Recebo, de um leitor deste blog, as seguintes perguntas:
On Nov 22, 2012, at 02:25 PM, [fulano] <fulano@gmail.com> wrote:
Boa tarde
Dr. Paulo, gostaria de tirar uma dúvida sobre as Malvinas.
Eu
acredito que a situação política das Malvinas, está mais para uma
posição geográfica estratégica militar em relação a América do Sul do
que simplesmente uma situação isolada para benefícios para a Argentina.
No entanto, caso a Argentina obtenha direitos sobre as Malvinas, após
análise da ONU, e a Inglaterra não concordar, esgotados todos os
direitos legais, poderá a Argentina ter o direito de expulsar a
Inglaterra por uso da força?
Grato
[Fulano]
Eis o que respondi, muito improvisadamente e de forma rápida:
Ilhas no meio do oceano sempre são interessantes, para países
costeiros, ainda que um pouco longe da linha territorial: elas ampliam tanto o conceito e a
realidade do mar territorial (12 milhas reconhecidas
internacionalmente, 200 milhas requeridas por muitos países), como a da
Zona Econômica Exclusiva, também de 200 milhas segnudo a Convenção do
Direito do Mar. Estamos falando de recursos econômicos: petróleo e
outros nódulos metálicos, além dos recursos pesqueiros.
Quando Grã-Bretanha se apossou do antigo território espanhol das
Malvinas, reivindicado pela Argentina então nascente, se tratava apenas
de uma etapa de apoio na longa viagem entre o Atlântico norte e o
Pacífico, passando pelo canal de Magalhães para alcancar o Oriente, cujo
outro acesso seria pelo Indico, antes da abertura dos canais do Panamá e
de Suez.
No plano militar tinha pouca importãncia, mas a Royal Navy, como todo grande império, gostava de ter bases em todos os mares. Hoje sua importância é basicamente econômica.
Não sei como a ONU poderia conceder direito sobre as Malvinas à
Argentina, pois isso dependeria, basicamente, de um laudo da Corte
Internacional de Justiça, caso as duas partes aceitassem tal
procedimento e se comprometessem a cumprir um veredito (que imagino não
ocorrerá por objeção da GB), ou de uma resolução do CSNU, o que também
não ocorrerá, uma vez que a GB também possui direito de veto, mesmo que
todos os demais, e os quatro outros permanentes, assim o desejem.
Não haverá, portanto, mas se por acaso houvesse, a Argentina ainda assim
não teria como conduzir sozinha uma operação de "desalojo", pois não
estaria se defendendo de uma agressão contra si, e não teria nenhuma
resolução do CSNU autorizando medidas retorsivas. A única operação desse
tipo ocorrida foi a primeira guerra do Golfo, depois que o Iraque
invadiu o Kwait.
Ou seja, o tema vai permanecer na agenda, mas não haverá solução
política, diplomática ou militar, até que a GB decida, sozinha,
unilateralmente, por vontade própria, retirar seus cidadãos das Malvinas
e entregar o território à Argentina.
Isso, se ocorrer, deve demorar pelo menos mais 50 anos, até que estejam mortos todos os protagonistas da guerra de 1982.
Paulo Roberto de Almeida
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Falklands-Malvinas: um imbroglio eterno?
Labels:
Argentina,
CIJ,
CSNU,
Falklands,
Grã-Bretanha,
Guerra das Malvinas,
Malvinas
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Postagem em destaque
Quais foram as grandes tensões geopolíticas do passado? Paulo Roberto de Almeida
Quais foram as grandes tensões geopolíticas do passado? Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor. Com vistas a responder possí...
-
Minha entrevista desta sexta-feira 25/02/2022, sobre a dramática situação da Ucrânia no canal +BrasilNews. 1437. “ Entrevista sobre a Ucrân...
-
Personagens Bíblicos / História do Profeta Samuel: Quem foi Samuel na Bíblia? https://estiloadoracao.com/historia-do-profeta-samuel/ Histó...
-
What Does China Want? Free David C. Kang , Jackie S. H. Wong , Zenobia T. Chan Author and Article Information Op International Secu...
-
Tratei desse assunto quando estava na embaixada do Brasil em Washington, e depois de dois desmentidos cabais, achava que o assunto já tinha...
-
Nova Ordem Global Multipolar? Paulo Roberto de Almeida A tal proposta de uma “nova ordem global multipolar” nada mais é que uma fraude comp...
-
Autobiografia de um fora-da-lei, 1: a trajetória do Estado brasileiro Por Paulo Roberto de Almeida Revista ...
-
Minha publicação mais recente: 1325. “ Historiografia das relações internacionais do Brasil”, Revista do Instituto His...
-
Meu amigo Airton Dirceu Lemmertz submete meus ataques a Madame IA (Gemini IA) ao exame e resposta da própria, que continua tergiversando so...
-
O que eu teria a dizer sobre “Tensões Geopolíticas e a Diplomacia Brasileira”? Paulo Roberto de Almeida Sinceramente, eu não sei, ou talvez...
-
H-Diplo Roundtable XXI-13 on Worldmaking after Empire: The Rise and Fall of Self-Determination by George Fujii H-Diplo Roundtable XX...
Um comentário:
Ao colega "filo realista" do post anterior:
Boutade recorrente entre os "kelpers"...
"Após terminada a refrega entre britânicos e argentinos uma equipe de TV londrina dirigiu-se às "Falklands" para entrevistar o mais antigo morador da ilha, uma simpática senhora octogenária...
Repórter:Havia muitos cidadãos argentinos morando na ilha antes da guerra?
Senhora:Havia bastantes argentinos, hoje nem tanto...!
Repórter: Então,quantos havia antes?!
Senhora:Apenas um!"
Vale!
Postar um comentário