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sábado, 4 de abril de 2026

Como era bizarro o bolsonarismo diplomático: entrevista com o jornalista Gustavo Nogy (Gazeta do Povo) - Paulo Roberto de Almeida

Saudades daqueles tempos? Certamente não, mas cabe sempre recordar para que o Brasil não venha a cair novamente nessa trampa. Reproduzo abaixo uma entrevista dos anos sombrios da diplomacia brasileira: 

sábado, 11 de abril de 2020

A diplomacia brasileira em tempos de olavo-bolsonarismo: um ponto fora da curva: Entrevista com o diplomata Paulo Roberto de Almeida - Gustavo Nogy (Gazeta do Povo)

[A diplomacia brasileira em tempos de olavo-bolsonarismo: um ponto fora da curva]
Entrevista com o diplomata Paulo Roberto de Almeida

Gazeta do Povo, 11/04/2020


Por Gustavo Nogy
·        [11/04/2020] [15:44]

Sede das Nações Unidas em Nova Iorque Foto ONU Manuel Elias

Paulo Roberto de Almeida é diplomata de carreira, historiador das relações internacionais e estudioso da economia política, além de escritor e organizador de diversos livros. Graduou-se em Ciências Sociais, fez Mestrado em Planejamento Econômico na Universidade de Antuérpia e Doutorado em Ciências Sociais na Université Libre de Bruxelles. Publicou dezenas de livros, muitos dos quais podem ser encontrados para compra nas livrarias virtuais ou baixados gratuitamente de seu blog pessoal, Diplomatizzando.

1 Primeiro, as apresentações: poderia falar sobre sua trajetória intelectual e no Itamaraty?
Sem qualquer intenção de parecer diferente ou melhor do que os colegas, devo começar por dizer que minha postura e minha trajetória na carreira diplomática são, efetivamente, originais, talvez únicas, no Itamaraty, e cabe, portanto, começar pela formação e perfil de vida para ressaltar minha distinção vis-à-vis o diplomata mediano. Venho de uma família muito modesta, de pais sem formação primária completa, sem livros no lar de origem, mas beneficiado por uma biblioteca pública infantil nos arredores da casa, o que determinou de forma decisiva minha trajetória intelectual pelo resto da vida. Politizado precocemente em função do golpe militar de 1964, passei a cumprir uma trajetória típica de jovem de esquerda de meados dos anos 1960: protestos contra o governo militar, estudos de ciências sociais e alinhamento com os movimentos de resistência à ditadura, antes de decidir sair do país por absoluta inocuidade daquela forma de oposição.
Os sete anos de autoexílio na Europa, entre 1970 e 1977, confirmaram a vocação intelectual no trabalho acadêmico, com um grande conhecimento e experiência adquiridos em viagens, leituras e atenta observação do mundo real, praticamente todos os socialismos realmente existentes, e capitalismos centrais e periféricos. A volta ao Brasil se deu pela vertente acadêmica, mas rapidamente alterada pelo ingresso na diplomacia, mais pela curiosidade da profissão do que por uma verdadeira vocação de ser um servidor do Estado. O que posso dizer é que nunca cultivei e sequer me dobrei àquilo que diplomatas seniores não cansam de repetir como sendo os dois princípios básicos da diplomacia, em similitude com o que ocorre nas FFAA: hierarquia e disciplina. Nunca deixei de exercer minha própria capacidade de arbítrio individual, como de seguir meu próprio julgamento – sempre embasado em sério estudo das questões – na avaliação de políticas públicas e nas posturas assumidas pelo Brasil no plano internacional. Com isso, posso ter confrontado mais de um chefe ocasional, ao valorizar mais a autoridade do argumento do que o argumento da autoridade, talvez em função de minha predisposição a me guiar bem mais pelo ceticismo sadio do que pela adesão irrestrita a quaisquer dogmas de uma Casa estilo Vaticano.
Minha carreira se desenvolveu normalmente, sem que eu jamais tivesse de pedir favores aos superiores para promoção, remoção ou cargos: apenas dedicação ao trabalho. Meu primeiro “memorandum” lido na Casa foi a respeito da escolha de Karol Wojtilla como novo papa, e o papel da Igreja na Polônia e no socialismo em geral. Depois tive alguns livros e ensaios parcialmente censurados pelas chefias, o que fez com que, a partir de conselheiro, eu decidisse não mais submeter meus textos para autorização institucional antes de publicar. Mas evitei muitas críticas à política externa oficial, até que os companheiros me vetassem para dirigir o mestrado em diplomacia do Instituto Rio Branco, logo no início de 2003, o que me levou a permanecer toda a longa duração do regime lulopetista sem qualquer cargo na Secretaria de Estado das Relações Exteriores. Aproveitei os anos de lazer involuntário passados na biblioteca do Itamaraty para escrever livros, fazer pesquisas, dedicar-me a meus afazeres intelectuais nunca interrompidos: tenho de ser grato aos meus algozes pelo limbo.
Só fui chamado a trabalhar – não na SERE, mas no IPRI – com o impeachment de 2016, e tive dois anos de intensas atividades e publicações claramente refletidas em meu relatório de gestão (feito ao final de 2018, pois já antecipava o desfecho, tendo observado o que se passou na campanha); ele pode ser lido nesta postagem da plataforma Research Gate. Uma breve síntese sobre minha trajetória de carreira desde 2003 figura em duas cronologias que ofereci no blog Diplomatizzando (aqui e aqui). Creio que isto já atende ao pedido de informações sobre minha trajetória no Itamaraty.

