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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O Brasil é mesmo uma democracia, um amigo da democracia? - Paulo Roberto de Almeida

O Brasil é mesmo uma democracia, um amigo da democracia?

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre as democracias que apoiam a Ucrânia e as que apoiam o agressor.

Existem poucas democracias liberais no mundo, talvez menos de 1/4 dos países membros da ONU.
Essas poucas democracias liberais apoiam, como podem, a Ucrânia, em sua resistência à invasão criminosa e ilegal da Rússia, por meios financeiros, militares, sanções contra o agressor, mediação diplomática, etc.
Existem alguns poucos países ditatoriais que apoiam a Rússia em seu empreendimento militar ilegal, contrário a Carta das Nações Unidos e ao Direito Internacional: a China de Xi Jinping, a Coreia do Norte de um ditadorzinho nuclear, o Irã dos aiatolás, Cuba obviamente (que é ajudada em sua miséria por alguns desses paíss), Nicarágua, e algumas outras ditaduras.
Algumas democracias também parecem indiferentes, mas na verdade apoiam objetivamente a potência agressora: a Índia, o Brasil, a África do Sul, entre outros, nenhuma delas uma democracia liberal. Na própria União Europeia existem os apoiadores de Putin, o que pode parecer estranho.
Mas estranho mesmo é o caso do Brasil, embora seja possível, ou necessário, distinguir entre a diplomacia profissional, a política externa do governo Lula e as pressões dos partidos ditos de esquerda, que não escondem, esses últimos, o apoio ao agressor. Mas, escrutinando o histórico da diplomacia lulopetista desde o início, ou. seja, 2003, não é difícil encontrar outros beneficiários desse estranho apoio: um país que tem todas aqueles cláusulas inscritas na sua Constituição, que assinou e ratificou vários tratados, protocolos e convenções sobre armas, relações diplomáticas, acordos humanitários e todo o resto, mas que ainda assim continua apoiando a escória da humanidade, inimigos da democracia, contraventores do Direito Internacional.
Talvez não seja estranho, e sim a natureza protototalitária do PT e de seus líderes e militantes.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5180, 9 janeiro 2026, 2 p.

O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump? - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump?

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Consequências geopolíticas do ataque trumpista à Venezuela.

        Começo por revisar o título deste artigo, dedicado às consequências para o Brasil da abdução trumpista do líder chavista da Venezuela, nos primeiros dias de 2026. O conceito de “geopolítica da desordem” tem sido geralmente aplicado ao desmantelamento da ordem construída a partir de Bretton Woods (1944), com seguimento em San Francisco (Carta da ONU, 1945) e em Genebra (acordo do Gatt, 1947), tendo como principal responsável o presidente Trump, desde o primeiro, mas sobretudo no seu atual mandato. Na verdade, essa ordem tem um destruidor bem mais efetivo do que o dirigente americano: Putin. O líder russo vem conduzindo, com especial ímpeto, a destruição dessa ordem política global vigente até há pouco. As sucessivas etapas desse processo desagregador podem ser indicadas.
        Sua obra revisionista começou por um discurso na Dieta russa em 2005, no qual Putin lamentou a dissolução da URSS como tendo sido “a maior catástrofe geopolítica do século XX”. Ela continua por um outro, na Conferência sobre Segurança de Munique, em 2007, quando Putin contesta a ordem global ocidental, que teria pretensões à hegemonia universal, em detrimento, é claro, da Rússia. O projeto alternativo a essa ordem prossegue na prática, pela aliança com a China, na Organização de Cooperação de Xangai. Fundada imediatamente após os ataques terroristas de setembro de 2001 nos Estados Unidos, seu estatuto foi assinado em São Petersburgo, em 2002, tornando-se operacional a partir de 2003, com o objetivo de promover a segurança regional e a cooperação econômica entre seus membros: China, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão e Uzbequistão na origem; vários outros países aderiram desde então, incluindo Índia e Paquistão (2017), Irã (2023) e Bielorrússia (2024).
        Independentemente desses vínculos, Putin começou a criar a sua própria geopolítica da desordem desde 2008, invadindo a Georgia (que tentava aderir à Otan), a Transnístria, em 2010, território da Moldova setentrional, e mais adiante, no seu golpe mais audacioso, aproveitando uma nova revolução na Ucrânia em 2013-14 para se apossar ilegalmente da península da Crimeia, ao mesmo tempo em que usou a população russa do Donbas (Ucrânia oriental) para promover um movimento separatista que levaria, mais adiante à proclamação de duas “novas repúblicas independentes” na região, Donetsk e Luhansk, que, obviamente, só a Rússia de Putin reconheceu. Foram etapas preparatórias à invasão da Ucrânia, o que sempre figurou em sua agenda revisionista, não obstante acordos de garantias firmados pela Rússia.
        Esses avanços agressivos da nova geopolítica de Putin não receberam a devida atenção por parte da comunidade internacional, a não ser, após a tomada da Crimeia, a imposição de sanções moderadas por poucos países ocidentais e sua expulsão do G7-G8, uma admissão feita em 1998, no otimismo da reintegração da Rússia ao mundo ocidental. O Brasil de Dilma Rousseff sequer se dignou a honrar a tradição diplomática brasileira de estrito respeito ao direito internacional, pois a presidente considerou a invasão russa uma “questão interna da Ucrânia”. A geopolítica da desordem já estava, portanto, criada desde meados dos anos 2010, antes até que Putin empenhasse ativamente seu apoio secreto na primeira eleição de Trump, em 2016, presumivelmente convertido em asset russo antes mesmo do fim da URSS.
        No seu primeiro mandato, Trump foi relativamente “moderado”, operando a conversão do Nafta – o tratado de livre comércio entre os EUA, Canadá e México – num acordo tripartite, com muitas restrições protecionistas, assim como a elevação unilateral de tarifas sobre aço e alumínio contra todos os fornecedores externos, inclusive o Brasil. Já tinha demonstrado, então, seu desprezo pelo sistema multilateral de comércio, assim como sua total ignorância do lado operativo do mecanismo aduaneiro, afirmando que milhões de dólares seriam pagos pelos estrangeiros ao Tesouro, quando o são pelos importadores e consumidores americanos. No segundo mandato, a despeito de um documento relativamente robusto, feito pela Heritage Foundation (Project 2025), continuou demonstrando que não possuía nenhuma noção clara de estratégia geopolítica, ainda que o documento fosse um roteiro expressamente preparado para iniciar uma nova ordem global a partir de janeiro de 2025. Todos os novos assessores, à diferença de 2017-2020, acatam sem contestação suas piores loucuras.
        Em 2025 se chegou, finalmente, não apenas a uma geopolítica da desordem, mas a uma verdadeira opção pelo caos, pois é isso o que vem resultando de todas as iniciativas de Trump, nos terrenos econômico, político e militar, nos planos bilateral, multilateral e dos blocos ou alianças nos quais os Estados Unidos participam de maneira mais ampla desde o final da Segunda Guerra Mundial. Observa-se uma curiosa convergência, provavelmente uma submissão pouco secreta, em relação ao primeiro destruidor da ordem mundial, Putin, o personagem mais influente na própria ascensão política de Trump. Isso explica, em grande medida, sua postura em relação à Ucrânia, feita de uma evidente opção pela sua derrota no terreno militar e por um favorecimento inequívoco das demandas russas.
        A opção de Trump por uma ruptura com a trajetória diplomática americana, sempre imperial, mas rigorosamente alinhada às tradições e valores ocidentais, é revelada por inteiro, por vezes de forma cabal, na nova Estratégia Americana de Segurança (2025), em clara oposição às orientações seguidas desde o imediato pós-guerra, em especial no contexto hemisférico e certamente no confronto com os aliados europeus, que são objeto não apenas de seu desdém, mas de uma virtual animosidade. Já efetuei, neste mesmo espaço, uma breve análise da estratégia de Trump para o “quintal” do Hemisfério Ocidental (Será?, 12/12/ 2025; https://revistasera.info/2025/12/a-estrategia-de-trump-para-o-quintal-do-hemisferio-ocidental/). Cabe agora examinar as implicações mais vastas dessa geopolítica do caos.
        Desde os desafios colocados nos anos 1930, quando as potências fascistas europeias empreendiam uma ofensiva em direção da América do Sul – o que motivou uma reação do então hesitante império americano e do próprio regime varguista –, o Brasil e a América do Sul não enfrentavam desafios tão relevantes quanto esse projeto de reconquista hemisférica. Ele não tem precedentes na história do continente, desde a doutrina Monroe original (1823), passando pelo “corolário Roosevelt” (1903), o do Big Stick, empunhado sobretudo no Caribe e na América Central, chegando agora ao mal chamado “corolário Trump” à doutrina Monroe, quando ele é, efetivamente, um retorno à era da colonização do mundo pelas grandes potências. Não se trata apenas de impedir a ação de adversários ou competidores no “quintal hemisférico”, mas de redesenhar o mapa do mundo no sentido do “triunvirato”, projeto examinado em outro artigo aqui mesmo: “Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial” (Será?, 7/11/2025: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/).
        O “ato fundador” da nova geopolítica trumpista pode ter sido a operação de abdução do ditador chavista, mas ela não se deterá provavelmente nesse simples episódio militar, ainda que seus desenvolvimentos sejam ainda imprecisos. Despiciendo examinar a evolução futura do triunvirato imaginado por Trump, que talvez sonhe com uma repetição de Yalta, para discutir as novas zonas de influência sobre o mundo (o que não ocorrerá, não por falta de vontade de Putin, mas por provável oposição de Xi Jinping). Cabe, sim, examinar a postura do Brasil em face dos complexos desafios lançados pelo imprevisível presidente americano. Essa postura pode ser guiada por nossas tradições diplomáticas, bastante bem representadas pelas orientações básicas de uma corporação profissional comprometida fundamentalmente com o interesse nacional, dentro dos parâmetros oferecidos pelo Direito Internacional. Mas ela também precisa levar em conta as novas realidades criadas pelos diktats de Trump.
        Na concepção trumpista, aliados são os países submissos, no continente americano ou na própria Europa, representada por vários iliberais, sem descartar evidentemente a Rússia de Putin, que precisaria ser reintegrada aos negócios do mundo, especialmente em favor da família Trump. Os “inimigos”, por outro lado, ademais dos europeus “decadentes”, são alguns rebeldes do Sul Global, sendo o grande adversário representado pela China. Na perspectiva desse “ato fundador” da geopolítica trumpista, cabe, portanto, examinar os principais atores dessa “novela” venezuelana e as relações do Brasil com cada um deles.
        Nesse campo concreto das relações exteriores do Brasil, os principais atores são, pela ordem: a Venezuela, os Estados Unidos, a China, a Rússia e Cuba. A China é, atualmente, o principal parceiro econômico não só da Venezuela, como do próprio Brasil. A China compra a maior parte do (pouco) petróleo produzido na Venezuela, tendo já investido fortes somas na restauração da sua capacidade produtiva, valores a serem amortizados em petróleo ao longo de décadas à frente. A Rússia é o principal fornecedor de armas ao país caribenho, tendo feito promessas não honradas de garantir sua segurança. O Brasil foi um dos principais parceiros da Venezuela, desde a preeminência chavista no governo e no país, mas perdeu espaços para essas duas grandes autocracias nos últimos anos; ela tem uma enorme dívida, não paga, para com o Brasil, que permanece ainda no limbo. Os EUA, desde o início de 2025, se tornaram o principal ator interno e externo, para o bem e para o mal, para a Venezuela e, também, para o próprio Brasil, sendo que a agenda das ações comerciais e outras, tomadas pelo Big Brother hemisférico, são unilaterais, podendo ser brutais. Cuba será apenas a próxima vítima na lista.
        Não parece haver qualquer perspectiva de alguma unidade na América Latina, no sentido dos países se contraporem aos atos abusivos tomados pelo império recolonizador, tendo em vista a total incapacidade de coordenação no âmbito da Celac, da OEA, ou sequer emergindo a partir de uma hoje inexistente capacidade de liderança brasileira na região. O primeiro gesto do presidente Lula, depois de protestar contra o “sequestro” do ditador venezuelano, foi telefonar para sua sucessora antes mesmo que ela tomasse posse. Sua proximidade política com as duas grandes autocracias do Brics, assim como as íntimas relações do PT com os líderes chavistas são fatores que pesam na falta de credibilidade do presidente brasileiro para qualquer esforço de mediador eventual no tratamento da novela venezuelana.
        Nem a China, nem a Rússia, ademais de protestos puramente retóricos, ousarão criar alguma contenda com os EUA por causa das agruras atuais do país caribenho. Mas a postura do Brasil para com a China e em relação ao drama venezuelano é um dos critérios pelos quais a diplomacia personalista de Lula será vista por Trump e pela equipe trumpista. O fato é que Lula e a diplomacia profissional, independentemente de defenderem, por interesse próprio ou por adesão aos fundamentos doutrinais de uma diplomacia que remonta a Rio Branco e a Rui Barbosa, o primado do Direito Internacional nas relações bilaterais e em foros multilaterais, terão de se haver, doravante, com as investidas da nova geopolítica trumpista da desordem.

