domingo, 3 de maio de 2026

Olavo de Carvalho is a fraud | LivresCast 29 - Paulo Roberto de Almeida entrevistado por Mano Ferreira

 Tive de reconfigurar o meu computador, reinstalar todos os aplicativos, e ainda estou em busca de todos os meus arquivos na nuvem, perdidos em algum canto do iCloud, mas ao instalar o Firefox, adivinhem a primeira coisa que me apareceu?

O "filósofo" preferido dos aloprados, o guru da tribo selvagem dos malucos que desgovernarem o Brasil de 2019 a 2022, o embromador que adorava me odiar:

Olavo de Carvalho is a fraud | LivresCast 29
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... Paulo Roberto de Almeida, Brazilian Diplomat and Member of the Livres Academic Council
https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&opi=89978449&url=https://www.youtube.com/watch%3Fv%3DildRyyEmd1Y&ved=2ahUKEwji0_OHoZyUAxVUqpUCHXEOLy4QFnoECCIQAQ&usg=AOvVaw1PBXQXtf7TbSN1zyiDUkSZ

PS: Lembro-me que, logo depois do debate (involuntário, pois fui convidado pelo Brasil Paralelo para uma entrevista) que tive com ele, a claque olavista, incitada por ele mesmo, começou a me ofender, com palavrões de alto calão (provavelmente os mesmos usados pelo guru dos bolsonatistas), o que ocorreu da mesma forma, após esta entrevista com Mano Ferreira, do Livres.
O "philósopho" imprecator deve ter ainda muitos admiradores Brasil afora, mas ninguém ainda chegou para substituí-lo.

Maquiavel e o conselheiro do Príncipe em política externa - Paulo Roberto de Almeida, interpretado por Madame IA

Maquiavel e o conselheiro do Príncipe em política externa - Paulo Roberto de Almeida, interpretado por Madame IA  

No capítulo 22 da sua obra, dedicado ao aconselhamento dos príncipes, Maquiavel se refere aos ministros: La scelta dei ministri non è una cosa da poco per il principe; essi saranno buoni o cattivi a seconda della sua capacità di sceglierli bene. (“A escolha dos ministros não é uma coisa menor para o príncipe; eles serão bons ou maus, dependendo de sua capacidade de bem escolhê-los.”) Como ele escreveu, os ministros são bons ou não, segundo a prudência do príncipe. “E a primeira conjetura que se faz da inteligência de um senhor, resulta da observação dos homens que o cercam; quando são capazes e fiéis, sempre se pode reputá-lo sábio, porque soube reconhecê-los competentes e conservá-los. Mas quando os que o cercam não são assim, sempre se pode fazer mau juízo do príncipe, porque o primeiro erro por ele cometido reside nessa escolha.” Maquiavel sabia das coisas... Ter, junto de si, assessores competentes é do interesse primordial do próprio príncipe, disse Maquiavel. Deles dependerá toda a obra de importância a ser realizada em favor dos seus súditos ou cidadãos. Como o príncipe só consegue se ocupar pessoalmente dos grandes assuntos do estado – segurança, defesa, relações exteriores, valor da moeda, manutenção de um ambiente receptivo para os negócios dos particulares, visando à maior prosperidade do principado –, não podendo ele dar atenção à administração diária das pequenas coisas, torna-se imprescindível a assistência de pessoas habilitadas em todas as matérias que não dependem diretamente dele, mas que exigem um conhecimento técnico especializado. Não se compreende, assim, um soberano que escolha seus secretários por indicação de terceiros, por recomendação de chefes de partidos, ou ainda para contentar algum amigo necessitado de emprego público. A rigor, o secretário não pode ser seu amigo, pois, caso o seja, fica mais difícil cobrar resultados ou despedi-lo em caso de incompetência. Essa incompetência é tanto mais disseminada quanto maiores forem os cargos de livre provimento do príncipe ou de seus conselheiros imediatos. Uma das políticas setoriais mais relevantes, em qualquer época, sempre foi a externa, dividida, como necessário, em duas vertentes: o conteúdo estrito da política, determinado pelo próprio príncipe, e a diplomacia, ou seja, seu lado operacional, geralmente a cargo de um corpo profissional, bastante competente para as tarefas da área. No caso do Brasil, durante todo o Império, na Velha República e mesmo de 1946 em diante, os ministros eram geralmente políticos eleitos, ou magistrados e outras personalidade de alta cultura e educação, para bem representar o país no exterior. A diplomacia ficava a cargo do secretário geral da pasta. Mas foi no período da ditadura militar quando muitos diplomatas profissionais foram designados para a chancelaria, uma comprovação de que soldados e diplomatas são “duas almas quase gêmeas”, dedicados à defesa dos interesses nacionais em suas respectivas funções a serviço do Estado: hierarquia e disciplina são os dois dogmas que os unem. Depois da volta de políticos e outras personalidades à diplomacia da Nova República, os governos do PT fizeram novamente apelo aos diplomatas profissionais para o cargo de chanceler, provavelmente por carecerem de quadros competentes nos temas internacionais. Mas esses governos, dada a natureza “gramsciana” do partido e suas concepções políticas conhecidas no espectro ideológico, também trouxeram uma inovação indesejada para a política externa do país: sua partidarização e uma inclinação por teses e posturas que já eram anacrônicas bem antes da implosão final do socialismo, justamente na década posterior à sua fundação. Muitos militantes, futuros quadros dirigentes, passaram por Cuba ou confirmaram uma retardada adesão às velhas teorias do anti-imperialismo tipicamente latino-americano. Uma prática geralmente seguida nas presidências brasileiras, desde a era Vargas, foi a dos chefes de Estado contarem com experientes assessores diplomáticos junto a si, no próprio palácio de governo, geralmente na Casa Civil ou em algum outro cargo especial. Assim foi praticamente durante toda a República de 1946 e também sob o regime militar. Sarney, na redemocratização, começou com o embaixador Rubens Ricupero, e os presidentes seguintes também contaram com diplomatas de relevo em suas assessorias especiais. A primeira ruptura com essa prática começou exatamente com os governos do PT, a partir de 2003: durante os treze anos dos três mandatos e meio das primeiras administrações petistas, um apparatchik do PT monopolizou essa assessoria, Marco Aurélio Garcia, um fellow traveler dos comunistas cubanos, por eles designado para coordenar o Foro de São Paulo, uma espécie de Cominform castrista numa era em que a própria União Soviética e o socialismo real estavam se desfazendo. Sua “competência” para dirigir nacos da política externa era tão “especializada” que os diplomatas profissionais o apelidaram de “chanceler para a América do Sul”. Não obstante a limitação geográfica, sua preeminência sobre certas decisões da política externa lulopetista se estendeu a diversas outras áreas, sendo que várias delas não emanavam da chancelaria, mas eram determinadas nos próprios acertos com o príncipe, ao arrepio do Itamaraty. Marco Aurélio Garcia se exerceu até o impeachment de Dilma Rousseff e veio a falecer um ano depois. Os conselheiros diplomáticos de Michel Temer foram todos diplomatas, mas os do governo seguinte, um parêntese na história da diplomacia, foram tão abomináveis que nem merecem ser lembrados, a começar pelo próprio chanceler acidental, teleguiado por uma tropa de amadores que levou o Brasil a um completo isolamento internacional. Passons... Por paradoxal que possa parecer, o chanceler mais longevo da história do Itamaraty, que serviu fielmente a Lula 1 e Lula 2 – e a Dilma como ministro da Defesa –, retornou ao Palácio do Planalto sob Lula 3, na exata função do apparatchik que serviu aos governos petistas até 2016: mais um sinal de que o PT realmente carece de quadros competentes na área externa. Não é segredo para ninguém que ambos, o aparatchik e o profissional, conduziram, naqueles anos, uma diplomacia ao gosto do príncipe, feita certamente de muito ativismo. Mas a “altivez” alegada consistiu bem mais numa aliança com ditaduras execráveis, na região e fora dela, numa época em que a ascensão econômica da China e a retomada do crescimento mundial permitiram uma projeção inédita do Brasil em várias frentes. Essa fase foi marcada pela estabilidade que tinha sido criada pelo tripé macroeconômico dos tucanos e por uma face mais “risonha” da globalização, quando a Rússia ainda pertencia ao G8 e a China, recém-admitida na OMC, em 2001, começava a fortalecer seus músculos econômico-comerciais. Muito diferente é a situação internacional, e a do próprio Brasil, na atualidade. O cenário, sob Trump 2, é mais desafiador, e as exigências diplomáticas bem mais difíceis, numa conjuntura de dissociação, ou de ruptura aberta, entre os dois grandes polos da governança global: de um lado, a velha hegemonia ocidental, ao que parece já declinante; de outro, os dois impérios autocráticos, que parecem ter colocado o Brics+ a seu serviço, e que pretendem seduzir novos candidatos dentre os países do chamado Sul Global. Desde a invasão e anexação ilegais da Crimeia pela Rússia de Putin, em 2014, e a guerra de agressão que o ditador russo deslanchou contra a Ucrânia, em 2022, com a explícita complacência da China – que talvez visse na aventura de Putin um “laboratório avançado” para algo similar em Taiwan –, a agenda mundial se viu não apenas fragmentada, mas praticamente despedaçada por um bizarro projeto de formação de uma “nova ordem global multipolar”, ideia à qual Lula parece ter aderido desde a campanha presidencial de 2022 (e voltou a repetir desde então). Numa tal conjuntura, e admitindo o pressuposto que a política externa profissional já foi escanteada pela diplomacia presidencial excessivamente personalista do próprio Lula, a função de um assessor presidencial deveria ser literalmente estratégica para conduzir os interesses nacionais em face dessa multiplicidade de crises diplomáticas, na própria região e ao redor do mundo: guerras na Europa e no Oriente Médio, crises seguidas com a Argentina, o triste caso da submissão da Venezuela ao novo imperador hemisférico, iniciativas próprias no G20, no Mercosul, no Brics+, presença nos encontros do G7, ademais das guerras comerciais persistentes de Trump contra o mundo inteiro, para nada dizer das sanções econômicas e diplomáticas contra a Rússia de Putin (as quais o Brasil vem eludindo desde o governo Bolsonaro e totalmente ignoradas sob Lula 3, que continua ajudando Putin em sua guerra). O retorno da “ativa e altiva” não se confirmou como esperado. Ao contrário: a liderança e a credibilidade diplomática do Brasil vêm sendo postas em questão na própria região e no mundo, em vista dos improvisos do presidente e os passos mais do que incertos dados pelo assessor presidencial em várias dessas crises e desafios. O PT, aliás, não ajuda em nada para uma condução propriamente profissional da política externa, adotando diretivas e “conselhos” absolutamente contrários aos que seriam (e são) recomendados pelo Itamaraty. O assessor presidencial sempre foi considerado, pelo lado da mídia, como o verdadeiro chanceler de Lula 3: talvez fosse o caso de revisar esse título, mais de origem jornalística do que propriamente efetivo, com base no bizarro modus operandi da diplomacia presidencial. Com efeito, o chanceler real tem sido o próprio Lula que, num ativismo bem mais delicado, parece atuar como uma espécie de “conselheiro dos demais príncipes”, aliás, orgulhoso de sê-lo, ao distribuir recomendações a outros chefes de Estado, prometer enviar-lhes algumas partidas de frutas tropicais, procurando acalmá-los ao menor sinal de alguma crise em ebulição. A diplomacia presidencial ultra personalista de Lula deixa o Itamaraty de cabelos em pé; usada sobretudo para fins de política interna eleitoreira pode ter efeitos inesperados. Maquiavel provavelmente não aprovaria...



