segunda-feira, 20 de julho de 2026

Tarifaço de Trump mostra que ‘relações comerciais entre países ficaram menos previsíveis’, avalia pesquisador - Vitelio Brustolin (O Globo)

 Tarifaço de Trump mostra que ‘relações comerciais entre países ficaram menos previsíveis’, avalia pesquisador - O Globo

Professor da UFF e pesquisador em Harvard avalia que, em vez de se basear em regras

estáveis, o comércio internacional tem sido utilizado como instrumento de pressão

política

Por João Sorima Neto — São Paulo

20/07/2026 04h00 Atualizado 20/07/2026 04h00

Donald Trump, presidente dos EUA segura um gráfico enquanto discursa sobre tarifas

recíprocas durante um evento na Casa Branca em abril de 2025 — Foto: Brendan

SMIALOWSKI / AFP

RESUMOA possibilidade de uma tarifa de importação ser alterada por uma decisão política num

país importante como os Estados Unidos — algo que o presidente Donald Trump tem

feito recorrentemente — leva empresas a adiar investimentos, revisar cadeias de

suprimentos e elevar estoques para se protegerem dessas mudanças bruscas.

Esse cenário de insegurança aumenta custos e reduz a eficiência dos negócios no

mundo, avalia Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais na Universidade

Federal Fluminense (UFF), que também atua como pesquisador de Direito e História da

Ciência em Harvard (EUA).

Na semana passada, a Casa Branca confirmou a decisão de aplicar novas tarifas de

importação de 25% sobre o valor de produtos brasileiros que entram no mercado

americano, o que na prática os torna muito mais caros naquele país, a despeito dos

esforços diplomáticos do governo brasileiro.

Vitelio Brustolin, especialista em relações internacionais, é professor da UFF e

pesquisador de Harvard — Foto: Acervo pessoalNo entanto, houve uma lista de exceções ainda maior que a do tarifaço anterior,

estimada em 60% da pauta de exportação do Brasil para os EUA, mas manufaturados

como máquinas, calçados e têxteis não foram isentos.

O Brasil não é o único na mira da metralhadora tarifária de Trump desde o início de seu

segundo mandato — 60 países estão sob a ameaça dos EUA de uma tarifa de 12,5%

por supostamente comercializarem produtos fruto de trabalho forçado.

Ainda assim a sobretaxa aos produtos brasileiros ilustra bem como fatores políticos se

misturam em discussões técnicas na atual escalada protecionista de Trump, que

acaba se refletindo na forma como os outros países se colocam no mercado global.

Em entrevista ao GLOBO, Brustolin avalia que Trump usa a política comercial como

instrumento de pressão política e geopolítica, trocando a estabilidade das regras

regidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) por um ambiente de incerteza

na relação econômica entre os países, onde prevalece uma “lógica mais transacional e

personalista”. Veja a seguir os principais trechos da conversa.

As negociações comerciais entre países, que antes dependiam menos de governos

específicos e mais de acordos de Estado, estão mudando?

Sim, há uma mudança importante. O comércio internacional do pós-guerra foi

estruturado justamente para reduzir a dependência das preferências de governos

específicos. Então, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), de 1947, para

reduzir barreiras alfandegárias, e depois a própria Organização Mundial do Comércio

(OMC), além de acordos bilaterais e regionais, buscavam dar previsibilidade, não só às

empresas, mas à economia em geral dos países, através de regras previamente

estabelecidas, além de mecanismos de solução de controvérsias.

A estratégia adotada pelo governo Trump representa um deslocamento desse modelo

para uma lógica mais transacional e personalista.

E quais são as consequências?

Em vez de privilegiar negociações baseadas em regras previamente estabelecidas, a

política comercial passou a ser utilizada como instrumento de pressão política egeopolítica. Isso aumenta a margem de discricionariedade do Executivo americano e

reduz a previsibilidade das relações econômicas internacionais. Ainda que, no caso

brasileiro, a Casa Branca tenha fundamentado a medida em uma investigação

conduzida sobre a Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reunião com o presidente dos EUA, Donald

Trump, na Malásia, no ano passado: "química" não foi suficiente para deter tarifaço —

Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

Isso está acontecendo especificamente no governo Trump?

