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quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Antidiplomacia bolsonarista deve ser responsabilizada pelo atraso nas vacinas, avalia embaixador (Paulo R. Almeida) - Giovanni Galvani (Carta Capital)

Antidiplomacia bolsonarista deve ser responsabilizada pelo atraso nas vacinas, avalia embaixador

Com Índia, a questão é diplomática. E com a China, política. Em ambos os casos, o governo Bolsonaro deve ser considerado culpado

Giovanna Galvani

Carta Capital, 20/01/2021

https://www.cartacapital.com.br/mundo/antidiplomacia-bolsonarista-deve-ser-responsabilizada-pelo-atraso-nas-vacinas-avalia-ex-embaixador/

A viabilidade de uma ampla campanha de vacinação contra a Covid-19 no Brasil passou a depender de uma das mais problemáticas agendas do governo de Jair Bolsonaro: as relações exteriores.

China e a Índia, duas potências orientais com relacionamentos diferentes com o governo brasileiro, mantêm sob custódia, respectivamente, os insumos para a produção das duas vacinas aprovadas para uso emergencial no Brasil e 2 milhões de doses do imunizante da AstraZeneca, que já deveriam estar em solo nacional se não fosse o fracasso da operação coordenada pelo chanceler Ernesto Araújo.

Na análise do diplomata Paulo Roberto de Almeida, os dois países devem colaborar, em breve, para que o prosseguimento da vacinação seja viável no Brasil. No entanto, fica um recado vindo especialmente da China, alvo preferido da bravata ideológica de Araújo em seus alinhamentos com a extrema-direita mundial: as relações estão estremecidas, e os chineses sabem bem qual é o lado mais forte da balança.

Almeida, que se considera um “dissidente” do Itamaraty, foi demitido, em 2019, da diretoria do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri), integrado ao Ministério, por publicar textos críticos em seu blog pessoal. Hoje, atua também como professor de Economia Política na pós-graduação de Direito do Centro Universitário de Brasília (Uniceub).

Na terça-feira 19, a Índia indicou países vizinhos prioritários para a exportação de vacinas produzidas em seu território – uma das maiores plantas farmacêuticas do mundo – e não citou o Brasil. Na lista, estão países vizinhos e aliados estratégicos do país.

Almeida afirma que a diplomacia indiana foi educada no trato com o Brasil, e que quaisquer ilusões de Bolsonaro com o primeiro-ministro Narendra Modi, também de direita, deveriam considerar o nacionalismo indiano. A vacinação no país asiático – que tem mais de 1,3 bilhão de habitantes – acabou de começar. Exportar doses para o Brasil, portanto, não seria bem visto entre os indianos.

“O chanceler indiano sinalizou por três vezes que havia dificuldades em exportar a vacina. Ele foi muito diplomático, pois isso causaria um enorme problema para Modi no plano interno. O Modi recebeu Bolsonaro no dia da Independência indiana com todas as honras, mas ele é um nacionalista ao velho estilo. Não tem nada a ver com ‘anti-globalismo’ de Araújo”, afirma o diplomata.

Com a China, o buraco é mais embaixo. Almeida lembra que, desde a campanha presidencial de 2018, ao visitar Taiwan – uma “província rebelde” aos olhos do Partido Comunista Chinês -, o presidente manda mensagens de afronta ao maior parceiro comercial do País. 

“O caso da China é mais político, e o da Índia é uma inconveniência diplomática cometida pelo chanceler e pelo Bolsonaro. Com certeza, isso causou um imenso mal-estar na Índia que não se manifestou porque eles são grandes diplomatas e não cometeriam uma grosseria.”, diz Almeida. “Eles não são o Bolsonaro, que já brigou com o Macron, a mulher do Macron, o [presidente da Argentina] Alberto Fernández, o Evo Morales, Deus e o mundo”, analisa.

Nas ofensas a China, tem protagonismo Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que já brigou publicamente com o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, pelas redes sociais.

Eduardo repetiu que o coronavírus era um “vírus chinês” e fez campanha contra o leilão do 5G com a participação da Huawei, empresa chinesa estratégica no setor. Em ambos os casos, Ernesto Araújo endossou o discurso do filho do presidente.

“A China atua politicamente em resposta. Até agora, foi muito leniente com o Brasil até pelas brigas comerciais que estava travando com os Estados Unidos”, diz o diplomata. A China separa a questão política da comercial, mas eles estão fazendo corpo mole para sinalizar ao Brasil que, se continuar assim, o País talvez sofra.”

Para ele, o grande divisor de águas” nas relações sino-brasileiras seria a proibição à participação da Huawei no leilão do 5G. Mas as críticas preconceituosas de Bolsonaro à “vacina chinesa” também provocaram forte repúdio das autoridades chinesas, afirma.

Almeida avalia ainda que, caso haja caos pela falta das doses da vacina contra a Covid, a “antidiplomacia” bolsonarista será diretamente responsável.

“Todo mundo importa ou toma remédio da Índia e da China. Precisou um inepto total como o Bolsonaro para causar um enorme preconceito contra os produtos chineses”, ressalta.

“A China vai acabar fornecendo [os insumos], mas talvez demore mais um pouco para deixar os Bolsonaro desesperados. Quando acabar o estoque, pode haver cenas dramáticas dos hospitais. Houve um enorme fracasso diplomático que não é limitado ao contexto atual da pandemia, da vacina, é um fracasso diplomático desde o começo.”

Além das relações bilaterais estremecidas, há ainda a falta de coordenação com outros órgãos multilaterais que poderiam ter ajudado o Brasil em “inteligência sanitária e de saúde”, diz o ex-embaixador, referindo-se ao atraso do Ministério da Saúde em adquirir insumos como seringas e agulhas à tempo da vacinação.

Correção de rumos

Para corrigir os problemas, Bolsonaro aposta nas boas relações que o vice-presidente Hamilton Mourão tem com autoridades chinesas, afirmaram aliados do governo à jornalista Andreia Sadi, da Rede Globo.

O general faz parte da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação, a Cosban, e deve ser encarregado de “salvar a pátria” porque os “chineses não falam com o Araújo”, analisa o diplomata. “O governo de Bolsonaro faz tudo errado e, então, apela para soluções de expediente”.