Brasília, 7 de janeiro de 2026.
Relação de Publicados n. 1616.


A humanidade caminha muito lentamente - Paulo Roberto de Almeida

A humanidade caminha muito lentamente

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre a persistência da força sobre o direito

        A Humanidade avança muito lentamente, por vezes regride:
        Até o século XX, grandes potências, impérios colonialistas, países militarmente poderosos, podiam impor sua vontade contra povos distantes, ou até vizinhos, em total impunidade, pelos meios os mais brutais, sem qualquer restrição legal ou pruridos morais. Alguns saíram na frente, mas todos aqueles dispondo de tecnologias mais avançadas acabaram seguindo a tendência opressora.
        No século XX, algum relance de ideias humanistas e liberais levou, depois de muita destruição, a alguns exercícios de contenção; o primeiro de forma ainda oligárquica e sempre imperialista, soçobrou em suas contradições e revelou-se inepto.
        Mais algumas dezenas de milhões de mortos, e um novo intento ainda oligárquico tentou recomeçar de maneira mais abrangente.
        Tampouco resistiu às paixões e interesses de candidatos a novos imperadores do mundo, ou pelo menos de suas respectivas regiões.
        Não estamos muito longe da guerra de Troia, das paixões e ambições daqueles que se julgam poderosos.
        Não existe, nunca existiu, algum “cavalo” capaz de encerrar o desejo de conquista desses conquistadores ambiciosos demais para os seus meios e para a tolerância dos cidadãos que pagam os custos e para a resistência dos agredidos.
        Estamos, talvez, no limiar de um novo equilíbrio, como sempre muito precário, até o próximo aventureiro.
        A humanidade caminha muito lentamente e ainda teremos muita miséria pela frente, que emerge da ignorância e das frustrações. A educação é o caminho, mas muito difícil, pois como todos nascemos “0 km” é preciso recomeçar a cada vez, ensinando tudo de novo. Alguns têm essa oportunidade, outros não.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5178, 8 janeiro 2026, 1 p.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Nota sobre a revista 200, elaborada no âmbito do Itamaraty em 2018 - Carlos Henrique Cardim, Paulo Roberto de Almeida

