Democracia e eleições com ‘características chinesas’
por Cláudia Trevisan
Blog Estadão, 16.maio.2011
“Esta é uma eleição do Partido Comunista e não uma eleição americana”. A frase foi dita por um policial na semana passada no momento em que ele comandava a prisão de Liu Ping, desempregada e candidata independente ao Conselho de Representantes de sua cidade, na província de Jiangxi. Seu crime foi fazer campanha durante a eleição, algo absolutamente banal em vários lugares do mundo, mas inconcebível na “democracia com características chinesas”. Liu foi carregada pelos policiais e teve sua casa vasculhada.
Advogados chineses ressaltaram que não há nada na legislação do país que proíba candidatos de divulgarem seus nomes e propostas, mas o que menos conta quando os interesses do Partido Comunista estão em xeque é o que diz a lei.
A infeliz frase do policial se transformou de maneira instantânea em um hit da versão chinesa do Twitter, que é bloqueado no país. Chamada de Weibo (microblog), a ferramenta do site Sina tem 140 milhões de usuários registrados e, apesar da censura, se transformou em um importante canal de denúncia contra abusos de poder por autoridades desde que foi criado, em 2009.
É claro que o Weibo também está sujeito aos limites oficiais, o que se reflete no fato de que a frase “Esta é uma eleição do Partido Comunista e não uma eleição americana” foi deletada pelos censores e não podia mais ser encontrada ontem. Mas o nome “Liu Ping” continuava popular e havia se transformado em um símbolo da defesa dos direitos de voto dos cidadãos.
Contra todas as evidências, os líderes chineses repetem com frequência que seu país é uma democracia, diferente da ocidental, mas uma democracia. Entre os argumentos que utilizam estão os de que existem outros partidos além do Comunista (dos quais ninguém nunca ouve falar) e que há eleições para todos os órgãos de base da sociedade (realizadas em circunstâncias que restringem a liberdade de escolha dos eleitores, como os fatos recentes demonstram).
A mensagem implícita em “Esta é uma eleição do Partido Comunista e não uma eleição americana” é a de que nenhum resultado que contrarie os interesses dos ocupantes do poder é admissível. Os eleitores não precisam saber em quem estão votando, não há apresentação de propostas e tudo é absolutamente controlado pelo governo, que na China se confunde com o Partido. No fim, são “eleitos” aqueles previamente escolhidos pelos comunistas, que deixam mais uma vez clara sua falta de disposição para afrouxar o controle sobre o sistema político chinês.
Quanto a Liu Ping, ela continuava presa ontem, sob a suspeita de “esconder material de propaganda perigoso”, supostamente o mesmo que ela distribuía abertamente na porta do supermercado onde foi detida. A polícia revistou sua casa, confiscou o material “perigoso” e dois celulares. A eletricidade e a conexão de internet do local foram cortados.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
terça-feira, 17 de maio de 2011
Existe democracia e ilusocracia, na China - Claudia Trevisan
Labels:
Campanha,
China,
Eleições,
Partido Comunista,
Prisão
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Postagem em destaque
Desocidentalização, democratização e desconexão: minhas observações a um artigo importante de Dawisson Belém Lopes - Paulo Roberto de Almeida
Desocidentalização, democratização e desconexão: minhas observações a um artigo importante de Dawisson Belém Lopes - Paulo Roberto de Almei...
-
Minha entrevista desta sexta-feira 25/02/2022, sobre a dramática situação da Ucrânia no canal +BrasilNews. 1437. “ Entrevista sobre a Ucrân...
-
Carreira Diplomática: respondendo a um questionário Paulo Roberto de Almeida ( www.pralmeida.org ) Respostas a questões colocadas por gradua...
-
Uma preparação de longo curso e uma vida nômade Paulo Roberto de Almeida A carreira diplomática tem atraído número crescente de jovens, em ...
-
FAQ do Candidato a Diplomata por Renato Domith Godinho TEMAS: Concurso do Instituto Rio Branco, Itamaraty, Carreira Diplomática, MRE, Diplom...
-
Google translation: March 5, 2025 French Senate Mr President, Mr Prime Minister Ladies and Gentlemen Ministers, My dear colleagues, Europe ...
-
Bibliografia para o concurso do Rio Branco Resumo de uma lista de leituras por: Paulo Roberto de Almeida (Brasília, fevereiro de 2010) ...
-
Personagens Bíblicos / História do Profeta Samuel: Quem foi Samuel na Bíblia? https://estiloadoracao.com/historia-do-profeta-samuel/ Histó...
-
Paulo Roberto de Almeida uploaded a paper: Em " Minha vida de blogueiro amador ", compartilhamos reflexões sobre nossa jornada c...
-
O juiz lhe deu duas opções: viver com o marido com quem foi obrigada a se casar aos 11 anos… ou ir para a prisão. Ela escolheu a prisão — ...
-
O Senador Claude Malhuret denuncia novamente o bufão perigoso instalado em Washington (ouvir o discurso em francês, Paris, 26/03/2026) htt...
Um comentário:
Os processos de democracia são diversificados, e refletem a vida política, social e cultural de cada nação. As democracias baseiam-se em princípios fundamentais e não em práticas uniformes, pois, não existe modelo autêntico, forma perfeita, plena ou exemplar de Democracia no mundo; e nem existe modelo único que sirva para todas as regiões e todos os países.
O sistema pelo qual rege o egocêntrico, insolente e extremista regime imperial dos Estados Unidos da América do Norte; o qual se julga o campeão de “Democracia” por exemplo; não é senão um poder tirânico da burguesia e do capital monopolista; visto que, na organização do poder político estadunidense, todos os poderes estão reunidos em mãos da classe dominante; a qual não permite nenhuma ameaça ao seu domínio e, que não pode ser contrariada, criticada ou ter oposição organizada desfavorável as prerrogativas, ideários ou princípios burgueses; pois, o capital e os interesses da burguesia em primeiro lugar, e tem que ser defendidos a qualquer custo.
“A Democracia é para o império estadunidense, quando os EUA mandam e ditam as regras, subjugam e submetem os povos a condição e posição de servidão, exploração, passividade, dependência, obediência, sujeição, subserviência e controle; mas, quando os povos livres se exsurgem e tentam colocarem-se ou oporem-se contra a ingerência, ganância, dominação, tirania, vontade ou interesses dos EUA – então, isso será considerado de ditadura para o império estadunidense.”
Não se pode defender a tirania dos EUA, em relação ao mundo - ou mesmo - defender qualquer ditadura - mas, os povos realmente livres, soberanos e independentes de toda e qualquer força ou poder imperial; devem sempre estabelecer as bases e metas para lutar constantemente pela construção do processo de democracia e liberdade, conforme seus ideais.
Pois, é somente cabível aos povos nativos de um território ou nação, formar opinião ou juízo crítico sobre o exercício ou desempenho de seu governo, e seja qual for a forma constituída de governo.
E, da mesma forma, é somente cabível aos povos nativos de uma nação livre, derrocarem dos poderes políticos os condutores indesejáveis que julgarem ser intendentes déspotas, demagogos, corruptos, vigaristas, oportunistas ou aproveitadores e, tudo isso, deve ser feito sem a criminosa ingerência externa de qualquer força imperial.
Postar um comentário