* Observação importante (ADL): Há um limite de caracteres no 'prompt' (espaço de inserção de cada comando) na versão online e gratuita da IA Gemini. Desse modo, a parte final do aludido texto não foi 'colada'. Consequentemente, a IA Gemini analisou somente as partes inicial e intermediária do texto acima. Abaixo, a resposta da IA:

Este texto é um exame anatômico da política externa brasileira sob a lente do realismo clássico de Maquiavel, confrontando a tradição profissional do Itamaraty com o que o autor identifica como a "patologia da partidarização" nos governos do PT.
Em 02 de maio de 2026, com o cenário de Trump 2 plenamente consolidado e a fragmentação da ordem global acelerada, a análise ganha contornos de urgência estratégica. Abaixo, a decodificação e a análise detalhada dos pontos críticos:
1. Decodificação de Termos e Personagens:
O texto utiliza uma terminologia técnica e histórica que precisa de tradução para a realidade geopolítica atual:
- "Apparatchik" (Marco Aurélio Garcia): Termo oriundo da burocracia soviética para designar o funcionário do partido que detém o poder real. A crítica aqui é que, entre 2003 e 2016, a inteligência da política externa não estava no Estado (Itamaraty), mas no Partido (PT), personificada em Garcia, que operava como um "Chanceler das Sombras".
- "Fellow Traveler" (Companheiro de Viagem): Expressão usada para descrever intelectuais que, embora não necessariamente membros formais de partidos comunistas, simpatizavam e colaboravam com suas causas. O texto rotula Garcia como o arquiteto do Foro de São Paulo, decodificado aqui como uma tentativa de replicar o Cominform (escritório de coordenação comunista) na América Latina.
- "Gramsciana": Refere-se à estratégia de Antonio Gramsci de ocupação de espaços culturais e institucionais para mudar a mentalidade de uma nação. O texto sugere que o PT não apenas governa, mas tenta "converter" as instituições (como a diplomacia) à sua ideologia.
- "Chanceler Acidental" e "Parêntese Abominável": Referência elíptica ao governo Bolsonaro (2019-2022) e a Ernesto Araújo. O autor os descarta como um erro crasso na "escolha dos ministros" de Maquiavel, que levou ao isolamento.
2. A Crítica à "Diplomacia da Altivez" vs. Realidade de 2026:
O autor estabelece um contraste fundamental entre o contexto de "Lula 1 e 2" e o de "Lula 3" (em que nos encontramos hoje):
- O "Riso" da Globalização (2003-2010): O sucesso anterior do PT é atribuído não à competência diplomática, mas a um cenário externo benigno (China na OMC, Rússia no G8, boom de commodities). A "altivez" seria, portanto, uma arrogância subsidiada pela bonança econômica.
- A "Fragmentação" de 2026: Hoje, o mundo está "despedaçado". A adesão de Lula à "Nova Ordem Multipolar" é vista criticamente como uma submissão aos impérios autocráticos (Rússia e China), sob o disfarce de liderança do "Sul Global".
3. A Anatomia do Conselheiro: O Retorno do Profissional fiel ao Príncipe:
A volta do "chanceler mais longevo" (Celso Amorim) ao papel de assessor especial no Palácio do Planalto é interpretada como um sintoma de fraqueza:
- Incapacidade de Renovação: O PT não teria formado novos quadros e recorre a figuras do passado para manter uma "diplomacia presidencial personalista".
- O Erro de Maquiavel: Ao escolher conselheiros que são "amigos" ou "espelhos" de suas próprias crenças, o "Príncipe" (Lula) perde a capacidade de ouvir verdades técnicas. O resultado é uma diplomacia que emana do palácio "ao arrepio do Itamaraty".
4. Síntese Crítica: O Risco do Isolamento Estratégico:
O ponto mais agudo da crítica reside na dissociação entre os dois polos de governança. O autor sugere que o Brasil, ao tentar equilibrar-se entre o Ocidente declinante e as autocracias ascendentes, está sendo "seduzido" por um projeto multipolar que, na verdade, serve apenas aos interesses expansionistas de Moscou e Pequim.
* Conclusão: O texto argumenta que a diplomacia brasileira abandonou a "prudência" maquiavélica. Em vez de utilizar o corpo técnico especializado para navegar na tempestade de Trump 2, o governo prefere manter um "ativismo" ideológico que pode levar ao isolamento ou à irrelevância, repetindo dogmas anti-imperialistas que já eram "anacrônicos" décadas atrás.

