Saudades daqueles tempos? Certamente não, mas cabe sempre recordar para que o Brasil não venha a cair novamente nessa trampa. Reproduzo abaixo uma entrevista dos anos sombrios da diplomacia brasileira:
sábado, 11 de abril de 2020
A diplomacia brasileira em tempos de olavo-bolsonarismo: um ponto fora da curva: Entrevista com o diplomata Paulo Roberto de Almeida - Gustavo Nogy (Gazeta do Povo)
[A diplomacia brasileira em tempos de olavo-bolsonarismo: um ponto fora da curva]
Entrevista com o diplomata Paulo Roberto de Almeida
Gazeta do Povo, 11/04/2020
Por Gustavo Nogy
· [11/04/2020] [15:44]
Sede das Nações Unidas em Nova Iorque Foto ONU Manuel Elias
Paulo Roberto de Almeida é
diplomata de carreira, historiador das relações internacionais e
estudioso da economia política, além de escritor e organizador de
diversos livros. Graduou-se em Ciências Sociais, fez Mestrado em
Planejamento Econômico na Universidade de Antuérpia e Doutorado em
Ciências Sociais na Université Libre de Bruxelles. Publicou dezenas de
livros, muitos dos quais podem ser encontrados para compra nas livrarias
virtuais ou baixados gratuitamente de seu blog pessoal, Diplomatizzando.
1 Primeiro, as apresentações: poderia falar sobre sua trajetória intelectual e no Itamaraty?
Sem
qualquer intenção de parecer diferente ou melhor do que os colegas,
devo começar por dizer que minha postura e minha trajetória na carreira
diplomática são, efetivamente, originais, talvez únicas, no Itamaraty, e
cabe, portanto, começar pela formação e perfil de vida para ressaltar
minha distinção vis-à-vis o diplomata mediano. Venho de uma família
muito modesta, de pais sem formação primária completa, sem livros no lar
de origem, mas beneficiado por uma biblioteca pública infantil nos
arredores da casa, o que determinou de forma decisiva minha trajetória
intelectual pelo resto da vida. Politizado precocemente em função do
golpe militar de 1964, passei a cumprir uma trajetória típica de jovem
de esquerda de meados dos anos 1960: protestos contra o governo militar,
estudos de ciências sociais e alinhamento com os movimentos de
resistência à ditadura, antes de decidir sair do país por absoluta
inocuidade daquela forma de oposição.
Os
sete anos de autoexílio na Europa, entre 1970 e 1977, confirmaram a
vocação intelectual no trabalho acadêmico, com um grande conhecimento e
experiência adquiridos em viagens, leituras e atenta observação do mundo
real, praticamente todos os socialismos realmente existentes, e
capitalismos centrais e periféricos. A volta ao Brasil se deu pela
vertente acadêmica, mas rapidamente alterada pelo ingresso na
diplomacia, mais pela curiosidade da profissão do que por uma verdadeira
vocação de ser um servidor do Estado. O que posso dizer é que nunca
cultivei e sequer me dobrei àquilo que diplomatas seniores não cansam de
repetir como sendo os dois princípios básicos da diplomacia, em
similitude com o que ocorre nas FFAA: hierarquia e disciplina. Nunca
deixei de exercer minha própria capacidade de arbítrio individual, como
de seguir meu próprio julgamento – sempre embasado em sério estudo das
questões – na avaliação de políticas públicas e nas posturas assumidas
pelo Brasil no plano internacional. Com isso, posso ter confrontado mais
de um chefe ocasional, ao valorizar mais a autoridade do argumento do
que o argumento da autoridade, talvez em função de minha predisposição a
me guiar bem mais pelo ceticismo sadio do que pela adesão irrestrita a
quaisquer dogmas de uma Casa estilo Vaticano.
