domingo, 28 de junho de 2026

Uma aula completa sobre IA, com Fabio Akita, via Airton Dirceu Lemmertz

 Recomendo a leitura e agradeço uma vez mais so meu amigo ADL por disponibilizar um texto dis mais esclarecedores sobre a IA:

 TECNOLOGIA E IA [+ FABIO AKITA]: 



Introdução ao Cenário da Inteligência Artificial
No início da conversa [0:1.3], o anfitrião Igor 3K recebe Fábio Akita [0:1.4], criador do canal Akitando [0:1.3]. Akita expressa um desabafo inicial sobre o debate público ao redor da Inteligência Artificial [0:1.5, 0:1.6]. Ele pontua que, embora o assunto tenha explodido fora da bolha de programação [0:1.28], a régua da discussão no ambiente de massa se encontra muito baixa [0:1.32, 0:1.33]. Akita lamenta que pesquisadores e doutores da área de exatas possuam grande dificuldade em comunicar conceitos complexos de maneira simples [0:1.35, 0:1.38], abrindo espaço para que influenciadores sem profundidade técnica assumam o controle da narrativa [0:1.33, 0:1.36].
Esse distanciamento na comunicação gera um pânico infundado na sociedade [0:1.48, 0:1.51]. O público leigo tende a associar a Inteligência Artificial a ficções científicas apocalípticas [0:1.42, 0:1.46], criando o temor de uma tecnologia alienígena ou de ameaças iminentes às carreiras dos jovens [0:1.49, 0:1.52]. Akita pontua que muitos influenciadores utilizam o gatilho do medo de perder o emprego apenas como uma tática para inflar visualizações e monetizar em cima da ansiedade alheia [0:1.53, 0:1.70]. Como seu canal pessoal não possui fins lucrativos ou patrocínios [0:1.67, 0:1.68], ele se posiciona como uma voz disposta a jogar um balde de água fria no alarmismo e explicar a realidade com base na ciência da computação [0:1.71, 0:1.74].
A Evolução do Trabalho e a Automação de Rotinas
Os participantes analisam o medo generalizado do desemprego causado pelas novas tecnologias [0:1.51, 0:1.53]. Akita argumenta que o deslocamento de postos de trabalho é um reflexo natural da evolução e não depende exclusivamente da Inteligência Artificial moderna [0:1.104, 0:1.116]. Ele cita exemplos cotidianos de automação convencional que já reduziram a necessidade de mão de obra humana [0:1.105], tais como os totens de autoatendimento no McDonald's [0:1.105], os caixas eletrônicos e os supermercados com sistemas onde o próprio cliente passa suas compras [0:1.108, 0:1.109].
A discussão expande-se para o cenário internacional [0:1.110]. Akita relata que em viagens realizadas ao Japão há mais de dez anos [0:1.110], já era comum encontrar lojas de conveniência operando com zero funcionários humanos [0:1.111, 0:1.112]. Esse modelo funciona perfeitamente devido ao alto nível de confiança e civilidade daquela sociedade [0:1.112], permitindo que as pessoas comprem e registrem seus produtos de forma totalmente autônoma [0:1.113]. Igor concorda e acrescenta que o avanço tecnológico extingue certas ocupações, mas gera mercados completamente novos, citando o próprio trabalho de criador de conteúdo digital, que não existia poucas décadas atrás [0:1.116, 0:1.118].
O Caso de Substituição por Avatares Digitais
Fábio Akita traz à tona um experimento recente conduzido por um influenciador e streamer norte-americano conhecido como Kwebbelkop [0:1.121, 0:1.123]. Esse criador de conteúdo, após passar cerca de dez anos gravando rotinas diárias e jogando Minecraft [0:1.123, 0:1.124], começou a sofrer com o esgotamento profissional, o chamado burnout [0:1.148, 0:1.151]. Sob a pressão de manter um fluxo constante de postagens, o jovem decidiu treinar uma Inteligência Artificial com seus próprios vídeos para substituí-lo inteiramente por um avatar digital 100% automatizado [0:1.126, 0:1.151].
Esse movimento gerou uma enorme onda de rejeição e publicações com alta taxa de avaliações negativas na plataforma [0:1.127, 0:1.133]. O público fã do canal sentiu-se traído ao perceber a perda do toque humano e o enlatamento das reações [0:1.128, 0:1.141]. Akita aponta que o criador inclusive fez um teste publicando um vídeo gerado por Inteligência Artificial sem avisar a audiência [0:1.155], revelando o segredo apenas nos minutos finais [0:1.156]. O experimento gerou polêmica por colocar em xeque a própria natureza do conteúdo de entretenimento rápido focado no público infantil, evidenciando que reações padronizadas podem ser facilmente replicadas de forma mecânica [0:1.137, 0:1.143].
Fundamentos Técnicos: Redes Neurais e o Papel das GPUs
Para desmistificar a aura de divindade atribuída à Inteligência Artificial [0:1.167, 0:1.171], o convidado resgata a história do processamento de dados [0:1.209, 0:1.213]. Ele explica que a pesquisa em simulação computacional acompanha a criação das máquinas desde o século passado [0:1.193]. Nos primórdios, os computadores eram tão fracos que mal conseguiam decodificar uma música em formato MP3 em tempo real sem paralisar qualquer outra tarefa de escritório [0:1.256, 0:1.258]. A evolução do processamento gráfico, impulsionada fortemente pela indústria dos videogames, acabou por pavimentar o caminho para a Inteligência Artificial contemporânea [0:1.298, 0:1.383].
Akita introduz os conceitos matemáticos básicos que operam por trás de uma rede neural [0:1.418, 0:1.430]. Ele esclarece que a expressão "rede neural" é apenas uma metáfora computacional e não possui nenhuma relação biológica com o cérebro humano [0:1.457, 0:1.458]. Estruturalmente, uma rede neural consiste em uma quantidade maciça de equações matemáticas simples de soma e multiplicação aplicadas de forma sequencial [0:1.430, 0:1.432]. Todo o processo de treinamento se resume a ajustar empiricamente variáveis chamadas de pesos e vieses [0:1.450, 0:1.453]. A máquina faz trilhões de tentativas de erro e acerto até aproximar o resultado numérico do objetivo esperado [0:1.444, 0:1.445].
Essa lógica de tentativa e erro massiva funciona por força bruta e exige um processamento de dados absurdamente veloz [0:1.467, 0:1.468]. É neste ponto que as Unidades de Processamento Gráfico, as GPUs, tornam-se indispensáveis [0:1.331, 0:1.367]. Enquanto uma CPU tradicional processa poucas instruções complexas de forma sequencial [0:1.325, 0:1.364], a arquitetura paralela das GPUs permite calcular matrizes matemáticas gigantescas simultaneamente [0:1.331, 0:1.334]. Akita destaca a visão de mercado da Nvidia [0:1.371, 0:1.372], que há anos desenvolveu a tecnologia CUDA [0:1.374], permitindo que seus chips gráficos fossem utilizados para cálculos de propósito genérico [0:1.373], fora do universo restrito dos jogos de computador [0:1.373].
Modelos de Linguagem e a Incompetência Estratégica do Google
A análise cronológica avança para explicar o nascimento dos grandes modelos de linguagem, conhecidos pela sigla LLM [0:1.350, 0:1.738]. Akita revela que a tecnologia fundamental que permitiu o surgimento do ChatGPT e o estrondo da Inteligência Artificial generativa foi criada e patenteada originalmente por pesquisadores de dentro do próprio Google [0:1.635, 0:1.638]. Trata-se do célebre artigo acadêmico intitulado "Attention Is All You Need", que introduziu a revolucionária arquitetura de redes neurais conhecida como Transformers [0:1.635, 0:1.637].
Apesar de deter a propriedade intelectual e as mentes mais brilhantes da computação [0:1.515, 0:1.638], a gerência corporativa e a burocracia interna do Google sufocaram o desenvolvimento do produto [0:1.514, 0:1.639]. Frustrados com a lentidão institucional, os dez principais autores do paper decidiram se desligar da empresa [0:1.638, 0:1.639]. O executivo Sam Altman aproveitou a oportunidade para absorvê-los na OpenAI [0:1.639, 0:1.640], culminando no lançamento público do ChatGPT dois anos depois [0:1.640]. Akita rotula o sucesso comercial da OpenAI como um verdadeiro troféu à incompetência administrativa moderna do Google [0:1.642, 0:1.643], uma empresa monopolista que se tornou excessivamente dependente de suas receitas publicitárias e do mecanismo de buscas tradicional [0:1.503, 0:1.505].
O Tabuleiro Geopolítico do Código Aberto
Em seguida, Akita aborda a drástica mudança de posicionamento estratégico de Mark Zuckerberg, presidente da Meta [0:1.482, 0:1.483]. Após queimar bilhões de dólares na tentativa frustrada de emplacar o conceito do Metaverso [0:1.494], Zuckerberg enfrentou uma severa crise de desvalorização acionária e demissões em massa entre os anos de 2020 e 2022 [0:1.495, 0:1.499]. Para recuperar sua relevância na fronteira tecnológica, o executivo adotou uma postura agressiva e disruptiva no campo da Inteligência Artificial [0:1.484, 0:1.487].
A Meta passou a treinar modelos sofisticados de linguagem, batizados de Llama [0:1.735, 0:1.738], e tomou a decisão drástica de disponibilizá-los gratuitamente sob licenças de código aberto, o open source [0:1.735]. Essa atitude quebrou o monopólio comercial das plataformas fechadas e pagas como a OpenAI [0:1.843, 0:1.847]. Ao dar acesso direto aos pesos matemáticos dos modelos para qualquer desenvolvedor ao redor do globo [0:1.735, 0:1.737], Zuckerberg permitiu que pequenas empresas e computadores domésticos operassem ferramentas que rivalizam com o GPT-4 [0:1.491, 0:1.740], limpando a imagem desgastada da Meta perante a comunidade técnica global [0:1.812, 0:1.850].
