Desocidentalização, democratização e desconexão: minhas observações a um artigo importante de Dawisson Belém Lopes - Paulo Roberto de Almeida
Meus comentários a um artigo importante de Dawisson Lopes, de 2020, mas ainda relevantes (e só o faço agora, pois que Academia.edu me enviou novamente o link). O artigo é este:
"De-westernization, democratization, disconnection: the emergence of Brazil's post-diplomatic foreign policy
By Dawisson Belém Lopes
2020, Global Affairs
Link: https://doi.org/10.1080/23340460.2020.1769494
Abstract: For some time, foreign policy as an expression was perfectly interchangeable with diplomacy, given the degree of leverage enjoyed by diplomatic corps in Brazil's political system. However, there has arguably been some degree of discontinuity in this trajectory, which is noticeable from a couple of trends: Brazil's strategy toward Western powers vis-à-vis the rise of Asia,on the one hand, and democratization of foreign policymaking and the resulting tumultuous relationship between the foreign ministry and the presidency of the country, on the other. I posit that, from Fernando Henrique Cardoso to Jair Bolsonaro, this combination of factors prompted an epochal shift in Brazil's external relations, whose bottom line might be Itamaraty's demise as chief formulator while other governmental bureaucracies, political parties and individuals take over as the gravity centre, turning the contents of Brazil's foreign policy more responsive to social inputs, however less predictable and coherent over time."
PRA: Concordo com o fato dessas tendências observadas pelo professor tornarem a nossa política externa e nossa diplomacia menos PREDIZÍVEIS ou menos COERENTES no tempo, mas essa evolução ou características sempre me foram muito evidentes, pois como acadêmico, antes de ingressar no Itamaraty, e depois como diplomata, por mais de 40 anos SEMPRE OBSERVEI essas diferenças, disjunções, divergências entre a POLÍTICA EXTERNA oficial, isto é, conduzida pelo regime presidencialista que semopre foi o nosso na República, e a DIPLOMACIA, como corporação e instituição. Mas vamos observar todos os conceitos do artigo.
1) De-westernization: nenhuma novidade no plano mundial. Até o século XVI, a região mais avançada do mundo era a Ásia, para onde se dirigiam os europeus, ainda "pobres" ou "subdesenvolvidos", para buscar as inovacões, a riqueza. Os quatro séculos seguintes foram ocupados pelos europeus emergentes e dominadores. No século XX, os EUA acabaram assumindo a hegemonia. mas a Ásia reemergiu, e é naatural que ocorra agora esse desocidentalização do mundo.
2) Democratization: conceito que se aplica a vários países que sairam de antigas ditaduras ou regimes autoritários. Grécia, Espanha e Portugal o fizeram nos anos 1970-80 ou pouco depois, e ingressaram na CEE-UE pouco depois. Brazil e Argentina o fizeram nos anos 1980, mas construiram democracias de baixa qualidade, sem salvaguardas para certos retrocessos, econômicos ou políticos. Isso teve efeito sobre suas diplomacias, a nossa mais estável e predizível do que a argentina, pois nunca fomos de ir do terceiro-mundismo não alinhado como a Argentina, para as relações carnais e subordinadas aos EUA como eles fizeram, e isso se deve à diplomacia profissional.
3) Desconexão: Isto é, entre política externa e diplomacia. Sublinhei isso divesas vezes em meus aartigos e livros, e sobretudo na prática, tendo mantido uma postura de CETICISMO SADIO em face de certas decisões da Política Externa, ACEITAS pelo Itamaraty. Posso dizer que fui o único diplomata punido, censurado e controlado por quatro regimes diferentes: fui classificado como "diplomata subversivo" pela ditadura militar, depois punido, em diferentes formas, pelo tucanato, pelo lulopeetismo e depois pelo bolsonarismo. Continuo a apontar as incoerências da política externa e a lamentar a SUBMISSÃO dos meus colegas diplomatas a qualquer iniciativa que vem do Planalto, que nem sempre corresponde ao que diplomatas sensaatos recomendariam.
Vou fazer uma listagem de todas as minhas posturas DISSIDENTES em todos esses "regimes".
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