Minha
carreira se desenvolveu normalmente, sem que eu jamais tivesse de pedir
favores aos superiores para promoção, remoção ou cargos: apenas
dedicação ao trabalho. Meu primeiro “memorandum” lido na Casa foi a
respeito da escolha de Karol Wojtilla como novo papa, e o papel da
Igreja na Polônia e no socialismo em geral. Depois tive alguns livros e
ensaios parcialmente censurados pelas chefias, o que fez com que, a
partir de conselheiro, eu decidisse não mais submeter meus textos para
autorização institucional antes de publicar. Mas evitei muitas críticas à
política externa oficial, até que os companheiros me vetassem para
dirigir o mestrado em diplomacia do Instituto Rio Branco, logo no início
de 2003, o que me levou a permanecer toda a longa duração do regime
lulopetista sem qualquer cargo na Secretaria de Estado das Relações
Exteriores. Aproveitei os anos de lazer involuntário passados na
biblioteca do Itamaraty para escrever livros, fazer pesquisas,
dedicar-me a meus afazeres intelectuais nunca interrompidos: tenho de
ser grato aos meus algozes pelo limbo.
Só
fui chamado a trabalhar – não na SERE, mas no IPRI – com o impeachment
de 2016, e tive dois anos de intensas atividades e publicações
claramente refletidas em meu relatório de gestão (feito ao final de
2018, pois já antecipava o desfecho, tendo observado o que se passou na
campanha); ele pode ser lido nesta postagem da plataforma Research Gate. Uma breve síntese sobre minha trajetória de carreira desde 2003 figura em duas cronologias que ofereci no blog Diplomatizzando (aqui e aqui). Creio que isto já atende ao pedido de informações sobre minha trajetória no Itamaraty.
2 O
Brasil passa por um momento curioso: um governo com plataforma
econômica liberal que detesta o liberalismo. Como o senhor, que é
estudioso de economia e leitor atento da obra de Roberto Campos – além
de organizador de livros sobre ele – vê o atual governo?
O atual governo é um animal estranho, uma espécie de ornitorrinco brasileiro, só surgido em virtude das circunstâncias excepcionais criadas
pela trajetória julgada gloriosa do lulopetismo – crescimento
econômico, distribuição social, projeção internacional etc. –, mas, a
partir de certo momento (2013 em diante), avaliado como corrupto e
incompetente pela classe-média, que é quem determina grandes mudanças
políticas e eleitorais no país (como aliás em quaisquer outros países). A
atmosfera otimista cercando o partido e seus principais protagonistas
veio abaixo sob os golpes combinados da recessão econômica e da luta
contra a gigantesca corrupção empreendida por eles. A partir daí,
infelizmente, tivemos a trajetória de ascensão de uma direita
conservadora, mas sem qualquer doutrina, sem ideias claras de
governança, movimento lamentavelmente simbolizado por um dos piores
representantes do chamado baixo-clero do sistema político brasileiro,
um outcast do estamento militar, sem qualquer capacidade de governança, menos ainda de liderança.
O atual governo representa uma assemblage daquilo
que emergiu na fase de “resistível ascensão” do nosso “Arturo Ui”, um
personagem medíocre, mas que teve a agregação em torno de si de tudo o
que possa haver de “bom, de mau e de feio” na política e na economia
brasileira. A rejeição absoluta dos eleitores ao lulopetismo corrupto e
inepto entregou a sociedade a uma outra coalizão de corruptos e ineptos –
de certo modo também alucinados, pelas outras vertentes a ela agregados
–, mas que conseguiu cooptar elementos razoáveis das elites, do
estamento burocrático, dos meios políticos. O governo é esse animal
estranho, que pode ter os seus burocratas competentes, certos técnicos
de nível, nos quais se incluem alguns elementos militares, mas também
representantes alucinados desse amálgama que se convencionou chamar de
olavo-bolsonarismo, mas que não corresponde a nenhum pensamento
claramente formulado, apenas aos instintos mais primitivos que possam
existir.
