O que é este blog?

Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org. Para a maior parte de meus textos, ver minha página na plataforma Academia.edu, link: https://itamaraty.academia.edu/PauloRobertodeAlmeida.

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quinta-feira, 3 de abril de 2025

Efeitos involuntários de desvio de atenção de Mister Trump - Paulo Roberto de Almeida

 Efeitos involuntários de desvio de atenção de Mister Trump

Paulo Roberto de Almeida
No meio da enorme bagunça mundial criada pela guerra de agressão tarifária criada por Trump, o mundo parece ter colocado em segundo plano as mortes, contínuas, incessantes, enormes, criadas pela guerra de agressão da Rússia à Ucrânia e pela guerra de agressão dos israelenses contra a população palestina de Gaza.
Ambos os criminosos são buscados pelo TPI, como criminosos de guerra e autores de crimes contra a humanidade.
No meio de tudo isso, fico chocado com a indiferença vergonhosa do assim chamado Sul Global, uma parte importante da comunidade internacional, mas que não se julga responsável por essas violações da Carta da ONU e do Direito Humanitário Internacional.
O presidente Lula, por exemplo, se prepara, alegremente, a participar das "comemorações" pelos 80 anos do final da IIGM na Rússia, ao lado de seu amigo Putin. O Brasil desonra os fundamentos jurídicos de sua diplomacia, assim como os valores e princípios de sua política externa.
Paulo Roberto de Almeida

A velha ordem antiglobal unipolar de Mister Trump: um quadro de Dali - Paulo Roberto de Almeida

A velha ordem antiglobal unipolar de Mister Trump: um quadro de Dali

Paulo Roberto de Almeida


Antes eram incertezas; agora temos certezas de que o cenário que se apresenta é parecido com um quadro de Salvador Dali, ou seja, o caos.

Trump retrocede ao pior momento da Grande Depressão, inclusive pretende fazer o seu próprio país voltar à era da segunda revolução industrial, a do motor à explosão, do petróleo e das linhas de montagem com operários bem pagos, o que obviamente não vai acontecer nunca mais. Surpreende-me a passividade das lideranças empresariais, que são as que mais vão perder com a desorganização quase completa do sistema multilateral de comércio e com o desmantelamento progressivo das demais instituições do multilateralismo político.

Se as chamadas elites econômicas dos EUA não aplicarem uma camisa de força no seu presidente, ele levará todo o país a um declínio quase irreversível, pois assistiremos a reações desencontradas dos países atingidos por suas medidas. 

O mundo já assistiu isso antes, no entre guerras, com Depressão e conflitos entre os impérios: sabemos onde isso desembocou. Abaixo as evidências a partir da espiral infernal do comércio internacional, desenhada por Charles Kindleberger, relembrada por José Antonio Sanahuja.

Paulo Roberto Almeida

Brasília, 4/03/2025

https://www.linkedin.com/posts/jos%C3%A9-antonio-sanahuja-perales-7b133534b_es-ya-el-momento-de-recordar-la-espiral-activity-7313469224440479745-QgPn?utm_medium=ios_app&rcm=ACoAAAJmgeABvqjFqLUux6AVb_x03H16Ht5zHyk&utm_source=social_share_video_v2&utm_campaign=facebook

O destino dos impérios - Paulo Roberto de Almeida

O destino dos impérios 

Paulo Roberto de Almeida

        Impérios aparecem, crescem, se tornam poderosos e influentes, depois se estiolam e acabam sendo alcançados por outros impérios e gentilmente ou abruptamente superados e substituídos por outros impérios, ou por nenhum: declinam lentamente por seus próprios erros.

        Poucos provocam eles mesmos os seus fatores de crise e esgotamento, até o desaparecimento.

        Geralmente duram séculos, antes de caminhar para o oblívio.

        O império americano tem pouco mais de 100 anos: começou com McKinley, e a guerra hispano-americana, e com Woodrow Wilson, na Grande Guerra, cresceu na IIGM, e se tornou ainda mais poderoso na implosão do socialismo. 

        Está começando a vir a termo com o “cretino fundamental” (apud Nelson Rodrigues) Trump, abrindo espaço para o inimigo socialista (na verdade um capitalismo com características chinesas), que ganha, de graça, uma oportunidade que Xi Jinping sequer poderia sonhar: a preeminência econômica mundial, por erros primários de um concorrente que poderia ser cooperativo e sobretudo mutuamente benéfico para ambos os impérios, se não fosse a arrogância, a hubris, do primeiro, até aqui o mais poderoso do mundo.

        O declínio vai ser humilhante para os americanos normais, superados pela alucinação coletiva de um bando de ignorantes pretensiosos. Daqui para baixo. Economistas, historiadores, anotem a data: começou em 2 de abril de 2025, mas vai durar algumas décadas para se consumar.

Paulo Roberto Almeida

Brasília, 3/04/2025


terça-feira, 1 de abril de 2025

Políticas Públicas no Brasil: relação de trabalhos - Paulo Roberto de Almeida

 Políticas Públicas no Brasil: relação de trabalhos  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Relação de todos os trabalhos se submetendo exclusivamente a esse conceito, no formato direto, ou seja, sem considerar aqueles que trataram do assunto ou da temática geral ou particular, mas não foram referidos explicitamente sob esse substantivo e seu adjetivo. 

 

        Acabo de ser apresentado a um livro coletivo publicado recentemente, cujo título é, justamente, Políticas Públicas no Brasil: avanços e desafios, cuja ficha e relação de autores e editores foi objeto de uma postagem em meu blog Diplomatizzando (neste link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/04/livro-politicas-publicas-no-brasil.html). A temática sempre me foi atraente, tanto que pensei em fazer, depois de meu doutoramento em sociologia política, um outro sobre esse campo específico de estudos, chegando inclusive a elaborar um projeto a esse respeito, cuja ficha transcrevo a seguir: 


214. “O Estado do Progresso e o Progresso do Estado: Liberalismo e Intervencionismo no Desenvolvimento Brasileiro”, Montevidéu, 27 outubro 1991, 19 p. Projeto de trabalho sobre os modelos de políticas públicas implementadas historicamente no Brasil. Não desenvolvido. Divulgado na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/128566694/214_O_Estado_do_Progresso_e_o_Progresso_do_Estado_projeto_1991_).

 

Repassei então minha lista de trabalhos, e o fato é que eu continuei a trabalhar nesse campo, mais enfaticamente através de aulas de Economia Política no quadro do programa de mestrado e doutorado em Direito do Uniceub, durante muitos anos, tendo ainda escrito artigos e notas, embora aleatoriamente, nessa temática. Decidi então alinhar as fichas de trabalhos que registraram explicitamente esse conceito, descurando, portanto, muitos outros que porventura abordem o assunto com maior ou menos profundidade, mas que não tiveram, no título ou na ficha descritiva essas duas palavrinhas alinhadas. Talvez eu possa me ocupar novamente do assunto, sempre atual, pois ele está no cerne da governança e no desafio da boa governança no Brasil.

