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segunda-feira, 30 de março de 2026

A “venda” do Brasil aos Estados Unidos e a submissão de sua politica externa aos designios de Trump está sendo preparada pelo candidato bolsonarista; (Meio)

A “venda” do Brasil aos Estados Unidos e a submissão de sua politica externa aos designios de Trump está sendo preparada pelo candidato bolsonarista;


Flávio pede interferência dos EUA na eleição brasileira

Meio, 30/03/2026

Depois de o ex-deputado Eduardo Bolsonaro lutar arduamente para que os Estados Unidos atuassem contra a Justiça brasileira para libertar seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, agora é a vez de Flávio Bolsonaro voltar a pedir a interferência americana no País. Desta vez o pré-candidato à Presidência da República pediu para que haja pressão internacional para que as eleições de 2026 no Brasil ocorram sob o que ele chamou de “valores de origem americana”. Dirigindo-se ao público americano, o parlamentar pediu que os EUA e o “mundo livre” acompanhem o processo eleitoral brasileiro, com atenção à liberdade de expressão nas redes sociais, e atuem institucionalmente para garantir eleições “livres e justas”. (g1)

No discurso que fez na CPAC, o principal evento da extrema direita internacional, que aconteceu neste final de semana no Texas, Flávio também deu a entender que os Estados Unidos teriam acesso ilimitado às reservas de terras raras brasileiras em seu eventual governo. Segundo ele, o “Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam da China” no acesso aos minerais. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, classificou o episódio como o mais grave até agora no debate eleitoral de 2026 e acusou Flávio de se comprometer com a entrega desses recursos aos EUA. (Metropoles)”


sábado, 28 de março de 2026

Eleitor liberal procura - Giullia Chechia (Meio)

Eleitor liberal procura

Giullia Chechia

Meio, 28/03/2026

“Um centro mais radical.” Foi assim que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, definiu o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, em entrevista ao Canal Livre. Na mesma fala, antes sequer de terminar a frase, classificou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como “um centro com posições mais conservadoras, mais à direita”, e posicionou o incumbente do Paraná, Ratinho Júnior, entre ambos, com “um perfil intermediário”. Naquele momento, há cerca de um mês, Kassab ainda mantinha os três nomes na sua estratégia. Caberia a ele escolher um para disputar a Presidência, alguém capaz de encarnar uma candidatura que oferecesse ao eleitor uma alternativa fora da polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Com o terno azul escuro alinhado, o olhar firme e a sobriedade que lhe são típicos, deixou escapar pistas sobre o critério de escolha.

“O eleitor que a gente procura é aquele que quer mudar, que quer fugir da polarização, mas quer que dê certo. Ele não quer perder o voto. Nesse clima de polarização, o cara que odeia o Lula vota no Bolsonaro. O cara que odeia o Bolsonaro, se perceber que esse candidato de centro não tem chance, não vai votar. Vai ficar na polarização, vai escolher aquele que odeia menos. Então, o nosso desafio é encontrar um candidato que traga confiança de vitória ao eleitor que quer fugir da polarização.” Confiança de vitória. Era nisso que se apoiava, até então, sua principal aposta: Ratinho Júnior, o mais bem posicionado nas pesquisas eleitorais entre os três. Kassab não esperava um revés. Mas ele veio.

“O governador Ratinho Júnior decidiu concluir seu mandato no Paraná até dezembro deste ano”, dizia a nota do paranaense enviada à imprensa. A desistência pegou todos de surpresa, inclusive Kassab. A decisão só foi tomada, de fato, na noite de domingo, depois de uma conversa em família. Ali, sobre a mesa, um elemento difícil de contornar: o risco político. O alerta veio do pai. As investigações em torno do banco Master, avaliou ele, poderiam contaminar uma eventual campanha presidencial. O receio cresce à medida que avançam as negociações de delação premiada do empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, e de seu cunhado, Fabiano Zettel, apontado como operador financeiro. Entre os pontos que devem emergir nos depoimentos está a aquisição, por cerca de R$ 35 milhões, de uma participação no resort Tayayá, no Paraná.

Além disso, a maré política virou em casa. O senador Sérgio Moro oficializou sua filiação ao PL para disputar o governo do Paraná. Um partido que ensaiava aliança e chegou a cogitar Ratinho como vice numa chapa com Flávio Bolsonaro, abandonou o barco. Diante das águas agitadas, Ratinho Jr. optou por não zarpar rumo à disputa nacional.

Quem ficou a ver navios foi Gilberto Kassab. No mesmo dia do anúncio da desistência, recebeu Ronaldo Caiado em sua casa — que, com a saída do plano A, passou a ser lido como o favorito. Em vez de recuar, Eduardo Leite partiu para a ofensiva: concedeu entrevistas, se apresentou como alternativa viável e elevou a pressão sobre Kassab. Na quarta-feira, foi recebido pelo presidente do PSD e saiu do encontro deixando o recado: “Destaquei ao presidente Kassab, com todo o respeito que o governador Caiado merece, mas aquilo que ele procura representar já tem representante. Essa eleição precisa ter uma candidatura ao centro.” A disputa interna do PSD tem data para acabar: não passa de terça-feira, dia 31 de março.

Ainda não sabemos qual será a decisão do partido de Kassab. Mas se a escolha for Caiado, e não Leite, esta será a primeira eleição da Nova República em que uma voz liberal estará ausente da corrida. Mesmo numa eleição radicalmente polarizada, como a de 2022, esse conjunto de ideias estava lá, representado por Simone Tebet. O problema não é só o desaparecimento de um jeito de pensar o Brasil. A causa não é só a autodestruição do PSDB. O liberalismo é a ideologia fundadora do país. É o que inspirou os inconfidentes de Minas Gerais e a confederação de Frei Caneca. Quando todos os partidos concluem que o eleitorado não quer ouvir uma voz liberal, isto não é só sintoma. É causa da crise democrática.

Na tradição de Rui Barbosa a José Guilherme Merquior, do Benjamin Constant francês, do visconde de Tocqueville ou Norberto Bobbio, o que o liberalismo representa na política é seu eixo de moderação institucional. Quando numa República todos perdem a capacidade de enxergar o outro lado como adversário legítimo e o substituem por um inimigo moral, é aí que a democracia é esganada. O que o liberalismo representa, mesmo quando minoritário, é a defesa do pluralismo, da tolerância, da legitimidade que há no debate. O Brasil tem uma tradição política liberal de 250 anos. Quando ela é calada é porque todos enxergam a eleição como uma guerra na qual ou se elimina o outro com uma vitória, ou se será eliminado.