Isso não vem apenas do governo Trump, porque a OMC passou a ser desmantelada nos

Estados Unidos, ainda em governos anteriores ao dele, e inclusive de Barak Obama,

quando o país deixou de indicar juízes para o mecanismo de apelação da OMC. Claro, o

governo Trump intensificou esse tipo de estratégia.

Qual o dano que esse tipo de abordagem causa para as relações comerciais não só

Brasil-EUA, mas também para o multilateralismo, para o comércio global?

O principal dano é o aumento da incerteza, e com isso, há uma escalada do

protecionismo. O investimento privado depende da previsibilidade. Quando as tarifaspodem ser alteradas rapidamente por decisão política, significa que empresas adiam

investimentos, revisam cadeias de suprimentos, elevam estoques. Tudo isso como

forma de proteção. Isso aumenta custos e reduz eficiência.

Numa escala global, há redução do crescimento do comércio, menor investimento

produtivo, perda de produtividade, maior inflação em alguns setores. Esse efeito sobre

o PIB mundial não decorre apenas da tarifa em si, mas da fragmentação das cadeias

globais de valor. Quando aumenta a percepção de risco, o custo do capital sobe e a

economia internacional cresce menos.

Sede da OMC, em Genebra: organização multilateral foi esvaziada pelos EUA — Foto:

Divulgação/OMC

Também há impacto no emprego?

Estudos recentes mostram também que há evidências de que escalada tarifária pode

produzir perdas relevantes de emprego em escala global, especialmente quando

acompanhada de retaliações. Há menor geração de empregos ligados às exportações,

por exemplo.Hoje as empresas não analisam apenas custos de produção ou logística, elas

passaram a incorporar o chamado risco geopolítico. Isso significa avaliar a

possibilidade de novas tarifas, de sanções, de restrições tecnológicas, controles de

exportação, até mudanças regulatórias decorrentes de disputas entre governos. Então

tem que ter muito cuidado com o direcionamento que o Brasil vai dar para isso.

Nesse contexto, há uma reorganização das cadeias globais de produção?

Essa tendência ficou evidente, primeiro na disputa entre Estados Unidos e China, e se

ampliou após a guerra na Ucrânia. Agora ela alcança parceiros tradicionais dos Estados

Unidos, como o Brasil. Sim, o resultado é uma reorganização das cadeias globais de

produção, baseada não apenas na eficiência econômica, mas também na segurança

política. Ou seja, passa-se a mensurar, quando é possível, se há segurança ou

insegurança entre uma relação comercial e outra.

Como isso afeta os planos das empresas?

As empresas trabalham com planejamento de longo prazo. Uma indústria que decide

instalar uma fábrica ou desenvolver fornecedores locais, projeta investimentos para

dez ou vinte anos. Quando Trump impõe tarifas, ele quer que as empresas mudem as

suas fábricas para os Estados Unidos. É o que vimos acontecer com a Toyota, que se

mudou do México para os EUA. Agora, quando existe a possibilidade de mudanças

abruptas nas regras comerciais, há adiamentos de investimentos, diversificação de

fornecedores, realocação de fábricas, aumento dos custos de logística e redução do

comércio internacional. Na prática, o mundo passa a operar com menor eficiência

econômica.Diversificação de parcerias: solenidade de assinatura do acordo Mercosul-UE em

Assunção, no Paraguai — Foto: Luis ROBAYO / AFP/17/01/2026

Qual é a importância de diversificar mercado neste atual cenário de

protecionismo?

O Brasil precisa diversificar mercados, não só por causa dos Estados Unidos. Qualquer

democracia estabelecida, e que siga o direito internacional, vai buscar diversificar

mercados o tempo todo, vai buscar o comércio. No caso atual, isso se intensifica.

E não é só o Brasil, a China diversificou muito os seus parceiros comerciais. O acordo

Mercosul e União Europeia, que está provisoriamente em vigor, é fundamental que seja

aprofundado. Também é preciso ampliar o comércio com a Índia, com o Sudeste

Asiático, com a própria China, e fortalecer relações com países do Oriente Médio e da

África.

Estou falando de uma perspectiva do nosso país. Nenhuma economia de porte

continental pode depender excessivamente de um único mercado consumidor. E não é

o caso do Brasil, que não é absolutamente dependente dos Estados Unidos. A

diversificação reduz vulnerabilidades externas e aumenta o poder de negociação dopaís. Isso não significa substituir os Estados Unidos pela China, significa ampliar

alternativas para reduzir riscos.