 

527. “A dimensão econômica das transformações mundiais”, Brasília, 19 maio 1996, 19 p. Texto-guia para servir de suporte a palestra proferida no curso de especialização da Escola de Políticas Públicas e Governo da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Proferida em 20 de maio de 1996. Elaborado com base em texto inicial de 30 de abril (4 pp), revisto e ampliado em 08.05, sobre a agenda econômico-financeira da diplomacia brasileira.


(...)


Ver a relação completa neste link de Academia.edu: 


 https://www.academia.edu/128566795/4885_Politicas_Publicas_no_Brasil_relacao_de_trabalhos_2025_





Uma declaração aberta de OPOSIÇÃO à planejada viagem do presidente Lula à Rússia de Putin em 8 de maio - Paulo Roberto de Almeida

Uma declaração aberta de OPOSIÇÃO à planejada viagem do presidente Lula à Rússia de Putin em 8 de maio

Paulo Roberto de Almeida

        Assim que o atual presidente russo (na verdade um ditador, tendo eliminado todos os seus críticos e um grande opositor em duas “eleições”), Vladimir Putin, anunciou sua intenção de comemorar os 80 anos do final do que o stalinismo chamou de “Grande Guerra Patriótica”, em 8 de maio de 1945, o presidente Lula anunciou entusiasticamente sua presença nessas comemorações. 

        Pois bem, eu, Paulo Roberto de Almeida, diplomata de carreira aposentado, leitor de história, mas sobretudo um cidadão preocupado com as credenciais democráticas do Brasil, com os valores e princípios de nossa diplomacia, baseados no estrito respeito ao Direito Internacional, declaro minha oposição veemente a tal participação, por motivos que são muito claros a todos os que conhecem não só a história da IIGM, mas sobretudo o atual desrespeito do ditador russo pela Carta da ONU, assim como às regras mais elementares do Direito Internacional e do Direito Humanitário. 

        A “Grande Guerra Patriótica” só começou em 1941, mas seu início foi justamente permitido pela aliança espúria da URSS com a Alemanha nazista, em agosto de 1939, o que se traduziu no estraçalhamento da Polônia uma semana depois. Durante quase três anos a URSS subsidiou fartamente a Alemanha hitlerista com alimentos, combustíveis e equipamentos, o que lhe permitiu atacar militarmente as democracias da Europa Ocidental. 

        Putin é um criminoso de guerra, com apreensão ordenada pelo TPI (do qual o Brasil é membro), por crimes contra a humanidade, como o sequestro de milhares de crianças e jovens da Ucrânia ilegalmente invadida, enviadas forçosamente à Rússia.

        Nem mesmo o Estado Novo, de notórias simpatias fascistas, reconheceu, em 1939, a usurpação violenta de um Estado, a Polônia, com o qual tínhamos relações diplomáticas, assim como não reconheceu, em 1940, a invasão e a anexação ilegais dos três Estados bálticos, com os quais também tínhamos relações, para recordar a solidez de nossa doutrina diplomática, aparentemente desprezada pelo atual governo brasileiro.

        Com base nesse histórico, mas sobretudo em atendimento a critérios básicos de estrito respeito ao Direito Internacional, cujos princípios fundamentais estão consagrados como cláusulas de relações internacionais em nossa Constituição de 1988, reafirmo minha oposição e total contrariedade pessoal (mas certo de interpretar os sentimentos da maioria da população brasileira), a que o presidente do Brasil participe de um evento destinado a legitimar um dirigente que violou a Carta da ONU, que todo presidente brasileiro está cingido a respeitar e defender, consoante nossas tradições jurídicas e princípios de nossa doutrina diplomática. Sua presença em Moscou afrontaria um histórico de respeito ao Direito Internacional que sequer as ditaduras de 1937 e de 1964 ousaram desmentir.

 

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 1/04/2025


Meu Primeiro de Abril de verdade - Paulo Roberto de Almeida

 Esta minha postagem, feita há vários dias, parece ter recolhido algum apoio entre os meus 18 seguidores no Linkedin; mas também saiu por aqui, por isso estou postando novamente:

Impasse

Os Democratas têm vergonha e não querem proclamar ao mundo que sua grande nação está sendo “dirigida” por um completo imbecil. 

Os Republicanos que foram seduzidos e submetidos tampouco querem admitir que deu tudo errado e agora são caudatários de um idiota total.

Poucas vezes na história, um país inteiro hesita em reconhecer que todos, absolutamente todos, estão entregues a um cretino fundamental, o Grande Mentecapto.

Agora é tarde?”

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Completo, complemento, utilizando-me, mais uma vez, de um “figura de estilo” de Nelson Rodrigues:

Todos os dias, invariavelmente todos os dias, o noticiário do mundo inteiro nos fornece provas contundentes de que a nação mais poderosa da Terra está sendo (des)conduzida, levada e rebaixada por um cretino fundamental, o que deve ser um motivo de humilhação para um grande número de seus nacionais.

Assino e dato:

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 1ro de abril de 2025

(Mas NÃO É um Primeiro de Abril; é uma triste realidade)

domingo, 30 de março de 2025

Quem determina, de fato, a Política Externa Brasileira? - Paulo Roberto de Almeida

Quem determina, de fato, a Política Externa Brasileira?

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Nota sobre as peculiaridades atuais da ação externa do Brasil, num sentido partidário e ideológico, tomando partido nas disputas interimperiais da geopolítica em mutação.

 

        Aqueles que escrevem sobre as relações internacionais em geral, sobre a política externa do Brasil e sobre sua diplomacia em especial, ou seja, jornalistas da área, analistas acadêmicos, observadores e comentaristas ocasionais, costumam referir-se à atuação do Brasil em suas relações exteriores, nas ações nos planos bilateral, regional ou multilateral, habitualmente em termos similares a estes: “o Brasil fez isso ou mais aquilo”, “a posição do Brasil nesta ou naquela questão tem sido...”, ou “a postura do Brasil na agenda ambiental internacional mudou desde o governo anterior, assim ou assado”, o que invariavelmente me suscita fundadas contrariedades quanto à atribuição efetiva pelas políticas adotadas. Não aprecio esse tipo de designação genérica sobre as relações exteriores e a diplomacia do país, pois a determinação específica sobre uma ou outra política geralmente não cobre o processo decisório que levou a uma ou outra escolha de política ou mesmo de simples declaração, por nota oficial, sobre uma determinada questão da agenda internacional.

