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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Enquanto os EUA mudam de estratégia, a diplomacia do Brasil está presa nos anos 1990 - Marcos Degaut (Gazeta do Povo)

Enquanto os EUA mudam de estratégia, a diplomacia do Brasil está presa nos anos 1990

Lula recebeu Nicolás Maduro em 2023: diplomacia parada no tempo.
Lula recebeu Nicolás Maduro em 2023: diplomacia parada no tempo. (Foto: EFE/André Coelho)

Na primeira parte deste artigo, analisei os princípios que estruturam a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos: o abandono das ilusões hegemônicas do pós-Guerra Fria, a acomodação pragmática entre grandes potências, a revalorização do Hemisfério Ocidental e o retorno explícito à lógica do poder, da hierarquia e das escolhas duras.

 Essa reorientação estratégica dos EUA, que reposiciona a América Latina no centro do cálculo geopolítico de Washington, evidencia, por contraste brutal, o grau de desorientação da política externa brasileira sob o governo Lula, que se revela não apenas anacrônica, mas estruturalmente incapaz de operar em um sistema internacional que premia o planejamento e pune o improviso.

Em um sistema internacional que voltou a operar segundo lógica de poder, competição geoeconômica e hierarquias regionais claras, o Brasil insiste em uma diplomacia conceitualmente ultrapassada, operacionalmente frágil e estrategicamente subserviente. A diplomacia lulopetista é mero invólucro, pois não dispõe de uma política externa consubstanciada em uma grande estratégia, mas exclusivamente de uma práxis diplomática formal que consiste em slogans, maneirismos afetados e apego desorientado a representações abstratas de poder que encontram cada vez menos respaldo na realidade objetiva. Não se trata de erro pontual ou ruído tático, mas de incapacidade estrutural de formular interesses nacionais coerentes e de convertê-los em ação diplomática consistente.

Para compreender a gravidade desse descompasso, é preciso esclarecer o que está em jogo. Grande estratégia não é diplomacia cotidiana, nem soma de políticas setoriais, tampouco retórica diplomática ou ativismo internacional difuso. Trata-se do arcabouço intelectual e político que integra meios e fins do Estado, articulando poder militar, capacidade econômica, base produtiva, política externa, tecnologia e coesão interna em torno de interesses nacionais hierarquizados no longo prazo. É a arte de alinhar recursos limitados a objetivos essenciais em um ambiente de competição permanente – e, sobretudo, de fazer escolhas.

A grande estratégia existe para responder a perguntas basilares: o que é vital, o que é secundário e o que pode ser sacrificado. Ela define onde engajar, onde conter, onde acomodar, onde recuar, onde alocar recursos. Sem esse quadro, o Estado se torna refém de agendas dispersas, pressões circunstanciais e impulsos ideológicos. Não por acaso, potências que falham em sua formulação tendem a desperdiçar recursos, perder autonomia e reagir aos acontecimentos em vez de moldá-los. No caso do Brasil lulopetista, sobretudo no atual contexto de transformação das forças que regem a ordem internacional, a ausência de uma grande estratégia tende a aprofundar a irrelevância do País em temas geoeconômicos, tecnológicos e militares, sem prejuízo de outros.

Não há, no Brasil de Lula, um projeto que integre desenvolvimento, defesa, economia, segurança, indústria, comércio exterior e inserção internacional. O país opera por reflexos, slogans e improvisos, reagindo tardiamente aos movimentos alheios em vez de moldar o próprio entorno estratégico.

É exatamente essa lacuna que define a política externa brasileira atual. Enquanto Washington redefine prioridades, aceita limites e reorganiza sua projeção global com base em critérios objetivos de poder e risco, Brasília continua a agir como se o mundo ainda fosse regido pelo multilateralismo abstrato dos anos 1990. A diplomacia brasileira permanece ancorada em noções vagas de “multilateralismo”, “diálogo intercultural” e “Sul Global”, conceitos que não são traduzidos em interesses nacionais claramente definidos, nem em ganhos concretos de poder, influência ou segurança.

Os formuladores e executores da política externa não se deram conta de que a autonomia estratégica com a qual o Brasil – e, grosso modo, os demais países latino-americanos, conforme destaquei na primeira parte deste artigo – contou nos últimos 35 anos não existe mais. Ela decorreu, em ampla medida, do relativo desengajamento dos EUA do Hemisfério Ocidental entre o fim da Guerra Fria e o início do atual mandato de Trump, tendo sido pessimamente empregada por todos os governos de esquerda da região. Na ordem que ora se conforma, o custo de se opor aos interesses estratégicos americanos na região é brutalmente superior àquele das últimas três décadas.

A operação militar na Venezuela expõe essa nova realidade: à luz da NSS 2025, a captura de Maduro não deve ser vista, exclusivamente, sob a lente primária da mudança de regime, do combate ao tráfico internacional de drogas, do fortalecimento do controle migratório norte-americano, da defesa da democracia ou mesmo da custódia virtual de reservas petrolíferas correspondentes a 303 bilhões de barris, mas sim da perspectiva de que Caracas operava como um hub de interesses antagônicos aos de Washington na América Latina: uma plataforma operacional chinesa, russa e iraniana para a promoção multissetorial de ações e projetos que ameaçavam (e ameaçam) interesses que o governo dos EUA considera vitais. Não que, à queda de Maduro, faltem sucessores regionais que se proponham a dançar e proferir diatribes e ameaças aos EUA e seu governo, como atestam as recentes declarações dos presidentes colombiano Gustavo Petro e cubano Miguel Díaz-Canel. Creio não convenha especular se os mandatários são inconsequentes, loucos ou ambas as coisas.

A ausência de grande estratégia torna-se particularmente visível na América do Sul. O Brasil, historicamente o principal polo de gravidade regional, abdicou de exercer liderança estratégica, por temor ou simples incapacidade. Em vez de estruturar um espaço regional minimamente coeso – política, econômica e geopoliticamente – optou por uma diplomacia passiva, reativa e autocentrada. Sem objetivos claros, o país confunde peso econômico e demográfico com influência e militância ideológica com liderança. O resultado é um vácuo de poder ocupado por atores externos e por rearranjos regionais dos quais o Brasil participa apenas marginalmente.

O contraste com países vizinhos é eloquente. Enquanto governos sul-americanos, guinando para a direita, como exposto em artigo nesta Gazeta, reorganizam alianças, explicitam orientações programáticas e constroem coalizões políticas regionais com objetivos definidos, o Brasil se isola, preso a uma visão consensualista que já não encontra eco no continente. A integração regional, antes instrumento potencial de projeção estratégica, sobretudo no que diz respeito à sua vertente infraestrutural, foi reduzida a um ritual diplomático sem capacidade de coordenação real.

No novo contexto hemisférico, a postura brasileira é especialmente custosa. A estratégia americana não é neutra, tampouco inclusiva. Ela opera por alinhamentos seletivos, coerção econômica, pressão regulatória e demonstração de força militar. Países que não se posicionam claramente deixam de ser sujeitos da política regional e passam a ser tratados como objetos de gestão estratégica.

Washington concebe o hemisfério ocidental como área vital a ser protegida da presença estratégica de potências extra-hemisféricas. Infraestrutura, energia, logística, telecomunicações, minerais críticos e cadeias de suprimento passaram a ser tratados como ativos de segurança nacional. Essa lógica redefine as regras do jogo, especialmente para o Brasil. Ignorar essa mudança não preserva autonomia. Ao contrário, expõe o país à pressão externa sem instrumentos de barganha.

