forçada sob os anos JK foi realmente benéfica
para os capitalistas amigos do Estado, contrariando as prescrições de
uma política econômica com sólidos fundamentos no balanço fiscal das
contas nacionais, como preconizavam economistas como Eugênio Gudin e o
jovem Roberto Campos. O resultado foi a implantação de muitas
indústrias, algumas estatais, outras com base no investimento direto
estrangeiro, mas também uma forte aceleração da inflação, que seria a
maldição do país, de toda a população, nos quarenta anos seguintes.
O bloqueio de um processo sustentado de
crescimento econômico, pela via da indução estatal, já tinha sido
alertado algum tempo antes, no quadro de um famoso debate econômico que,
nos anos 1944-45, colocou face a face o mesmo economista neoclássico
Eugênio Gudin e um industrial paulista, apreciador das teorias de
Friedrich List e de Mihail Manoilescu, Roberto Simonsen. Do debate
saiu-se vencedora, no plano puramente teórico, a solidez dos argumentos
econômicos de Gudin, mas quem venceu, na prática, foi Simonsen,
preconizando subsídios estatais à indústria, protecionismo no comércio
exterior e intervenção estatal segundo os novos cânones do “planejamento
para o desenvolvimento econômico”, em lugar da “mão invisível” do
mercado para guiar os passos da iniciativa privada. Foi o que o Brasil
conheceu desde então, combinado a um entranhado nacionalismo
exclusivista, que o fez sempre desconfiar da “sanha” dos capitalistas
estrangeiros, preferindo recorrer a empréstimos estrangeiros, como se
fez desde a independência, do que aos investimentos diretos, sujeitos à
“espoliação” dos dividendos e da remessa de lucros ao exterior (isso
ficou evidente na carta deixada por Getúlio Vargas quando do seu
suicídio, criando essa “herança maldita” do ódio aos capitais forâneos,
sempre “sugadores” da riqueza nacional).
Na experiência concreta do Brasil do
período contemporâneo o que tivemos foram acelerações esporádicas do
impulso inflacionário, sempre causado por excesso de gastos públicos,
combatidos oportunamente por planos bem ou mal sucedidos de
estabilização econômica, e, sobretudo, um processo de desenvolvimento
endógeno que resultou num crescimento dotado de baixo dinamismo
sustentado, e um atraso relativo no confronto com outras experiências
nacionais de abertura econômica e de liberalização comercial, no quadro
de um sistema mais baseado na força do livre empreendedorismo de mercado
do que na suposta eficiência da condução estatal do jogo econômico.
Enfim, como síntese, sempre fomos mais estatizantes do
livre-mercadistas, o que talvez explique nossa longa estagnação de mais
de quatro décadas num período que foi do fim do socialismo à
globalização otimista e, agora, ao desmantelamento do multilateralismo
político e econômico pela ação conjunta, mas não necessariamente
combinada, de dois dirigentes imperiais que se acreditam ser os
imperadores de seus respectivos continentes, quiçá do mundo. Ainda
estamos nisso…
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5380, 29 junho 2026, 4 p.