Eu
não considero sequer que o governo tenha uma “plataforma econômica
liberal”, mas “que detesta o liberalismo”, pois este aspecto foi apenas
um subterfúgio ocasional usado pelo capitão – orientado por políticos
hábeis – para conquistar poderosos apoios – e que serve de resguardo
para ingênuos ou oportunistas. O fato é que o governo, pela absoluta
falta de concepções sobre qualquer coisa do dirigente máximo – a não ser
o instinto primitivo do capitão, impulsionado por filhos ambiciosos –, é
uma nau sem rumo, que ora voga para algumas reformas possíveis,
impulsionadas pela ala dita “racional”, mas que bem mais frequentemente
tende a singrar sem rumo num mar encapelado. Não se poderá esperar nada
de muito diferente nos meses, e talvez anos, à frente, infelizmente para
o país desgovernado.
3 Aproveitando
que falamos de Roberto Campos, uma pergunta necessária: existe uma
tradição consistente de ideias liberais no país? Quem são, o que
fizeram, nossos grandes liberais? E em que eles são diferentes daqueles
que se pretendem anunciadores de novidades velhas? Porque Campos e
Merquior, por exemplo, já liam e divulgavam Mises e Hayek há tempos...
Não
creio que exista, no Brasil, uma “tradição liberal”, pois isso
significaria a existência de uma corrente, uma escola, uma tendência,
movimentos, partidos agregados em torno de doutrinas, ideias, propostas
liberais, e não consigo detectar nada semelhante em toda a nossa
história. O que temos, de tempos em tempos, são expoentes que não sei se
poderiam ser chamados de liberais, pois sua formação, sua atuação
social, sua influência pública são no mais das vezes ocasionais,
intercaladas, aos repentes de certos momentos ou de algumas lideranças
identificadas com essas ideias, mas que agem mais por pragmatismo, ou em
reação a trajetórias problemáticas, que adotam “algumas” (não todas)
soluções mais ou menos liberais em função de necessidades urgentes ou de
ensaios de curta duração nessa linha. Se juntássemos todos os liberais
do Brasil veríamos que geralmente foram trabalhadores do mundo
acadêmico, pensadores independentes, absolutamente únicos em seus
respectivos meios acadêmicos ou governamentais. O nacionalismo
instintivo, o protecionismo recorrente e o patrimonialismo explícito e
implícito têm sido as características mais frequentes de nossa
governança e do “pensamento” acadêmico.
É
uma ironia da nossa trajetória nacional que as propostas
consistentemente liberais tenham sido recorrentemente derrotadas pelas
coalizões de escravistas, de industriais liztianos e por militares
nacionalistas ao extremo. É também uma ironia que as poucas fases de
ação mais ou menos tendentes a um horizonte liberal tenham sido feitas
em reação aos desastres criados pela trajetória errática da maior parte
dos governantes. É outra ironia o fato de que os poucos liberais que
tenhamos tido em nossa história tenham atuado a contrario sensu do que se poderia esperar – e permito-me aqui citar alguns exemplos históricos.
Bonifácio
construindo um governo forte para evitar o fantasma da desagregação
nacional; Mauá tendo de fazer apelo a concessões do Estado para
sustentar seus negócios privados; Campos Salles e Murtinho tendo de
aumentar a proteção para resolver urgentes problemas fiscais e de
endividamento; Oswaldo Aranha condescendendo com o autoritarismo de
Vargas na falta de qualquer alternativa de governança; Gudin tentando
colaborar com políticos antivarguistas para impulsionar políticas que
nenhum deles, de fato, queria defender; Otavio Gouvêa de Bulhões e
Roberto Campos construindo as bases do Estado todo-poderoso ao pretender
reformar o Brasil e eliminar todas as mazelas existentes; Collor (um
despreparado) tentando abrir o Brasil a golpes de martelo; FHC (que não
era liberal) tendo de compor com a direita reacionária, pois a esquerda
sectária recusou qualquer proposta reformista socialdemocrata; e agora
um inepto, um destrambelhado, um alucinado capitão sabotando o trabalho
dos poucos tecnocratas liberais existentes no seu governo.