2 O Brasil passa por um momento curioso: um governo com plataforma econômica liberal que detesta o liberalismo. Como o senhor, que é estudioso de economia e leitor atento da obra de Roberto Campos – além de organizador de livros sobre ele – vê o atual governo?
O atual governo é um animal estranho, uma espécie de ornitorrinco brasileiro, só surgido em virtude das circunstâncias excepcionais criadas pela trajetória julgada gloriosa do lulopetismo – crescimento econômico, distribuição social, projeção internacional etc. –, mas, a partir de certo momento (2013 em diante), avaliado como corrupto e incompetente pela classe-média, que é quem determina grandes mudanças políticas e eleitorais no país (como aliás em quaisquer outros países). A atmosfera otimista cercando o partido e seus principais protagonistas veio abaixo sob os golpes combinados da recessão econômica e da luta contra a gigantesca corrupção empreendida por eles. A partir daí, infelizmente, tivemos a trajetória de ascensão de uma direita conservadora, mas sem qualquer doutrina, sem ideias claras de governança, movimento lamentavelmente simbolizado por um dos piores representantes do chamado baixo-clero do sistema político brasileiro, um outcast do estamento militar, sem qualquer capacidade de governança, menos ainda de liderança.
O atual governo representa uma assemblage daquilo que emergiu na fase de “resistível ascensão” do nosso “Arturo Ui”, um personagem medíocre, mas que teve a agregação em torno de si de tudo o que possa haver de “bom, de mau e de feio” na política e na economia brasileira. A rejeição absoluta dos eleitores ao lulopetismo corrupto e inepto entregou a sociedade a uma outra coalizão de corruptos e ineptos – de certo modo também alucinados, pelas outras vertentes a ela agregados –, mas que conseguiu cooptar elementos razoáveis das elites, do estamento burocrático, dos meios políticos. O governo é esse animal estranho, que pode ter os seus burocratas competentes, certos técnicos de nível, nos quais se incluem alguns elementos militares, mas também representantes alucinados desse amálgama que se convencionou chamar de olavo-bolsonarismo, mas que não corresponde a nenhum pensamento claramente formulado, apenas aos instintos mais primitivos que possam existir.
Eu não considero sequer que o governo tenha uma “plataforma econômica liberal”, mas “que detesta o liberalismo”, pois este aspecto foi apenas um subterfúgio ocasional usado pelo capitão – orientado por políticos hábeis – para conquistar poderosos apoios – e que serve de resguardo para ingênuos ou oportunistas. O fato é que o governo, pela absoluta falta de concepções sobre qualquer coisa do dirigente máximo – a não ser o instinto primitivo do capitão, impulsionado por filhos ambiciosos –, é uma nau sem rumo, que ora voga para algumas reformas possíveis, impulsionadas pela ala dita “racional”, mas que bem mais frequentemente tende a singrar sem rumo num mar encapelado. Não se poderá esperar nada de muito diferente nos meses, e talvez anos, à frente, infelizmente para o país desgovernado.

