sexta-feira, 17 de abril de 2026

As duas primeiras décadas do século XXI: resiliência das autocracias e tropeços da globalização? - Paulo Roberto de Almeida

As duas primeiras décadas do século XXI: resiliência das autocracias e tropeços da globalização?

Paulo Roberto de Almeida

No ano divisor entre dois séculos, e entre dois milênios, 2000, eu escrevi, em Washington, um trabalho que pretendia resumir o sentido de duas décadas extraordinárias no plano das transformações estruturais da economia e da politica mundiais e portadoras da capacidade de colocar os primeiros fundamentos econômicos de uma nova era: 

As duas últimas décadas do século XX: fim do socialismo e retomada da globalização”.

Bem, quanto ao fim do socialismo — entendido no sentido marxista de modo de produção capaz de superar o modo capitalista de produção, — creio que não existe possibilidade de uma reversão no processo histórico: kaput, c’est fini, acabou e não se fala mais nisso (Cuba e Coreia do Norte talvez devessem ser preservados ao abrigo do Protocolo sobre espécies ameaçadas de extinção para estudo dos futuros arqueólogos politicos). Mas no seu sentido puramente politico, o socialismo era a forma de dominação mais propensa a alimentar autocracias, daí a esperança de que estivéssemos numa espécie de “fim da história” e que o futuro seria radioso em termos de reforço de uma ordem liberal. Nisso fomos frustrados e continuamos a ter desafios importantes a uma ordem global liberal, sobretudo quando a principal potência criadora e defensora dessa ordem liberal se volta contra ela e passa a promover um retorno aos imperialismos brutais do passado.

Quanto à globalização, eu diria que no seu sentido micro, como indutora de inovações e de mudanças continuas no “modo de produção capitalista” (o que sobreviveu nos últimos séculos), ela não só se manteve como continua em sua marcha transformadora do mundo. Mas, em seu sentido macro, aquela induzida ou sustentada pelos Estados e entidades multilaterais, essa enfrenta percalços no seu desenvolvimento e expansão. Mas nada que venha a obstaculizar sua essência mudancista.

Conclusão: parece que está na hora de retomar o espírito analítico e propor uma nova avaliação no sentido proposto ao início desta nota, com algum titulo talvez mais otimista.

O trabalho citado é este aqui:

749. “As duas últimas décadas do século XX: fim do socialismo e retomada da globalização”, Washington, 21 set. 2000, 68 p. Revisão completa do trabalho n. 519, para servir como novo capítulo 8 do livro organizado por Flávio Saraiva, Relações internacionais contemporâneas. Publicado em José Flávio Sombra Saraiva, Relações internacionais: dois séculos de história, v. II: Entre a ordem bipolar e o policentrismo (de 1947 a nossos dias) (Brasília: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, IBRI; Fundação Alexandre de Gusmão, FUNAG; Coleção Relações Internacionais, 2001, v. II, p. 91-174). Republicado (sem atualização) In: José Flávio Sombra Saraiva (org.), História das Relações internacionais Contemporâneas: da sociedades internacional do século XIX à era da globalização (2a. revista e atualizada; São Paulo: Editora Saraiva, 2006, p. 253-316; ISBN: 85-88270-03-X); disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/42863126/As_duas_ultimas_decadas_do_seculo_XX_fim_do_socialismo_e_retomada_da_globalizacao_2006_ ). Relação de Publicados n. 292.

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia. 27/04/2926


Contra o retrocesso e a submissão externa - Julio Benchimol Pinto

 Esta nota de Julio Benchimol, na qual solicita apenas LUCIDEZ dos eleitores, merece ser lida com atenção, pelo que representa de legítimo repudio à familia alucinada que desgraçou o Brasil, levou milhares de brasileiros à morte, por oposição a medidas profiláticas na pandemia, e praticou uma politica externa de submissão total a um tresloucado dirigente do império decadente, fazendo do Brasil e de sua diplomacia um pária internacional.

Só acho que não precisaria fazer nenhuma referência a Lula, que não vem ao caso nesta condenação da familia transgressora da ética politica e da moral publica. PRA


De Julio Benchimol Pinto:

"Não estou lhe pedindo amor por Lula; estou lhe pedindo horror à barbárie.

Estou lhe pedindo que se lembre do que fizeram com o Brasil quando tiveram poder nas mãos: transformaram mentira em método, ódio em linguagem, ignorância em programa de governo, grosseria em identidade moral. Atacaram urnas, atacaram tribunais, atacaram jornalistas, atacaram professores, atacaram a ciência, atacaram a ideia mesma de verdade.

