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sábado, 24 de janeiro de 2026

A burocracia do favoritismo e o fim do mérito na diplomacia brasileira - Marcos Degaut Gazeta do Povo

 A burocracia do favoritismo e o fim do mérito na diplomacia brasileira

Marcos Degaut
Gazeta do Povo, 23/01/2026
Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores: gestão deixou o mérito de lado.

Poucas instituições no Estado brasileiro cultivam aura de excelência tão persistente quanto o Ministério das Relações Exteriores. Durante décadas, o Itamaraty construiu para si a imagem de corpo técnico sofisticado, profissionalizado e imune às deformações mais comuns da burocracia nacional. Contudo, essa autoimagem tem contrastado de forma crescente com a realidade de seu funcionamento interno, em especial no que diz respeito ao sistema de promoções na carreira diplomática, sintoma de um problema bem mais profundo.

Na primeira parte deste artigo, analisarei a dimensão pontual da recente manipulação do já disfuncionalíssimo sistema de promoções do MRE. Na segunda, tratarei da necessidade de reforma da carreira, de modo a incorporar avanços organizacionais que países desenvolvidos adotaram há décadas em seus serviços diplomáticos e, assim, permitir que o Itamaraty funcione como instituição de Estado, e não como o clube de amigos no qual foi convertido pelos governos lulopetistas.

O Decreto nº 12.815, de janeiro de 2026, que institui o novo Regulamento de Promoções do MRE, não representa uma ruptura com as distorções históricas da instituição. Ao contrário: ele as aprofunda, sistematiza, consolida e legitima, ao lhes conferir verniz normativo, incorporando agora, de forma explícita, elementos da agenda identitária contemporânea a um arcabouço já profundamente marcado pelo personalismo e pela discricionariedade política, práticas infensas à moralidade administrativa.

O problema não é apenas técnico e moral. É político, institucional e estratégico, e ajuda a explicar por que o Brasil perdeu densidade, previsibilidade e relevância no cenário internacional. Trata-se, em essência, do mecanismo que define quem decide, quem ascende, quem formula, quem executa e, sobretudo, quem permanece relevante na política externa brasileira. Alterar esse sistema não é um detalhe administrativo: é intervir diretamente no DNA da diplomacia do país e perpetuar um processo de deformação institucional.

Da meritocracia imperfeita ao arbítrio estruturado
A Lei nº 11.440, de 2006, aprovada sob a condução do então chanceler Celso Amorim ainda no primeiro governo Lula, alterou substancialmente a lógica tradicional da carreira. Até então, o sistema de promoções, embora longe de ser ideal, baseava-se em tripé relativamente claro: antiguidade, interstícios mínimos e avaliação de desempenho funcional. Havia espaço para subjetividade, favoritismos e injustiças – mas também havia certa previsibilidade de carreira e limites relativamente claros à intervenção política.

Ao deslocar o eixo das promoções de critérios predominantemente objetivos para um espaço mais amplo de avaliação subjetiva, a lei abriu margem para uma ampliação inédita de discricionariedade política. Sob o discurso de flexibilizar a carreira e valorizar o “mérito”, desloca-se o centro de gravidade das promoções para critérios amplos, vagos e essencialmente interpretáveis. O conceito de mérito deixa de ser predominantemente funcional e passa a ser político.

O Decreto nº 12.815 não apenas regulamenta essa lógica, mas a radicaliza. Redefine o próprio conceito de mérito, reorganiza os pesos do julgamento e introduz critérios que não encontram respaldo no texto legal. O que era ambíguo torna-se explícito. O que era informal torna-se norma. O que dependia de relações pessoais passa a operar por meio de procedimentos aparentemente técnicos, mas controlados politicamente do início ao fim.

A Lei 11.440 fala em mérito funcional, pressupõe avaliação impessoal e não menciona identidade, representatividade ou correções estatísticas. O decreto, por sua vez, reinterpreta o mérito à luz de uma agenda política específica, transformando o processo de promoção em instrumento de política interna e reescrevendo a lei por via infralegal.

O mito da objetividade: planilhas a serviço do arbítrio
O novo sistema é apresentado como moderno e técnico. Metade da nota final decorre de pontuação funcional; a outra metade provém de avaliações da Câmara de Avaliação (20%) e da Comissão de Promoções (30%). A aparência de objetividade, no entanto, não resiste a uma análise mais atenta.

As instâncias responsáveis por 50% da pontuação subjetiva são compostas exclusivamente por ocupantes de cargos de confiança, assessores diretos do ministro e altos dirigentes politicamente escolhidos. O chanceler define as prioridades estratégicas, escolhe quem avalia, estabelece os parâmetros interpretativos e pode intervir diretamente no resultado final.

Como se mede, de forma objetiva, o “alinhamento estratégico” de um diplomata? Ora, a resposta não pode ser outra a não ser: pela proximidade com o comando político do momento

Em outras palavras, chamar esse arranjo de “avaliação colegiada” é mero exercício de retórica administrativa, pois o que existe de fato é verticalização do poder decisório – centralização hierárquica – com verniz procedimental travestido de governança.

A sofisticação do personalismo
As acusações históricas dirigidas ao Itamaraty – personalismo, favorecimento de grupos, proteção de castas familiares, punição silenciosa de dissidentes – nunca foram adequadamente enfrentadas. O novo regulamento tampouco o faz. Não houve redução da discricionariedade, e sim a complicação das etapas preliminares de avaliação que em nada vinculam a decisão sobre as promoções no contexto de uma definição objetiva de mérito.

Antes, a exclusão era tácita e pouco explicada. Agora, ela se reveste de linguagem tecnocrática e de jargão progressista: “alinhamento com prioridades estratégicas”, “geração de valor público”, “trabalho colaborativo”, “valorização da diversidade”. Conceitos amplos, vagos e essencialmente não verificáveis, que, ao invés de reduzir, ampliam o espaço para decisões arbitrárias, pois é flagrante a total ausência de definições operacionais.

Nesse contexto, como se mede, de forma objetiva, o “alinhamento estratégico” de um diplomata? Ora, a resposta não pode ser outra a não ser: pela proximidade com o comando político do momento.

O novo sistema não premia competência técnica isoladamente, nem capacidade analítica, nem produção intelectual relevante, nem experiência acumulada em áreas sensíveis. Ele premia comportamentos: adesão narrativa, prudência excessiva, autocensura, capacidade de ler o ambiente político interno. O diplomata deixa de perguntar “qual política é melhor para o Brasil?” e passa a perguntar “qual posição é mais segura para minha carreira?”.