Com a pandemia ainda crescente e uma longa campanha de vacinação pela frente, Paulo Roberto sugere que o Brasil reavalie suas posições com a China – apesar do novo governo dos Estados Unidos, comandado agora pelo democrata Joe Biden, que deve tentar conter a influência da China sobre as Américas.

“O que vai sobrar para o Biden da política externa de Trump é o mercantilismo americano, que responde a uma frustração dos órfãos da globalização, dos desempregados, ao sentimento de que a China não joga conforme as regras”, analisa. “O Biden foi acusado pelo Trump de ser aliado da China, e ele tem que provar que não é soft com eles.”

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Bolsonaro escolheu ser o coveiro dele mesmo - Ricardo Noblat, Paulo Roberto de Almeida

 O Brasil começa tardiamente a vacinação sem que o desgoverno do capitão degenerado tenha feito qualquer coisa para que esse dia começasse; ao contrário, fez tudo para atrapalhar a “vacina chinesa do Doria”, a única disponível no momento. 

O que Bolsonaro fez foi uma CAMPANHA DA MORTE, com seu desrespeito sistemático às medidas de prevenção, com a irresponsabilidade de recomendar “tratamento preventivo com cloroquina” (que não só não é recomendada, como pode levar à morte), e se opôs a que a União bancasse o investimento na Coronavac, ao mesmo tempo em que financiava largamente o experimento da FioCruz, até aqui inexistente. 

A prescrição para o degenerado é IMPEACHMENT!

Paulo Roberto de Almeida 

Bolsonaro escolheu ser o coveiro dele mesmo

 Ricardo Noblat, 18/01/2021

Doria fez barba, cabelo e bigode no presidente

Na medida em que se enfraquece, o presidente Jair Bolsonaro perde mais e mais o controle sobre os fatos produzidos ou não por seu governo. Dois episódios de ontem provam isso.

Os cinco diretores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), nomeados por ele, anunciaram ao país que não existe tratamento preventivo contra a Covid-19.

Desmentiram Bolsonaro em transmissão nacional de rádio e de televisão. Até o ministro da Saúde, o general de peito estufado Eduardo Pazuello, também o fez com todo o cuidado do mundo.

Em São Paulo, o governador João Doria (PSDB) deu início à vacinação em massa, o que o Ministério da Saúde disse que só poderia acontecer depois de sua autorização.

Doria também reteve a cota paulista de doses da vacina fabricada pelo Butantan que o Ministério da Saúde esperava receber para em seguida devolver a São Paulo. Uma estupidez, por certo.

Foi um ato de rebeldia do governador que, ao ser acusado por Pazuello de promover um “golpe de marketing”, respondeu que há 11 meses Bolsonaro promove um “golpe de morte”.

O presidente da República vai fazer o quê? Processar Doria? Pressionar a Justiça para que mande prendê-lo por crime de desobediência civil? Se o fizer, perderá.

Vamos ao mantra adotado por 9 entre 10 estrelas da política: presidente pode muito, mas não tudo. Bolsonaro, por mais que diga o contrário aos berros, cada dia que passa manda menos.

A derrota que colheu com a aprovação emergencial das vacinas foi a maior derrota desde que acidentalmente se elegeu há dois anos e tomou posse da presidência sem estar preparado para isso.

Mais de 70% dos brasileiros queriam se vacinar. O percentual crescerá com o início da vacinação em massa. Bolsonaro sempre desacreditou a vacina e diz que não se vacinará.

Em todos os países onde começou, a vacinação foi festejada pelos chefes de Estado. Aqui, Bolsonaro não deu um pio. Desapareceu. Apareça, Bolsonaro! Livre-se do colete à prova de vacina. Não dói.

No passado, quando um time goleava o outro, dizia-se que fez dele barba, cabelo e bigode, lembrou o jornalista Ricardo Kotscho. Perfeito! Doria fez barba, cabelo e bigode em Bolsonaro.

O 7 x 1 da Alemanha sobre o Brasil na Copa do Mundo de 2014 é pouco para dar a verdadeira dimensão da surra que Bolsonaro levou de Doria. Outras surras virão em breve.

Os bolsonaristas e seus cúmplices construíram a falsa narrativa da invencibilidade de Bolsonaro, fizesse ele o que fizesse. E que ele se tornara de alguns meses para cá um presidente normal.

Jamais Bolsonaro será um presidente normal porque como ser humano jamais foi normal. Não pode ser normal quem defende a tortura, tem fixação em armas, detesta gays e sabota a vida.

Aturá-lo por mais dois anos será insuportável, mas talvez sirva para ensinar os brasileiros a votar melhor.




domingo, 17 de janeiro de 2021

Literatura brasileira de Relações Internacionais: uma entrevista ao Correio Braziliense (2002) - Paulo Roberto de Almeida

Arrumando estes dias meus livros e papeis, para ver se consigo, finalmente, colocar em ordem minha caótica biblioteca, descobri, dentro de uma pasta não identificada, o Caderno Pensar do Correio Braziliense de 13/01/2020, contendo uma entrevista minha ao então jovem jornalista Marcos Savini, hoje Conselheiro na carreira diplomática, servindo na nossa delegação junto à OMC, em Genebra.



Creio que nunca tinha feito um scan da entrevista publicada, mas sim, registrei em meus arquivos implacáveis tanto a versão original de minhas respostas ao Marcos Savini, um texto de 6 p., quanto a versão publicada, obviamente reduzida. A entrevista se deu porque eu estava publicando dois livros, mas me encontrava em Washington (aliás viajando na Flórida, pois o texto é datado de Orlando): 

Os primeiros Anos do Século 21: o Brasil nas relações internacionais (Paz e Terra, 2002)

Formação da Diplomacia Econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império (Senac-Funag, 2001)

Eis a ficha do trabalho: 

846. “Bibliografia brasileira sobre relações internacionais: Respostas a questões colocadas pelo Correio Braziliense”, Orlando, 9 janeiro 2002, 6 p. Entrevista sobre a produção brasileira em relações internacionais concedida por meio de correspondência eletrônica ao jornalista Marcos Savini. Publicada parcialmente no Correio Braziliense, caderno “Pensar”, domingo, 13 de janeiro de 2002, p. 5. Relação de Publicados n. 307. 


