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sábado, 24 de fevereiro de 2024

Russia's economy can't afford to win or lose the war in Ukraine, one economist says - Jennifer Sor (Business Insider)

A dependência viciosa da economia russa da guerra na Ucrânia: ela não pode vencer, nem perder, no sentido em que ela não pode largar a guerra, pois toda a sua economia está agora dominada pela guerra. (PRA) 

Russia's economy can't afford to win or lose the war in Ukraine, one economist says

Jennifer Sor

Business Insider, Feb 23, 2024

https://www.businessinsider.com/russia-economy-ukraine-war-moscow-military-spending-inflation-worker-shortage-2024-2

  • That's because Russia can't afford the cost of rebuilding and securing Ukraine.
  • The cost of repairing its own nation is already "massive," Renaud Foucart says.

  • - Russia's economy can't afford to win or lose the war in Ukraine, one economist says.
  • - That's because Russia can't afford the cost of rebuilding and securing Ukraine.
  • - The cost of repairing its own nation is already "massive," Renaud Foucart says.

Russia's economy is completely dominated by its war in Ukraine, so much that Moscow cannot afford either to win or lose the war, according to one European economist.

Renaud Foucart, a senior economics lecturer at Lancaster University, pointed to the dire economic situation facing Russia as the war in Ukraine wraps up its second year. 

Russia's GDP grew 5.5% year-over-year over the third quarter of 2023, according to data from the Russian government. But most of that growth is being fueled by the nation's monster military spending, Foucart said, with plans for the Kremlin to spend a record 36.6 trillion rubles, or $386 billion on defense this year.

"Military pay, ammunition, tanks, planes, and compensation for dead and wounded soldiers, all contribute to the GDP figures. Put simply, the war against Ukraine is now the main driver of Russia's economic growth" Foucart said in an op-ed for The Conversation this week.

Other areas of Russia's economy are hurting as the war drags on. Moscow is slammed with a severe labor shortage, thanks to young professionals fleeing the country or being pulled into the conflict. The nation is now short around 5 million workers, according to one estimate, which is causing wages to soar.

Inflation is high at 7.4% — nearly double the 4% target of its central bank. Meanwhile, direct investment in the country has collapsed, falling around $8.7 billion in the first three quarters of 2023, per data from Russia's central bank.

That all puts the Kremlin in a tough position, no matter the outcome of the war in Ukraine. Even if Russia wins, the nation can't afford to rebuild and secure Ukraine, due to the financial costs as well as the impact of remaining isolated from the rest of the global market

Western nations have shunned trade with Russia since it invaded Ukraine in 2022, which economists have said could severely crimp Russia's long-term economic growth.

As long as it remains isolated, Russia's "best hope" is to become "entirely dependent" on China, one of its few remaining strategic allies, Foucart said.

Meanwhile, the costs of rebuilding its own nation are already "massive," he added, pointing to problems like broken infrastructure and social unrest in Russia.

"A protracted stalemate might be the only solution for Russia to avoid total economic collapse," Foucart wrote. "The Russian regime has no incentive to end the war and deal with that kind of economic reality. So it cannot afford to win the war, nor can it afford to lose it. Its economy is now entirely geared towards continuing a long and ever deadlier conflict."

Other economists have warned of trouble coming for Russia amid the toll of its war in Ukraine. Russia's economy will see significantly more degradation ahead, one London-based think tank recently warned, despite talk of Russia's resilience in the face of Western sanctions.


Governo Maduro atinge seus opositores no exterior: sequestro de militar venezuelano no Chile

 Ex-militar opositor de Maduro é sequestrado no Chile

O Globo, 23/02/202opositor de Maduro é sequestrado no Chile


Crime foi alertado à Interpol pelo governo chileno; Ronald Ojeda foi levado por quatro criminosos que se passaram por policiais

Paradeiro desconhecido.

Ojeda fugiu da prisão da Venezuela e foi sequestrado no Chile: autoridades reforçaram fronteira

ANA MARÍ A SANHUEZA

Do El País

SANTIAGO

O governo chileno solicitou um alerta internacional à Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol), além do reforço da guarda nas fronteiras, após o sequestro de um ex-militar venezuelano, opositor do presidente Nicolás Maduro, dentro do território do país, informou o subsecretário do Interior do Chile, Manuel Monsalve, na quarta-feira.