De volta às bases

O cientista político Christian Lynch, colunista deste Meio, aponta que o liberalismo, mais do que uma ideologia específica, é o regime que permitiu a convivência entre diferentes correntes ao longo do tempo. “Uma revolução liberal cria o Estado de Direito e a democracia e, a partir daí, várias ideologias passam a operar dentro desse sistema.” Aliás, o próprio percurso histórico do liberalismo ajuda a entender esse papel. Como explica Lynch, a corrente nasce entre os séculos 17 e 18, em países como Inglaterra e Holanda, associada ao surgimento de uma nova classe ligada ao comércio e à defesa de limites ao poder absoluto. “A ideia era organizar a sociedade a partir de um governo constitucional e representativo, no qual o Estado existe para garantir direitos da sociedade civil”, afirma.

Na base desse pensamento está a noção de que a ordem política deve se fundar em um acordo, um contrato, entre indivíduos livres, e não mais na autoridade hereditária ou divina. É a partir daí que emergem conceitos centrais como Constituição, representação e divisão de poderes. Esse modelo se consolida com as revoluções liberais, como a Revolução Gloriosa e, depois, a Revolução Francesa, e se espalha pelo Ocidente ao longo do século 19, período em que o liberalismo se torna a linguagem dominante da política.

Essa “sociedade civil”, no entanto, estava longe de abranger toda a população. Naquele contexto, a participação política se organizava a partir de critérios de capacidade, como escolarização, renda e inserção social, refletindo a ideia, comum à época, de que o governo deveria ser conduzido por aqueles considerados mais aptos ao debate público. “Era uma espécie de aristocracia de mérito. Não eram os melhores por nascimento, mas os que se destacavam”, explica Lynch. Nesse modelo, o parlamento não era pensado como expressão direta da vontade popular, mas como um espaço qualificado de deliberação, onde diferentes interesses poderiam ser confrontados e negociados. A ampliação desse sistema viria apenas mais tarde, pressionada por transformações sociais e pela emergência de novas correntes políticas.

“O liberal acredita em pluralismo político. Parte da ideia de que a sociedade não é unânime e, por isso, o conflito de opiniões precisa ser institucionalizado”, diz Lynch. Nesse arranjo, o parlamento se torna o centro da vida política: é ali que divergências são organizadas, debatidas e transformadas em decisões de governo. Mais do que eliminar o conflito, o liberalismo busca dar a ele regras, convertê-lo em disputa legítima, mediada por instituições. Com o surgimento de novas correntes, como o socialismo e o conservadorismo moderno, esse arranjo se torna mais complexo. O liberalismo deixa de ser a única linguagem da política e passa a conviver com projetos que enfatizam, de um lado, a igualdade e, de outro, a autoridade e a tradição. Ao longo desse processo, também se transforma, incorporando elementos democráticos e sociais. “Ele passa a funcionar como uma espécie de árbitro entre forças que puxam para mais igualdade ou para mais autoridade”, resume Lynch.

É nesse papel que, segundo ele, o liberalismo se consolida como eixo de equilíbrio do sistema. “Esse centro funciona como um ‘miolo’ que ajuda a garantir a adesão dos candidatos de direita e esquerda à democracia. Os intermediários também cumprem o papel de reduzir a distância entre os governos, entre os programas de política pública. Esse miolo não precisa ser majoritário. É que, sem ele, o sistema tende a oscilar de um lado para o outro. Sua presença ajuda a sustentar a moderação.” Moderação que floresceu, embora por vezes em campos estreitos, em terras tupiniquins no período da redemocratização.

Moderação à brasileira

Em 1989, quando o sistema político buscava se reorganizar depois de duas décadas de regime militar, na primeira eleição direta pós-ditadura militar, se apresentaram Mário Covas (PSDB) e Ulysses Guimarães (PMDB). Ulysses, símbolo da Assembleia Constituinte e da reconstrução democrática, carregava uma candidatura mais ligada à institucionalidade do que à competição eleitoral tradicional, e acabou derrotado por uma dinâmica que já apontava para a fragmentação e a radicalização daquele pleito. Mas ali a moderação se fez presente. Depois de o primeiro governo eleito pós-ditadura terminar em impeachment, com a saída de Fernando Collor e a posse do vice, Itamar Franco, em 1994 Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se coloca no páreo — e vence. Em 1998, se reelege.

“Eu vejo o episódio Fernando Henrique Cardoso mais como uma exceção que confirma a regra. Um candidato que é uma espécie de fusão da social-democracia com liberalismo, laico, intelectual, urbano. Isso aconteceu por um alinhamento de astros muito peculiar”, analisa Sérgio Fausto, diretor da Fundação Fernando Henrique Cardoso. Na visão dele, naquele momento, abriu-se um espaço para uma “centro-esquerda reformada”, que acabou se expressando sobretudo no PSDB, em aliança com um setor liberal-conservador também reformado, que aceitou a democracia e passou a jogar o jogo não só pelas regras, mas também pelos valores. Daí, em 2002, veio José Serra. Em 2006, Geraldo Alckmin. Serra tenta de novo em 2010. Em 2014, Aécio Neves. Todos chegam ao segundo turno, mas não conseguem vencer.

O problema é que o PSDB nunca conseguiu transformar o legado do governo FHC em marca, bandeira, identidade duradoura. “O PSDB num determinado momento resolveu que não tinha nada a ver com aquele legado, o que não faz o mais remoto sentido”, pontua Fausto. Ao abrir mão de defender o próprio passado, o PSDB foi perdendo densidade programática e se esvaziando como projeto político. No vácuo, o PT se mostrou mais eficiente. “O PT foi muito hábil em, ao mesmo tempo, estigmatizar a suposta herança maldita e se apropriar de algumas bandeiras. O PSDB foi se liquefazendo do ponto de vista de densidade programática.” Sem narrativa própria, os tucanos passaram a se definir pela negação: “Virou uma identidade pela negativa. É contra o PT.”

Esse esvaziamento cobrou seu preço quando o sistema político mudou de eixo. A ascensão de uma nova direita encontrou um partido já fragilizado. “Quando veio o tsunami da extrema direita, o PSDB já estava frágil, dividido, sem cara”, resume. O resultado foi um colapso que ultrapassa a sigla. “O naufrágio do PSDB é o naufrágio também desse centro democrático”, afirma, “que tinha um componente liberal importante.” Mais do que uma crise partidária, trata-se de um problema estrutural. Na leitura de Fausto, o Brasil nunca ofereceu terreno especialmente fértil para esse tipo de projeto. “A formação da sociedade brasileira, com enorme desigualdade, uma classe média relativamente pequena e frágil, nada disso propicia candidaturas liberais como a gente entende na Europa”, diz.