Eis a versão original, completa, do trabalho: 

Bibliografia brasileira sobre relações internacionais

Respostas a questões colocadas pelo Correio Braziliense

 

Paulo Roberto de Almeida

pramre@earthlink.net

www.pralmeida.org

 

Jornalista: Marcos Savini, Caderno Pensar, Correio Braziliense

Data: Wed, 09 Jan 2002 13:09:22 

Assunto: formação diplomática

 

Questões MS e respostas PRA:

 

1 - Acredita que já exista hoje uma bibliografia brasileira sólida sobre diplomacia e relações internacionais? O que há de notável e o que falta fazer?

 

PRA: O campo ainda apresenta lacunas importantes, mas nos últimos dez anos foram publicadas obras que já podem ser consideradas como relevantes, com destaque para pesquisadores acadêmicos (historiadores e cientistas políticos) e os próprios diplomatas. Em ambos os grupos existe uma saudável orientação em fugir aos cânones da história diplomática tradicional, aquela preocupada apenas em relatar os eventos e fatos políticos, com base unicamente em documentos de chancelaria, e buscar uma abordagem analítica e interpretativa sobre os fatores econômicos e políticos explicativos do tipo de inserção internacional e regional praticada pelo Brasil.

 

2 - Existe uma visão brasileira das relações internacionais ou continuamos a depender de versões européias e americanas?

 

PRA: Não se pode propriamente falar de um escola ou de teorias brasileiras de relações internacionais, mas tampouco ocorre uma cópia indiscriminada da produção estrangeira. Se bem seja certo que muitos cientistas políticos sigam padrões norte-americanos de metodologia e abordagem, e que historiadores (é o caso da própria UnB, por exemplo) tendam a seguir uma visao francesa das relações internacionais (como patente nos livros de Renouvin ou Duroselle), também é verdade que os pesquisadores brasileiros têm procurado seguir um enfoque original das relações internacionais do Brasil.

  

3 - Caso a resposta seja positiva, em que nos diferenciamos?

 

PRA: Vários pesquisadores acadêmicos, mas também os próprios diplomatas têm colocado o país no centro de um sistema próprio de relações exteriores, nos planos regional ou internacional, com grande ênfase nos seus problemas de desenvolvimento econômico. Esta é marca, por exemplo, de alguns economistas-historiadores, como Marcelo de Paiva Abreu, Winston Fritsch, ou o próprio ministro da Fazenda, Pedro Malan, que já produziu alguns textos importantes sobre o contexto internacional do desenvolvimento econômico brasileiro. Este é também o meu caso, pois tenho diversos trabalhos nessa vertente, como dois livros sobre o Mercosul, um sobre o Brasil e o multilateralismo econômico e agora este denso trabalho sobre a Formação da Diplomacia Econômica no Brasil na época imperial (que deve ter continuidade em mais dois volumes tratando da fase republicana).  


 

4 - Seu livro supre uma lacuna importante sobre a história da diplomacia econômica no Brasil. Que outras lacunas existem?

 

PRA: Meu livro Formação da Diplomacia Econômica no Brasil é original no sentido em que não existia, até aqui, nenhuma história abrangente da diplomacia econômica no Brasil, o que agora passa a existir, pelo menos para o período imperial. Faltaria agora cobrir a fase republicana (o que estou empenhado em fazer, com dois novos volumes que deverão seguir a este), mas também faltam estudos pormenorizados sobre a história financeira internacional do Brasil, por exemplo, ou a de suas relações com os organismos finaneiros internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, algo que tentei suprir num dos capítulos de meu livro O Brasil e o multilateralismo econômico (Editora Livraria do Advogado, 1999). Marcelo de Paiva Abreu já escreveu algo sobre o Brasil e o GATT (hoje OMC), mas ainda falta uma história de nossa participação nesse importante foro do sistema multilateral de comércio.

 

5 - Que conseqüências a ausência destes estudos traz para a formação de diplomatas e especialistas em relações internacionais no país?

 

PRA: Os diplomatas estão certamente mais afeitos à leitura tradicional de história diplomática, do que aos problemas de nossa inserção econômica internacional, sobretudo nos planos comercial e financeiro. Essas lacunas começam recém a serem supridas, mas ainda falta muito para considerarmos a literatura satisfatória ou abundante. Os efeitos podem ser considerados como preocupantes pois as novas gerações de diplomatas entram na carreira sem uma visão dos grandes debates internacionais sobre desenvolvimento, comércio, finanças, propriedade intelectual, entre outros temas, que moldaram a ação de uma geração anterior de diplomatas. Uma boa contribuição nesse sentido foram as memórias do Roberto Campos, mas esses temas estão dispersos no livro e não recebem o tratamento sistemático que deveriam receber numa análise de cunho classicamente acadêmico.

  

6 - Em seu livro o sr. relata como a diplomacia econômica foi  tradicionalmente conduzida por funcionários consulares, enquanto os diplomatas preocupavam-se com questões políticas. Hoje o cenário parece inverter-se e a diplomacia brasileira está cada vez mais voltada para temas  econômicos. Essa tendência é irreversível, apesar dos atentados de 11de setembro terem demonstrado que a ordem político-estratégica não é tão secundária como poderíamos imaginar?