        Como saber se foi “o Brasil” quem adotou uma determinada política, ou o governo, isto é, o executivo, ou ainda, a própria diplomacia profissional? Pode haver, como ocorre muitas vezes, uma grande diferença entre as opções técnicas oferecidas pela diplomacia profissional, para uma questão específica colocada na agenda externa, e o posicionamento efetivamente adotado pelo governo, ou pelo chefe de Estado pessoalmente, sobre a mesma questão. Em tempos normais, costuma haver uma grande osmose, ou uma identidade mais ou menos unificada e homogênea, entre o que o corpo técnico considera ser adequado nas relações exteriores do país e a postura efetivamente seguida pelo responsável último pelas escolhas que são feitas na prática, algumas vezes de forma improvisada, no contato direto com outros chefes de governo, sem o recurso adequado ao corpo profissional encarregado de visualizar e apontar todas as implicações de certas tomadas de decisão. 

        Facilidades crescentes no campo das comunicações e transportes, o simples aumento dos contatos não presenciais entre chefes de governo e ministros das relações exteriores, a ampliação de laços mediante acordos de cooperação, regionais ou temáticos, fazem com que a chamada diplomacia presidencial, ou de cúpula, tenha se tornado corriqueira, o que acarreta ipso facto o envolvimento direto do decisor máximo na discussão e na tomada de posição em questões cuja complexidade, contexto relacional com terceiras partes, legado histórico, ou mesmo implicações constitucionais e legais, não recomendariam o tratamento direto por esses personagens já com a perspectiva da adoção de decisões de relevante magnitude. Bem mais temerária é quando essa diplomacia de cúpula passa a configurar uma espécie de diplomacia personalista, na qual o chefe de governo e/ou de Estado resolve assumir ele mesmo a responsabilidade por esse tipo de procedimento, ainda que seja apenas uma declaração pessoal sobre o caso, ainda previamente ao comprometimento formal sobre o assunto, por meio de nota oficial ou projeto de acordo a respeito.

        A política externa do Brasil conheceu desenvolvimentos tendencialmente afins a essa evolução problemática do processo decisório próprio à instituição burocrática encarregada do setor na direção de um afunilamento partidário e personalista desde a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder, a partir de 2003. Analisei essa contaminação problemática da agenda externa do país por considerações vinculadas às preferências ideológicas do partido em questão, o que ficou evidente desde a mudança de orientação em importante questões da agenda regional e internacional do Brasil, como detalhadamente relatado em meu primeiro livro sobre a questão: Nunca Antes na Diplomacia...: a política externa brasileira em tempos não convencionais (2014) e novamente num outro livro que completou o primeiro ciclo do lulopetismo diplomático: Contra a Corrente: Ensaios contrarianistas sobre as relações internacionais do Brasil (2014-2018) (2019). Depois de um retorno compatível com valores e princípios exibidos tradicionalmente pela diplomacia brasileira, durante o governo de Michel Temer (2016-2018), ocorreu uma nova ruptura, ainda mais dramática, com os padrões usuais da diplomacia brasileira sob o mandato do presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), o afastamento do multilateralismo, por exemplo, o que me levou a finalizar e a publicar meu terceiro livro sobre a diplomacia e a política externa do Brasil: Apogeu e Demolição da Política Externa: Itinerários da Diplomacia Brasileira (2021), cobrindo desta vez as três décadas de relações internacionais do Brasil desde a redemocratização. Nos intervalos entre os livros impressos e distribuídos comercialmente, preparei e publiquei, via Kindle, diversos outros volumes digitais, especialmente os da série do bolsolavismo diplomático, começando com Miséria da Diplomacia: a destruição da inteligência no Itamaraty (2019), passando por O Itamaraty num Labirinto de Sombras (2020) e Uma Certa Ideia do Itamaraty (2020) até O Itamaraty Sequestrado: a destruição da diplomacia pelo bolsolavismo (2021).

        O início do terceiro mandato de Lula parecia ensejar um retorno às grandes linhas da diplomacia partidária e ideológica já ensaiada entre 2003 e 2016 – inclusive porque o conselheiro presidencial em matéria internacional, chamado de chanceler paralelo, era o mesmo apparatchik do PT atuando em nome dos comunistas cubanos na coordenação do Foro de São Paulo, uma espécie de Cominform castrista para o controle dos partidos de esquerda da América Latina –, mas o que se viu, na verdade, foi um aprofundamento do distanciamento da política externa governamental em relação aos passos cautelosos da diplomacia profissional na condução dos mais importantes dossiês da agenda geopolítica externa às preocupações imediatas do Brasil, com o desenvolvimento e a autonomia da política externa oficial no tocante às disputas interimperiais. Desta vez, o que se observou foi um alinhamento da diplomacia presidencialista e personalista de Lula com alguns dos postulados geopolíticos das duas grandes autocracias parceiras no Brics, entre eles o tal projeto da “nova ordem global multipolar”, e a própria ampliação inusitada do Brics (agora acrescido de novos associados, num Brics+), congregando novos membros escolhidos dentre regimes políticos autoritários e claramente antiocidentais. 

        Em diferentes dossiês da agenda diplomática corrente – guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, novos conflitos no Oriente Médio envolvendo Israel e os movimentos palestinos, entre eles alguns terroristas, nova liderança conservadora, ou de extrema-direita nos Estados Unidos – as posições que prevalecem, de ordinário, não são exatamente as que foram recomendadas pelo corpo profissional do Itamaraty, mas a postura pessoal, e muito personalista, do próprio chefe de Estado, nem sempre armado das melhores diretrizes para administrar os desafios na frente externa. Declarações de improviso, entrevistas mal preparadas com a imprensa acabam provocando arestas com parceiros tradicionais do chamado Ocidente, bem como referências desprovidas de consistência prática, como a duvidosa existência de um Sul Global supostamente animado pelo desejo totalmente vago de também fundar uma “nova ordem global”. Outras decisões refletem diretamente a influência ideológica partidária, ou preconceitos anacrônicos dos militantes petistas, como a suspensão das negociações para a adesão do Brasil à OCDE, o clube das boas práticas macroeconômicas integrado pelas principais democracias de mercado do mundo. 

        Com base nos argumentos acima, fica mais fácil responder à questão posta no título desta nota, sobre quem determina, de fato, a política externa brasileira: o corpo profissional da diplomacia vem, provavelmente, em terceiro lugar, no processo decisório, sendo precedido pelo partido no poder e, em primeiro lugar, pelo próprio chefe de governo e de Estado. Novos desenvolvimentos sobre o conteúdo e a forma da política externa seguirão oportunamente.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4883, 30 março 2025, 3 p.


Estamos de volta à era das canhoneiras de um século atrás? - Paulo Roberto de Almeida

Estamos de volta à era das canhoneiras de um século atrás?

