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domingo, 7 de outubro de 2012

Brasil: o pesadao da AL e o lento dos Brics - editorial OESP

Ainda recentemente, em palestra na Semana de Relações Internacionais da UFSC, um aluno (cujo nome ou e-mail eu infelizmente não conheço, do contrário responderia mais detalhadamente a ele, diretamente) me perguntou se eu ainda mantinha uma opinião expressa em entrevista minha ao Estado de S.Paulo sobre o fato de o BRIC ser um mero exercício intelectual (e eles eram, em 2006). Apenas não sabia que dois ministros dos quatro se empenhavam, por razões muito diversas um do outro (mas ambos antiamericanos e anti-hegemônicos) em fazer desse ajuntamento arbitrário -- construído por razões puramente financeiras, de capitalistas investidores -- um grupo diplomático formal, o que ocorreu apenas a partir de 2007. 
Tudo bem, isso me valeu o ódio de um desses personagens, embora eu mantenha, ainda hoje, que se trata de mero exercício diplomático, sem maior consistência intrínseca.
As razões de minha posição são claras. Esses ajuntamentos arbitrários, feitos por jornalistas ou economistas, não têm absolutamente nada a ver com posições comuns ou propósitos unificados, e sim por razões superficiais, externas a uma verdadeira integração de posições ou comunidade de objetivos. Algumas coisas objetivas os unem, mas a maior parte das outras coisas os separam, e o fato de estarem juntos para conversar não quer dizer absolutamente nada quanto a verdadeira unidade de propósitos.
O editorial abaixo, do Estadao, confirma o que eu dizia e o que eu penso.
O Brasil possui uma taxa de crescimento muito medíocre para ser classificado como emergente dinâmico, e isso por razões puramente domésticas, altos tributos, ineficiência estatal, falta de competitividade geral, por culpa do governo, não do setor privado, que aliás pode até ser mais protecionista do que os burocratas do Estado.
Fica, pois, um registro de uma das razões de meu ceticismo em relação aos Brics.
Paulo Roberto de Almeida 

Editorial O Estado de S.Paulo07 de outubro de 2012

Mais pesadão e, portanto, bem menos ágil que grande parte dos vizinhos, o Brasil deve chegar ao fim do ano com um crescimento econômico de apenas 1,6%, metade do projetado para a região, segundo projeções da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Confirmadas as previsões, a economia brasileira será um destaque negativo também sob outro aspecto. Será um dos poucos países do hemisfério com desempenho pior que o do ano passado, quando sua expansão, de 2,7%, já foi muito modesta e bem inferior à média regional, de 4,2%. Os resultados da economia latino-americana deverão ser bem melhores em 2013, com avanço geral de 4%. A atividade no Brasil deverá acompanhar esse ritmo, segundo as novas estimativas. Depois de dois anos de estagnação, será uma recuperação muito modesta.

A melhora do quadro no Brasil e na maior parte do hemisfério dependerá em boa parte do enfrentamento da crise no mundo rico. O cenário global de 2013 foi construído, no relatório, com base em uma hipótese um tanto otimista. Tanto nos EUA quanto na Europa haverá arranjos políticos para impedir um aperto fiscal mais severo e mais recessivo. Isso dependerá, nos dois lados do Atlântico Norte, de complicadas negociações entre partidos e até entre governos. A mesma hipótese tem sido adotada em outras projeções. Em qualquer caso, as perspectivas do Brasil parecem bem menos favoráveis, neste momento, que as do Chile, da Colômbia, do Peru, do México e de vários outros países latino-americanos.
O maior dinamismo desses países fica evidente quando se compara sua expansão ao longo de três anos. Tomem-se as médias aritméticas de crescimento em 2010, 2011 e 2012, admitindo-se como corretas as previsões para este ano, que são as seguintes: Brasil, 3,9%; Chile, 5,7%; Colômbia, 4,8%; México, 4,5%; Peru, 7,2%; e Uruguai, 6%. A média anual latino-americana é de 4,5%. A sul-americana, 4,6%.
As comparações seriam mais desfavoráveis ao Brasil, se os autores se aprofundassem mais no exame de certos detalhes. Segundo eles, a maior parte dos governos latino-americanos ainda tem espaço, nas contas públicas, para a adoção de políticas anticíclicas, em caso de choques recessivos. No caso do Brasil, poderiam ter acrescentado, o espaço é hoje bem menor do que em 2008, porque o governo pouco fez para tornar o orçamento mais sólido e mais flexível. Apesar da redução dos juros pagos pelo Tesouro, neste ano, o déficit nominal (a medida mais ampla do resultado fiscal) aumentou desde março. Isso se explica tanto pela piora da arrecadação quanto pela rigidez dos gastos.
Sem pormenores desse tipo, o relatório oferece um balanço geral das políticas dos últimos dez anos, com algumas recomendações à maioria dos governos. Antes de recorrer de novo a estímulos, será bom reavaliar as limitações orçamentárias. Observação semelhante foi feita recentemente por economistas do FMI: há menos folga para ações anticíclicas do que há quatro anos.
O espaço para estímulos de curto prazo, no entanto, é apenas uma das questões relevantes neste momento. Mesmo essa margem de manobra depende de políticas de mais longo alcance, destinadas à acumulação de gordura fiscal nas fases de prosperidade para ser queimada nos períodos de baixo dinamismo. Outros governos - o chileno, por exemplo - seguiram essa estratégia. O brasileiro preferiu gastar nos bons e nos maus tempos. Normalmente as metas fiscais foram alcançadas graças à elevação da receita.
Uma política fiscal sadia, combinada com uma gestão competente dos programas públicos, é essencial também para a expansão do investimento produtivo, governamental e privado. No Brasil, o investimento tem-se mantido na faixa de 18% a 20% do PIB. Em vários países latino-americanos a taxa tem sido superior a 22% e em alguns tem oscilado entre 24% e 30%. Será essencial aumentar a capacidade de investimento, se os brasileiros quiserem manter, por um longo período, um crescimento igual ou superior a 5% ao ano. O governo sabe disso. Falta agir com a seriedade necessária.

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