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Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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Edmar Bacha é uma mente privilegiada, desde seus primeiros trabalhos (li textos dos tempos da UnB) e um pesquisador prodigioso, revisando dados empíricos e fundamentos teóricos. Cabe ler e refletir sobre seus argumentos... PRAlmeida
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A economia mundial passou por profundas transformações nas últimas oito décadas. Desde o pós-guerra, assistimos a um crescimento sem precedentes do PIB global, a um intenso processo de urbanização e à emergência de novos centros de poder econômico.
Este texto, derivado de palestra apresentada na Academia Brasileira de Letras, propõe uma breve reflexão sobre essas mudanças estruturais, a erosão da hegemonia econômica dos Estados Unidos e os cenários para a economia mundial pós-Trump.
Principais Transformações Econômicas Globais
A partir de 1950, o mundo experimentou um crescimento econômico sem paralelo na história. Segundo estimativas do Maddison Project Database, o PIB global em termos reais é hoje cerca de cinco vezes maior do que em meados do século XX.
Esse crescimento não foi uniforme entre as regiões, mas foi suficientemente amplo para retirar centenas de milhões de pessoas da pobreza extrema. Os extremamente pobres (com renda inferior a US$2.15 por dia), que eram mais de 40% da população mundial em 1980, reduziram-se para 10% em 2024. Essa transformação econômica esteve associada a processos simultâneos de urbanização e expansão do comércio internacional.
A população mundial, que era de cerca de 2,5 bilhões em 1950, ultrapassou 8 bilhões em 2024. O fenômeno demográfico trouxe consigo desafios e oportunidades. De um lado, a urbanização acelerada proporcionou ganhos de produtividade, com a concentração de atividades econômicas em grandes centros urbanos. De outro, a pressão sobre os recursos naturais e o meio ambiente tornou-se cada vez mais evidente.
Outro aspecto fundamental foi a queda expressiva da taxa de fecundidade. Fora da África, os demais continentes já apresentam taxas abaixo da de reposição populacional (2,1 filhos por mulher). A transição demográfica, além de reduzir o crescimento da população, está agora conduzindo a um fenômeno de envelhecimento generalizado, especialmente na Europa, no Japão e na China.
A globalização consolidou-se como força motriz da economia mundial. Entre 1950 e 2008, a participação do comércio internacional no PIB mundial mais do que triplicou, refletindo não apenas a liberalização comercial e a integração de cadeias produtivas, mas também os avanços logísticos e tecnológicos. No entanto, após a crise financeira global de 2008, o comércio perdeu dinamismo, sinalizando uma mudança estrutural na economia internacional.
A financeirização é outro fenômeno marcante: ativos bancários e financeiros cresceram a taxas muito superiores às do PIB global, refletindo tanto a sofisticação dos mercados quanto a crescente intermediação financeira da economia. Antes da crise de 2008, os ativos bancários chegaram a representar 3/4 do PIB mundial, gerando preocupações sobre riscos sistêmicos. Outros componentes do mercado de capitais cresceram ainda mais: entre 1985 e 2023 o valor das ações transacionadas nos mercados globais sextuplicaram em relação ao PIB mundial, mais recentemente em função da valorização das grandes empresas de tecnologia.
A imigração internacional dobrou, em termos relativos, desde 1950, sobretudo dos países pobres para os países ricos: em 1950 os imigrantes nos países do G7 eram 6% da população, hoje em dia são 12%.
A par disso, a desigualdade de renda entre países vem diminuindo desde a década de 1960, em parte graças ao crescimento acelerado da Ásia. A Ásia, que respondia por apenas 16% do PIB mundial em 1950, em 2022 assumiu uma posição dominante com 42% do total, ao passo que a Europa e as Américas detêm atualmente, cada uma, menos do que 13% do PIB mundial.
Com o impulso da Ásia, as emissões globais de gases de efeito estufa continuaram a crescer, apesar de estarem contidas na Europa e nos EUA, sugerindo ser muito difícil ao mundo atingir a meta de emissão zero em 2050.
Erosão da Hegemonia Econômica dos EUA
Os Estados Unidos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, mantiveram uma posição de destaque como a maior economia do mundo e como centro financeiro global. No entanto, essa hegemonia vem sendo desafiada pela ascensão da China e, em menor medida, pela maior integração da União Europeia.