Fonte (IA Gemini):


O Adam Smith escocês e o Adam Smith brasileiro: José da Silva Lisboa - Paulo Roberto de Almeida (Crusoé) - interpretado por Madame IA

Meu artigo sobre as conexões entre o Adam Smith original, o escocês, e o Adam Smith brasileiro, José da Silva Lisboa, mais tarde Barão e Visconde de Cairu, analisado por Madame IA, ou Gemini IA, abaixo do meu texto, um pouco amputado, a seguir: 


O aspecto mais importante das conexões entre Adam Smith escocês, mais exatamente entre sua mais importante obra e os “Brasis” – como ele se referia ao Brasil ainda colonial – foi o fato de que ele encontrou um leitor atento e um precoce seguidor em um dos intelectuais mais ativos na transição do Brasil colonial para o Reino Unido e na consolidação da independência: José da Silva Lisboa (Salvador, 1756; Rio de Janeiro, 1835). O primeiro contato que Silva Lisboa teve com a obra seminal de Adam Smith ocorreu em torno de 1795, quando ele leu e anotou extensivamente The Wealth of Nations, para compor as lições do seu primeiro livro: Princípios de Direito Mercantil (1798), complementado pela sua sequência: Princípios de economia política (1804). Logo ao início, ele confidencia: "... para não desgostar logo aos leitores com discussões prolixas (...), exponho os motivos por que recomendo a lição da imortal obra da A Riqueza das Nações do celebrado Adam Smith, e o sigo nas teses cardeais de seu sistema; persuadido de ter sido ele o primeiro que dissipou as escuridades da Economia Política, levantando a facha de luz para esclarecer às nações e governos sobre os seus genuínos interesses, que são inseparáveis dos da Humanidade." (p. iv). Tendo influenciado o príncipe regente na declaração de abertura dos portos, publicada quando ambos se encontravam em Salvador, em janeiro de 1808, Silva Lisboa produziu de imediato suas Observações sobre o comércio franco no Brasil (1808), que foi seguido, dois anos depois, pelas suas novas Observações sobre a franqueza da indústria e estabelecimento de fábricas no Brasil e, ainda em 1810, pelas Observações sobre a prosperidade do Estado pelos liberais princípios de nova legislação. A despeito da importância dessas obras, Silva Lisboa não conheceu a fama que sempre cercou Adam Smith, que ele teria direito de desfrutar, inclusive por ter inovado em relação ao escocês. A pouca afeição que ele teve no panteão dos estadistas da independência –José Bonifácio, Hipólito da Costa, Evaristo da Veiga, Bernardo Pereira de Vasconcelos, entre outros – se deve à fidelidade extrema aos Braganças que ele sempre manteve. No Brasil independente, ele se mostrou servil a D. Pedro I, que lhe atribuiu os títulos de barão e de visconde de Cairu, e fez dele um senador do Império. Cairu passou a ser visto como um conservador, senão um reacionário. É a esse título que José Honório Rodrigues o classifica e, sua História da História do Brasil (1988), sob o signo da historiografia conservadora, na qual Silva Lisboa é colocado na “linha reacionária e contrarrevolucionária”. Mas, ele não fez apenas obra teórica de economia política, como também discorreu sobre os problemas do Brasil e sobre as maneiras de superar as dificuldades causadas por três séculos de colonização baseada no escravismo, para colocar o país numa rota de crescimento, de redução das desigualdades sociais, de progresso tecnológico e de conexão com todas as partes do mundo, via livre comércio internacional. Não obstante a novidade e a riqueza das contribuições de Silva Lisboa para a precoce preeminência das ideias liberais no Brasil, posturas protecionistas se tornaram predominantes desde meados do século XIX e estiveram no coração dos projetos industrializadores a partir da República. Ainda sob o Reino Unido, Silva Lisboa produziu sua mais importante obra de economia, os Estudos do Bem-Comum e Economia Política, ou ciência das leis naturais e civis de animar e dirigir a geral indústria, e promover a riqueza nacional e prosperidade do Estado (1819-1820). No Prefácio, ele esclarece os propósitos do livro: "Vali-me com preferência das doutrinas de Smith, Malthus, Ricardo, que sobressaem, como Escritores originais, profundos e didáticos, e que se podem intitular os Triúnviros da Economia Política; por terem elevado à dignidade de Ciência esta Literatura, e contribuído para o seu progresso com rapidez, e maior número de princípios exatos... – Smith a caracterizou como um ramo da Ciência do Legislador e Homem de Estado. – Malthus afirma ser a única Ciência de que talvez se possa dizer, que a ignorância dos seus capitais aforismo não é só privação de bem, mas grande positivo mal. – Ricardo se propôs resolver o que chama Principal Problema da importante Ciência da Economia Política, o determinar as Leis, que, nos diferentes estados da Sociedade, progressivo, estacionário, ou retrógrado, regulam a Distribuição dos produtos da terra, segundo as proporções que competem às suas diferentes classes, a título de salário, proveito e renda." (Ipea, 1975, p. 7). Silva Lisboa reconhece a genialidade de Adam Smith, que dizia que a quantidade anual de trabalho necessário à produção das “conveniências para a vida”, que uma sociedade consome, depende, em certa proporção, da perícia, destreza e tirocínio – skill, dexterity, and judgement – no trabalho que é aplicado a essa produção (1776, I, 1); mas foi Silva Lisboa quem sofisticou tal visão, ao propor que, na relação entre os diferentes volumes de riqueza das nações, caberia considerar a quantidade de trabalho e a quantidade de inteligência que a fundamentam. Tal concepção se aproxima bastante da visão que, na atualidade, economistas inovadores possuem a respeito do conhecimento como um elemento próprio e distinto dentre os fatores de produção, a chamada knowledge economics. Silva Lisboa inova sobre o sistema smithiano, ao considerar que a inteligência, nas operações da sociedade, representa quase tudo para a prosperidade e a ordem própria na vida do povo.