Fonte: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/07/20/tarifaco-de-trump-

mostra-que-relacoes-comerciais-entre-paises-ficaram-menos-previsiveis-avalia-pesquisador.gtml 

Alexandre Melnik et les relations Chine-Russie, Xi et Putin

 PRA: à la fin, j’ajoutte ub info sur Alexandre Melnik.

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Mon interview à Atlantico , publiée ce matin, sur la Chine qui prépare l’après-Poutine

Pour faciliter votre lecture, voici là retranscription de l’interview faite par la rédaction avant sa publication . 

Entretien avec Alexandre Melnik 

Atlantico : Un article du Wall Street Journal, publié il y a deux jours, contient une petite phrase en fin de texte selon laquelle la Chine tisserait plus ou moins ouvertement des liens avec des responsables et des élites russes bien au-delà du seul entourage de Poutine, en anticipant une transition politique au Kremlin. En tant que professeur et ancien diplomate, comment analysez-vous cette démarche chinoise ?


Alexandre Melnik : Je trouve cela extrêmement pertinent : cela illustre la sagesse de la stratégie chinoise. Il ne faut jamais oublier que la Chine est l'une des plus anciennes civilisations continues du monde — ses origines remontent à environ 5000 ans avant Jésus-Christ. Cette accumulation de sagesse débouche sur une vision à très long terme, en contraste total avec le "courtermisme" [ndlr : le jeunisme historique] de la Russie, un pays né seulement au Xe siècle. Il y a donc un choc de deux temporalités : celle de la Chine, qui s'inscrit dans la continuité de l'histoire, et celle de la Russie, dont la stratégie manque de socle historique.


Le renversement du rapport de force entre les deux pays a été fulgurant. Quelques années avant la chute de l'URSS, la Chine était encore considérée comme le "petit frère" de l'Union soviétique — je me souviens qu'à l'école diplomatique où j'ai été formé, les étudiants chinois n'étaient pas pris très au sérieux, les Russes se jugeant supérieurs. Puis la situation s'est inversée : la transition de la Russie vers le capitalisme a été chaotique, tandis que la transition chinoise a été réglementée, pensée, réfléchie — avec des résultats probants. La Chine est devenue en quelques années le leader de la globalisation économique mondiale, tandis que la Russie prenait du retard. Pékin a immédiatement compris que la Russie n'est plus un partenaire valable à long terme, mais un colosse aux pieds d'argile.


Atlantico : Vous avez souvent décrit un Poutine qui ne connaît aucune limite, qui n'est freiné par aucune contrainte morale ou politique. Mais un dirigeant de ce tempérament peut-il vraiment, psychologiquement, admettre — publiquement ou même en privé face à ses proches — qu'il est devenu le partenaire junior de la Chine ?


Alexandre Melnik : Non, il ne le peut pas. Il ne peut pas non plus arrêter la guerre qu'il a lui-même déclenchée : cela fait partie du dispositif, cela sert à maintenir la façade de la propagande sur la prétendue puissance de la Russie. Mais cette façade cache un colosse aux pieds d'argile. La Chine, elle, incarne la stabilité et la vision à long terme. C'est un jeu qui s'est installé entre deux dirigeants du même âge, mais qui n'ont ni le même pouvoir, ni la même puissance, ni la même vision du monde.


La direction chinoise n'a d'ailleurs jamais compris cet impérialisme belliqueux et sanglant de la Russie, car la Chine préfère gagner les guerres sans les faire, par la voie économique. Xi Jinping a d'ailleurs suggéré à plusieurs reprises qu'il existe des limites — notamment autour du bouton nucléaire. C'est la ligne rouge fixée à Poutine dès le début du conflit : c'est la Chine qui a posé le garde-fou contre l'emploi de l'arme nucléaire.


Aujourd'hui, le rapport de force n'est plus comparable. La Chine est un géant économique qui joue le jeu de la globalisation et de la modernité technologique — elle vise le leadership mondial sur l'intelligence artificielle. La Russie, elle, s'est coupée du monde : Poutine a lui-même coupé son pays, y compris dans le domaine numérique. Les Russes sont aujourd'hui privés d'un internet mobile complet, au point que certains matchs de football internationaux ne sont même plus retransmis chez eux. La Russie est devenue un facteur de nuisance, tandis que la Chine impose le tempo des relations internationales.