 

PRA: Meu livro relata que os funcionários consulares se ocupavam de questões comerciais, mas não esconde o fato de que eram diplomatas (em muitos casos não necessariamente da carreira) os que de verdade negociavam os tratados econômicos mais importantes. Mas, é também verdade que a visão tradicional da diplomacia, até pelo menos a belle époque (antes da Primeira Guerra Mundial), recusava em grande medida os temas econômicos, considerados como de low politics, preferindo se ocupar das chamadas questões de high politics, que seriam as de política bilateral e de questões de equilíbrio militar. A tendência para a multilateralização e a ênfase nas questões econômicas, que caracterizam nossa época, devem continuar a pautar as relações internacionais contemporâneas, mesmo a despeito de questões importantes como as do desarmamento ou do terrorismo internacional, como ilustrado tragicamente em setembro de 2001. Não se pode, porém, descurar a importância de problemas políticos relevantes, como os que estão vinculados à ausência de democracia, de desenvolvimento e de respeito aos direitos humanos, que explicam em parte o surgimento de movimentos terroristas, de conflitos étnicos e do nacionalismo exacerbado de cunho por vezes tribal. Nesses campos, ao lado da ação tradicional dos Estados, os atores ainda insubstituíveis das relações internacionais, começa a despontar o trabalho das organizações não-governamentais, interlocutores relevantes em diversos foros de grande impacto social e humanitário, como nas questões de meio ambiente por exemplo.


  

7 - Muito se tem falado na falta de quadros no Brasil para enfrentar as negociações multilaterais que se desenham para o futuro próximo - OMC, Alca, União Européia, etc. O que pode ser feito, em sua opinião, para suprir essa lacuna?

 

PRA: Sem falar da própria expansão dos servidores diplomáticos e de outros órgãos públicos (como os analistas de comércio exterior, do MDIC, por exemplo), as insuficiências existem igualmente no seio das empresas brasileiras, que não estão ainda suficientemente “globalizadas” para contratar especialistas em relações internacionais, que possam colocá-las no novo ambiente competitivo do comércio internacional, tanto no plano regional (do Mercosul por exemplo), como no âmbito multilateral (regido pelas normas da OMC). Trata-se de lacunas que tendem a ser supridas gradualmente, à medida em que o próprio Brasil se insere mais ativamente no cenário internacional e globaliza sua economia.

  

8 - No complicado tabuleiro das relações econômicas atuais, basta especializar diplomatas para defender os interesses brasileiros? Ou é preciso se preocupar com o preparo de outros setores do governo e da sociedade?

 

PRA: Os diplomatas são importantes mas não podem substituir-se à própria sociedade, que através da academia ou dos centros de formação de outras agências públicas ou privadas devem continuar a atividade de constante formação de quadros especializados nas complexas questões da agenda econômica internacional contemporânea. Penso por exemplo nos conflitos comerciais, que exigem advogados comerciais com conhecimento das regras da OMC ou do Mercosul, para atuar nos órgãos de solução de controvérsias, terreno no qual o Brasil é notoriamente carente de um número razoável de quadros. Em outros campos do direito internacional igualmente, muitas vezes nossos interesses são defendidos por escritórios estrangeiros de advogados, à falta de especialistas em número suficiente, ou de escritórios brasileiros possuindo representações no exterior.

 

9 - Há carência de especialistas em outras áreas do conhecimento para conduzir tais negociações?

 

PRA: Os diplomatas são plenamente capazes de conduzir essas negociações, mas muitas  vezes falta o trabalho preparatório, ou de acompanhamento, no campo do apoio técnico especializado, como suporte conceitual e mesmo instrumental nos debates que ocorrem nos foros internacionais. Uma certa responsabilidade incumbe aqui à academia, isto é, aos muitos cursos de relações internacionais já existentes no Brasil. Muitas vezes os professores se preocupam em demasia, ou de modo excessivamente acadêmico, com questões conceituais ou teóricas de relações internacionais, quando o que precisamos, na maior parte dos casos, não é necessariamente de grandes conhecedores da “teoria neorealista” em relações internacionais, mas sim de peritos em comércio internacional, ou de especialistas práticos em integração regional e nas questões do Mercosul.

 

10 - A política externa do Brasil já deixou de ser assunto apenas de diplomatas e o país está deixando de ser uma sociedade voltada para dentro e com pouco interesse em questões internacionais? Que sinais relevantes apontaria em tal mudança?

 

PRA: Os processos de globalização e de regionalização em curso na última década certamente contribuiram para abrir o Brasil ao cenário internacional, mas muito mais importantes foram questões concretas como o conflito Embraer-Bombardier, as restrições à carne brasileira em virtude de acusações indevidas e infundadas por causa da doença da “vaca louca”, as crises financeiras dos anos 90 (e ainda agora o problema da Argentina) ou o debate em torno da Alca em nosso hemisfério, que seguramente trouxeram importantes questões internacionais para o cotidiano de milhões de brasileiros.  Mais e mais nosso país vai ter de conviver com (e compreender) esse tipo de problema de comércio internacional, o que é normal, se se admite que o país deve cada vez mais participar da globalização. Os diplomatas continuarão a ser os negociadores por excelência em quase todos esses temas (nas questões financeiras, os funcionários da Fazenda e do Banco Central têm o comando, por exemplo), mas cada vez mais, as empresas, os ONGs brasileiras e os próprios cidadãos serão chamados a opinar em torno desses problemas que finalmente afetam a todos nós. Estou certo, por exemplo, que nas próximas eleições presidencias os temas de comércio internacional, com as negociações da Alca e da OMC, assim como os problemas financeiros internacionais (câmbio, ajuda do FMI, capitais estrangeiros) estarão no centro dos debates entre os principais candidatos.

 

Paulo Roberto de Almeida, 846: Orlando, 9 de janeiro de 2002

Publicada parcialmente na edição dominical do Correio Braziliense,

caderno “Pensar”, 13 de janeiro de 2002, p. 5. Relação de publicados nº 298.



Eis a versão publicada no Correio Braziliense, em, versão abreviada: 


Correio Braziliense, Brasília

Brasília, domingo,

13 de janeiro de 2002 

Pensar

Entrevista / Paulo Roberto de Almeida

 

OS PRIMEIROS ANOS DO SÉCULO 21 — O BRASIL NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS CONTEMPORÂNEAS - De Paulo Roberto de Almeida. Editora Paz e Terra. Preço a ser definido. Mais informações no site www.pralmeida.org. 

 

FORMAÇÃO DA DIPLOMACIA ECONÔMICA NO BRASIL — AS RELAÇÕES ECONÔMICAS INTERNACIONAIS NO IMPÉRIO - De Paulo Roberto de Almeida. Editora Senac São Paulo/ Fundação Alexandre Gusmão (Funag), 676 páginas. R$ 68,00.