Em 2018, quando a extrema-direita já tinha um novo rosto, o de Jair Bolsonaro (PL), Geraldo Alckmin e João Amoêdo (Novo) se colocaram no pleito, mas tiveram desempenho limitado. Em 2022, já com a polarização cristalizada, Simone Tebet (MDB) se apresentou ao país como a voz liberal daquele ciclo. E agora, em 2026, as perguntas permanecem: haverá algum candidato liberal? Há espaço para isso? Antes de chegar lá, porém, é preciso entender como outra tentativa de reorganização desse campo também não conseguiu se consolidar.

Novo, a empreitada liberal que fracassou

Se o PSDB foi, por duas décadas, o principal veículo institucional do liberalismo democrático no Brasil, a tentativa mais recente de reconstruir esse campo se deu concretamente com o Partido Novo. Fundado em 2011 pelo empresário João Amoêdo, a sigla surgiu como uma resposta à crise de representação, propondo uma agenda liberal mais explícita, com ênfase em responsabilidade fiscal, redução do Estado e renovação política. Em 2018, essa agenda chegou à disputa presidencial Amoêdo. Ainda que com votação modesta, sua candidatura conseguiu inserir no debate público temas que até então orbitavam mais restritos a nichos.

Havia, ali, uma tentativa de reorganizar o liberalismo como identidade política assumida. Mas, poucos anos depois, essa experiência também se fragmentou. Para Amoêdo, o esvaziamento desse espaço começa pelo ambiente político mais amplo. “A gente partiu para um cenário de polarização onde o debate foi perdendo racionalidade. Hoje é muito mais um contra o outro do que uma exposição de ideias”, afirma. “Você não discute um plano para o país. Você reage a temas pontuais, sempre de forma binária.”

Esse ambiente, segundo ele, altera também a forma como o eleitor se relaciona com a política. “Os políticos passaram a ser tratados como celebridades. As pessoas tomam partido pelas figuras, não pelas ideias. A gente virou torcedor de político.” Mas há, na avaliação dele, um fator ainda mais determinante: o desenho institucional que passou a orientar os partidos. “Com o volume de dinheiro público — fundo partidário, fundo eleitoral e emendas — os partidos passaram a priorizar a eleição de bancada. A eleição presidencial virou secundária”, diz. “Hoje, o que importa para eles é eleger deputado federal, porque isso garante acesso a mais recursos. Não existe um plano para o Brasil. Existe um plano de manutenção de poder.”

Nesse contexto, candidaturas programáticas perdem espaço antes mesmo de nascer. O processo eleitoral vai sendo afunilado muito antes de a campanha começar. A própria trajetória do Novo, que buscou ocupar esse vazio, acabou sendo atravessada por essas distorções. Amoêdo relata um momento claro de ruptura. “Para mim, a virada foi quando houve a troca de gestão. Eu já tinha receios, mas ali ficou evidente que o partido começou a se desviar dos princípios que deram origem a ele.” Segundo ele, o descolamento se manifestou em decisões concretas. “O Novo começou a usar recursos públicos, coisa que a gente tinha se comprometido a não fazer. Passou a fazer alianças com partidos que tinham visões completamente diferentes. E começou a tomar decisões muito mais ligadas à manutenção de poder.”

A mudança, diz, também apareceu na postura política. “Inicialmente, o Novo não apoiava o bolsonarismo. Depois passou a fazer um apoio envergonhado. E hoje eu diria que é um apoio convicto.” Internamente, o processo veio acompanhado de um fechamento do espaço para divergência. Amoêdo cita a própria experiência como exemplo. “Quando eu declarei meu voto no Lula, mesmo fazendo todas as ressalvas, o partido entrou com um processo para me expulsar. Um partido que se dizia liberal tentando cercear a opinião de um filiado.” Depois do episódio, ele deixou a sigla.

Ainda assim, Amoêdo faz uma distinção importante: a ausência de uma candidatura liberal competitiva não significa que o eleitor rejeite essas ideias. “Poucos se definem como liberais, mas isso não quer dizer que o eleitor não esteja disposto a ouvir. O problema é que esse debate não está sendo colocado.” Sem esse espaço, ele acredita que o sistema tende a se empobrecer. No limite, o risco é de fechamento completo do jogo político. “Cada eleição vai estreitando mais as opções. E a gente volta sempre àquela lógica de votar no menos pior”, intui. “O problema é que, a cada eleição, o menos pior vai ficando muito próximo do pior.”

Ainda existem liberais no jogo

Apesar do esvaziamento de candidaturas nacionais, o liberalismo não desapareceu da política brasileira. Ele se fragmentou, se reacomodou e, em muitos casos, deixou de ser apresentado como identidade explícita. Para o pré-candidato ao governo de Minas Gerais, Gabriel Azevedo (MDB), o erro começa justamente na forma como o debate é colocado. “Mais do que o problema de não ter um candidato liberal, o problema é achar que isso, por si só, resolve alguma coisa. Não adianta falar que você é liberal. É falar qual é a sua solução para o problema.”

Na avaliação dele, há um descolamento entre o debate político e a realidade do eleitor, o que acaba tornando rótulos ideológicos pouco relevantes fora de bolhas muito engajadas. “Vai na rua e pergunta: ‘você é liberal?’. Ninguém sabe. Isso é papo nosso. O eleitor quer saber se a estrada está esburacada, se o filho está seguro, se consegue pagar as contas.” Essa desconexão, diz, é agravada por um ambiente político dominado por extremos e por uma lógica de comunicação que premia o conflito, não a moderação. “O algoritmo premia o escandaloso, o vexatório. Não premia quem está tentando resolver problema real.”

Ao mesmo tempo, Azevedo rejeita a ideia de que não haja espaço para candidatos liberais — desde que eles saibam se comunicar. “Claro que tem espaço. Mas isso exige estratégia, investimento pesado em comunicação, em pesquisa qualitativa. Comunicação não é achismo, é ciência.” Na prática, ele próprio tenta traduzir essa lógica em campanha, evitando o discurso ideológico e apostando em problemas concretos. “Ferrovia é de esquerda ou de direita? Morte na estrada é de esquerda ou de direita? Você precisa tirar a discussão desse lugar abstrato e trazer para o mundo real.” Essa estratégia passa também por uma leitura crítica do comportamento do eleitor — que, segundo ele, está cada vez mais distante da política. “Um adversário hoje é o desinteresse brutal das pessoas. Elas estão preocupadas em pagar boleto, cuidar da vida. Política virou coisa de uma minoria muito barulhenta.”