3 Aproveitando que falamos de Roberto Campos, uma pergunta necessária: existe uma tradição consistente de ideias liberais no país? Quem são, o que fizeram, nossos grandes liberais? E em que eles são diferentes daqueles que se pretendem anunciadores de novidades velhas? Porque Campos e Merquior, por exemplo, já liam e divulgavam Mises e Hayek há tempos...
Não creio que exista, no Brasil, uma “tradição liberal”, pois isso significaria a existência de uma corrente, uma escola, uma tendência, movimentos, partidos agregados em torno de doutrinas, ideias, propostas liberais, e não consigo detectar nada semelhante em toda a nossa história. O que temos, de tempos em tempos, são expoentes que não sei se poderiam ser chamados de liberais, pois sua formação, sua atuação social, sua influência pública são no mais das vezes ocasionais, intercaladas, aos repentes de certos momentos ou de algumas lideranças identificadas com essas ideias, mas que agem mais por pragmatismo, ou em reação a trajetórias problemáticas, que adotam “algumas” (não todas) soluções mais ou menos liberais em função de necessidades urgentes ou de ensaios de curta duração nessa linha. Se juntássemos todos os liberais do Brasil veríamos que geralmente foram trabalhadores do mundo acadêmico, pensadores independentes, absolutamente únicos em seus respectivos meios acadêmicos ou governamentais. O nacionalismo instintivo, o protecionismo recorrente e o patrimonialismo explícito e implícito têm sido as características mais frequentes de nossa governança e do “pensamento” acadêmico.
É uma ironia da nossa trajetória nacional que as propostas consistentemente liberais tenham sido recorrentemente derrotadas pelas coalizões de escravistas, de industriais liztianos e por militares nacionalistas ao extremo. É também uma ironia que as poucas fases de ação mais ou menos tendentes a um horizonte liberal tenham sido feitas em reação aos desastres criados pela trajetória errática da maior parte dos governantes. É outra ironia o fato de que os poucos liberais que tenhamos tido em nossa história tenham atuado a contrario sensu do que se poderia esperar – e permito-me aqui citar alguns exemplos históricos.
Bonifácio construindo um governo forte para evitar o fantasma da desagregação nacional; Mauá tendo de fazer apelo a concessões do Estado para sustentar seus negócios privados; Campos Salles e Murtinho tendo de aumentar a proteção para resolver urgentes problemas fiscais e de endividamento; Oswaldo Aranha condescendendo com o autoritarismo de Vargas na falta de qualquer alternativa de governança; Gudin tentando colaborar com políticos antivarguistas para impulsionar políticas que nenhum deles, de fato, queria defender; Otavio Gouvêa de Bulhões e Roberto Campos construindo as bases do Estado todo-poderoso ao pretender reformar o Brasil e eliminar todas as mazelas existentes; Collor (um despreparado) tentando abrir o Brasil a golpes de martelo; FHC (que não era liberal) tendo de compor com a direita reacionária, pois a esquerda sectária recusou qualquer proposta reformista socialdemocrata; e agora um inepto, um destrambelhado, um alucinado capitão sabotando o trabalho dos poucos tecnocratas liberais existentes no seu governo.
É também evidente que o liberalismo não se sustentará, no Brasil, apenas pelo movimento das ideias, pelo número de professores (ou até políticos) que citam Mises e Hayek, ou quaisquer outros doutrinários liberais. Se o liberalismo não possuir uma conexão firme com a governança prática, com o oferecimento de soluções aos problemas reais do Brasil, com vida dos cidadãos, ele não terá muita chance de prosperar no Brasil.

4 Apesar de todo o justificado pesar com a condução da política externa no atual governo, o PT não era lá flor que se cheirasse no cenário das relações internacionais. Tinha, digamos, amigos bastante suspeitos. Como o senhor analisa aquele período, agora em perspectiva?
Creio poder dizer que sou mestre nesse tipo de análise, e talvez seja por isso que fui rejeitado pelo lulopetismo em geral, e pelo lulopetismo diplomático em especial. Muitos anos antes que se começasse a imaginar que os petistas pudessem chegar ao poder – embora todos os “progressistas” no Brasil, como entre os italianos nos tempos do PCI eurocomunista, desejassem a chegada da esquerda ao governo, pela suposta mensagem ética, contra a politicalha corrupta –, eu já escrevia sobre partidos políticos e política externa, e já identificava no PT um típico partido esquerdista latino-americano, com seus cacoetes e equívocos econômicos e diplomáticos. Pior: como antigo “aprendiz” dos movimentos de resistência à ditadura, sabia do que eram feitos os antigos guerrilheiros que se reciclaram na luta política e que se tornaram os “neobolcheviques” que passaram a controlar o partido, ao lado dos sindicalistas mafiosos, na irresistível ascensão do partido ao poder. Sabia que o apoio castrista ao partido desde o início, a existência de aparelhos clandestinos dentro do partido, nos levaria a um outro tipo de Nomenklatura, a uma cleptocracia improvisada, e desorganizada, mas gramscianamente capaz de controlar os “aparelhos do Estado”, e assim monopolizar o poder durante bastante tempo (e quase o conseguiram, não fossem por esses acidentes de percurso que sempre ocorrem, delatores e incompetentes que atrapalham).
Fui isolado desde o início, pois os companheiros – inclusive dentro do Itamaraty – sabiam disso, o que eu poderia fazer para desacreditá-los, por isso me colocaram no limbo. Foi bom para escrever, mas minha carreira ficou irremediavelmente destruída; não que isso me causasse qualquer depressão, mas fiquei isolado no meu blog, o quilombo de resistência intelectual de onde eu disparava petardos contra a política externa oficial. Resumi o essencial de minhas críticas no livro Nunca Antes na Diplomacia (2014), depois complementado pelo Contra a Corrente (2019), onde estão minhas análises mais consistentes sobre o lulopetismo diplomático. A editora quis fazer uma segunda edição do Nunca Antes, a que me opus, por achar que agora, sim, chegamos a um “nunca antes” jamais ultrapassado em nossa história diplomática, por razões que não posso expor detidamente neste espaço. Caberia, talvez, um novo livro, sobre os desvios de governança e de política externa desde o início do século.
Se me permito uma simples imagem gráfica sobre o que significa o “antigo regime” lulopetista comparativamente ao “novo regime” bolsonarista, em matéria de política externa e de diplomacia, poderíamos dizer o seguinte: partindo de uma dessas “pizzas” de economistas, que sinalizam o peso relativo das diferentes porções de um todo (o “bolo” completo), pode-se dizer que na pizza diplomática do lulopetismo diplomático apenas uma, ou no máximo duas fatias correspondiam às ações “cubano-bolivarianas” do assessor presidência da área e seus aliados no partido e na diplomacia. Todo o resto era puro Itamaraty: multilateralismo, adesão ao Direito Internacional, nacionalismo grudado na pele, regionalismo e integracionismo, desenvolvimentismo cepaliano ou unctadiano, terceiro-mundismo onusiano, o tradicional antiamericanismo moderado, o progressismo nos temas politicamente corretos e o novo ambientalismo, que emergiu progressivamente, após o desenvolvimentismo exacerbado de sempre. O que temos agora, na EA – a Era dos Absurdos –, é um horrível molho olavista que se espalha e contamina toda a pizza, mesmo se não consegue impregnar a “massa” da diplomacia profissional, pois falhou em conquistar a adesão de pessoas sensatas, dentro ou fora do Itamaraty, salvo, obviamente, os fanáticos já devidamente identificados com a mais alucinante trajetória de nossa história diplomática.