É
também evidente que o liberalismo não se sustentará, no Brasil, apenas
pelo movimento das ideias, pelo número de professores (ou até políticos)
que citam Mises e Hayek, ou quaisquer outros doutrinários liberais. Se o
liberalismo não possuir uma conexão firme com a governança prática, com
o oferecimento de soluções aos problemas reais do Brasil, com vida dos
cidadãos, ele não terá muita chance de prosperar no Brasil.
4 Apesar
de todo o justificado pesar com a condução da política externa no atual
governo, o PT não era lá flor que se cheirasse no cenário das relações
internacionais. Tinha, digamos, amigos bastante suspeitos. Como o senhor
analisa aquele período, agora em perspectiva?
Creio
poder dizer que sou mestre nesse tipo de análise, e talvez seja por
isso que fui rejeitado pelo lulopetismo em geral, e pelo lulopetismo
diplomático em especial. Muitos anos antes que se começasse a imaginar
que os petistas pudessem chegar ao poder – embora todos os
“progressistas” no Brasil, como entre os italianos nos tempos do PCI
eurocomunista, desejassem a chegada da esquerda ao governo, pela suposta
mensagem ética, contra a politicalha corrupta –, eu já escrevia sobre
partidos políticos e política externa, e já identificava no PT um típico
partido esquerdista latino-americano, com seus cacoetes e equívocos
econômicos e diplomáticos. Pior: como antigo “aprendiz” dos movimentos
de resistência à ditadura, sabia do que eram feitos os antigos
guerrilheiros que se reciclaram na luta política e que se tornaram os
“neobolcheviques” que passaram a controlar o partido, ao lado dos
sindicalistas mafiosos, na irresistível ascensão do partido ao poder.
Sabia que o apoio castrista ao partido desde o início, a existência de
aparelhos clandestinos dentro do partido, nos levaria a um outro tipo
de Nomenklatura,
a uma cleptocracia improvisada, e desorganizada, mas gramscianamente
capaz de controlar os “aparelhos do Estado”, e assim monopolizar o poder
durante bastante tempo (e quase o conseguiram, não fossem por esses
acidentes de percurso que sempre ocorrem, delatores e incompetentes que
atrapalham).
Fui
isolado desde o início, pois os companheiros – inclusive dentro do
Itamaraty – sabiam disso, o que eu poderia fazer para desacreditá-los,
por isso me colocaram no limbo. Foi bom para escrever, mas minha
carreira ficou irremediavelmente destruída; não que isso me causasse
qualquer depressão, mas fiquei isolado no meu blog, o quilombo de
resistência intelectual de onde eu disparava petardos contra a política
externa oficial. Resumi o essencial de minhas críticas no livro Nunca Antes na Diplomacia (2014), depois complementado pelo Contra a Corrente (2019),
onde estão minhas análises mais consistentes sobre o lulopetismo
diplomático. A editora quis fazer uma segunda edição do Nunca Antes,
a que me opus, por achar que agora, sim, chegamos a um “nunca antes”
jamais ultrapassado em nossa história diplomática, por razões que não
posso expor detidamente neste espaço. Caberia, talvez, um novo livro,
sobre os desvios de governança e de política externa desde o início do
século.
