segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Diplomatas estrangeiros no Brasil: carreira e oportunidade de formação acadêmica - Paulo Roberto de Almeida

  

DIPLOMATAS ESTRANGEIROS NO BRASIL:

Carreira e oportunidade de formação acadêmica

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Notas para intervenção em curso do Instituto Diplomacia em 5/10/2026, 19h30

  

Quantos são os diplomatas estrangeiros no Brasil?

Número impreciso, mas as embaixadas podem alcançar mais de 150 países com os quais o Brasil possui relações diplomáticas ativas, sendo mais de 130 com embaixadas residentes em Brasília, os demais tendo cumulatividade com alguma outra embaixada na região ou até na sede da ONU em NY. Considerando uma média de 6 diplomatas por embaixada – embora alguns países possuam bem mais, podemos estimar que existem, vivendo temporariamente em Brasília, cerca de 780 diplomatas estrangeiros, de diversos níveis, acreditados junto à nossa chancelaria, todos eles desfrutando dos privilégios e direitos concedidos pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas (1961).

Ademais dos diplomatas exercendo suas funções junto às suas respectivas embaixadas, existem diversos outros vinculados a atividades consulares, que, em alguns países, são distintas das funções propriamente diplomáticas (como era o caso do Brasil até os anos 1930, duas carreiras distintas). Difícil calcular o número exato desses diplomatas lotados em postos consulares em SP, RJ e outras capitais.

Talvez um terço, ou mais, desses diplomatas, sejam secretários em começo de carreira, seguidos por conselheiros, de idade média, ministros, que são mais seniores, e os embaixadores, nem todos de carreira, muitos designados politicamente pelos seus respectivos chefes de Estado.

Com exceção dos próprios embaixadores e encarregados de negócios, todos os demais diplomatas podem, teoricamente, dedicar-se ao aperfeiçoamento de suas respectivas carreiras diplomáticas, embora nem todos o façam, pois já foram, digamos assim, formados e treinados originalmente em suas respectivas capitais, em âmbito universitário (onde a maior parte é recrutada) ou pelas próprias academias diplomáticas, para os países que os têm. Não é incomum que diplomatas em início de carreira decidam reforçar sua preparação intelectual, suas aptidões profissionais, seguindo cursos geralmente vinculados às relações internacionais, nos países onde servem.

Muitos diplomatas brasileiros, inclusive eu mesmo, se formaram no exterior ou obtiveram títulos de pós-graduação em universidades estrangeiras, assim como os diplomatas estrangeiros lotados no Brasil possam fazê-lo, previamente ou concomitantemente ao trabalho na embaixada em Brasília ou em consulados em algumas capitais de estados.

O Brasil possui, desde 1946, uma academia diplomática, o Instituto Rio Branco, que desde essa data possui o monopólio do recrutamento e formação de diplomatas para a carreira profissional, com etapas ulteriores de aptidão como condição para a promoção, o que pode existir também em outros serviços diplomáticos. No caso do Brasil, ademais do curso de preparação à carreira diplomática – antes de dois anos, agora mais curto, com eventual estágio no exterior –, os segundos secretários são chamados a passar por um Curso de Aperfeiçoamento de Diplomatas (CAD, que são provas escritas), como condição à promoção ao escalão superior, assim como os conselheiros precisam necessariamente ser aprovados no Curso de Altos Estudos (CAE) para poderem ascender a ministros de segunda classe, o que implica na preparação e defesa de uma dissertação (algumas vezes chamada de tese), com uma temática possuindo relevância funcional para a diplomacia brasileira.

O IRBr desde algum tempo, nos anos 1970, provavelmente, passou a admitir como estudantes bolsistas diplomatas iniciantes de outros países, geralmente da América Latina, logo em seguida dos países lusófonos saídos da tardia descolonização portuguesa. Eu mesmo, quando professor no Instituto Rio Branco, na segunda metade dos anos 1980, tive como alunos diversos jovens diplomatas vindos de Angola, de Moçambique, de Guiné Bissau e de São Tomé e Príncipe, países independentes desde 1975. Continuamos a receber estudantes estrangeiros, também diplomatas lotados em Brasília, inclusive alguns de países europeus, alguns vindos diretamente como estudantes. Trata-se de um programa muito exitoso do Itamaraty, pois muitos desses “bolsistas” podem ter retornado como embaixadores de seus países em Brasília.

Existem inúmeras oportunidades de formação continuada no Brasil, embora poucas universidades brasileiras sejam realmente internacionalizadas, o que existe um conhecimento prévia da língua portuguesa para seguir alguns cursos. Creio que essa interação de formações de brasileiros no exterior, e a de jovens diplomatas estrangeiros no Brasil, vai continuar sendo feita nos moldes atuais ou vai se expandir ainda mais, tendo em conta os progressos já feitos e a serem alcançados nos meios e sistemas de comunicação e de interface linguística.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5484: 5 outubro 2026, 2 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/10/diplomatas-estrangeiros-no-brasil.html 

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