Atlantico : Je reviens sur la presse, qui évoque des contacts discrets de Pékin avec plusieurs responsables russes — on parle de Patrouchev, de Kirienko…


Alexandre Melnik : J'y viens. Ce que je voudrais ajouter, c'est ce qui a fait déborder le vase, si je puis dire : la rencontre entre Poutine et Xi Jinping où Poutine a évoqué l'éternité — vous vous souvenez peut-être de cette formule sur le fait qu'il serait bien de vivre éternellement. Xi Jinping a compris à ce moment-là que son interlocuteur dérapait : quand on parle d'éternité, c'est qu'on essaie de sauver sa propre peau, qu'on voit la fin arriver. C'est ainsi que le message a été perçu côté chinois. Xi a compris que le régime de Poutine — extrêmement personnalisé, une verticale du pouvoir reposant sur un seul homme — n'a pas de fondamentaux, pas de pivots. C'est un dérapage personnel qui reflète le dérapage d'un régime tout entier.


Il a donc estimé qu'il était temps de se projeter vers l'avenir, dans la continuité de cette sagesse stratégique chinoise de long terme. Et pour se projeter vers l'avenir, il faut passer aux actes : nouer des relations. Mais avec qui ? Quand on regarde l'entourage de Poutine, ce n'est pas évident de savoir avec qui nouer des liens qui pourraient se révéler utiles après lui. Il faut donc comprendre que l'après-Poutine a déjà commencé, pour la Chine. Xi Jinping a compris que le pronostic du régime était déjà engagé — un régime qui peut certes durer encore longtemps, mais dont l'avenir doit être anticipé, comme la Chine sait toujours le faire.


Je parle évidemment avec beaucoup de précaution, car je n'ai aucune source à l'intérieur du Kremlin. Je rappellerais volontiers le mot de Churchill sur les luttes de pouvoir au Kremlin, qu'il comparait à des bouledogues se battant sous un tapis : on ne voit rien depuis l'extérieur. Mais on commence tout de même à percevoir quelques "oreilles de bouledogues" qui dépassent. Le nom que je surveillerais en priorité, c'est celui de Patrouchev. Il fait partie du clan le plus proche de Poutine, qui l'accompagne depuis le début. C'est un homme intelligent, qui commence — et cela reflète l'état d'esprit de nombreux affidés dans l'entourage du Kremlin — à comprendre que cette guerre est une impasse, qu'elle ne peut être gagnée, et que Poutine y conduit son pays. Ce qui est intéressant avec Patrouchev, c'est qu'il s'agit d'une dynastie. C'est ce nom-là — Patrouchev — que je serais prêt à avancer, avec prudence, comme quelqu'un qui aurait été approché par les dirigeants chinois — pas nécessairement comme un successeur potentiel, mais comme un interlocuteur capable de renseigner Pékin.


Il faut ajouter un autre élément : les Chinois n'ignorent pas que la Russie dispose d'une constitution. On oublie souvent qu'elle a été rédigée, dans ses fondamentaux, par des juristes français — j'avais moi-même été sollicité par le président Eltsine au début des années 1990 pour prendre contact avec des juristes français, notamment à Sciences Po Paris, afin d'en écrire les bases. Cette constitution ressemble comme deux gouttes d'eau à celle de notre Ve République : verticalité du pouvoir, président élu au suffrage universel, pouvoir législatif faible, pouvoir exécutif fort.


Ce qui est intéressant, c'est ce que prévoit cette constitution en cas d'incapacité du président à exercer son mandat : contrairement à la France, ce n'est pas le président du Sénat qui assure l'intérim, mais le Premier ministre. Or l'actuel Premier ministre s'appelle Mikhaïl Michoustine — un nom qui ne dit sans doute rien au grand public, car c'est un technocrate qui reste dans l'ombre de la grande politique du Kremlin. C'est exactement le modèle par lequel Poutine lui-même est arrivé au pouvoir : Eltsine, incapable d'exercer son mandat, lui avait transmis le relais alors qu'il était Premier ministre ; Poutine a d'abord géré l'intérim, puis organisé une élection. La particularité de Michoustine, c'est qu'il n'a aucune ambition politique propre : il pourrait constituer une sorte de solution transitoire, une figure assurant la stabilité pendant la période d'après-Poutine — celle-là même vers laquelle se projettent les Chinois, pour éviter toute rébellion ou tout chaos. C'est avec ce type de technocrates restés dans l'ombre, qui ne s'engagent pas ouvertement aux côtés de Poutine, que la Chine essaie, à mon avis, de nouer des relations à long terme.