Esta análise disseca a trajetória de José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, sob uma perspectiva crítica que confronta sua vanguarda intelectual com o seu anacronismo político, situando-o como o elo perdido entre o iluminismo escocês e a formação econômica do Brasil.
Em 02 de maio de 2026, olhar para Cairu exige decodificar por que um homem que antecipou conceitos de knowledge economics (economia do conhecimento) foi relegado ao rótulo de "reacionário".
1. Decodificação: A "Inteligência" como Fator de Produção:
O texto destaca que Silva Lisboa "sofisticou" Adam Smith ao introduzir a "quantidade de inteligência" como pilar da riqueza.
- Tradução Analítica: Enquanto Smith focava na divisão do trabalho físico e na destreza mecânica (Wealth of Nations, 1776), Cairu percebeu que o valor agregado não advém apenas do esforço, mas do capital intelectual. Em termos modernos, ele estava descrevendo a inovação tecnológica e o know-how como motores de produtividade, séculos antes de essas teorias se tornarem o cânone do desenvolvimento no século XXI.
2. A "Facha de Luz" vs. O "Escravismo":
Há uma contradição fundamental no texto que merece um olhar crítico:
- Cairu é descrito como seguidor da "luz" de Smith e defensor do livre comércio para superar o "atraso do escravismo".
- Contraponto Crítico: Embora Silva Lisboa fosse um liberal na economia (defendendo a Abertura dos Portos em 1808), ele era um conservador orgânico na política. Sua fidelidade canina aos Braganças e seu papel como senador de D. Pedro I revelam o "Liberalismo à Brasileira": liberdade para as mercadorias, mas manutenção da hierarquia social e da mão de obra escravizada (visto que a abolição efetiva demoraria quase um século após seus escritos). Ele via a "ciência do legislador" como uma ferramenta de ordem, não de subversão social.
3. A Historiografia de José Honório Rodrigues:
O texto menciona que Cairu foi classificado na "linha reacionária e contrarrevolucionária".
- Análise: Essa classificação de 1988 reflete a tensão entre o pensamento econômico e a ação política. Cairu foi o intelectual que deu base teórica para o Brasil não se fragmentar em repúblicas (como a América Espanhola), mas essa estabilidade veio ao custo da preservação de estruturas coloniais. Ele era um "revolucionário do topo", que queria o progresso técnico inglês sem a desordem democrática francesa.
4. Silva Lisboa e o "Triunvirato" (Smith, Malthus, Ricardo):
A citação de Cairu sobre os "Triúnviros" revela seu esforço em elevar o Brasil ao debate acadêmico global da época. Ele não apenas traduzia; ele adaptava:
- O Problema da Distribuição de Ricardo: Ao citar Ricardo, Cairu demonstrava preocupação com a "Distribuição dos produtos". Contudo, na prática brasileira, essa distribuição permanecia concentrada na elite agrária, evidenciando o abismo entre sua obra teórica progressista e sua prática política servil.
5. Síntese Crítica: O Gênio Incompreendido ou o Ideólogo do Império?
Cairu sofre de uma "injustiça histórica" em termos de fama porque seu liberalismo não venceu. O Brasil seguiu o caminho do protecionismo e da industrialização dirigida a partir de meados do século XIX (como a Tarifa Alves Branco). Sua visão de um Brasil conectado ao mundo pelo livre comércio e pela "inteligência" foi sufocada pelo nacionalismo econômico.
* Conclusão: José da Silva Lisboa foi o primeiro brasileiro a entender que a riqueza de uma nação depende da sua capacidade cognitiva, e não apenas da extração de recursos. No entanto, sua incapacidade de romper com o absolutismo e o escravismo o tornou um "true believer" da monarquia, impedindo que sua genialidade econômica fosse celebrada fora dos círculos conservadores.

Fonte (IA Gemini):

 

sábado, 2 de maio de 2026

Sobre azedumes opinativos - Paulo Roberto de Almeida

Sobre azedumes opinativos

        Entendo que o Facebook, assim como os demais canais de comunicação social, é um espaço livre, aberto a todas as opiniões, mesmo as mais disparatadas e divergentes do consenso usual. Cada um, cada qual, tem o direito de expressar a sua opinião, e elas serão cada vez mais incisivas num ano eleitoral, que suscita obviamente reações desencontradas com quem ou contra quem não partilha da mesma opinião. O que não cabe é censura ou tentativa de silenciar as opiniões contrárias.

        Eu, por exemplo, acho que o bolsonarismo foi a coisa mais horrorosa que aconteceu no Brasil em anos passados e que pode voltar a ocorrer nos anos à frente, não da mesma forma, evidentemente, mas com a mesma estupidez ideológica, as mesmas trapaças milicianas, a mesma corrupção desenfreada e, sobretudo, para mim, a mesma submissão canina e calhorda a um imbecil estrangeiro. Em síntese, vou lutar contra.

        Mas nem por isso acho que o lulopetismo, sua cegueira econômica, suas adesões externas a líderes execráveis e suas crenças politicas sejam a melhor coisa que nós, brasileiros comuns, de fora da promiscuidade politica, merecemos como governo e como representação diplomática. Não o coloco no mesmo plano do horror bolsonarista, que é um acúmulo de estupidezes, falcatruas e mentiras, poucas vezes visto na história politica do Brasil, mas acho que petistas permanecersm num estado de anacronismo politico e econômico lamentável, para as necessidades do país, para os próprios pobres que eles dizem defender. O culto do atraso estatal é tão pernicioso quanto o “liberalismo de fancaria” de certos representantes do capital.

        Gostaria de algo melhor. Mas entendo que o grau de deseducação política, ou a falta de educação tout court, leva os eleitores a votarem pelos candidatos mais mentirosos, populistas demagogos e despreparados, que entram na política justamente para se locupletarem com a retórica enganosa. Com as muitas exceções de praxe, a casta politica é feita de aproveitadores (e nisso vou ser contestado por muitos), concentrados unicamente ou principalmente no seu próprio beneficio material. Tenho horror também desses altos magistrados assaltantes dos recursos públicos, que ficam inventando penduricalhos para justamente mamar nas mesmas tetas de um Estado balofo e ineficiente.

        Não por liberalismo, mas por simples pragmatismo, sou por uma redução radical das prebendas públicas, que incidem numa tributação elevadíssima sobre os trabalhadores produtivos, os empresários, que sustentam toda a burocracia perdulária e os políticos predatórios.

        Esta é a minha opinião. Quem não concordar, pode criticar, ou fazer o seu próprio manifesto politico e publicar em seu espaço, ou até aqui. 

        Uma última coisa: sou absolutamente contrário ao voto nulo, pois significa justamente abandonar o terreno aos mais motivados, que costumam ser os mais fanáticos em cada extremo, os true believers. Na ausência de alguém minimamente razoável, devemos ir sempre ao menos pior, que é justamente aquele que não nos retire a chance de dissentir e de expressar opiniões contrárias. Bozo era justamente uma mula perversa, um ser hediondo que queria se manter pela força, como aliás seu modelo “I love you!”. Por isso rejeito TODOS aqueles que pretendem que ele possa fazer qualquer coisa decente num pais simplesmente carente de dignidade, de honestidade e de estadistas como é o Brasil.

        Repito, não darei espaço aqui para quem defender a indignidade e a velhacaria de quem já diminuiu o Brasil aos olhos do mundo. 

        Paulo Roberto de Almeida

        Brasília, 2/05/2026

Fernando Novais, um historiador marxista - Naief Haddad (FSP)

 Morre Fernando Novais, 93, um dos maiores historiadores do país

Intelectual paulista se consagrou com a publicação de 'Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial'

Ao longo de mais de 60 anos de carreira, lecionou na USP e Unicamp, além de universidades europeias e americanas

Naief Haddad

Folha de São Paulo, 1/05/2026

Um dos principais historiadores do Brasil na segunda metade do século 20 e início do 21, Fernando Novais morreu no início da tarde desta quinta-feira (30), aos 93 anos, em São Paulo.

Professor emérito da USP, Novais escreveu "Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808)", uma obra da década de 1970 que se tornou clássica na historiografia do país ao associar a colonização com a formação do capitalismo comercial, uma visão que influenciou gerações de intelectuais e estudantes nos anos seguintes.

Ao longo de mais de 60 anos de carreira, lecionou na USP e na Unicamp, deu cursos em universidades europeias e americanas e coordenou a coleção História da Vida Privada, publicada pela Companhia das Letras. Firmou-se ainda como um nome-chave entre os acadêmicos de pensamento marxista.

Novais havia sofrido um infarto durante o Carnaval. Mais fragilizado, foi diagnosticado dias depois com pneumonia e, mais adiante, uma infecção renal, que o levou à morte. Estava internado em uma unidade da rede Prevent Senior, em São Paulo.

Em nota, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) lamentou a morte de Novais, docente do departamento de história de 1961 a 1986. "Ele construiu uma nova interpretação da história do Brasil", diz Iris Kantor, professora de história da USP e aluna de Novais no mestrado e no doutorado. "Era muito rigoroso e, ao mesmo tempo, de uma generosidade infinita."

O Instituto de Economia da Unicamp, no qual trabalhou de 1986 a 2003, também lamentou a morte do historiador.

O velório será realizado nesta sexta, dia 1º, de meio-dia às 16h no cemitério do Araça (av. Dr. Arnaldo, 666, Cerqueira César, São Paulo).