5 O que pensa a respeito da diplomacia brasileira hoje, sob a influência de Olavo de Carvalho; o voluntarismo dos filhos presidenciais; a estreita (subserviente?) relação com os EUA; o aceno a conflitos que não são nossos, como a questão de Israel; e, em especial, o recente desconforto com a China?
Cabe começar por uma precisão: NÃO existe, atualmente, NENHUMA diplomacia digna desse nome, pelo simples fato de que não tivemos, nunca tivemos, desde o início e até agora, uma EXPOSIÇÃO clara, explícita, do que seria essa diplomacia, ou do que deve ser uma POLÍTICA EXTERNA para o Brasil. Isto por algumas razões muito simples: está claro que o capitão é um inepto total para formular e apresentar qualquer ideia coerente a esse respeito; seu guru expatriado também é um completo inepto nessas questões; o conselheiro internacional do PSL, guindado à condição de assessor presidencial, é um mero aprendiz, um fanático olavista, totalmente despreparado em questões diplomáticas. O único indivíduo que poderia formular algumas ideias em política externa e diplomacia, o chanceler acidental, é um completo boneco nas mãos (e nos pés) da Bolsofamília e, sobretudo, do Rasputin da Virgínia. Ele se revelou incapaz de expressar qualquer postura coerente na sua área, se contentando apenas em agradar e obedecer a seus amos, além de apresentar alguns traços pessoais de desequilíbrio emocional merecedores de registro. Ou seja, estamos atuando no vácuo absoluto, a não ser pelos poucos instintos primitivos dos antimarxistas no poder e por sua adesão sabuja e incompreensível (já que contrária aos seus próprios interesses no comando de um país com postura própria nas relações internacionais), não aos Estados Unidos em geral, mas à figura do Trump em particular, ademais dos arautos da nova direita que ascende em alguns países, os poucos parceiros da diplomacia atual.
Todas as escolhas, opções e orientações determinadas por esse bando de alucinados foram invariavelmente equivocadas e prejudiciais aos interesses nacionais, tanto é que foram sabotadas, contidas ou revertidas e amenizadas pelos indivíduos racionais do governo e pela pressão dos lobbies econômicos interessados mais em defender seus negócios do que as políticas ou doutrinas consistentes com aqueles objetivos. O fato é que vivemos, no Brasil dos Bolsonaros, um apagão da inteligência e uma destruição de qualquer base racional para uma política externa razoável, como já tive a oportunidade de expor em meu livro Miséria da diplomacia: a destruição da inteligência no Itamaraty(2019, livremente disponível no blog).
Mas esse livro ainda é uma crítica “intelectual” da esquizofrenia diplomática, e não uma exposição pragmática dos problemas por ela acarretados, o que talvez eu faça numa obra futura. Em síntese, existe, sim, uma influência nefasta do sofista expatriado sobre o que se poderia chamar de “diplomacia olavo-bolsonarista”, mas cabe registrar, mais uma vez, que não existe nenhuma coerência nos seus fundamentos e diretrizes de atuação, pois ninguém ali está em condições de fazê-lo, e o chanceler acidental treme de medo de expor qualquer ideia própria. Daí que esses “incidentes” criados erraticamente pelos bolsonaristas mais radicais sejam apenas a expressão da completa indigência de raciocínio desses elementos, pois não se lhes pode imputar nenhum conhecimento ou inteligência a respeito de questões internacionais.
Resumindo: não existe NENHUMA política externa atualmente no Brasil, e se formos admitir que existe alguma diplomacia – o que também é algo duvidoso, embora o Itamaraty não pode deixar de funcionar –, ela simplesmente representa um ponto fora da curva, de fato, algo JAMAIS visto em toda a nossa história bissecular. Vai ficar no registro histórico como o período mais sombrio da diplomacia profissional e o ponto mais baixo da credibilidade do Brasil no exterior, atualmente já rebaixada de forma indigna em função dos néscios, loucos e submissos que temos atuando em torno de ambas no momento.