Atlantico : D'après votre connaissance des mécanismes du pouvoir russe, parmi tous les profils évoqués, y en a-t-il un qui vous semble plus instrumentalisable par Pékin que les autres ?


Alexandre Melnik : D'abord, la condition posée par les Chinois, c'est la stabilité. Ils veulent éviter à tout prix un effondrement brutal de la Russie — c'est un exercice extrêmement traumatisant pour eux, en référence à la perestroïka et au chaos qu'avait engendré la glasnost de Gorbatchev. Ils veulent une transition stable, quels que soient les noms : ce n'est pas tant une question de personnes qu'un concept — celui de la stabilité comme condition. J'ai déjà cité Patrouchev. Il y a aussi des technocrates, comme la présidente de la Banque centrale, récemment mise à l'écart par les représentants des structures de force russes, ou encore la direction de Sberbank. Ce sont des profils de technocrates plutôt que de politiques, à l'image de ceux qui, en France, sont passés par les grandes administrations d'État.


C'est plutôt sur ce type de profils que les Chinois se concentrent : ils cherchent à retrouver, en miroir, leur propre vision du monde — une vision désidéologisée, fondée sur une technocratie efficace, pour éviter le pire, c'est-à-dire le chaos. Je ne m'aventurerai pas plus loin sur les noms, au-delà de ceux déjà cités : Patrouchev, c'est du sérieux ; Michoustine peut représenter un strapontin de stabilité avant d'éventuelles échéances électorales — car il y aura sans doute des élections après Poutine, la dépoutinisation de la Russie ne se faisant pas vers une dictature à la nord-coréenne, mais probablement vers un retour à une certaine forme démocratique. Par déduction, je pense qu'il faut exclure les noms qui ne présentent aucun intérêt pour la Chine : Choïgou, qui n'est qu'un pantin du passé ; Medvedev, pantin du passé également ; Peskov et les autres figures les plus médiatiques. Les Chinois sont des gens sérieux et pragmatiques, qui ne s'embarrassent pas de précautions comme on le fait souvent en France : ils creusent plus profondément à l'intérieur du régime, qu'ils comprennent mieux que les Occidentaux, du fait d'une certaine similitude entre régimes autoritaires.


Atlantico : Pensez-vous que la Chine puisse téléguider une succession russe ?


Alexandre Melnik : Non, pas vraiment "téléguider" — je ne pense même pas que les Chinois en aient la prétention. Ils accompagnent, tout en restant en coulisses, et s'adaptent aux fluctuations d'une situation imprévisible, car ce changement viendra de l'intérieur. Je n'ai jamais cru à la possibilité d'un changement exogène. Le changement sera endogène : ce système fondé sur la peur, le mensonge et la propagande n'est pas fiable — il commence déjà à vaciller, sous les coups des déconvenues militaires en Ukraine.

C'est exactement ce qui s'est produit lors de l'effondrement du système soviétique : ce système était déjà moribond, mais il fallait lui donner l'estocade finale, ce qu'avaient fait les Américains à l'époque. La Chine, à un moment donné, pourrait donner cette estocade — non pas militaire, mais économique : en coupant les vivres à la Russie, ses exportations. Ce n'est pas de l'intervention de type "hard power" — c'était plutôt la méthode Reagan, à la fin des années 1980. La Chine se positionne de plus en plus comme un acteur du changement, mais un acteur extrêmement prudent, qui intervient en coulisses sans jamais se montrer.