Fizeram da política um curral de fanatismo, da pátria um disfarce, da bandeira um pano para encobrir golpismo, misoginia, racismo, homofobia, devastação ambiental, desmonte da saúde, desprezo pela educação pública, crueldade contra os pobres e servilismo diante dos poderosos.

Humilharam mulheres, insultaram negros, transformaram gays em alvo; trataram indígenas como obstáculo, a floresta como saque, a morte como detalhe.

E quando o país sofreu, quando faltou ar, cuidado, vacina, decência, luto, eles não ofereceram grandeza, mas deboche;  não ofereceram liderança, mas delírio; não ofereceram ordem, mas caos.

Eu não lhe peço entusiasmo; peço limite.

Você pode não gostar de Lula; pode criticá-lo, achá-lo aquém, votar com a mão sem alegria.

Mas há horas em que a urna não nos pergunta quem nos encanta, mas apenas se ainda sabemos distinguir civilização de barbárie.

Esta é uma dessas horas.

Vote contra o golpismo, contra a seita da violência, contra os que corroem instituições, envenenam a convivência e flertam com a treva como quem flerta com um brinquedo.

Um país sobrevive a governos ruins, mas às vezes não sobrevive ao prazer político de destruir tudo.

Não estou lhe pedindo paixão, estou lhe implorando lucidez."


PRA: Acredito que os eleitores brasileiros têm condição de escolher um candidato aceitável. Eles o farão.

Joaquim Murtinho e o primeiro programa de estabilização do Brasil - Helga Hoffmann (revista Será?)

O Déficit no DNA do Brasil?

Joaquim Murtinho: o ministro ficou com a culpa*

Joaquim Murtinho

Joaquim Murtinho

Se fosse contar a história de Joaquim Murtinho em HQ, seria o primeiro Ministro da Fazenda desta nossa República que “tirou a cerveja no meio da festa”. Ou melhor, o que conseguiu “tirar a cerveja”. E só em parte por convicção própria, ainda que ele fosse contra excessos, em especial excesso da emissão de papel moeda. Na verdade, não se encontrou outro jeito: no fim do século XIX o Brasil estava à beira da bancarrota e ele concordou com as condições dos banqueiros do Reino Unido nas negociações durante a moratória do Brasil em 1898. Nem vale a pena especular o que teria sido do Brasil se o governo de então não tivesse concordado com o que muitas décadas depois (na comparação de Gustavo Franco) seria chamado de “condicionalidades”. Já havia uma enormidade de destroços pelo salão, e haveria mais. E uma dívida insustentável e impagável. Os credores desconfiavam, até se opunham, a essa aposta de quem defendeu naqueles tempos, os dois ou três primeiros anos da República, que o certo era incentivar e proteger, botar a impressora para rodar, para que as empresas industriais surgissem ao amanhecer como cogumelos no esterco do pasto.

            Então a primeira cena seria Joaquim Murtinho de jaleco branco recomendando moderação, pois que esse Ministro da Fazenda (1898-1902) era médico de formação, começou como médico em Cuiabá, e quando atuou no Rio de Janeiro tinha pacientes de todas as camadas sociais, foi médico do Marechal Deodoro da Fonseca.

            E a paisagem dessa história em quadrinhos seria muito linda, merece e já teve bons gravuristas: escravos, libertados apenas uma década arás, carregando nos ombros pesadas sacas de café em grão, recém imigrados de olhos azuis com sacas iguais, a imensidão dos cafezais, das fileiras tão retas ou na curva da montanha; etapas da construção da Hospedaria de Imigrantes de São Paulo; palmeiras reais no Rio de Janeiro, que era o que havia de mais urbano; a Amazônia das seringueiras com riscos brancos de látex escorrendo, talvez as festas de inauguração do Teatro Amazonas; os navios no porto de Santos. Eu ficaria tentada até a ilustrar com a São Paulo Railway com vagões sobrecarregados, ainda que essa façanha de engenharia tenha sido inaugurada em 1867, e a expansão das ferrovias financiada pelos ingleses, em função do escoamento do café até o porto, já viesse de algumas décadas anteriores à Primeira República na qual Joaquim Murtinho atuou. Quem sabe, ainda, um cavalo todo apetrechado para a corrida levado de volta para a estrebaria.

