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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Brasil precisa repensar indústria de defesa, afirmam especialistas - Rafael Rosas, Francisco Góes (Valor Econômico)

 "Brasil já vai à guerra?", cantava Juca Chaves nos tempos do JK, música censurada depois. Mas o fato é que gastamos muito com as FFAA, mas grande parte para pessoal (e muito pessoal!). Talvez o Congresso devesse determinar que recursos para defesa deveriam ser NO MÁXIMO 35% com pessoal, o resto sendo equipamente e P&D. PRA


Comentário inicial de Mauricio David:
R$ 140,4 bilhões (para Defesa (????) Mon Dieu !!! E para gastos de pessoal : R$ 119,2 bilhões destinados ao pagamento de pessoal, encargos sociais e outras despesas correntes, o equivalente a mais de 90% do total. Dos quais R$ 8,675 bilhões serão destinados aos investimentos. My God ! E não podemos nem prender os narcotraficantes nas fronteiras... (MD)

Matéria:
..."Informações do governo mostram que, em 2025, foram empenhados R$ 132 bilhões para o Ministério da Defesa, dos quais R$ 119,2 bilhões destinados ao pagamento de pessoal, encargos sociais e outras despesas correntes, o equivalente a mais de 90% do total. Os investimentos receberam R$ 10,032
bilhões. Para este ano, a previsão orçamentária é de R$ 140,4 bilhões, dos quais R$ 8,675 bilhões serão destinados aos investimentos. Ainda em termos de fontes de recursos, o BNDES destinou R$ 44,089 bilhões entre 2016 e 2025 para projetos de tecnologias de defesa e soberania."...

Brasil precisa repensar indústria de defesa, afirmam especialistas
Setor representa 4,3% do PIB, mas carece de ação mais articulada entre Forças Armadas, universidades e empresas privadas
Rafael Rosas e Francisco Góes
Valor Econômico, 6/04.2026