6 Por fim: o senhor tem sofrido represálias do ministro Ernesto Araújo? De alguma maneira, sua atuação crítica lhe tem trazido prejuízo ou complicações?
Como, por espírito e vocação, eu sou o único “contrarianista de plantão” no Itamaraty – e isso desde sempre, daí a longa travessia do deserto que me foi imposta pelos lulopetistas –, era inevitável que eu fosse sancionado pela tribo de alucinados que se apossou do controle do Itamaraty. Registro que o chanceler acidental se situa apenas em terceiro ou quarto escalão da cadeia decisória naquele ministério, pois todas as ordens vêm de fora, e ele só requer submissão (pois sabe que nunca terá adesão) aos novos déspotas temporários. Eu já deveria ter sido expurgado desde o primeiro dia do governo, e só não o fizeram porque não tinham um substituto para o cargo; fui, contudo, proibido, desde o dia 2/01/2019, de empreender qualquer atividade, até a aprovação de nova chefia. Sempre soube que seria exonerado. Alguns colegas me diziam, em 2018, para requerer um posto no exterior, como fizeram vários outros, prevendo a tempestade. Não quis fazê-lo, pois nunca fui de pedir nada a ninguém. Na verdade, gosto do mundo das ideias e das leituras, de reflexão e de produção intelectual. Era o que pretendia fazer, até o chanceler ordenar “retaliação maciça”.
Com efeito, o chanceler e o seu chefe de gabinete deram ordens à administração para seguir escrupulosamente minha “catraca eletrônica”. Sem qualquer aviso prévio ou demanda de compensação, publicaram no Boletim de Serviço “faltas injustificadas” e “atrasos e saídas antecipadas”, para a partir daí passar a ordenar descontos punitivos no contracheque, assim como “reposição ao Erário” por “pagamentos a maior” por “horas não trabalhadas”. A ironia de toda essa história é que estou lotado, mas apenas formalmente, na Divisão do Arquivo – respondendo a um primeiro secretário, a quem tenho de pedir autorização para sair de férias ou qualquer outra providência administrativa; sem qualquer função precisa, as “horas não trabalhadas” seriam para ficar olhando as paredes oito horas por dia, cinco dias por semana.
Por todas essas razões, meu caso pode ser assimilado ao de K, no Processo de Franz Kafka, como sugeriu o embaixador Rubens Ricupero: deu o título ao meu artigo “Kafka no Itamaraty”. Como os descontos já foram feitos, e outros se prenunciam – sendo que a intenção real, do chanceler acidental e do chefe de gabinete, seria um processo administrativo para demissão sumária por “inassiduidade habitual” –, meu único recurso, na presente fase, foi o de abrir uma ação na Justiça para obstar às manobras intimidatórias e punitivas da dupla. Parafraseando o camponês da Prússia, acredito que ainda existam juízes em Brasília.


Gustavo Nogy
**Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



2 comentários:

Anônimo disse...


Como a história do Brasil pode ajudara a entender o atual contexto político do país.

Aula Ao Vivo com o Professor Marco Antônio Villa:

https://www.youtube.com/watch?v=0fnmNnN5gHo&feature=youtu.be

Programado para 22 de abril de 2020.

Anônimo disse...

Fico admirado com o espírito de independência que você tem, Paulo. De fato, são tempos de exceção; mas é inacreditável que tenhamos que nos submeter a indivíduos tão lunáticos e fora de órbita - somos mais fortes, eu não tenho dúvida. Nós temos a inteligência e a militância verdadeiramente democrática do nosso lado, o que explica vermos a destruição escancarada das instituições, entre elas o Itamaraty (o que diria, o que faria o Barão do Rio Branco?) ante nossa letargia? 

sábado, 24 de janeiro de 2026

A burocracia do favoritismo e o fim do mérito na diplomacia brasileira - Marcos Degaut Gazeta do Povo

 A burocracia do favoritismo e o fim do mérito na diplomacia brasileira

Marcos Degaut
Gazeta do Povo, 23/01/2026
Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores: gestão deixou o mérito de lado.