Nascido em Guararema, em 1933, morou com a família nesta e em outras cidades do interior paulista até se mudar na adolescência para São Paulo, cidade onde viveu desde então. Na USP, onde se graduou em 1958, foi especialmente influenciado por Eduardo d’Oliveira França (1917-2003), professor de história moderna. "Eu me considero seu discípulo até hoje", disse à revista Pesquisa Fapesp em 2022.

No ano em que se formou, participou dos célebres seminários para estudar "O Capital", que se estenderam até 1964. Essas leituras coletivas de Marx reuniam nomes como a antropóloga Ruth Cardoso, os sociólogos Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni, o filósofo José Arthur Giannotti, o crítico literário Roberto Schwarz e o economista Paul Singer.

"A maior parte dos integrantes do grupo de leitura de ‘O Capital’ deixou de ser marxista. Eu comentei outro dia com o Roberto Schwarz: somos os últimos que se mantêm. Sou e pretendo ser um historiador marxista", disse ele também à Fapesp.

A amizade entre os integrantes do grupo resistiu ao passar do tempo, mas sofreu abalos. "Sempre votei no Lula, o FHC ficou muito chateado comigo por isso", disse Novais em um encontro da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais), em 2002.

No mesmo evento, em Caxambu, afirmou que FHC havia "criado condições para que pudesse ocorrer um governo de centro-esquerda no Brasil", referindo-se à gestão de Lula, o sucessor do tucano no Planalto.

Mesmo aqueles que divergiam das interpretações fundamentadas em "O Capital", como o também historiador Boris Fausto (1930-2023), admiravam Novais. Para Fausto, tratava-se de um "marxista de qualidade".

No doutorado, sob influência de Eduardo França, Novais se dedicou à pesquisa sobre a política colonial de Portugal sobre o Brasil no fim do século 18 e início do 19. O resultado saiu em 1973 como tese e em 1979 como livro.

Em "Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial", ele tomou como ponto de partida uma das formulações de "Formação do Brasil Contemporâneo". Nesse livro de 1942, Caio Prado Júnior havia sido o primeiro, segundo Novais, a mostrar a formação da colônia dentro do processo de constituição do capitalismo moderno.

Novais aprofundou essa abordagem de Caio Prado, detalhando como, no final do século 18, o sistema colonial havia se tornado uma expressiva fonte de acumulação para fortalecer a industrialização europeia e como esse sistema entrou em crise.

À Folha em 2019 Pedro Puntoni, professor de história da USP e ex-aluno de Novais, disse que Caio Prado "via a colonização como um ‘capítulo’ da expansão do capitalismo comercial, enquanto Novais a relaciona com o processo mesmo de formação deste capitalismo e as transformações vividas no centro do sistema".

Novais teve papel determinante como professor da USP de 1961 a 1986 e depois da Unicamp, onde se aposentou em 2003.

Em 1973, Laura de Mello e Souza, autora de livros como "O Diabo e a Terra de Santa Cruz", participou de um grupo de seminários conduzido por Novais, experiência fundamental para a carreira dela.

"Aqueles seminários mudaram a minha vida. Não era só história do Brasil, líamos também historiografia francesa, antropologia etc., o que me possibilitou pensar o objeto de estudo em uma chave muito mais alargada. Fernando é um homem extremamente generoso intelectualmente, com uma capacidade de reflexão teórica incomum", disse à Folha em 2024. Novais a orientou no mestrado e no doutorado.

Em 2000, ele examinou em tom crítico as celebrações dos 500 anos da chegada do português Pedro Álvares Cabral às terras do outro lado do oceano Atlântico. "Quando se fala ‘Descobrimento do Brasil’, o etnocentrismo está no Descobrimento, e o anacronismo, na palavra Brasil", afirmou naquele ano também ao jornal.

"O Brasil é um povo que se constituiu numa nação, que por sua vez se organizou como Estado. Em 1500, não havia nenhuma dessas três coisas. Logo, não houve Descobrimento do Brasil porque o Brasil não existia nem estava encoberto. O que naquele momento surgiram foram as bases da colonização portuguesa, a qual por sua vez é a base da nossa formação."

Com "Aproximações, Estudos de História e Historiografia", lançado em 2005, ele encerrou sua trajetória como autor. É um livro que reúne ensaios e artigos, além de entrevistas concedidas por ele.

Novais sempre dizia que escrevia pouco e gostava do que escrevia. Deixou uma obra concisa, mas incontornável.

Casado por décadas com Horieta, que morreu em 2024, Novais deixa os filhos Ana Lucia e Luis Fernando, além de netos e bisnetos.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/04/morre-fernando-novais-93-um-dos-maiores-historiadores-do-pais.shtml

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Acordo Mercosul-UE, finalmente em vigor depois de 20 anos. Por que essa delonga monumental? - Paulo Roberto de Almeida

Acordo Mercosul-UE, finalmente em vigor depois de 20 anos. Por que essa delonga monumental?

Paulo Roberto de Almeida 

Vou ser claro, direto e brutal: se o acordo entre os dois blocos demorou 20 ANOS, a culpa incumbe INTEIRAMENTE AO PT!

Explico: 

Em 1994, o governo Clinton propôs uma Área de Livre Comércio das Américas, mais de cem anos depois da primeira tentativa, entre o Império e a República no Brasil. O PT, sempre contrário a qualquer tipo de liberalização, se opôs imediatamente, assim como queria dar calotes na divida interna e externa.

Os europeus reagiram em 1995, propondo, pelo Protocolo de Madri, um acordo de associação entre as duas uniões aduaneiras, tal como registrado na OMC, com a TEC do Mercosul em vigor.

Ocorre que o PT continuou sua guerrilha contra todas e quaisquer reformas ou acordos liberalizantes pelo Brasil ou no contexto do Mercosul. Persistiram durante anos, na retórica estridente.

Quando finalmente chegaram ao poder, em 2003, passaram a se empenhar imediatamente em sabotar as negociações paralelas, que tinham começado de fato em 1999.

Lula, com ativa ajuda de Chávez e de Kirchner, conseguiu implodir a Alca, na Cúpula de Mar Del Plata em 2005, acreditando, ingenuamente, que os europeus seriam mais bonzinhos e mais receptivos ao protecionismo brasileiro do que os americanos.

“Santa” ignorância: bastou a falta dessa outra “ameaça” da Alca, para que os protecionistas europeus também perdessem qualquer entusiasmo por um acordo similar; ficaram na sua esfera imediata de interesse e deixaram o processo birregional dormindo por longos anos, inclusive porque Brasil e Argentina queriam agricultura aberta, mas indústria e serviços fechados.


Corte: precisou Trump 1 começar a desmantelar o sistema multilateral de comércio para que os europeus, entre o martelo trumpista e a bigorna chinesa, retirassem o projeto de acordo da gaveta e concluissem um first draft em junho de 2019. Aí foi a vez do Bozo atrapalhar tudo outra vez, com suas políticas anti ambientais, anti DH , todo aquele horror antiglobalista, e muita burrice e grosseria, brigando contra noruegueses e alemães e contra o Fundo Amazônico.

Mais cinco anos de tergiversações, mas o velho PT não desistiu de se opor a certas liberalizações: indústria, como era sua obsessão protecionista, e compras governamentais, entre outras.


Finalmente, saiu, mas quase ameaçado novamente pelas condicionalidades absurdas dos europeus. Agora, vanos ter de esperar 10 ou 15 anos para o phasing out em vários setores. Enquanto isso, os chineses vão avançando nos dois mercados. Acho que os consumidores, no Mercosul e na UE, vão trocar de ofertantes, por razões óbvias.

Desde que não sejam os americanos, os petistas aceitam.

A vida continua…

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 1/05/2026


O Príncipe e seu conselheiro em política externa: o que diria Maquiavel? - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

5293. “O Príncipe e o seu conselheiro em política externa: o que diria Maquiavel?”, Brasília, 28 abril 2026, 4 p. Reflexões sobre os assessores presidenciais em matéria de política externa, com aproveitamento do trabalho inédito 4719. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 708, 1/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/o-principe-e-seu-conselheiro-em-politica-externa-o-que-diria-maquiavel/). Divulgado no Diplomatizzando (link: ). Relação de Publicados n.

