E lá vamos nós outra vez.
Os Correios publicaram o balanço do 2o trimestre: R$ 2,4 bi de prejuízo. No ano? Não, só no trimestre. E patrimônio líquido de incríveis R$ 20 bi negativos. No Gráfico 1 mostro a evolução do patrimônio líquido da empresa desde 2001 (até 2016, valores de final de ano, a partir de 2017, valores no 2o trimestre de cada ano). Só nos últimos 12 meses, o PL da empresa encolheu mais de R$ 11 bi. Quem diria que entregar a direção da empresa para um advogado do Prerrogativas iria resultar nisso aí. Fomos todos surpreendidos.
Mas antes o problema dos Correios fosse somente má gestão. O buraco é bem mais embaixo. Observe o Gráfico 2, onde temos o faturamento da empresa atualizado pela inflação. Note como, a partir de 2017, temos o início de um processo de queda quase ininterrupta no faturamento, desconsiderando os anos de 2020 e 2021, distorcidos pela pandemia. O faturamento de 2026 (estimado com base no número do primeiro semestre) é pouco mais da metade do nível de 2014, o pico da série histórica. E isso não tem nada a ver com governo A, B ou C.
O fato é que os Correios vêm se tornando uma empresa cada vez menos relevante no cenário da indústria logística brasileira. De acordo com levantamento da Associação Brasileira de Operadores Logísticos, o faturamento das empresas do setor cresceu 49% entre 2021 e 2025, período no qual o faturamento dos Correios recuou 35%.
O problema é que as despesas operacionais, principalmente com funcionários, não caiu na mesma proporção, como podemos observar no Gráfico 3, em que a linha azul mostra as despesas operacionais em moeda de 2026 (escala da esquerda), e a linha laranja essas mesmas despesas em proporção do faturamento (escala da direita). Quando essa proporção fica maior do que 100%, há um prejuízo operacional, mesmo antes das despesas financeiras.
Observe como as despesas operacionais vão crescendo até 2015, e a empresa passa a ter prejuízo operacional já a partir de 2013. Com a mudança de governo, há uma queda das despesas operacionais a partir de 2016, vindo do pico de R$32,5 bi em 2015 até R$22,5 bi em 2020. O problema é que parece haver aí um piso para essas despesas, que se estabilizam neste patamar. Como as receitas continuaram a despencar, o prejuízo operacional explode. Em 2026, se o segundo semestre repetir o primeiro, as despesas operacionais serão 60% superiores às receitas. E isso, repito, antes das despesas financeiras.
E por falar em despesas financeiras, veja o gráfico 4. Com a explosão do prejuízo operacional, a saída foi se endividar mais, o que resultou em crescentes despesas financeiras. Projeta-se mais de R$ 2 bi só de despesas financeiras em 2026, de longe o maior volume da história.
O que aconteceria se os Correios fossem uma empresa privada? Vamos a uma comparação atual: Casas Bahia.
As Casas Bahia passam por uma situação semelhante aos Correios, perdendo mercado para os concorrentes da Internet. Depois de alguns anos tentando adequar sua estrutura à nova realidade e procurando alternativas para aumentar o faturamento. Nada disso funcionou de maneira suficiente, e a empresa entrou com pedido de Recuperação Judicial para reestruturar a sua dívida. Portanto, se os Correios fossem uma empresa privada, já teriam entrado com RJ. Ao contrário, os bancos emprestaram mais dinheiro (R$ 12bi), com o aval da União. Ou seja, com o nosso aval.
Com a queda do faturamento, os Correios precisariam cortar despesas proporcionalmente, o que parece ser muito difícil, dado o poder que os funcionários parecem ter sobre a empresa. No caso das Casas Bahia, a empresa tomou a decisão de fechar quase 300 lojas e demitir 3 mil funcionários. No entanto, a Justiça do Trabalho sustou as demissões, o que demonstra como é difícil uma empresa em dificuldades se ajustar.
Capitalizar os Correios com dinheiro dos nossos impostos é somente adiar o desfecho inevitável de uma empresa que perdeu a sua razão de existir, como vemos pela intensa queda de seu faturamento. Se é para colocar dinheiro nos Correios, que seja para fechar a empresa e estancar a sangria.




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