AÇÃO DE MADRUGADA

O caso ocorreu por volta das 3hl5 da madrugada de terça-feira para quarta-feira, quando o ex-militar Ronald Ojeda estava em seu apartamento, no 14 9 andar, na comuna de Independência, Zona Norte de Santiago. Segundo um vídeo das câmeras de segurança do prédio que circula nas redes sociais, Ojeda foi levado por quatro criminosos que se passaram por funcionários da Polícia de Investigações do Chile (PDI).

Após ter identificado Ojeda, o governo chileno não especificou há quanto tempo o ex-militar estava no país e se ele havia chegado a Santiago como refugiado político. Monsalve destacou que a informação, por lei, não pode ser tornada pública.

Assim como outros casos de sequestro, a investigação foi classificada como sigilosa tanto pelo Ministério Público chileno quanto pela Brigada Antissequestro (Bipe) da Polícia Investigativa do país.

"Como muitas hipóteses foram levantadas, o governo também leva em consideração todos os cenários possíveis", disse o subsecretário em nota do Palácio de La Moneda.

Uma das hipóteses difundidas pelo ex-comissário de Segurança venezuelano Iván Simonovis, membro da oposição aogoverno Maduro, éque o sequestro tenha sido parte de uma operação orquestrada pela Direção Geral de Contrainteligência Militar (DGCIM) da Venezuela.

ACUSADO DE CONSPIRAÇÃO

O jornal chileno La Tercera aponta que Ojeda é um dos 33 militares que, em 24 de janeiro, foram expulsos das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (Fanb) sob a acusação de conspirar para matar Maduro.

Horas depois do sequestro, um carro, que pode estar relacionado ao crime, foi encontrado na comuna de Renca com um colete supostamente da Polícia de Investigação (PDI) e um capacete à prova de balas dentro.

Com cautela, Monsalve disse ainda que "nesses casos, o que importa é a proteção da integridade física da possível vítima e de sua família. Portanto, o sigilo da investigação ordenada pelo Ministério Público deve ser respeitado."

O subsecretário acrescentou que o governo pediu aos Carabineros, a polícia militar chilena, e à Polícia de Investigação (PDI), que reforçassem o controle das fronteiras na quarta-feira de manhã.

O partido de oposição venezuelano Vontade Popular emitiu uma nota sobre o caso para "alertar a comunidade internacional" em que menciona a hipótese de que o sequestro tenha sido orquestrado pelo governo Maduro. "Se a notícia for confirmada, estaremos falando do uso do território soberano de outros Estados para práticas de espionagem e agressão contra refugiados venezuelanos que escaparam de um regime repressivo".

'PRESO POLÍTICO'

Segundo a imprensa venezuelana, Ojeda foi preso por traição em 2017 enquanto aguardava sua promoção a capitão do Exército. Na época, ele era primeiro-tenente. Sete meses depois, o então militar fugiu com outros oficiais.

Ficou escondido e reapareceu no Chile, onde, em 2021, foi multado porviolar as regras sanitárias em meio à pandemia da Covid-19. No X (antigo Twitter), Ojeda se apresenta como "ex-preso político" e "oficial das Forças Armadas venezuelanas".

O governo Netanyahu é um GOVERNO GENOCIDA - Pronunciamento do secretário-geral de MSF, Christopher Lockyear, ao Conselho de Segurança da ONU

Pronunciamento do secretário-geral de MSF, Christopher Lockyear, ao Conselho de Segurança da ONU


NY, 22 de fevereiro de 2024

Senhora presidente, excelências, colegas,

No momento em que pronuncio estas palavras, mais de 1,5 milhão de pessoas estão encurraladas em Rafah. Pessoas que foram violentamente forçadas a irem para esta faixa de terra no sul de Gaza estão arcando com as consequências da campanha militar de Israel.

Vivemos sob o medo de uma invasão terrestre.