Levando em conta os menores preços relativos, ou seja, em termos de paridade de poder de compra, a China já ultrapassou o PIB dos EUA. No comércio internacional, o país asiático alcançou volumes semelhantes aos americanos, tornando-se o principal parceiro comercial de boa parte do mundo.
O dólar continua sendo a moeda dominante, presente em mais de 85% das transações cambiais em cerca de 60% das reservas internacionais, mas há sinais de uma lenta diversificação com o crescimento do euro, do yuan e de outras moedas.
Nos EUA, a desigualdade de renda vem aumentando desde os anos 1970, impulsionada pela estagnação salarial das classes médias e a concentração de riqueza no topo. Ao mesmo tempo, a imigração atingiu níveis não vistos desde o final do século 19: em 1970 os imigrantes eram apenas 2% da população americana; hoje em dia chegam a 14%. A dívida pública do governo central atingiu níveis historicamente elevados, aproximando-se de 100% do PIB, podendo chegar a 135% em 2035. E o déficit do comércio exterior americano é persistente, indicando desafios estruturais de competitividade.
Cenários para a Economia Mundial Pós-Trump
As políticas de Trump com relação à imigração e ao comércio internacional são respostas equivocadas para a erosão da hegemonia econômica americana. Como estão em estado de fluxo, é impossível analisá-las em algum detalhe. É plausível admitir que até o final de 2028, ou mesmo antes disso, após as eleições de mid-term em 2026, serão amenizadas e não levarão a desastres internos ou conflitos insolúveis com o resto do mundo. De qualquer modo, o período pós-Trump apresenta grandes incertezas. Há diversos caminhos possíveis para a reorganização da economia mundial.
O primeiro cenário, improvável, é de um retorno ao modelo anterior de integração, improvável porque existe um consenso bipartidário nos EUA em torno da contenção da China, da proteção da indústria nacional e do controle mais rígido da imigração, como visto no governo Biden.
O segundo cenário seria uma globalização sem os Estados Unidos, com a China e a União Europeia assumindo a liderança econômica global. Esse cenário parece também bastante improvável, dado o peso do dólar e a continuada influência militar e financeira dos EUA.
O terceiro cenário, também improvável, seria o de uma nova Guerra Fria, com a formação de blocos estanques (EUA, UE e China/Rússia). A interdependência global e os riscos existenciais compartilhados dificultam uma ruptura tão profunda. O aquecimento global, a ameaça de conflitos nucleares, a revolução da inteligência artificial e o envelhecimento populacional são fatores que exigem cooperação internacional.
A atuação da China será crucial para definir o futuro da economia mundial.
Se a China persistir em seu modelo baseado em alto investimento, baixo consumo interno e política mercantilista agressiva, tenderemos a ver maior regionalização do comércio, mais protecionismo e crescimento global mais lento.
Caso contrário, um ajuste estrutural na China, com maior foco no consumo interno e na inovação, poderia resultar em uma globalização mais equilibrada e multipolar.
Conclusão
A economia mundial, longe de caminhar para o fim da globalização, tende a uma reorganização em múltiplos polos econômicos. O futuro dependerá de como os EUA e a China administrarão suas relações de competição e cooperação, bem como da capacidade da União Europeia de responder aos desafios comuns. O Brasil, por sua vez, precisa se preparar para um cenário de maior complexidade, buscando diversificar parceiros e inserir-se ativamente nas novas cadeias globais de valor.
No domingo (23/agosto/2026), na Band TV, ocorreu o primeiro debate eleitoral entre os candidatos à Presidência. Apresente, de modo detalhado, a repercussão na mídia jornalística profissional no Brasil; citando, no mínimo, 10 reportagens e opiniões em diferentes veículos jornalísticos brasileiros.
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DO DÉFICIT À DÍVIDA, DA DÍVIDA AO DÉFICIT
Marcello Averbug
CONJUNTURA ECONÔMICA, Fundação Getúlio Vargas, Agosto 2026
Paira sobre extensa superfície do planeta uma ameaça que vem sendo subestimada pelos governantes: a elevada dimensão da dívida pública (DP) vigente em um grande número de países. Em alguns não chega a ser ameaça imediata, mas em outros sim, além de conspirar contra o alcance de satisfatória taxa de investimento em vários deles.