Paulo Roberto de Almeida

O colonialismo e o imperialismo na era moderna, desde a época das grandes navegações, nunca tinham registrado declarações tão claras de um dirigente político reconhecido ao proclamar a "necessidade" de dominar territórios formalmente sob controle de uma soberania estrangeira.

Trump dixit:

“For purposes of National Security and Freedom throughout the World, the United States of America feels that the ownership and control of Greenland is an absolute necessity.”


Nunca antes neste planetinha redondo, já mapeado, delimitado, cartografado e legitimado por um instrumento universal, a Carta da ONU, que parte da soberania dos países membros e do princípio da não intervenção em territórios nacionais reconhedidos, tínhamos tomado conhecimento de uma vontade deliberada de romper com o Direito Internacional de uma maneira tão arrogantemente imperialista.
Trump conseguiu superar o arbítrio de seu amigo Putin que usou o subterfúgio de populações "russas" (na verdade falando russo) para invadir a Ucrânia.
Trump pretende invadir a Groenlândia apenas porque sua condição dinamarquesa ameaça a segurança dos EUA? Provavelmente, está tentando imitar o presidente McKinley, que em 1898 invadiu e anexou o Hawai, que tinha um reino em funcionamento quase normal...
Ou já imitando Theodore Roosevelt, que primeiro se distinguiu na guerra hispano-americana, ou melhor, dos EUA contra a Espanha, para dominar metade do Caribe espanhol...
Brasília, 30/03/2025

Eleições democráticas - Paulo Roberto de Almeida

Eleições democráticas

Paulo Roberto de Almeida 

O Canadá vai votar para o próximo governo. O candidato melhor posicionado é um economista com doutorado por Oxford e que foi presidente do Bank of England. O México, “sorprevisamente”, elegeu uma física com doutorado em energia elétrica. Os EUA elegeram pela segunda vez um PhD em fraudes e trambiques imobiliários, que possui a inteligência de um nabo, segundo algums críticos radicais.

O Brasil já teve pelo menos um intelectual na presidência, com sucesso razoável, mas também já teve a chance de eleger, e quase reelegeu, um energúmeno completo, aliás admirador do nabo americano.

A democracia, segundo já desconfiavam os gregos (que a inventaram) e temia Tocqueville, permite eleger demagogos medíocres, populistas espertos, mas profundamente ignorantes, se ouso dizer. 

Creio que continuará a ser assim, pelo futuro indefinido, pois a vida é um longo aprendizado, mas alguns se perdem pelo caminho.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 30/03/2025

O afundamento da educação básica no Brasil - Fernando José Concioni e Paulo Roberto de Almeida (e outros)

O afundamento da educação básica no Brasil

Fernando José Concioni e Paulo Roberto de Almeida (e outros) 

Li esta postagem de Fernando José Coscioni no FB e comentei (mais abaixo):

“ No meu retorno (a contragosto e por pura falta de opção profissional, esta é a verdade) à docência no ensino básico público, ocorrido há, aproximadamente, um ano, cada vez tenho estado mais convicto da inutilidade que é, na maioria dos casos, colocar dinheiro em educação escolar, afinal, entre 70 e 80 por cento dos adolescentes odeiam estudar e têm desprezo total e absoluto pelo ensino e por qualquer coisa que envolva o trabalho intelectual. 

E eu nem vou falar da insolência sistemática e da agressividade com as quais muitos desses jovens tratam os professores; em alguns casos, tais situações beiram a delinquência pura e simples (o ECA, que impede a retirada desses tipos do ambiente escolar, é uma das grandes causas do nosso infortúnio educacional, e os professores, ironicamente, não param de votar em políticos e partidos que defendem a manutenção do "imaculado" Estatuto). 

Na melhor das hipóteses, apenas o fundamental I deveria ser obrigatório. E, no fundamental II, deveria haver um filtro de acesso que selecionasse apenas aqueles alunos que têm disposição intelectual mínima, padrões decentes de comportamento e que aprenderam corretamente a ler (trabalho com fundamental II, e digo com tranquilidade: mais da metade dos estudantes não sabe ler). 

O velho exame admissional do ginásio era uma coisa muito correta, que preservava a qualidade (mínima, é verdade) da escola pública. Jamais deveria ter sido abolido. A visão atual, dominante nas nossas leis e na formação de professores, de que o papel da escola seria a "inclusão" e a busca da "justiça social", é um câncer. 

Bourdieu, quando percebeu que as classes populares, salvo exceções, têm uma relação tensa e difícil com a cultura letrada que a escola busca transmitir, e que, no limite, não veem qualquer sentido na experiência escolar, acertou em cheio. 

O problema é que nossos "educadores" (odeio essa palavra, é muito piegas) pegaram esse diagnóstico dele para justificar o nivelamento da escola pública aos padrões baixíssimos dos alunos "oprimidos" ao invés de utilizar essa constatação para aceitar uma verdade dura: educação formal de qualidade não pode ser para todo mundo, pois a maioria dos jovens (ao menos no Brasil) não possui qualquer aptidão intelectual (e ficar no blá blá blá sentimentalóide sobre as condições sociais desiguais de formação das aptidões para o trabalho intelectual só vai nos jogar mais no buraco). 

As escolas públicas deveriam concentrar tempo e investimentos apenas nos alunos minimamente capacitados, pois a presença dos insolentes, incapazes e, em muitos casos, agressivos, nas salas de aula, está inviabilizando com que os professores (que, infelizmente, são cúmplices dessas ideologias coletivistas toscas de educação como forma de "justiça social") possam trabalhar com o grupo minoritário que é capacitado. 

Sei que nada disso vai mudar. Mas eu escrevo aqui só pra descarregar mesmo. E para expor também o quão bocó é a concepção dominante que fundamenta essa excrescência ideológica, filosófica, cultural e pedagógica que é o sistema educacional brasileiro. E para não deixar escapar uma coisa: os professores reclamam, mas, no fundo, eles acreditam nessa concepção, ainda que ela seja a causa primordial da inviabilização de seu trabalho.”

(28/03/2025)

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Meu comentário (PRA):

A postagem constata um problema real e efetivo: a deterioração geral do ensino público fundamental no Brasil, o que acaba repercutindo e influenciando também na má qualidade de certo ensino privado (não todo ele; familias pagantes selecionam os sobreviventes desse darwinismo vulgar). Mas a postagem também mostra um desalento com essa situação e uma proposta, talvez involuntária, de afunilamento elitista das etapas educacionais seguintes, deixando para trás todos os fracassados da péssima qualidade do atual sistema público. Se a péssima situação não se repetisse também nos níveis seguintes, poderia talvez representar um choque nos responsáveis pela atual condição medíocre do fundamental público, o que desconfiamos que não seria e não será o caminho. Temos analfabetos funcionais que chegam ao terceiro ciclo e conseguem sobreviver até a pós-graduação.