Nossos temores são baseados na nossa própria experiência. Há apenas 48 horas, quando uma família estava ao redor de uma mesa de cozinha em uma casa que abrigava funcionários de MSF e suas famílias em Khan Younis, um projétil de 120mm disparado por um tanque rompeu as paredes do local e explodiu, iniciando um incêndio, matando duas pessoas e deixando outras seis com queimaduras severas. Cinco dos seis feridos são mulheres e crianças.

Havíamos tomado todas as precauções possíveis para proteger os 64 trabalhadores humanitários e membros de suas famílias de um ataque desse tipo, notificando as partes em conflito sobre a localização e marcando claramente o edifício com uma bandeira de MSF. Apesar das nossas precauções, nosso prédio foi atingido não apenas por um disparo de tanque, mas por tiros intensos. Algumas pessoas ficaram presas no prédio em chamas enquanto os disparos contínuos atrasavam a chegada de ambulâncias ao local. Hoje pela manhã, olho para fotos que mostram a extensão catastrófica dos danos e vejo vídeos de equipes de resgate retirando corpos carbonizados dos escombros.

Isto tudo é extremamente familiar – forças israelenses atacaram nossos comboios, detiveram nossos funcionários e destruíram nossos veículos com tratores, e hospitais foram bombardeados e invadidos. Agora, pela segunda vez, um dos abrigos onde estavam nossos funcionários foi atingido. Ou este padrão de ataques é intencional ou é um indicativo de incompetência negligente.

Nossos colegas em Gaza têm medo de que, conforme eu pronuncio hoje essas palavras, eles sejam punidos amanhã.

Senhora Presidente, todos os dias nós testemunhamos o horror inimaginável.

Nós, assim como tantos outros, ficamos horrorizados pelo massacre praticado pelo Hamas em Israel em 7 de outubro, e ficamos horrorizados pela reação de Israel. Sentimos a angústia das famílias cujos entes queridos foram feitos reféns em 7 de outubro. Sentimos a angústia das famílias daqueles detidos arbitrariamente de Gaza e da Cisjordânia.

Como humanitários, ficamos perplexos com a violência contra civis.

Estas mortes, destruição e deslocamentos forçados são o resultado de escolhas políticas e militares que desrespeitam flagrantemente as vidas de civis.

Estas escolhas poderiam ter sido feitas, e ainda podem ser feitas, de maneira muito diferente.

Por 138 dias, testemunhamos o sofrimento inimaginável da população de Gaza.

Por 138 dias, temos feito tudo que é possível para efetuar uma resposta humanitária relevante.
Por 138 dias, temos assistido à destruição sistemática de um sistema de saúde que apoiamos há décadas. Temos assistido aos nossos colegas e pacientes serem mortos e mutilados.

Esta situação é o ponto culminante de uma guerra travada por Israel contra toda a população da Faixa de Gaza— uma guerra de punição coletiva, uma guerra sem regras, uma guerra a qualquer preço.

As leis e os princípios dos quais dependemos coletivamente para permitir a assistência humanitária estão agora corroídos ao ponto de perderem seu significado.

Senhora Presidente, a resposta humanitária em Gaza é uma ilusão —uma ilusão conveniente que perpetua a narrativa de que esta guerra está sendo travada em linha com leis internacionais.

Apelos por mais assistência humanitária ecoaram nesta sala.

Ainda assim, em Gaza temos cada vez menos a cada dia—menos espaço, menos medicamentos, menos comida, menos água, menos segurança.

Já não falamos mais de intensificar a ação humanitária; falamos de sobreviver mesmo sem o mínimo necessário.

Hoje, em Gaza, os esforços para prover assistência são irregulares, episódicos e totalmente inadequados.

Como podemos oferecer ajuda que salva vidas em um ambiente onde a diferença entre combatentes e civis não é levada em conta?

Como podemos manter qualquer tipo de resposta quando trabalhadores médicos são alvejados, atacados e demonizados por atender aos feridos?

Senhora Presidente, ataques a serviços de saúde são ataques à humanidade

Não restou nada que possa ser chamado de um sistema de saúde em Gaza. Os militares de Israel desmantelaram hospitais, um após o outro. O que restou é tão pouco diante de tamanha carnificina que é simplesmente absurdo.