Probabilidade Contra a Fantasia da Cognição Humana
Fábio Akita desconstrói com firmeza a ilusão de que as ferramentas de Inteligência Artificial possuem consciência, sentimentos ou raciocínio lógico [0:1.753, 0:1.759]. Ele assevera que um modelo generativo funciona de maneira equivalente a uma calculadora complexa [0:1.760, 0:1.761]. A máquina não sabe o que está dizendo e não possui empatia ou hostilidade em relação ao usuário [0:1.758, 0:1.759]. O funcionamento se restringe a analisar estatisticamente o histórico de textos humanos fornecido no treinamento e calcular a probabilidade matemática de qual deve ser a próxima palavra a ser escrita [0:1.765, 0:1.768].
O especialista rebate o mito comum de que as empresas utilizam conversas corriqueiras dos usuários comuns para aprimorar os sistemas em tempo real [0:1.699, 0:1.701]. Ele define essa crença como um pensamento narcisista e absurdo [0:1.701, 0:1.934]. Como o processo de treinamento bruto consome uma quantidade colossal de dinheiro e energia elétrica [0:1.478, 0:1.479], fornecer dados banais e conversas informais seria equivalente a injetar lixo na máquina, degradando a qualidade das futuras respostas [0:1.708, 0:1.710]. O modelo é alimentado exclusivamente com dados estáticos e rigorosamente curados [0:1.698, 0:1.716], como artigos científicos, enciclopédias e literatura formal [0:1.723, 0:1.724].
Akita introduz termos técnicos importantes e decodifica o vocabulário da área:
  • Overfitting: Ocorre quando um modelo é treinado excessivamente com um conjunto restrito de informações [0:1.724], tornando-se incapaz de generalizar ou responder de forma útil a problemas novos [0:1.725, 0:1.728].
  • Temperatura: Variável estatística que simula o nível de entropia ou criatividade nas respostas [0:1.351, 0:1.352]. Trata-se de um ruído aleatório injetado propositalmente no algoritmo para evitar que o software devolva respostas idênticas para a mesma pergunta [0:1.353, 0:1.354].
  • Alucinação: Termo antropomórfico criticado por Akita [0:1.924, 0:1.928]. Ele explica que a máquina nunca está sóbria ou pensando racionalmente [0:1.927, 0:1.928]; ela apenas gera sequências de palavras prováveis com base em estatística, que às vezes resultam em erros factuais grotescos [0:1.765, 0:1.771].
A Estagnação Arquitetônica e os Retornos Decrescentes
Próximo ao encerramento do tema de tecnologia [0:1.943], o convidado apresenta uma perspectiva realista a respeito do futuro da Inteligência Artificial comercial [0:1.916, 0:1.917]. Ele contesta a crença popular de que a evolução dessas ferramentas manterá um crescimento exponencial indefinido [0:1.917]. De acordo com Akita, a indústria atual atingiu os limites físicos e conceituais da atual arquitetura de Transformers [0:1.943, 0:1.957].
Para explicar essa barreira, ele recorre à lei econômica dos Retornos Decrescentes(diminishing returns) [0:1.1015]. À medida que um sistema se aproxima do topo de sua capacidade conceitual, as empresas precisam investir quantias exponencialmente maiores de dinheiro, energia e dados para obter melhorias de desempenho cada vez mais pífias e marginais [0:1.1015, 0:1.1017]. Fábio Akita especula que o atraso nos lançamentos de novas gerações de softwares decorre exatamente do medo de expor esse teto de desenvolvimento [0:1.982, 0:1.1017]. Gastar bilhões de dólares em novas fazendas de servidores para entregar um programa apenas sutilmente superior ao anterior destruiria a bolha especulativa do mercado financeiro e afugentaria os investidores internacionais [0:1.1017, 0:1.1020].
O Estouro da Bolha dos Cursos de Programação
O diálogo migra para as transformações no mercado profissional da tecnologia de software [0:2.0818, 0:2.0822]. Akita relembra com forte desapreço o período de euforia financeira irracional vivido pelas startups durante os anos de pandemia [0:2.1251, 0:2.1284]. Com taxas de juros globais próximas a zero [0:2.1263], grandes fundos de pensão internacionais retiraram suas reservas de títulos públicos seguros para injetá-las em capital de risco de empresas digitais [0:2.1264, 0:2.1265]. Esse excesso de capital gerou uma contratação desenfreada e ineficiente nas grandes corporações [0:2.1209, 0:2.1210], inflando salários de forma irreal [0:2.1290, 0:2.1291] e criando exércitos de funcionários que mal precisavam produzir para manter seus privilégios cotidianos [0:2.1239, 0:2.1242].
Essa bolha financeira alimentou um mercado predatório de falsos gurus e cursos rápidos de programação na internet [0:2.1182, 0:2.1213]. Akita tece duras críticas aos coaches que prometiam transformar qualquer leigo em engenheiro de software com salários astronômicos em apenas seis meses [0:2.1182, 0:2.1183]. Ele compara o aprendizado oferecido por esses tutoriais rápidos à habilidade de cozinhar um macarrão instantâneo (miojo) [0:2.1197, 0:2.1200]: serve apenas para sanar uma urgência imediata ou construir páginas web rudimentares [0:2.1197, 0:2.1200], mas não forma um profissional de alta performance e profundidade teórica [0:2.1190, 0:2.1201]. Com a virada econômica em 2022, a alta dos juros e a consequente onda global de demissões em massa (os layoffs) [0:2.1292, 0:2.1296], as empresas pararam de queimar dinheiro e passaram a exigir eficiência real e conhecimento robusto de fundamentos computacionais, eliminando os profissionais superficiais do mercado [0:2.1301, 0:2.1312].
A Filosofia do Egoísmo Racional e Mútuo Benefício
Respondendo a perguntas dos telespectadores no bloco final do programa [0:2.3126, 0:2.3127], Akita expõe sua visão filosófica sobre as relações sociais e profissionais [0:2.3665, 0:2.3668]. Ele reinterpreta o conceito de egoísmo sob uma ótica racional [0:2.3669], rejeitando o estereótipo inteiramente negativo que a palavra carrega no senso comum [0:2.3669, 0:2.3770]. Para o especialista, o modelo ideal de convivência fundamenta-se estritamente na lógica do mútuo benefício [0:2.3717, 0:2.3773]. Qualquer interação humana que não gere vantagens recíprocas para ambos os lados resulta em desequilíbrio e exploração de uma das partes [0:2.3773, 0:2.3774].
Ele estende essa visão para a caridade e o altruísmo [0:2.3811, 0:2.3823]. Akita argumenta com franqueza que as pessoas realizam o bem ao próximo essencialmente por uma recompensa neurológica individual, motivada pela liberação de dopamina no cérebro ao se sentirem úteis e virtuosas [0:2.3822, 0:2.3887]. Ele define o altruísmo absoluto e puro como uma mentira comportamental na sociedade [0:2.3883, 0:2.3884], afirmando que as trocas psicológicas ou financeiras sempre orientam as ações voluntárias, o que não retira o valor prático de ajudar quem se encontra em real necessidade material [0:2.3884, 0:2.3920].
Desfecho e Análise Sociocultural do Japão
Nos últimos minutos da transmissão [0:2.4523, 0:2.4526], estimulado por uma pergunta sobre geopolítica asiática [0:2.4526, 0:2.4529], Akita traça uma análise profunda do paradoxo econômico e social vivido pelo Japão [0:2.4532, 0:2.4536]. O país experimentou um crescimento tecnológico assombroso entre as décadas de 1950 e 1980 [0:2.4633, 0:2.4655], alavancado pela reestruturação pós-guerra e pela exportação de veículos compactos altamente eficientes que dominaram o mercado ocidental durante as crises do petróleo [0:2.4612, 0:2.4881]. Essa era de ouro consolidou a estética cyberpunk no imaginário pop global [0:2.494, 0:2.496].
No entanto, a bolha imobiliária dos anos 1990 mergulhou o arquipélago em uma estagnação crônica conhecida como a "década perdida" [0:2.1501, 0:2.1502]. Akita define o Japão atual através de uma frase marcante: o país vive permanentemente nos anos 2000 desde a década de 1970 [0:2.1499]. Embora estivesse décadas à frente do resto do planeta no século passado, a nação agora encontra-se atrasada e engessada [0:2.1500].
A mesma rigidez cultural, formalidade protocolar e aversão ao risco que garantiram ao país taxas de criminalidade quase nulas e uma infraestrutura pública impecável agora agem como barreiras intransponíveis para a inovação digital moderna [0:2.1504, 0:2.1524]. O mercado interno japonês é dominado por grandes oligopólios familiares tradicionais protegidos pelo Estado [0:2.1515, 0:2.1519], inviabilizando o surgimento de um ecossistema dinâmico de novas empresas de tecnologia [0:2.1521, 0:2.1522]. Como consequência do envelhecimento demográfico acentuado e da falta de incentivos de carreira [0:2.1512, 0:2.1540], as novas gerações frequentemente desistem de competir no mercado formal corporativo, isolando-se socialmente [0:2.1538, 0:2.1540]. Akita conclui expressando ceticismo quanto a uma mudança rápida desse cenário, avaliando que a sociedade asiática consolidada necessitaria de um abalo externo massivo para abandonar estruturas burocráticas herdadas de cinquenta anos atrás [0:2.1548, 0:2.1557].
O convidado finaliza sua participação reforçando que seu canal cumpriu a missão de registrar de forma atemporal o conhecimento básico de engenharia necessário para os próximos dez anos [0:3.653, 0:3.648], instando os iniciantes a focarem no estudo diligente e na prática genuína em vez de buscarem atalhos fáceis [0:3.649, 0:3.650].”