 Revista 200 (2018): número único, nunca distribuída



Nota sobre a revista 200, elaborada no âmbito do Itamaraty em 2018

Em 2017, o Governo Michel Temer criou, por decreto, uma Comissão Nacional do Bicentenário, destinada a preparar as comemorações nacionais vinculadas aos primeiros 200 anos de vida do Estado-nação independente. No âmbito do Itamaraty, sob a condução do Departamento Cultural, o embaixador Carlos Henrique Cardim concebeu e assumiu o encargo de dirigir uma publicação voltada para a divulgação de materiais de caráter histórico e cultural relevantes a esse objetivo. A revista adotou justamente o nome de 200 e seu primeiro número, ricamente ilustrado e contendo artigos originais e reprodução de textos antigos alusivos à história do Brasil, foi ultimado nas últimas semanas de 2018.
Eis o Expediente da revista:
Revista 200, ano I, n. 1, outubro-novembro-dezembro 2018; ISSN: 2596-2280
Grupo de Trabalho do Bicentenário da Independência do Ministério das Relações Exteriores
Ministro Aloysio Nunes; Secretário Geral, Marcos Galvão
Chefe de Gabinete: Eduardo Saboia; Coordenador Adjunto: Carlos Henrique Cardim

Por motivos desconhecidos pela equipe responsável por esse primeiro número, ele não foi distribuído pela administração inaugurada em janeiro de 2019. Seu conteúdo digital encontra-se, porém, disponível na plataforma de interação acadêmica Academia.edu, no seguinte link:
https://www.academia.edu/43900971/Revista_200_n_1_2018_?sm=b&rhid=37260500978
Pela informação:
Carlos Henrique Cardim, embaixador, professor na UnB.
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor universitário.

 



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Paulo Roberto de Almeida: presença física, virtual, digital nos instrumentos de busca, por Airton Dirceu. Lemmertz

 "Aparições" deste contrarianista nos registros implacáveis de Madame IA, instrumentos de busca, registros dos órgão de informação (algum da Polícia?), tal como recolhidos por meu anjo da guarda informático Airton Dirceu Lemmertz:


Durante o ano de 2025 (de 01/01/2025 a 31/12/2025), as aparições do nome "Paulo Roberto de Almeida" nas mídias digitais:

- Livros:
https://www.google.com/search?q=%22Paulo+Roberto+de+Almeida%22&sca_esv=078c3514d761d573&tbs=cdr:1,cd_min:1/1/2025,cd_max:12/31/2025&udm=36&source=lnms&sa=X&ved=2ahUKEwjRiK_RlveRAxVkkJUCHTNTGjEQ0pQJegQIAhAV&biw=1358&bih=654&dpr=1

- Notícias:
https://www.google.com/search?q=%22Paulo+Roberto+de+Almeida%22&sca_esv=078c3514d761d573&biw=1358&bih=654&tbs=cdr%3A1%2Ccd_min%3A1%2F1%2F2025%2Ccd_max%3A12%2F31%2F2025&tbm=nws&ei=ISNdadPRIdLc1sQPgZey6A0&ved=0ahUKEwiT5rrKlveRAxVSrpUCHYGLDN0Q4dUDCA4&uact=5&oq=%22Paulo+Roberto+de+Almeida%22&gs_lp=Egxnd3Mtd2l6LW5ld3MiGiJQYXVsbyBSb2JlcnRvIGRlIEFsbWVpZGEiMgYQABgHGB4yBhAAGAcYHjIGEAAYBxgeMgYQABgHGB4yBhAAGAcYHjIGEAAYBxgeMgYQABgHGB4yBhAAGAcYHjIGEAAYBxgeMgUQABiABEiIRVCNDFiONnAAeACQAQCYAZoBoAG6BaoBAzAuNbgBA8gBAPgBAZgCBaACgQbCAgoQABiABBhDGIoFwgIGEAAYFhgemAMAiAYBkgcDMC41oAeMJLIHAzAuNbgHgQbCBwUyLTIuM8gHN4AIAA&sclient=gws-wiz-news

- YouTube:
https://www.google.com/search?q=%22Paulo+Roberto+de+Almeida%22&sca_esv=078c3514d761d573&udm=7&biw=1358&bih=654&source=lnt&tbs=srcf%3AH4sIAAAAAAAAAC3J0QqAIAxG4bfxJvCdNlsybA70N7Cnj6y783G26QODJSa3oLWDciNbOigJu5cFaMGfO-k5zaFev3VlugX0InILD-227LhTAAAA%2Ccdr%3A1%2Ccd_min%3A1%2F1%2F2025%2Ccd_max%3A12%2F31%2F2025&tbm=#ip=1

- Instagram:
https://www.google.com/search?q=%22Paulo+Roberto+de+Almeida%22&sca_esv=078c3514d761d573&udm=7&tbs=cdr:1,cd_min:1/1/2025,cd_max:12/31/2025,srcf:H4sIAAAAAAAAAC3J0QqAIAxG4bfxJvCdNlsybA70N7Cnj6y783GmDwyWmNzCprWDciNbPCgJu5cFaMGfO-k5zaFev3VlugX0InILD3zrpkdTAAAA&source=lnt&sa=X&ved=2ahUKEwj7z7POlfeRAxWHrJUCHUK6AWgQpwV6BAgEECQ&biw=1358&bih=654&dpr=1#ip=1

- IA (Gemini):
https://www.google.com/search?q=%22Paulo+Roberto+de+Almeida%22&sa=X&sca_esv=078c3514d761d573&udm=50&source=lnms&aep=1&ntc=1&ved=2ahUKEwjj7Pf-lveRAxUIRLgEHekzC5oQ2J8OegQIBBAE&biw=1358&bih=654&dpr=1&mstk=AUtExfAwsvdij4DMOjZ8TOzLKHzQ1aYJGizFXoa2AN4D9EtmlPGFp7gvoTuqKak_bx3C85o-meDhNWoXk1zr7UIrc3QmCC068m1k0tw8UmFGzYZeBF0Hw3ZYJrkg83FgQmzrLdw2Lj0CVfQ6dEjOzIgSBOyb7gza_j_0Olc&csuir=1

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Faltou alguma coisa? Ah, sim, o diretório do SNI no Arquivo Nacional de Brasília, onde estou fichado como "diplomata subversivo"...

Brasileiros na Guerra Civil Espanhola - Juliana Sada e Rodrigo Valente (Le Monde Diplomatique)

Uma matéria do Le Monde Diplomatique de 2017, que me havia passado despercebido: uma das primeiras pesquisas históricas que empreendi, ainda nos anos de chumbo da ditadura militar. PRA
PS: Os autores não citam a bibliografia compulsada, por isso informo os dados relativos a meu artigo a esse respeito (a versão completa, pois que a primeira tinha sido publicada sob outro nome, durante o regime militar):
PS: Os autores não citam a bibliografia compulsada, por isso informo os dados relativos a meu artigo a esse respeito (a versão completa, pois que a primeira tinha sido publicada sob outro nome, durante o regime militar):
“Brasileiros na Guerra Civil Espanhola, 1936-1939: combatentes brasileiros na luta contra o fascismo”, revista Sociologia e Política (Curitiba, PR; ano 4, nº 12, junho 1999, Dossiê: Política Internacional, p. 35-66; ISSN 0104-4478, impressa; 1678-9873, online; links: http://revistas.ufpr.br/rsp/article/view/39262; pdf: http://revistas.ufpr.br/rsp/article/view/39262/24081). Postado no blog Diplomatizzando em 14/09/2016 (link: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2016/09/guerra-civil-espanhola-1936-1939-um.html


UMA HISTÓRIA TECIDA POR IDEAIS, REPRESSÃO E MIGRAÇÕES

Brasileiros na Guerra Civil Espanhola

Ainda que o real impacto e importância das Brigadas na guerra sejam um debate em aberto entre estudiosos, o simbolismo criado por elas é inegável.

