sexta-feira, 19 de junho de 2026

Os diplomatas intelectuais e a cultura brasileira - Paulo Roberto de Almeida

 Uma relação que sempre esteve no meu foco de atenção:


2388. “Os diplomatas e a cultura brasileira”, Antuérpia, 28 abril 2012, 3 p. Comentários sobre as relações entre os diplomatas culturais, ou intelectuais, e o Itamaraty. Postado no blog Diplomatizzando (http://diplomatizzando.blogspot.com/2012/04/diplomacia-e-cultura-uma-relacao-sempre.html

=========

Os diplomatas intelectuais e a cultura brasileira

Paulo Roberto de Almeida
Postado, em outra versão, no blog Diplomatizzando

        Como sempre leio os mais diversos materiais de cunho literário, atraído que sou pela cultura em geral e por questões intelectuais, em particular, acabo deparando, muito frequentemente, na internet, com artigos ou matérias que pretendem censurar o Itamaraty pela falta de apoio às atividades de cunho cultural, ou por qualquer outra deficiência nessa área. Geralmente quem escreve é alguém que se pretende jornalista cultural, ou até algum intelectual, talvez (mas não necessariamente) pretendente a algum subsídio “cultural” (que no mais das vezes é simplesmente alimentar, em causa própria, quero dizer). Tendo isso em vista, vou tratar, em primeiro lugar, da questão crucial dos recursos públicos, para em seguida adentrar na questão do relacionamento dos diplomatas, especificamente dos diplomatas que exibem esse rótulo de intelectuais, com a própria casa que os abriga, para o bem e para o mal, se ouso dizer.
Todos sabemos que a cultura é a primeira a sofrer quando as verbas se fazem curtas.         Esse é um fato. Um país, qualquer país, sempre deixa de fazer coisas quando os recursos são escassos. Como esse país não pode deixar de pagar aposentados e pensionistas, até por razões constitucionais, e como ele – ou “eles”, pois no caso em questão, o país não faz nada, e sim são os políticos, que ocupam temporariamente, espera-se, o governo, os que fazem ou deixar de fazer coisas, ditas estratégicas, ou acessórias – tampouco deixa de pagar funcionários e manter atividades correntes, onde é que o país em questão vai buscar os recursos que faltam para aquelas atividades essenciais? Respondo brutalmente: ora bolas, nas iniciativas que podem, ou não, deixar de serem feitas e que não atingem o coração do funcionamento do Estado.
        Entre essas vítimas, em qualquer lugar, estão sempre as atividades culturais, sendo que aparecem em segundo lugar as tarefas de manutenção: estradas e ruas deixam de ser entretidas, e ficam esburacadas, novos equipamentos deixam de ser comprados (e aí escolas, hospitais e outros órgãos de administração e atendimento precisam continuar trabalhando com computadores velhos, por exemplo), enfim, existe um sem número de atividades que podem – por vezes devem – ser cortadas, em nome da economia.
        Arte, cultura, lazer, exibicionismo (burguês ou não) sempre convivem com a riqueza, em qualquer tempo e lugar: são os mecenas, os ricaços, ou Estados afluentes que financiam obras de arte e subsídios a esses “reclamões” incuráveis que são os intelectuais (muitos se acham no direito de receber do Estado, sem qualquer compromisso de resultado, apenas porque, supostamente, produzem arte, cultura, entretenimento).
Pois bem, até aqui apenas para dizer que não estou de acordo com jornalistas ou pretensos intelectuais quando pretendem reclamar da falta de verbas culturais.
Mas tampouco estou de acordo quando se pretende que a diplomacia brasileira deve muito a esses intelectuais. Duvido e contesto esse tipo de opinião, que parte de uma simples identidade “locacional”, para daí extrair uma conclusão que não tem a ver diretamente com o trabalho intelectual, de um lado, e sua suposta utilidade para a diplomacia, de outro.
        Muitos dos homens apontados como grandes “servidores da diplomacia cultural” brasileira já eram brilhantes quando ingressaram no Itamaraty, ou se tornaram brilhantes concomitantemente, ou simultaneamente, talvez até competitivamente, ao seu trabalho como diplomatas, não porque precisassem do Itamaraty para criar as obras que criaram. Se formos examinar sua “ficha de serviço”, se isso existisse, raramente encontraremos produções diplomáticas estrito senso, e sim produções culturais, acadêmicas ou livres, mas que poderiam ter resultado de qualquer outra atividade que exercessem – na indústria, na agricultura, nos serviços, na academia, até na vagabundagem de elite – e não necessariamente como resultado da diplomacia ou do Itamaraty. Muitos, isso é conhecido, adentraram no Itamaraty justamente para se aproveitar do Itamaraty, não para trabalhar para ele: a possibilidade de ganhar bem, sem precisar trabalhar muito – não é mais o caso hoje, mas era até a República Velha –, de só frequentar ambientes sofisticados nas mais belas capitais do mundo – tampouco é o caso hoje –, tudo isso fazia com que homens (sim, homens) de boa família se dirigissem ao Itamaraty, não para engrandecer a sua diplomacia e beneficiar o Itamaraty de suas luzes, mas para se beneficiarem a si mesmos, e à sua produção literária.
        Que eles possam ter acrescido, e muito, à cultura do Brasil, e enriquecido o prestígio do país no exterior, isso é inegável. Que isso tenha sido em proveito da diplomacia – estrito senso – é bem mais duvidoso, e talvez até enganoso.
Em todo caso, devemos saudar os grandes homens da cultura, agradecer o que fizeram pelo nosso enriquecimento intelectual, não reclamar quando o Estado é obrigado a fazer cortes que certamente foram dolorosos – mas alguns são absolutamente necessários, como por exemplo, no caso de muitos aproveitadores medíocres que se apresentam como “produtores culturais” (como existem tantos na república dos companheiros – e, por fim, descartar essa concepção simplista que faz de todo intelectual-diplomata, ou de todo diplomata intelectual, um servidor devotado da diplomacia cultural brasileira. As pessoas cuidam, em primeiro lugar, de si mesmas, e isto é simplesmente humano.

Paulo Roberto de Almeida
Antuérpia, 28 de abril de 2012

Nenhum comentário:

Postagem em destaque

Os diplomatas intelectuais e a cultura brasileira - Paulo Roberto de Almeida

  Uma relação que sempre esteve no meu foco de atenção: 2388. “Os diplomatas e a cultura brasileira”, Antuérpia, 28 abril 2012, 3 p. Comentá...