Diversidade como engenharia de resultado
O ponto mais sensível, juridicamente frágil e institucionalmente mais corrosivo do novo Regulamento reside na introdução de mecanismos explícitos de correção identitária ex post, isto é, após a avaliação de desempenho e a atribuição de pontuações. Essa escolha altera a própria lógica do que significa ser promovido em uma carreira de Estado.

Em termos simples, o decreto permite que as listas finais de promoção não reflitam a ordem de classificação decorrente do desempenho, mas sejam ajustadas para atingir resultados considerados desejáveis sob o prisma identitário. Para isso, autoriza a inclusão de candidatos adicionais e a superação da ordem de pontuação, segundo parâmetros de “representatividade” definidos periodicamente pelo ministro.

Esse desenho institucional não corresponde ao que, tradicionalmente, se entende por ação afirmativa. Políticas afirmativas clássicas – legítimas ou não, conforme o debate – atuam no acesso (concurso), na formação ou na redução de desigualdades estruturais ao longo do percurso, criando condições para que todos disputem em bases mais equilibradas. Aqui, o mecanismo é outro: o critério não atua antes da corrida, mas no pódio.

A matriz intelectual desse modelo não é jurídica nem administrativa; é ideológica. Deriva de uma visão de mundo típica da agenda progressista identitária contemporânea, segundo a qual desigualdades de resultado são, por definição, prova de injustiça estrutural, e, portanto, devem ser corrigidas independentemente do percurso individual.

Transportada para uma carreira de Estado, essa lógica produz efeito profundamente desagregador. O desempenho concreto do servidor deixa de ser o elemento decisivo; passa a ser apenas uma variável entre outras, subordinada a um objetivo superior: ajustar a fotografia final.

Em termos práticos, isso significa que dois diplomatas podem ser avaliados de forma desigual não porque um serviu melhor ao interesse público, mas porque um deles se encaixa melhor em uma categoria estatística que a administração deseja expandir naquele momento. O mérito deixa de ser critério suficiente. Passa a ser condição necessária, mas não decisiva, e, em certos casos, sequer necessária.

Esse modelo afeta de modo particularmente severo o diplomata técnico, discreto, não militante e orientado por resultados concretos. A excelência silenciosa – aquela que se traduz em parâmetros definidos, análises sólidas, negociações bem conduzidas, conhecimento acumulado e defesa consistente do interesse nacional – torna-se invisível diante de critérios simbólicos e narrativos.

Mais grave ainda: o sistema cria incentivos perversos. Se o resultado final não depende prioritariamente do desempenho, mas de ajustes políticos e identitários, o racional passa a ser outro. O diplomata racional deixa de investir em excelência técnica e passa a investir em posicionamento, sinalização e alinhamento discursivo. O mérito funcional perde centralidade; a aderência ao espírito do tempo ganha valor. Assim, a neutralidade institucional, valor clássico do serviço público profissional, deixa de ser virtude e passa a ser risco.

Do ponto de vista jurídico-institucional, o problema é igualmente sério. O princípio constitucional da impessoalidade não exige apenas ausência de favoritismo individual; exige que critérios gerais sejam aplicados de forma previsível e verificável. Ao permitir correções discricionárias definidas semestralmente pelo ministro, o decreto amplia de maneira inédita o espaço para decisões personalizadas, ainda que justificadas por linguagem moralizante.

A agenda identitária, nesse arranjo, funciona como instrumento legitimador do arbítrio. Decisões que, em outro contexto, seriam percebidas como favoritismo ou intervenção indevida passam a ser apresentadas como “justiça social”, “inclusão” ou “correção histórica”. O conteúdo muda pouco; a narrativa muda muito.

Há ainda um efeito colateral raramente reconhecido: nem mesmo os grupos nominalmente beneficiados são fortalecidos por esse modelo. Ao promover pessoas com base em correções estatísticas, o sistema mina a legitimidade individual dos promovidos, que passam a carregar a suspeita de não terem ascendido por mérito próprio.

Em vez de inclusão real, produz-se instrumentalização simbólica. A diversidade deixa de ser consequência de um sistema justo e passa a ser objetivo administrativo a ser atingido, custe o que custar.

A “gabinetização” do Itamaraty
Ao concentrar poder decisório no topo da hierarquia, o decreto reforça um velho vício institucional: a corrida por cargos de gabinete. Por quê? Porque é ali que se constroem relações de confiança política; se ganha visibilidade junto aos avaliadores; se participa da definição das “prioridades estratégicas”.

As áreas finalísticas – divisões temáticas, departamentos técnicos, setores de análise – tornam-se periferia institucional. O trabalho substantivo da política externa passa a valer menos do que a proximidade com o centro decisório.

A criação de listas semestrais intensifica esse fenômeno, estimulando campanhas internas, intrigas e desperdício de capital humano altamente qualificado. O contribuinte financia um sistema em que diplomatas passam a dedicar tempo e energia a disputas internas de baixa relevância estratégica, em detrimento da formulação de políticas públicas. O resultado é um ministério cada vez mais cartorial, autorreferente e politizado internamente, mas paradoxalmente irrelevante externamente.

Seria um erro, contudo, atribuir ao Decreto nº 12.815 todos os males do Itamaraty. Ele é sintoma, não causa. Vítima de suas próprias fraquezas, vícios, tibieza, isolamento, comodismo e conformismo, o Itamaraty é o principal culpado pelo seu próprio esvaziamento. A instituição tem sido incapaz de se posicionar frente aos governantes e de identificar com precisão sua arena de atuação no cenário internacional, que possibilite ao Brasil detectar oportunidades para ampliar sua visibilidade e capacidade de diálogo nos grandes temas de interesse regional e mundial.

Para além da retórica oficial de reforma da governança global de alteração da geografia econômica do globo, a análise da atual política externa indica não haver identificação clara de nossos principais objetivos econômicos e políticos, tampouco a formulação de uma agenda internacional consistente e integrada. A diplomacia brasileira, que deveria traduzir nossos interesses na arena internacional, está completamente sem rumo e sem bússola.

Ao que tudo indica, pragmatismo e visão de longo prazo não mais fazem parte do repertório de nossa política externa, o qual manifesta acentuado empirismo e penosa carência de paradigmas. Adotamos apenas medidas tópicas e descoordenadas, sem perceber que um conjunto de ações dispersas não configura uma estratégia coerente. Inexistem indicadores para determinar metas, priorizar objetivos e avaliar resultados.

Isso é consequência não só de uma interpretação equivocada e ideológica da realidade internacional, mas também de uma clara inadequação institucional que fez o órgão parar no tempo. Seu desprestígio emana de sua estagnação.

Ao incorporar a agenda identitária progressista diretamente ao núcleo decisório das promoções, o MRE não se torna mais justo, moderno ou plural. Torna-se menos profissional, menos previsível e mais dependente do poder político. A promoção deixa de ser reconhecimento de excelência e passa a ser ferramenta de engenharia social e controle interno.