Os marxistas brasileiros não leem Marx - Paulo Roberto de Almeida

Os marxistas brasileiros não leem Marx.

Se lessem saberiam da opinião de Marx sobre a Rússia e os russos: a pior possivel!

Se Marx fosse vivo hoje e visitasse ou tivesse informações fiáveis sobre a Rússia de Putin ele imediatamente recordaria o que já tinha escrito sobre a Rússia, confirmaria todos os termos bastante desairosos sobre o país, seus lideres e seu povo e acrescentaria outras informações já pertencentes ao século XX, o que também aprendeu nesse retorno ao mundo.

Marx imediatamente reconheceria na Rússia da atualidade a repetição dos Estados fascistas do século XX.

Ele escreveria sem qualquer hesitação: a Rússia é um Estado fascista, além de terrorista.

Os marxistas precisam ler Marx.

sábado, 27 de junho de 2026

A autobiografia do Estado relida e reinterprada por Demoiselle IA

 A pedido desse abusador do trabalho de senhoritas elegantes, chamado Airton Dirceu Lemmertz, demoiselle IA relê e reescreve um capitulo de minha história, já como dono do Brasil (muito antes que aquele idiota do Trump tentasse a sua sorte por aqui):


A autobiografia do Estado relida e reinterprada por Demoiselle IA: 


Análise Crítica do Ensaio Autobiográfico do Estado no Diplomatizzando
O texto publicado no blog Diplomatizzando em 27 de junho de 2026 apresenta um elaborado exercício de metalinguagem e ironia historiográfica. O diplomata Paulo Roberto de Almeida utiliza a Inteligência Artificial — aqui batizada sob o pseudônimo de Demoiselle IA — para reler e reescrever um capítulo de sua própria obra ficcional e analítica, intitulada "Autobiografia de um Fora-da-Lei". [123]
A proposta central do autor é fazer com que o próprio Estado brasileiro assuma a voz narrativa para contar a sua trajetória institucional. Esse recurso literário desconstrói a visão oficialista e romântica da história nacional, despindo o processo político de qualquer heroísmo artificial e expondo as vísceras de uma formação marcada por dependências externas crônicas e arranjos oligárquicos internos.
Decodificação das Expressões e Codificações do Texto
Para compreender o impacto crítico do ensaio, faz-se necessário decodificar os termos metafóricos e satíricos empregados por Paulo Roberto de Almeida e sintetizados pelo modelo de linguagem.
O termo Demoiselle IA representa uma variação das alcunhas "Madame IA" ou "Senhorita Gentil". Trata-se da personificação irônica do modelo de inteligência artificial generativa Gemini, operado sob os comandos do curador Airton Dirceu Lemmertz. A escolha do termo francês demoiselle (senhorita) mantém o tom aristocrático e sarcástico que o blog adota para ridicularizar a burocracia e o debate público contemporâneo. [12]
A expressão "Dono do Brasil" funciona como uma alegoria para o próprio Estado Brasileiro. Ao se autodenominar "dono", o Estado personificado assume que a máquina pública no Brasil historicamente precedeu e moldou a sociedade, operando de forma patrimonialista. A menção ao "idiota do Trump" serve como uma demarcação temporal e uma alfinetada geopolítica do autor ao populismo internacional. [12]
"Relíquia Bárbara" é uma decodificação direta para o Ouroextraído no período colonial. O autor adota uma terminologia clássica da ciência econômica para ironizar o mercantilismo e o fetiche metalista da Coroa Portuguesa, que esgotou as riquezas minerais da colônia para sustentar o luxo europeu e pagar dívidas com a Inglaterra. [1]
As mercadorias absurdas como Patins de Gelo no Rio de Janeiro simbolizam o caráter bizarro e assimétrico dos Tratados de Comércio de 1810. A abertura dos portos liquidou o pacto colonial, mas transformou o Brasil em um mercado de desova para os excedentes industriais britânicos, expondo a total falta de soberania econômica da nova sede do império luso-brasileiro. [12]
A sigla "PR" nas portas das casas, traduzida ironicamente pelo povo como "Ponha-se na Rua", decodifica a violência institucional da Aposentadoria Compulsória de Imóveis para abrigar a corte joanina. A inscrição oficial significava "Príncipe Real", mas o deboche popular revela o abismo existente entre a legalidade imperial e a espoliação dos cidadãos comuns. [1]
A clássica expressão "Para Inglês Ver"refere-se à Lei de 1831, que teoricamente proibia o tráfico transatlântico de escravos. O Estado confessa a sua própria hipocrisia ao assinar tratados internacionais que sabia que não iria cumprir internamente, apenas para ceder temporariamente à pressão diplomática e militar da Grã-Bretanha. [123]
Desconstrução Histórica: Do Período Joanino ao Primeiro Reinado
A análise estruturada pelo blog divide a consolidação do Estado em três eixos fundamentais que explicam o subdesenvolvimento relativo do país.
O primeiro eixo demonstra que o nascimento do Estado moderno no Brasil não decorreu de um projeto nacional autônomo, mas sim de uma fuga estratégica da família real portuguesa diante da invasão napoleônica. Essa transferência foi totalmente financiada e escoltada pela Grã-Bretanha. O preço dessa proteção foi a entrega do mercado consumidor colonial aos britânicos, inviabilizando qualquer surto manufatureiro ou industrialização precoce no território americano. [1234]
O segundo eixo expõe o dilema da legitimidade política que precipitou a independência de 1822. A elevação do Brasil a Reino Unido em 1815 foi uma tentativa de criar um império luso-americano centralizado no Rio de Janeiro. No entanto, a Revolução Liberal do Porto exigiu o retorno de Dom João VI e tentou recolonizar o Brasil. A emancipação política liderada por Dom Pedro I e articulada por José Bonifácio foi, portanto, um arranjo conservador para manter a dinastia de Bragança no poder e evitar uma revolução popular de caráter republicano. [123]
O terceiro eixo descortina a falência econômica e o autoritarismo jurídico que sepultaram o Primeiro Reinado. O Brasil soberano nasceu quebrado, herdando dívidas imensas com banqueiros londrinos para pagar a indenização do reconhecimento da independência por Portugal. Diante do conflito com a Assembleia Constituinte, que tentava limitar o poder real, Dom Pedro I outorgou a Constituição de 1824 e criou o Poder Moderador. Esse absolutismo disfarçado, somado aos fracassos militares na Guerra da Cisplatina e à manutenção da escravidão, isolou o imperador e provocou sua abdicação em 1831, empurrando o país para o caos do período regencial. [123]