E, nesse cenário, insistir em identidades ideológicas rígidas pode ser mais um problema do que uma solução. “Existe espaço para um candidato liberal, desde que ele não faça disso a sua principal bandeira. Porque até explicar o que é liberalismo, já acabaram os 30 segundos de TV.” Essa percepção dialoga com uma leitura mais estrutural do cenário político. Para Luis Eduardo Lelis, consultor político-eleitoral e presidente do conselho administrativo do Livres, lideranças liberais continuam no jogo, mas estão dispersas, pressionadas pela polarização e, muitas vezes, recuando. “Eu não vejo que estão surgindo lideranças. Eu vejo que estão sumindo lideranças”, diz. Segundo ele, o auge recente, especialmente entre 2018 e 2020, foi interrompido por um ambiente que penalizou candidaturas fora dos polos.

“Muita gente que batia no peito e dizia que era liberal tomou um atropelo em 2022. E simplesmente desistiu da política.” Ainda assim, esses quadros seguem presentes em diferentes níveis de poder. Lelis cita, por exemplo, nomes como Raquel Lyra, em Pernambuco, ao lado de Daniel Coelho; Pedro Cunha Lima, na Paraíba; e, no Rio de Janeiro, figuras como Pedro Duarte e Chico Bulhões. Há também nomes que orbitam ou migraram recentemente entre partidos, como Marcelo Calero e Mônica Rosenberg, além de quadros que resistem dentro do Partido Novo, como Marcela Trópia e Thiago Mitraud. O próprio Azevedo aparece, nesse mapeamento, como uma das poucas apostas competitivas no Executivo estadual. Mas há um ponto em comum entre muitos desses nomes: a dificuldade, ou a escolha, de não se apresentar explicitamente como liberais. “Tem muita gente escondendo que é liberal para não perder voto. Ou até fingindo que é outra coisa”, diz Lelis.

A consequência é um paradoxo: as ideias continuam circulando, mas sem identidade clara ou protagonismo eleitoral. Hoje, segundo ele, o movimento é mais defensivo do que expansivo. “É um processo de resistência para não perder de WO. Se ninguém colocar o nome na urna, o liberalismo sai do debate público antes mesmo do jogo começar.” E mesmo onde há tentativa de reorganização, como no PSD, o objetivo não é dominar, mas influenciar.

O futuro a Kassab pertence

Na avaliação de Lelis, liberais têm se reagrupado no PSD na tentativa de se organizar para o longo prazo e influenciar um partido que, segundo ele, tende a se tornar “um dos maiores do Brasil e o principal da centro-direita”. “A ideia é influenciar como o Pérsio Arida e o pessoal da Casa das Garças influenciavam o PSDB. Sem ilusão de que a gente vai ser dono do partido ou que seremos maioria, mas com a convicção de que podemos ser um grupo intelectual forte ali dentro com alguma influência em política pública”, afirma.

Antes disso, porém, o partido ainda precisa resolver sua definição mais imediata: quem será seu candidato à Presidência — e, a partir daí, para onde o PSD tocará o barco ideologicamente. Entre todos os entrevistados — Lelis, Sérgio Fausto, João Amoêdo, Christian Lynch e Gabriel Azevedo — há um ponto de convergência: entre Caiado e Leite, o segundo é o único capaz de manter alguma presença liberal na disputa presidencial. Ronaldo Caiado, por outro lado, é visto como um nome externo a esse campo.

Christian Lynch é quem descreve essa diferença de maneira mais direta. Para ele, Caiado representa um conservadorismo de matriz histórica e social específica. “Ele é o estereótipo do conservador. É o representante das oligarquias do interior, porque é um conservadorismo de matriz interiorana que mantém a ideia de que o interior representa o verdadeiro Brasil, o Brasil profundo, que tem o lavrador, que tem o ‘Jeca’, que tem o homem do campo em contraste com as grandes ‘capitais da Costa’, que seriam as representantes de culturas estrangeiras, do liberalismo. Caiado é de uma oligarquia, uma aristocracia rural, de propriedade de terra”, afirma. Ele sugere também uma outra hipótese de leitura: de que parte do sistema político pode estar interpretando este momento como de menor polarização, com Lula percebido como mais moderado e Flávio Bolsonaro mais distante da retórica do pai, o que reduziria a noção de espaço para candidaturas realmente liberais, explicitamente de centro liberal. Mas isso está longe de estar cristalizado.

Na avaliação dos entrevistados, portanto, o que está em jogo não é apenas uma disputa interna do PSD, mas a própria permanência de um espaço liberal na eleição presidencial. Nesse contexto, o desempenho eleitoral imediato passa a ter peso crescente. É justamente esse tipo de lógica que preocupa Gabriel Azevedo. “O risco é a democracia brasileira se resumir a pesquisas eleitorais”, afirma. Ele lembra que a construção de lideranças políticas exige tempo e repetição: “as pessoas se esquecem que Lula concorreu a cinco eleições até virar presidente”.

Sérgio Fausto também chama atenção para o efeito estrutural desse tipo de racionalidade. No sistema político brasileiro, segundo ele, partidos tendem a operar sob a lógica da maximização imediata de votos. “O político quer maximizar voto no curto prazo. E faz sentido que seja assim. Mas então você fica num círculo vicioso: um quadro ossificado, uma estratégia sempre de curto prazo. Não faz sentido lançar um candidato como o Eduardo Leite. Mas com isso você fecha a possibilidade de ter uma renovação nas lideranças do país”, avalia.

Calculando a rota com base nos números, na mesma entrevista em que delineia os critérios de sua escolha entre Ratinho Jr., Caiado e Leite, Gilberto Kassab é confrontado com um cenário hipotético: se Flávio Bolsonaro chegasse ao segundo turno, seria “natural” um apoio do PSD? “Não digo natural, mas eu acho que a conversa é bem razoável e teria naturalidade.” Pragmatismo político-eleitoral puro. Uma resposta bem mais alinhada ao cálculo de curto prazo do que a uma visão de mundo liberal, de apego às bases do que funda nossa República.