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“Foi na Espanha onde a minha geração aprendeu que se pode ter razão e ser derrotado, que a força pode destruir a alma e que, às vezes, a coragem não recebe recompensa”

Albert Camus (1913-1960), escritor francês

 

Raros foram os conflitos armados nos quais a narrativa predominante a entrar para a história acabou centrada nas versões dos derrotados. A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) é provavelmente o caso mais conhecido disso. Para tanto, certamente foi determinante que, poucos anos após a vitória do ditador Francisco Franco sobre governo republicano de esquerda, seus principais aliados nazifascistas do Eixo acabassem derrotados pelos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

A participação ativa das principais potências europeias, aliás, marcou de forma decisiva o conflito espanhol, considerado um ensaio geral da Grande Guerra. Pouco tempo após o levante militar de julho de 1936, que tentou sem sucesso derrubar o governo de esquerda e foi o estopim do início da Guerra Civil, Alemanha e Itália já apoiavam fortemente os sublevados, enquanto a União Soviética e, em menor escala, a França colaboravam com o governo republicano. Por sua vez, a Inglaterra encabeçou uma proposta de não intervenção internacional, o que na prática favoreceu os insurgentes, que depois ficariam conhecidos como nacionalistas.

A internacionalização do conflito também foi marcada pela mobilização global de pessoas antifascistas em defesa da República espanhola, seja organizando campanhas de arrecadação de fundos e de propaganda em seus países, seja participando diretamente da guerra, principalmente por meio das Brigadas Internacionais. “Milhares de cidadãos do mundo inteiro entendiam que, em solo espanhol, se determinava o futuro da humanidade”, considera Ismara Izepe de Souza, pesquisadora da Unifesp.

Como aconteceu em boa parte do mundo, o conflito espanhol chegou com intensidade ao Brasil, gerando grande agitação na esquerda e entre a numerosa comunidade espanhola no país, além de alarmar o governo de Getúlio Vargas. Entre o enorme contingente de voluntários que lutou na Guerra Civil, a presença de brasileiros é relativamente pequena, embora possa ser considerada significativa pelas qualidades militares de alguns de seus combatentes.

Ainda que, desde a década de 1970, pesquisadores como José Carlos Sebe Bom Meihy, Paulo Roberto de Almeida, Thaís Battibugli e Ismara Izepe de Souza tenham se dedicado a estudar o tema, a participação desses compatriotas em um dos conflitos mais importantes do século XX é bastante desconhecida no Brasil. Tais pesquisas acabaram se centrando no grupo de voluntários próximos ao Partido Comunista do Brasil (PCB), mas a participação brasileira foi mais ampla. Em seu recém-finalizado doutorado, a pesquisadora Eliane Venturini de Oliveira trabalhou a partir da investigação de arquivos e documentos espanhóis e traz uma série de novidades.

A historiadora defende que o envolvimento brasileiro teria sido maior do que se imaginava, totalizando pelo menos 78 pessoas. Além do grupo do PCB, a participação brasileira ao lado da República incluiria um número considerável de estrangeiros que viviam no Brasil e haviam sido expulsos por perseguição política. A pesquisadora revela ainda o envolvimento de treze brasileiros no bando rebelde, informação até então praticamente desconhecida. Para Eliane, o número pode ultrapassar os cem voluntários, mas a falta de informações sobre diversos nomes encontrados requer cautela. “Alguns são questionáveis porque podem ter falado que eram brasileiros para tentar escapar do campo de concentração da França ou para vir para o Brasil e não ficar na Espanha”, explica.

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Milhares de voluntários contra o fascismo

A criação das Brigadas foi uma iniciativa da 3ª Internacional e de partidos comunistas de vários países, em negociação com o governo republicano, para organizar voluntários que desejassem lutar na Espanha. “O mundo está diante da ameaça fascista e a Espanha é hoje o principal bastião contra esse perigo comum. Ajudá-la é, com toda a certeza, dever primordial do militante”, escreve Apolonio de Carvalho em seu livro de memórias Vale a pena sonhar, ao lembrar o convite recebido para se engajar no conflito.

Constituídas oficialmente em 22 de outubro de 1936, em pouco tempo, as Brigadas contavam com milhares de estrangeiros de mais de cinquenta países. Já em dezembro, os voluntários participariam da heroica defesa de Madri, onde os insurgentes foram barrados às portas da capital, a qual só conquistariam ao final do conflito. Acredita-se que o número total de voluntários seria em torno de 40 mil, dos quais cerca de um quarto pode ter morrido em combate. A grande maioria era de nações europeias, principalmente França, Polônia, Itália, Alemanha e Bélgica. No continente americano, o Brasil seria o sétimo país que mais voluntários enviou, atrás de Estados Unidos, Canadá, México, Venezuela, Cuba e Argentina.

A maioria dos estrangeiros chegava à Espanha a partir da França. Muitos viajavam até Paris ou Marselha e, de lá, realizavam os procedimentos necessários para ingressar no país em guerra por terra ou mar. As próprias autoridades espanholas facilitavam documentos falsos para permitir a circulação dos brigadistas, o que, inclusive, até hoje impossibilita a correta identificação de centenas de combatentes.

Ao chegar a Barcelona ou Valência, os voluntários eram encaminhados para a sede das Brigadas, em Albacete, local de treinamento e a partir de onde se partia para as frentes de batalha. Tal cidade ficaria marcada pela intensa presença de organismos estatais de informação e repressão, controlados pelo Partido Comunista Espanhol (PCE) e por agentes soviéticos, inquietos com infiltrados nacionalistas e com o cumprimento das diretrizes de Moscou. “O PCE preocupava-se em ter um atestado de bons antecedentes dos candidatos a voluntários”, relata Thaís Battibugli no livro A solidariedade antifascista. A pesquisadora considera que as ações disciplinares e políticas – que geraram, inclusive, muitas execuções sumárias – representam um episódio extremamente negativo na história das Brigadas.

 

Brasileiros se mobilizam pela República

A convocatória internacional para lutar ao lado da República espanhola encontrou uma situação delicada e ao mesmo tempo fértil no Brasil. Após a malograda tentativa de insurreição em 1935, que ficou conhecida como Intentona Comunista, tanto o PCB como sua frente de massas, a Aliança Nacional Libertadora (ANL), sofreram uma duríssima perseguição do governo Vargas. Nesse contexto, muitos comunistas estavam presos ou fugindo da repressão. É essa impossibilidade de seguir ativo que leva alguns militantes a optar pela Espanha. “Foi a alternativa que eles teriam para não voltar a ser presos no Brasil, única saída para se sentirem úteis e lutando”, explica Battibugli.

A orientação da 3ª Internacional era de que cada partido deveria enviar cem voluntários à Espanha, o que foi inviável para um debilitado PCB. Ao final, conseguiu-se recrutar cerca de vinte militantes, a maioria com uma boa formação militar. No entanto, uma pequena parte, ao chegar à França, acabou desistindo por conta de divergências, como não poder atuar na aviação ou a falta de assistência às famílias em caso de morte. Tal postura sofreu pesadas críticas, já que, à época, era gravíssimo desrespeitar uma decisão do Partido.

O episódio conhecido como “macedada” foi decisivo para possibilitar a ida de muitos dos voluntários comunistas à Espanha. Em 1937, com o fim do estado de guerra decretado por Getúlio Vargas e diante da negativa do Congresso em renová-lo, o então ministro da Justiça, José Carlos de Macedo Soares, se viu na obrigação constitucional de atender aos pedidos de habeas corpus dos presos políticos sem processo judicial. Dessa forma, em maio, centenas de presos foram libertados, inclusive dez futuros brigadistas. Os caminhos empreendidos para cruzar o Atlântico foram diversos. Alguns partiram em navios diretamente do Brasil, enquanto outros passaram por Uruguai e Argentina. “O Partido facilitou no quesito de documentação, mas os recursos para eles chegarem até a França foram de doações espontâneas, entre eles, de simpatizantes”, esclarece Eliane Venturini.

