sábado, 14 de março de 2026

O ESTREITO DE ORMUZ - Luiz Roberto Bendia (Canal Geo Discussões de Marcelo Rossi)

O ESTREITO DE ORMUZ
Luiz Roberto Bendia

Do canal Geo Discussões de Marcelo Rossi
12/03/2026

Todos pensam que o Irã pode fechar o Estreito de Ormuz. Isso está errado. O Irã não o fechou. Foi Londres. Não o governo.
As seguradoras.
A artéria petrolífera mais importante do mundo quase parou de fluir.
Deixe-me explicar.
Todos os dias, cerca de 107 navios cargueiros normalmente passam por ali.
Linhas vitais de energia para a economia global.
Na semana passada?
Apenas 19 navios cruzaram.
Um colapso de 81% no tráfego. Sem mísseis.
Apenas uma decisão: as seguradoras retiraram a cobertura.
Eis como o transporte marítimo global realmente funciona.
Cerca de 90% dos navios do mundo são segurados por 12 clubes de seguros marítimos. Esses clubes dependem dos mercados de resseguros — a maioria sediada em Londres.
Quando o risco de guerra aumenta, as resseguradoras podem retirar a cobertura.
E quando isso acontece:sem seguro!!!
→ os navios não podem navegar
→ o comércio para.
Um petroleiro de US$ 150 milhões não navegará sem seguro. Portanto, o Estreito de Ormuz não foi bloqueado pela marinha.
Foi bloqueado por uma planilha.
Agora, a verdadeira questão:
Quem está sendo realmente estrangulado?
Três atores.
1. Irã
Quase todas as exportações de petróleo iranianas passam por Ormuz. Se o transporte marítimo entrar em colapso o Irã não poderá exportar. Sua receita de guerra desaparece. Ironicamente, a arma petrolífera prejudica primeiro o próprio Irã.
2. China
A China é o país mais exposto do mundo a uma interrupção em Ormuz.
* Cerca de 40% das importações chinesas de petróleo bruto passam pelo estreito
* Cerca de 90% das exportações de petróleo iranianas são destinadas à China
* Os carregamentos de GNL do Catar para a China precisam atravessar Ormuz.
Portanto, se essa rota congelar, a segurança energética da China começa a ser abalada. É por isso que Pequim rapidamente pediu a desescalada.
3. Todo o Golfo
* Arábia Saudita
* Emirados Árabes Unidos
* Catar
* Kuwait
* Iraque
Suas exportações de petróleo dependem disso.
O Estreito de Ormuz transporta cerca de 20 milhões de barris por dia. Não há rota alternativa.
E é aqui que o sistema financeiro britânico entra discretamente na história.
Durante séculos, Londres dominou o mercado de seguros marítimos. Dos mercados de Lloyd's ao resseguro global. Isso significa que quando Londres decide que o risco é muito alto, o transporte marítimo global congela. Nenhum bloqueio é necessário.
Isso ajuda a Rússia?
A curto prazo, sim. Se as exportações do Golfo diminuírem:
* Os preços do petróleo sobem
* O petróleo bruto russo se valoriza
* A Ásia pode comprar mais petróleo russo
Preços mais altos significam mais dinheiro para Moscou.
E a Índia?
A Índia importa cerca de 85% do seu petróleo. Grande parte vem do Oriente Médio. Se a instabilidade no Estreito de Ormuz persistir:
* Os custos de frete aumentam
* Os preços do petróleo disparam
* A pressão inflacionária aumenta.
A vantagem da Índia é a diversificação.
Ela compra de:
* Produtores do Golfo
* Rússia
* Outros fornecedores.
Mas se o Estreito de Ormuz permanecer instável, todos pagarão mais.
Qual a maior lição aqui?
A maioria das pessoas pensa que a geopolítica é controlada por:
* Presidentes.
* Generais.
* Mísseis.
Mas às vezes os verdadeiros guardiões são os atuários que executam modelos de risco em Londres. Eles não disparam armas. Eles precificam a probabilidade. E quando os números não fecham o comércio global simplesmente para.
Se você quer entender a geopolítica moderna, lembre-se disto: o mundo não é mais controlado apenas por governos.
Ele é controlado por sistemas.
* Sistemas de seguros.
* Sistemas de energia.
* Sistemas financeiros.
Mísseis criam manchetes. Modelos de risco decidem o que realmente se move.
*****


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