O mérito, que deveria ser o eixo estruturante de uma carreira de Estado, transforma-se em retórica residual – invocado nos discursos, relativizado na prática. E uma diplomacia que relativiza o mérito internamente dificilmente terá autoridade, consistência ou credibilidade para defender interesses nacionais em um sistema internacional cada vez mais competitivo e implacável.

Essas constatações não significam dizer que não existam funcionários qualificados e com vocação, o que seria uma injustiça e uma inverdade. Sim, existem. E muitos. Na maioria das vezes, entretanto, potencial e vocação são desperdiçados por uma estrutura burocrática que aprisiona, estimula o carreirismo e desincentiva o aperfeiçoamento buscado de forma individual, autônoma. Como antídoto e válvula de escape para a frustração profissional, muitos obtêm maiores êxitos se dedicando à literatura, à pintura ou a outras artes.

Somente uma profunda reforma estrutural, administrativa e de gestão de recursos humanos – só discernível em um futuro governo de corte conservador – pode salvaguardar a grandeza do Itamaraty. Seu reerguimento e valorização, com o consequente resgate da capacidade de formular uma agenda internacional pró-ativa e de articular uma grande estratégia coerente e integrada, por meio da qual possamos nos antecipar a novas circunstâncias e desafios, são fundamentais para assegurar a defesa do interesse nacional e auxiliar na missão de retomada do crescimento.

Como aduzi em artigo publicado nesta Gazeta em novembro de 2024, intitulado “Como salvar o Itamaraty das garras do lulopetismo”, os serviços diplomáticos das chancelarias mais eficientes do mundo não adotam modelo sequer vagamente próximo ao do Itamaraty, cujos competentes quadros, que perfazem um dos melhores capitais humanos disponíveis na administração pública brasileira, veem-se na contingência de se movimentar, internamente, em um ambiente de modus operandi mais similar ao de um clube de amigos que ao de uma burocracia estatal de inspiração weberiana, pois o modelo organizacional vigente é em si uma cadeia de incentivos à politicagem em detrimento do desempenho.

A defasada estrutura da carreira, contudo, serve perfeitamente ao propósito de ideologização do sistema de promoções e de remoções implementado pelas gestões lulopetistas. Como o processo de promoções não é público, não produz registros e não é informado por ferramentas formais de avaliação de desempenho, ele é um instrumento sob medida para a viabilização de favorecimentos de todo tipo, com ênfase naqueles que privilegiam laços pessoais e de afinidade ideológica.

Trata-se de uma estrutura fundamentalmente distinta de todas as demais carreiras de Estado civis, nas quais a progressão funcional ocorre com base no cumprimento de requisitos previstos em lei e regulamentados por outros atos normativos, e não a partir de preferências pessoais e de proximidade com o núcleo de poder institucional. A atual estrutura, ao não atender aos interesses nacionais e aos profissionais da ampla maioria dos diplomatas, prejudica a realização da missão constitucional do Itamaraty.

A essa luz, confio em que a reforma da carreira diplomática deverá perfazer prioridade administrativa de um futuro governo conservador cioso da importância de contar com um material humano motivado e prestigiado para a implementação de seu programa de política externa.

Sem essa reforma, continuaremos exercendo o papel de coadjuvante de luxo, aplaudindo as iniciativas de países mais arrojados, mas exercendo pouca ou nenhuma influência na elaboração das políticas globais. Que a desconstrução a que foi submetido o Itamaraty possa se converter em oportunidade para resgatar o orgulho e a dignidade da política externa brasileira.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Enquanto os EUA mudam de estratégia, a diplomacia do Brasil está presa nos anos 1990 - Marcos Degaut (Gazeta do Povo)

Enquanto os EUA mudam de estratégia, a diplomacia do Brasil está presa nos anos 1990

Lula recebeu Nicolás Maduro em 2023: diplomacia parada no tempo.
Lula recebeu Nicolás Maduro em 2023: diplomacia parada no tempo. (Foto: EFE/André Coelho)

Na primeira parte deste artigo, analisei os princípios que estruturam a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos: o abandono das ilusões hegemônicas do pós-Guerra Fria, a acomodação pragmática entre grandes potências, a revalorização do Hemisfério Ocidental e o retorno explícito à lógica do poder, da hierarquia e das escolhas duras.

 Essa reorientação estratégica dos EUA, que reposiciona a América Latina no centro do cálculo geopolítico de Washington, evidencia, por contraste brutal, o grau de desorientação da política externa brasileira sob o governo Lula, que se revela não apenas anacrônica, mas estruturalmente incapaz de operar em um sistema internacional que premia o planejamento e pune o improviso.

Em um sistema internacional que voltou a operar segundo lógica de poder, competição geoeconômica e hierarquias regionais claras, o Brasil insiste em uma diplomacia conceitualmente ultrapassada, operacionalmente frágil e estrategicamente subserviente. A diplomacia lulopetista é mero invólucro, pois não dispõe de uma política externa consubstanciada em uma grande estratégia, mas exclusivamente de uma práxis diplomática formal que consiste em slogans, maneirismos afetados e apego desorientado a representações abstratas de poder que encontram cada vez menos respaldo na realidade objetiva. Não se trata de erro pontual ou ruído tático, mas de incapacidade estrutural de formular interesses nacionais coerentes e de convertê-los em ação diplomática consistente.

Para compreender a gravidade desse descompasso, é preciso esclarecer o que está em jogo. Grande estratégia não é diplomacia cotidiana, nem soma de políticas setoriais, tampouco retórica diplomática ou ativismo internacional difuso. Trata-se do arcabouço intelectual e político que integra meios e fins do Estado, articulando poder militar, capacidade econômica, base produtiva, política externa, tecnologia e coesão interna em torno de interesses nacionais hierarquizados no longo prazo. É a arte de alinhar recursos limitados a objetivos essenciais em um ambiente de competição permanente – e, sobretudo, de fazer escolhas.

A grande estratégia existe para responder a perguntas basilares: o que é vital, o que é secundário e o que pode ser sacrificado. Ela define onde engajar, onde conter, onde acomodar, onde recuar, onde alocar recursos. Sem esse quadro, o Estado se torna refém de agendas dispersas, pressões circunstanciais e impulsos ideológicos. Não por acaso, potências que falham em sua formulação tendem a desperdiçar recursos, perder autonomia e reagir aos acontecimentos em vez de moldá-los. No caso do Brasil lulopetista, sobretudo no atual contexto de transformação das forças que regem a ordem internacional, a ausência de uma grande estratégia tende a aprofundar a irrelevância do País em temas geoeconômicos, tecnológicos e militares, sem prejuízo de outros.