Ainda que pequeno, o grupo de quase vinte brasileiros ligados ao PCB e à ANL teve participação marcante na guerra já que a maioria era militar de formação. Isso possibilitou que muitos alcançassem cargos de comando não só nas Brigadas, como também no Exército Republicano, que carecia de oficiais com experiência. Esse foi o caso, por exemplo, de Apolonio de Carvalho, José Gay da Cunha e Carlos da Costa Leite, que lideraram centenas de combatentes. “Não é uma participação quantitativa, mas qualitativa: eles foram com know-how militar”, aponta Battibugli. Isso era um importante diferencial já que a maioria dos brigadistas não tinha tal formação.

Venturini ainda detectou outros dez brasileiros que se juntaram à defesa da República. Destes, sete haviam emigrado para a Espanha e já estavam lá quando se iniciou o conflito. As razões para o envolvimento são diversas. O paulista Luís Oms Florenza, por exemplo, relatou ter se alistado no Exército porque estava sem trabalho à época. Assim como ele, muitos eram trabalhadores ligados às centrais sindicais socialista e anarquista, fundamentais na organização da resistência popular ao levante militar.

Enquanto a República contou com voluntários extremamente motivados mas com poucos recursos, o lado nacionalista recebeu apoio maciço de Hitler e Mussolini. O número de militares italianos na Espanha chegava aos 50 mil, cifra superior ao dos brigadistas. Além disso, os italianos instalaram, com a permissão de Franco, uma base aérea na ilha de Mallorca, a partir de onde bombardeavam importantes cidades como Barcelona, Valência e Múrcia. A colaboração alemã, por sua vez, foi menos numerosa, mas de grande qualidade técnica e militar. Sua aviação foi responsável, por exemplo, pelo histórico bombardeio que arrasou a cidade de Guernica. A intervenção dos países do Eixo acabaria sendo determinante para a vitória nacionalista.

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Voluntários no bando rebelde

Enquanto a atuação do grupo organizado pelo PCB se tornou conhecida e pesquisada, sabia-se muito pouco sobre a participação de brasileiros no bando nacionalista. A informação dos treze que teriam lutado ao lado dos rebeldes demorou quase oitenta anos para ser conhecida. Isso se deve, em parte, ao fato de que nenhum deles teria retornado ao Brasil.

Existem poucos documentos que explicam a participação e o destino desses voluntários. As principais informações encontradas por Venturini têm origem nas fichas de alistamento na Legião Espanhola – unidade do Exército criada em 1920 que teve Franco como um dos primeiros comandantes. Dos brasileiros que foram à Espanha, onze alistaram-se na Legião e dois em milícias da Falange, o partido fascista espanhol.

“Sobre os brasileiros do lado do Franco, eu consegui puxar o fio da meada no Arquivo Militar de Ávila, onde tinha a lista desse pessoal”, explica Venturini, relembrando as dificuldades para encontrar os documentos no local, um arquivo que contém informações mais técnicas da guerra e sobre o funcionamento do Exército. A lista encontrada com os nomes dos brasileiros alistados tinha poucos dados. “Então escrevi para a Legião para pedir uma orientação de onde eu poderia ir e eles me mandaram de presente todos os fichários deles. Claro que eu quase enfartei quando vi aquilo!”, recorda.

A maioria dos brasileiros que se envolveu no bando nacionalista era descendente de espanhóis e já vivia na Espanha ou em Portugal quando a guerra teve início. Pela escassa documentação das fichas de alistamento, a pesquisadora deduz que dois poderiam ter saído do Brasil direto para a guerra, mas por ora é apenas uma hipótese. Dessa forma, não seria possível falar em envio organizado de brasileiros para combater ao lado dos rebeldes.

O primeiro brasileiro a se alistar teria sido Juan Fernández, em agosto de 1936, e não há informações de que residia na Espanha, o que pode indicar que teria ido à Europa para combater. Outros se alistaram ao longo de 1937 e até princípios de 1938. Em geral, os voluntários não eram militares de formação e trabalhavam no campo ou como motorista, mecânico e engraxate. Dos que se tem informação, é possível constatar que três morreram durante o conflito.

O desconhecimento sobre a participação de brasileiros no bando rebelde também pode ser explicado pelo fato de que a proximidade com o fascismo pode ter gerado algum tipo de constrangimento. “Talvez não quisessem contar suas histórias por terem lutado de um lado que venceu a guerra da Espanha, mas o fascismo perdeu no mundo”, pondera Venturini, que tentou contatar um deles. “Ele estava com mais de 90 anos e não tinha a possibilidade de me conceder uma entrevista”, relata ao se referir a Dario Infiesta Alonso, que vive na região espanhola da Galícia.

 

Expulsos do Brasil escolhem a República

A participação brasileira ainda pode ser completada pelos imigrantes expulsos do país pelo governo Vargas. Em um contexto de severa política de perseguição aos estrangeiros durante a década de 1930, muitos passaram a ser vistos como “indesejáveis” pelo Estado, que utilizava uma política de expulsão como forma de controlar a significativa comunidade. “Muitos estrangeiros que foram expulsos já haviam tido experiência política em seus países de origem. Segundo as vozes oficiais, deveriam ser mantidos sob constante vigilância uma vez que a propagação de suas ideias poderia desestabilizar a ordem instituída”, explica a pesquisadora da UFABC Mariana Cardoso dos Santos Ribeiro.

Nesse contexto, os espanhóis de esquerda seriam alvo preferencial do governo Vargas. “Muitos foram forçados a retornar ao seu país, por serem ‘indesejáveis’ às elites políticas e aos patrões que temiam quaisquer movimentos de contestação”, revela Ismara Izepe de Souza. “A resposta [do governo] se resumia a uma única palavra, que mudaria radicalmente o destino de milhares de estrangeiros radicados no Brasil: expulsão.”

O resultado da perseguição é que, de 1930 até 1945, foram expulsos, segundo dados oficiais, 671 estrangeiros. Isso atingiria especialmente a comunidade espanhola, com 101 expulsos, atrás apenas da portuguesa. Os dados foram reunidos por Mariana Ribeiro, que considera o número “ínfimo” diante da quantidade de presos e processos instaurados, suspeitando que havia uma prática de expulsões extraoficiais. A pesquisadora explica que raramente havia possibilidade de defesa e que, no período, nenhum decreto de expulsão foi anulado. “Em regra, todos que foram considerados ‘nocivos’ por demonstrar afinidade com ideias de esquerda, ou, simplesmente por proferir crítica ao governo foram expulsos”, revela.

A pesquisa realizada por Venturini estima que 39 estrangeiros expulsos tenham sido incorporados pelas fileiras republicanas. Nas documentações, esses personagens são identificados como “brasileiros”, em geral por estarem vivendo no país anteriormente à guerra, mesmo que alguns tivessem migrado ainda quando criança. Apesar de a grande maioria ser espanhola, também havia dois italianos, um alemão, um tcheco e um romeno. Além disso, faziam parte do grupo duas mulheres: a lituana Ida Chazan e a espanhola Julia Garcia y Garcia, que atuaram na retaguarda.

Possivelmente, a única exceção à expulsão seja Libero Battistelli, que morava no Rio de Janeiro como exilado do regime de Mussolini. O italiano embarcou voluntariamente para a Espanha em setembro de 1936, onde comandaria a bateria de artilharia Colona Italiana e depois um batalhão da Brigada Garibaldi. Esse agrupamento, inclusive, reuniu alguns brasileiros por conta da similaridade das línguas, divisão recorrente nas Brigadas. Ferido em um combate na província de Aragão, Battistelli falece em junho de 1937.