O Brasil é um país de lento crescimento justamente pela má formação do seu capital humano, o que repercute na baixa produtividade e na mediocrização crescente da casta política. 

A solução falsa do darwinismo vulgar seria esse afunilamento já no médio, o que reduziria ainda mais as chances de desenvolvimento, pois no sistema atual um terceiro ciclo mediocre (como é o caso de muitas faculdades privadas) acaba “completando” as insuficiências dos dois ciclos anteriores, mal e porcamente é verdade, mas parece ser a única chance daqueles fracassados no fundamental público. O sistema S oferece alguns remendos para as necessidades das empresas privadas, ao passo que o sindicalismo corrupto (do sistema educacional público) vai empurrando, ladeira acima,  os despreparados para a diplomação formal. É a ilha da fantasia de um país incapaz de criar um modo inovador de produção. Ficamos na rabeira do mundo e só não descemos mais porque o setor privado vai formando seus próprios quadros. Acredito que a outrora brilhante educação pública argentina, a de Sarmiento e Mitre, foi se deteriorando no último século de decadência do país, que hoje exibe resultados do PISA piores que os do Brasil. Somos dois países fracassados, o Brasil nunca chegou a ter uma educação decente para os pobres, a Argentina pós-1930 deixou decair a sua.

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Outros comentários:

“ Você fala o que realmente ocorre na educação pública, em sua totalidade,  e na particular,  em boa parte. Na pública, é mais fácil receber dinheiro sem trabalhar, através  dos subsídios sociais, e nas particulares, onde muitos jovens, porque os pais pagam, se acham no direito de fazer qualquer coisa. Isso mostra a educação recebida em casa e a tremenda falta de respeito com e para os mestres.” (Vicente Ferrero)

“ Estou na mesma condição há um ano e meio. Durante um ano fui contratada pelo município. Achei ótimo. Agora, estou no Estado de MG desde 4 de novembro. É um caos em tudo. Não há nem pincel direito na escola, sem falar da indisciplina....” (Cintia Araújo)

“ É Fernando, cada vez te admiro mais. Disse tudo sobre a educação brasileira. É incrível que pessoal que estão na faixa dos 65+ , mesmo tendo só o primário, tenham mais aptidão cognitiva do que muitos que estão ingressando nas universidades,  independente da modalidade (presencial ou a distância). Não poder reter alunos desde a alfabetização, pois irá frustar a criança, oras, como se na vida as frustrações não fizessem parte do crescimento. E para piorar, diante do sistema educacional que temos, o aluno sabe que mesmo não estudando, a escola aprova para garantir verba. E para piorar ainda mais, no ensino médio o aluno irá receber para não estudar! Esta é a educação resultado das teorias de Paulo Freire! Uma lástima!” (Marta Bertin)

“ Como professor universitário não exagero ao dizer que analfabetos funcionais, literalmente semi analfabetos que mal conseguem escrever, estão chegando e "se formando" na Universidade.

Tentei fazer licenciatura mas o viés é ideológico na formação de novos professores é tão grande que me tirou completamente a vontade de finalizar mesmo sendo EAD.” (Diego Paz)

“ Diria que tu foi otimista com os 80%. Eu na universidade estimo que uns 90% não querem saber de nada.” (André Luzardo); seguido de comentário de Coscioni: “André Luzardo: conforme a gente havia conversado no podcast, a maior destruição que a ascensão da sociedade de massas promoveu na contemporaneidade foi na educação. Uma educação massificada, por definição, só pode ser a negação da educação.”

“ Eu não aceito essa condição. Há décadas questiono a obrigatoriedade da presença no ensino médio, por exemplo. Não é possível ensinar quem não quer aprender. E sofro pelos que querem, pois são impedidos pelos demais. Cada reunião pedagógica, para mim, é como criar estratégias para receber o Papai Noel com alegria: papo de louco, de adulto infantilizado, incapaz de ver e enfrentar a realidade. Como esses adultos mandam em mim, adoeci. Cada vez mais aumento a medicação psiquiátrica.” (Paula Rosiska)

“ Você deveria escrever um livro sobre Educação Fernando. Eu acompanho o que você escreve e sempre concordo com o que você diz. Acho que você ainda tem muita coisa a expor sobre o tema e com certeza tem muita gente disposta a ouvir.” (Luis Felipe Blanco); seguido de resposta de FJC: “ Luis Felipe Blanco eu já pensei, na verdade, em escrever um romance sobre a mutação da personalidade e das posições políticas de um professor de formação uspiana progressista após se deparar com a realidade da escola pública. Quase um "romance de formação" às avessas, não com um processo de construção da personalidade, mas de demolição (tenho pensando bastante na famosa frase de Fitzgerald sobre a vida como um "processo de demolição"), de desmantelamento da identidade (essa palavra me dá calafrios, rs) diante da implosão das fantasias intelectuais que moldaram a sua forma de ser.”

“ Verdade pura Fernando. Inegável que os estudos mais avançados são para quem gosta e tem aptidões intelectuais. Seria maravilhoso se os alunos saíssem alfabetizados do curso fundamental, bem alfabetizados e sabendo as quatro operações. Não é o que acontece, vivemos num país de idiotice ideológica.” (Celia Marinangelo)

“ A escola pública é o reflexo da sociedade, a maioria dos estudantes que passaram pela três etapas: Fundamental 1, Fundamental 2 e ensino básico, a grande maioria  sai despreparados, com deficiência em leitura, muitos leiam mal.

O governo federal gastam milhões com livros paradidaticos, a  bibliotecas é cheia de livros, a sala é vazia. É um processo histórico, a educação brasileira não é vista como ascensão social, e cultural.

As escolas públicas não têm escolhas, são obrigado matricularem alunos indisciplinados, não  respeitam os professores. Por isso a escola pública encontra-se em labirinto que não encontra saída.” (Israel Medeiros da Silva)

“ A verdade é que o Brasil tem a mania de pular etapas, passando da indigência para a melhor legislação do mundo, sem condições de suportar esse tipo inovação. Temos um ECA para Suecos, uma legislação ambiental para Noruegueses, regra de IA mais restritiva donqie os europeus, todas pensadas pelo burros letrados que nós governam.” (Julio Meireles)