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Acesse o texto no link https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de.html (título da postagem, entre aspas: "Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente - Paulo Roberto de Almeida") e reescreva o texto em uma linguagem coloquial. Na reescrita, mantenha a linha de pensamento e as ideias centrais originais. O texto reescrito deverá ter, no máximo, 5000 caracteres. 

Aqui está uma reescrita do texto do Embaixador Paulo Roberto de Almeida em uma linguagem coloquial e direta, mantendo o tom irônico e a linha de pensamento original:

A História do Brasil de um Jeito Diferente: De Colônia a Império Independente
No capítulo anterior dessa minha "autobiografia" enquanto Estado brasileiro, comentei sobre os meus perrengues iniciais: o nascimento abençoado pelo Papa, o crescimento enfrentando invasores e vizinhos folgados, e a audácia dos meus navegantes que acharam uma terra nova e promissora onde "em se plantando, tudo dá". No começo, deixei aquele canto quieto, cheio de nativos, mas quando outros reinos começaram a crescer o olho, decidi ocupar o espaço doando terras para uns nobres sem grana.
E não é que funcionou? Primeiro, exploramos o pau-brasil (que deu nome à nova casa), depois plantamos cana-de-açúcar trazida dos Açores e, por fim, achamos aquela "relíquia bárbara": o ouro. Esse ouro encheu os cofres da Coroa, construiu palácios na Europa e igrejas na colônia. Mandei governadores e vice-reis para controlar a dinheirama e punir os contrabandistas, mas os ingleses — espertos que só — acabaram ficando com uma boa parte do bolo sob o pretexto de me proteger.
Aí a Europa azedou de vez. Um sujeito baixinho e metido a conquistador chamado Napoleão resolveu peitar todas as monarquias e invadiu Portugal. Sem saída e escoltado pela marinha britânica, arrumei as malas com a corte e os livros e rumei para o Novo Mundo. Foi o meu segundo nascimento. Escapamos de virar reféns, mas ficamos sob as asas dos chatos dos ingleses. Na descida, parei na Bahia e abri os portos às nações amigas, o que na prática só ajudou a Inglaterra, que começou a inundar o Rio de Janeiro com mercadorias absurdas para o clima tropical, como patins de gelo!
Na capital, faltava teto para tanto nobre encostado. Começamos a despejar os moradores locais e carimbar as portas com "PR" (Príncipe Real), mas o povo, que não perde a piada, dizia que significava "Ponha-se na Rua". Aguentando deboches e revoltas, e com a rainha Dona Maria I afastada por problemas mentais, só virei rei oficialmente dez anos depois. Com o fim da bagunça de Napoleão na Europa, o Brasil foi elevado a Reino Unido. Eu queria ter ficado por lá, mas os comerciantes de Portugal se revoltaram e exigiram minha volta à terrinha. Fui obrigado a retornar e deixei o Brasil nas mãos do meu filho Pedro, um jovem bem impulsivo.
Por sorte, Pedro chamou para ajudar um cara genial nascido em Santos: José Bonifácio. Junto com a esposa de Pedro, a austríaca Leopoldina, ele percebeu que as cortes em Portugal queriam rebaixar o Brasil de volta a colônia. O povo não aceitou e veio a separação.
De repente, eu tinha a chance de criar um Estado do zero. Mas a herança colonial era braba: quase nenhuma fábrica e nenhuma escola. Mesmo assim, tínhamos um território gigante e rico, sem precisar de guerras sangrentas ou revoluções. Só que a grana estava curta. Meu pai me deixou dívidas com os banqueiros de Londres e ainda exigiu pagamento pelas propriedades reais deixadas para trás. Para piorar, a escravidão continuava a todo vapor, mesmo com o Bonifácio avisando que precisávamos acabar com o tráfico e adotar o trabalho livre.
Para completar a dor de cabeça, os políticos locais tentaram criar uma Constituição que tirava os meus poderes. Não tive dúvidas: fechei a Assembleia, bani os irmãos Andrada e fiz uma Carta Magna do meu jeito, com o "Poder Moderador" para eu mandar e desmanchar.
Lá fora, o reconhecimento da independência demorou. Os primeiros a aceitar foram os norte-americanos. Depois, tive que pagar uma fortuna para Portugal aceitar a separação, o que me rendeu críticas pesadas dos republicanos locais. Teve até revolta no Nordeste, a Confederação do Equador, que precisei sufocar.
Para fechar o combo de problemas, enfrentamos jornalistas abusados, uma guerrilha na Cisplatina que virou guerra contra os argentinos, e a intromissão dos ingleses, que forçaram a criação do Uruguai e exigiam o fim do tráfico de escravos. Nós até assinamos uma lei proibindo o tráfico, mas era só "para inglês ver". No fim, com tanta briga interna e externa, Pedro jogou a toalha após oito anos de governo e voltou para Portugal. O Império ficou nas mãos de regências bagunçadas e revoltas por todos os lados, até que precisei bolar um novo plano para voltar ao comando por muito tempo. Mas isso eu conto depois, quando recuperar minhas forças...