Os prognósticos em voga variam desde os que consideram inevitável a explosão de uma crise global, até os confiantes na viabilidade de pilotar a dívida com segurança. Como não me atrevo a opinar onde se encontra a verdade, limito-me a refletir sobre o caso do Brasil.
Não restam dúvidas de que o nível de endividamento do governo federal constitui um dos mais incisivos condicionantes do comportamento da economia nacional. Dado que vem perdurando há longo tempo, quase já pode até ser interpretado como característica estrutural do cenário brasileiro. Segundo o FMI, desde o início deste século até 2014 o percentual da DP sobre o PIB oscilou entre 60,6% e 69,0%, com exceção de 2002 e 2003, quando atingiu a 76,1% e 71,5%, respetivamente. A partir de 2015 observa-se início de sua ascensão (Gráfico I).
Ao encerrar o ano de 2025 a DP representava 93,4% do PIB, nível inferior apenas ao record de 96,0% registado em 2020, por ocasião COVID. Para o final de 2026 o FMI estima o patamar de 100,0%. Nutrido pelo déficit orçamentário primário e pelo pagamento dos juros alusivos à própria dívida, o quadro delineado não sugere sinais de reversão. O peso do montante despendido em juros é substancial e aproxima-se de 8,4% do PIB, índice acima da mediana mundial.
Gráfico I
Os principais detentores da DP interna são os fundos de previdência, fundos de investimentos e as instituições bancárias. A divida externa corresponde apenas a 3,2% da total, sendo 72,6% sob condições de longo prazo. Quanto à forma, a DP pode ser classificada em mobiliária e contratual. A mobiliária consiste na emissão e venda de títulos do Tesouro Nacional e representa 96,3% do total. A contratual provém de contratos de empréstimo ou financiamento entre a União e organismos multilaterais, agências governamentais ou credores privados.
Comparação internacional
Segundo o FMI, o Brasil apresenta o 3º maior endividamento público em relação ao PIB da América do Sul, atrás apenas da Venezuela, com 138,5%, e da Bolívia, com 93,7%, países que não chegam a ser símbolos de boa governança.
Na esfera internacional, o endividamento brasileiro em 2025 encontrava-se um pouco acima do padrão de países da Zona do Euro, 88,7%, e mais elevado da média latino-americana, 71,1% e de nações emergentes, 73,6%. Porém, situava-se aquém do vigente em certos desenvolvidos como, por exemplo: França 115,6%, Itália 137,0%, Estados Unidos 102,0% e Inglaterra 103,0%. Um tema que merece análise é o das diferentes consequências do endividamento sobre as nações de acordo com seus graus de desenvolvimento econômico, tema excluído do escopo deste artigo (Gráfico II).
Gráfico II
Gerenciamento da dívida
Qualquer estratégia de atenuação do envidamento público brasileiro passa necessariamente pelo êxito em diminuir o déficit primário e pela possibilidade de amenizar o impacto do pagamento de juros da dívida. Como o poder do governo sob a trajetória do nível de juros é limitada, o espaço mais disponível para administrar a dívida localiza-se no âmbito do gasto orçamentário primário e da receita da União.
Duas fases são identificáveis na evolução do saldo primário desde 2000. Na primeira, até 2013, ocorreram resultados positivos, mas em montantes insuficientes para debilitar o peso da DP. De 2014 a 2025 os resultados negativos são constantes, com exceção de 2022. As cifras disponíveis para 2026 mantêm o clima deficitário (Gráfico III).
Administrar as contas públicas não constitui tarefa simples pois 92,6% do gasto é de natureza rígida ou obrigatória, enquanto a receita padece de complexo elenco de influências. Porém, essas dificuldades não justificam atitude conformista visto que certas medidas focadas na receita e nos gastos podem suavizar as agruras fiscais do país. As chances de melhorar o visual de ambas variáveis são comentadas a seguir.