Essa deficiência estrutural também explica a relação desequilibrada do Brasil com a China. Sob Lula, Pequim deixou de ser apenas um parceiro comercial relevante e passou a ocupar posição central na inserção internacional brasileira, sem que isso tenha sido enquadrado por uma estratégia de balanceamento, atração de investimentos, transferência de tecnologia, diversificação ou proteção de interesses sensíveis.

Hoje, mais de 30% das exportações brasileiras têm como destino o mercado chinês, concentradas em commodities de baixo valor agregado. O Brasil importa, por sua vez, bens industriais, tecnologia e insumos estratégicos. Trata-se de uma relação estruturalmente assimétrica, na qual o país aceita passivamente uma dinâmica baseada na exportação de commodities e na dependência tecnológica, que cria e amplia vulnerabilidades, como a reprimarização da economia e a fragilização da base industrial.

Ao mesmo tempo, Pequim amplia sua presença no território brasileiro em setores estratégicos como energia, portos, ferrovias, telecomunicações e tecnologia digital. Do ponto de vista norte-americano, esses investimentos já não são vistos apenas como negócios, mas como vetores de influência geopolítica e vulnerabilidade estratégica. Essa percepção orienta políticas industriais, sanções, controles de exportação e pressão diplomática.

Ainda assim, o governo evita qualquer política de diversificação séria, proteção de setores sensíveis ou condicionamento estratégico da relação bilateral. Não há balanceamento, não há linhas vermelhas, não há estratégia, apenas acomodação. Age como se a geopolítica fosse um ruído externo irrelevante, quando, na realidade, ela já molda decisões comerciais, financeiras e tecnológicas em escala global.

Essa ambiguidade não produz autonomia. Produz vulnerabilidade. Uma grande estratégia teria imposto limites, definido setores críticos, protegido capacidades nacionais e condicionado a cooperação econômica a objetivos políticos, comerciais, tecnológicos e industriais claros. Nada disso ocorreu.

Em vez disso, o Brasil naturalizou uma relação assimétrica, evita qualquer posicionamento firme em temas sensíveis aos interesses chineses e abdica, na prática, de autonomia estratégica, tudo isso sob o discurso genérico do pragmatismo. Ao não definir uma estratégia própria para lidar com a China, o Brasil se torna progressivamente dependente de decisões tomadas fora de seu controle.

O mesmo padrão se repete na diplomacia ambiental. Elevada a eixo central da projeção internacional do governo, a agenda climática é tratada como fim em si mesma, e não como instrumento de poder. Compromissos amplos são assumidos, constrangimentos externos são aceitos, mas esses ativos políticos não são convertidos em vantagens estratégicas duráveis, investimentos estruturantes ou fortalecimento da posição internacional do país. Uma grande estratégia teria transformado capital ambiental em poder; a atual diplomacia limita-se a acumular constrangimentos e sair em fotos ao lado de companhias, digamos, questionáveis.

Além disso, a diplomacia ambiental brasileira padece de um erro de cálculo geoestratégico grosseiro, pois confere às concepções ambientais de determinados países europeus relevância objetiva inspirada principalmente na autoatribuída “superioridade moral” que tais países proclamam. Utilizar metas propostas por potências europeias para fins de benchmarkambiental em diversos setores é, na melhor das hipóteses, um contrassenso, e, na pior, uma piada grotesca, particularmente para um país que, como o Brasil, precisa se reindustrializar.

A participação do setor industrial nas economias dos países da zona do euro, que em 2000 correspondia a 20%, foi, em 2024, de 13%. Somente entre 2023 e 2024, a produção industrial dos países da zona do euro teve queda de 2,2%. O carro-chefe desse espetáculo de zelotismo autocongratulatório e destruidor da economia real é a Alemanha, cuja produção industrial despencou 12% (!) entre 2019 e junho de 2025. É nesse exemplo de suicídio econômico que a diplomacia ambiental brasileira parece se inspirar.

Somados, esses elementos revelam uma política externa sem arquitetura, sem hierarquia de interesses e sem visão de longo prazo. Em um sistema internacional marcado por competição entre grandes potências, instrumentalização da economia e reorganização de esferas de influência, o Brasil opera como se a simples participação em fóruns multilaterais fosse suficiente para garantir relevância.

A ausência de grande estratégia se manifesta de forma especialmente grave na área de defesa. O discurso oficial fala em autonomia estratégica, mas os investimentos são insuficientes, o planejamento é fragmentado e as capacidades militares não estão articuladas a uma visão geopolítica coerente.

O Atlântico Sul, vital para o comércio exterior, para a segurança energética, para as comunicações submarinas e para a soberania nacional, permanece insuficientemente protegido. O crime organizado transnacional – conectado a rotas globais de tráfico, lavagem de dinheiro e contrabando – avança mais rapidamente do que a capacidade estatal de resposta.

Em um cenário no qual os EUA reforçam sua presença naval no Caribe, reavaliam o controle de rotas estratégicas e tratam o hemisfério como área prioritária, essa fragilidade brasileira não é teórica, mas risco estratégico concreto. Falar em soberania sem capacidade dissuasória deixou de ser ingenuidade. Tornou-se imprudência.

A nova NSS dos EUA deixa claro que o tempo da ambiguidade estratégica acabou. Potências estão escolhendo prioridades, delimitando espaços de interesse e exigindo posicionamentos mais claros de seus entornos estratégicos. Nesse mundo, o Brasil surge como um ator paradoxal: grande demais para ser ignorado, mas cada vez mais irrelevante por falta de visão estratégica, em contexto no qual a ausência de uma grande estratégia não é neutralidade sofisticada – é vulnerabilidade estrutural. E vulnerabilidade, em um sistema governado por poder, raramente permanece sem custo e consequências.

Parte central do problema reside em uma diplomacia anacrônica, inadequadamente estruturada no que diz respeito à carreira, aparelhada, que se move por inércia, hermética, avessa à modernização, presa a tradições que já não resistem ao peso do tempo, resistente a revisar seus pressupostos e enlevada por sua autopercepção de ser um centro de excelência. O mundo mudou, a estratégia americana mudou, a competição entre grandes potências se intensificou, mas o discurso brasileiro permanece ancorado em um ambiente internacional que já não existe e a práticas, métodos e conceitos ultrapassados.

Política externa não se faz no vácuo. Um país com o peso geopolítico do Brasil não pode se contentar com uma diplomacia reativa e conformista sempre a reboque dos acontecimentos, que pouco influencia as relações internacionais, mas sofre em demasia os efeitos das políticas dos global players.

Tradições e práticas diplomáticas só fazem sentido e mantêm sua legitimidade quando são manifestamente convergentes com o interesse nacional mais amplo, alicerçadas em diretrizes de política externa que estejam alinhadas a uma grande estratégia de nação. A adesão cega a “tradições” trai o próprio conceito de diplomacia estratégica e prejudica toda a nação.

O balanço final é severo. Enquanto as grandes potências voltam a pensar o mundo em termos de poder, território, hierarquia e interesse nacional, a política externa de Lula revela-se incapaz de operar nesse ambiente. Não por falta de recursos, peso econômico ou relevância regional, mas por um déficit estrutural de pensamento estratégico e por sua lógica intrínseca de parasitação do Estado.