O efeito, segundo os entrevistados, é o esgarçamento de uma democracia cada vez menos representativa de projetos e identidades políticas, e cada vez mais organizada em torno de incentivos de sobrevivência eleitoral. A eleição de 2026 está, potencialmente, no seu momento mais importante.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

As principais ideologias políticas do brasileiro, segundo Christian Christian Edward Cyril Lynch, em matério do Meio (Pedro Doria):

As principais ideologias políticas do brasileiro, segundo Christian Christian Edward Cyril Lynch, em matério do Meio (Pedro Doria):

"O principal achado da Pesquisa Meio/Ideia é uma detalhada fotografia da ideologia política no Brasil. Ao longo de sua carreira como cientista político, Christian Lynch se debruçou sobre mais de dois séculos de textos escritos por acadêmicos, políticos e jornalistas para mapear dez ideologias brasileiras. Dez jeitos distintos de compreender o país — e o mundo. Aqueles conjuntos de valores encontram eco na sociedade brasileira. Na parceria com o Instituto Ideia, fomos a campo para entender como.

Dos dez tipos, quatro predominam. O conservadorismo societário e o conservadorismo estatista, o socialismo cosmopolita e o socialismo nacionalista. Pois é: 70% dos brasileiros se distribuem nestes quatro.

Destes quatro, são os conservadores societários que definirão as eleições de 2026. São desconfiados do Estado, põem a família no centro, têm uma rígida bússola moral ancorada pela religião. Este grupo, ligeiramente mais feminino do que masculino, periférico, com baixa escolaridade, é perfeitamente capaz de votar na esquerda ou na direita. O que buscam é estabilidade. Paz.

Ideologia varia de acordo com região do país. Sua religião também é um forte determinante de qual ideologia terá, assim como renda. Nível de escolaridade e idade, porém, determinam pouco. Não é ter lido mais ou menos, ser mais velho ou mais novo que vai mudar sua inclinação.

As ideologias que compõem o Brasil, as que dão base eleitoral para Lula e as que alicerçam a família Bolsonaro. Num artigo de Pedro Doria, na Edição de Sábado, exclusiva para assinantes premium.

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Fux vota para absolver Bolsonaro e condenar Cid e Braga Netto: processo contra o golpe de Jair Bolsonaro no STF - Meio

Apenas para registro histórico desta pré-véspera da condenação, em 12 de setembro. No dia 10 de setembro, o ministro Fux exibiu um dos mais constrangedores exercícios de surrealismo jurídico em toda a história do STF e da justiça brasileira.

Está tudo dito, neste apanhado de matérias realizado pelo Meio, e não preciso comentar nada. PRA

11 de setembro de 2025 

Fux vota para absolver Bolsonaro e condenar Cid e Braga Netto 

Meio, 11/09/2025

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Foto: Evaristo Sá / AFP

Nem o mais otimista dos bolsonaristas esperava que o voto do ministro Luiz Fux fosse tão favorável ao ex-presidente Jair Bolsonaro e quase todos os demais réus julgados pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) na ação penal que trata da trama golpista. Em uma leitura de mais de 12 horas (íntegra), Fux absolveu Bolsonaro de todas as acusações feitas pela Procuradoria-Geral da República. Ele também isentou de culpa os ex-ministros Paulo Sérgio Nogueira, Augusto Heleno e Anderson Torres, o ex-comandante da Marinha Almir Garnier e o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-diretor da Abin. Fux condenou apenas o ex-ministro Walter Braga Netto e o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid, justamente o delator, formando maioria contra os dois. E mais: para o ministro, o processo deveria ser completamente anulado porque o STF não teria competência para julgar os acusados, que hoje não gozam de foro privilegiado. Segundo ele, Bolsonaro e os outros réus deveriam ser primeiramente julgados em primeira instância. O voto de Fux surpreendeu os próprios ministros do STF, que esperavam divergência apenas em questões preliminares, mas não no mérito, pois ele havia aceitado a denúncia contra Bolsonaro e condenado dezenas de acusados pelas depredações de 8 de janeiro de 2023. Na prática, Fux apenas concordou com o ministro relator Alexandre de Moraes quanto à validade da colaboração premiada de Cid. O julgamento será retomado hoje, às 14h, com o voto de Cármen Lúcia, que pode formar maioria para a condenação do ex-presidente. (g1)

O voto de Fux representou uma guinada de 180 graus em relação a seus posicionamentos anteriores. Confira o que o ministro disse no passado recente e o que diz agora. (UOL)

As defesas de Bolsonaro e dos outros réus na trama golpista estavam exultantes no Supremo durante o voto de Fux. Além da absolvição, Fux seguiu as principais linhas de defesa apresentadas pelos advogados, em especial a de que o STF não tem competência para julgar o caso e de que não houve crime de golpe de Estado ou abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Para o criminalista Celso Vilardi, que coordena a defesa de Bolsonaro, Fux “lavou a alma” dos acusados. (Estadão)

Para os advogados de defesa, um dos pontos mais positivos do voto de Fux foi a citação que o ministro fez a acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário. Na visão da defesa, o fato de Fux mencionar o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, de 1966, e o Pacto de San José, de 1978, abre caminho para que uma possível condenação de Bolsonaro e dos demais réus seja contestada em cortes e instituições internacionais, como a OEA (Organização dos Estados Americanos). Para a defesa, Fux ainda abriu um caminho para que o julgamento seja contestado no próprio STF, já que ele considerou que o Supremo não tem competência para julgar os acusados. Os advogados lembraram a estratégia usada pelo hoje presidente da Primeira Turma do STF, Cristiano Zanin, que conseguiu anular a condenação do presidente Lula com o mesmo argumento. (Folha)

Mas, de acordo com juristas e com a própria jurisprudência do STF, as coisas não são tão simples assim. Mesmo com o voto divergente de Fux, isso não significa que os caminhos para recursos por meio de “embargos infringentes” estejam abertos. Segundo a jurisprudência do Supremo, isso só seria possível se outro ministro votasse como Fux. Se o placar terminar em 3x2 para qualquer acusação contra qualquer um dos réus, aí sim se abre a possibilidade de uma revisão do julgamento. (Valor)

Embora Fux tenha levantado a possibilidade de que o processo venha a ser anulado no futuro, citando o que aconteceu com a Lava-Jato, Malu Gaspar explica que isso depende de uma vitória da direita nas eleições de 2026. Tendo em vista o cronograma de aposentadoria dos ministros do STF, o próximo presidente irá indicar três novos integrantes para a Corte. Caso a direita conquiste o Planalto ou ao menos uma maioria sólida no Senado, a quem cabe aprovar a indicação, pode nomear para o Supremo ministros favoráveis à revisão do processo. (Globo)