“ Sou professora da rede pública de ensino. Durante 27 anos vivenciei todo tipo de humilhação, desrespeito, perseguição (direção/vice-direção), dentro da escola. Minha disciplina é sociologia. 99% e mais do alunado não gosta de estudar. Não consegue interpretar o que lê, nem transpor para escrita o que compreendeu. Esse mesmo alunado odeia o conhecimento. A educação está desmantelada, destruída. As salas de aula lotadas com mais de 40 alunos por turma. Sou vítima de piadas, risos, galhofa, zombaria, etc, enquanto tento, com muito esforço, explicar teoria social a essa clientela. As salas de aula não têm ar-condicionado. Os ventiladores velhos e de péssima qualidade. Ano passado, 15 alunos que nunca frequentaram minhas aulas foram aprovados pelo " conselho de classe " / professores. Nas reuniões de atividade complementar/AC, completamente inúteis, se discute sobre "empoderamento" feminino e "inclusão" social. O corpo docente não esboça absolutamente nada sobre o fato de a grande maioria dos alunos não conseguirem construir uma oração com sujeito, verbo e complemento. Seu brilhante texto retratou exatamente o que vem acontecendo no dia a dia do professor. No final, todos os alunos estão sendo nivelados por baixo. Na rede pública de ensino do Estado da Bahia, retiraram a quarta unidade e a média para ser aprovado é cinco.” (Paula Lopes Pontes)

Comentário final:

PRA: Essa é a maior tragédia brasileira, desde Pombal, ou melhor, desde que Pombal expulsou os jesuítas e as elites medíocres do Brasil português e independente preservaram a mediocridade, até hoje.

Infelizmente é isso, mas não se pode desistir de educar os que partem de uma condição modesta. O Brasil precisaria passar por uma revolução humboldtiana (Wilhelm) na educação, do fundamental à pós, o que sabemos não virá: continuaremos patinando na mediocridade, até uma pouco provável reforma geral do ensino.

Como disse Mario de Andrade em 1924: “Progredir, progredimos um tiquinho, que o progresso também é uma fatalidade”.

Vamos continuar na fatalidade.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 30/03/2025


sábado, 29 de março de 2025

Brasil: um país de assistidos - IBGE, Ricardo Bergamini, Paulo Roberto de Almeida

Se, e quando, for implementado projeto de desoneração do imposto de renda dos trabalhadores com vencimentos inferiores a R$ 5.000, as receitas no quesito Renda dependerão de um punhado de algumas centenas de milhares de contribuintes, pois que a maioria da população estará isenta. Ou seja, um pais excepcional… (PRA)

Do Ricardo Bergamini:

 Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Fonte IBGE

 

Base: trimestre encerrado em fevereiro de 2025

 

No trimestre encerrado em fevereiro de 2025, existiam 177,1 milhões de pessoas em idade de trabalhar, sendo 66,9 milhões fora da força de trabalho.

 

No trimestre encerrado em fevereiro de 2025, existiam 110,1 milhões de pessoas na força de trabalho, sendo 7,5 milhões de desocupadas e 39,1 milhões de informais.

 

No trimestre encerrado em fevereiro de 2025, existiam apenas 63,5 milhões de brasileiros formais, sendo apenas 40,6 milhões de declarantes de imposto de renda.

 

Resumindo: O Brasil é um acampamento de refugiados.

 

PNAD Contínua: taxa de desocupação é de 6,8% e taxa de subutilização é de 15,7% no trimestre encerrado em fevereiro

 

28/03/2025

 

taxa de desocupação (6,8%) no trimestre encerrado em fevereiro de 2025 cresceu 0,7 ponto percentual (p.p.) frente ao trimestre anterior (6,1%) e caiu 1,1 p.p. ante o trimestre móvel encerrado em fevereiro de 2024 (7,8%).

 

Indicador/Período

Dez-jan-fev 2025

Set-out-nov 2024

Dez-jan-fev 2024

Taxa de desocupação

6,8%

6,1%

7,8%

Taxa de subutilização

15,7%

15,2%

17,8%

Rendimento real habitual

R$ 3.378

R$ 3.335

R$ 3.260

Variação do rendimento habitual em relação a:

1,3%

3,6%

 

população desocupada (7,5 milhões) cresceu 10,4% (ou mais 701 mil pessoas no trimestre e recuou -12,5% (menos 1,1 milhão de pessoas) no ano.

 

população ocupada (102,7 milhões) caiu 1,2% (menos 1,2 milhão de pessoas) no trimestre e cresceu 2,4% (mais 2,4 milhões de pessoas) no ano. O nível da ocupação (percentual de pessoas ocupadas na população em idade de trabalhar) foi de 58,0%, caindo 0,8 p.p. no trimestre (58,8%) e crescendo 0,9 p.p. (57,1%) no ano.

 

taxa composta de subutilização (15,7%) cresceu 0,4 p.p. frente ao trimestre anterior (15,2%) e caiu 2,1 p.p. ante o mesmo trimestre do ano anterior (17,8%). A população subutilizada (18,3 milhões) cresceu 2,8% (mais 491 mil pessoas) no trimestre e caiu 11,5% (menos 2,4 milhões) no ano.

 

população subocupada por insuficiência de horas (4,5 milhões) recuou 10,9% (menos 557 mil pessoas) no trimestre e caiu 10,7% (menos 542 mil pessoas) no ano. A população fora da força de trabalho (66,9 milhões) cresceu 1,4% (mais 902 mil pessoas) no trimestre e ficou estável no ano. A população desalentada (3,2 milhões) cresceu 6,9% (mais 208 mil pessoas) no trimestre e caiu 11,8% (menos 435 mil pessoas) no ano. O percentual de desalentados (2,9%) cresceu 0,2 p.p. no trimestre e recuou 0,4 p.p. no ano.

 

O número de empregados no setor privado (53,1 milhões) caiu 0,8% (menos 440 mil pessoas) no trimestre e cresceu 3,5% (mais 1,8 milhão de pessoas) no ano. O número de empregados com carteira assinada no setor privado (exclusive trabalhadores domésticos) foi novo recorde da série histórica iniciada em 2012: 39,6 milhões, com altas nas duas comparações: 1,1% (mais 421 mil pessoas) no trimestre e 4,1% (mais 1,6 milhão de pessoas) no ano. O número de empregados sem carteira no setor privado (13,5 milhões) caiu 6,0% (menos 861 mil pessoas) no trimestre e manteve estabilidade no ano.

 

O número de empregados no setor público (12,4 milhões) recuou 3,9% (menos 496 mil pessoas) no trimestre e subiu 2,8% (mais 334 mil pessoas) no ano.

 

O número de trabalhadores por conta própria (25,9 milhões) ficou estável no trimestre e cresceu 1,7% (ou mais 434 mil pessoas) no ano. Já o número de trabalhadores domésticos (5,7 milhões) recuou nas duas comparações: -5,0% (menos 300 mil pessoas) no trimestre e -3,7% (menos 219 mil pessoas) no ano.

 

taxa de informalidade foi de 38,1% da população ocupada (ou 39,1 milhões de trabalhadores informais) contra 38,7 % (ou 40,3 milhões) no trimestre encerrado em novembro de 2024 e 38,7 % (ou 38,8 milhões) no trimestre encerrado em fevereiro de 2024.