 

Há pelo menos uma década os temas comerciais e econômicos tomaram boa parte do espaço reservado às questões políticas e aos (não) alinhamentos ideológicos nas mentes de diplomatas e especialistas em relações internacionais no Brasil. Mas a produção intelectual não tem acompanhado tal mudança de prioridades na velocidade necessária. Até hoje não existia, por exemplo, nenhuma história abrangente da diplomacia econômica no Brasil. 

  O sociólogo e diplomata Paulo Roberto de Almeida resolveu encarar a empreitada. Acaba de lançar Formação da Diplomacia Econômica no Brasil, cobrindo os anos do Império. Em outros dois volumes, pretende tratar o período republicano, do final do século 19 até os dias de hoje. Autor de vários livros nessa vertente, inclusive dois sobre o Mercosul, ele também lançará em fevereiro Os Primeiros Anos do Século 21 — O Brasil nas Relações Internacionais Contemporâneas.

 

CORREIO BRAZILIENSE — Existe hoje uma sólida bibliografia brasileira sobre diplomacia e relações internacionais? 

PAULO ROBERTO DE ALMEIDA — O campo ainda apresenta lacunas importantes, mas nos últimos dez anos foram publicadas obras relevantes escritas por pesquisadores acadêmicos (historiadores e cientistas políticos) e pelos próprios diplomatas. Em ambos os grupos existe uma saudável orientação em fugir aos cânones da história diplomática tradicional, aquela preocupada apenas em relatar os eventos e fatos políticos, com base unicamente em documentos de chancelaria, e buscar uma abordagem analítica e interpretativa sobre os fatores econômicos e políticos explicativos do tipo de inserção internacional e regional praticada pelo Brasil. 

   

CORREIO — Existe uma visão brasileira das relações internacionais ou continuamos a depender de versões européias e americanas? 

ALMEIDA — Não se pode propriamente falar de uma escola ou de teorias brasileiras de relações internacionais, mas tampouco ocorre uma cópia indiscriminada da produção estrangeira. É certo que muitos cientistas políticos seguem padrões norte-americanos de metodologia e abordagem, e que historiadores tendem a seguir uma visão francesa das relações internacionais. Mas também é verdade que os pesquisadores brasileiros têm procurado seguir um enfoque original das relações internacionais do Brasil. 

   

CORREIO — Quando fomos originais? 

ALMEIDA — Vários pesquisadores acadêmicos, mas também os próprios diplomatas têm colocado o país no centro de um sistema próprio de relações exteriores, nos planos regional ou internacional, com grande ênfase nos problemas do desenvolvimento econômico. Esta é marca, por exemplo, de alguns economistas-historiadores, como Marcelo de Paiva Abreu, Winston Fritsch, ou o próprio ministro da Fazenda, Pedro Malan, que já produziu alguns textos importantes sobre o contexto internacional do desenvolvimento econômico brasileiro.

   

CORREIO — Seu livro supre uma lacuna importante sobre a história da diplomacia econômica no Brasil Império. Que outras lacunas existem? 

ALMEIDA — Faltaria agora cobrir a fase republicana, o que estou empenhado em fazer, com dois novos volumes. Mas também faltam estudos minuciosos sobre a história financeira internacional do Brasil, por exemplo, ou a de suas relações com os organismos financeiros internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, algo que tentei suprir num dos capítulos de meu livro O Brasil e o Multilateralismo Econômico (Editora Livraria do Advogado, 1999). Marcelo de Paiva Abreu já escreveu algo sobre o Brasil e o GATT (hoje OMC), mas ainda falta uma história de nossa participação nesse importante foro do sistema multilateral de comércio. 

   

CORREIO — Que conseqüências a ausência destes estudos traz para a formação de diplomatas e especialistas em relações internacionais? 

ALMEIDA — Os diplomatas são certamente mais afeitos à leitura tradicional de história diplomática do que aos problemas de nossa inserção econômica internacional, sobretudo comercial e financeira. Os efeitos são preocupantes pois as novas gerações entram na carreira sem uma visão dos grandes debates internacionais sobre desenvolvimento, comércio, finanças, propriedade intelectual, entre outros temas, que moldaram a ação de uma geração anterior de diplomatas. Uma boa contribuição nesse sentido foram as memórias do Roberto Campos, mas esses temas estão dispersos no livro e não recebem o tratamento sistemático que deveriam receber numa análise de cunho classicamente acadêmico. 

   

CORREIO — Muito se tem falado na falta de quadros no Brasil para enfrentar as negociações multilaterais que se desenham para o futuro próximo — OMC, Alca, União Européia etc. O que pode ser feito, em sua opinião, para suprir essa lacuna? 

ALMEIDA — Sem falar da própria expansão dos servidores diplomáticos e de outros órgãos públicos, como os analistas de comércio exterior, do MDIC, por exemplo. As insuficiências existem também no seio das empresas brasileiras, que não estão ainda suficientemente ‘‘globalizadas’’ para contratar especialistas em relações internacionais, que possam colocá-las no novo ambiente competitivo do comércio internacional. Penso por exemplo nos conflitos comerciais, que exigem advogados comerciais com conhecimento das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) ou do Mercosul, para atuar nos órgãos de solução de controvérsias, terreno no qual o Brasil é notoriamente carente de um número razoável de quadros. Em outros campos do direito internacional igualmente, muitas vezes nossos interesses são defendidos por escritórios estrangeiros de advogados, à falta de especialistas em número suficiente, ou de escritórios brasileiros possuindo representações no exterior.

   

CORREIO — Por que existem tais carências? 

ALMEIDA — Uma certa responsabilidade incumbe aqui à academia, isto é, aos muitos cursos de relações internacionais já existentes no Brasil. Muitas vezes os professores se preocupam em demasia, ou de modo excessivamente acadêmico, com questões conceituais ou teóricas de relações internacionais, quando o que precisamos, na maior parte dos casos, são de peritos em comércio internacional, ou de especialistas práticos em integração regional e nas questões do Mercosul.