A desculpa dada é a de que as instalações médicas foram usadas para fins militares, embora não tenhamos visto qualquer prova verificada de maneira independente de que isso tenha ocorrido.

Em circunstâncias excepcionais nas quais um hospital perde seu status de local protegido, qualquer ataque deve atender aos pricípios de proporcionalidade e cautela.

Ao invés da aderência à lei internacional, vemos a inutilização sistemática de hospitais. Isto tem deixado inviáveis as operações de todo o sistema médico.

Desde 7 de outubro, fomos forçados a evacuar nove instalações de saúde distintas.

Há uma semana, o hospital Nasser foi invadido. O pessoal médico foi forçado a sair apesar de ter recebido garantias reiteradas de que poderia ficar para continuar atendendo aos pacientes.

Estes ataques indiscriminados, assim como os tipos de armas e munições utilizadas em áreas densamente povoadas, mataram dezenas de milhares de pessoas e mutilaram outros milhares.

Nossos pacientes têm ferimentos catastróficos, amputações, membros esmagados e queimaduras graves. Eles precisam de atendimento especializado. Precisam de reabilitação longa e intensiva.

Médicos não podem tratar estes ferimentos em um campo de batalha ou nas cinzas de hospitais destruídos.

Não há leitos, medicamentos e suprimentos suficientes.

Cirurgiões não tiveram escolha a não ser realizar amputações sem anestesia em crianças.

Nossos cirurgiões estão ficando até sem gaze para impedir que seus pacientes sangrem. Eles usam uma vez, espremem o sangue, lavam, esterilizam e reutilizam para o próximo paciente.

A crise humanitária em Gaza deixou grávidas sem cuidados médicos por meses. Mulheres em trabalho de parto não podem aceder a salas de parto. Estão dando à luz em barracas de plástico ou edifícios públicos.

Equipes médicas agregaram um novo acrônimo ao seu vocabulário: WCNSF — sigla em inglês para criança ferida sem familiar sobrevivente.

As crianças que sobreviverem a esta guerra não vão carregar apenas os ferimentos visíveis das lesões traumáticas, mas também os invisíveis—aqueles causados pelos reiterados deslocamentos, medo constante e por testemunhar membros da família serem literalmente despedaçados diante de seus olhos. Essas feridas psicológicas têm levado crianças tão pequenas como de 5 anos nos dizer que preferiam estar mortas.

Os riscos para o pessoal médico são enormes. Todos os dias, temos feito a escolha de prosseguir com o nosso trabalho diante do perigo cada vez maior.

Estamos apavorados. Nossas equipes estão mais do que exaustas.

Senhora Presidente, isso tem de parar.

Nós, junto com o resto do mundo, temos acompanhado de perto o modo como este Conselho e seus membros têm abordado o conflito em Gaza.

Reunião após reunião, resolução após resolução, este órgão não conseguiu endereçar de maneira efetiva este conflito. Vimos membros deste Conselho deliberarem e agirem com atraso enquanto civis morrem.

Estamos perplexos com a disposição dos Estados Unidos de usar seus poderes como membro permanente do Conselho para obstruir os esforços para a adoção da mais evidente das resoluções: uma pedindo um cessar-fogo imediato e sustentado.

Por três vezes este Conselho teve a oportunidade de votar por um cessar-fogo que é tão desesperadamente necessário, e por três vezes os Estados Unidos usaram seu poder de veto, mais recentemente na última terça-feira.

Uma nova proposta de resolução feita pelos Estados Unidos pede de maneira ostensiva por um cessar-fogo. Apesar disso, ela é no mínimo falaciosa.

Este Conselho deveria rejeitar qualquer resolução que obstrua ainda mais os esforços humanitários no terreno e leve este Conselho a endossar de maneira tácita a violência contínua e as atrocidades em massa em Gaza.

A população de Gaza precisa de um cessar-fogo não quando seja “viável” mas agora. Eles precisam de um cessar-fogo sustentado, não “um período temporário de calma”. Qualquer coisa que fique aquém disso é negligência grosseira.

A proteção de civis em Gaza não pode estar condicionada a resoluções deste Conselho que instrumentalizem o humanitarismo para ocultar objetivos políticos.