O pouco que se sabe sobre a atuação desses voluntários vem principalmente da documentação mantida pelo Partido Comunista de Espanha (PCE), que possuía fichas de recrutamento e desmobilização de todos os brigadistas. Em geral, há informações sobre a procedência, observações sobre a orientação política e comentários genéricos sobre a atuação, como “bom antifascista”, “politicamente indiferente” e “um pouco reclamão”. Ao acabar a guerra, tais fichas foram enviadas à União Soviética, já que continham informações estratégicas. A documentação só viria a público com o fim da URSS e, no Brasil, o Arquivo Edgard Leuenroth mantém cópia do material referente aos brasileiros.

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Da Guerra Civil à Guerra Mundial

O destino dos voluntários após o término da Guerra Civil Espanhola, em abril de 1939, não foi fácil. A maioria, assim como cerca de 450 mil espanhóis, cruzou os Pireneus em busca de refúgio na França. “Esperávamos tratamento de asilados políticos. Ilusão – éramos prisioneiros de guerra”, relata em suas memórias Apolonio de Carvalho. Ao entrarem na França, os republicanos eram encaminhados a precários campos de “acolhida”, espalhados à beira do Mediterrâneo ou nos Pireneus. Apolonio descreve o campo de Argelès-sur-Mer como uma vastidão fria. “Para enfrentarmos a inclemência do inverno, as autoridades forneceram-nos cobertores e uma recomendação – cavar na areia buracos fundos, que nos servissem de proteção diante da fria brisa marinha”, relembra.

Muitos brasileiros nos campos de prisioneiros contaram com o apoio das autoridades do país na Espanha e na França para obter os documentos e conseguir ser repatriados. Além deles, estrangeiros que viviam no Brasil antes da guerra buscavam esse apoio diplomático para deixar os campos e retornar ao país. Muitos não tiveram alternativa a não ser fugir dos campos.

As autoridades francesas ainda ofereceram aos brigadistas e militares republicanos outra opção para sair dos campos. Com a Segunda Guerra já deflagrada, os militares franceses tentaram alistar os ex-combatentes na Legião Estrangeira, na qual manteriam a mesma patente. A proposta teria sido recusada pelos brasileiros, que a consideravam uma força de repressão colonial.

A possibilidade de retornar não era a primeira opção para todos, já que alguns dos voluntários estavam condenados no Brasil. Inclusive, com o fim do conflito, as autoridades brasileiras já se preocupavam em vigiar os brigadistas, em especial os condenados por 35. Para alguns, então, a saída foi ir para outro país – caso de Dinarco Reis, que foi para a Venezuela para tentar entrar clandestinamente no Brasil. A solução encontrada foi bastante inusitada: misturar-se a um grupo de náufragos brasileiros em Trinidad, já que as autoridades não pediam documentos a esses indivíduos.

Um grupo que ainda permanecia na França quando da invasão alemã, em 1940, se engajou na Resistência. Essa foi a trajetória do judeu romeno Wolf Reutberg, um dos estrangeiros expulsos do Brasil. Ao ser detido por alemães em 1944, foi fuzilado. Já Apolonio chegou a comandar uma tropa de quase 2 mil pessoas, que apoiou a libertação do sudoeste do país em 1944.

Do Brasil, Carlos da Costa Leite, David Capistrano da Costa e outros comunistas buscaram se engajar na Segunda Guerra Mundial. O grupo se apresentou como voluntário para integrar a Força Expedicionária Brasileira (FEB) na luta contra o Eixo. No entanto, foram imediatamente presos, pois estavam condenados pela Intentona Comunista. A detenção duraria até 1945, quando houve uma anistia. Destino similar atingiria outros brigadistas.

Dos estrangeiros expulsos do Brasil, alguns retornariam no pós-guerra, já que a ligação com o país era grande. Alguns tinham familiares no país, inclusive, filhos; enquanto outros haviam imigrado quando criança e, portanto, passado quase toda sua vida no Brasil. Retornaram, com ajuda de autoridades brasileiras no exterior, José Sanches Sanches, Arno Roesch e Ramon Ruiz Martin, entre outros. No entanto, documentos mostram que mais pessoas solicitaram ajuda para voltar e não obtiveram, como Ernest York, judeu alemão, que terminaria morto em um campo de concentração nazista.

 

Trajetória política prolongada

Parte do grupo ligado ao PCB ainda manteve uma ativa militância nas décadas seguintes no Brasil. Mesmo com a anistia concedida aos presos políticos e o fim do governo Vargas, em 1945, o contexto de Guerra Fria e anticomunismo não permitiram tranquilidade aos ex-voluntários. “O simples fato de ter lutado na guerra o rotulava de maneira profunda. Isso dificultou muito a vida desse pessoal”, explica Venturini.

A situação piora com a entrada do PCB na ilegalidade em 1947, o que obriga alguns de seus militantes a viverem longos períodos de clandestinidade. Em suas memórias, Apolonio relata o sofrimento passado no período: “sob a clandestinidade, vou conhecer um isolamento político extremo: como que desterrado dentro de meu próprio país, banido da sociedade em que sonhava reintegrar-me após dez anos de ausência”.

Com o golpe militar de 1964, a máquina repressiva foi posta em movimento com intensidade. “Continua a mesma lógica de perseguição. Os que foram para a Espanha e eram comunistas viram alvo”, revela Thaís Battibugli. “Eles eram conhecidos da polícia política e desses militares que deram o golpe – que eram jovens militares quando eles foram para a Espanha”. A pesquisadora explica que a estrutura repressiva do período Vargas não foi desmantelada pelos governos seguintes e acabou rapidamente rearticulada pelo regime militar.

Ela exemplifica com o caso de José Homem Correia de Sá, “mesmo afastado da política desde a década de 1940, foi preso duas vezes durante o regime militar”. Quando do golpe, Correia é convocado a depor, assim como outros conhecidos comunistas, e, em 1970, é acusado de ajudar perseguidos políticos – de fato, havia escondido os filhos dos ex-companheiros de Espanha, Apolonio e Capistrano, que teria um destino trágico nas mãos da ditadura: sequestrado em 1974, o militante comunista teria sido torturado e executado, e hoje se soma à lista de desaparecidos políticos do período.

Tardiamente, muitas das trajetórias foram reconhecidas e exaltadas. Em 1996, houve uma homenagem aos brigadistas na Espanha, com a presença de mais de trezentos voluntários, inclusive alguns dos brasileiros. No Brasil, muitos dos que haviam sido expulsos do Exército em 1935 foram reincorporados à instituição com o fim da ditadura, em 1988, recebendo a patente que teriam caso a carreira não tivesse sido interrompida.

Ainda que o real impacto e importância das Brigadas na guerra sejam um debate em aberto entre estudiosos, o simbolismo criado por elas é inegável. O envolvimento de milhares de estrangeiros em um conflito que não era diretamente seu, mas também o era pelo compartilhado sentimento antifascista, até hoje é um dos mais notáveis exemplos de solidariedade internacional. Internamente, o fim da guerra significaria o começo de outro difícil período para os espanhois. Até 1975, Franco esteve no poder e manteve a Espanha numa ditadura de contornos fascistas de muitas formas anacrônica na Europa. Enquanto isso, as histórias de muitos voluntários se espalharam pelo mundo e algumas ganharam tons heroicos, ajudando a propagar um sentimento de orgulho e nobreza, mesmo diante da derrota.