            Há algum grau de injustiça nas recordações que deixou esse pedaço da história do Brasil, se queremos colocar mais drama nos quadrinhos. Pois o Ministro Joaquim Murtinho, para quem não houve outro caminho que a austeridade, ficou com a fama de quem acabou com a festa, o culpado por desacelerar a economia e a industrialização, provocando falências de empresas, recessão, desemprego e empobrecimento. Por suas medidas para estabilizar as finanças públicas mediante um ajuste fiscal severo, corte de gastos e aumento de impostos junto com renegociação da dívida, foi considerado defensor de “darwinismo social”. É fato que Murtinho, ao retirar papel moeda de circulação, deixou que falissem as empresas que só sobreviviam com rolagem de crédito irrecuperável. A economia encolheu por dois anos, há estimativas de queda de 20% no PIB per capita entre 1890 e 1900, mas não se sabe quanto foi exatamente a queda do PIB que se pode atribuir ao ajuste de Murtinho, pois contas nacionais não existiam, foram sendo construídas a partir da década de quarenta.

            Enquanto isso o ministro que provocou a crise do Encilhamento, com expansionismo fiscal que chegou a uma crise de confiança dos credores externos e suspensão de rolagem da dívida, escapou da pecha da irresponsabilidade fiscal e de responsável por criar a bolha financeira. Ruy Barbosa passou à história como um visionário que sonhou com a industrialização e o desenvolvimento do Brasil. De fato, num primeiro momento, ampliou-se a criação de empresas: o número de empresas quintuplicou de 1888 a 1891, muitas delas fabris, mas empresas de todo tipo que se aproveitaram da livre criação de crédito sem regulação, inclusive empresas fictícias. Um bom número não sobreviveu quando estourou a bolha do Encilhamento. Claro que nossa “Águia de Haia” foi bem mais que Ministro da Fazenda do governo provisório do Marechal Deodoro da Fonseca. Teve muitos méritos, ajudou a escrever a Constituição de 1891, e brilhou na política exterior do Brasil, como diplomata respeitado.

            E é verdade que nenhuma crise é provocada apenas pelas opções de um Ministro da Fazenda. Seria necessário examinar o modo de inserção do Brasil na economia mundial no fim do século XIX, quando a razão exportações/PIB talvez estivesse em torno de 18%, considerar as flutuações na exportação e no preço do café, preço que dependia do que acontecia com a safra no Brasil, a relação entre câmbio e café, os fluxos de capital e créditos ingleses, o serviço da dívida, por que o boom da borracha dos 1880s não evitou a crise cambial de 1889.

            É fato que houve pressão política em favor de mais emissões. Com a disseminação do trabalho livre aumentou muito a demanda por moeda, principalmente por ocasião da safra, em que se concentravam os pagamentos. Os bancos não tinham condições de atender esses picos de demanda por moeda, porque ainda não havia o hábito generalizado de comerciantes depositarem seus rendimentos em banco. Além de que bancos e depósitos estavam concentrados no Rio de Janeiro. As reclamações de escassez de meio circulante vinham de antes da República, já antes da Abolição de 1888. É preciso considerar ainda, ao examinar as pressões por mais moeda, os gastos extraordinários para conter as rebeliões localizadas, nas províncias do Rio de Janeiro (Revolta da Armada 1883), do Rio Grande do Sul (Revolução Federalista 1883-85), e da Bahia (Guerra de Canudos 1896-97), na república ainda longe de consolidada.

            Nem por isso precisamos esquecer que o primeiro Ministro da Fazenda da República, pelas emissões descontroladas, foi um dos primeiros “amigos da inflação”. A expansão monetária que promoveu foi violenta e muito rápida. Instalada a desordem financeira com a qual não soube lidar, e diante da forte oposição política, renunciou em janeiro de 1891. A renúncia de Ruy Barbosa não conteve as falências que se multiplicavam e até a Bolsa de Valores de São Paulo, que havia sido criada em 1890, fechou em 1891, com o colapso do mercado de ações.