Isso se traduz em dependência geopolítica, fragilidade econômica, perda de influência regional e redução da capacidade de proteger interesses nacionais vitais. Em um hemisfério que deixou de ser periférico para voltar ao centro do cálculo geoestratégico, o custo para o Brasil, nesse cenário, é de uma crescente marginalização.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.


sábado, 3 de janeiro de 2026

O que se sabe sobre o espião russo que Lula pode devolver a Moscou - Vinícius Sales Renan Ramalho - Renan Ramalho, Juliet Manfrin, Juliet Manfrin (Gazeta do Povo)

From Russia, with Love, como diria algum James Bond de antigamente...

O que se sabe sobre o espião russo que Lula pode devolver a Moscou

 

Gazeta do Povo

gazetadopovo.com.br/republica/o-que-se-sabe-sobre-o-espiao-trapalhao-que-lula-pode-deportar/

A extradição do espião russo Serguei Vladimirovich Cherkasov aguarda uma decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O pedido está sob análise do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, do Ministério da Justiça, mas a palavra final caberá ao Executivo. A informação, revelada pela CNN Brasil, recolocou o caso no centro da agenda diplomática brasileira.

Preso desde dezembro de 2022, Cherkasov deixou de ser um personagem do submundo da espionagem para se tornar um símbolo de como o Brasil passou a integrar, ainda que de forma involuntária, disputas silenciosas entre serviços de inteligência. A expectativa de que ele será devolvido à Rússia cresce em meio à relação política próxima entre o governo Lula e Vladimir Putin, mas a história do chamado “espião trapalhão” é longa, sofisticada e começa mais de uma década antes de sua prisão.

Segundo investigações da Polícia Federal, Cherkasov entrou no Brasil pela primeira vez em junho de 2010, usando seu passaporte russo verdadeiro. A partir daí, iniciou um processo meticuloso de construção de uma identidade falsa: Victor Muller Ferreira, supostamente nascido em Niterói (RJ), em 1989. Com base em uma certidão de nascimento registrada de forma fraudulenta, conseguiu emitir documentos brasileiros autênticos — como RG, CPF, título de eleitor e passaporte —, os quais permitiram que ele levasse uma vida aparentemente comum.

Durante anos, trabalhou formalmente, acumulou registros oficiais e construiu um histórico social consistente. Essa identidade brasileira não era um fim em si mesma, mas a base para uma operação de espionagem de longo prazo, desenhada para lhe permitir circular pelo Ocidente e acessar instituições estratégicas sem levantar suspeitas.

A farsa começou a ruir em abril de 2022, quando Cherkasov tentou ingressar na Holanda para assumir um estágio no Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, justamente no momento em que a corte intensificava investigações sobre crimes de guerra atribuídos à Rússia na Ucrânia.

Barrado pela inteligência holandesa e exposto como agente “ilegal” da agência russa GRU (Glavnoe Razvedyvatel'noe Upravlenie), ele foi deportado e preso ao desembarcar no Brasil. A partir daí, o caso deixou de ser apenas criminal e passou a envolver uma complexa disputa jurídica e diplomática entre Rússia, Estados Unidos e o Estado brasileiro.

Como um falso brasileiro levou o Brasil a um embate jurídico entre Rússia e EUA

A trajetória de Serguei Cherkasov seguiu um roteiro clássico das operações da inteligência russa voltadas à criação de agentes “ilegais” — espiões que atuam sem qualquer cobertura diplomática e vivem por anos sob identidades falsas. Após entrar no Brasil em 2010, ele percorreu diferentes regiões do país, especialmente o Nordeste e o Rio de Janeiro, em um processo conhecido como “lavagem de origem”, destinado a dissociá-lo de sua identidade russa original.

Foi nesse período que obteve, em cartório, uma certidão de nascimento registrada tardiamente, alegando ter nascido em Niterói, filho de uma mãe brasileira já falecida e de um pai desconhecido ou estrangeiro. A partir desse documento, conseguiu emitir toda a cadeia de registros oficiais brasileiros, consolidando a persona de Victor Muller Ferreira.

Entre 2011 e 2013, Cherkasov entrou na fase conhecida como “backstopping”, quando o agente constrói um histórico social e profissional coerente. Trabalhou formalmente em uma agência de turismo, gerando registros de emprego, contribuições previdenciárias e outros rastros administrativos. Anos depois, esse mesmo período seria explorado pela Rússia como base para uma acusação de tráfico de drogas apresentada em 2023, considerada artificial por investigadores brasileiros e vista como um álibi jurídico para sustentar o pedido de extradição.

Com a identidade brasileira consolidada, a operação avançou para fora do país. A partir de 2014, Cherkasov passou a usar o passaporte brasileiro para acessar instituições de elite no Ocidente sem levantar suspeitas. Viveu na Irlanda entre 2014 e 2018, onde cursou Ciência Política no Trinity College, em Dublin, mantendo um perfil discreto, mas social. Professores relataram posteriormente que ele atribuía um sotaque difícil de identificar a uma infância “complexa”.

Em 2018, mudou-se para Washington, nos Estados Unidos, e ingressou na Johns Hopkins School of Advanced International Studies (SAIS), uma das principais escolas de formação de diplomatas e analistas de política externa. Segundo investigações, foi nesse período que intensificou a coleta de informações sobre política externa americana, ampliou sua rede de contatos com futuros quadros do governo e enviou relatórios regulares ao GRU.

O objetivo final da operação começou a se materializar em setembro de 2020, quando Cherkasov iniciou o processo seletivo para um estágio no Tribunal Penal Internacional. A candidatura se arrastou devido à pandemia, mas ganhou importância estratégica no início de 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia e a abertura de investigações internacionais sobre crimes de guerra atribuídos a Moscou. O acesso ao tribunal passou a ser tratado como um “alvo de ouro” pela inteligência russa.

Convicto de que sua cobertura permanecia intacta, Cherkasov embarcou do Brasil para a Holanda em 31 de março de 2022. No dia seguinte, ao desembarcar no aeroporto de Schiphol, foi barrado pela imigração e exposto pela inteligência holandesa como agente “ilegal” do GRU, em uma ação que contou com alertas de serviços de inteligência americanos. Declarado persona non grata, foi deportado imediatamente.

De volta ao Brasil, entre 3 e 4 de abril de 2022, foi preso pela Polícia Federal por uso de documentos falsos. A partir desse momento, a operação de espionagem deu lugar a uma disputa jurídica e diplomática de grandes proporções.

Em junho de 2022, a Rússia apresentou formalmente um pedido de extradição, alegando que Cherkasov teria sido condenado em Moscou por tráfico de drogas. O pedido passou a tramitar em sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Edson Fachin.

O russo só poderia ser entregue após responder integralmente aos processos em curso no Brasil. Poucos dias depois, o caso ganhou novo contorno internacional, com um pedido de extradição apresentado pelos Estados Unidos. O governo brasileiro negou a solicitação americana em julho de 2023, citando o princípio do ne bis in idem - que impede que uma pessoa seja processada ou punida duas vezes pelo mesmo fato - e a precedência do pedido russo.

No mesmo período, a Justiça reduziu a pena de Cherkasov por falsidade documental de 15 anos para 5 anos e 2 meses, mas manteve sua prisão preventiva diante do risco de fuga. A situação voltou a se complicar em janeiro de 2024, quando surgiram novas suspeitas de lavagem de dinheiro, envolvendo depósitos feitos por funcionários do consulado russo para custear suas despesas na prisão.