Se
me permito uma simples imagem gráfica sobre o que significa o “antigo
regime” lulopetista comparativamente ao “novo regime” bolsonarista, em
matéria de política externa e de diplomacia, poderíamos dizer o
seguinte: partindo de uma dessas “pizzas” de economistas, que sinalizam o
peso relativo das diferentes porções de um todo (o “bolo” completo),
pode-se dizer que na pizza diplomática do lulopetismo diplomático apenas
uma, ou no máximo duas fatias correspondiam às ações
“cubano-bolivarianas” do assessor presidência da área e seus aliados no
partido e na diplomacia. Todo o resto era puro Itamaraty:
multilateralismo, adesão ao Direito Internacional, nacionalismo grudado
na pele, regionalismo e integracionismo, desenvolvimentismo cepaliano ou
unctadiano, terceiro-mundismo onusiano, o tradicional antiamericanismo
moderado, o progressismo nos temas politicamente corretos e o novo
ambientalismo, que emergiu progressivamente, após o desenvolvimentismo
exacerbado de sempre. O que temos agora, na EA – a Era dos Absurdos –, é
um horrível molho olavista que se espalha e contamina toda a pizza,
mesmo se não consegue impregnar a “massa” da diplomacia profissional,
pois falhou em conquistar a adesão de pessoas sensatas, dentro ou fora
do Itamaraty, salvo, obviamente, os fanáticos já devidamente
identificados com a mais alucinante trajetória de nossa história
diplomática.
5
O que pensa a respeito da diplomacia brasileira hoje, sob a influência
de Olavo de Carvalho; o voluntarismo dos filhos presidenciais; a
estreita (subserviente?) relação com os EUA; o aceno a conflitos que não
são nossos, como a questão de Israel; e, em especial, o recente
desconforto com a China?
Cabe
começar por uma precisão: NÃO existe, atualmente, NENHUMA diplomacia
digna desse nome, pelo simples fato de que não tivemos, nunca tivemos,
desde o início e até agora, uma EXPOSIÇÃO clara, explícita, do que seria
essa diplomacia, ou do que deve ser uma POLÍTICA EXTERNA para o Brasil.
Isto por algumas razões muito simples: está claro que o capitão é um
inepto total para formular e apresentar qualquer ideia coerente a esse
respeito; seu guru expatriado também é um completo inepto nessas
questões; o conselheiro internacional do PSL, guindado à condição de
assessor presidencial, é um mero aprendiz, um fanático olavista,
totalmente despreparado em questões diplomáticas. O único indivíduo que
poderia formular algumas ideias em política externa e diplomacia, o
chanceler acidental, é um completo boneco nas mãos (e nos pés) da
Bolsofamília e, sobretudo, do Rasputin da Virgínia. Ele se revelou
incapaz de expressar qualquer postura coerente na sua área, se
contentando apenas em agradar e obedecer a seus amos, além de apresentar
alguns traços pessoais de desequilíbrio emocional merecedores de
registro. Ou seja, estamos atuando no vácuo absoluto, a não ser pelos
poucos instintos primitivos dos antimarxistas no poder e por sua adesão
sabuja e incompreensível (já que contrária aos seus próprios interesses
no comando de um país com postura própria nas relações internacionais),
não aos Estados Unidos em geral, mas à figura do Trump em particular,
ademais dos arautos da nova direita que ascende em alguns países, os
poucos parceiros da diplomacia atual.
Todas
as escolhas, opções e orientações determinadas por esse bando de
alucinados foram invariavelmente equivocadas e prejudiciais aos
interesses nacionais, tanto é que foram sabotadas, contidas ou
revertidas e amenizadas pelos indivíduos racionais do governo e pela
pressão dos lobbies econômicos interessados mais em defender seus
negócios do que as políticas ou doutrinas consistentes com aqueles
objetivos. O fato é que vivemos, no Brasil dos Bolsonaros, um apagão da
inteligência e uma destruição de qualquer base racional para uma
política externa razoável, como já tive a oportunidade de expor em meu
livro Miséria da diplomacia: a destruição da inteligência no Itamaraty(2019, livremente disponível no blog).
Mas
esse livro ainda é uma crítica “intelectual” da esquizofrenia
diplomática, e não uma exposição pragmática dos problemas por ela
acarretados, o que talvez eu faça numa obra futura. Em síntese, existe,
sim, uma influência nefasta do sofista expatriado sobre o que se poderia
chamar de “diplomacia olavo-bolsonarista”, mas cabe registrar, mais uma
vez, que não existe nenhuma coerência nos seus fundamentos e diretrizes
de atuação, pois ninguém ali está em condições de fazê-lo, e o
chanceler acidental treme de medo de expor qualquer ideia própria. Daí
que esses “incidentes” criados erraticamente pelos bolsonaristas mais
radicais sejam apenas a expressão da completa indigência de raciocínio
desses elementos, pois não se lhes pode imputar nenhum conhecimento ou
inteligência a respeito de questões internacionais.