A proteção de civis, de infraestrutura civil, de trabalhadores da saúde e de instalações de saúde recai, antes de mais nada, sobre as partes envolvidas no conflito.

Mas é também uma responsabilidade coletiva, uma responsabilidade que recai sobre este Conselho e seus membros individuais, como aderentes à Convenção de Genebra.

As consequências de deixar que o Direito Humanitário Internacional torne-se letra morta repercutirão muito além de Gaza. Isto será um fardo duradouro em nossa consciência coletiva. Não se trata apenas de inação política, tornou-se cumplicidade política.

Há dois dias, uma equipe de MSF e suas famílias foram atacados e pessoas morreram em um lugar onde havia sido dito a elas que estaria protegido.

Hoje, nosso pessoal está de volta ao trabalho, arriscando mais uma vez a vida pelos pacientes.

O que vocês estão dispostos a arriscar?

Nós exigimos as proteções prometidas sob o Direito Humanitário Internacional.

Exigimos um cessar-fogo de ambas as partes.

Exigimos que haja espaço para transformar a ilusão da assistência em assistência realmente significativa.

O que vocês farão para que isso seja possível?

Muito obrigado, Senhora Presidente.

O Nobel da insensatez - Revista Veja

 O Nobel da insensatez

Revista Veja | Brasil
23 de fevereiro de 2024


A obsessão do presidente pela busca de protagonismo internacional produz mais um vexame diplomático e empurra o Brasil outra vez para o lado errado da história Daniel Pereira

O PRESIDENTE Lula traçou dois grandes objetivos para o seu terceiro mandato. No plano interno, pavimentar o caminho para a sua reeleição, em 2026. No externo, tornar-se um líder global, status com que sonha desde a sua primeira passagem pelo Palácio do Planalto. Aos olhos de hoje, a segunda meta parece bem mais difícil. Para alcançá-la, o governo brasileiro tenta ser protagonista no debate sobre proteção ao meio ambiente e costurar no âmbito do G20 - grupo que reúne as dezenove maiores economias do mundo, além da União Africana e da União Europeia - uma aliança global contra a fome e a pobreza. Se der certo, o petista pode até ser laureado com o Prêmio Nobel da Paz, apostam alguns de seus principais assessores, como o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias. O problema de Lula não é o tamanho de sua ambição, mas a forma como ele faz política externa, principalmente quando abandona a tradição brasileira de mediação e conciliação, distorce fatos históricos, tem recaídas ideológicas e entoa discursos irresponsáveis como se estivesse num palanque eleitoral, arranhando a imagem e prejudicando os interesses do país.

A diplomacia é, entre outras coisas, a arte de medir bem as palavras. É justamente o que o presidente não fez, mais uma vez, ao comparar as ações do Exército de Israel em Gaza, deflagradas em resposta aos ataques terroristas do Hamas, ao extermínio de 6 milhões de judeus, durante a Segunda Guerra Mundial, pelo regime nazista de Adolf Hitler. "O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu, quando Hitler resolveu matar os judeus", disse o presidente brasileiro durante uma entrevista na Etiópia. A comparação é um despropósito completo. Feita de forma improvisada, por ignorância ou ma-fé, ela serviu de estopim para uma crise diplomática entre Brasil e Israel. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, puxou a reação, escrevendo numa rede social que as palavras de Lula eram vergonhosas e graves. "Isso banaliza o Holocausto e prejudica o povo judeu e o direito de Israel de se defender. Comparar Israel ao Holocausto nazista e a Hitler é cruzar a linha vermelha". Sob ordens de Netanyahu, o chanceler de Israel intensificou o revide, aproveitando para constranger publicamente o embaixador do Brasil no país, Frederico Meyer.