Não há, no Brasil de Lula, um projeto que integre desenvolvimento, defesa, economia, segurança, indústria, comércio exterior e inserção internacional. O país opera por reflexos, slogans e improvisos, reagindo tardiamente aos movimentos alheios em vez de moldar o próprio entorno estratégico.

É exatamente essa lacuna que define a política externa brasileira atual. Enquanto Washington redefine prioridades, aceita limites e reorganiza sua projeção global com base em critérios objetivos de poder e risco, Brasília continua a agir como se o mundo ainda fosse regido pelo multilateralismo abstrato dos anos 1990. A diplomacia brasileira permanece ancorada em noções vagas de “multilateralismo”, “diálogo intercultural” e “Sul Global”, conceitos que não são traduzidos em interesses nacionais claramente definidos, nem em ganhos concretos de poder, influência ou segurança.

Os formuladores e executores da política externa não se deram conta de que a autonomia estratégica com a qual o Brasil – e, grosso modo, os demais países latino-americanos, conforme destaquei na primeira parte deste artigo – contou nos últimos 35 anos não existe mais. Ela decorreu, em ampla medida, do relativo desengajamento dos EUA do Hemisfério Ocidental entre o fim da Guerra Fria e o início do atual mandato de Trump, tendo sido pessimamente empregada por todos os governos de esquerda da região. Na ordem que ora se conforma, o custo de se opor aos interesses estratégicos americanos na região é brutalmente superior àquele das últimas três décadas.

A operação militar na Venezuela expõe essa nova realidade: à luz da NSS 2025, a captura de Maduro não deve ser vista, exclusivamente, sob a lente primária da mudança de regime, do combate ao tráfico internacional de drogas, do fortalecimento do controle migratório norte-americano, da defesa da democracia ou mesmo da custódia virtual de reservas petrolíferas correspondentes a 303 bilhões de barris, mas sim da perspectiva de que Caracas operava como um hub de interesses antagônicos aos de Washington na América Latina: uma plataforma operacional chinesa, russa e iraniana para a promoção multissetorial de ações e projetos que ameaçavam (e ameaçam) interesses que o governo dos EUA considera vitais. Não que, à queda de Maduro, faltem sucessores regionais que se proponham a dançar e proferir diatribes e ameaças aos EUA e seu governo, como atestam as recentes declarações dos presidentes colombiano Gustavo Petro e cubano Miguel Díaz-Canel. Creio não convenha especular se os mandatários são inconsequentes, loucos ou ambas as coisas.

A ausência de grande estratégia torna-se particularmente visível na América do Sul. O Brasil, historicamente o principal polo de gravidade regional, abdicou de exercer liderança estratégica, por temor ou simples incapacidade. Em vez de estruturar um espaço regional minimamente coeso – política, econômica e geopoliticamente – optou por uma diplomacia passiva, reativa e autocentrada. Sem objetivos claros, o país confunde peso econômico e demográfico com influência e militância ideológica com liderança. O resultado é um vácuo de poder ocupado por atores externos e por rearranjos regionais dos quais o Brasil participa apenas marginalmente.

O contraste com países vizinhos é eloquente. Enquanto governos sul-americanos, guinando para a direita, como exposto em artigo nesta Gazeta, reorganizam alianças, explicitam orientações programáticas e constroem coalizões políticas regionais com objetivos definidos, o Brasil se isola, preso a uma visão consensualista que já não encontra eco no continente. A integração regional, antes instrumento potencial de projeção estratégica, sobretudo no que diz respeito à sua vertente infraestrutural, foi reduzida a um ritual diplomático sem capacidade de coordenação real.

No novo contexto hemisférico, a postura brasileira é especialmente custosa. A estratégia americana não é neutra, tampouco inclusiva. Ela opera por alinhamentos seletivos, coerção econômica, pressão regulatória e demonstração de força militar. Países que não se posicionam claramente deixam de ser sujeitos da política regional e passam a ser tratados como objetos de gestão estratégica.

Washington concebe o hemisfério ocidental como área vital a ser protegida da presença estratégica de potências extra-hemisféricas. Infraestrutura, energia, logística, telecomunicações, minerais críticos e cadeias de suprimento passaram a ser tratados como ativos de segurança nacional. Essa lógica redefine as regras do jogo, especialmente para o Brasil. Ignorar essa mudança não preserva autonomia. Ao contrário, expõe o país à pressão externa sem instrumentos de barganha.

Essa deficiência estrutural também explica a relação desequilibrada do Brasil com a China. Sob Lula, Pequim deixou de ser apenas um parceiro comercial relevante e passou a ocupar posição central na inserção internacional brasileira, sem que isso tenha sido enquadrado por uma estratégia de balanceamento, atração de investimentos, transferência de tecnologia, diversificação ou proteção de interesses sensíveis.

Hoje, mais de 30% das exportações brasileiras têm como destino o mercado chinês, concentradas em commodities de baixo valor agregado. O Brasil importa, por sua vez, bens industriais, tecnologia e insumos estratégicos. Trata-se de uma relação estruturalmente assimétrica, na qual o país aceita passivamente uma dinâmica baseada na exportação de commodities e na dependência tecnológica, que cria e amplia vulnerabilidades, como a reprimarização da economia e a fragilização da base industrial.

Ao mesmo tempo, Pequim amplia sua presença no território brasileiro em setores estratégicos como energia, portos, ferrovias, telecomunicações e tecnologia digital. Do ponto de vista norte-americano, esses investimentos já não são vistos apenas como negócios, mas como vetores de influência geopolítica e vulnerabilidade estratégica. Essa percepção orienta políticas industriais, sanções, controles de exportação e pressão diplomática.

Ainda assim, o governo evita qualquer política de diversificação séria, proteção de setores sensíveis ou condicionamento estratégico da relação bilateral. Não há balanceamento, não há linhas vermelhas, não há estratégia, apenas acomodação. Age como se a geopolítica fosse um ruído externo irrelevante, quando, na realidade, ela já molda decisões comerciais, financeiras e tecnológicas em escala global.

Essa ambiguidade não produz autonomia. Produz vulnerabilidade. Uma grande estratégia teria imposto limites, definido setores críticos, protegido capacidades nacionais e condicionado a cooperação econômica a objetivos políticos, comerciais, tecnológicos e industriais claros. Nada disso ocorreu.

Em vez disso, o Brasil naturalizou uma relação assimétrica, evita qualquer posicionamento firme em temas sensíveis aos interesses chineses e abdica, na prática, de autonomia estratégica, tudo isso sob o discurso genérico do pragmatismo. Ao não definir uma estratégia própria para lidar com a China, o Brasil se torna progressivamente dependente de decisões tomadas fora de seu controle.