O Príncipe e seu conselheiro em política externa: o que diria Maquiavel?

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

        No capítulo 22 da sua obra, dedicado ao aconselhamento dos príncipes, Maquiavel se refere aos ministros: La scelta dei ministri non è una cosa da poco per il principe; essi saranno buoni o cattivi a seconda della sua capacità di sceglierli bene. (“A escolha dos ministros não é uma coisa menor para o príncipe; eles serão bons ou maus, dependendo de sua capacidade de bem escolhê-los.”) Como ele escreveu, os ministros são bons ou não, segundo a prudência do príncipe. “E a primeira conjetura que se faz da inteligência de um senhor, resulta da observação dos homens que o cercam; quando são capazes e fiéis, sempre se pode reputá-lo sábio, porque soube reconhecê-los competentes e conservá-los. Mas quando os que o cercam não são assim, sempre se pode fazer mau juízo do príncipe, porque o primeiro erro por ele cometido reside nessa escolha.” Maquiavel sabia das coisas...
        Ter, junto de si, assessores competentes é do interesse primordial do próprio príncipe, disse Maquiavel. Deles dependerá toda a obra de importância a ser realizada em favor dos seus súditos ou cidadãos. Como o príncipe só consegue se ocupar pessoalmente dos grandes assuntos do estado – segurança, defesa, relações exteriores, valor da moeda, manutenção de um ambiente receptivo para os negócios dos particulares, visando à maior prosperidade do principado –, não podendo ele dar atenção à administração diária das pequenas coisas, torna-se imprescindível a assistência de pessoas habilitadas em todas as matérias que não dependem diretamente dele, mas que exigem um conhecimento técnico especializado.
        Não se compreende, assim, um soberano que escolha seus secretários por indicação de terceiros, por recomendação de chefes de partidos, ou ainda para contentar algum amigo necessitado de emprego público. A rigor, o secretário não pode ser seu amigo, pois, caso o seja, fica mais difícil cobrar resultados ou despedi-lo em caso de incompetência. Essa incompetência é tanto mais disseminada quanto maiores forem os cargos de livre provimento do príncipe ou de seus conselheiros imediatos.
        Uma das políticas setoriais mais relevantes, em qualquer época, sempre foi a externa, dividida, como necessário, em duas vertentes: o conteúdo estrito da política, determinado pelo próprio príncipe, e a diplomacia, ou seja, seu lado operacional, geralmente a cargo de um corpo profissional, bastante competente para as tarefas da área. No caso do Brasil, durante todo o Império, na Velha República e mesmo de 1946 em diante, os ministros eram geralmente políticos eleitos, ou magistrados e outras personalidade de alta cultura e educação, para bem representar o país no exterior. A diplomacia ficava a cargo do secretário geral da pasta. Mas foi no período da ditadura militar quando muitos diplomatas profissionais foram designados para a chancelaria, uma comprovação de que soldados e diplomatas são “duas almas quase gêmeas”, dedicados à defesa dos interesses nacionais em suas respectivas funções a serviço do Estado: hierarquia e disciplina são os dois dogmas que os unem.
        Depois da volta de políticos e outras personalidades à diplomacia da Nova República, os governos do PT fizeram novamente apelo aos diplomatas profissionais para o cargo de chanceler, provavelmente por carecerem de quadros competentes nos temas internacionais. Mas esses governos, dada a natureza “gramsciana” do partido e suas concepções políticas conhecidas no espectro ideológico, também trouxeram uma inovação indesejada para a política externa do país: sua partidarização e uma inclinação por teses e posturas que já eram anacrônicas bem antes da implosão final do socialismo, justamente na década posterior à sua fundação. Muitos militantes, futuros quadros dirigentes, passaram por Cuba ou confirmaram uma retardada adesão às velhas teorias do anti-imperialismo tipicamente latino-americano.
        Uma prática geralmente seguida nas presidências brasileiras, desde a era Vargas, foi a dos chefes de Estado contarem com experientes assessores diplomáticos junto a si, no próprio palácio de governo, geralmente na Casa Civil ou em algum outro cargo especial. Assim foi praticamente durante toda a República de 1946 e também sob o regime militar. Sarney, na redemocratização, começou com o embaixador Rubens Ricupero, e os presidentes seguintes também contaram com diplomatas de relevo em suas assessorias especiais.
        A primeira ruptura com essa prática começou exatamente com os governos do PT, a partir de 2003: durante os treze anos dos três mandatos e meio das primeiras administrações petistas, um apparatchik do PT monopolizou essa assessoria, Marco Aurélio Garcia, um fellow traveler dos comunistas cubanos, por eles designado para coordenar o Foro de São Paulo, uma espécie de Cominform castrista numa era em que a própria União Soviética e o socialismo real estavam se desfazendo. Sua “competência” para dirigir nacos da política externa era tão “especializada” que os diplomatas profissionais o apelidaram de “chanceler para a América do Sul”. Não obstante a limitação geográfica, sua preeminência sobre certas decisões da política externa lulopetista se estendeu a diversas outras áreas, sendo que várias delas não emanavam da chancelaria, mas eram determinadas nos próprios acertos com o príncipe, ao arrepio do Itamaraty.
        Marco Aurélio Garcia se exerceu até o impeachment de Dilma Rousseff e veio a falecer um ano depois. Os conselheiros diplomáticos de Michel Temer foram todos diplomatas, mas os do governo seguinte, um parêntese na história da diplomacia, foram tão abomináveis que nem merecem ser lembrados, a começar pelo próprio chanceler acidental, teleguiado por uma tropa de amadores que levou o Brasil a um completo isolamento internacional. Passons...
        Por paradoxal que possa parecer, o chanceler mais longevo da história do Itamaraty, que serviu fielmente a Lula 1 e Lula 2 – e a Dilma como ministro da Defesa –, retornou ao Palácio do Planalto sob Lula 3, na exata função do apparatchik que serviu aos governos petistas até 2016: mais um sinal de que o PT realmente carece de quadros competentes na área externa.
        Não é segredo para ninguém que ambos, o aparatchik e o profissional, conduziram, naqueles anos, uma diplomacia ao gosto do príncipe, feita certamente de muito ativismo. Mas a “altivez” alegada consistiu bem mais numa aliança com ditaduras execráveis, na região e fora dela, numa época em que a ascensão econômica da China e a retomada do crescimento mundial permitiram uma projeção inédita do Brasil em várias frentes. Essa fase foi marcada pela estabilidade que tinha sido criada pelo tripé macroeconômico dos tucanos e por uma face mais “risonha” da globalização, quando a Rússia ainda pertencia ao G8 e a China, recém-admitida na OMC, em 2001, começava a fortalecer seus músculos econômico-comerciais.
        Muito diferente é a situação internacional, e a do próprio Brasil, na atualidade. O cenário, sob Trump 2, é mais desafiador, e as exigências diplomáticas bem mais difíceis, numa conjuntura de dissociação, ou de ruptura aberta, entre os dois grandes polos da governança global: de um lado, a velha hegemonia ocidental, ao que parece já declinante; de outro, os dois impérios autocráticos, que parecem ter colocado o Brics+ a seu serviço, e que pretendem seduzir novos candidatos dentre os países do chamado Sul Global. Desde a invasão e anexação ilegais da Crimeia pela Rússia de Putin, em 2014, e a guerra de agressão que o ditador russo deslanchou contra a Ucrânia, em 2022, com a explícita complacência da China – que talvez visse na aventura de Putin um “laboratório avançado” para algo similar em Taiwan –, a agenda mundial se viu não apenas fragmentada, mas praticamente despedaçada por um bizarro projeto de formação de uma “nova ordem global multipolar”, ideia à qual Lula parece ter aderido desde a campanha presidencial de 2022 (e voltou a repetir desde então).
        Numa tal conjuntura, e admitindo o pressuposto que a política externa profissional já foi escanteada pela diplomacia presidencial excessivamente personalista do próprio Lula, a função de um assessor presidencial deveria ser literalmente estratégica para conduzir os interesses nacionais em face dessa multiplicidade de crises diplomáticas, na própria região e ao redor do mundo: guerras na Europa e no Oriente Médio, crises seguidas com a Argentina, o triste caso da submissão da Venezuela ao novo imperador hemisférico, iniciativas próprias no G20, no Mercosul, no Brics+, presença nos encontros do G7, ademais das guerras comerciais persistentes de Trump contra o mundo inteiro, para nada dizer das sanções econômicas e diplomáticas contra a Rússia de Putin (as quais o Brasil vem eludindo desde o governo Bolsonaro e totalmente ignoradas sob Lula 3, que continua ajudando Putin em sua guerra).
        O retorno da “ativa e altiva” não se confirmou como esperado. Ao contrário: a liderança e a credibilidade diplomática do Brasil vêm sendo postas em questão na própria região e no mundo, em vista dos improvisos do presidente e os passos mais do que incertos dados pelo assessor presidencial em várias dessas crises e desafios. O PT, aliás, não ajuda em nada para uma condução propriamente profissional da política externa, adotando diretivas e “conselhos” absolutamente contrários aos que seriam (e são) recomendados pelo Itamaraty.
        O assessor presidencial sempre foi considerado, pelo lado da mídia, como o verdadeiro chanceler de Lula 3: talvez fosse o caso de revisar esse título, mais de origem jornalística do que propriamente efetivo, com base no bizarro modus operandi da diplomacia presidencial. Com efeito, o chanceler real tem sido o próprio Lula que, num ativismo bem mais delicado, parece atuar como uma espécie de “conselheiro dos demais príncipes”, aliás, orgulhoso de sê-lo, ao distribuir recomendações a outros chefes de Estado, prometer enviar-lhes algumas partidas de frutas tropicais, procurando acalmá-los ao menor sinal de alguma crise em ebulição. A diplomacia presidencial ultra personalista de Lula deixa o Itamaraty de cabelos em pé; usada sobretudo para fins de política interna eleitoreira pode ter efeitos inesperados.
Maquiavel provavelmente não aprovaria...