Em agosto de 2024, a exclusão de Cherkasov da grande troca de prisioneiros entre Rússia e países ocidentais foi interpretada como um sinal de que Moscou apostava na via jurídica brasileira para recuperar seu agente.

O desfecho começou a se desenhar em 2025, com o arquivamento do inquérito de espionagem no Brasil, sob o entendimento de que seus atos visavam interesses de terceiros, e não diretamente o Estado brasileiro. 


Como agentes russos ainda podem operar no Brasil

O caso de Cherkasov acendeu um sinal de alerta permanente nas forças de segurança brasileiras. A avaliação da Polícia Federal é de que o espião preso em Brasília não atuava de forma isolada e que outros agentes russos podem estar operando no país com métodos semelhantes, explorando fragilidades institucionais e vivendo por longos períodos sob identidades falsas.

Segundo investigadores, o padrão já identificado envolve agentes conhecidos como “ilegais” — profissionais de inteligência que não têm qualquer cobertura diplomática e constroem vidas inteiras como cidadãos comuns. Eles costumam se apresentar como estudantes, pesquisadores, empresários ou profissionais liberais, mantendo rotinas discretas, sem ostentação e sem vínculos visíveis com governos estrangeiros. Em muitos casos, constroem relações pessoais, acadêmicas e profissionais profundas antes de serem ativados para missões específicas.

As suspeitas da PF indicam que o Brasil cumpre um duplo papel estratégico nesse tipo de operação. Além de servir como local de residência de longo prazo, o país funciona como plataforma intermediária, a partir da qual esses agentes podem ser deslocados para destinos considerados sensíveis, como países europeus, os Estados Unidos ou organismos internacionais. O passaporte brasileiro, em especial, facilita a circulação internacional e reduz o nível de desconfiança inicial em controles migratórios.

Outro fator que preocupa as autoridades é o baixo custo operacional para esse tipo de espionagem em território brasileiro. Diferentemente de países com tradição consolidada em contrainteligência, o Brasil historicamente não figura como prioridade nesse campo, o que torna mais difícil a detecção de agentes que não realizam ações ostensivas. A existência de brechas em sistemas de registro civil e a possibilidade de obtenção de documentos legítimos a partir de registros fraudulentos ampliam esse risco.

Para a Polícia Federal, a descoberta de casos como o de Cherkasov — e de outros agentes russos identificados posteriormente — não representa o encerramento do problema, mas apenas a revelação de uma engrenagem mais ampla, construída ao longo de anos. A avaliação interna é que parte desses agentes pode ainda estar em fase de “hibernação”, mantendo suas identidades falsas e aguardando o momento oportuno para atuar, o que mantém o Brasil sob vigilância constante no radar das operações de inteligência estrangeiras.

Quem são os outros espiões russos já identificados no Brasil

Além de Cherkasov, o Brasil registra uma lista crescente de agentes russos que usaram o país como base para operações de inteligência, seja por meio de identidades falsas, atividades comerciais de fachada ou até cobertura diplomática. Investigações conduzidas por autoridades brasileiras, em cooperação com serviços estrangeiros, revelaram um padrão: o país foi usado tanto para a construção de “legendas” quanto como ponto de passagem para missões mais sensíveis no exterior.

Um dos casos mais emblemáticos é o de Mikhail Valeryevich Mikushin, coronel do GRU. Nascido em 1978, ele operava com documentos brasileiros autênticos sob o nome falso de José Assis Giammaria, supostamente natural de Padre Bernardo (GO). Com essa identidade, construiu um currículo acadêmico que lhe permitiu, em 2021, atuar como pesquisador visitante na Universidade do Ártico da Noruega. Preso em outubro de 2022 sob acusação de espionagem, Mikushin acabou admitindo sua verdadeira identidade em dezembro de 2023 e, em agosto de 2024, foi incluído em uma troca internacional de prisioneiros coordenada pela Turquia.

Outro núcleo identificado envolve o casal Irina Alexandrovna Smireva e Artem Shmyrev. No Brasil, Smireva usava o nome de Maria Tsalla e chegou a visitar o país em 2019, com registros fotográficos no Rio de Janeiro, Arraial do Cabo, Petrópolis e Ouro Preto, divulgados em redes sociais. Já Shmyrev viveu por cerca de seis anos no Rio de Janeiro sob a identidade falsa de Gerhard Daniel Campos Wittich, onde administrava uma empresa de impressão 3D e mantinha uma vida aparentemente comum, incluindo um relacionamento com uma brasileira. Investigações posteriores revelaram que ambos eram casados entre si e integravam uma operação sofisticada de inteligência; Shmyrev conseguiu deixar o Brasil antes de ser preso, mas mensagens recuperadas confirmaram sua atuação clandestina.

Há também casos de atuação sob cobertura diplomática. Identificado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Serguei Alexandrovitch Chumilov chegou ao Brasil em 2018 como primeiro-secretário da Embaixada da Rússia em Brasília e representante da Casa Russa (Russky Dom), ligada à agência estatal Rossotrudnichestvo. Segundo a Abin, ele usava sua posição oficial para recrutar brasileiros como informantes, frequentando eventos acadêmicos e oferecendo bolsas de estudo e intercâmbio na Rússia. Após a descoberta de suas atividades, Chumilov deixou o país em julho de 2023, em uma saída negociada para evitar constrangimentos diplomáticos; o caso só veio a público em 2024.

Outro exemplo de agente “ilegal” é Vladimir Aleksandrovich Danilov, que viveu no Rio de Janeiro desde 2016 sob o nome falso de Manuel Francisco Steinbruck Pereira, onde mantinha um comércio de antiguidades na Barra da Tijuca. Ao lado de Yekaterina Leonidovna Danilova, que usava a identidade de Adriana Carolina Costa Silva Pereira, formou um casal que deixou o Brasil em 2018 rumo a Portugal, onde desapareceu. As verdadeiras identidades de ambos foram reveladas posteriormente, com apoio de agências internacionais.

A lista inclui ainda Olga Igorevna Tyutereva, que operou no Brasil sob o nome de Maria Luisa Dominguez Cardozo. Com uma certidão de nascimento brasileira autêntica, conseguiu obter posteriormente um passaporte uruguaio. Sua última localização conhecida foi na Namíbia, e sua identidade real veio à tona em outubro de 2024 após um alerta da Interpol, que a incluiu em um alerta azul para coleta de informações adicionais.

Também foi identificado Aleksandr Andreyevich Utekhin, que se apresentava no Brasil como Eric Lopes, joalheiro e gemólogo. Ele abriu empresas em Brasília e São Paulo e chegou a pagar para ser apresentado como especialista em um programa de televisão em 2021, evitando aparecer diante das câmeras. Antes que medidas fossem tomadas, deixou o país e teria passado pelo Oriente Médio; seu paradeiro atual é desconhecido, embora haja suspeita de retorno à Rússia.