 


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Conheça mais sobre alguns dos brasileiros que lutaram na Espanha

Alberto Besouchet. Um dos primeiros brasileiros a ir para a Espanha já em julho de 1936, Besouchet era militar e membro da ANL. Acredita-se que tenha composto as milícias do POUM – partido marxista anti-estalinista – e, posteriormente, o Exército ou as Brigadas. Há relatos contraditórios de que teria sido morto em 1937 ou em 1938, em ambos os casos como consequência da perseguição comunista ao POUM. Em suas memórias, Apolonio de Carvalho exalta sua figura: “nada poderá apagar, contudo, a imagem desse comunista culto, modesto e bravo como poucos”.

 

Nemo Canabarro Lucas. Preso pela sua participação na sublevação de 1935 e solto pela chamada “macedada”, o capitão do Exército desembarcou na Espanha em abril de 1938. Canabarro chegou a comandar uma brigada do Exército Republicano composta por 4 mil espanhóis, sendo ele o único estrangeiro. Após se exilar na França, consegue retornar prontamente ao Brasil em março de 1939 e é detido por dois dias logo ao chegar. Canabarro se dedicou ao jornalismo – sendo enviado para Europa para cobrir a Segunda Guerra Mundial – e seguiu atuante politicamente, mesmo se afastando do PCB.

 

Feliciano de Rodrigo Gonzalez. Um dos brasileiros que se juntou ao bando rebelde, Gonzalez era paulista e havia nascido em 1915. O jovem estudante de 22 anos se alistou na Legião Espanhola em janeiro de 1937 e foi ferido duas vezes em combate. Ao final da guerra permanece na Espanha vivendo em Cáceres e posteriormente em Madri. Recebeu a medalha “sofrimentos pela pátria” em 1941.

 

Manuel Fernandéz Fernandéz. O paulista, nascido em 1905, vivia no povoado espanhol de Ávila desde 1924 trabalhando como barbeiro. Já havia participado de vários combates durante a Guerra Civil quando se filiou à UGT, central sindical de influência socialista em 1938. Sobre sua atuação, documentos do PCE registram que era um “antifascista sincero” e que “não tinha nada de consciência de classe”.

 

Odilo Fernandez Freire. Pouquíssimo se sabe sobre a trajetória desse jovem carpinteiro que havia migrado ao Brasil. Nascido na região de Ourense, na Galícia, Freire estava de volta à sua terra natal quando foi condenado à morte pelos rebeldes. Apesar das próprias autoridades franquistas no Brasil, aonde vivia sua família, terem pedido uma alteração de sua pena, Freire foi fuzilado em março de 1938, aos 33 anos, em Ourense.

 

Roberto Morena. Um dos civis comunistas que foi à Espanha, Morena, junto com Carlos da Costa Leite, foi responsável por organizar a ida dos brigadistas. Lá, o dirigente não foi para frente de batalha, permanecendo na retaguarda trabalhando para o PCE. O dirigente ainda estava na Espanha após um mês do final do conflito em 1939 e foi o único estrangeiro a embarcar no último navio rumo à Argélia, onde ficou num campo de prisioneiros. De volta ao Brasil em 1943, mantém intensa atividade como líder sindical e é eleito deputado federal em 1950 pelo Partido Republicano Trabalhista (PRT). Com o início da ditadura militar, perdeu seus direitos políticos e se exilou no Uruguai, depois no Chile e, finalmente, na Tchecoslováquia, onde falece em 1978.

 

Eneas Jorge de Andrade. Libertado pela “macedada”, Andrade partiu para a Espanha, de maneira ilegal, junto a outros comunistas em 1937. Sua passagem – assim como de Davi Capistrano – foi financiada pelo Comitê Americano de Ajuda ao Povo Espanhol. Foi o único aviador brasileiro a pilotar no conflito, já que a grande quantidade de aviadores redirecionou muitos para outras tarefas. Faleceria em 1938 em um combate aéreo sobre Zaragoza.

 

Ida Chazan (ou Sasam) – também chamada de Helena Lazerovitz ou Elena Chaceneite. A jovem lituana era uma operária de ativa militância política. Por esse motivo já havia sido presa em seu país de origem e voltaria a ser detida por quase um ano, dessa vez no Brasil. Expulsa do país, embarca para a Espanha, em junho de 1937, onde trabalha em hospitais. Nos três países nos quais vive, Ida se filia ao partido comunista local. Não se sabe qual foi seu destino após o fim da guerra.


*Juliana Sada Rodrigo Valente são jornalistas.

{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 115  – fevereiro de 2017}


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

 Um trabalho mais do que atual:


5104. “Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial”, Brasília, 2 novembro 2025, 4 p. Revista Será? (ano XIV, n. 683, 7/11/2025, link: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/; divulgado no blog Diplomatizzando (9/11/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no.html . Relação de Publicados n. 1601.

Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial


Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Artigo publicado na revista Será? Revista Será? (ano XIV, n. 683, 7/11/2025, link: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/ ).


