Declaração de voto antecipada, 1
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor
Declaração de voto antecipada, 1 (as time goes by…)
Depois de 44 anos exercendo a carreira diplomática, durante a qual fui também um professor intermitente (minha primeira e permanente “profissão”), voltei a ser um modesto professor e observador diário da vida nacional e internacional, elaborando pequenos comentários pessoais, ou transcrevendo matérias de terceiros que julgo interessantes, e que posto em meu blog Diplomatizzando (que acaba de completar vinte anos de existência contínua, e que eu chamo de “quilombo de resistência intelectual).
Pois bem, acompanho eleições no Brasil desde 1960, quando, ainda pequeno acompanhei meu pai na cabine de votação para ele marcar na cédula um X no nome de Jânio Quadros (a grande esperança dos brasileiros em acabar com a corrupção, simbolizada pela “vassourinha” em metal que grudávamos na lapela das roupas).
A renúncia do bizarro presidente seis meses depois foi um outro acontecimento que chamou minha atenção, pois minha mãe foi me buscar na escola, temendo uma guerra civil ou sei lá o quê, um trajeto que eu sempre fiz sozinho, duzentos e poucos metros de nossa casa.
Depois, sem entender muito bem do que se tratava, tive notícias do plebiscito de janeiro de 1963, quando se teve o retorno ao presidencialismo, depois de um ano e meio de regime parlamentarista.
Mais um ano e meio de inflação, greves e disturbios civis (lembro-me da greve dos sargentos do controle aéreo, em setembro de 1963), veio o golpe militar, até recebido com alívio em minha casa, basicamente por causa da inflação penalizando os modestos ganhos paternos.
O golpe, aos meus 14 anos, correspondeu ao inicio de minha politização, e ela foi obviamente de esquerda, ao passar a ler material oposicionista e, logo em seguida, a literatura marxista original: Marx, Engels, Lênin e, sobretudo, os famosos intérpretes brasileiros progressistas, Caio Prado Jr., Celso Furtado, Florestan Fernandes e vários outros, que li precocemente, anos antes de ingressar na faculdade, a chamada Fefelech da USP.
E assim passamos 20 anos sem eleições dignas desse nome, eu atuando contra a ditadura, nas ruas, desde os 16 anos, e assistindo ao começo da resistência armada e ao aumento da repressão. Já envolvido em diferentes (sucessivos) grupos de resistência armada (eu apenas no apoio logístico), senti que poderia ser preso, como vários colegas meus, amigos e terceiros já estavam sendo presos. Viajei ao exterior por conta própria (Paraguai, Argentina, Chile e Uruguai) e tomei conhecimento de outros movimentos de resistência, trazendo alguma literatura em espanhol sobre o que se imaginava ser um grande movimento de resistência ao imperialismo americano na AL (mas nessa altura, Ché Guevara, na Bolívia, Carlos Marighella, no Brasil, já estavam mortos).
Decidi sair voluntariamente do Brasil, interrompendo Ciências Sociais na USP no segundo ano, deixando o Brasil em dezembro de 1970, mesmo mês em que o ex-deputado Rubens Paiva foi sequestrado pela repressão e desapareceu (só soube do caso em janeiro de 1971, já na Europa).
Depois de curta estada no socialismo (Praga, onde constatei o totalitarismo repressivo da ocupação soviética), em fevereiro de 1971 viajei para a Bélgica, onde me instalei para trabalhar e estudar pelos seis anos e meio seguintes: inscrevi-me no primeiro ano de Ciências Sociais da ULB, terminei a graduação em 1975, fiz imediatamente o mestrado na Universidade de Antuérpia, em economia do desenvolvimento, engajando logo em seguida um doutoramento em Sociologia Histórica, que deixei em suspenso em março de 1977, para voltar ao Brasil e juntar-me novamamente à luta contra a ditadura militar, já em sua fase declinante (mas ainda perigosa, pela atuação da extrema-direita de torturadores, terroristas e assassinos).
Sem concurso para alguma faculdade pública, comecei a dar aulas em faculdades privadas e deparei-me, em meados de 1977, com o anuncio de um concurso direto para o Itamaraty, pois, já no doutorado, não pretendia voltar a ser aluno de graduação (ainda que no prestigioso Instituto Rio Branco).
Só voltei a votar novamente em 1989, mas no Consulado em Genebra, onde eu trabalhava na Delegação junto aos organismos econômicos da ONU, com o embaixador Rubens Ricupero, o único diplomata (ainda conselheiro), repito, o único que me inpressionou favoravelmente nas palestras de “socialização” quando do ingresso no Itamaraty em 1977.
Volto ao mais importante: depois de ter assistido e participado ativamente de TODOS os escrutínios presidenciais desde 1989, só tenho uma recomendação a fazer: NÃO VOTEM NA EXTREMA-DIREITA, no horror abjeto do bolsonarismo vende-pátria, no negacionismo vacinal, anti-ciência e anti-cultura, inimigo das causas humanitárias, repudiem a submissão a um poder estrangeiro, os golpistas contra a democracia.
Este é o meu único recado: qualquer outro candidato fora da extrema-direita abjeta pode ser contestado. O bolsonarismo é um mergulho no mesmo horror submisso ao imperio como vimos em 2019-2022.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5426: 12 agosto 2026, 3 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/declaracao-de-voto-antecipada-1-as-time.html)