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Professeur à ICN, Business School

Alexandre MELNIK is an Associate Professor. He holds a PhD in Political Science and Diplomacy from MGIMO in Moscow, as well as a Master’s degree in Journalism from the same university. He teaches Geopolitics (Key Issues of 21st-Century Globalization), Intercultural Management, the Development of Europe and the European Union, French Economy and Culture, Foreign Cultures and Civilizations, and the History and Current Affairs of Russia and Ukraine. Alexandre is also an international speaker, delivering numerous lectures on current international affairs, particularly the war in Ukraine and the broader geopolitical context of the contemporary world (French Senate, City Hall of Nancy, Council of Europe, National Assembly, Sciences Po, French Ministry of Foreign Affairs, Ministry of Defense, the Sorbonne, Westminster College, World Forum for Sustainable Development, etc.). He is the author of numerous articles and books on geopolitical issues and regularly appears in audiovisual media (LCI TF1, BFM TV, France 24, Europe 1, RTL, BFM, Sud Radio, RCF, Belgian Radio 1, Radio Algeria, Radio J, Judaïques FM), digital platforms (YouTube, Le Crayon, Atlantico, etc.), and print media (Le Monde, Cités, Les Echos, Le Nouvel Observateur, Revue Défense Nationale, Le Figaro, Politique Internationale, Constructif, Passages, etc.). He previously served as Press Attaché at the Russian Embassy in Paris and took part in United Nations disarmament negotiations in Geneva. He also held a senior position at the Ministry of International Relations of the USSR.



A Universidade pública e a democracia do conhecimento - Paulo Baía

 A universidade pública e a democracia do conhecimento


            * Paulo Baía 


O Brasil jamais foi uma sociedade simples. Sua história não nasceu da uniformidade nem da repetição de uma única tradição cultural. Ao contrário, constituiu-se pelo encontro, muitas vezes marcado pela violência, pela resistência, pela negociação e pela criação, entre povos que jamais imaginaram compartilhar um mesmo destino histórico. Povos indígenas, africanos escravizados e seus descendentes, portugueses, espanhóis, italianos, alemães, sírio-libaneses, judeus, japoneses, chineses e inúmeras outras correntes migratórias participaram da construção de uma das experiências civilizatórias mais complexas do mundo contemporâneo. Dessa longa formação nasceram negros, pretos, pardos, indígenas, mestiços, quilombolas, caboclos, caiçaras, ribeirinhos, sertanejos e descendentes de diferentes povos, culturas e religiões. A dinâmica demográfica distribuiu essa extraordinária diversidade pelas diferentes regiões brasileiras, fazendo da Amazônia, do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sudeste e do Sul expressões singulares de uma mesma identidade nacional. A diversidade nunca representou um obstáculo à construção do Brasil. Sempre constituiu sua maior riqueza.

Uma sociedade construída dessa maneira não pode produzir universidades homogêneas. A universidade pública somente realiza plenamente sua missão quando consegue representar a pluralidade da sociedade que a sustenta. Não porque deva reproduzir mecanicamente a realidade social, mas porque sua função consiste em compreender essa realidade em toda a sua complexidade. A universidade não é apenas um espaço de formação profissional. É uma instituição civilizatória. Nela, a diversidade da sociedade transforma-se em inteligência coletiva, em investigação científica, em reflexão crítica e em produção de conhecimento. É justamente nessa capacidade de transformar diferenças em conhecimento que reside sua maior contribuição para a democracia.

Essa missão, entretanto, começa pelo ensino. Antes de produzir ciência, a universidade forma inteligências. Antes de ampliar as fronteiras do conhecimento, ela transmite os fundamentos que tornam possível a produção de novos saberes. Ensinar permanece sendo sua responsabilidade primeira. Pesquisa e extensão completam essa vocação, ampliam seu alcance e fortalecem sua relevância social, mas não substituem sua natureza essencial de instituição de ensino.

Por essa razão, toda universidade pública comprometida com a democratização do conhecimento precisa assegurar que seus estudantes tenham acesso aos conteúdos propedêuticos que estruturam cada área científica e profissional. Os primeiros semestres de cada curso devem cumprir também a função de promover políticas permanentes de nivelamento acadêmico, oferecendo condições para que estudantes provenientes de trajetórias escolares distintas possam desenvolver plenamente suas capacidades intelectuais. A democratização do acesso somente encontra sentido quando acompanhada da democratização das condições de aprendizagem. Incluir significa abrir as portas. Ensinar significa garantir que todos possam percorrer, com autonomia intelectual, o caminho que se abre depois delas.