            Seguiu-se um período de grande instabilidade, com praticamente um Ministro da Fazenda por ano. Um deles, que foi nomeado duas vezes, por presidentes diferentes, não se manteve mais que poucos meses, ainda que conseguisse alguma contenção da inflação. Não por acaso foi ainda mais acelerada a troca de Ministros das Relações Exteriores. Ainda que não se detenha nas negociações com credores britânicos na crise cambial de 1898, Rubens Ricupero mostrou as relações entre os conflitos internos desses anos e a mudança nas relações internacionais do Brasil, explicando por que então começam a ter maior importância as relações com os Estados Unidos. (Rubens Ricupero, A Diplomacia na Construção do Brasil 1750-2016, Rio de Janeiro, Versal Ed. 2017, pp. 255-316)

            Depois de sete ministros sem sucesso em oito anos de tentativas divergentes de reorganizar as finanças, foi nomeado Ministro da Fazenda Joaquim Murtinho, em novembro de 1898, e se manteve por todo o mandato do Presidente Campos Salles. A República mal tinha nove anos de idade. Já havíamos chegado à fase da “Republica Oligárquica”, passada a fase da “República da Espada” que se encerrou em 1894. O Presidente Campos Salles era ligado à elite cafeeira paulista, da produção para a exportação. Alguma produção manufatureira para o mercado interno, a partir dos muitos artesãos que chegavam com a imigração, começava a se desenvolver, para um mercado que era pequeno para uma produção doméstica.

            Era um Brasil agrícola. Tão rural que o período de euforia e crise do começo da República foi chamado de Encilhamento, numa analogia com a colocação dos arreios na preparação final do cavalo para a corrida. A população urbana não passava de 10% do total e a maior cidade era o Rio de Janeiro, capital, como pouco mais de meio milhão de habitantes. São Paulo começava a crescer. A abolição do regime escravagista não tinha ainda dez anos e começava a disseminação do trabalho livre no campo, com as formas de remuneração que apareceram na cafeicultura (que não eram exatamente como as do trabalho assalariado moderno, mas aumentaram muito a necessidade de moeda por ocasião das colheitas, não só no café). Pelo Censo de 1890 a população total era de 14,3 milhões, a maioria de pardos e pretos, e não será exagero afirmar que talvez 15% ou mais da população total era de ex-escravizados. No fim da década a população total chegaria a 17,4 milhões.

            E era o tempo do padrão ouro, que se consolidou no século XIX sob a liderança dos ingleses. Assim, é quase alegoria que se aponte para a irresponsabilidade fiscal ao analisar a crise do fim do século XIX. Não tínhamos dados consolidados sobre despesa e receita do governo, mas é certo que o Presidente Campos Salles recebeu o governo com espantoso déficit fiscal. Na verdade, o debate doutrinário daquela época foi entre metalistas e papelistas. Os papelistas, eram partidários da moeda fiduciária, sem lastro metálico, de modo que a moeda poderia ser emitida e usada para estimular o crescimento econômico. Já os metalistas, alinhados ao pensamento clássico britânico, consideravam que a moeda deveria ter lastro metálico, de preferência em ouro.

            Papelistas predominaram na transição do Império para a República, e Ruy Barbosa era destes o representante mais ilustre. A política de Joaquim Murtinho se insere na corrente metalista, que começava a prevalecer em 1895. Já se fizeram análises detalhadas do funcionamento da economia e da política econômica nos primeiros anos da República em termos desse embate entre papelistas e metalistas, ou seja, entre os que reclamavam da escassez de meio circulante e a orientação conservadora que queria reduzir a oferta de moeda para um utópico restabelecimento do padrão ouro à       antiga paridade de pence-réis que o país conseguira de novo ainda em 1888. (Ver Gustavo Franco em “A Primeira Década Republicana” inMarcelo de Paiva Abreu, org., A Ordem do Progresso: Dois séculos de política econômica no Brasil), Elsevier Ed.2014, pp.29-44) Das convicções de metalista de Joaquim Murtinho há notícia antes de ele se tornar Ministro da Fazenda. Mas não é um acadêmico ou autor que escreveu muita coisa, embora se saiba de artigos de várias matérias que publicou em periódicos da época. É em sua atuação na Fazenda que suas ideias encontraram expressão.

            Nos primeiros anos da República, com a enorme expansão da produção, o preço do café despencou. Em 1898, quando Murtinho assumiu, o preço médio da saca do café em libra-ouro chegara a menos da metade do que era no ano da Proclamação da República. Não foi sobre os cafeicultores que recaiu essa perda, pois o câmbio se desvalorizou mais que proporcionalmente e assim os preços em milreis inclusive subiram no período, mais rapidamente ainda após as emissões do Encilhamento. Isso trazia dificuldades para as importações, o que em tese poderia ser incentivo à indústria doméstica, e consequências para o orçamento público que dependia do imposto sobre importações. Entende-se que Joaquim Murtinho atribuísse a crise econômica a “produção exagerada em relação ao consumo”: nos seus termos, uma aplicação viciosa do trabalho nacional na produção de um gênero excessivo no mercado. A queda de preço do café talvez tivesse agravantes, seja concorrentes que começavam a aparecer, seja dificuldades econômicas nos países compradores, mas o aumento do plantio evidentemente foi estimulado pelo crédito fácil da era do Encilhamento. É a ideia da superprodução que serve de base, na década seguinte, para as chamadas políticas de valorização do café.