As relações internacionais nunca foram um arremedo da famosa paz kantiana, pela simples razão de que o mundo nunca exibiu uma maioria de Estados republicanos, ou seja, governos baseados numa ordem legal fundada em regras aceitas por todos, a partir de regimes constitucionais estáveis, exibindo compromissos aquiescentes aos tratados internacionais. O mais avançado deles, a Carta das Nações Unidas, preservou o sistema oligárquico que é típico da maioria quase absoluta das nações organizadas politicamente, e que foi, no plano mundial, parcialmente controlado, justamente, pelos cinco supostos garantidores da ordem internacional, mas que a violaram mais frequentemente, mediante ações unilaterais de cunho tradicionalmente imperial, isto é, a manutenção de zonas de influência e de dominação econômica, política e militar. Outros compromissos relevantes, como por exemplo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, são solenemente ignorados por Estados, geralmente autoritários, que contornam impunemente seus principais dispositivos.
Não obstante, durante aproximadamente meio século foram poucas as tensões diretas entre as grandes potências durante a primeira Guerra Fria, a exemplo de episódios como o da crise dos mísseis soviéticos em Cuba (1962), a instalação de mísseis balísticos dos dois lados da “Cortina de Ferro” nos anos 1980, a guerra do Vietnã, além dos tratados de limitação de armas de alcance estratégico. Sempre foram mais comuns, justamente, as guerras por procuração, ou ações unilaterais mal calculadas, como a invasão soviética do Afeganistão (1979) ou a de Bush filho guerra contra o regime de Saddam Hussein (2003), que criou um desastre ainda não de todo equacionado no Oriente Médio. No entanto, cabe demarcar alguns episódios que sinalizaram mudanças graduais no equilíbrio entre as grandes potências.
No início dos anos 1970, Kissinger e Nixon alteraram a balança de poder, ao fazer uma aliança tácita com a China de Mao contra o inimigo comum: a União Soviética. A “aliança” perdurou até a incorporação da China de Deng ao sistema multilateral de comércio, via adesão ao Gatt e seu ingresso na OMC, em 2001 (depois de 14 anos de negociações). Os falcões de Washington imaginavam que, com isso, a China evoluiria para um sistema político de tipo liberal. Ao mesmo tempo, eles implementaram contra ela a mesma política de contenção que já tinha sido feita com relação à União Soviética durante a Guerra Fria, de 1947 a 1991. O impossível containment da China teve um lado trágico, que foi o bombardeio americano da embaixada chinesa em Belgrado, no quadro da contenção da Sérvia na sua política repressiva contra o Kossovo, em 1999. A China vinha percebendo que, a despeito de facilitar seu acesso aos organismos multilaterais da ordem liberal, os EUA pretendiam ditar condições, que por acaso se confundiam com a manutenção de sua própria hegemonia.
Foi quando ascendeu na política russa um antigo quadro do KGB, Putin, decidido a restaurar o que afirmou, em discurso na Dieta russa em 2005, ter sido a maior “tragédia geopolítica do século XX”, para ele a “dissolução da União Soviética” Em 2007, estabeleceu sua visão das relações internacionais, em um discurso na conferência sobre segurança de Munique, em torno de uma “nova ordem global multipolar”. China e Rússia já tinham se aproximado no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai, criada por iniciativa da China em 2001, para combater o terrorismo, o separatismo e o extremismo na região, compreendendo, inicialmente, a própria China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão; aderiram mais tarde a Índia e o Paquistão (2017), o Irã (2023) e a Bielorrússia (2024), constituindo, assim, uma das maiores organizações regionais do mundo em termos de área e população. Segundo seus próprios promotores, a OCX busca promover uma governança mundial alternativa e atua como um contrapeso a blocos ocidentais, como a OTAN. Em paralelo pode-se colocar o BRIC (2006-2009), com Brasil, Rússia, Índia e China, que incorporou a África do Sul em 2011, passando a ser BRICS, mais recentemente ampliado para onze membros efetivos e outros nove associados no BRICS+.
Os eventos politicamente mais impactantes no sentido de uma nova turbulência nas relações internacionais foram a invasão por tropas russas de duas províncias setentrionais da Georgia em 2008, e da Transnístria, na Moldova em 2010, assim como a invasão e anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia em 2014, o que justamente resultou na expulsão da Rússia do G8 – formado politicamente em 1998 – e na introdução de sanções econômicas e diplomáticas por diversos países ocidentais (mas não pelo Brasil, cabe ressaltar). Pode-se dizer que foi Putin quem começou o desmantelamento do sistema político multilateral do pós-guerra, que teve desenvolvimentos surpreendentes a partir de 2022, quando teve início, em fevereiro, o anúncio da “aliança sem limites” entre a China e a Rússia, seguida, logo depois, pela invasão da Ucrânia por esta última, numa guerra de agressão claramente violadora do principal artigo da Carta da ONU, a guerra de agressão justamente.
Novas e mais duras sanções, conformes à letra e o espírito da Carta da ONU, foram implementadas por grande número de países contra a Rússia, embora o Brasil não as acate, pela justificativa formal de que não são multilaterais (em virtude do veto abusivo pelo membro agressor. De 2008 até o presente, o sistema internacional enfrenta as mais graves rupturas da ordem mundial, chamada desdenhosamente de “ocidental” por parte daqueles que pretendem inaugurar uma mal definida “nova ordem global multilateral”, anunciada por Putin e Xi Jinping, e prontamente aceita pelo presidente Lula (mas não pela diplomacia profissional brasileira, que também não foi responsável, esclareça-se, pelas ampliações sucessivas do BRIC até o atual BRICS+).
Depois dessas rupturas político-militares da ordem internacional, começa uma ruptura paralela da ordem econômica mundial, por iniciativa de Trump 2. Este começa num tom desafiador, que se impõe de modo bem mais amplo do que quando de seu primeiro mandato. O gesto mais espetacular, depois de ensaios caóticos, foi o “Dia da Liberação”, em abril de 2025, quando tem início sua “guerra de agressão tarifária”, consistindo na recusa da secular cláusula de nação mais favorecida e no desmantelamento tentativo do sistema multilateral de comércio, tal como estabelecido a partir de 1947 e institucionalizado em 1994.
Seu unilateralismo agressivo se desdobra igualmente no apoio a Israel, na ofensiva para “liberar” a Faixa de Gaza do Hamas, além do brutal recurso aberto à intimidação militar contra supostos inimigos dos EUA, entre estes o Irã e a Venezuela. O Irã já foi objeto de um “bombardeio corretivo”, ao passo que a Venezuela está em compasso de espera por algum ataque direto. Para responder ao projeto de uma “nova ordem global multipolar”, vagamente apresentada por seus dois principais contendores, Trump ainda não formalizou qualquer projeto seu, tendente a uma nova ordem global fundada numa “Pax Americana 2.0”.
Não creio que exista qualquer proposta aceitável para a construção de uma nova ordem liberal internacional, quando o que Trump visa, prioritariamente, são os seus próprios negócios e os da sua família. Por outro lado, as ações de Putin e de Xi Jinping podem corresponder a uma “certa ideia” do multilateralismo, mas unicamente do ponto de vista dos interesses nacionais dos dois Estados, que por sinal não especificaram, até o momento, a qual tipo de “nova ordem global multipolar” se refere a proposta feita por ambos, que seria, previsivelmente, modificadora da presente ordem política e econômica internacional.
Em resumo, não existe bola de cristal disponível para saber como vai evoluir a atual desordem internacional, em virtude das várias incertezas e dos imponderáveis que cercam as atitudes dos “fabricantes” de guerra, dos aventureiros expansionistas, dos “contempladores” relativamente impotentes em face dos três grandes – que são as potências médias, incluindo aqui a União Europeia, associados do G7 (Canadá e Japão), certamente a Índia e o Brasil e alguns poucos do tal de Sul Global, inexistente na prática – em face das várias crises e guerras em curso, já presentes na agenda internacional: (a) a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia; (b) a “limpeza” da Faixa de Gaza e o condomínio incerto entre Trump e Netanyahu em torno do futuro de todo o Oriente Próximo; (c) o ainda mais incerto futuro de Taiwan, entre ameaças chinesas e o duvidoso engajamento dos EUA em sua defesa.
Outras aventuras podem se apresentar no que ainda resta do mandato do candidato a imperador mundial (que só deve durar até 2028), talvez em 2027 (que corresponde ao final hipotético do terceiro mandato do novo Imperador do Meio) e não se sabe até quando no caso do neoczar, que não consegue terminar sua Operação Militar Especial, planejada para ser breve. Nada disso entra no multilateralismo, pois tanto a ONU quanto a OMC, assim como o próprio diálogo entre esses dirigentes imperiais, se encontram num estado de paralisia construída precipuamente por eles mesmos, que não possuem nenhuma agenda consensual para fazer funcionar a presente ordem ou qualquer outra que possam acordar entre eles.
Imagino que o vaidoso Trump, em sua ignorante megalomania, adoraria dispor de um retrato similar, se não semelhante, à famosa foto do encontro entre os três grandes em fevereiro de 1945 em Yalta: Churchill, Roosevelt e Stalin, trocando o clichê por ele próprio, ao lado de Putin e Xi. Não creio que este último toparia uma nova conferência a três para dividir o mundo, e os seus assuntos preferenciais, numa paridade totalmente irrealista, na ausência de uma crise terminal da presente ordem mundial.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5104, 2 outubro 2025, 4 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (9/11/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no.html).

sábado, 3 de janeiro de 2026

A prioridade errada nas reportagens sobre a Venezuela - Paulo Roberto de Almeida

A prioridade errada nas reportagens sobre a Venezuela

        A mídia, brasileira e internacional, não está usando os dois neurônios que cada editor pode e deve usar para analisar o que é mais importante, de fato, no momento presente, depois da experiência estilo Hollywood ocorrida em Caracas.

        Maduro já é carta fora do baralho e não apresenta mais a mínima importância – como se antes tivesse alguma – para o futuro da Venezuela. O mais relevante agora é a ditadura chavista, que CONTINUA em Caracas, já que os EUA não terminaram o serviço se algum dia pensaram em planejar o futuro do país.
        A população venezuela aguarda ansiosa para saber se pode sair as ruas para saudar o fim de uma ditadura que, na verdade, AINDA NÃO TERMINOU.
        O Brasil e outros países continuam a protestar contra a operação, claramente ilegal no plano do Direito Internacional, de violação da soberania, de invasão do país e de captura de um presidente que não era reconhecido como legítimo por amplos setores da comunidade internacional.
        Pois bem, isso já passou: ele já está preso e não vai voltar, mas a ditadura na Venezuela continua.
        Essa é a questão relevante desta nova fase. Esqueçam Maduro!

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 3/01/2026

 

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