O mesmo padrão se repete na diplomacia ambiental. Elevada a eixo central da projeção internacional do governo, a agenda climática é tratada como fim em si mesma, e não como instrumento de poder. Compromissos amplos são assumidos, constrangimentos externos são aceitos, mas esses ativos políticos não são convertidos em vantagens estratégicas duráveis, investimentos estruturantes ou fortalecimento da posição internacional do país. Uma grande estratégia teria transformado capital ambiental em poder; a atual diplomacia limita-se a acumular constrangimentos e sair em fotos ao lado de companhias, digamos, questionáveis.

Além disso, a diplomacia ambiental brasileira padece de um erro de cálculo geoestratégico grosseiro, pois confere às concepções ambientais de determinados países europeus relevância objetiva inspirada principalmente na autoatribuída “superioridade moral” que tais países proclamam. Utilizar metas propostas por potências europeias para fins de benchmarkambiental em diversos setores é, na melhor das hipóteses, um contrassenso, e, na pior, uma piada grotesca, particularmente para um país que, como o Brasil, precisa se reindustrializar.

A participação do setor industrial nas economias dos países da zona do euro, que em 2000 correspondia a 20%, foi, em 2024, de 13%. Somente entre 2023 e 2024, a produção industrial dos países da zona do euro teve queda de 2,2%. O carro-chefe desse espetáculo de zelotismo autocongratulatório e destruidor da economia real é a Alemanha, cuja produção industrial despencou 12% (!) entre 2019 e junho de 2025. É nesse exemplo de suicídio econômico que a diplomacia ambiental brasileira parece se inspirar.

Somados, esses elementos revelam uma política externa sem arquitetura, sem hierarquia de interesses e sem visão de longo prazo. Em um sistema internacional marcado por competição entre grandes potências, instrumentalização da economia e reorganização de esferas de influência, o Brasil opera como se a simples participação em fóruns multilaterais fosse suficiente para garantir relevância.

A ausência de grande estratégia se manifesta de forma especialmente grave na área de defesa. O discurso oficial fala em autonomia estratégica, mas os investimentos são insuficientes, o planejamento é fragmentado e as capacidades militares não estão articuladas a uma visão geopolítica coerente.

O Atlântico Sul, vital para o comércio exterior, para a segurança energética, para as comunicações submarinas e para a soberania nacional, permanece insuficientemente protegido. O crime organizado transnacional – conectado a rotas globais de tráfico, lavagem de dinheiro e contrabando – avança mais rapidamente do que a capacidade estatal de resposta.

Em um cenário no qual os EUA reforçam sua presença naval no Caribe, reavaliam o controle de rotas estratégicas e tratam o hemisfério como área prioritária, essa fragilidade brasileira não é teórica, mas risco estratégico concreto. Falar em soberania sem capacidade dissuasória deixou de ser ingenuidade. Tornou-se imprudência.

A nova NSS dos EUA deixa claro que o tempo da ambiguidade estratégica acabou. Potências estão escolhendo prioridades, delimitando espaços de interesse e exigindo posicionamentos mais claros de seus entornos estratégicos. Nesse mundo, o Brasil surge como um ator paradoxal: grande demais para ser ignorado, mas cada vez mais irrelevante por falta de visão estratégica, em contexto no qual a ausência de uma grande estratégia não é neutralidade sofisticada – é vulnerabilidade estrutural. E vulnerabilidade, em um sistema governado por poder, raramente permanece sem custo e consequências.

Parte central do problema reside em uma diplomacia anacrônica, inadequadamente estruturada no que diz respeito à carreira, aparelhada, que se move por inércia, hermética, avessa à modernização, presa a tradições que já não resistem ao peso do tempo, resistente a revisar seus pressupostos e enlevada por sua autopercepção de ser um centro de excelência. O mundo mudou, a estratégia americana mudou, a competição entre grandes potências se intensificou, mas o discurso brasileiro permanece ancorado em um ambiente internacional que já não existe e a práticas, métodos e conceitos ultrapassados.

Política externa não se faz no vácuo. Um país com o peso geopolítico do Brasil não pode se contentar com uma diplomacia reativa e conformista sempre a reboque dos acontecimentos, que pouco influencia as relações internacionais, mas sofre em demasia os efeitos das políticas dos global players.

Tradições e práticas diplomáticas só fazem sentido e mantêm sua legitimidade quando são manifestamente convergentes com o interesse nacional mais amplo, alicerçadas em diretrizes de política externa que estejam alinhadas a uma grande estratégia de nação. A adesão cega a “tradições” trai o próprio conceito de diplomacia estratégica e prejudica toda a nação.

O balanço final é severo. Enquanto as grandes potências voltam a pensar o mundo em termos de poder, território, hierarquia e interesse nacional, a política externa de Lula revela-se incapaz de operar nesse ambiente. Não por falta de recursos, peso econômico ou relevância regional, mas por um déficit estrutural de pensamento estratégico e por sua lógica intrínseca de parasitação do Estado.

Isso se traduz em dependência geopolítica, fragilidade econômica, perda de influência regional e redução da capacidade de proteger interesses nacionais vitais. Em um hemisfério que deixou de ser periférico para voltar ao centro do cálculo geoestratégico, o custo para o Brasil, nesse cenário, é de uma crescente marginalização.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.


sábado, 3 de janeiro de 2026

O que se sabe sobre o espião russo que Lula pode devolver a Moscou - Vinícius Sales Renan Ramalho - Renan Ramalho, Juliet Manfrin, Juliet Manfrin (Gazeta do Povo)

From Russia, with Love, como diria algum James Bond de antigamente...

O que se sabe sobre o espião russo que Lula pode devolver a Moscou

 

Gazeta do Povo

gazetadopovo.com.br/republica/o-que-se-sabe-sobre-o-espiao-trapalhao-que-lula-pode-deportar/

A extradição do espião russo Serguei Vladimirovich Cherkasov aguarda uma decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O pedido está sob análise do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, do Ministério da Justiça, mas a palavra final caberá ao Executivo. A informação, revelada pela CNN Brasil, recolocou o caso no centro da agenda diplomática brasileira.

Preso desde dezembro de 2022, Cherkasov deixou de ser um personagem do submundo da espionagem para se tornar um símbolo de como o Brasil passou a integrar, ainda que de forma involuntária, disputas silenciosas entre serviços de inteligência. A expectativa de que ele será devolvido à Rússia cresce em meio à relação política próxima entre o governo Lula e Vladimir Putin, mas a história do chamado “espião trapalhão” é longa, sofisticada e começa mais de uma década antes de sua prisão.