Como ocorre em casos

dessa natureza, Meyer foi convocado pelo governo de Israel a prestar esclarecimentos sobre a fala de Lula. O encontro entre ele e o chanceler israelense, Israel Katz, ocorreu num importante memorial do Holocausto. Lá, sob as lentes e os microfones da imprensa, Katz declarou o presidente brasileiro persona non grata, o que significa que ele não é bem-vindo em Israel enquanto não se retratar, e exigiu um pedido de desculpas. Tudo em hebraico, e sem a presença de um intérprete, o que pode ter impossibilitado a compreensão do que era dito pelo embaixador brasileiro. A crise estava definitivamente instalada. No Brasil, Lula, contrariado, determinou a convocação do embaixador de Israel para prestar esclarecimentos. De nada adiantou. O chanceler Katz continuou a fustigar o presidente brasileiro nas redes sociais: "Sua comparação é promíscua e delirante. Uma vergonha para o Brasil e um cuspe no rosto dos judeus brasileiros. Ainda não é tarde para aprender história e pedir desculpas". Em resposta, o ministro de Relações ExterioresMauro Vieira, declarou que as manifestações de Katz eram inaceitáveis na forma, mentirosas no conteúdo e funcionariam como uma cortina de fumaça.

Para o governo brasileiro, Netanyahu está aproveitando o caso para fugir de explicações sobre denúncias de crimes de guerra cometidos pelas forças israelenses contra civis palestinos. Pode até ser verdade, mas quem deu a deixa, como uma declaração desatinada e irresponsável, foi Lula. As recaídas ideológicas e os improvisos têm feito mal ao presidente na área internacional. Como se sabe, a esquerda brasileira e o PT nutrem simpatia pela causa palestina e defendem a existência de dois Estados independentes na região, o que é rechaçado por Israel. Até aí, tudo dentro da normalidade. A situação começa a desandar quando desce aos detalhes. Após as barbaridades perpetradas pelo Hamas em 7 de outubro, Lula resistiu quanto pode a chamar de terroristas os atos praticados pelo grupo contra civis israelenses, que incluíram assassinatos, torturas, sequestros e estupros. A duras penas, a diplomacia brasileira, um nicho de excelência no serviço público brasileiro, conseguiu convencer o presidente a fazer o que devia ser feito: chamar os terroristas pelo nome. Lula, por sinal, foge das cascas de banana que ele mesmo costuma espalhar pelo caminho ao seguir o roteiro dos diplomatas profissionais.

Dias antes de sua declaração desastrosa, o presidente divulgou uma mensagem nas redes sociais em que, fazendo jus à tradição brasileira, dizia que o ataque do Hamas era indefensável e merecia condenação veemente, mas que a reação de Israel era desproporcional, indiscriminada e inaceitável, tendo resultado na morte de cerca de 30 000 civis, incluindo mulheres e crianças. Por isso, Lula defendia um imediato cessar-fogo. Essa posição enfática, manifestada de forma ponderada, foi logo atropelada pela entrevista na Etiópia, que ainda serviu de pretexto para os radicais de sempre e os áulicos de plantão tentarem dourar a pílula do desatino retórico cometido pelo chefe. Assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, o ex-chanceler Celso Amorim afirmou que a fala de Lula "sacudiu o mundo e desencadeou um movimento de emoções que pode ajudar a resolver uma questão que a frieza dos interesses políticos foi incapaz de solucionar", conforme relatado pela colunista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo. O senso de protagonismo brasileiro nesse caso não é apenas exagerado. Simplesmente não aconteceu.

Além de causar problemas no cenário externo, Lula conseguiu dar um tiro no pé na política interna, tomando para si o protagonismo da agenda negativa, que até então estava toda no colo de seu principal adversário, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Embora algumas vozes desatinadas tenham dado apoio, a exemplo da deputada Gleisi Hoffmann, presidente do PT, que atacou Netanyahu dizendo que o israelense não tem autoridade moral nem política para apontar o dedo para ninguém, o bom senso foi a tônica no Congresso. Conhecido por seu perfil conciliador, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, cobrou de Lula, de quem é aliado, uma retratação por comparar a ação militar de Israel em Gaza ao Holocausto. "Ainda que a reação do governo de Israel (aos atos terroristas do Hamas) venha a ser considerada desproporcional, excessiva, violenta, indiscriminada, não há como estabelecer um comparativo com a perseguição sofrida pelo povo judeu no nazismo", disse o senador. O líder do governo na Casa, Jaques Wagner, um dos poucos quadros no PT com coragem para dizer o que pensa ao presidente da República, seguiu caminho parecido. Durante a sessão plenária, Wagner relatou ter dito o seguinte a Lula: "Não tiro uma palavra do que vossa excelência disse, a não ser o final, porque, na minha opinião, não se traz à baila o episódio do Holocausto para nenhuma comparação".