Essa compreensão torna ainda mais importante a defesa das políticas públicas de cotas sociais e étnico-raciais. Elas representam uma das mais importantes conquistas democráticas da história recente do Brasil porque ampliam direitos e aproximam a universidade da sociedade brasileira. Não diminuem a excelência acadêmica. Ao contrário. Fortalecem-na ao incorporar experiências históricas que durante séculos permaneceram afastadas dos espaços de produção do conhecimento. A presença crescente de negros, pretos, pardos, indígenas, mestiços, quilombolas, estudantes oriundos da escola pública e de famílias trabalhadoras ampliou o repertório de perguntas, diversificou os objetos de pesquisa e renovou a capacidade da universidade de interpretar a sociedade brasileira.

Durante muito tempo, a universidade refletiu muito mais a estrutura das elites do que a composição da população nacional. O escravismo, o patriarcalismo, a concentração da riqueza e as desigualdades educacionais produziram um sistema persistente de exclusão. O racismo estrutural consolidou esse processo ao limitar oportunidades, influenciar trajetórias escolares, restringir o acesso aos bens públicos e transformar privilégios históricos em aparentes méritos individuais. Ignorar essa realidade significa ignorar parte significativa da formação do Brasil.

Por isso, a universidade pública deve cultivar uma postura antirracista permanente. Não como adesão circunstancial a uma corrente política, mas como compromisso ético com a Constituição, com a igualdade de oportunidades, com a dignidade humana e com a própria produção do conhecimento. A ciência não se fortalece quando invisibiliza desigualdades. Fortalece-se quando é capaz de compreendê-las criticamente. A postura antirracista permanente amplia a inteligência da universidade porque amplia sua capacidade de compreender o país real.

Entretanto, a democratização da universidade não depende apenas da diversidade de pessoas. Depende igualmente da diversidade das ideias. A pluralidade social e o pluralismo intelectual não competem entre si. Constituem as duas grandes colunas da universidade democrática. Uma instituição que acolhe diferentes grupos humanos, mas restringe a circulação das ideias, empobrece sua inteligência. Da mesma forma, uma universidade que proclama liberdade acadêmica enquanto permanece distante da diversidade da sociedade brasileira limita sua legitimidade pública.

É justamente nesse encontro entre diversidade humana, excelência do ensino, pesquisa, extensão e liberdade intelectual que a universidade pública se afirma como uma das maiores realizações da democracia brasileira. Ela demonstra que o conhecimento não nasce da uniformidade. Nasce da convivência entre diferenças, da curiosidade, da crítica e da permanente disposição de aprender.


A universidade existe porque o conhecimento humano é, por natureza, incompleto. Nenhuma teoria encerra todas as respostas. Nenhuma disciplina esgota a realidade. Nenhuma tradição intelectual possui o monopólio da verdade. A ciência avança precisamente porque admite a possibilidade do erro, da revisão e da descoberta. A filosofia permanece viva porque continua formulando perguntas para as quais não existem respostas definitivas. As ciências humanas renovam continuamente sua capacidade de interpretar a sociedade porque reconhecem que a vida social muda, produz novos conflitos e exige novas categorias de compreensão. A inteligência, portanto, nunca é uniforme. Ela é necessariamente plural.

É nesse ponto que o pluralismo das ideias deixa de ser uma reivindicação corporativa da universidade para transformar-se numa exigência da própria democracia. O pluralismo não existe para proteger opiniões. Existe para proteger o processo pelo qual o conhecimento é produzido. Nenhuma sociedade consegue compreender a si mesma escutando apenas uma única voz. Nenhuma universidade pode cumprir sua missão quando determinadas perguntas deixam de ser formuladas, quando certos autores deixam de ser lidos ou quando interpretações passam a ser previamente interditadas. A liberdade acadêmica não protege ideologias. Protege o direito da sociedade de produzir conhecimento por meio da livre circulação das ideias.

A democracia não elimina conflitos. Ela constrói instituições capazes de civilizá-los. A universidade pública talvez seja a mais sofisticada dessas instituições. Seu papel não consiste em apagar diferenças, mas em oferecer condições para que diferenças sociais, culturais, científicas e políticas sejam transformadas em reflexão, investigação e aprendizagem. A universidade é um espaço de encontro entre argumentos, não entre unanimidades. Sua grandeza não está em produzir consenso, mas em ensinar que o dissenso, quando orientado pelo rigor intelectual e pelo respeito democrático, constitui uma das maiores fontes de criação humana.