 

rendimento real habitual de todos os trabalhos (R$ 3.378) subiu nas duas comparações: 1,3% no trimestre e 3,6% no ano, chegando ao recorde da série histórica iniciada em 2012.

 

massa de rendimento real habitual (R$ 342,0 bilhões) foi novo recorde, mantendo estabilidade no trimestre e crescendo 6,2% (mais R$ 20,0 bilhões) no ano.

 

Estudo completo clique abaixo:

 

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/42964-pnad-continua-taxa-de-desocupacao-e-de-6-8-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-15-7-no-trimestre-encerrado-em-fevereiro

 

Ricardo Bergamini

ricardobergamini@ricardobergamini.com.br

www.ricardobergamini.com.br

Já lhe ocorreu que fomos salvos pela burrice da “chefia”? - Paulo Roberto de Almeida

Já lhe ocorreu que fomos salvos pela burrice da “chefia”?

Paulo Roberto de Almeida

 Já disse muitas vezes e repito uma vez mais: um golpe estava em curso, pelas pessoas mais incompetentes do establishment. A frágil democracia do Brasil foi salva desta vez por duas circunstâncias especiais: o condutor era um incompetente e um covarde, e principalmente era burro demais, verdadeiramente estúpido. 

O mesmo ocorre, mutatis mutandis, com Trump e os trumpistas aspones: o chefe, apesar de impetuoso, é um grande ignorante, o que faz dele um estúpido quase completo; e sua nova equipe, a de agora, apesar de fiel e submissa, é formada por um bando de amadores, especialmente ignorantes, alguns quadradamente estúpidos.

A burrice salvou o Brasil, mas nosso país tem quase nula possibilidade de afetar o mundo; já o Trump e sua tropa de ignaros podem afetar boa parte da humanidade, mas o mundo poderá se safar, pois ele e sua tropa são muito ignorantes, vários imbecis totais.

Sempre assino o que escrevo:

Paulo Roberto de Almeida

quinta-feira, 27 de março de 2025

O duplo desafio do século XXI - Paulo Roberto de Almeida

O duplo desafio do século XXI

Paulo Roberto de Almeida


Depois de séculos e séculos de guerras, massacres e hostilidades, o mundo caminhava para certa tranquilidade sob as regras mais ou menos aceitáveis do multilateralismo onusiano, quando irrompe a vontade reconquistadora de um cleptocrata frustrado com a diminuição do velho império das estepes e começa a avançar sobre terras vizinhas, as da Europa central e oriental. Os modos são os mais violentos jamais vistos desde a IIGM. É a morte novamente.

Não bastasse a violência armada, irrompe do outro lado do cenário um touro desembestado que começa a disparar mísseis tarifários contra antigos aliados e grandes parceiros comerciais, causando grande caos na economia mundial, destruindo as bases do multilateralismo comercial criado simultaneamente à ONU.

Nenhum dos dois autocratas respeita as regras penosamente costuradas ao cabo do maior conflito global da história da Humanidade. Ambos continuam a se guiar mais por seus instintos agressivos do que pelas normas mais elementares de um Direito internacional dificilmente erigido sobre os escombros da IIGM.

Atento à espreita, medindo as ações, está um velho império do passado que se prepara para recolher os ganhos de oportunidade que os dois impérios turbulentos do presente lhe estão oferecendo praticamente de graça.

À margem, sem qualquer capacidade de reação coordenada, contemplam o cenário desolador atores médios e pequenos que observam a luta dos dois gigantes, não um contra o outro, mas ambos contra a racionalidade, a paz e a segurança da humanidade. 

Tempos difíceis e imprevisíveis, mas não haverá um novo conflito global, apenas a autodestruição irracional do que foi construído nos últimos 80 anos de uma paz precária, indefesa em face de déspotas egocêntricos.

Não sabemos ainda a extensão do desastre e o que perdurará a despeito da ação dos elefantes loucos. Cabe apenas recomendar resiliência e cautela, até que eles se esgotem em suas iniciativas autodestruidoras.

Ao Brasil não cabe escolher nenhum dos lados irracionais, apenas manter valores e princípios de sua postura diplomática tradicional. 

Paulo Roberto Almeida

Brasília, 27/03/2025


quarta-feira, 26 de março de 2025

Clássicos revisitados: uma série em plena continuidade - Paulo Roberto de Almeida

 Clássicos revisitados: uma série em plena continuidade 

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Nota sobre os clássicos revisitados já feitos e uma em preparação. 

 

        Leitor compulsivo da boa literatura nas ciências sociais e nas humanidades, adquiri o hábito, desde as comemorações dos 150 anos do Manifesto Comunista, em 1998, de proceder a uma releitura dos grandes clássicos nessas áreas, revisitando os argumentos originais, mas adaptando-os ao ambiente contemporâneo. Assim, a primeira produção da minha série de “clássicos revisitados” foi exatamente a obra fundadora do “socialismo científico”, reescrevendo o panfleto do Marx e Engels sob o título de “Manifesto do Partido Comunista (atualizado para o século XXI)”, texto publicado no periódico então dirigido por Murillo de Aragão, Política Comparada, Revista Brasiliense de Políticas Comparadas (ano II, vol. II, nº 1, janeiro-junho 1998, p. 43-78). Nesse primeiro experimento de releituras atualizadas de grandes obras do passado eu retomava integralmente a estrutura e o estilo do texto original, operando uma transcriação-recriação do Manifesto de Marx e Engels, de 1848, adaptando-o às circunstâncias daquele final de século XX, já num ambiente de globalização triunfante. 

        A recepção parece ter sido satisfatória, pois que recebi o convite para republicar o texto, numa versão ampliada, em formato de livro, o que foi feito desde o ano seguinte: Velhos e novos manifestos: o socialismo na era da globalização (São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 1999), incorporando ainda um “Elogio da Exploração”, mais uma releitura de um discurso de Marx sobre as virtudes do livre comércio no caminho ao socialismo e, por último, um ensaio sobre a parábola do marxismo no século XX, compulsando toda a literatura a esse respeito. Esse livro, ao lado de vários outros esgotados ou fora do mercado de editoras comerciais, passou a estar disponível na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/41037349/Velhos_e_Novos_Manifestos_o_socialismo_na_era_da_globalizacao_1999_).

        Tomei gosto pela trouvaille de revisitar obras do passado, engajando em seguida numa longa reescritura do clássico de Maquiavel, daí resultando O Moderno Príncipe (Maquiavel revisitado), publicado em duas edições: uma digital (Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 2009, 191 p.), outra impressa (Brasília: Senado Federal, 2010, 195 p.; disponível: https://www.academia.edu/5547004/16_O_Moderno_Pr%C3%ADncipe_Maquiavel_revisitado_2010_).