Por fim, Roman Olegovich Koval viveu no Brasil ao lado de Irina Alekseyevna Antonova, ambos sob identidades falsas brasileiras. O casal deixou o país em 2023 em direção ao Uruguai, onde foi identificado pelas autoridades locais. Os dois constam atualmente em alertas azuis da Interpol.


terça-feira, 22 de julho de 2025

Contra a direita Lula tenta formar coalizão de países progressistas em meio a atrito com Trump - Aline Rechmann (Gazeta do Povo)

Contra a direita

Lula tenta formar coalizão de países progressistas em meio a atrito com Trump
Aline Rechmann
Gazeta do Povo, 22/07/2025

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca consolidar uma coalizão de países progressistas, em articulação com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez. Sob o pretexto de ser um esforço conjunto em defesa da democracia, o grupo atualmente formado por cinco países - Brasil, Chile, Uruguai, Colômbia e Espanha - deve receber pelo menos outros sete países a partir de setembro.
A união dos progressistas ocorre em meio ao anúncio de tarifaços do presidente americano Donald Trump e visa especialmente criar narrativas voltadas ao público interno dos países envolvidos, segundo analistas ouvidos pela reportagem.
O grupo se reuniu na segunda-feira (21), em Santiago no Chile. Sem se referir diretamente aos Estados Unidos ou a Trump, Lula criticou a "extrema direita" e a acusou de promover uma guerra cultural nas redes sociais e instrumentalizar o comércio internacional "como instrumento de coerção e chantagem".
Também participaram da cúpula os líderes esquerdistas Gabriel Boric, presidente do Chile, Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha, Gustavo Petro, presidente da Colômbia e Yamandú Orsi, presidente do Uruguai.
O documento conjunto divulgado ao final do encontro no Chile lista entre as iniciativas acordadas pelo grupo uma "tributação progressiva e justa, bem como fortalecer a cooperação tributária internacional com base nos princípios de transparência, equidade e soberania".
Segundo o cientista político e professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Elton Gomes, o movimento tem mais valor retórico e político-eleitoral do que efetivo peso diplomático. “Não é uma frente contra os Estados Unidos. Esses países não dispõem de recursos de poder em larga escala”, afirma Gomes. Segundo ele, a iniciativa visa essencialmente consolidar apoio interno para governos que enfrentam crises de popularidade, instabilidade institucional ou tensões diplomáticas com Washington.
O encontro no Chile é parte de uma estratégia de coordenação internacional, iniciada em 2024, por Lula e Sánchez com o objetivo de criar uma plataforma discursiva contra o que seus líderes consideram um avanço da "extrema-direita”.
As declarações de Lula, Boric, Petro e Orsi reforçaram a articulação de regulação das redes sociais, combate ao que chamam de extremismo e ações concretas para restaurar a confiança nas instituições. O primeiro encontro do grupo ocorreu em uma reunião paralela à ONU, em setembro de 2024. O grupo de líderes progressistas deve ser ampliado em setembro.
Líder espanhol quer ofensiva contra a “internacional do ódio” da "ultradireita"
Em seu discurso, o espanhol Pedro Sánchez disse que "forças da ultradireita" estão se espalhando, destruindo direitos, promovendo desinformação e alimentando o autoritarismo. “Não podemos continuar só resistindo. É hora de ir à ofensiva”, afirmou o presidente da Espanha, que é do Partido Socialista Operário Espanhol.
Sánchez ressaltou ainda que, assim como existe uma "internacional do ódio" global, os países progressistas também devem se unir em um esforço internacional coordenado.
Diante das afirmações do presidente da Espanha, o professor e diplomata Paulo Roberto de Almeida ponderou não ser “conveniente que numa reunião em defesa da democracia distinga entre direita e esquerda”. “Tanto na esquerda quanto na direita você pode ter defensores da democracia e inimigos da democracia. Não é uma questão de direita ou esquerda. A democracia tem princípios, regras impessoais estabelecidas constitucionalmente em leis, em tratados internacionais”, afirmou o diplomata.
Líderes progressistas tentam emplacar discursos movidos por motivação doméstica e eleitoral
Na avaliação do cientista político e professor Elton Gomes, os discursos dos líderes progressistas são voltados para questões específicas de seus países, com ênfase para pleitos eleitorais. No caso do Brasil, o presidente Lula tenta reagir à deterioração das relações com os Estados Unidos, agravada desde a operação da Polícia Federal que envolveu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e impôs a ele, entre outras sanções, o uso de tornozeleira eletrônica. “Lula tenta manter sua base mobilizada, criando o que chamamos de um cercamento do eleitorado que garanta apoio mínimo para sua sobrevivência política”, explica o cientista político.
A estratégia é semelhante à adotada pelo presidente chileno Gabriel Boric, que também enfrenta um cenário adverso: sua sucessora não decola nas pesquisas, enquanto o candidato da direita lidera a disputa.
Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez, ameaçado por denúncias de corrupção e pela perda de sustentação parlamentar, enxergou na ofensiva diplomática um caminho para reverter o desgaste. “A Espanha não tem meios de exercer pressão sobre os EUA. A manobra serve para reforçar sua base em um sistema parlamentarista em que a governabilidade depende diretamente da maioria legislativa”, pontua Gomes.
Ampliação do grupo progressista não deve aumentar poder de negociação
Apesar da expectativa de ampliação da coalizão, o grupo não deve conseguir aumentar seu poder de negociação, já que há limites de articulação nos países que devem passar a integrá-lo. O cientista político Elton Gomes afirma que países como México e Canadá, ainda que sob governos progressistas, mantêm laços profundamente enraizados com a economia norte-americana. “O México está integrado ao mercado dos Estados Unidos e precisa manter boas relações, especialmente no tema da imigração. Já o Canadá, mesmo sob críticas de Trump, reforçou sua cooperação em temas sensíveis como o combate ao fentanil [droga sintética]”, avalia.
Na Europa, a entrada da Dinamarca no grupo levanta dúvidas. “É um país que, mesmo após ser alvo de ameaças dos EUA durante o governo Trump, como a ideia de anexar a Groenlândia, preferiu negociar. Isso mostra que mesmo em conflitos simbólicos, o pragmatismo prevalece”, destaca o professor.
Para Gomes, o fator comum entre os países efetivamente engajados na iniciativa é a busca por ganhos simbólicos e políticos em nível doméstico. “A coalizão é uma plataforma para projeção de imagem e alinhamento ideológico, mas não representa uma ameaça geopolítica real. Os grandes atores internacionais, como China, Rússia e Índia, mantêm prudência e preferem negociar com os EUA — por reconhecerem sua centralidade militar, econômica e tecnológica”, disse.
A ausência de apoio do bloco dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Irã) à postura brasileira reforça essa percepção. “Nenhum país do bloco veio em socorro ao Brasil nessa crise. Mesmo a China, com todo seu poder, está revendo sua política comercial para reaproximar-se dos Estados Unidos”, lembra Gomes.
“A reunião no Chile rendeu boas fotos e manchetes, mas está longe de alterar o equilíbrio global. Trata-se, sobretudo, de uma ação voltada à política interna de seus signatários”, afirmou o analista.

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/lula-tenta-formar-coalizao-de-paises-progressistas-em-meio-a-atrito-com-trump/

sábado, 17 de maio de 2025

Rearrumação no espectro partidário: Cinco supercaciques se preparam para dominar a política brasileira até 2030 - Sílvio Ribas (Gazeta do Povo)

Concentração partidária

Cinco supercaciques se preparam para dominar a política brasileira até 2030

Por Sílvio Ribas

Brasília

Gazeta do Povo, 11/05/2025

Presidentes de partidos de centro e centro-dirieta: Ciro Nogueira (PP), Antônio Rueda (União Brasil), Valdemar Costa Neto (PL), Renata Abreu (Podemos) e Gilberto Kassab (PSD). (Foto: Montagem / Gazeta do Povo)

À frente de agremiações políticas que concentram cerca de metade dos votos na Câmara e movimentam receitas bilionárias por meio dos fundos partidário e eleitoral, cinco "supercaciques" - presidentes de legendas de centro e centro-direita - investem para consolidar seus projetos de poder de longo prazo.