Desde a campanha eleitoral de 2022, Lula vem usando a política externa para fazer um contraponto a Bolsonaro, cuja gestão chegou a se gabar de ter transformado o Brasil num pária internacional. No primeiro ano de seu terceiro mandato, o petista privilegiou a agenda internacional e visitou mais de vinte países, tentando conquistar um pouco de visibilidade positiva no cenário internacional. Essa ofensiva, se bem-sucedida, pode render dividendos de imagem, acordos em diferentes áreas e ganhos financeiros. Também pode lustrar a própria imagem de Lula, que chegou a ser chamado de "o cara" por Barack Obama. Anos depois, em sua biografia, o ex-presidente americano relatou que o petista lhe causara boa impressão, mas ressaltou também que, segundo constava, tinha escrúpulos de um chefão de uma organização criminosa.

Pelo menos até 2026, a forma como o Brasil será visto no exterior dependerá de como Lula se portará em temas tão distintos como meio ambiente, combate à miséria e negociações de paz. Na quarta-feira, o presidente recebeu o chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Antony Blinken, e ouviu dele que os americanos concordam com a solução de dois Estados independentes na região, mas rechaçam veementemente a comparação feita por Lula entre a ação de Israel em Gaza e o Holocausto. Hoje, o Brasil é um importante líder regional, com pretensão de ascender à primeira prateleira dos países protagonistas no cenário internacional. As oportunidades para ganhar relevância estão dadas. O Brasil sediará em novembro a reunião do G20, quando Lula espera sacramentar a aliança global contra a fome e a pobreza. Além disso, será palco no ano que vem da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. De olho ou não no Nobel da Paz, o presidente petista pode conseguir avanços importantes nesses dois encontros. Basta deixar a ideologia, a tentação do palanque e o improviso desrespeitoso de lado. Como bem ressaltou o ex-embaixador Marcos Azambuja, a diplomacia é feita de "palavras cuidadas", ponderadas, bem pensadas. A crise diplomática com Israel é uma prova disso.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

A Sordid Centennial: Hitler’s Trial in 1924 and Trump’s Trials Today - Peter Ross Range (The Globalist)

 

A Sordid Centennial: Hitler’s Trial in 1924 and Trump’s Trials Today

The 100th anniversary of Adolf Hitler’s 1924 trial for treason summons direct parallels to Donald Trump’s upcoming trial for insurrection.

The Globalist, February 22, 2024

https://www.theglobalist.com/adolf-hitler-donald-trump-germany-united-states-fascism-1924-beer-hall-putsch-trial-democracy/

This month marks a sordid centennial. February 26 is the 100th anniversary of Adolf Hitler’s 1924 trial for trying to overthrow a democratically elected government.

From 1924 to 2024, it almost seems as if little has changed.

While there are many reasons to wake up to the threat of Donald Trump’s authoritarian politics, the memory of Hitler’s crimes and trial should be yet another.

The Beer Hall Putsch

Hitler’s trial was for the infamous Beer Hall Putsch in Munich that left 20 men dead. It resonates so loudly today because Trump faces trial for essentially the same thing: Trying to derail a democratically elected government by inciting an insurrection that led to five deaths and countless injuries.

Trump may not be Hitler, but the parallels between the two men and their legal entanglements have become too glaring — and too alarming — to ignore.

Political soapbox

For starters, Trump, like Hitler, instinctively uses the courtroom as a political soapbox. Each man casts himself as a victim, and responds to charges by attacking his accusers.

Both men recklessly predicted mayhem if convicted, and each portrayed himself as a political savior — Hitler as a millennial “great personality,” Trump as “your retribution” along with he megalomaniac claim that “only I” can save the nation.