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Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente - Paulo Roberto de Almeida: 


O texto analisa de forma crítica o processo de consolidação do Estado brasileiro desde o período joanino até o fim do Primeiro Reinado, utilizando a metáfora de uma autobiografia em que o próprio Estado assume o papel de narrador das suas memórias institucionais. O ensaio expõe as contradições estruturais da transição do Brasil de colônia a império independente, evidenciando como as pressões externas da Grã-Bretanha e as heranças socioeconômicas moldaram uma autonomia frágil e financeiramente dependente.
Capítulo I: O Deslocamento da Corte e a Dependência Britânica
O início do século dezenove impôs uma reconfiguração drástica para a monarquia portuguesa quando o avanço das tropas de Napoleão Bonaparte na Península Ibérica forçou a transferência da corte para o Novo Mundo. Esse movimento estratégico, apoiado diretamente pela marinha britânica, é classificado pelo autor como o segundo nascimento do Estado, preservando as instituições dinásticas a um custo político e econômico elevado.
A contrapartida para a proteção inglesa materializou-se de forma imediata na assinatura do decreto de abertura dos portos às nações amigas na Bahia, uma medida que extinguiu o pacto colonial, mas que na realidade beneficiou primordialmente os interesses comerciais da Grã-Bretanha. O impacto da influência comercial inglesa na nova capital, o Rio de Janeiro, é ilustrado pelas distorções no fluxo de mercadorias importadas, que incluíam itens completamente incompatíveis com as necessidades e o clima tropical da região, expondo a submissão do mercado interno nascente aos excedentes industriais europeus.
Ao mesmo tempo, a chegada massiva da fidalguia europeia gerou profundos conflitos urbanos e sociais na colônia devido à falta de infraestrutura habitacional adequada para acomodar a nova burocracia real. A requisição compulsória das melhores residências particulares locais, marcadas com a insígnia do Príncipe Real, desencadeou forte descontentamento popular e escárnio público, simbolizado pela interpretação irônica da população local que traduzia a sigla da Coroa como uma ordem de despejo sumária.
Capítulo II: A Elevação a Reino Unido e o Dilema da Legitimidade
Após a derrota definitiva das forças francesas na Europa e as deliberações do Congresso de Viena, o domínio americano foi elevado à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves, conferindo uma nova personalidade jurídica e autonomia política ao território brasileiro. Essa transformação estrutural estimulou o desejo do monarca de centralizar o império ultramarino a partir da sede americana, mas esse projeto de consolidação de um império luso-brasileiro foi bruscamente interrompido pelas exigências da Revolução Liberal do Porto na metrópole.
As pressões das cortes constituintes de Lisboa, motivadas pelos interesses da burguesia mercantil e pelo desejo de restaurar o absolutismo monárquico na Europa, colocaram o soberano sob constante ameaça de destituição caso recusasse o retorno imediato. Diante da necessidade de preservar a Coroa europeia, a regência do território americano foi delegada ao príncipe herdeiro, iniciando um período de intensa disputa política em que as elites coloniais se articularam para evitar o rebaixamento do Brasil ao antigo estatuto de subordinação colonial.
A reação local contra o projeto recolonizador das cortes portuguesas culminou no processo de emancipação política, fortemente impulsionado pela articulação estratégica de lideranças intelectuais locais e pela influência dinástica estrangeira na corte. Esse arranjo permitiu a fundação de um novo Império na América do Sul, contornando a necessidade de uma ruptura revolucionária radical e mantendo a continuidade da dinastia de Bragança no poder.
Capítulo III: Os Desafios Econômicos e a Arquitetura Constitucional
O nascimento do Estado independente revelou o peso das carências estruturais herdadas do período colonial, caracterizadas pela ausência quase total de um parque manufatureiro relevante e pela precariedade crônica do sistema educacional público. No plano financeiro, a nova administração soberana iniciou suas atividades em severa penúria econômica devido aos passivos ocultos e às dívidas contraídas junto ao sistema bancário de Londres para indenizar as propriedades da antiga metrópole.
No cenário político interno, a consolidação do poder central enfrentou forte resistência da primeira Assembleia Constituinte, cujos projetos buscavam limitar significativamente as prerrogativas do monarca em favor de um modelo de forte teor parlamentarista. A resposta do soberano a essa descentralização política foi a dissolução violenta do parlamento, o banimento das lideranças oposicionistas e a outorga da Carta Constitucional de dezoito de vinte e quatro, que instituiu o Poder Moderador como ferramenta de centralização e arbítrio imperial.
A legitimação internacional da independência exigiu concessões financeiras pesadas aos antigos colonizadores e a aceitação de tratados desiguais com o governo britânico, alimentando o descontentamento das correntes republicanas no país. O endividamento contínuo, as rebeliões provinciais repressivas, o desgaste na Guerra da Cisplatina e a relutância em extinguir o tráfico transatlântico de escravos minaram de forma irreversível a sustentabilidade política do Primeiro Reinado, resultando na abdicação do imperador e na abertura de um período de forte instabilidade sob o regime das regências.

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Uma pequena nota rememorativa - Paulo Roberto de Almeida

Uma pequena nota rememorativa

Paulo Roberto de Almeida

Desde meu ingresso, não previsto e não planejado, na carreira diplomática,  num período já agonizante da ditadura militar, no final de 1977, eu não deixei de ser surpreendido sobre como certos traços daquele regime haviam sido incorporados ao mores diplomático, como aquele slogan especialmente perturbador, repetidamente lembrado pelos barões da Casa, da “hierarquia e disciplina”. Não que eu pensasse que uma corporação eficiente pudesse trabalhar sem ordem e regulação. Mas aquilo sempre me perturbou como uma espécie de impedimento a que aqueles encarregados do encaminhamento de assuntos específicos, do último escalão, pudessem argumentar a respeito de um assunto que poderia apresentar várias facetas, vistas sob ângulos diferentes.

Minha constante preocupação no jogo da diplomacia não era exatamente a diplomacia em si, a mecânica da coisa, mas seus efeitos concretos sobre o processo de desenvolvimento econômico e social do Brasil, visto numa perspectiva mais larga, que fui adquirindo ao longo de muitas leituras, estudo atento das experiências de outros povos, assim como observações recolhidas ao fio de muitas viagens exploratórias em diversos paises diferentes, desenvolvidos e em desenvolvimento.

A reflexão comparativa me induziu a reconsiderar certas políticas macro e setoriais em função de seus efeitos reais e concretos sobre os avanços logrados do ponto de vista da vida dos brasileiros mais humildes, aos quais eu mesmo pertenci em minha infância e juventude e me julgava pertencer.

Outro traço que chocou, talvez ainda mais profundamente, foi o grande conformismo e acomodação pessoal justamente em relação às ordens superiores, que poderiam mudar de forma visivel segundo certas opiniões vindas do alto, ou seja, do poder politico. O estilo autoritário, assimilado ao “centralismo democrático” de feição leninista, a partir de certo momento, foi algo chocante ao se pensar conviver num ambiente esclarecido, de grande desempenho intelectual, mas sujeito a certas orientações simplórias, ou defasadas no tempo, ou claramente inadequadas às novas circunstâncias da economia mundial.

O traço, porém, mais perturbador foi a aliança estreita com certas ditaduras execráveis, apenas que supostamente identificadas a certas causas do passado que tinham a ver com a resistência à arrogância imperial dos donos do mundo, em lugar de um exame ponderado dos novos requerimentos no plano econômico e educacional que poderiam impulsionar o país a um estilo diplomático inserido num ambiente democrático dos valores ocidentais derivados do Iluminismo kantiano.

Minha produção a partir de certa fase foi essencialmente didática e não mais executiva, mas nunca tive uma clara percepção do efeitos reais dessa produtividade puramente redacional, não dotada de outros canais de transmissão se não aqueles próprios.

A nação ainda não conheceu algum grande salto qualitativo nos padrões de vida da grande maioria dos cidadãos, talvez bem mais súditos do Estado do que seres livres e independentes. 

Em todo caso, persistirei nos meus esforços didáticos, que constituem uma ferramenta talvez benéfica no uso de minhas poucas vantagens relativas e comparativas.

Vale!

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 27 de junho de 2026

(aniversário de Gabriel, 14 anos)


O tempora, o mores - Paulo Roberto de Almeida

O tempora, o mores…

Paulo Roberto de Almeida

Antigamente, muito antigamente, na Velha República, os presidentes eram eleitos em eleições geralmente arranjadas pelas oligarquias regionais— os PRs estaduais — no mês de março a intervalos de quatro anos. Mas eles só tomavam posse em 15 de novembro.

Então, nos seis meses de espera, eles viajavam de navio para a Europa e aproveitavam para visitar banqueiros, com os quais eles renegociavam empréstimos, os famosos funding loans, ou pediam mais dinheiro e investimentos no Brasil para o seu quadriênio. 