Poucas instituições no Estado brasileiro cultivam aura de excelência tão persistente quanto o Ministério das Relações Exteriores. Durante décadas, o Itamaraty construiu para si a imagem de corpo técnico sofisticado, profissionalizado e imune às deformações mais comuns da burocracia nacional. Contudo, essa autoimagem tem contrastado de forma crescente com a realidade de seu funcionamento interno, em especial no que diz respeito ao sistema de promoções na carreira diplomática, sintoma de um problema bem mais profundo.

Na primeira parte deste artigo, analisarei a dimensão pontual da recente manipulação do já disfuncionalíssimo sistema de promoções do MRE. Na segunda, tratarei da necessidade de reforma da carreira, de modo a incorporar avanços organizacionais que países desenvolvidos adotaram há décadas em seus serviços diplomáticos e, assim, permitir que o Itamaraty funcione como instituição de Estado, e não como o clube de amigos no qual foi convertido pelos governos lulopetistas.

O Decreto nº 12.815, de janeiro de 2026, que institui o novo Regulamento de Promoções do MRE, não representa uma ruptura com as distorções históricas da instituição. Ao contrário: ele as aprofunda, sistematiza, consolida e legitima, ao lhes conferir verniz normativo, incorporando agora, de forma explícita, elementos da agenda identitária contemporânea a um arcabouço já profundamente marcado pelo personalismo e pela discricionariedade política, práticas infensas à moralidade administrativa.

O problema não é apenas técnico e moral. É político, institucional e estratégico, e ajuda a explicar por que o Brasil perdeu densidade, previsibilidade e relevância no cenário internacional. Trata-se, em essência, do mecanismo que define quem decide, quem ascende, quem formula, quem executa e, sobretudo, quem permanece relevante na política externa brasileira. Alterar esse sistema não é um detalhe administrativo: é intervir diretamente no DNA da diplomacia do país e perpetuar um processo de deformação institucional.

Da meritocracia imperfeita ao arbítrio estruturado
A Lei nº 11.440, de 2006, aprovada sob a condução do então chanceler Celso Amorim ainda no primeiro governo Lula, alterou substancialmente a lógica tradicional da carreira. Até então, o sistema de promoções, embora longe de ser ideal, baseava-se em tripé relativamente claro: antiguidade, interstícios mínimos e avaliação de desempenho funcional. Havia espaço para subjetividade, favoritismos e injustiças – mas também havia certa previsibilidade de carreira e limites relativamente claros à intervenção política.

Ao deslocar o eixo das promoções de critérios predominantemente objetivos para um espaço mais amplo de avaliação subjetiva, a lei abriu margem para uma ampliação inédita de discricionariedade política. Sob o discurso de flexibilizar a carreira e valorizar o “mérito”, desloca-se o centro de gravidade das promoções para critérios amplos, vagos e essencialmente interpretáveis. O conceito de mérito deixa de ser predominantemente funcional e passa a ser político.

O Decreto nº 12.815 não apenas regulamenta essa lógica, mas a radicaliza. Redefine o próprio conceito de mérito, reorganiza os pesos do julgamento e introduz critérios que não encontram respaldo no texto legal. O que era ambíguo torna-se explícito. O que era informal torna-se norma. O que dependia de relações pessoais passa a operar por meio de procedimentos aparentemente técnicos, mas controlados politicamente do início ao fim.

A Lei 11.440 fala em mérito funcional, pressupõe avaliação impessoal e não menciona identidade, representatividade ou correções estatísticas. O decreto, por sua vez, reinterpreta o mérito à luz de uma agenda política específica, transformando o processo de promoção em instrumento de política interna e reescrevendo a lei por via infralegal.

O mito da objetividade: planilhas a serviço do arbítrio
O novo sistema é apresentado como moderno e técnico. Metade da nota final decorre de pontuação funcional; a outra metade provém de avaliações da Câmara de Avaliação (20%) e da Comissão de Promoções (30%). A aparência de objetividade, no entanto, não resiste a uma análise mais atenta.

As instâncias responsáveis por 50% da pontuação subjetiva são compostas exclusivamente por ocupantes de cargos de confiança, assessores diretos do ministro e altos dirigentes politicamente escolhidos. O chanceler define as prioridades estratégicas, escolhe quem avalia, estabelece os parâmetros interpretativos e pode intervir diretamente no resultado final.