        O divertissement continuou, por meio de uma adaptação de um outro clássico do passado, Tocqueville, mas fazendo-o “trabalhar”, hipoteticamente, para uma nova missão de prospecção, a serviço do Banco Mundial, revisitando nosso desempenho político na atualidade: “De la Démocratie au Brésil: Tocqueville de novo em missão” (Brasília, 10 agosto 2009, 10 p.). O resumo desse trabalho, publicado numa revista tipicamente universitária, pode ser aqui reproduzido: 

        O francês Alexis de Tocqueville vem ao Brasil, a serviço do Banco Mundial, para examinar a situação do país do ponto de vista do funcionamento das instituições democráticas e da economia de mercado. Tendo chegado bem-intencionado, ele constata irregularidades e aspectos disfuncionais em praticamente todas as instituições que visitou e nos mecanismos políticos e econômicos que examinou. Constata a deterioração da democracia e os avanços do estatismo, aliás apreciado e valorizado no Brasil. Parte de volta a Washington frustrado. (Espaço Acadêmico (9, 103, 2009, link: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/8822/4947; acesso em 13 mar 2025).

 

        Depois de Maquiavel e Tocqueville, dois gigantes da sociologia política, decidi fazer percursos por dois pensadores, um da antiguidade chinesa, outro da modernidade francesa, com conexões para a política brasileira: “Formação de uma estratégia diplomática: relendo Sun Tzu para fins menos belicosos” (Espaço Acadêmico, 10, 118, mar. 2011, 155-161; link: http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/12696/6714); “Da diplomacia dos antigos comparada à dos modernos”, a partir do modelo de Benjamin Constant, “De la liberté des anciens comparée à celle des modernes”. Academia.edu (link: http://www.academia.edu/12507205/2822_Da_diplomacia_dos_antigos_comparada_%C3%A0_dos_modernos_2015_; blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2015/10/da-diplomacia-dos-antigos-comparada-dos.html).

        Ao considerar novos pensadores, como “vítimas” dessas releituras atualizadas (e George Orwell, com o seu Animal Farm, estava certamente na primeira fila, muitos anos atrás), eu já tinha imaginado, retomar as lições básicas de Milton Friedman em seu famoso livro de 1962, e aplicar os seus argumentos ao caso brasileiro, com as devidas adaptações e considerações específicas ao nosso itinerário histórico e econômico. O fato é que, em 2006, imediatamente após sua morte, em 16 de novembro desse ano, imaginei um diálogo possível, em algum lugar do céu ou do limbo, dele com sua alma gêmea Roberto Campos, num artigo intitulado “Milton Friedman meets Bob Fields: o reencontro de dois grandes economistas”; ele foi publicado no dia 26 pelo Instituto Millenium (hoje apenas disponível em meu blog: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/01/milton-friedman-meets-bob-fields-o.html). 

        Roberto Campos tinha imensas afinidades eletivas com Milton Friedman, e sobre ele e seu pensamento já escrevi muitos artigos, incluindo dois livros. O primeiro, organizado e em grande parte escrito por mim: O Homem Que Pensou o Brasil: trajetória intelectual de Roberto Campos (Curitiba: Appris, 2017; do qual está disponível uma apresentação em meu blog: https://diplomatizzando.blogspot.com/2017/04/o-homem-que-pensou-o-brasil-roberto.html) constituiu uma homenagem no centenário do seu nascimento. O outro coletou todos os textos “constitucionais” de Roberto Campos, sua participação na Constituinte e as análises que ele fez sobre os impactos da Carta de 1988 sobre a economia e a política do Brasil: A Constituição Contra o Brasil: ensaios de Roberto Campos sobre a Constituinte e a Constituição de 1988 (São Paulo: LVM, 2018; apresentação disponível neste link: https://www.academia.edu/37324704/A_Constituicao_Contra_o_Brasil_Ensaios_de_Roberto_Campos_sobre_a_Constituinte_e_a_Constituicao_de_1988). Ambos tinham uma inequívoca convicção de que a condição essencial da liberdade política era a liberdade econômica, e é por essa questão que podemos dar início à nossa releitura da obra clássica de Friedman. 

        Efetuei há dois anos um esquema, unicamente focado na “versão brasileira” dessa obra interessante, conceitualmente ainda válida, mas datada em seus capítulos operacionais. Reproduzo esse esquema, mas precedido pelos títulos dos treze capítulos da obra original, para que se possa pelo menos ter uma ideia de quais questões Friedman tratou, aqui com a indicação sobre os problemas correlatos que caberia tratar no caso do Brasil. Já escrevi metade da obra, mas ainda vou demorar mais algumas semanas, com diversos outros trabalhos no pipeline, para terminar o conjunto dos capítulos, e depois preparar prefácio e apresentação, antes de publicar a obra, que é, como as precedentes da série, uma homenagem ao autor do clássico escolhido. Tenho vários outros na minha “lista de desejos”, mas não pretendo revelar agora as próximas “vítimas” dessas minhas intrusões no passado. Pelo menos, não tenho nada a temer dos autores, pois geralmente são autores do passado (o que é o requerimento para se tornar um clássico, embora alguns já o sejam em carne e osso).

 

(segue o esquema)

 


Capitalismo e Liberdade: uma releitura de Friedman ajustada ao Brasil


 

Capitalism and Freedom (1962)

Capitalismo e democracia no Brasil: releitura de um clássico


Prefácio (com referências aos prefácios das edições de 1982, 2002 e 2020)

 

Introduction

Introdução


1. The relation between economic freedom and political freedom

A difícil conexão entre liberdade política e liberdade econômica no Brasil

 

2. The role of government in a free society

O peso do Estado em uma sociedade parcialmente livre

 

3. The control of money

Moeda e finanças num ambiente altamente volátil

 

4. International financial and trade arrangements

Acordos financeiros e comerciais internacionais: a longa dependência

 

5. Fiscal policy

As contas públicas: raramente em equilíbrio

 

6. The role of government in education

O papel insuficiente do Estado na educação

 

7. Capitalism and discrimination

A persistência do escravismo e do corporativismo 

 

8. Monopoly and the social responsibility of business and labor

Monopólios, carteis e o sindicalismo tutelado pelo Estado

 

9. Occupational licensure

O cartorialismo regulatório ultra exacerbado 

 

10. The distribution of income

A não distribuição de renda: uma tendência persistente ao longo da história

 

11. Social welfare measures

Políticas de bem-estar social: entre o foco e a abrangência

 

12. Alleviation of poverty

Redução da pobreza: uma tarefa nunca completada

 

13. Conclusion

Conclusão: o que nos separa de uma sociedade desenvolvida?

 

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4881, 26 março 2025, 4 p.