A Revoada e a Presidência da República
Na política brasileira (e naturalmente não é de hoje), proliferam os filhos, irmãos, primos e netos; em suma, a família. O fenômeno é nacional e, de certa forma, ilustra as percepções sociológicas de Gilberto Freyre e de Oliveira Vianna quando estudaram, cada um a seu modo, o protagonismo da família e dos clãs em nossa formação social.
No momento, por exemplo, um sobrenome empurra morro acima, rumo ao “trono” presidencial, um certo senador pouco credenciado ao apetecido cargo, mas nem por isso pouco recomendado. Quem o recomenda? Ora, o sobrenome. (pelo menos para o não pequeno eleitorado de seu pai!). As pesquisas já indicam que ele está “surpreendendo”, ou melhor, que tem chances de chegar Lá!
Quanto a Lula, por mais que faça acenos, gestos e evoluções no sambódromo da situação, sua avaliação, segundo as pesquisas, continua fraca, nada entusiasmante. Reprovação e rejeição infelicitam o mandatário. Como diria Augusto dos Anjos, a ingratidão é uma pantera. Por outro lado, o senador candidato, como de resto todo o clã Bolsonaro e seus correlegionários, parece apostar na memória curta do povo, e, assim, põe-se em marcha, salvo o mais completo engano, um segundo projeto fascista de governo.
O ex-presidente, convicto do peso eleitoral do seu nome, chamou o feito à ordem. Muito mal comparando, fez um gesto à Dom João VI, como nos lembra a célebre fala: “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros”. Coisa de pai pra filho. Dom João nada tinha de bobo, como o revê em novo livro o historiador Paulo Rezzutti. Assim, para o ex-presidente, logo se salva a “família” (a dele!), joia incrustada no lema sempre sedutor e sempre fascista que ilude os incautos como uma falsa tábua de salvação: “Deus, pátria e família”.
Caso guindado à Presidência da República, o Zero Um (com perdão pela intimidade aritmética), senador, o predomínio da ralé será imenso em todas as esferas da República, como ocorreu no governo paterno. A porta da mansão prisional será aberta, e por ela ressurgirá um Bolsonaro triunfante, sem soluços, sem tremores e “com sangue nos olhos”. A reprise continuará com desprezo aos Direitos Humanos, com perseguições a inimigos reais e imaginários, com a supressão de direitos duramente conquistados, com o apoio a uma polícia truculenta, com o desmantelo das instituições, com o desprezo pela cultura e pelas “artes degeneradas”, com o racismo e a misoginia sendo empoderados… Não há como se imaginar outro quadro com o retorno do fascismo bolsonarista ao poder. Acrescente-se a tal quadro que o novo presidente poderá indicar seis novos ministros para o Supremo, criando um favorável “alinhamento astral”…
Seja acenando com uma carta de paz (como a mídia comentou ultimamente), seja com momices e dancinhas pelo Nordeste, seja por qualquer outro meio que passe manteiga no focinho do gato, o senador Flávio Bolsonaro não apagará o sobrenome que carrega, e sua moderação não será mais que uma comédia de mau gosto. Nesse ponto, faço minha a crucial pergunta do cientista político Fernando Abrucio, em seu artigo do último dia 27 no jornal “Valor”: “É possível acreditar que um candidato abandonaria o ideário que orienta a maior parte do seu eleitorado?”.
Infelizmente penso que nem a motosserra de Javier Milei pode cortar a dureza que o sobrenome Bolsonaro evoca aos brasileiros de bom senso. Dureza que vem dos milhares de mortos na pandemia da Covid, que vem do seu desprezo pelo meio ambiente, pela imprensa e pela cultura. Dureza pela militarização fascista da política e da educação. Dureza do golpe que o manteria no poder (para o qual chegou a flertar com o assassinato de Lula, Geraldo Alkmin e Alexandre de Moraes). Uma vez obtida a Presidência da República, acredito que voltará a atmosfera fratricida que Jair Bolsonaro tão bem soube difundir em todo o Brasil.
Eis o desafio nada pequeno à nossa sofrida “mãe gentil”: não se deixar tomar pelos novos corvos (sim, não é só o Zero Um) que já esvoaçam, disfarçados de moderadas pombas, como urubus sobre a carniça. São, quase todos, “aspirantes a fascistas” (na precisa expressão do historiador Federico Finchelstein), ávidos por se juntarem à negra revoada que já infelicita vários povos e países.
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