Strategy: Delegitimize the opponent

Finally, there is delegitimization. With his incessant denial of the 2020 election results — a classic Hitlerian Big Lie — the former U.S. President brazenly seeks to delegitimize not just his trial, but the very government that is trying him.

He even threatens future criminal charges against President Joe Biden, whom Trump has labeled “the destroyer of American democracy.”

Grisly threats

Hitler used the same nullification tactic. He denied the authority of Germany’s first democracy known as the Weimar Republic, which he called “a joke.”

The men who founded and led Germany’s nascent republic would “hang from lampposts,” Hitler raged — or, as he put it another time, their “heads would roll in the sand” once the Nazis took over.

Trump does not shy from such grisly intimations. His assertion that, if re-elected, he will be “a dictator on day one” precisely echoes a threat Hitler made while contemplating his ascent to power: “Oh, I will take merciless and frightful revenge on the first day that I can.”

In the same spirit, Trump once suggested the execution of former Joint Chiefs of Staff Chair, Gen. Mark Milley, and reportedly endorsed January 6 rioters who chanted, “Hang Mike Pence!”

Creating a national profile

For Hitler, such tactics worked in 1924. With lengthy courtroom perorations — his Munich trial lasted a month — the Nazi leader garnered national headlines that gave him, for the first time, a national profile.

The publicity won him new adherents, like a young man in the Rhineland, 400 miles away, named Joseph Goebbels, who pronounced himself “inspired” by Hitler’s courtroom antics.

Hitler was found guilty

During the trial, Hitler mounted ferocious attacks on his attackers that threw the proceedings into disarray and nearly won him acquittal.

Yet, in the end, Hitler was found guilty of treason, for which he received a laughable five-year sentence with the possibility of parole in six months. For treason, the Nazi could have received life in prison with no parole.

From the fascist’s mouth

His months behind bars became a boon to Hitler. He hardened his radical views, especially towards Jews, solidified his messianic self-image and wrote “Mein Kampf,” the venomous memoir that jumpstarted his final march to dictatorship.

Trump has said that he never read “Mein Kampf.” It is unknown if he has ever read Hitler’s speeches. But it is clear that Trump blithely takes words right out of Hitler’s mouth. These include Trump’s scurrilous recent claims that immigrants are “poisoning the blood of our country.”

Slurs and smears

This smear comes from Hitler’s very first speech after leaving prison. Before a packed crowd in the same beer hall where his coup d’état had failed, Hitler ranted that the greatest danger facing Germany was the “foreign racial poison in our bodies.”

Conjuring scenes of German girls strolling the streets of Berlin on the arms of Jewish boys, the beer hall rabble rouser accused Jews who slept with German women of “destroy[ing] our blood for eternity in a single instant.” (Hitler regarded Jews as a separate race and foreigners even though their families had often been in Germany for generations, even centuries).

Copycatting Hitler

Trump’s adoption of another vile slur — “vermin” — also comes directly from Hitler. Invoking diseased rodents and noxious parasites in political life is as low as it gets. Yet, that is where Trump went last November, calling his political opponents “thugs that live like vermin.”

To Hitler, “Jewish vermin” had wrought Germany’s defeat in World War I.

Dehumanizing the other

Sadly, the effrontery of these words is not the worst of it. It is their impact on behavior that raises them from disgusting to dangerous —and dehumanizing. As Hitler knew and Trump has learned, dehumanization couched in grievance is the enabling precondition for violence.

One hundred years ago, Hitler used the courtroom for self-promotion and his prison time for a reset, enabling his successful climb to power.

Preconditions for authoritarianism

Trump is already trying the first tactic, and has vowed to use the second — possible jail time for political advantage. His ominous predictions of chaos echo his “Will be wild!” tweets in 2020 that became self-fulfilling prophecies of violence, the classic preliminary of authoritarian rule.

In 1930s Germany, Hitler’s Brown Shirts assured the turmoil. In today’s United States, Trump’s followers — some of them — carry weapons, threaten force and murmur civil war.

Conclusion

On this squalid anniversary of Hitler’s trial, U.S. voters should take on board the chilling parallels and not shy from sharing the disturbing resemblance of today’s politics to yesterday’s horrors.

There is no law that history cannot repeat itself.