            Para um metalista como Joaquim Murtinho a crise não era a queda temporária de preços do café, era uma crise financeira provocada pela emissão excessiva de papel moeda, que trazia superprodução, desvalorizava a moeda e desfazia a pretendida paridade com a libra do padrão ouro. A desvalorização da moeda gerava perda de credibilidade nos bancos emissores e no governo, e desconfiança dos credores externos quando o orçamento dependia de novos créditos. Assim, Murtinho Ministro da Fazenda, controlou as emissões e, com ajuda do Congresso para leis que permitiram o fechamento de alguns bancos, tomou providências para tirar de circulação e incinerar parte da moeda fiduciária.

            Mas havia também uma crise cambial que a queda do preço do café agravou muito e que pôs em perigo o serviço da dívida. A crise de 1891-92 veio com uma enorme desvalorização cambial que dificultava importações, mas isso não resolvia o problema do déficit em conta corrente, para o qual governo brasileiro tentava obter novos créditos. Houve uma diminuição das entradas de capital estrangeiro ao longo dos 1890s. O governo brasileiro ainda conseguiu um último empréstimo de rolagem em meados de 1895. Na época, os credores chegaram a sugerir um imposto sobre importações reservado para o serviço de antigas e novas dívidas. Expedientes como a venda de parte das reservas em ouro, tentativas de apropriar parte das receitas de alguma ferrovia, e até a venda de alguns navios de guerra aos americanos depois de dominada a Revolta da Armada no Rio, pouco adiantaram.

            Em 1898 o Brasil caminhava para o default. Joaquim Murtinho e o empenho de seu presidente Campos Salles conseguiram evitar o calote mediante uma renegociação, que resultou no chamado “Funding Loan”. O governo brasileiro não encontrou outra saída que declarar a moratória, informada aos banqueiros em Londres em fevereiro de 1898, o que deu início às negociações. O acordo a que se chegou com a Casa Rotschild não foi uma rolagem da dívida como as anteriores. O Brasil deveria liquidar o pagamento dos juros dos empréstimos anteriores ao Funding com títulos de um novo empréstimo, o Funding Loan, cuja emissão se daria ao par, e podia chegar até 10 milhões de libras-ouro. As amortizações dos empréstimos incluídos na operação seriam suspensas temporariamente, de certo modo substituídas pelos novos títulos de dívida. Uma emissão ainda maior de títulos de renda fixa seria feita para trocar pela “garantia de juros” às ferrovias. Desde o Império, para incentivar a construção de ferrovias, o governo se comprometia em garantir às ferrovias um rendimento mínimo. Como as receitas de muitas das ferrovias não cobriam os custos, a Lei de Garantia de Juros trouxe para o governo considerável risco e compromisso fiscal. Com a troca pelos novos bônus, num total de 16,6 milhões de libras-ouro, foram “resgatadas” 11 ferrovias e se tornou mais previsível a despesa do governo, substituídos os contratos de garantia de juros por títulos da dívida consolidada com os credores.

            O Funding Loan teve como garantia uma hipoteca sobre as receitas em moeda forte da Alfândega do Rio de Janeiro. Isto é, o governo brasileiro dava, como garantia do pagamento aos credores internacionais, as receitas de uma de suas principais fontes de arrecadação, sobretudo em moeda forte. Além dessa garantia, havia a exigência de que o governo agisse no terreno monetário e fiscal de modo a equilibrar as contas do governo, em especial em moeda forte. De fato, houve corte de despesas, e houve aumento de impostos, sobretudo de consumo e do selo (uma espécie de imposto sobre contratos). De resto, Joaquim Murtinho agiu segundo suas convicções sobre emissões excessivas que traziam indústrias artificiais e superprodução. Foram fechados muitos bancos, que já não tinham mais poder de emitir papel moeda. As emissões foram centralizadas no governo federal. As estimativas sobre o tamanho da redução do papel moeda em circulação são desencontradas. Possivelmente a gestão Murtinho, de 785 mil contos de réis em circulação em 1889, teria conseguido retirar uns 100 mil contos de réis.