Segundo investigações da Polícia Federal, Cherkasov entrou no Brasil pela primeira vez em junho de 2010, usando seu passaporte russo verdadeiro. A partir daí, iniciou um processo meticuloso de construção de uma identidade falsa: Victor Muller Ferreira, supostamente nascido em Niterói (RJ), em 1989. Com base em uma certidão de nascimento registrada de forma fraudulenta, conseguiu emitir documentos brasileiros autênticos — como RG, CPF, título de eleitor e passaporte —, os quais permitiram que ele levasse uma vida aparentemente comum.

Durante anos, trabalhou formalmente, acumulou registros oficiais e construiu um histórico social consistente. Essa identidade brasileira não era um fim em si mesma, mas a base para uma operação de espionagem de longo prazo, desenhada para lhe permitir circular pelo Ocidente e acessar instituições estratégicas sem levantar suspeitas.

A farsa começou a ruir em abril de 2022, quando Cherkasov tentou ingressar na Holanda para assumir um estágio no Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, justamente no momento em que a corte intensificava investigações sobre crimes de guerra atribuídos à Rússia na Ucrânia.

Barrado pela inteligência holandesa e exposto como agente “ilegal” da agência russa GRU (Glavnoe Razvedyvatel'noe Upravlenie), ele foi deportado e preso ao desembarcar no Brasil. A partir daí, o caso deixou de ser apenas criminal e passou a envolver uma complexa disputa jurídica e diplomática entre Rússia, Estados Unidos e o Estado brasileiro.

Como um falso brasileiro levou o Brasil a um embate jurídico entre Rússia e EUA

A trajetória de Serguei Cherkasov seguiu um roteiro clássico das operações da inteligência russa voltadas à criação de agentes “ilegais” — espiões que atuam sem qualquer cobertura diplomática e vivem por anos sob identidades falsas. Após entrar no Brasil em 2010, ele percorreu diferentes regiões do país, especialmente o Nordeste e o Rio de Janeiro, em um processo conhecido como “lavagem de origem”, destinado a dissociá-lo de sua identidade russa original.

Foi nesse período que obteve, em cartório, uma certidão de nascimento registrada tardiamente, alegando ter nascido em Niterói, filho de uma mãe brasileira já falecida e de um pai desconhecido ou estrangeiro. A partir desse documento, conseguiu emitir toda a cadeia de registros oficiais brasileiros, consolidando a persona de Victor Muller Ferreira.

Entre 2011 e 2013, Cherkasov entrou na fase conhecida como “backstopping”, quando o agente constrói um histórico social e profissional coerente. Trabalhou formalmente em uma agência de turismo, gerando registros de emprego, contribuições previdenciárias e outros rastros administrativos. Anos depois, esse mesmo período seria explorado pela Rússia como base para uma acusação de tráfico de drogas apresentada em 2023, considerada artificial por investigadores brasileiros e vista como um álibi jurídico para sustentar o pedido de extradição.

Com a identidade brasileira consolidada, a operação avançou para fora do país. A partir de 2014, Cherkasov passou a usar o passaporte brasileiro para acessar instituições de elite no Ocidente sem levantar suspeitas. Viveu na Irlanda entre 2014 e 2018, onde cursou Ciência Política no Trinity College, em Dublin, mantendo um perfil discreto, mas social. Professores relataram posteriormente que ele atribuía um sotaque difícil de identificar a uma infância “complexa”.

Em 2018, mudou-se para Washington, nos Estados Unidos, e ingressou na Johns Hopkins School of Advanced International Studies (SAIS), uma das principais escolas de formação de diplomatas e analistas de política externa. Segundo investigações, foi nesse período que intensificou a coleta de informações sobre política externa americana, ampliou sua rede de contatos com futuros quadros do governo e enviou relatórios regulares ao GRU.

O objetivo final da operação começou a se materializar em setembro de 2020, quando Cherkasov iniciou o processo seletivo para um estágio no Tribunal Penal Internacional. A candidatura se arrastou devido à pandemia, mas ganhou importância estratégica no início de 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia e a abertura de investigações internacionais sobre crimes de guerra atribuídos a Moscou. O acesso ao tribunal passou a ser tratado como um “alvo de ouro” pela inteligência russa.

Convicto de que sua cobertura permanecia intacta, Cherkasov embarcou do Brasil para a Holanda em 31 de março de 2022. No dia seguinte, ao desembarcar no aeroporto de Schiphol, foi barrado pela imigração e exposto pela inteligência holandesa como agente “ilegal” do GRU, em uma ação que contou com alertas de serviços de inteligência americanos. Declarado persona non grata, foi deportado imediatamente.

De volta ao Brasil, entre 3 e 4 de abril de 2022, foi preso pela Polícia Federal por uso de documentos falsos. A partir desse momento, a operação de espionagem deu lugar a uma disputa jurídica e diplomática de grandes proporções.

Em junho de 2022, a Rússia apresentou formalmente um pedido de extradição, alegando que Cherkasov teria sido condenado em Moscou por tráfico de drogas. O pedido passou a tramitar em sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Edson Fachin.

O russo só poderia ser entregue após responder integralmente aos processos em curso no Brasil. Poucos dias depois, o caso ganhou novo contorno internacional, com um pedido de extradição apresentado pelos Estados Unidos. O governo brasileiro negou a solicitação americana em julho de 2023, citando o princípio do ne bis in idem - que impede que uma pessoa seja processada ou punida duas vezes pelo mesmo fato - e a precedência do pedido russo.

No mesmo período, a Justiça reduziu a pena de Cherkasov por falsidade documental de 15 anos para 5 anos e 2 meses, mas manteve sua prisão preventiva diante do risco de fuga. A situação voltou a se complicar em janeiro de 2024, quando surgiram novas suspeitas de lavagem de dinheiro, envolvendo depósitos feitos por funcionários do consulado russo para custear suas despesas na prisão.

Em agosto de 2024, a exclusão de Cherkasov da grande troca de prisioneiros entre Rússia e países ocidentais foi interpretada como um sinal de que Moscou apostava na via jurídica brasileira para recuperar seu agente.

O desfecho começou a se desenhar em 2025, com o arquivamento do inquérito de espionagem no Brasil, sob o entendimento de que seus atos visavam interesses de terceiros, e não diretamente o Estado brasileiro. 


Como agentes russos ainda podem operar no Brasil

O caso de Cherkasov acendeu um sinal de alerta permanente nas forças de segurança brasileiras. A avaliação da Polícia Federal é de que o espião preso em Brasília não atuava de forma isolada e que outros agentes russos podem estar operando no país com métodos semelhantes, explorando fragilidades institucionais e vivendo por longos períodos sob identidades falsas.