O voto do ministro ainda não havia chegado sequer à primeira terça parte e já era um dos principais assuntos da internet na manhã desta quarta-feira. Apoiadores de Bolsonaro viralizaram cortes da defesa oral de Fux e fizeram a hashtag “Somos todos Bolsonaro” chegar aos trending topics do X. Do outro lado, apoiadores do presidente Lula dispararam uma enxurrada de críticas ao ministro e levaram a hashtag “Crimes de Bolsonaro” também aos trending topics. (CNN Brasil)

Thiago Amparo: “Quem já estava atento, por ofício ou por masoquismo, à jurisprudência penal do Supremo e escutou o ministro Luiz Fux votar deve ter se perguntado onde estava este Fux garantista antes. No STF é que não estava. Não cabe a ministros do Supremo mudar sua posição sobre a legalidade ou ilegalidade da conduta a depender do réu”. (Folha)

Fabiano Lana: “Voto de Fux revela como era falso ‘acordo’ no STF para punir Bolsonaro e satisfaz parte da sociedade. A despeito de proclamar um voto supostamente técnico, o ministro deu voz a milhões de pessoas que pensam exatamente como ele se posicionou”. (Estadão)


sábado, 18 de maio de 2024

A Primeira Vítima: as noticias falsas na tragédia do RS - Meio, edição especial

 A Primeira Vítima

Meio, edição especial

18 de maio de 2024

O tema desta edição é desinformação. Em meio à catástrofe do Rio Grande do Sul, grupos da extrema direita se mobilizaram para criar uma nova onda de campanhas de fake news ligadas à tragédia gaúcha. Ações como essas não surgem ao acaso, são coordenadas. Quem quer ganhar vantagem política ao custo de vidas? Quais podem ser as motivações dos grupos que querem criar notícias falsas que impeçam o socorro a vítimas e coloquem em xeque as iniciativas solidárias? E como diferenciá-las de distorções ou de meras críticas legítimas a autoridades e figuras públicas? Essas são as perguntas que norteiam a reportagem. Decidimos distribui-la a todos os assinantes, premium e gratuitos, por entender que a desinformação é um problema que impacta a sociedade como um todo, sobretudo em ano eleitoral. Portanto, debater esse tema com seriedade, trazendo informações confiáveis, é fundamental para preservar o debate democrático, um valor que estrutura nosso pensamento aqui na redação. Como jornalistas com anos experiência, sabemos o quanto custa produzir informação de qualidade, único antídoto para as fake news. E não só em dinheiro, mas em trabalho, nas horas e horas gastas com apuração e checagem de informações. Esta reportagem de hoje que você que não é assinante premium pode experimentar é uma amostra da produção exclusiva que fazemos todos os sábados. Quer ajudar no combate à desinformação? Assine o Meio, e contribua para a produção de um jornalismo a serviço da democracia. Os editores.

Edição de Sábado: A primeira vítima

Por Guilherme Werneck e Luciana Lima

No Palácio do Planalto, o alerta vermelho de que era preciso uma operação robusta da comunicação para combater notícias falsas sobre as cheias no Rio Grande do Sul acendeu na segunda-feira, 6 de maio. Nas redes, as atenções dos usuários estavam divididas entre dois impactos: conservadores estavam indignados com as cenas sensuais do show da cantora Madonna na Praia de Copacabana, que havia ocorrido na noite de domingo. Também todos assistiam, com perplexidade, aos vídeos divulgados da cheia do Guaíba, inundando Porto Alegre e a região metropolitana da capital gaúcha com as águas que já haviam causado estragos na região serrana do Rio Grande do Sul.

A notícia que preocupou o governo unia esses dois mundos. E inundava o Facebook e o Instagram. A narrativa era de que o governo federal, por meio da Lei Rouanet, havia patrocinado o show da Madonna e, por isso, deixado de enviar recursos para os gaúchos. Imagens mostravam cidades inteiras submersas, a estátua da liberdade da loja da Havan coberta pela metade, pontes e estradas se rompendo e gerando comoção no país. Não se imaginava no governo, no entanto, que isso seria o ambiente ideal para uma nova onda de produção de fake news “em escala industrial”, como classificou um servidor da comunicação da Presidência da República.

Quando a praia carioca recebeu a rainha do pop, a tragédia gaúcha não tinha uma semana. Lula havia visitado o Rio Grande do Sul no dia 2 de maio, na quinta que antecedeu o show. O presidente também havia dado início a articulações com os três Poderes da República, para viabilizar recursos, sem medida, fora do alcance da Lei de Responsabilidade Fiscal. Ao se deparar com a falsa notícia do financiamento da festa de Copacabana com recursos públicos, Paulo Pimenta, ainda no comando da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, estava no estado, na companhia do ministro da Integração Regional, Waldez Góes. Pimenta ordenou imediatamente um esforço máximo de sua equipe em Brasília para desmentir a enxurrada de notícias falsas. O ministro também decidiu gravar um vídeo para ser divulgado nas redes do Planalto. “Desde aquele momento, estamos 24 horas no trabalho de identificar e desmentir notícias falsas que envolvam o governo e o Rio Grande do Sul”, disse ao Meio, um interlocutor do Planalto.

Acontece que, no meio dessa imensidão de mentiras puras e simples, houve também muita confusão, insegurança e crítica — cada modalidade com sua dose de legitimidade. Num cenário absolutamente caótico como o que se instalou no Sul, com áreas inacessíveis e cada cidadão com um celular na mão, as (poucas) informações que circulam não vêm depuradas. Resultam da percepção momentânea, do temor, do desamparo. Quem está atuando de má-fé se aproveita desses momentos para avançar sua agenda — no caso da extrema direita, normalmente de descrédito das instituições e de fomentação de mais caos. Quem está na defensiva, por sua vez, pode acabar desqualificando preocupações e leituras autênticas, taxando tudo de falso ou de parte do mesmo movimento.

É justamente nessa sutileza entre o que é inverdade bruta e o que é distorção ou mera desaprovação que os mal intencionados prosperam. Não raro, eles pegam um fato verdadeiro, em que um cidadão pode ter feito uma reclamação perfeitamente plausível, e aumentam ou desvirtuam um pedaço dele, divulgam com tom de indignação e pronto. Uma meia verdade se torna uma fake news inteira. O governo federal foi um dos alvos preferenciais das notícias falsas. Não foi o único. Militares entraram na dança. Influenciadores. Cientistas. Jornalistas. Pessoas vulneráveis, com desejo de encontrar culpados por suas mazelas e com razões mais que aceitáveis para estarem indignadas mesmo, embarcam na onda.