            Há mais algumas informações em Gustavo Franco (op. Cit. P. 43), mas é bastante radical a sua intepretação de que “a política econômica de Joaquim Murtinho … na verdade consistiu na execução do ‘funding scheme’.” Aí de novo temos polêmica, como já houve na época a acusação extrema de “submissão” para as medidas adotadas por Joaquim Murtinho e Campos Salles. Vale considerar a interpretação de que, dado o panorama internacional e a conjuntura política interna do momento, as decisões de Joaquim Murtinho foram as mais racionais. Ou então, as decisões possíveis.

*O artigo sobre Murtinho é parte de uma coletânea ultra eclética organizada por Roberto Luis Troster, Pensadores da Economia Brasileira (Rio de Janeiro, Editora Processo, 2025), sobre a contribuição de economistas que já não estão entre nós.


O Adam Smith escocês e o Adam Smith brasileiro - Paulo Roberto de Almeida

O Adam Smith escocês e o Adam Smith brasileiro

Sobre as referências ao Brasil na obra de Adam Smith e avaliação do pensamento econômico do Adam Smith brasileiro: José da Silva Lisboa.

José da Silva Lisboa

José da Silva Lisboa

Brazils, no plural: é assim que a maior colônia da coroa portuguesa vem referida em diversas passagens do livro seminal da Economia Política, aquele que inaugurou, segundo consenso da historiografia econômica, a ciência “lúgubre” (dismal science), aquela que tem a ver com a escassez, a produção e a distribuição de bens úteis à vida em sociedade. A maior parte das citações são puramente ocasionais, como o surgimento de novos mercados nas terras descobertas pelos europeus, ou como fonte eventual do ouro tão avidamente buscado pelos exploradores em terras distantes (no caso do Brasil, em territórios “inhabited by savages nations, who had neither arts nor agriculture.” O plural tinha razão de ser: até meados do século XIX, pelo menos, a antiga colônia lusitana da América do Sul não conformava uma nação unificada, nem no plano econômico, nem no plano das ligações internas, tampouco no plano político, se considerarmos as tentativas de secessão e as revoltas regionais até o início do segundo reinado. As cortes de Lisboa, aliás, pretendiam relegar o Brasil a um estatuto semicolonial, pois que estipularam que as províncias se conectariam diretamente a Lisboa; mas quando tal dispositivo foi estabelecido na primeira Constituição portuguesa, o Brasil já tinha se tornado independente.

As referências ao ouro do Brasil aparecem diversas vezes ao longo dos primeiros livros da fabulosa obra de Adam Smith, An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, publicada pela primeira vez em Londres, em março de 1776, ou seja, 250 anos atrás. Na maior parte dos casos, se trata dos volumes “of gold annually imported from the Brazils to Lisbon”, em outros casos ele aborda o sistema de tributação aplicado na América portuguesa ou na espanhola, fixado igualmente em 20% do valor, o famoso quinto: “The tax… of the king of Portugal upon the gold of the Brazils, is the same with the ancient tax of the king of Spain upon the silver of Mexico and Peru; or one-fifth part of the standard metal.”

Mais adiante, no capítulo VII (Das Colônias) do Livro IV, Parte II (Causes of the Prosperity of New Colonies), Smith critica acerbamente o sistema monopólico das companhias de comércio autorizadas pela via do Estado, no caso de Portugal na era de Pombal: “It has occasionally been the policy of France; and of late, since 1755, after it had been abandoned by all other nations on  account of its absurdity, it has become the policy of Portugal, with regard at least to two of the principal provinces of Brazil, Pernambucco, and Marannon.” (p. 376, segundo volume, da 6ª edição, 1791). No capítulo imediatamente anterior, VI, do mesmo livro IV, “Of Treaties of Commerce”, Smith toma apoio no famoso tratado de Methuen (1703) – que ele transcreve na integralidade dos seus três artigos – para criticar sua desigualdade inerente – admissão livre de panos ingleses contra redução de tão somente 2/3 nas tarifas aplicadas aos vinhos portugueses –, mas o erro foi de Portugal, numa época em que a cláusula de nação mais favorecida já estava estabelecida na Lex Mercatoria.