Jair Bolsonaro inaugurou a submissão voluntária ao Império, primeiro recebendo no RJ, ainda em dezembro de 2018, o conselheiro de Segurança Nacional de Trump 1, John Bolton, um conhecido falcão. Depois, após a posse, em fevereiro de 2019, sua primeira viagem foi à Florida, para prestar vassalagem ao desequilibrado presidente americano, antes de proferir o famoso “I love you Trump“, na ONU, em setembro do mexmo ano.

O filhote 01 inaugurou um outro tipo de vassalagem: ofereceu, assim que fosse eleito, em outubro deste ano, a vinda de uma equipe trumpista para participar do processo de transição para o seu hipotético governo. Uma submissão já prometida e decidida.

Como diria um outro candidato, “nunca antes neste pais” (agora sim, de verdade). Os Bolsonaros são da tese da servidão voluntária: eles querem se colocar a serviço de Trump 2.

Se for assim , prefiro a volta das eleições fraudadas da Velha República.

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 27/06/2026

What the West doesn’t still understand about Russia - Olga Lautman (Substack)

What the West doesn’t still understand about Russia

Olga Lautman

Substack, June 26, 2026


Over the past few months, Western media have been flooded with headlines speculating that Vladimir Putin is under growing pressure, that a coup may be brewing, or that his grip on power is finally beginning to weaken. As Ukraine continues raising the costs of Russia’s genocidal war, systematically exposing vulnerabilities the Kremlin spent decades trying to hide, many are once again asking the same familiar questions: Could the regime be approaching a breaking point? Who might eventually replace Putin? And what comes after him?

Every time another one of those headlines appears, or someone asks me those questions, I give the same response. After repeating it for years, I decided to sit down and explain it in detail because it remains one of the biggest misconceptions shaping how journalists, policymakers, and people who closely follow Russia think about the country. Far too much of the analysis coming out still views Russia through a Western lens, assuming its institutions function like ours or that changing the face of the Kremlin somehow changes the system.

One of the things I have been saying for years is that Putin did not create this system. He is a symptom of a system that created the likes of Stalin, Brezhnev, and others. Long before Putin entered politics, Russia’s security services had already spent generations perfecting repression, bloody imperial conquests, information warfare, active measures, assassinations, agents of influence, corruption as an instrument of statecraft, and the systematic elimination of anyone viewed as a threat to the state. Putin inherited those institutions, strengthened and modernized them, and adapted them for the twenty-first century, but he definitely did not invent them. To understand Russia, you have to stop looking only at the man sitting behind the desk inside the Kremlin and start looking at the system that has survived tsars, revolutions, the collapse of the Soviet Union, and every leader who came before him.

The continuity becomes difficult to ignore once you begin looking for it. Even before the Bolsheviks seized power, the Tsarist Okhrana—the Russian Empire's secret police established in the late 1800s—had already developed an extensive security apparatus built around surveillance, infiltration, informants, political repression, covert operations, counterintelligence, espionage, and crushing dissent. The Bolsheviks seized it and simply expanded it. Felix Dzerzhinsky's Cheka institutionalized terror inside the country on an unprecedented scale before evolving into the GPU, NKVD, KGB, and eventually today's FSB and SVR. The names and uniforms changed, but the governing principles remained the same.

The security services were never simply intelligence agencies. They were the backbone of the Russian state. Another point Western policymakers have consistently failed to understand is that Russia’s security services are not the equivalent of Western intelligence or law enforcement agencies because they perform a fundamentally different role within the Russian state.

Over the course of more than a century, they embedded themselves into virtually every aspect of Russian society, extending their influence far beyond intelligence collection into politics, the military, law enforcement, the judiciary, state corporations, strategic industries, banking, the private sector, organized crime, the media, academia, think tanks, culture, the Church, and countless other institutions.

The same continuity can even be seen in institutions that many people would never associate with intelligence services. Long before the Bolsheviks seized power, the Russian Orthodox Church had already become deeply intertwined with the Tsarist state, with the Okhrana using clergy, informants, and church networks to monitor dissent and reinforce loyalty to the empire. After the Revolution, that relationship was violently dismantled as the new regime massacred thousands of clergy, burned, looted, and demolished churches, confiscated church property, and waged one of history's largest campaigns of state-sponsored persecution.

Joseph Stalin, an atheist, continued that persecution for years before abruptly reversing course during World War II, not because he suddenly discovered faith, but because he recognized the Church's value as another instrument for mobilizing patriotism, strengthening national unity during wartime, and projecting Soviet influence. The Church was restored under the watchful eye of the NKGB and, later, the KGB, which placed it firmly under state control by recruiting clergy, cultivating loyal hierarchies, and using religious institutions for intelligence gathering, espionage, influence operations, and propaganda both at home and abroad.

That relationship did not disappear with the collapse of the Soviet Union. It simply adapted once again. Today, the Moscow Patriarchate, led by Patriarch Kirill, who served the KGB during the Soviet era under the codename “Mikhailov,” remains one of the Kremlin's most effective tools of influence across Europe, the Balkans, the U.S., Africa, and beyond. Investigations in multiple countries have documented Russian Orthodox churches being used for espionage, influence operations, propaganda, and, in some cases, providing cover and logistical support for Russian intelligence officers.

The same pattern repeats itself throughout Russian history. Long before anyone had heard the phrase “hybrid warfare,” Soviet intelligence was cultivating agents of influence, financing front organizations, forging documents, interfering in democratic politics, manipulating foreign media, and conducting some of the largest disinformation operations. One example, decades before social media existed, was Operation INFEKTION, which falsely blamed the United States for creating AIDS. Today’s information warfare is not something Putin invented, but an evolution of methods that security services spent generations refining.

Soviet intelligence also supported many extremist movements and terrorist organizations across multiple continents while simultaneously portraying itself as a champion of “peace.” Even the methods of domestic repression have shown continuity. Under Stalin, then Leonid Brezhnev and Yuri Andropov, Soviet authorities diagnosed dissidents with “sluggish schizophrenia” and put them into psychiatric hospitals because criticizing the state was treated as evidence of mental illness. Decades later, psychiatric detention has returned under Putin, alongside the imprisonment, poisoning, assassination, and persecution of political opponents and journalists.

Nowhere is this misunderstanding more blatant than in discussions about Ukraine. Every February, countless politicians, journalists, and pundits speak about "Russia's invasion of Ukraine" as though this began in 2022. The more informed correctly point out that the invasion and war actually began in 2014. Both perspectives miss the much larger historical reality that Russia has occupied, partitioned, colonized, and repeatedly attempted to erase Ukraine and the Ukrainian identity on and off for centuries. Stalin's Holodomor genocide deliberately starved upwards of five to seven million Ukrainians. This was decades before NATO even existed and long before the Kremlin could manufacture today's familiar justifications for its genocidal aggression.

The propaganda that Russia is responding to NATO expansion collapses under even the most basic understanding of Russian history because Moscow's imperial ambitions toward Ukraine predate Putin.


The same misunderstanding shaped Western thinking after the collapse of the Soviet Union. Boris Yeltsin was widely celebrated as the "democratic reformer" who had finally broken with Russia's repressive and imperial past. As the West celebrated what it believed was its victory in the Cold War, far less attention was paid to the fact that the security services survived largely intact. Furthermore, the First Chechen War demonstrated that Russia’s imperial ambitions had not disappeared.

The chaotic privatization of the 1990s gave rise to a new mafia state in which organized crime, corrupt state officials, and current and former KGB/FSB agents became so deeply intertwined that separating one from the other often became impossible. Protected by krysha (a roof) provided by security services and political connections, criminal networks, political insiders, and emerging business elites accumulated vast state assets, creating a new class of oligarchs whose fortunes ultimately depended not on the rule of law or free markets, but on their relationship with the state.