Resumindo:
não existe NENHUMA política externa atualmente no Brasil, e se formos
admitir que existe alguma diplomacia – o que também é algo duvidoso,
embora o Itamaraty não pode deixar de funcionar –, ela simplesmente
representa um ponto fora da curva, de fato, algo JAMAIS visto em toda a
nossa história bissecular. Vai ficar no registro histórico como o
período mais sombrio da diplomacia profissional e o ponto mais baixo da
credibilidade do Brasil no exterior, atualmente já rebaixada de forma
indigna em função dos néscios, loucos e submissos que temos atuando em
torno de ambas no momento.
6 Por
fim: o senhor tem sofrido represálias do ministro Ernesto Araújo? De
alguma maneira, sua atuação crítica lhe tem trazido prejuízo ou
complicações?
Como,
por espírito e vocação, eu sou o único “contrarianista de plantão” no
Itamaraty – e isso desde sempre, daí a longa travessia do deserto que me
foi imposta pelos lulopetistas –, era inevitável que eu fosse
sancionado pela tribo de alucinados que se apossou do controle do
Itamaraty. Registro que o chanceler acidental se situa apenas em
terceiro ou quarto escalão da cadeia decisória naquele ministério, pois
todas as ordens vêm de fora, e ele só requer submissão (pois sabe que
nunca terá adesão) aos novos déspotas temporários. Eu já deveria ter
sido expurgado desde o primeiro dia do governo, e só não o fizeram
porque não tinham um substituto para o cargo; fui, contudo, proibido, desde o dia 2/01/2019, de empreender qualquer atividade, até a aprovação de nova chefia.
Sempre soube que seria exonerado. Alguns colegas me diziam, em 2018,
para requerer um posto no exterior, como fizeram vários outros, prevendo
a tempestade. Não quis fazê-lo, pois nunca fui de pedir nada a ninguém.
Na verdade, gosto do mundo das ideias e das leituras, de reflexão e de
produção intelectual. Era o que pretendia fazer, até o chanceler ordenar
“retaliação maciça”.
Por todas essas razões, meu caso pode ser assimilado ao de K, no Processo de Franz Kafka, como sugeriu o embaixador Rubens Ricupero: deu o título ao meu artigo “Kafka no Itamaraty”.
Como os descontos já foram feitos, e outros se prenunciam – sendo que a
intenção real, do chanceler acidental e do chefe de gabinete, seria um
processo administrativo para demissão sumária por “inassiduidade
habitual” –, meu único recurso, na presente fase, foi o de abrir uma
ação na Justiça para obstar às manobras intimidatórias e punitivas da
dupla. Parafraseando o camponês da Prússia, acredito que ainda existam
juízes em Brasília.
Gustavo Nogy
**Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



2 comentários:
Como a história do Brasil pode ajudara a entender o atual contexto político do país.
Aula Ao Vivo com o Professor Marco Antônio Villa:
https://www.youtube.com/watch?v=0fnmNnN5gHo&feature=youtu.be
Programado para 22 de abril de 2020.
Fico admirado com o espírito de independência que você tem, Paulo. De fato, são tempos de exceção; mas é inacreditável que tenhamos que nos submeter a indivíduos tão lunáticos e fora de órbita - somos mais fortes, eu não tenho dúvida. Nós temos a inteligência e a militância verdadeiramente democrática do nosso lado, o que explica vermos a destruição escancarada das instituições, entre elas o Itamaraty (o que diria, o que faria o Barão do Rio Branco?) ante nossa letargia?