O aspecto mais importante, porém, das conexões entre Adam Smith, entre sua mais importante obra e os “Brasis” – o Brasil colonial, do ouro e das companhias de comércio, e o independente, que herdou um tratado desigual (o de 1810), legado por Portugal, e que durou até 1844, sempre sob protestos do Império – foi o fato de que ele encontrou um leitor atento e um precoce seguidor entre um dos intelectuais mais ativos na transição do Brasil colonial para o Reino Unido e na consolidação da independência: José da Silva Lisboa (Salvador, 1756; Rio de Janeiro, 1835). O primeiro contato que Silva Lisboa teve com a obra seminal de Adam Smith pode ter ocorrido em torno de 1795, quando teve acesso a uma edição em português; mas logo em seguida, ele leu e anotou extensivamente The Wealth of Nations e aproveitou algumas de suas lições para o seu primeiro livro de economia política: Princípios de Direito Mercantil e Leis da Marinha para uso da Mocidade Portuguesa destinada ao Comércio (impressa pela Imprensa Régia, em 1798). Essa primeira obra tem uma importância crucial no nascimento do pensamento econômico em Portugal e no Brasil, complementada, já no início do século XIX, pela obra que lhe faz sequência: Princípios de economia política (publicada em 1804 pela Imprensa Régia). Logo ao início esse livro de 1804, ele confidencia aos leitores:

… para não desgostar logo aos leitores com discussões prolixas (…), exponho os motivos por que recomendo a lição da imortal obra da A Riqueza das Nações do celebrado Adam Smith, e o sigo nas teses cardeais de seu sistema; persuadido de ter sido ele o primeiro que dissipou as escuridades da Economia Política, levantando a facha [tocha] de luz para esclarecer às nações e governos sobre os seus genuínos interesses, que são inseparáveis dos da Humanidade. (p. iv)

Tendo influenciado o príncipe regente D. João na declaração de abertura dos portos, um decreto publicado quando ambos se encontravam em Salvador, em janeiro de 1808, Silva Lisboa produziu imediatamente as suas Observações sobre o comércio franco no Brasil (na Imprensa Régia do Rio de Janeiro, em 1808), que foi seguido, dois anos depois, pelas suas novas Observações sobre a franqueza da indústria e estabelecimento de fábricas no Brasil e, no mesmo ano de 1810, as Observações sobre a prosperidade do Estado pelos liberais princípios de nova legislação, discutindo e defendendo os tratados firmados entre Portugal e Grã-Bretanha, entre eles o de comércio, que vai receber, antes mesmo de assinados e promulgados, as mais severas críticas de Hipólito da Costa nas páginas do seu “armazém literário”, o Correio Braziliense.

A despeito da importância intelectual dessa obra, Silva Lisboa não conheceu a fama que legitimamente sempre cercou Adam Smith, à qual, no entanto, ele teria pleno direito de desfrutar, inclusive pelo fato de ter inovado em relação ao escocês. Uma das razões pode ter sido o fato de que ele foi não apenas um seguidor fiel das monarquias do Braganças, mas também um espírito liberal puro, embora pragmático, numa época em que o nacionalismo e o protecionismo comercial começaram a se firmar e a se consolidar no Brasil. É possível que a pouca afeição que teve Cairu no “panteão” dos nossos estadistas da independência – vis-à-vis, por exemplo, José Bonifácio, Hipólito da Costa, Evaristo da Veiga, Bernardo Pereira de Vasconcelos entre outros – se deva a essa fidelidade extrema aos Braganças e à união dos dois reinos, enquanto isso foi possível (mas registre-se que Hipólito e Bonifácio tinham a mesma posição até quase o momento da ruptura, com as notícias das Cortes de Lisboa).

No Brasil independente, ele se mostrou extremamente servil a D. Pedro I, que lhe atribuiu os títulos de barão e de visconde de Cairu, e fez dele um senador desde a abertura do Legislativo. Cairu, considerado o “cronista-mor” dos Braganças, passou a ser visto, quase que unanimemente por certa historiografia, como um conservador, senão um reacionário. É a esse título que José Honório Rodrigues o classifica, no primeiro tomo do segundo volume de sua História da História do Brasil (1988), sob o signo da historiografia conservadora, na qual Silva Lisboa é colocado na “linha reacionária e contrarrevolucionária”. É uma visão injusta e parcial no tocante à imensa contribuição que ele ofereceu não apenas no nascimento do pensamento econômico em Portugal e no Brasil, como um Adam Smith brasileiro, mas também do ponto de vista de uma primeira exposição sistemática sobre os fundamentos concretos da economia brasileira.