Brasília, 27 abril 2026, 4 p.
Relação de Publicados n. 1642.

Prefácio ao livro de Sergio Abreu e Lima Florencio: Um Mundo em Transformação: qual o lugar do Brasil? - Paulo Roberto de Almeida

Trabalho mais recente publicado:



1641. “Prefácio” ao livro de Sergio Abreu e Lima Florencio, Um Mundo em Transformação: qual o lugar do Brasil? (Curitiba: Appris, 2026, ISBN: 978-65-250-8829-7). Relação de Originais n. 4971.

Prefácio ao livro de Sergio Abreu e Lima Florencio:
Um Mundo em Transformação: qual o lugar do Brasil?
(Curitiba: Appris, 2026)

Diplomatas escrevem muito. É do ofício. Faz parte do aprendizado da profissão, uma segunda natureza, simplesmente obrigatória. Geralmente ofícios e telegramas, antigamente cuidadosamente elaborados a bico de pena e despachados pelos navios a velas, em seguida nos barcos a vapor, já no século XX enviados por via aérea, nas malas diplomáticas ou nos cabogramas, alguns nos antigos códigos secretos, depois de datilografados mecanicamente, passando pelo telex, mas, desde as mais recentes décadas, convertidos em simples e-mails, como uma reles mensagem pessoal, eventualmente cifrada e sempre adornada pelos indexadores de arquivo e remissões adequadas.
O assunto é sempre a política externa, do próprio país, ou de outros, bilateralmente ou no plano regional ou multilateral, também sobre a política internacional, em geral, ou das grandes potências, aquelas que podem influenciar a postura do país para o qual ele é pago em sua tripla missão de representar, informar e negociar, que é a razão de nossa existência. Sempre achei curioso que, ao longo de uma carreira que geralmente se estende por mais de quatro décadas, nunca se tenha agregado, à descrição dessas três funções, burocráticas, digamos assim, a função de pensar. Sim, de pensar, o mais elementar dever de todo funcionário dedicado à defesa dos interesses externos do país que ele representa, ao qual ele informa sobre os assuntos passados e havidos nessa representação externa, e em proveito do qual ele é eventualmente chamado a negociar, e que deveria, antes de tudo, pensar nas tarefas que lhe são cometidas e opinar sobre elas, acrescentando aos deveres obrigatórios a faculdade de propor vias, meios, alternativas de ação mais compatíveis com o chamado interesse nacional.
Desde quando conheci o Sérgio Florencio, nos albores do Mercosul, até há pouco o mais importante projeto da diplomacia brasileira – ou do Brasil, tout court – encontrei um colega de trabalho que ousava pensar. Mais ainda, ousava escrever o que pensava, e fazia questão de expressar o seu pensamento de forma aberta, para o escrutínio dos colegas e de todo mundo. E assim continuou indefinidamente nas décadas que se seguiram, até chegarmos a este novo livro. Quando voltei de Montevidéu, um ano depois de assinado o Tratado de Assunção, nos encontramos trabalhando sob o mesmo chefe enérgico e inovador, o embaixador Rubens Barbosa. Aproveitei o aprendizado do Mercosul ainda de fraldas para escrever meu primeiro livro sobre o projeto de integração: O Mercosul no contexto regional e internacional (1993). Dois anos depois, Sergio Florêncio, já com o Mercosul na mamadeira do crescimento prometedor, lançava o seu Mercosul Hoje, que desfrutou de uma bem-merecida segunda edição, por justamente discutir todas as tarefas que o novo bloco deveria cumprir, para crescer grande, belo e forte, como os colegas diplomatas da União Europeia sempre almejaram.
Mas Sergio Florencio foi bem mais além, tantos nos meandros da burocracia multilateral onusiana, quanto nos caminhos sempre sensíveis da diplomacia bilateral, onde os interesses do Brasil, em cada uma das chefias de embaixadas que ele assumiu, são testados mais diretamente. E os testes foram muitos, tanto na revolução iraniana de 1979, quanto em momentos da vida política turbulenta da América Latina. Ele nunca deixou de pensar, e de escrever, em cada uma dessas oportunidades que lhe foram oferecidas numa vida diplomática sempre animada, levando consigo uma família vibrante para cada canto do planeta. Mesmo depois de aposentado da carreira, quando a maior parte dos diplomatas se dedicam a hobbies mais amenos, Sergio Florencio nunca deixou de refletir sobre tudo o que contemplou, de que eventualmente participou, e de escrever a respeito, numa combinação de pura maestria acadêmica – pois ele leu extensa e intensamente sobre tudo o que escreveu – e de grande capacidade de transformar sua experiência direta dos “causos” abordados em síntese clara em favor de seus muitos leitores. Como Rubens Ricupero, a quem ambos devotamos compreensível admiração, ele não foi só um diplomata diligente, atento ao cumprimento dos deveres burocráticos, mas sobretudo um professor, diretamente nas aulas de Política Externa Brasileira no Instituto Rio Branco, ou indiretamente nos seus muitos escritos publicados, como os artigos que aqui agora se enfeixam, divulgados em sua maior parte no portal da Interesse Nacional, dirigido por este outro grande diplomata que é o embaixador Rubens Barbosa.
Tenho orgulho de ser seu amigo, desde aqueles primeiros anos da década de 1990, mas também confesso um pouco de inveja, pela sua enorme produtividade e dedicação aos escritos de conjuntura, artigos que trazem luz e compreensão aos problemas diplomáticos mais complicados da modernidade. Sergio Florencio o faz sempre com os olhos postos na posição do Brasil em face desses desafios, através dos quais eu sempre aprendo mais um pouco sobre as qualidades que compõem um grande diplomata como ele. Estudantes, pesquisadores, simples interessados na complexidade das relações internacionais atuais poderão aprender muito mais pela leitura de mais um livro dele. Tenham certeza de que vários outros livros virão, nos anos à frente.