Como se mede, de forma objetiva, o “alinhamento estratégico” de um diplomata? Ora, a resposta não pode ser outra a não ser: pela proximidade com o comando político do momento

Em outras palavras, chamar esse arranjo de “avaliação colegiada” é mero exercício de retórica administrativa, pois o que existe de fato é verticalização do poder decisório – centralização hierárquica – com verniz procedimental travestido de governança.

A sofisticação do personalismo
As acusações históricas dirigidas ao Itamaraty – personalismo, favorecimento de grupos, proteção de castas familiares, punição silenciosa de dissidentes – nunca foram adequadamente enfrentadas. O novo regulamento tampouco o faz. Não houve redução da discricionariedade, e sim a complicação das etapas preliminares de avaliação que em nada vinculam a decisão sobre as promoções no contexto de uma definição objetiva de mérito.

Antes, a exclusão era tácita e pouco explicada. Agora, ela se reveste de linguagem tecnocrática e de jargão progressista: “alinhamento com prioridades estratégicas”, “geração de valor público”, “trabalho colaborativo”, “valorização da diversidade”. Conceitos amplos, vagos e essencialmente não verificáveis, que, ao invés de reduzir, ampliam o espaço para decisões arbitrárias, pois é flagrante a total ausência de definições operacionais.

Nesse contexto, como se mede, de forma objetiva, o “alinhamento estratégico” de um diplomata? Ora, a resposta não pode ser outra a não ser: pela proximidade com o comando político do momento.

O novo sistema não premia competência técnica isoladamente, nem capacidade analítica, nem produção intelectual relevante, nem experiência acumulada em áreas sensíveis. Ele premia comportamentos: adesão narrativa, prudência excessiva, autocensura, capacidade de ler o ambiente político interno. O diplomata deixa de perguntar “qual política é melhor para o Brasil?” e passa a perguntar “qual posição é mais segura para minha carreira?”.

Diversidade como engenharia de resultado
O ponto mais sensível, juridicamente frágil e institucionalmente mais corrosivo do novo Regulamento reside na introdução de mecanismos explícitos de correção identitária ex post, isto é, após a avaliação de desempenho e a atribuição de pontuações. Essa escolha altera a própria lógica do que significa ser promovido em uma carreira de Estado.

Em termos simples, o decreto permite que as listas finais de promoção não reflitam a ordem de classificação decorrente do desempenho, mas sejam ajustadas para atingir resultados considerados desejáveis sob o prisma identitário. Para isso, autoriza a inclusão de candidatos adicionais e a superação da ordem de pontuação, segundo parâmetros de “representatividade” definidos periodicamente pelo ministro.

Esse desenho institucional não corresponde ao que, tradicionalmente, se entende por ação afirmativa. Políticas afirmativas clássicas – legítimas ou não, conforme o debate – atuam no acesso (concurso), na formação ou na redução de desigualdades estruturais ao longo do percurso, criando condições para que todos disputem em bases mais equilibradas. Aqui, o mecanismo é outro: o critério não atua antes da corrida, mas no pódio.

A matriz intelectual desse modelo não é jurídica nem administrativa; é ideológica. Deriva de uma visão de mundo típica da agenda progressista identitária contemporânea, segundo a qual desigualdades de resultado são, por definição, prova de injustiça estrutural, e, portanto, devem ser corrigidas independentemente do percurso individual.

Transportada para uma carreira de Estado, essa lógica produz efeito profundamente desagregador. O desempenho concreto do servidor deixa de ser o elemento decisivo; passa a ser apenas uma variável entre outras, subordinada a um objetivo superior: ajustar a fotografia final.

Em termos práticos, isso significa que dois diplomatas podem ser avaliados de forma desigual não porque um serviu melhor ao interesse público, mas porque um deles se encaixa melhor em uma categoria estatística que a administração deseja expandir naquele momento. O mérito deixa de ser critério suficiente. Passa a ser condição necessária, mas não decisiva, e, em certos casos, sequer necessária.

Esse modelo afeta de modo particularmente severo o diplomata técnico, discreto, não militante e orientado por resultados concretos. A excelência silenciosa – aquela que se traduz em parâmetros definidos, análises sólidas, negociações bem conduzidas, conhecimento acumulado e defesa consistente do interesse nacional – torna-se invisível diante de critérios simbólicos e narrativos.

Mais grave ainda: o sistema cria incentivos perversos. Se o resultado final não depende prioritariamente do desempenho, mas de ajustes políticos e identitários, o racional passa a ser outro. O diplomata racional deixa de investir em excelência técnica e passa a investir em posicionamento, sinalização e alinhamento discursivo. O mérito funcional perde centralidade; a aderência ao espírito do tempo ganha valor. Assim, a neutralidade institucional, valor clássico do serviço público profissional, deixa de ser virtude e passa a ser risco.