Ele não apenas fez obra teórica de economia política, como discorreu sobre os principais problemas do Brasil e sobre as maneiras de superar as dificuldades causadas por três séculos de colonização baseada no escravismo, para, enfim, colocar o país e seus habitantes numa rota de crescimento, de redução das desigualdades sociais, de progresso tecnológico e de conexão com todas as partes do mundo, via livre comércio internacional. Não obstante a novidade e a riqueza das contribuições de Silva Lisboa para a precoce preeminência das ideias liberais no Brasil, posturas protecionistas se tornaram predominantes desde meados do século XIX e estiveram no coração dos projetos industrializadores a partir da República. O regime republicano no Brasil reforçou a expansão desse tipo de política protecionista – que, no Império, tinha finalidades mais fiscalistas do que propriamente industrializadoras–, passando a adotar medidas como a Lei do Similar Nacional, que vigorou durante praticamente todo o século XX.

Ainda na época do Reino Unido, Silva Lisboa vai produzir a sua mais importante obra de economia política (programada para ter 12 volumes, mas que permaneceu incompleta), os Estudos do Bem-Comum e Economia Política, ou ciência das leis naturais e civis de animar e dirigir a geral indústria, e promover a riqueza nacional e prosperidade do Estado (Rio de Janeiro: Imprensa Régia, 1819-1820). No Prefácio a este seu último grande trabalho, ele esclarece o sentido, os propósitos e as fontes com as quais trabalhou, desde seu livro de 1804:

Vali-me com preferência das doutrinas de Smith, Malthus, Ricardo, que sobressaem, como Escritores originais, profundos e didáticos, e que se podem intitular os Triúnviros da Economia Política; por terem elevado à dignidade de Ciência esta Literatura, e contribuído para o seu progresso com rapidez, e maior número de princípios exatos, mostrando os erros das opiniões comuns. – Smith a caracterizou como um ramo da Ciência do Legislador e Homem de Estado. – Malthus afirma ser a única Ciência de que talvez se possa dizer, que a ignorância dos seus capitais aforismo não é só privação de bem, mas grande positivo mal. – Ricardo se propôs resolver o que chama Principal Problema da importante Ciência da Economia Política, o determinar as Leis, que, nos diferentes estados da Sociedade, progressivo, estacionário, ou retrógrado, regulam a Distribuição dos produtos da terra, segundo as proporções que competem às suas diferentes classes, a título de salário, proveito e renda. (Edição do Ipea, 1975, p. 7)

Silva Lisboa reconhece a genialidade de Adam Smith, que dizia que a quantidade anual de trabalho necessário à produção das “conveniências para a vida”, que uma sociedade consome, depende, em certa proporção, da perícia, destreza e tirocínio – skill, dexterity, and judgement – no trabalho que é aplicado a essa produção (1791, I, p. 1); mas foi Silva Lisboa quem sofisticou tal visão, ao propor que, na relação entre os diferentes volumes de riqueza das nações, caberia considerar a quantidade de trabalho (no sentido puramente braçal, ou manual) e a quantidade de inteligência que a fundamentam. Tal concepção se aproxima bastante da visão que, nos tempos modernos, alguns economistas inovadores possuem a respeito do conhecimento como um elemento próprio e distinto dentre os fatores de produção, a chamada knowledge economics. Com efeito, Silva Lisboa inova sobre o sistema smithiano, ao considerar que a inteligência, nas operações da sociedade, representa quase tudo para a prosperidade e a ordem própria na vida do povo.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5254, 24 março 2026, 4 p.

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Permito-me chamar a atenção para estes dois trabalhos meus sobre o Adam Smith brasileiro, José da Silva Lisboa: 

5253. “Minha homenagem a Adam Smith”, Brasília, 23 março 2026, 37 p. Apresentação dos trabalhos 3133 (“A Brazilian Adam Smith: Cairu as the Founding Father of Political Economy in Brazil at the beginning of the 19th century”, Mises: Interdisciplinary Journal of Philosophy, Law and Economics (2018) e 4216. (“O maior pensador econômico brasileiro, embora ainda controverso”, Brasília, 12 agosto 2022, 20 p. Introdução a uma nova edição dos Princípios de Economia Política (1804), de José da Silva Lisboa; in: Lisboa, José da Silva, Princípios de economia política para servir de introdução à tentativa econômica do autor dos Princípios de Direito Mercantil, 2022). Disponíveis conjuntamente na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/165281705/5253_Hommage_to_Homenagem_a_Adam_Smith); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/hommage-to-homenagem-adam-smith-jose-da.html).


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