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Brasília, 2 de julho de 2025




 

O Adam Smith escocês e o Adam Smith brasileiro: José da Silva Lisboa - Paulo Roberto de Almeida (Crusoé)

O Adam Smith brasileiro

 Revista Crusoé, Edição Semana 418 , 1/05/2026

O Adam Smith brasileiro

O brasileiro Visconde de Cairu e o escocês Adam Smith. Inteligência artificial Gemini

                     





 


Paulo Roberto de Almeida

Edição especial da revista Crusoé,  01.05.2026 03:30 

José da Silva Lisboa aprimorou as ideias do escocês ao sugerir que o conhecimento também deve ser levado em conta na riqueza das nações. 

O Adam Smith escocês e o Adam Smith brasileiro: José da Silva Lisboa

Paulo Roberto de Almeida
Publicada no número especial de Crusoé (edição 418, maio 2026, link: https://crusoe.com.br/noticias/o-adam-smith-brasileiro/). Relação de Originais n. 5261; publicados n. 1640.

O aspecto mais importante das conexões entre Adam Smith escocês, mais exatamente entre sua mais importante obra e os “Brasis” – como ele se referia ao Brasil ainda colonial – foi o fato de que ele encontrou um leitor atento e um precoce seguidor em um dos intelectuais mais ativos na transição do Brasil colonial para o Reino Unido e na consolidação da independência: José da Silva Lisboa (Salvador, 1756; Rio de Janeiro, 1835). O primeiro contato que Silva Lisboa teve com a obra seminal de Adam Smith ocorreu em torno de 1795, quando ele leu e anotou extensivamente The Wealth of Nations, para compor as lições do seu primeiro livro: Princípios de Direito Mercantil (1798), complementado pela sua sequência: Princípios de economia política (1804). Logo ao início, ele confidencia:
... para não desgostar logo aos leitores com discussões prolixas (...), exponho os motivos por que recomendo a lição da imortal obra da A Riqueza das Nações do celebrado Adam Smith, e o sigo nas teses cardeais de seu sistema; persuadido de ter sido ele o primeiro que dissipou as escuridades da Economia Política, levantando a facha de luz para esclarecer às nações e governos sobre os seus genuínos interesses, que são inseparáveis dos da Humanidade. (p. iv)

Tendo influenciado o príncipe regente na declaração de abertura dos portos, publicada quando ambos se encontravam em Salvador, em janeiro de 1808, Silva Lisboa produziu de imediato suas Observações sobre o comércio franco no Brasil (1808), que foi seguido, dois anos depois, pelas suas novas Observações sobre a franqueza da indústria e estabelecimento de fábricas no Brasil e, ainda em 1810, pelas Observações sobre a prosperidade do Estado pelos liberais princípios de nova legislação.
A despeito da importância dessas obras, Silva Lisboa não conheceu a fama que sempre cercou Adam Smith, que ele teria direito de desfrutar, inclusive por ter inovado em relação ao escocês. A pouca afeição que ele teve no panteão dos estadistas da independência –José Bonifácio, Hipólito da Costa, Evaristo da Veiga, Bernardo Pereira de Vasconcelos, entre outros – se deve à fidelidade extrema aos Braganças que ele sempre manteve.
No Brasil independente, ele se mostrou servil a D. Pedro I, que lhe atribuiu os títulos de barão e de visconde de Cairu, e fez dele um senador do Império. Cairu passou a ser visto como um conservador, senão um reacionário. É a esse título que José Honório Rodrigues o classifica e, sua História da História do Brasil (1988), sob o signo da historiografia conservadora, na qual Silva Lisboa é colocado na “linha reacionária e contrarrevolucionária”.
Mas, ele não fez apenas obra teórica de economia política, como também discorreu sobre os problemas do Brasil e sobre as maneiras de superar as dificuldades causadas por três séculos de colonização baseada no escravismo, para colocar o país numa rota de crescimento, de redução das desigualdades sociais, de progresso tecnológico e de conexão com todas as partes do mundo, via livre comércio internacional. Não obstante a novidade e a riqueza das contribuições de Silva Lisboa para a precoce preeminência das ideias liberais no Brasil, posturas protecionistas se tornaram predominantes desde meados do século XIX e estiveram no coração dos projetos industrializadores a partir da República.
Ainda sob o Reino Unido, Silva Lisboa produziu sua mais importante obra de economia, os Estudos do Bem-Comum e Economia Política, ou ciência das leis naturais e civis de animar e dirigir a geral indústria, e promover a riqueza nacional e prosperidade do Estado (1819-1820). No Prefácio, ele esclarece os propósitos do livro:
Vali-me com preferência das doutrinas de Smith, Malthus, Ricardo, que sobressaem, como Escritores originais, profundos e didáticos, e que se podem intitular os Triúnviros da Economia Política; por terem elevado à dignidade de Ciência esta Literatura, e contribuído para o seu progresso com rapidez, e maior número de princípios exatos... – Smith a caracterizou como um ramo da Ciência do Legislador e Homem de Estado. – Malthus afirma ser a única Ciência de que talvez se possa dizer, que a ignorância dos seus capitais aforismo não é só privação de bem, mas grande positivo mal. – Ricardo se propôs resolver o que chama Principal Problema da importante Ciência da Economia Política, o determinar as Leis, que, nos diferentes estados da Sociedade, progressivo, estacionário, ou retrógrado, regulam a Distribuição dos produtos da terra, segundo as proporções que competem às suas diferentes classes, a título de salário, proveito e renda. (Ipea, 1975, p. 7)

Silva Lisboa reconhece a genialidade de Adam Smith, que dizia que a quantidade anual de trabalho necessário à produção das “conveniências para a vida”, que uma sociedade consome, depende, em certa proporção, da perícia, destreza e tirocínio – skill, dexterity, and judgement – no trabalho que é aplicado a essa produção (1776, I, 1); mas foi Silva Lisboa quem sofisticou tal visão, ao propor que, na relação entre os diferentes volumes de riqueza das nações, caberia considerar a quantidade de trabalho e a quantidade de inteligência que a fundamentam. Tal concepção se aproxima bastante da visão que, na atualidade, economistas inovadores possuem a respeito do conhecimento como um elemento próprio e distinto dentre os fatores de produção, a chamada knowledge economics. Silva Lisboa inova sobre o sistema smithiano, ao considerar que a inteligência, nas operações da sociedade, representa quase tudo para a prosperidade e a ordem própria na vida do povo.

Divulgada no blog Diplomatizzando (1/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/o-adam-smith-escoces-e-o-adam-smith.html

Museu da Pessoa: Projeto Memória Diplomática da ADB, embaixador Rubens Ricupero

Museu da Pessoa: Projeto Memória Diplomática da ADB, embaixador Rubens Ricupero

Volto a recomendar, a todos os interessados na vida diplomática e nas relações internacionais do Brasil, inclusive e principalmente aos estudantes candidatos à carreira diplomática, visualizar esta entrevista com o embaixador Rubens Ricupero, que repassa sua vida diplomática, os cargos diplomáticos e públicos, as relações com Tancredo e Itamar, e comentários sobre o Brasíl, África, países do G7, e perspectivas eleitorais atuais:

BR-ADB_HV001_Rubens Ricupero_Íntegra:

Postagem em destaque

Olavo de Carvalho is a fraud | LivresCast 29 - Paulo Roberto de Almeida entrevistado por Mano Ferreira

  Tive de reconfigurar o meu computador, reinstalar todos os aplicativos, e ainda estou em busca de todos os meus arquivos na nuvem, perdido...