Valdemar Costa Neto (PL), Gilberto Kassab (PSD), Renata Abreu (Podemos-PSDB), Ciro Nogueira (PP) e Antônio Rueda (União Brasil) ampliaram influência nas urnas de 2024, quando levaram 60% das prefeituras e metade dos R$ 6 bilhões de verbas públicas reservada aos partidos.

Os dirigentes seguem com estratégias de domínio político após as próximas disputas. A mais recente envolveu o lançamento da federação PP-União. Eles buscam a hegemonia até 2030, antecipando o fim da polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL).

Liderando siglas com forte presença no Congresso e ampla capilaridade nacional, os cinco supercaciques já atuam como peças-chave na redefinição do mapa político do país a partir das eleições de 2026, buscando ampliação do espaço no Congresso e a sua influência sobre a Presidência da República.

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Cenário partidário caminha para a concentração e o comando profissional

Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo sublinham que o cenário político brasileiro passa por profunda e silenciosa transformação. À medida que 2026 se aproxima, fusões, federações e restrições da lei partidária impõem o fim da fragmentação extrema e a criação de blocos robustos e coesos.

A cláusula de barreira, em vigor desde 2017, limita o acesso de partidos ao fundo partidário e à propaganda gratuita. Para superá-la, a legenda precisa ter ao menos 2% dos votos para deputado federal em nove estados, com no mínimo 1% dos votos válidos em cada um desses estados, ou eleger 11 em ao menos nove estados.

Desempenho insuficiente, obrigatoriedade de federações duradouras e fim de coligações proporcionais eliminaram muitos dos 28 partidos com assento na Câmara no início da década. Por isso, os menores têm buscado se juntar aos maiores, criando superestruturas nacionais com mais acesso a verbas.

O cientista político Antonio Lavareda avalia que o marco legal cumpriu a sua missão de afunilar o quadro partidário. “Logo teremos apenas meia dúzia de legendas. Isso melhora a operação do Legislativo, faltando apenas mudar o sistema eleitoral para enraizar os partidos na sociedade”, comentou.

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Federação PP-União Brasil inaugura modelo estratégico de arranjo partidário

O exemplo emblemático das mudanças políticas está na recém-lançada federação entre União Brasil e PP, que superou o PL em cadeiras na Câmara. Sob liderança do advogado Antônio Rueda (União Brasil) e do senador Ciro Nogueira (PP-PI), o novo arranjo partidário cria um modelo mais estratégico e centralizador.

Marcus Deois, diretor da consultoria política Ética, observa que a federação com 109 deputados e 14 senadores, com duração mínima de quatro anos, já surge com magnitude capaz de consolidar PP e União como protagonistas do cenário político nacional e de deflagrar a corrida eleitoral de 2026.

Ele lembra que Ciro Nogueira (PP) já se apresenta como candidato a vice em alguma chapa presidencial de centro-direita, evocando controle de quase R$ 1 bilhão em fundo eleitoral e a capilaridade regional de governadores e prefeitos. Autossustentável, a federação pode até lançar uma chapa própria.

Ronaldo Caiado, governador de Goiás e pré-candidato à Presidência pelo União Brasil, também tratou de enaltecer, em discurso no lançamento da federação e em carta aberta aos filiados do PP, o potencial da aliança dos partidos de “subir a rampa do Palácio do Planalto” após as eleições de 2026.

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Blocos se organizam em três grandes frentes, avaliam especialistas

O cientista político Ismael Almeida vislumbra três frentes disputando o próximo pleito: a esquerda chefiada pelo PT, a direita representada pelo PL, e o centro conservador articulado por PSD, União-PP e o futuro Podemos-PSDB. “Será uma briga previsível, com pouco espaço para novidades”, diz.

Almeida destaca o protagonismo do PL à direita, mesmo possivelmente sem Bolsonaro na urna, com comando firme de Valdemar Costa Neto. Já a esquerda se manterá coesa sob liderança do PT, que já comanda a federação Brasil da Esperança, com PCdoB e PV, e ainda conta com Lula, mesmo se ele ficar de fora do próximo pleito presidencial.

Há também o centro, onde o PSD exerce tradicional posição neutra, pronto para negociar. O Podemos - que se fortaleceu nas últimas eleições e já absorveu o PSC - caminha para a fusão com o PSDB, em franco declínio. A legenda resultante pode tentar ser uma “terceira via”.

Defensores da concentração partidária veem nela um avanço em favor da governabilidade, uma redução dos custos políticos e o fim definitivo das siglas de aluguel. Críticos, porém, alertam que o poder excessivo dos caciques pode sufocar a renovação e inibir a pluralidade democrática.

Federação PP-União afeta as negociações para a corrida ao Palácio do Planalto

O lançamento da federação entre PP e União Brasil, com a presença do líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, mostram a preocupação dos líderes partidários com as consequências do rearranjo partidário sobre o cenário eleitoral de 2026.

A federação fortalece a articulação do Centrão e amplia o seu poder de barganha com Lula, embora líderes da aliança PP-União Brasil façam acenos à oposição, prometendo lutar pela responsabilidade fiscal. Caiado ainda quer engrenar a candidatura ao Planalto, sem consenso na própria legenda.

Paralelamente, a fusão do PSDB com o Podemos, aprovada semana passada por unanimidade pela cúpula tucana, aguarda aval da Justiça Eleitoral para ser formalizada em convenção nacional em 5 de junho. A união visa conter a decadência do PSDB e formar um bloco de centro alternativo aos demais.

Juntos, PSDB e Podemos somam 28 deputados, sete senadores, 405 prefeitos, três governadores e cerca de R$ 460 milhões em fundos partidário e eleitoral.

Kassab vê aliança do centro em torno de candidatura de Tarcísio à Presidência

O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, afirmou recentemente que, caso o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), decida concorrer à Presidência da República em 2026, a centro-direita deverá se unir em torno de sua candidatura, sem lançar outros nomes.

Kassab destacou que, caso contrário, a centro-direita poderá ter múltiplas candidaturas, como Ratinho Jr. (PSD), Ronaldo Caiado (União Brasil), Romeu Zema (Novo), entre outros. Tarcísio tem reiterado que pretende buscar a reeleição ao governo de SP e que apoia Jair Bolsonaro, inelegível até 2030, para a Presidência.

Em relação ao cenário eleitoral de 2026, Kassab acredita que o presidente Lula continuará sendo um candidato competitivo, apesar de enfrentar muitas frentes de desgastes. O dirigente vê uma eleição menos polarizada do que a de 2022, dando chance para o surgimento de candidatos de centro.

"Supercaciques" têm perfis distintos, mas a mesma missão de fortalecer suas siglas

Empresário e político paulista, Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, é destaque na articulação da direita no Brasil. Deputado por vários mandatos, esteve envolvido no escândalo do mensalão. Após a filiação de Bolsonaro em 2021, sua legenda se tornou a maior bancada da Câmara naquele momento.