Segundo investigadores, o padrão já identificado envolve agentes conhecidos como “ilegais” — profissionais de inteligência que não têm qualquer cobertura diplomática e constroem vidas inteiras como cidadãos comuns. Eles costumam se apresentar como estudantes, pesquisadores, empresários ou profissionais liberais, mantendo rotinas discretas, sem ostentação e sem vínculos visíveis com governos estrangeiros. Em muitos casos, constroem relações pessoais, acadêmicas e profissionais profundas antes de serem ativados para missões específicas.

As suspeitas da PF indicam que o Brasil cumpre um duplo papel estratégico nesse tipo de operação. Além de servir como local de residência de longo prazo, o país funciona como plataforma intermediária, a partir da qual esses agentes podem ser deslocados para destinos considerados sensíveis, como países europeus, os Estados Unidos ou organismos internacionais. O passaporte brasileiro, em especial, facilita a circulação internacional e reduz o nível de desconfiança inicial em controles migratórios.

Outro fator que preocupa as autoridades é o baixo custo operacional para esse tipo de espionagem em território brasileiro. Diferentemente de países com tradição consolidada em contrainteligência, o Brasil historicamente não figura como prioridade nesse campo, o que torna mais difícil a detecção de agentes que não realizam ações ostensivas. A existência de brechas em sistemas de registro civil e a possibilidade de obtenção de documentos legítimos a partir de registros fraudulentos ampliam esse risco.

Para a Polícia Federal, a descoberta de casos como o de Cherkasov — e de outros agentes russos identificados posteriormente — não representa o encerramento do problema, mas apenas a revelação de uma engrenagem mais ampla, construída ao longo de anos. A avaliação interna é que parte desses agentes pode ainda estar em fase de “hibernação”, mantendo suas identidades falsas e aguardando o momento oportuno para atuar, o que mantém o Brasil sob vigilância constante no radar das operações de inteligência estrangeiras.

Quem são os outros espiões russos já identificados no Brasil

Além de Cherkasov, o Brasil registra uma lista crescente de agentes russos que usaram o país como base para operações de inteligência, seja por meio de identidades falsas, atividades comerciais de fachada ou até cobertura diplomática. Investigações conduzidas por autoridades brasileiras, em cooperação com serviços estrangeiros, revelaram um padrão: o país foi usado tanto para a construção de “legendas” quanto como ponto de passagem para missões mais sensíveis no exterior.

Um dos casos mais emblemáticos é o de Mikhail Valeryevich Mikushin, coronel do GRU. Nascido em 1978, ele operava com documentos brasileiros autênticos sob o nome falso de José Assis Giammaria, supostamente natural de Padre Bernardo (GO). Com essa identidade, construiu um currículo acadêmico que lhe permitiu, em 2021, atuar como pesquisador visitante na Universidade do Ártico da Noruega. Preso em outubro de 2022 sob acusação de espionagem, Mikushin acabou admitindo sua verdadeira identidade em dezembro de 2023 e, em agosto de 2024, foi incluído em uma troca internacional de prisioneiros coordenada pela Turquia.

Outro núcleo identificado envolve o casal Irina Alexandrovna Smireva e Artem Shmyrev. No Brasil, Smireva usava o nome de Maria Tsalla e chegou a visitar o país em 2019, com registros fotográficos no Rio de Janeiro, Arraial do Cabo, Petrópolis e Ouro Preto, divulgados em redes sociais. Já Shmyrev viveu por cerca de seis anos no Rio de Janeiro sob a identidade falsa de Gerhard Daniel Campos Wittich, onde administrava uma empresa de impressão 3D e mantinha uma vida aparentemente comum, incluindo um relacionamento com uma brasileira. Investigações posteriores revelaram que ambos eram casados entre si e integravam uma operação sofisticada de inteligência; Shmyrev conseguiu deixar o Brasil antes de ser preso, mas mensagens recuperadas confirmaram sua atuação clandestina.

Há também casos de atuação sob cobertura diplomática. Identificado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Serguei Alexandrovitch Chumilov chegou ao Brasil em 2018 como primeiro-secretário da Embaixada da Rússia em Brasília e representante da Casa Russa (Russky Dom), ligada à agência estatal Rossotrudnichestvo. Segundo a Abin, ele usava sua posição oficial para recrutar brasileiros como informantes, frequentando eventos acadêmicos e oferecendo bolsas de estudo e intercâmbio na Rússia. Após a descoberta de suas atividades, Chumilov deixou o país em julho de 2023, em uma saída negociada para evitar constrangimentos diplomáticos; o caso só veio a público em 2024.

Outro exemplo de agente “ilegal” é Vladimir Aleksandrovich Danilov, que viveu no Rio de Janeiro desde 2016 sob o nome falso de Manuel Francisco Steinbruck Pereira, onde mantinha um comércio de antiguidades na Barra da Tijuca. Ao lado de Yekaterina Leonidovna Danilova, que usava a identidade de Adriana Carolina Costa Silva Pereira, formou um casal que deixou o Brasil em 2018 rumo a Portugal, onde desapareceu. As verdadeiras identidades de ambos foram reveladas posteriormente, com apoio de agências internacionais.

A lista inclui ainda Olga Igorevna Tyutereva, que operou no Brasil sob o nome de Maria Luisa Dominguez Cardozo. Com uma certidão de nascimento brasileira autêntica, conseguiu obter posteriormente um passaporte uruguaio. Sua última localização conhecida foi na Namíbia, e sua identidade real veio à tona em outubro de 2024 após um alerta da Interpol, que a incluiu em um alerta azul para coleta de informações adicionais.

Também foi identificado Aleksandr Andreyevich Utekhin, que se apresentava no Brasil como Eric Lopes, joalheiro e gemólogo. Ele abriu empresas em Brasília e São Paulo e chegou a pagar para ser apresentado como especialista em um programa de televisão em 2021, evitando aparecer diante das câmeras. Antes que medidas fossem tomadas, deixou o país e teria passado pelo Oriente Médio; seu paradeiro atual é desconhecido, embora haja suspeita de retorno à Rússia.