   

CORREIO — A política externa do Brasil já deixou de ser assunto apenas de diplomatas e o país está deixando de ser uma sociedade voltada para dentro e com pouco interesse em questões internacionais. Que sinais relevantes apontariam tal mudança? 

ALMEIDA — Os processos de globalização e de regionalização em curso na última década certamente contribuíram para abrir o Brasil ao cenário internacional, mas muito mais importantes foram questões concretas como o conflito Embraer-Bombardier, as restrições à carne brasileira em virtude de acusações indevidas e infundadas por causa da doença da ‘‘vaca louca’’, as crises financeiras dos anos 90, incluindo o da Argentina, ou o debate em torno da Alca em nosso hemisfério, que seguramente trouxeram importantes questões internacionais para o cotidiano de milhões de brasileiros. Mais e mais nosso país vai ter de conviver com (e compreender) esse tipo de problema de comércio internacional. Estou certo, por exemplo, que nas próximas eleições presidenciais os temas de comércio internacional, com as negociações da Alca e da OMC, assim como os problemas financeiros internacionais — como câmbio, ajuda do FMI, capitais estrangeiros — estarão no centro dos debates entre os principais candidatos.( Marcos Savini) 


Mensagem original do jornalista:

Caro Paulo,

 

   Se conseguires, de algum modo, enviar-me até amanhã cedo a capa do novo livro pela Paz e Terra, posso incluir a imagem. Se for impossível, posso citá-lo sem problemas ao lado do "Formação da Diplomacia Econômica do Brasil". Bom, frente à esse texto que acabas de enviar, e que vem muito a calhar, e frente à nossa mútua escassez de tempo, envio abaixo as perguntas que gostaria de te colocar e podemos publicar como uma entrevista. 

Desculpe não ter enviado ontem, mas saí muito tarde da redação.

 

1 - Acredita que já exista hoje uma bibliografia brasileira sólida sobre diplomacia e relações internacionais? O que há de notável e o que falta fazer?

 

2 - Existe uma visão brasileira das relações internacionais ou continuamos a depender de versões européias e americanas?

 

3 - Caso a resposta seja positiva, em que nos diferenciamos?

 

4 - Seu livro supre uma lacuna importante sobre a história da diplomacia econômica no Brasil. Que outras lacunas existem?

 

5 - Que conseqüências a ausência destes estudos traz para a formação de diplomatas e especialistas em relações internacionais no país?

 

6 - Em seu livro o sr. relata como a diplomacia econômica foi tradicionalmente conduzida por funcionários consulares, enquanto os diplomatas preocupavam-se com questões políticas. Hoje o cenário parece inverter-se e a diplomacia brasileira está cada vez mais voltada para temas econômicos. Essa tendência é irreversível, apesar dos atentados de 11 de setembro terem demonstrado que a ordem político-estratégica não é tão secundária como poderíamos imaginar?

 

7 - Muito se tem falado na falta de quadros no Brasil para enfrentar as negociações multilaterais que se desenham para o futuro próximo - OMC, Alca, União Européia, etc. O que pode ser feito, em sua opinião, para suprir essa lacuna?

 

8 - No complicado tabuleiro das relações econômicas atuais, basta especializar diplomatas para defender os interesses brasileiros? Ou é preciso se preocupar com o preparo de outros setores do governo e da sociedade?

 

9 - Há carência de especialistas em outras áreas do conhecimento para conduzir tais negociações?

 

10 - A política externa do Brasil já deixou de ser assunto apenas de diplomatas e o país está deixando de ser uma sociedade voltada para dentro e com pouco interesse em questões internacionais? Que sinais relevantes apontaria em tal mudança?

 

Bom, espero que ainda esteja em tempo. Não precisa ser exaustivo, até porque o espaço em jornal não é enorme. Se preferir enviar as respostas quando voltar dos passeios, para mim está bem. Posso ligar também mais tarde, se achar que escrevendo tomará muito seu tempo.

 

Abraço,

Marcos Savini

 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Um caso de assédio moral no Itamaraty - Paulo Roberto de Almeida

Um caso de assédio moral no Itamaraty

Paulo Roberto de Almeida

O chanceler acidental tem muitas obsessões: eu sou uma delas. Vou relatar o ridículo caso de assédio moral de um chanceler desequilibrado contra um funcionário de carreira do serviço exterior do Brasil, eu mesmo, no momento em que recebo uma mensagem, enviada recentemente por funcionário concursado, que leu o processo relatado abaixo, o que me levou a consultá-lo sobre sua divulgação.

Os que conhecem meu itinerário nos últimos dois anos, os que acompanham minhas postagens desde minha exoneração do cargo de diretor do IPRI-MRE, e sobretudo desde o final de 2019 e o início de 2020, sabem que o chanceler acidental tem uma obsessão contra mim, sobretudo porque me julga um concorrente ao seu cargo infeliz, que ele exerce pateticamente, como sabujo que é, mas também depois que eu falei que o seu guru, e patrono para o cargo, andava disseminando "olavices debiloides" em uma de suas postagens alucinadas nas redes sociais.

Foi demais para o serviçal de Trump e da Bolsofamília (nessa ordem): ele não resistiu e mandou me demitir numa segunda-feira de Carnaval, pela manhã, com efeito imediato (mas a burocracia tomou quatro dias para fazê-lo, quando meu caso foi amplamente divulgado pela "grande mídia"). 

Dotado de um ódio acrescido desde então, o chanceler mandou que seus sabujos da Divisão do Pessoal examinassem todos os registros da catraca eletrônica para registrar todas as minhas ausências, faltas, atrasos e saídas antecipadas do MRE, onde eu estou apenas formalmente lotado na Divisão do Arquivo, sob as ordens de um simpático Primeiro Secretário, mas onde nenhuma função me foi atribuída.