A operação de guerra do Planalto

Ao começar a busca por notícias falsas, por perfis hostis ao governo, o Planalto se deparou com um “ecossistema de destruição”, termo usado por membros da equipe. A resposta precisava ser na mesma dimensão. Antes dessa guinada, um conteúdo da presidência na página da Secom “Brasil contra Fake” alcançava em média 1 milhão de visualizações, segundo exemplo citado por um palaciano. Diante da tragédia, o vídeo com o desmentido de Pimenta teve dois milhões de visualizações só no X. Quando o influenciador Felipe Neto retuitou, o ministro teve mais de um milhão de visualizações e dessa forma foi se multiplicando. “Era um assunto que realmente preocupava as pessoas”, concluiu, em reservado. Além disso, o governo passou a postar na página “Brasil contra Fake” todo conteúdo sobre o Rio Grande do Sul, o que deu subsídios para vários outros influenciadores produzirem conteúdo próprio informando sobre as ações para minimizar os efeitos da tragédia. Nesse trabalho, o governo classificou pelo menos quatro “macro-narrativas” que precisavam de respostas urgentes, tanto na comunicação quanto em ações políticas.

Uma delas se apoia na ideia de incapacidade e ausência do Estado para socorrer as pessoas. Foi nesse contexto que surgiram “notícias” de que o governo estava barrando caminhões da divisa com o Rio Grande do Sul para evitar que donativos chegassem à população. Seis caminhões foram, de fato, multados por excesso de peso. As multas foram anuladas e eles não foram retidos. Houve uma versão em que se creditava o bloqueio dos caminhões ao próprio governo do Rio Grande do Sul, o que também é falso. Uma meia verdade que passou a revolta depois de embrulhada em distorções. Houve ainda “notícias” de que o governo estava colocando sua logomarca em cestas doadas pela população civil para os desabrigados — uma ideia que, se não desmentida, acaba desmotivando pessoas que gostariam de doar.

Outro eixo identificado foi mais surpreendente. Diz respeito aos militares. Aqui, o governo enxergou um novo rancor da extrema direita, após o fracasso do golpe de 8 de janeiro. Essa ideia apareceu sob o lema “civil salva civil”. Na tese governista, pela primeira vez, a extrema direita estaria contra o Exército, que não impediu que Lula seguisse no mandato após os ataques aos prédios públicos. Alertada sobre essa narrativa, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, disse que chegou a observar filmagens de militares e agentes da Defesa Civil sendo gravados em um momento de descanso, após uma jornada extenuante de salvamentos. “Lidar com esse tipo de coisa é muito difícil. Se alguém roubou, entrou em uma casa, fez um saque, a gente chama a polícia e é um ladrão. Agora, o que você faz com o roubo da verdade? O que você faz com o roubo da decência? O que você faz com o roubo da sensibilidade?”, questionou a ministra em entrevista ao Meio.

O próprio comandante do Exército, general Tomás Paiva, tomou para si a responsabilidade de rebater a diferenciação entre civis e militares no socorro. “Estamos colocando todo mundo. Aqui não tem que ter diferença entre Exército, Marinha e Aeronáutica, Defesa Civil. Todo mundo está trabalhando nesse momento”, disse. E fez um apelo em entrevista à Globonews. “As fake news atrapalham as pessoas que estão ajudando, principalmente nossos militares, que são a grande maioria. Dos 20 mil agentes públicos que estão trabalhando aqui, aproximadamente 10 mil são do Exército. Essas pessoas têm família também, às vezes, estão deslocadas, só que não podem ir para casa. Estão dobrando três dias, quatro dias. Às vezes não têm tempo para tomar um banho”, disse o general.

Algumas narrativas parecem delírios. Principalmente as que se referem ao negacionismo climático e à ideia de que o clima é manipulado pelos seres humanos para subjugar povos. Na enxurrada de fake news monitoradas pelo governo, a teoria “HAARP” foi identificada em várias postagens. Ela atribui a antenas de um projeto científico americano chamado HAARPa responsabilidade pela tragédia, ideia totalmente rechaçada pela ciência. Num discurso menos delirante e mais palatável a quem não quer ter de transformar o próprio modo de vida, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usou a tribuna para destilar negacionismo misturado a meias verdades. "Será que o que está acontecendo agora é porque emitimos mais carbono na atmosfera do que emitia-se em 1941? Não. A realidade é que cidades foram construídas, [gerando] mais asfalto, mais cimento, prédios, menos áreas de absorção de água nessa área que já é propícia a alagamentos. É o crescimento urbano desordenado.”

Outros parlamentares extremistas fizeram o mesmo, com todo tipo de assunto. Dos caminhões retidos ao fechamento de clínicas. O ministro Paulo Pimenta pediu, então, que a Polícia Federal abrisse um inquéritopara apurar a máquina de notícias falsas que passou a funcionar em meio à tragédia. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, tomou a atitude de acionar a Polícia Federal. Isso provocou os bolsonaristas, que tentaram usar a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, comandada pela deputada Caroline De Toni (PL-SC), para tentar emparedar o governo.

A ideia era convocar Lewandowski para prestar esclarecimentos à CCJ, sob a acusação de uso da Polícia Federal para violar a imunidade parlamentar e a liberdade de expressão nas redes sociais. A reação, porém, foi amenizada após uma reunião marcada pela equipe que cuida da relação parlamentar do ministro na pasta da Justiça e Segurança Pública, que conseguiu articular uma conversa com Lewandowski. O deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP) forçava levar a convocação para o ministro, que o recebeu em seu gabinete, junto com a deputada De Toni e Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e passou a explicar suas funções à frente da pasta.

Lewandowski reiterou que o ministério não tem poder para mandar abrir inquérito, como eles pensavam que poderia ocorrer. O que ele havia feito foi somente encaminhar o pedido da Secom do Planalto para a Polícia Federal, tudo sem análise de mérito. Também disse que confiava na capacidade técnica da polícia para separar o que é manifestação política do que é crime e que sobre esse trabalho ele, como ministro, não tinha qualquer ingerência. Enquanto o ministro ia falando, Eduardo Bolsonaro chegou a repetir que Lewandowski nunca foi seu alvo. O filho de Jair Bolsonaro, no entanto, não disfarçou seu foco no então chefe da Secom, que assumiu agora como ministro extraordinário para gerir a crise gaúcha. “Meu alvo nunca foi o senhor, meu foco é o Paulo Pimenta”, disse o deputado durante a reunião, de acordo com interlocutores próximos do deputado. O ministro, no entanto, não esboçou reação e reforçou sua disposição em atender a um convite futuro para esclarecer sua atuação na CCJ da Câmara.