Por fim, Roman Olegovich Koval viveu no Brasil ao lado de Irina Alekseyevna Antonova, ambos sob identidades falsas brasileiras. O casal deixou o país em 2023 em direção ao Uruguai, onde foi identificado pelas autoridades locais. Os dois constam atualmente em alertas azuis da Interpol.


terça-feira, 22 de julho de 2025

Contra a direita Lula tenta formar coalizão de países progressistas em meio a atrito com Trump - Aline Rechmann (Gazeta do Povo)

Contra a direita

Lula tenta formar coalizão de países progressistas em meio a atrito com Trump
Aline Rechmann
Gazeta do Povo, 22/07/2025

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca consolidar uma coalizão de países progressistas, em articulação com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez. Sob o pretexto de ser um esforço conjunto em defesa da democracia, o grupo atualmente formado por cinco países - Brasil, Chile, Uruguai, Colômbia e Espanha - deve receber pelo menos outros sete países a partir de setembro.
A união dos progressistas ocorre em meio ao anúncio de tarifaços do presidente americano Donald Trump e visa especialmente criar narrativas voltadas ao público interno dos países envolvidos, segundo analistas ouvidos pela reportagem.
O grupo se reuniu na segunda-feira (21), em Santiago no Chile. Sem se referir diretamente aos Estados Unidos ou a Trump, Lula criticou a "extrema direita" e a acusou de promover uma guerra cultural nas redes sociais e instrumentalizar o comércio internacional "como instrumento de coerção e chantagem".
Também participaram da cúpula os líderes esquerdistas Gabriel Boric, presidente do Chile, Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha, Gustavo Petro, presidente da Colômbia e Yamandú Orsi, presidente do Uruguai.
O documento conjunto divulgado ao final do encontro no Chile lista entre as iniciativas acordadas pelo grupo uma "tributação progressiva e justa, bem como fortalecer a cooperação tributária internacional com base nos princípios de transparência, equidade e soberania".
Segundo o cientista político e professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Elton Gomes, o movimento tem mais valor retórico e político-eleitoral do que efetivo peso diplomático. “Não é uma frente contra os Estados Unidos. Esses países não dispõem de recursos de poder em larga escala”, afirma Gomes. Segundo ele, a iniciativa visa essencialmente consolidar apoio interno para governos que enfrentam crises de popularidade, instabilidade institucional ou tensões diplomáticas com Washington.
O encontro no Chile é parte de uma estratégia de coordenação internacional, iniciada em 2024, por Lula e Sánchez com o objetivo de criar uma plataforma discursiva contra o que seus líderes consideram um avanço da "extrema-direita”.
As declarações de Lula, Boric, Petro e Orsi reforçaram a articulação de regulação das redes sociais, combate ao que chamam de extremismo e ações concretas para restaurar a confiança nas instituições. O primeiro encontro do grupo ocorreu em uma reunião paralela à ONU, em setembro de 2024. O grupo de líderes progressistas deve ser ampliado em setembro.
Líder espanhol quer ofensiva contra a “internacional do ódio” da "ultradireita"
Em seu discurso, o espanhol Pedro Sánchez disse que "forças da ultradireita" estão se espalhando, destruindo direitos, promovendo desinformação e alimentando o autoritarismo. “Não podemos continuar só resistindo. É hora de ir à ofensiva”, afirmou o presidente da Espanha, que é do Partido Socialista Operário Espanhol.
Sánchez ressaltou ainda que, assim como existe uma "internacional do ódio" global, os países progressistas também devem se unir em um esforço internacional coordenado.
Diante das afirmações do presidente da Espanha, o professor e diplomata Paulo Roberto de Almeida ponderou não ser “conveniente que numa reunião em defesa da democracia distinga entre direita e esquerda”. “Tanto na esquerda quanto na direita você pode ter defensores da democracia e inimigos da democracia. Não é uma questão de direita ou esquerda. A democracia tem princípios, regras impessoais estabelecidas constitucionalmente em leis, em tratados internacionais”, afirmou o diplomata.
Líderes progressistas tentam emplacar discursos movidos por motivação doméstica e eleitoral
Na avaliação do cientista político e professor Elton Gomes, os discursos dos líderes progressistas são voltados para questões específicas de seus países, com ênfase para pleitos eleitorais. No caso do Brasil, o presidente Lula tenta reagir à deterioração das relações com os Estados Unidos, agravada desde a operação da Polícia Federal que envolveu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e impôs a ele, entre outras sanções, o uso de tornozeleira eletrônica. “Lula tenta manter sua base mobilizada, criando o que chamamos de um cercamento do eleitorado que garanta apoio mínimo para sua sobrevivência política”, explica o cientista político.
A estratégia é semelhante à adotada pelo presidente chileno Gabriel Boric, que também enfrenta um cenário adverso: sua sucessora não decola nas pesquisas, enquanto o candidato da direita lidera a disputa.
Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez, ameaçado por denúncias de corrupção e pela perda de sustentação parlamentar, enxergou na ofensiva diplomática um caminho para reverter o desgaste. “A Espanha não tem meios de exercer pressão sobre os EUA. A manobra serve para reforçar sua base em um sistema parlamentarista em que a governabilidade depende diretamente da maioria legislativa”, pontua Gomes.
Ampliação do grupo progressista não deve aumentar poder de negociação
Apesar da expectativa de ampliação da coalizão, o grupo não deve conseguir aumentar seu poder de negociação, já que há limites de articulação nos países que devem passar a integrá-lo. O cientista político Elton Gomes afirma que países como México e Canadá, ainda que sob governos progressistas, mantêm laços profundamente enraizados com a economia norte-americana. “O México está integrado ao mercado dos Estados Unidos e precisa manter boas relações, especialmente no tema da imigração. Já o Canadá, mesmo sob críticas de Trump, reforçou sua cooperação em temas sensíveis como o combate ao fentanil [droga sintética]”, avalia.
Na Europa, a entrada da Dinamarca no grupo levanta dúvidas. “É um país que, mesmo após ser alvo de ameaças dos EUA durante o governo Trump, como a ideia de anexar a Groenlândia, preferiu negociar. Isso mostra que mesmo em conflitos simbólicos, o pragmatismo prevalece”, destaca o professor.
Para Gomes, o fator comum entre os países efetivamente engajados na iniciativa é a busca por ganhos simbólicos e políticos em nível doméstico. “A coalizão é uma plataforma para projeção de imagem e alinhamento ideológico, mas não representa uma ameaça geopolítica real. Os grandes atores internacionais, como China, Rússia e Índia, mantêm prudência e preferem negociar com os EUA — por reconhecerem sua centralidade militar, econômica e tecnológica”, disse.
A ausência de apoio do bloco dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Irã) à postura brasileira reforça essa percepção. “Nenhum país do bloco veio em socorro ao Brasil nessa crise. Mesmo a China, com todo seu poder, está revendo sua política comercial para reaproximar-se dos Estados Unidos”, lembra Gomes.
“A reunião no Chile rendeu boas fotos e manchetes, mas está longe de alterar o equilíbrio global. Trata-se, sobretudo, de uma ação voltada à política interna de seus signatários”, afirmou o analista.

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/lula-tenta-formar-coalizao-de-paises-progressistas-em-meio-a-atrito-com-trump/

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