Em novembro de 2019 ele mandou publicar no Boletim de Serviço supostas 20 "faltas injustificadas", que eu teria cometido. Justifiquei cada uma, escrupulosamente, a maior parte por participação em bancas de mestrado e doutorado, inclusive duas ou três ausências nas quais eu estava na companhia do infeliz e raivoso chanceler acidental, no Ministério da Defesa, ou no Forte Apache, ou na ESG, em cerimônias oficiais, aos quais eu tinha sido convidado pelos militares. Todas as minhas justificativas foram "INDEFERIDAS" liminarmente, e sem aguardar um mês sequer para defesa, o chanceler mandou cortar o meu salário de janeiro de 2020, inclusive de maneira patentemente ILEGAL: meu contracheque registrou R$ 210,16.

Mais ainda: o chanceler acidental mandou os sabujos que o servem computar supostas horas não trabalhadas – só não disseram em que, uma vez que eu continuei a não ter NENHUMA função na burocracia da Divisão do Arquivo. Em seguida, expediram uma cobrança de R$ 23 mil, que eu deveria à União, por "recebimentos a mais". A partir daí entrei com uma ação judicial que, como tudo o que depende da Justiça no Brasil, não tem prazo para terminar. A pandemia paralisou um pouco mais a lentidão da Justiça, que já é normalmente lentíssima.

Tudo está perfeitamente documentado e coloquei a informação relevante à disposição dos interessados de forma totalmente transparente:

Acao com pedido de tutela de urgencia contra a União Federal - Paulo Roberto de Almeida (31/03/2020)

https://www.academia.edu/42605745/Acao_com_pedido_de_tutela_de_urgencia_contra_a_União_Federal_Paulo_Roberto_de_Almeida_31_03_2020_ 

Eu tinha descrito o caso nesta postagem do Diplomatizzando

https://diplomatizzando.blogspot.com/2020/04/minhas-faltas-injustificadas-segundo-o.html 

Mas, o assunto está parado desde então, esperando que a nossa cega Justiça resolva a questão; vou esperar no paraíso (ou em algum limbo disponível para anarco-diplomatas como eu). Todavia, tive a grata surpresa de receber, neste mês de janeiro de 2021, uma simpática mensagem de um funcionário federal concursado, com larga experiência no serviço público, e que reproduzo abaixo: 

"O processo de assédio moral e perseguição funcional contra servidores públicos mais graduados e antigos, a exemplo do caso do Embaixador Paulo Roberto de Almeida e outros tantos (eu mesmo sou servidor federal com 22 anos de serviço público e já na última letra funcional de minha carreira), tem sido prática que se intensificou sobretudo na atual administração iniciada em 2019 - embora remonte também a administrações anteriores - é tema que me interessa sobremaneira. 

Para um servidor público ser considerado veterano ele deve contar ao menos 20 anos de serviço público. E o que vemos são servidores mais modernos exercendo cargos de chefia por motivos de alinhamento ideológico ou pior, mera bajulação, sobre servidores mais capacitados e experimentados do que eles. Qualquer insurgência no Poder Judiciário contra tal situação - ainda que eventualmente admitida por pessoas próximas de nós como tendo poucas chances de prosperar - é por mim bem vinda como exemplo de destemor e coragem!

 Na condição similar à do embaixador (enquanto sofredor de assédio moral), congratulo-me com sua figura, exemplo de quem não tem NADA a temer! As irregularidades são tamanhas a ponto de uma pessoa minimamente instruída saber que não se pode imputar faltas injustificadas a um servidor sem chamar esse mesmo funcionário para apresentar eventuais justificativas cabíveis. Ilegais, pois, os descontos. E se os houver, que seja discutido parcelamento e não imputar 99% de descontos em cima de seu contracheque - o que configura confisco salarial - vedado pela CF/88! 

Na verdade, o embaixador está ciente de que a atual administração do MRE quer é que o senhor peça a aposentadoria e vá para casa! Não faça isso se não for do seu interesse! A atual administração vai passar. 

FORZA Embaixador Paulo Roberto! Abraços de Xxxxxx!

Ele concordou que eu divulgasse a sua mensagem, mas de forma não identificada...

 ... a fim de evitar perseguições pessoais contra minha pessoa (já as houve aqui no meu órgão contra pessoas que se manifestaram pessoalmente em blogs de internet a favor do PT - o que configura cerceamento das liberdades de pensamento e expressão), prefiro permanecer no anonimato. O que não significa obscurantismo, rsrsrs, pois o pensamento inteligente e independente - como o seu - é algo que valorizo sobremaneira desde sempre. Tomara esses tempos difíceis passem logo, nem que seja pelo caminho democrático do 'impeachment'...


Por enquanto estamos assim, mas suponho que o chanceler acidental continuará tentando me demitir do serviço exterior, e me privar de quaisquer direitos funcionais que eu possa ter depois de 42 anos dedicados à diplomacia do Brasil, diplomacia que ele faz tudo para diminuir, espezinhar, negar e destruir, colocando-a a serviço de interesses estrangeiros.

Vou continuar usando de minha capacidade intelectual para denunciar, não o infeliz, patético e desequilibrado chanceler, certamente não a sua pessoa medíocre, mas todas as suas ações que eu julgar negativas do ponto de vista dos interesses do Brasil (e quase todas o são). Ele não me intimida e eu não recuo de minha postura.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 15 de janeiro de 2021


Bolsonaro prepara uma "marcha sobre Brasília"? - revista Veja, Paulo Roberto de Almeida

 Do portal da Veja, com uma reflexão histórica posterior:


"APOSTA NOS QUARTÉIS
Desde que assumiu a Presidência, Bolsonaro tenta conquistar em nível nacional o apoio das bases das Forças Armadas e das polícias militar, civil e federal, com o objetivo de transformá-las em armas poderosas de seu projeto político. Como mostra matéria na edição de VEJA desta semana, o presidente não economiza recursos nem tempo de sua agenda para sedimentar essa aliança. Só em dezembro passado, ele compareceu a sete cerimônias com militares e policiais, quase uma a cada quatro dias. Já os recursos destinados às Forças Armadas para 2021 subiram mais de 5 bilhões de reais em relação a 2020, enquanto a Saúde perdeu 2,2 bilhões de reais."