Por essa razão, toda forma de censura é incompatível com a vida universitária. A censura não protege o conhecimento. Protege o medo. Não fortalece a inteligência. Fortalece a insegurança diante do pensamento livre. Quando livros deixam de circular, pesquisadores evitam determinados temas, palestras são impedidas, estudantes silenciam suas perguntas ou professores passam a medir palavras pelo receio da intolerância, instala-se um processo silencioso de empobrecimento intelectual. A curiosidade cede lugar à conformidade. A investigação transforma-se em repetição. A universidade deixa de ser espaço de descoberta para converter-se em ambiente de confirmação de certezas previamente autorizadas.

A história demonstra que o pensamento único jamais produziu sociedades mais inteligentes. Ao longo do tempo, diferentes projetos políticos procuraram converter determinada visão de mundo em verdade oficial. Em alguns momentos, isso ocorreu para preservar estruturas conservadoras de poder. Em outros, para impor projetos radicais de transformação social e política. Mudaram os discursos, permaneceram os métodos. A convicção de que apenas uma interpretação da realidade seria legítima revelou-se sempre intelectualmente estéril. O pensamento único reduz a criatividade porque elimina a surpresa. Empobrece a inovação porque transforma perguntas em respostas definitivas. Enfraquece a produtividade científica porque converte a pesquisa em confirmação de dogmas. Deteriora a civilidade democrática porque substitui o diálogo pela obediência e a crítica pela submissão.

Nada disso significa relativizar valores fundamentais. A universidade pública deve permanecer comprometida com os direitos humanos, com a igualdade, com a dignidade da pessoa, com a democracia constitucional e com o combate permanente ao racismo estrutural, ao preconceito e a todas as formas de discriminação. Esses compromissos fortalecem a universidade porque ampliam seu horizonte ético. O que não podem produzir é o abandono da liberdade intelectual que constitui a própria condição de existência da ciência. Uma universidade verdadeiramente democrática consegue ser, ao mesmo tempo, socialmente inclusiva, antirracista, intelectualmente exigente e radicalmente comprometida com a liberdade de pensar.

Essa talvez seja a maior responsabilidade das universidades públicas brasileiras no século XXI. Transformar a extraordinária diversidade da sociedade brasileira em conhecimento rigoroso, formar profissionais competentes, produzir ciência de excelência, promover a extensão universitária como compromisso com a sociedade e ensinar, diariamente, que nenhuma inteligência floresce onde existe medo de pensar. A excelência acadêmica e a democratização caminham juntas. O ensino, a pesquisa e a extensão constituem dimensões inseparáveis de uma mesma missão pública.

As universidades públicas não existem para fabricar unanimidades. Existem para impedir que elas se transformem em dogmas. Foram criadas para ensinar, pesquisar, criar, discordar, experimentar e inovar. Foram criadas para fazer da dúvida um método, da liberdade um princípio e da diversidade uma força criadora. Defender simultaneamente a excelência do ensino, os conhecimentos propedêuticos, as políticas de nivelamento acadêmico, a pesquisa, a extensão, as políticas públicas de inclusão, a postura antirracista permanente, a liberdade de cátedra, a liberdade de pesquisa, a rejeição de toda forma de censura e o pluralismo das ideias não significa reunir causas distintas. Significa afirmar um único projeto de civilização.

Esse projeto tem nome. Democracia do conhecimento.

Quando pessoas diferentes deixam de ocupar a universidade, ela deixa de representar o Brasil. Quando ideias diferentes deixam de circular, ela deixa de representar a inteligência. Preservar esses dois patrimônios inseparáveis, a extraordinária diversidade do povo brasileiro e a liberdade de pensamento que a transforma em conhecimento, significa preservar a própria capacidade da República de produzir ciência, criatividade, inovação, civilidade e esperança. É nesse encontro entre inclusão, excelência acadêmica e pluralismo que a universidade pública continua sendo uma das mais belas realizações da democracia brasileira e uma das maiores garantias de seu futuro.


         * Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ


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