If the West misunderstood Yeltsin, it completely missed the boat on Putin. He was presented as a reformer and anti-corruption figure who would restore stability after the violent chaos of the 1990s. His rise to power came alongside an FSB-orchestrated series of terrorist attacks. The apartment building bombings killed hundreds of Russians and were immediately blamed on “Chechen terrorists.” This became the catalyst for launching the Second Chechen War, transforming the little-known former KGB agent and FSB director into a leader who promised to restore order and protect the nation.

The subsequent Ryazan incident, in which local authorities discovered FSB agents planting what appeared to be explosives in another apartment building, together with the revelations by FSB agent Alexander Litvinenko, showed that the bombings had been orchestrated by Putin and then FSB director Nikolai Patrushev. After fleeing Russia, Litvinenko publicly accused the FSB of carrying out the attacks to help install Putin into power. In 2006, he was murdered in London with radioactive polonium-210 in an assassination that the British concluded was carried out by Russia. Whether through political assassinations, poisonings, covert operations, or campaigns of intimidation, the use of violence and fear as instruments also did not begin with Putin.

Long before Putin entered the Kremlin, Russia's security services had repeatedly relied on provocations, fabricated conspiracies, manipulated narratives, covert violence, and other forms of deception to justify repression, consolidate power, silence dissidents, and manufacture public support for state policies. Those tactics appeared under the Tsars, evolved under the Soviet Union, and continue to shape the Kremlin’s policies today.

Another misconception lies in the understanding that Russia’s oligarchs have some sort of control over Putin. The relationship works entirely in the opposite direction. Many amassed enormous fortunes through the privatization of state assets during the chaotic 1990s, but they kept those fortunes only with the Kremlin’s approval. Property rights in Russia have never truly belonged to the individual, and exist only as long as the state permits them to exist.

When Putin came to power, he replaced much of Yeltsin's elite with loyalists from his St. Petersburg criminal and KGB/FSB networks. Loyalty was rewarded with enormous wealth, but only for as long as it served the interests of the Kremlin. In return, Russia's wealthiest businessmen were expected to advance state interests, finance Kremlin priorities, use their international business, political, and financial networks whenever called upon, carry out malign influence operations, and perform any other operations demanded of them. Those who refused were stripped of their riches, prosecuted, imprisoned, or driven into exile. Anyone who mistakes immense wealth for political independence misunderstands how the Russian system operates. Russia's oligarchs are not above the state, but are another instrument of it. And when the Kremlin decides one of them has outlived his usefulness, become politically inconvenient, or simply possesses assets someone more loyal wants, yesterday's billionaire quickly becomes today's criminal—or, in Russia's fashion, another prominent businessman manages to fall out of a window before the state redistributes or simply seizes his assets.

While many in the West believed they had won the Cold War, Russia's hardliners never accepted defeat. Humiliated by the collapse of the Soviet Union, they blamed the West rather than the corruption, repression, and failures of the communist system. They retreated, regrouped, adapted to the new political and economic realities, and quietly began restoring the system many in the West believed had collapsed. The post-Soviet transition allowed the security services, their networks, and many of their methods to survive, evolve, and eventually reemerge.

One of the most revealing symbols of that continuity stands outside Russia's intelligence headquarters. When protesters pulled Felix Dzerzhinsky's statue down from Lubyanka Square in 1991, many celebrated it as the symbolic end of the Soviet security state. But it wasn't. More than three decades later, Russia unveiled a new statue of Dzerzhinsky outside the headquarters of the SVR, while Putin restored Dzerzhinsky's name to the FSB Academy. Instead of treating the Cheka's mass-murdering founder as one of the darkest figures in Russian history, the Kremlin openly celebrates him as part of its institutional heritage.

None of this is meant to suggest that Putin is not a central figure. He has undoubtedly shaped modern Russia, dramatically expanded its aggression against Ukraine, the West, and beyond, intensified global information warfare and political interference, and bears responsibility for countless crimes, war crimes, and genocide. But the mistake is believing that Putin created this system or that post-Putin Russia will somehow be fundamentally different. Long before Putin entered politics, Russia's security services had already embedded themselves into virtually every major institution of the state, perfected repression, political violence, information warfare, imperial conquest, and active measures, and survived every political transformation the country has undergone for centuries. Removing one man from the Kremlin does not dismantle the system that produced him.

That is precisely the analytical mistake the West made after the collapse of the Soviet Union, and one it cannot afford to repeat. Russia has changed tsars, general secretaries, presidents, flags, constitutions, and the names of its security services, yet the institutions, networks, underlying principles, and imperial worldview have shown remarkable continuity across generations. Until those institutions change, replacing Putin with another face in the Kremlin will not transform the Russian state.

The West has spent decades searching for Russia's next reformer while Russia's security services have spent those same decades ensuring the system survives whoever comes next. Until policymakers stop asking who comes after Putin and start asking whether the system that produced him has changed, they will continue repeating the same mistake.

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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente - Paulo Roberto de Almeida

Mais recente artigo publicado: 


5342. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente”, Brasília, 6 junho 2026, 4 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro, para a revista Será? (ano xiv, n. 715, 26 junho 2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de-colonia-a-reino-unido-ao-de-portugal-e-uma-promocao-merecida-a-imperio-independente/ ). Relação de Publicados n. 1652.

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente

Paulo Roberto de Almeida 

Revista Será? (ano xiv, n. 715, 26 junho 2026)


No episódio anterior de minha autobiografia – 3: do nascimento a tempos incertos, aqui: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do-nascimento-a-tempos-incertos/ –, eu falei de minhas agruras iniciais: do parto por legitimação papal, do crescimento, enfrentando os pretendentes à ocupação, os mouros ao sul e os visigodos de Leão e Castela a oeste, assim como dos meus próprios desbravadores, saindo ousadamente por mares nunca de antes navegados, chegando a me brindar com novas terras prometedoras, aonde, como me informou um dos primeiros escribas que por ali arribaram, “em se plantando tudo dá!” Era uma terra de bugres, assim que eu a deixei quieta por alguns anos, até que pretendentes de outros reinos começassem a frequentá-la, sem a minha permissão. Tratei, portanto, de me instalar, dando terras para que fidalgos remediados a ocupassem.

Não é que deu certo? Primeiro começaram a retirar uma madeira cor de brasa – que acabou dando o nome ao meu segundo lar –, depois plantando uma doce gramínea que fiz vir dos Açores, depois encontrando aquela “relíquia bárbara”, da qual falou um economista de tempos mais recentes, que enriqueceu meu Real Tesouro e permitiu construir alguns palácios suntuosos na velha terrinha e várias igrejas nas novas terras. Para lá mandei um primeiro governador-geral e depois um vice-rei, que logo teve de garantir que toda aquela riqueza mineral fosse carreada sob minha guarda, mas que também ordenou devassas e algumas condenações bem-merecidas. Os rapaces ingleses se apropriaram de umas partes do ouro, a pretexto de me proteger de meus inimigos na velha Europa.

O fato é que essa velha Europa não me dava sossego. Não é que um corso metido a maioral, no reino dos antigos Capetos, resolveu atacar todas as monarquias estabelecidas e avançou ardilosamente contra os reinos estabelecidos à direita e à esquerda da França revolucionária e seu exército popular? Para se vingar dos irredutíveis ingleses, Napoleão, já convertido em imperador, mandou um dos seus generais investir contra o meu pequeno reino, que vivia à sombra do Leão britânico, depois de ter destronado um primo meu na Espanha, Fernando VII. Foi o que finalmente me “convenceu” a partir para minhas imensas terras no Novo Mundo. Foi, posso dizer, o meu segundo nascimento.

Tive de me transladar rapidamente, com meus livros e apetrechos, ajudado inclusive pela Royal Navy, carregando em todos os barcos requisitados o que havia de fidalguia no reino, sem saber ao certo o que eu encontraria na nova capital do meu imenso império marítimo, escapando assim do triste destino do meu colega espanhol, confinado na França, seu reino dado na bandeja a um irmão do usurpador. Meu Estado foi preservado, embora em novo endereço e sob a guarda dos intrometidos ingleses. Era o que dava para fazer naquele momento de angústia e incertezas. De passagem para a nova capital do vice-reinado, parei na antiga, São Salvador da Bahia de Todos os Santos, onde tive o auxílio de um funcionário local das alfândegas, José da Silva Lisboa (ah, minha perdida capital), para assinar um decreto de abertura dos portos, que na verdade só beneficiava aos comerciantes ingleses. Estes passaram a enviar todos os tipos de trastes para aquelas terras desconhecidas para eles (mas não de seus corsários), chegando inclusive a termos nas docas do Rio de Janeiro patins de gelo, vejam que absurdo!