De perfil discreto, o advogado pernambucano Antônio Rueda, presidente do União Brasil, atuou como articulador jurídico do processo de criação da legenda resultante da fusão entre DEM e PSL. Assumiu a liderança partidária com o desafio de equilibrar as alas ideológicas divergentes.

Senador pelo Piauí e presidente do PP, Ciro Nogueira é um dos maiores expoentes do Centrão. Ex-ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro, já foi aliado dos governos petistas e é conhecido pelo pragmatismo na costura de alianças. Sob sua liderança, o PP ampliou a influência nacional e regional.

Deputada por São Paulo, Renata Abreu, presidente do Podemos, é a protagonista da fusão com o PSDB, devendo sair como presidente da nova legenda. Herdeira política do pai, José Masci de Abreu, ex-deputado e fundador do partido (então PTN), é conhecida por seu estilo conciliador.

Ex-prefeito de São Paulo, ex-ministro das Cidades e secretário do governo paulista, Gilberto Kassab é conhecido como hábil articulador. Criou o PSD a partir de dissidentes de outras legendas e consolidou um influente centro pragmático. Seu partido está em governos de esquerda e de direita.

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quinta-feira, 8 de maio de 2025

Lula celebrará 80 anos da vitória da Europa na Segunda Guerra com Putin e outros ditadores na Rússia - Carinne Souza (Gazeta do Povo)

Viagem à Rússia

Lula celebrará 80 anos da vitória da Europa na Segunda Guerra com Putin e outros ditadores na Rússia

Por Carinne Souza

Gazeta do Povo, 08/05/2025 

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/lula-celebrara-80-anos-da-vitoria-da-europa-na-segunda-guerra-com-putin-e-outros-ditadores-na-russia/

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu prestigiar as celebrações dos 80 anos da vitória aliada na Segunda Guerra nesta sexta-feira (9), na Rússia, ao lado de ditadores e autocratas como Vladimir Putin (Rússia), Xi Jinping (China), Miguel Diaz-Canel (Cuba) e Nicolás Maduro (Venezuela). A decisão de celebrar a data em Moscou ignora os eventos realizados em democracias liberais, que comemoram o Dia da Vitória na Europa nesta quinta-feira (8). Para analistas, a escolha é mais um gesto político de aproximação do petista a Putin no contexto da invasão russa à Ucrânia.

A Rússia chama a Segunda Guerra de Grande Guerra Patriótica e celebra o fim dos confrontos no dia 9 de maio, quando tropas nazistas se renderam aos soviéticos em Berlim. A tradição de realizar grandes paradas militares como demonstração de força militar foi resgatada por Putin no ano de 2008, quando ele começou a anunciar que a Rússia criaria mísseis hipersônicos e novos tipos de armas nucleares.

Reino Unido, França, Áustria, Bélgica, Polônia e outros países europeus celebram o Dia da Vitória na Europa em 8 de maio, data que marca o anúncio na imprensa mundial da rendição incondicional do exército alemão ao general aliado Dwight Eisenhower na catedral de Reims, na França – evento que havia ocorrido um dia antes, em 7 de maio.

Os Estados Unidos também comemoram a data em 8 de maio, mas ela tem uma importância relativamente menor para o país, já que o conflito continuou no Pacífico até setembro. Em anúncio feito nas redes sociais, o presidente Donald Trump afirmou que daria à data o nome de "Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial", mas a medida ainda não foi concretizada pela Casa Branca.

A celebração russa em uma data diferente dos demais países, explicam os analistas consultados pela reportagem, é vista como uma manobra para fazer a população crer incorretamente que a vitória contra a Alemanha nazista de Adolf Hitler foi só ou principalmente devido à atuação da União Soviética.

Visita de Lula a Moscou para o Dia da Vitória tem peso político pejorativo

Analistas avaliam com preocupação a decisão de Lula em celebrar a data em Moscou, isso porque o encontro do petista com Putin pode chancelar a percepção de que o mandatário brasileiro tem um "lado" na guerra na Ucrânia. Soma-se a isso ainda o viés político que o ditador russo tem dado ao dia 9 de Maio.

O Brasil não tem tradição em comemorar o Dia da Vitória na Europa. As principais celebrações são homenagens aos Pracinhas (combatentes brasileiros da Segunda Guerra) realizadas na manhã desta quinta-feira (8) em diversas unidades do Exército. Um dos maiores atos é organizado pelo Comando Militar do Sudeste, na Praça Heróis da FEB, em São Paulo. Ele terá a presença de diplomatas europeus que se mobilizaram para dar um recado implícito de desaprovação ao gesto de Lula ir à Rússia. Confirmaram presença diplomatas do Reino Unido, Ucrânia, Bélgica e da representação da União Europeia no Brasil.


Na Rússia, o Dia da Vitória é usado para engajar o espírito nacionalista entre a população russa, mas nos últimos anos, Putin tem utilizado a data para justificar a invasão que fez à Ucrânia em fevereiro de 2022. Neste ano, além de Lula, o ditador russo convidou diversos aliados para participar do evento, em uma tentativa de mostrar força política em um momento que tem sido pressionado pelo fim da guerra no território ucraniano.

"Esse é um evento carregado de muito simbolismo, onde o Kremlin procura fazer prosperar a sua narrativa. É uma parada militar que serve para poder mostrar poder, capacidade e disposição para o conflito por parte do país invasor na guerra da Ucrânia", avalia o professor Elton Gomes, do departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

Na avaliação do diplomata e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, a viagem de Lula é inconveniente e pode trazer prejuízos para a diplomacia brasileira no atual contexto geopolítico. "É sinal de uma visão ideológica anacrônica do sistema internacional própria da esquerda envelhecida e desatualizada. Compromete a isenção que a política exterior brasileira deveria manter ao se inclinar em favor da Rússia e da China", avalia.

"Se trata de uma viagem altamente inoportuna e inconveniente pois só pode ser interpretada como apoio implícito a um ditador que é o responsável pela mais grave violação dos princípios da Carta da ONU e do Direito Internacional: a agressão contra a Ucrânia. Em plena guerra da Ucrânia, a visita prestigia um regime alvo de condenações da Assembleia Geral da ONU e de sanções internacionais", pontua Ricupero.

Ricupero, que também foi embaixador do Brasil em Londres e em Washington, aponta ainda para uma certa incoerência de Lula ao participar do evento. Isso porque a agressão russa contra a Ucrânia realizada em fevereiro de 2022 "reintroduziu a guerra no continente europeu 80 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial".

Lula deve ficar cerca de três dias na Rússia, onde também terá uma reunião bilateral com Vladimir Putin. O encontro com o ditador, conforme informou o embaixador e secretário de Ásia e Pacífico do Itamaraty, Eduardo Saboia, será para tratar assuntos políticos e de interesse dos dois líderes, descartando a possibilidade de temas da agenda bilateral ou dos Brics serem o alvo da reunião.

Além das celebrações do Dia da Vitória, o governo brasileiro pretende assinar acordos de parceria estratégica com a Rússia. A comitiva do mandatário brasileiro conta com o chanceler Mauro Vieira, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e a ministra de Ciências e Tecnologia, Luciana Santos. O ex-chanceler e assessor para assuntos especiais da presidência, Celso Amorim, também acompanha a viagem.

A primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, Janja, também acompanha Lula em seus compromissos em Moscou. Janja chegou à Rússia antes do petista e cumpriu uma agenda exclusiva no país, com visitas a faculdades, museus e encontros com brasileiros que residem em território russo. De Moscou, Lula segue para a China, onde participa do Fórum Celac-China e assina novos acordos com o governo chinês.