GRÁFICO III
Ação sobre gasto e receita
Qualquer intento de reduzir o gasto enfrenta resistência quase intransponível. No entanto, existem algumas poucas trincheiras sujeitas a ataque com potencial de gerar resultado promissor.
A primeira a ser explorada é a do combate à corrupção no uso dos recursos financeiros públicos. Embora o dimensionamento exato desse hábito ilícito seja praticamente impossível, existem algumas estimativas que merecem ser citadas. Por exemplo: o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação avalia em cerca de 8,0% do PIB o uso delinquente de verbas orçamentárias. Mesmo sem ignorar os obstáculos políticos e institucionais ao enfrentamento desse enraizado costume nacional, não há como renunciar à tentativa de reduzir tal desperdício de recursos.
Outra maneira de baixar o montante do gasto localiza-se no melhor gerenciamento dos subsídios concedidos pelo governo federal, os quais assumem os formatos de dispêndio monetário efetivo ou de renuncia tributária. Dados do Ministério do Planejamento demonstram que em 2024 o total de subsídios provenientes da União atingiu 5,78% PIB e aproximadamente 24,0% da receita. O Ministério da Fazenda estima que com as isenções fiscais, inclusive sobre lucros e dividendos, o governo deixará de arrecadar R$ 612,8 bilhões em 2026.
A longa história brasileira de uso do subsídio como instrumento de políticas públicas inclui casos abusivos ou injustificáveis, o que sugere a realização de esforço destinado a identificá-los e eliminá-los. Convivendo com aqueles de conteúdo social e econômico positivo, encontram-se os que apenas beneficiam camadas de maior renda ou contemplam objetivos já ultrapassados. É alta a probabilidade de tal esforço propiciar significativa queda nesse tipo de gasto.
No lado da receita, a primeira ideia que ocorre para aumentá-la refere-se ao combate à sonegação de impostos, independente de devaneios sobre reforma tributária. Estudo do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional avalia que seu montante pode chegar a 28,4% da arrecadação. Em geral, a escassez de informações a esse respeito impede o dimensionamento confiável do quanto a receita do tesouro é danificada. Porém, não restam dúvidas de que a tendência ao déficit primário diminuiria em relevante proporção se o ato de sonegar fosse menos frequente.
Difícil convivência
Os componentes da variável “dívida pública” lhe conferem o semblante de um círculo vicioso. Elevada dívida provoca aumento da taxa de juros, o que provoca crescimento do déficit orçamentário, o que provoca necessidade de mais endividamento, o que impede a queda dos juros e assim por diante. Ao mesmo tempo em que são óbvios os impactos desfavoráveis do endividamento excessivo, também assustam os efeitos sobre crescimento econômico e cenário social causados por um mal concebido corte de gastos públicos ou pelo aumento da carga tributária
Conviver com elevada DP vem constituindo penosa experiência para o Brasil pois deprime suas perspectivas de atingir satisfatório desenvolvimento econômico e social. Mesmo se não desencadear uma crise explosiva, a crônica presença da dívida debilita a capacidade de investir do setor público o que, no Brasil, é desastroso. Conforme a história demonstra, após atravessar os ciclos de crescimento econômico baseado na exportação de produtos primários, cujo exemplo máximo é o café, o país só alcançou invejáveis taxas de aumento do PIB quando o setor público atuou fortemente na economia, isto é, nas décadas de 50 e de 70.
Convém realçar que, apesar da aversão à estatização da economia, o empresariado brasileiro vem demonstrando sensibilidade às iniciativas do governo ao decidir sobre a implementação de novos projetos. Assim, quando declina a capacidade estatal de investir devido ao endividamento público, o setor privado sofre efeitos restritivos, o PIB cresce pouco, a receita tributária encolhe, o déficit orçamentário sobe e aumenta a necessidade recorrer à DP.
O quadro traçado anteriormente reafirma a imagem de que, no Brasil, a questão da dívida pública assemelha-se à de um círculo vicioso, cujo rompimento desafia os formuladores de política econômica.
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Marcello Averbug - consultor econômico, ex-professor da UFF, economista aposentado do BNDES e ex-economista do BID.
São Paulo, 11 de agosto de 2026 Senhoras e senhores. Tenho prazer em comunicar novidades sobre as atividades do “Grupo Interesse Nacional”...