O problema é que não tínhamos onde acomodar todos aqueles inúteis nobres do meu reinado europeu, e começamos a expropriar as melhores casas disponíveis, chegando até a aproveitar uma cadeia pública. Como meus súditos palacianos passassem a pintar nas casas requisitadas o indicativo PR, que elas estavam doravante ao serviço do Príncipe Real, os locais, conhecidos por suas zombarias, interpretavam com o impositivo “Ponha-se na Rua!” Não foram poucas as troças e rebeldias que meus súditos brasilienses protagonizaram contra a minha Regência – sim, esqueci de mencionar que a Rainha legítima, Dona Maria I, minha querida mãe, estava afastada das funções por algumas fraquezas da mente – e eu só tive a glória de ser entronizado como o novo rei de Portugal e domínio dez anos depois da chegada à maior e mais rica colônia de meu magnífico e imenso império ultramarino.

A essa altura, por imposições da paz enfim negociada em Viena depois da segunda derrota do usurpador francês, meu domínio americano foi elevado à categoria de Reino Unido ao do meu próprio Portugal, com o que ganhei nova personalidade e também novas pretensões a ser eu mesmo, finalmente, dono do meu próprio Estado. Eu até queria ficar na nova sede do Império, que seria uma espécie de “imenso Portugal”, mas os comerciantes do Porto, numa revolução inspirada nas ideias liberais que reivindicavam monarquias adeptas da recente moda constitucional – baseadas em doutrinas francesas mais uma vez, Montesquieu e um tal de Benjamin Constant, um hugenote franco-suíço além de tudo –, passaram a exigir que eu voltasse à terrinha. Eu não queria, mas as Cortes constituídas em Lisboa ameaçaram me destituir, assim que eu tive de deixar o meu novo grande Estado aos cuidados do meu primogênito Pedro, um rapaz muito afoito e dado a aventuras de duvidosa reputação.

A sorte foi que ele escolheu para auxiliá-lo um inteligente súdito nascido naquelas paragens, no porto de Santos se não me falha a memória, que tinha passado longos anos estudando na Europa, chegando a fazer parte das mais famosas academias de ciências. José Bonifácio, esse era o seu nome, foi o mais atilado ministro do último gabinete português no Rio de Janeiro, último não por minha decisão, ou do meu filho regente, mas por imposição das circunstâncias, que foram ingratas para meu glorioso Império. As Cortes, atuando por ganância dos comerciantes e de cortesãos desejosos de retornar ao Ancien Régime de corte absolutista, acabaram por impor ao Brasil uma volta aos tempos coloniais, com o que os meus súditos d’além-mar se decidiram pela separação, aliás por impulso do Bonifácio e da esposa de Pedro, a austríaca Leopoldina, que deve ter atuado sob influência de um astuto autocrata dos Habsburgos, um tal de Metternich.

Finalmente, eu me encontrava naquela situação relativamente inédita na vida dos povos do mundo, a oportunidade de construir um novo Estado, só para mim, a partir do zero, ou de quase nada, a não ser o pouco que tinha sido deixado pelos antigos colonizadores: nenhuma fábrica que prestasse, nenhuma escola para os antigos súditos, agora convertidos em cidadãos conscientes e orgulhosos de dar início a uma nova etapa num imenso domínio muito mais rico do que o da mais velha monarquia europeia, ainda que dominada por uma segunda dinastia, depois do interlúdio castelhano, a dos Braganças, iniciada de 1640. Agora, sim, eu poderia partir de um Estado só meu, sem precisar conquistar nenhum território (o que ficou me bastava, com alguns ajustes aqui e ali), nem fazer qualquer revolução – só poucas escaramuças contra tropas lusitanas que tardaram em reconhecer que havia um novo Senhor naquelas terras –, até que enfim eu não mais precisaria receber ordens de algum rei distante, nem me inclinar para aqueles ingleses arrogantes (ainda que eu precisasse do dinheiro deles).

Mas o fato é que eu fiquei logo na penúria, pois meu augusto pai presumido me deixou algumas dívidas não declaradas – sobretudo a que ele mesmo havia contraído com os gananciosos banqueiros da City –, além de exigir que eu lhe pagasse umas propriedades que havia adquirido nas proximidades, coisas construídas pelos escravos que os seus aduladores continuava a trazer das costas d’África, a despeito da recomendação do Bonifácio para que se extinguisse imediatamente o tráfico e se substituísse a escravidão pelo trabalho livre, em médio prazo. O Bonifácio, José, e seus irmãos, sobretudo o Antonio Carlos, que se meteu a jurista, depois de andar a perturbar nas Cortes de Lisboa, começaram justamente a me causar alguns problemas, querendo, por exemplo, fazer uma Constituição de base excessivamente parlamentar, não me deixando muitos poderes, com o que eu tive de mandar fechar aquela nova bagunça, banir os Andradas do Brasil e ordenar que se fizesse uma Carta constitucional ao meu feitio, dando me “poderes moderadores” para poder controlar novos pretendentes a exercer o seu próprio arbítrio, não o meu, muito mais esclarecido.

Os reinos europeus tardaram a reconhecer a minha independência, não antes que o fizessem aqueles caipiras da América do Norte, uma república alegadamente democrática, mas separada em estados dotados de muita autonomia, o que não exatamente me convinha, pois poderia vir a ser a semente de alguma guerra civil no futuro. Ainda tive de pagar pelo reconhecimento diplomático da parte daqueles que primeiro mandaram nestas terras, o que abriu o caminho para que outros reinos, coalizados na Santa Aliança, também consentissem na formalidade, o que muito me custou em críticas de alguns recalcitrantes vocais, certamente republicanos enraivecidos, por não se ter adotado o seu regime favorito. Houve até um frade nas bandas do Nordeste que tentou uma confederação com outros tresloucados da região, o que teve de ser reprimido pouco meses depois que outorguei uma nova Carta do Império.

Se não bastassem os ruídos internos, causados por jornalistas muito abusados – aos quais eu tinha de aplicar uns corretivos volta e meia –, começou uma guerrilha lá pelos lados da Cisplatina, herança antiga dos tempos coloniais, que logo se transformou em guerra dos argentinos contra nós, uma das piores coisas na vida de um Império satisfeito de si mesmo. Os ingleses, metidos como de sempre, logo arranjaram para fazer daquela nossa província um “algodão entre cristais”, um Estadinho novo, pequeno, mas justo no caminho entre nós e os hermanos do outro lado do Prata. Os ingleses, aliás, continuavam a fazer exigências, com os seus tratados desiguais no comércio e nos privilégios de extraterritorialidade para os seus súditos, querendo que terminássemos de pronto com um comércio vital para a nossa vida e economia: os dos trabalhadores que comprávamos legalmente nas costas da África.

Nós até fizemos um “tratado para inglês ver”, mas eles não acreditaram na bazófia. Enfim, as querelas externas e domésticas foram tantas, que lá pelas tantas resolvi mandar de volta o rapazito importado com a família dos Braganças fugidos de Portugal, tanto mais que ele tinha umas pendências a resolver contra o irmão, metido a autocrata e usurpador. E foi assim que terminou, aos oito anos da autonomia conquistada, aquele meu primeiro reinado, passando o meu Império a viver sob constantes revoltas e regências das mais inconstantes, até que eu tratei de fazer um novo arranjo para governar por mais algum tempo, muito tempo. Mas isso é uma história que vou contar com mais vagar, assim que recompor meus poderes…

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5342, 6 junho 2026, 4 p.

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