Viagem para a Rússia chancela “lado” de Lula na guerra da Ucrânia, dizem analistas 

Para analistas consultados pela Gazeta do Povo, Lula passa uma mensagem equivocada ao se reunir com Putin na Rússia. "Do ponto de vista da imagem do Brasil no exterior, é ruim, porque o Brasil, por ter uma diplomacia muito pragmática e calcada em questões muito objetivas de comércio exterior, procura evitar dar demonstrações ou sinalizações de que teria adesão a qualquer um dos lados e seja qual for a disputa", avalia Elton Gomes sobre a viagem de Lula a Moscou.

Desde que retornou ao Planalto para seu terceiro mandato, o petista tem feito declarações sobre seu desejo de intermediar o conflito e encontrar uma solução pacífica para a guerra. O Brasil chegou a apoiar, ao lado da China, um plano em seis pontos para promover um cessar-fogo no território ucraniano. Apesar das iniciativas, Lula adotou discursos que vão na contramão do Ocidente e que foram vistos como acenos a Putin.

Até então, o mandatário brasileiro e seus aliados vinham defendendo que sua postura deveria ser interpretada como equilibrada, já que Lula mantinha diálogos com as duas partes da guerra. Por outro lado, analistas chamam atenção para evidências do contrário. Além de evitar condenações à Rússia, Lula recusou encontros com Zelensky.

Apesar dos esforços ucranianos para uma aproximação com Lula, o mandatário brasileiro vinha mantendo contatos frequentes com Vladimir Putin. No ano passado, o petista foi um dos confirmados para a Cúpula de Líderes dos Brics que a Rússia sediou em Kazan – o encontro só não ocorreu porque Lula sofreu um acidente às vésperas da viagem e ficou impossibilitado de realizar viagens aéreas.

O petista também chegou a afirmar que não via problema em Vladimir Putin participar presencialmente da Cúpula do G20, que o Brasil sediou no Rio de Janeiro no ano passado. “Se eu for presidente do Brasil, e se ele [Putin] vier para o Brasil, não tem como ele ser preso. Não, ele não será preso. Ninguém vai desrespeitar o Brasil”, disse Lula.

Putin é alvo de um mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra após ser considerado responsável pela deportação de ao menos 19 mil crianças ucranianas que viviam em territórios atualmente ocupados pela Rússia. O Brasil como signatário do Tratado de Roma, deve cumprir a prisão do ditador russo caso ele pise em território brasileiro.

Isso não impediu, no entanto, o Brasil de tentar aprovar, junto às Nações Unidas, uma regra de imunidade para chefes de Estado de países não signatários do Estatuto – como é o caso da Rússia, por exemplo. Para os analistas, todos esses fatos são precedentes da viagem de Lula para a Moscou, além de corroborarem para o afastamento da neutralidade da diplomacia brasileira na primeira guerra continental em solo Europeu em 80 anos.

"Na prática, o Lula apoiou a Rússia em todos os momentos, não militarmente, mas politicamente, diplomaticamente e economicamente de forma expressa. Houve um aumento exponencial das importações brasileiras de combustíveis e de fertilizantes russos, ou seja, são bilhões de dólares que ajudaram a chamada "Operação Militar Especial da Rússia na Ucrânia", como Putin chama a guerra", analisa o diplomata aposentado Paulo Roberto de Almeida.

Além disso, Lula barrou uma compra bilionária de centenas de blindados ambulância que seria produzidos pela Iveco no Brasil e enviados à Ucrânia.

Simpatia pela Rússia trouxe prejuízos para relação do Brasil com a Ucrânia

Esta é a primeira visita de Lula à Rússia neste mandato. A viagem havia sido anunciada ainda em janeiro, quando o petista foi convidado por Vladimir Putin para participar das celebrações do dia 9 de maio por meio de um telefonema. Ainda na ocasião, Lula afirmou sobre o interesse de realizar uma visita de Estado à Rússia.


O anúncio do mandatário brasileiro, contudo, causou incômodo no governo ucraniano. O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, já havia feito diversas tentativas de estreitar o relacionamento com Lula, incluindo convites formais para que o petista visitasse Kyiv. Mas nunca houve um retorno positivo do governo brasileiro, fosse para uma visita de Lula à Ucrânia ou uma viagem de Zelensky ao Brasil.



Zelensky também expressou publicamente o desejo de contar com o apoio diplomático do Brasil para promover um diálogo internacional sobre a paz, e já buscou reuniões bilaterais com Lula em encontros internacionais – alguns dos quais acabaram não se concretizando. As tentativas frustradas se somaram ainda a declarações desastrosas de Lula sobre a guerra, como a relativização de culpa entre Rússia e Ucrânia pelo conflito.  


Na avaliação do diplomata e professor Paulo Roberto de Almeida, as negativas de Lula em se reunir com Zelensky, além de suas declarações sobre o conflito, podem ser interpretados como sinais implícitos de apoio a Putin. As afirmações do petista foram alvos de críticas de Zelensky e dos aliados da Ucrânia na guerra, o que deteriorou a relação entre os dois países.

Após o anúncio da viagem para a Rússia, o relacionamento entre os dois países passou por uma nova degradação. Durante passagem de Lula pela Ásia no mês de março, o petista anunciou que teria uma conversa por telefone com presidente ucraniano para discutir o plano de paz sino-brasileiro para um cessar-fogo na Ucrânia.  

A ligação, porém, não ocorreu após uma recusa de Zelensky, em sinal de descontentamento com a decisão do mandatário brasileiro visitar a Rússia. A decisão de Lula de visitar o país invasor sem previsão de uma viagem à Ucrânia, país que foi invadido pela Rússia, foi vista com preocupação por autoridades ucranianas, que temem um desequilíbrio na postura brasileira em relação ao conflito em curso no Leste Europeu.

Na última semana, o embaixador da Ucrânia no Brasil, Andrii Melnyk, se reuniu com o vice-presidente, Geraldo Alckmin, e fez críticas sobre visita de Lula a Moscou. Melnyk sugeriu que Lula poderia aproveitar a viagem à Rússia, na próxima semana, para ir antes a Kiev. O embaixador afirmou que Zelensky ainda "está esperando" por Lula.

"A ideia principal também nesta reunião foi confirmar, da nossa parte, o convite do meu presidente Volodymyr Zelensky, do meu governo, mas também do povo ucraniano, ao presidente Lula e pessoalmente ao vice-presidente Alckmin para [Lula] aproveitar esta oportunidade histórica e visitar Kiev o mais breve possível", disse o embaixador. 

Ainda em sinal do descontentamento com a gestão Lula, Kyiv avalia deixar o Brasil sem um embaixador. Conforme havia adiantado a Gazeta do Povo, a embaixada da Ucrânia em Brasília não deve ter um novo responsável pela representação até o ano que vem. Andrii Melnyk deixou o posto no início deste mês de maio para assumir a representação do país nas Nações Unidas. Até lá, um encarregado de negócios responderá pela embaixada ucraniana.

A saída de um embaixador sem um novo para substituí-lo não é bem-vista no meio diplomático. Deixar as relações entre dois países sob a responsabilidade de um encarregado é sinal de rebaixamento na relação bilateral, indicando descontentamento, esfriamento político ou desacordo significativo entre os países envolvidos.

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