PRA:
Ele imagina que assim estará não apenas "protegido" de qualquer incursão de poder "malévolo" – Legislativo, Judiciário – como preparado para o que der e vier.
Quase cem anos atrás, em 1922, Mussolini fez a sua famosa "Marcha sobre Roma", com poucos milhares de camisas pardas, e o idiota do rei lhe atribuiu o encargo de formar um governo. Logo em seguida, ele encomendou a morte de seus "inimigos": o assassinato de líderes liberais e socialistas, inclusive de refugiados em Paris.
Hitler foi mais expedito: um ano depois de tomar o poder, literalmente, incendiando o Parlamento alemão, em 1933, organizou, em 1934, a Noite dos Longos Punhais, quando assassinou todos aqueles "aliados" que poderiam querer tirá-lo do cargo. Foi uma longa noite...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 15/01/2020

Googgle Alert sobre Paulo Roberto de Almeida: Itamaraty

 


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"Paulo Roberto de Almeida"
Atualização diária  15 de janeiro de 2021
NOTÍCIAS 
Projeto 'país pária' do Ernesto Araújo continua em marcha
Na visão do embaixador Paulo Roberto de Almeida, o Brasil está cada vez mais isolado, reflexo de uma política externa fracassada. “Neste momento ...

Projeto ‘país pária’ do Ernesto Araújo continua em marcha
Declarações de Bolsonaro e do chanceler, apoiando a invasão ao Capitólio, só contribuem para o isolamento internacional do Brasil

Por Matheus... 

Leia mais em: https://veja.abril.com.br/blog/matheus-leitao/projeto-pais-paria-do-ernesto-araujo-continua-em-marcha/
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Diplomacia de Bolsonaro ameaça isolar o Brasil
... todos aqueles moinhos de vento e es


Diplomacia de Bolsonaro ameaça isolar o Brasil

 O presidente Jair Bolsonaro afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 13. janeiro 2021 - 12:56
(AFP)

Ao chegar ao poder, Jair Bolsonaro denunciou o alinhamento "ideológico" da diplomacia brasileira e procurou se aproximar de "democracias importantes como Estados Unidos, Israel e Itália". Dois anos depois, suas polêmicas iniciativas e a derrota de Donald Trump ameaçam deixar o Brasil isolado no cenário internacional.

Chamado no exterior de "Trump tropical", Bolsonaro foi o último líder do G20 a reconhecer a vitória do democrata Joe Biden e apoiou a tese de que houve "fraude" nas eleições americanas, recusando-se a condenar o ataque ao Capitólio de 6 de janeiro, incitado pelo presidente republicano.

Um de seus filhos, o deputado Eduardo Bolsonaro, que preside a Comissão de Relações Exteriores e Defesa da Câmara, substituiu sua foto de perfil no Twitter por uma imagem de Trump na segunda-feira. E o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que "a esquerda tenta arruinar os EUA".

No entanto, essas provocações não surpreenderam.

A política externa de Bolsonaro reproduz o provocativo discurso antissistema, impregnado de neoliberalismo na economia e conservadorismo nos costumes, que influencia em temas como o desmatamento, o porte de armas e os direitos reprodutivos.

O resultado é que o Brasil está ou em breve estará mais ou menos afastado de seus principais parceiros comerciais: China, Estados Unidos, União Europeia e Argentina.

- "Quixotes perturbados" -

Da China, se distancia pela ameaça de excluir a Huawei da corrida pela rede 5G e por seus comentários depreciativos sobre a vacina CoronaVac contra o coronavírus, que o laboratório chinês Sinovac produz em colaboração com o Instituto Butantan.

Do futuro governo Biden nos Estados Unidos e de alguns países da União Europeia, pelos recordes de desmatamento e incêndios na floresta amazônica que ameaçam a ratificação do acordo de livre comércio UE-Mercosul.

E da Argentina, pela permanente tensão com o governo de centro-esquerda de Alberto Fernández. No mês passado, Bolsonaro afirmou que a legalização do aborto no país vizinho permitirá que as "vidas das crianças argentinas" sejam "ceifadas" com a "anuência do Estado".

O Brasil tampouco ficou bem parado após o enfraquecimento do modelo liberal chileno, devido aos protestos sociais, e ao fracasso das tentativas de derrubar o governo venezuelano de Nicolás Maduro.

Em uma reunião de gabinete em abril, Araújo, em nome de sua cruzada contra o "globalismo", disse estar convencido de que o Brasil tinha condições de se sentar "na mesa de quatro, cinco, seis países que vão definir a nova ordem mundial" após a pandemia.

Um projeto que parece distante, com os mais de 200.000 mortos no Brasil (o segundo país com mais óbitos por covid-19, depois dos Estados Unidos) e que ainda aguarda o início da vacinação.

"Tudo o que eles anunciaram, como a renovação, a Venezuela, a aliança com os Estados Unidos, a liga da democracia para vencer o comunismo. Todas essas bobagens ideológicas, todos aqueles moinhos de vento e esses quixotes perturbados, nada disso se fez", declarou à AFP o diplomata Paulo Roberto de Almeida, que foi demitido em 2019 do cargo de diretor do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IPRI), vinculado ao Itamaraty.

- Biden e a UE -

Até então, o Brasil não sofreu retaliações comerciais, principalmente da China, que absorve um terço das exportações do país com sua demanda infinita por soja e minério de ferro.

Mas o setor agropecuário expressou várias vezes sua preocupação, como quando Bolsonaro ameaçou transferir a embaixada de Israel de Tel Aviv para Jerusalém, como fez Trump, sob o risco de irritar os países árabes, grandes compradores da carne brasileira.

"A grande questão é se o Biden e a União Europeia vão cooperar para pressionar o Brasil sobre a questão ambiental. Se isso acontecer, há um risco real para a economia brasileira, porque pode haver boicote, sanções econômicas", explicou à AFP Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Segundo Stuenkel, Bolsonaro sustenta essa "postura agressiva contra todo mundo" para "mobilizar sua base internamente", de olho na reeleição em 2022.

"Ele precisa da sua política externa para convencer sua base de que ele não é um político tradicional", pois "não pode mais se apresentar como a pessoa que vai acabar com e velha política, nem com a corrupção" depois da renúncia de Sergio Moro como ministro da Justiça e sua aproximação dos partidos tradicionais, acrescentou.