segunda-feira, 23 de março de 2026

Russos sem o Starlink; Ucranianos recuperam territórios - João Guerreiro Rodrigues (Portugal)

Um "apagão" que está a mudar o mapa. Como a Ucrânia conseguiu os maiores avanços territoriais em mais de dois anos

João Guerreiro Rodrigues

Quore (PT), 21 mar, 12:00

A desativação do sistema Starlink para as tropas russas expôs a dependência tecnológica de Moscovo. O resultado? Uma contraofensiva relâmpago que permitiu a Kiev registar em fevereiro os maiores ganhos territoriais desde 2023, dando à Ucrânia um trunfo supresa nas negociações

Durante meses, a Rússia intensificou todos os esforços no campo de batalha para tentar conquistar o máximo de território ucraniano, antes de qualquer acordo diplomático para o cessar-fogo. Mas esses avanços tiveram um preço elevado. Para conquistar algumas centenas de quilómetros quadrados, o Kremlin perdeu dezenas de milhares de vidas. Só que um "apagão" tecnológico deitou meses de trabalho por água abaixo. O corte de acesso ao Starlink não cortou só as comunicações na linha da frente, criou as bases para a maior recuperação territorial ucraniana em mais de dois anos, permitindo às forças ucranianas recuperar num mês aquilo que Moscovo demorou muito mais a conquistar. 

"O grande descalabro russo está a acontecer na região de Zaporizhzhia. Devido a ter perdido o acesso aos sistemas Starlink, perdeu completamente o comando e controlo das suas forças. Os russos que conseguiram penetrar nas linhas ucranianas perderam o contacto com a retaguarda e a Ucrânia tem estado a recuperar muito território", afirma o tenente-general Marco Serronha.

O Kremlin queria mostrar aos Estados Unidos, durante as negociações de paz, que a derrota ucraniana era inevitável. E o número de recursos que colocou à disposição para o fazer não pode ser subestimado — o ano de 2025 acabou por tornar-se o mais sangrento desde que a guerra começou. Segundo dados do CSIS (Center for Strategic and International Studies), até dezembro de 2025, o número de mortos, feridos e desaparecidos russos atingiu os 1,2 milhões. A média fixou-se nas 35 mil baixas mensais, um número sem paralelo para qualquer grande potência desde a Segunda Guerra Mundial.

Apesar do enorme sacrifício humano, a progressão das conquistas territoriais russas continuou dolorosamente lenta. Em janeiro de 2026, as forças de Moscovo ocuparam 160 km², mas sofreram cerca de 198 baixas por cada quilómetro quadrado. E no início de fevereiro, a estrutura de comando russa sofreu um golpe que nenhum sistema de artilharia ucraniano conseguiria replicar.

O Ministério da Defesa da Ucrânia selou um acordo estratégico com a SpaceX para encerrar a "zona cinzenta" tecnológica que permitia ao Kremlin contornar sanções. Através de uma "lista branca", apenas os terminais Starlink validados pelas autoridades ucranianas puderam continuar a operar. Os terminais russos, obtidos através de intermediários, foram bloqueados.

"Mais uma vez se percebeu que um ator não estatal, como Elon Musk, pode ter um efeito determinante no campo de batalha. Não podemos esquecer que deixámos que o espaço fosse praticamente privatizado. Foi suficiente para ele alterar as regras de acesso à sua rede de satélites para a Rússia ficar com maiores dificuldades desde há muito tempo", explica o comentador da CNN Portugal José Azeredo Lopes.

De forma quase instantânea, milhares de terminais russos deixaram de operar. Sem o sinal estável e encriptado, dezenas de milhares de soldados ficaram temporariamente sem capacidade de coordenar operações. Os comandantes russos perderam os vídeos em tempo real dos drones, fundamentais para guiar a artilharia, e "ficaram cegos" na linha da frente.

O alto comando ucraniano transformou esta "cegueira" numa oportunidade de ouro. Fevereiro tornou-se o primeiro mês desde 2023 em que Kiev recuperou mais território do que aquele que perdeu. Avançando sobretudo no sul, nas regiões de Zaporizhzhia e Dnipropetrovsk, a Ucrânia libertou cerca de 388 quilómetros quadrados, anulando o progresso que custou milhares de vidas a Moscovo.

"Não diria que é um contraataque, parece que a Ucrânia está a voltar às posições que tinha antigamente na região de forma a consolidar a posição defensiva, preparando ainda mais a defesa do Donbass", defende o tenente-general Marco Serronha.

Aproveitando a confusão, as forças de Kiev recorreram a táticas de engodo e enviaram pequenos grupos para atacar a retaguarda russa. Interceções de rádio revelaram que, no meio do caos comunicacional, as unidades russas acreditaram que uma força muito maior tinha rompido as linhas, levando a ordens precipitadas para abandonar posições.

A ofensiva expõe, mais uma vez, uma das grandes vulnerabilidades russas: um exército gigante — que ainda detém uma vantagem de três para um em número de tropas —, mas dependente de tecnologia que Moscovo não consegue replicar. Sem Starlink, a Rússia foi forçada a usar tráfego de rádio desprotegido. O resultado? A Ucrânia começou a intercetar comunicações e a antecipar rotas inimigas com um dia de antecedência.

Talvez por isso, a reação do Kremlin tenha sido um misto de desespero e improviso. No terreno, as forças russas tentam agora passar cabos de comunicação entre as trincheiras e usar serviços de satélite chineses e russos. Continuam também a tentar substituir a SpaceX por antenas de rádio comerciais, como as da Ubiquiti.

O recurso a esta tecnologia civil é o exemplo máximo do "desenrasque" russo. Ao contrário do Starlink, estas antenas exigem uma "linha de vista" direta. Para as instalar, os soldados russos são forçados a subir a torres de telecomunicações, telhados de igrejas ou árvores, expondo-se aos drones térmicos ucranianos. Segundo as estimativas das tropas de Kiev, com estes improvisos, os russos recuperaram apenas 60% da coordenação que tinham.

Como se não bastasse, Moscovo trava agora uma guerra interna. O Kremlin quer proibir o uso da aplicação Telegram entre as tropas, impondo o sistema estatal "Max". Os comandantes, no entanto, resistem a mudar, temendo que os serviços de segurança russos (FSB) vigiem as suas comunicações táticas.

"É impressionante como um ator privado pode ter um papel muito importante na condução das hostilidades e na definição de vantagens", remata José Azeredo Lopes.

E esta desvantagem russa chega num momento particularmente sensível. Enquanto a Ucrânia pressiona na linha da frente, os diplomatas continuam a medir forças na Suíça. A libertação destes cerca de 388 quilómetros quadrados pode parecer pouco face aos milhares ainda sob ocupação, mas o seu valor não é apenas territorial. É a prova de que a 'inevitabilidade' da vitória russa, que o Kremlin tenta vender à custa do seu próprio povo, pode ser tão frágil quanto uma antena comercial pendurada numa árvore. Na mesa de Genebra, a Ucrânia recuperou mais do que terra: começou a recuperar a iniciativa.


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