As mudanças na ordem global impulsionadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocam o Brasil diante do desafio de repensar o papel da indústria nacional de defesa, dizem especialistas ouvidos pelo Valor. O setor passou por altos e baixos nos últimos 50 anos e responde por 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB), mas carece de maior articulação entre as Forças Armadas, universidades, centros de pesquisa e empresas privadas. Essa é uma realidade apesar de as Forças disporem de um maior orçamento mesmo em um contexto de crise fiscal, o que limita gastos, afirmam os especialistas.
A indústria de defesa ganha relevância nos dias atuais, uma vez que deixou de ser vista apenas como a capacidade de produzir equipamentos bélicos - blindados, armas de fogo, mísseis, aviões, navios e submarinos - para considerar também o desenvolvimento de tecnologias estratégicas, caso da robótica, cibernética, da automação e de sistemas eletrônicos, diz Darc Costa, ex-vice-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e social (BNDES) no primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003.
A questão que me parece mais relevante pra gente se preocupar é a nossa base industrial de defesa, que inexiste, disse Costa. Ele lança, no dia 16, no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, uma obra em dois volumes intitulada :Fundamentos para o estudo da guerra - a ética e a máquina no campo de batalha no século XXI (ver ao lado).
Embora o Brasil tenha tradição de ser um país pacífico - o último conflito no qual se envolveu foi a Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870, além do envio de tropas para a II Guerra Mundial, na década de 1940 -, ter uma base industrial de defesa é importante, dizem os especialistas, uma vez que funciona como estratégia de dissuasão e ajuda a reduzir a dependência de tecnologias e equipamentos estrangeiros em um momento em que a ordem global passa por transformações com a agenda imposta por Donald Trump.
Desde que assumiu, em 2025, Trump aumentou de forma unilateral tarifas de importação sobre outros países, privilegiou acordos comerciais bilaterais, atacou regras internacionais válidas desde a II Guerra Mundial e, em fevereiro, lançou os EUA, ao lado de Israel, em uma guerra contra o Irã, cujo desfecho é difícil de prever.
Costa, ex-coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra (ESG), disse que o Brasil precisa fortalecer a Base Industrial de Defesa (BID). A sigla define um conjunto de instituições, públicas e privadas, indústrias e centros de pesquisa responsáveis pelo desenvolvimento e produção de tecnologias e equipamentos militares: A sua existência é essencial para garantir autonomia tecnológica, desenvolvimento econômico e capacidade de dissuasão de um país, disse Costa.
O principal documento orientador da Política de Defesa Brasileira é a Estratégia Nacional de Defesa (END), instituída em 2008 e revisada em 2012, 2016, 2020 e 2024. A END estabelece diretrizes para modernizar as Forças Armadas, fortalecer setores e integrar defesa e desenvolvimento nacional. O Ministério da Defesa diz que um dos pontos centrais da END é o fortalecimento da BID.
Um especialista do governo em defesa disse que o Brasil sempre teve produção de equipamentos militares, mas de forma assimétrica. Significa que nem todos os setores se desenvolveram igualmente. Algumas empresas cresceram e se tornaram exportadoras, caso de Embraer, Taurus, IDV (Iveco) e Helibrás. Mas a rede da BID é maior e deve incluir não só grandes, mas toda a cadeia de fornecedores. Há um trilema para implementar a BID e ele é formado por capacidade operacional, fabricação local e preço. Se os dois primeiros elementos [aspecto operacional e fabricação local] forem viáveis, mas o preço for muito alto ou muito baixo, a BID não vinga, disse o técnico do governo.
Outra questão é que são as compras governamentais e tecnologias (P&D) que viabilizam a BID. Nenhuma indústria de defesa se desenvolve em um país para atender mercado local e exportar se, primeiro, as próprias Forças Armadas não comprarem. Um exemplo está no cargueiro KC-390, fabricado pela Embraer, mas que é um projeto pertencente ao Comando da Aeronáutica do Brasil. Tanto é assim que a Aeronáutica recebe royalties sobre as vendas da aeronave.
A dificuldade, na visão desse técnico, é que para viabilizar a BID o orçamento das Forças Armadas deveria ser determinativo (gastar o previsto) e não autorizativo, dependendo de contingenciamentos de recursos.
O Ministério da Defesa disse que a construção da BID envolve desafios típicos de setores intensivos em P&D e a articulação entre governo, indústria e academia. Entre os principais desafios estão a falta de financiamento contínuo e previsível, essencial para um setor caracterizado por ciclos longos de desenvolvimento tecnológico, que compromete o planejamento de longo prazo, e gera a dependência tecnológica externa, que limita a autonomia nacional em áreas críticas, afirma o ministério.
O economista Rafael Barros Barbosa, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), entende que o país não tem espaço fiscal para gastos de defesa se o objetivo for controlar o crescimento da dívida pública. Em 2025, o presidente Lula sancionou projeto aprovado pelo Congresso que autoriza o governo a gastar R$ 5 bilhões por ano pelos próximos seis anos por fora das regras do arcabouço fiscal. As exceções ao arcabouço têm sido diversas e somente por isso o governo conseguiu cumprir a meta fiscal do ano passado.
Esse tipo de compra tem ciclo longo e o negócio demora para ser fechado. Então o governo não quis comprometer o arcabouço. No entanto, para a dívida pública isso pouco importa. Gastos em defesa às vezes precisam ser realizados por caráter emergencial e, se este é o caso, talvez o governo deva fazer. Mas é preciso equilibrar as contas em outras áreas para manter o equilíbrio fiscal, afirmou.
Informações do governo mostram que, em 2025, foram empenhados R$ 132 bilhões para o Ministério da Defesa, dos quais R$ 119,2 bilhões destinados ao pagamento de pessoal, encargos sociais e outras despesas correntes, o equivalente a mais de 90% do total. Os investimentos receberam R$ 10,032 bilhões. Para este ano, a previsão orçamentária é de R$ 140,4 bilhões, dos quais R$ 8,675 bilhões serão destinados aos investimentos. Ainda em termos de fontes de recursos, o BNDES destinou R$ 44,089 bilhões entre 2016 e 2025 para projetos de tecnologias de defesa e soberania.
O setor de Defesa no país representa 4,29% do PIB, nas contas de Vinicius Mariano de Carvalho, professor do departamento de Estudos de Guerra do Kings College London. O Ministério da Defesa registra 327 empresas credenciadas e 2.345 produtos classificados como de defesa. Países emergentes como o Brasil devem buscar uma autonomia relativa em termos de produtos de defesa, precisamente para ganhar poder relativo e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros", afirmou Carvalho. Para o acadêmico, essa autonomia deve ser sobre o que é essencial: produção local de munição e armas leves, desenvolvimento de softwares militares nacionais, capacidade interna de manutenção e atualização de sistemas e domínio sobre ciclos críticos de operação, incluindo a integração de sistemas de comunicação e armamentos.
O país deve ter capacidade de produzir meios básicos essenciais que garantam certa autonomia em suprimentos no caso do emprego real das Forças Armadas. O Brasil pode ainda, via alianças estratégicas, tornar-se fornecedor de produtos de alta demanda na área de defesa, e desenvolver projetos de maior envergadura, afirmou.
Quando se fala em indústria de defesa, pensa-se imediatamente em grandes produtos, hardwares, como blindados, navios e submarinos, aviões de combate e mísseis. No entanto, a base industrial de defesa é muito mais do que isso. Sistemas e softwares que equipam quase todos os meios bélicos hoje são também parte deste ecossistema econômico, disse.
Carvalho entende que os investimentos na BID não podem viver de espasmos orçamentários: É irrealista pensar que se possa conduzir um programa como o do submarino convencional de propulsão nuclear sem uma regularidade orçamentária em investimentos. Esses programas industriais de defesa requerem regularidade e constância. Caso contrário, acabam saindo mais caros do que se previa e nunca conseguem entregar seus produtos em tempo.
O submarino nuclear, por exemplo, se tornou prioridade da Marinha pois é um instrumento para defesa da chamada Amazônia Azul, incluindo reservas de petróleo, disse o técnico do governo. No caso da Força Aérea, o caça Gripen, comprado da sueca Saab e construído nas instalações da Embraer em Gavião Peixoto (SP), pode ser relevante para o país participar das Forças de Paz das Nações Unidas, o que reforça, por sua vez, a ambição brasileira de um dia ocupar assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Darc Costa entende que um dos principais pontos do fortalecimento da BID é a nacionalização de equipamentos de ponta, de forma a evitar transtornos como aqueles vistos na pandemia. Na ocasião, houve interrupção das cadeias logísticas de suprimento e muitos países ficaram sem a vacina contra a covid-19 e respiradores.
Na defesa, Costa cita o caso da guerra da Argentina contra a Inglaterra nas Malvinas, que este mês completou 44 anos. O arsenal da Argentina tinha como base equipamentos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), do qual o Reino Unido faz parte. Em defesa, fábrica de equipamentos é o relevante. Quando trata de gastos de defesa, precisa de uma tríade: 30% para pesquisa, 35% para compra de equipamentos e 35% de custeio. O Brasil hoje tem 85% de custeio. Os outros 15% servem para comprar equipamentos, afirmou.


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