Por que agora?

O surgimento dessa nova onda de fake news não pode ser considerado fruto do acaso. O pesquisador da David Nemer, professor de Estudos da Mídia na Universidade da Virginia e especialista em desinformação nas redes sociais, é enfático ao afirmar que é impossível pensar neste nível de desinformação sem pensar no planejamento e numa agenda. “Há uma econômica e uma política. Quem está por trás das fakes news quer ter um ganho, capitalizar em cima. No Rio Grande do Sul, a gente pode definir diversas agendas que podem explicar o porquê de as pessoas estarem tão empenhadas em desinformar”, disse ao Meio

Entre as principais agendas que engajam, segundo Nemer, estão a anticlimática, que desacredita o aquecimento global, e a agenda política, já de olho nas eleições municipais que ocorrem no fim deste ano. “Lá para outubro, muita coisa que está sendo plantada durante essa tragédia vai ser reutilizada”, afirmou. Ele defende que fenômenos como esse que estamos vendo em relação às notícias do Sul não podem acontecer apenas espontaneamente. “Quando a gente tem ondas intensas de desinformação, é porque o dinheiro para as campanhas voltou”, defendeu.

Por outro lado, o filósofo Pablo Ortellado, professor de Gestão em Políticas Públicas da Universidade de São Paulo e colunista do Globo, pensa que a questão não está sendo tratada de forma adequada. “É muito difícil você separar uma campanha orquestrada de desinformação de as pessoas emitindo opinião, justamente por que essa ação política está acontecendo sobre uma indignação que é espontânea e legítima”, disse ao Meio, considerando que as ações do governo federal e dos governos locais antes e durante a tragédia no Sul podem ser passíveis de crítica.

O que Ortellado condena é a resposta do governo federal de enfrentar o problema com a criminalização, transformando suspeitas em inquéritos da Polícia Federal. O que ele defende é que a abordagem tanto do governo quanto da imprensa ao lidar com as informações falsas seja feita com mais respeito às pessoas. Sem arrogância. “Até porque tem as coisas que são claramente falsas, mas tem muitos casos intermediários, que são baseados na realidade e que sustentam essa indignação legítima. Você não pode chegar para a pessoa e falar que o que ela está dizendo é besteira”, defendeu, embora acredite que casos graves, em que esse tipo de notícia atrapalha buscas, o trabalho dos agentes públicos e até as doações, devam sim ser investigados pela polícia.

Os dois pesquisadores concordam que o atual momento é propício para a produção de notícias falsas. Nemer sublinha que tragédias como a do Rio Grande do Sul também ganham uma dimensão maior por conta de um fenômeno midiático chamado de névoa da guerra, que ocorre em territórios em que o acesso da imprensa é dificultado, como acontece hoje na faixa de Gaza, por exemplo. “Nesses territórios, embora o acesso esteja muito difícil, você tem algumas pessoas que conseguem reportar. Elas viram porta-vozes, o que lhes dá um imenso poder de informar o que está acontecendo ali no chão, mas, se essas pessoas tiverem agendas próprias, isso abre espaço para a potencialidade da desinformação”, explicou. Já Ortellado lembra que a difusão de boatos em momentos de pânico acontece desde o século 19, mas que o alcance muda com a internet.

Para Ortellado, a desinformação não pode ser vista apenas como uma tática da extrema direita. Ele usa um conceito do Berkman Klein Center, de Harvard, que vê o crescimento de um ecossistema de mídia hiperpartidário, que compreende páginas da internet, YouTube, sites de notícia e redes sociais. “É um ecossistema digital de esquerda e de direita que está veiculando informação e alimentando a militância e a cidadania engajada. O que eles fazem é abastecer as identidades políticas. De outro lado, você tem a imprensa, que teria o papel de fazer a apuração e poder fazer um contraponto aos excessos”, explicou, dizendo que no Brasil temos um sistema tripartite. “Temos o circuito hiperpartidário de esquerda, o de direita, e um outro da grande imprensa, que tem algum tipo de sobreposição com os dois, mas é praticamente um terceiro circuito. Ele até poderia fazer o contraponto, mas não consegue dialogar com os dois campos da polarização para exercer esse papel”, concluiu.

O papel da imprensa é lembrado também por Caio Cavechini, diretor da série Extremistas.br, disponível na Globoplay. "O jornalismo profissional faz um excelente trabalho em campo e nas redações, oferecendo contextualização, dando a dimensão dos estragos e, principalmente, trazendo com sensibilidade histórias dos afetados e dos que os ajudam heroicamente. Esse trabalho dos jornalistas certamente está impactando muitos leitores e espectadores e mobilizando ajuda fora do Rio Grande do Sul. Mas, como vemos, ainda não rompe com o ‘túnel de realidade’ no qual alguns dos brasileiros trafegam. Experiências anteriores diziam que grandes tragédias eram capazes de reunificar povos divididos, que na dor prevaleceria um sentimento de unidade e solidariedade. Infelizmente, isso ainda não aconteceu por aqui."

Tanto o Cavechini quanto David Nemer vêem uma diferenciação entre as redes de direita e de esquerda. Para eles, as redes de direita têm maior poder de mobilização. Parte disso graças aos algoritmos de redes sociais, que dão mais visibilidade a conteúdos que estimulam a radicalização. Nemer também lembra da primazia do WhatsApp no Brasil, e de como ele é ideal para a divulgação de notícias falsas, sem nenhum tipo de mecanismo de controle. O que Cavechini chama de radicalização que nasce do casamento do interesse político dos extremistas com a ganância das redes sociais . “A capacidade de mobilização, de aproveitar esse mecanismo, é o que mais me impressionou durante as gravações da série e é o que ainda me impressiona, com exemplos não apenas no Brasil”, disse. 

O Brasil experimentou um alto nível de desinformação nas últimas duas semanas. Em volume e em sofisticação nos métodos. Experimentou também uma de suas maiores tragédias climáticas, que deixaram as pessoas perdidas, frustradas, desesperançadas. O reencontro com a informação verdadeira, em que se distinga mais claramente o espaço de posicionamentos e reprimendas a autoridades e outras figuras públicas, é tão urgente quanto a agenda ambiental.


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