Do ponto de vista jurídico-institucional, o problema é igualmente sério. O princípio constitucional da impessoalidade não exige apenas ausência de favoritismo individual; exige que critérios gerais sejam aplicados de forma previsível e verificável. Ao permitir correções discricionárias definidas semestralmente pelo ministro, o decreto amplia de maneira inédita o espaço para decisões personalizadas, ainda que justificadas por linguagem moralizante.

A agenda identitária, nesse arranjo, funciona como instrumento legitimador do arbítrio. Decisões que, em outro contexto, seriam percebidas como favoritismo ou intervenção indevida passam a ser apresentadas como “justiça social”, “inclusão” ou “correção histórica”. O conteúdo muda pouco; a narrativa muda muito.

Há ainda um efeito colateral raramente reconhecido: nem mesmo os grupos nominalmente beneficiados são fortalecidos por esse modelo. Ao promover pessoas com base em correções estatísticas, o sistema mina a legitimidade individual dos promovidos, que passam a carregar a suspeita de não terem ascendido por mérito próprio.

Em vez de inclusão real, produz-se instrumentalização simbólica. A diversidade deixa de ser consequência de um sistema justo e passa a ser objetivo administrativo a ser atingido, custe o que custar.

A “gabinetização” do Itamaraty
Ao concentrar poder decisório no topo da hierarquia, o decreto reforça um velho vício institucional: a corrida por cargos de gabinete. Por quê? Porque é ali que se constroem relações de confiança política; se ganha visibilidade junto aos avaliadores; se participa da definição das “prioridades estratégicas”.

As áreas finalísticas – divisões temáticas, departamentos técnicos, setores de análise – tornam-se periferia institucional. O trabalho substantivo da política externa passa a valer menos do que a proximidade com o centro decisório.

A criação de listas semestrais intensifica esse fenômeno, estimulando campanhas internas, intrigas e desperdício de capital humano altamente qualificado. O contribuinte financia um sistema em que diplomatas passam a dedicar tempo e energia a disputas internas de baixa relevância estratégica, em detrimento da formulação de políticas públicas. O resultado é um ministério cada vez mais cartorial, autorreferente e politizado internamente, mas paradoxalmente irrelevante externamente.

Seria um erro, contudo, atribuir ao Decreto nº 12.815 todos os males do Itamaraty. Ele é sintoma, não causa. Vítima de suas próprias fraquezas, vícios, tibieza, isolamento, comodismo e conformismo, o Itamaraty é o principal culpado pelo seu próprio esvaziamento. A instituição tem sido incapaz de se posicionar frente aos governantes e de identificar com precisão sua arena de atuação no cenário internacional, que possibilite ao Brasil detectar oportunidades para ampliar sua visibilidade e capacidade de diálogo nos grandes temas de interesse regional e mundial.

Para além da retórica oficial de reforma da governança global de alteração da geografia econômica do globo, a análise da atual política externa indica não haver identificação clara de nossos principais objetivos econômicos e políticos, tampouco a formulação de uma agenda internacional consistente e integrada. A diplomacia brasileira, que deveria traduzir nossos interesses na arena internacional, está completamente sem rumo e sem bússola.

Ao que tudo indica, pragmatismo e visão de longo prazo não mais fazem parte do repertório de nossa política externa, o qual manifesta acentuado empirismo e penosa carência de paradigmas. Adotamos apenas medidas tópicas e descoordenadas, sem perceber que um conjunto de ações dispersas não configura uma estratégia coerente. Inexistem indicadores para determinar metas, priorizar objetivos e avaliar resultados.

Isso é consequência não só de uma interpretação equivocada e ideológica da realidade internacional, mas também de uma clara inadequação institucional que fez o órgão parar no tempo. Seu desprestígio emana de sua estagnação.

Ao incorporar a agenda identitária progressista diretamente ao núcleo decisório das promoções, o MRE não se torna mais justo, moderno ou plural. Torna-se menos profissional, menos previsível e mais dependente do poder político. A promoção deixa de ser reconhecimento de excelência e passa a ser ferramenta de engenharia social e controle interno.

O mérito, que deveria ser o eixo estruturante de uma carreira de Estado, transforma-se em retórica residual – invocado nos discursos, relativizado na prática. E uma diplomacia que relativiza o mérito internamente dificilmente terá autoridade, consistência ou credibilidade para defender interesses nacionais em um sistema internacional cada vez mais competitivo e implacável.

Essas constatações não significam dizer que não existam funcionários qualificados e com vocação, o que seria uma injustiça e uma inverdade. Sim, existem. E muitos. Na maioria das vezes, entretanto, potencial e vocação são desperdiçados por uma estrutura burocrática que aprisiona, estimula o carreirismo e desincentiva o aperfeiçoamento buscado de forma individual, autônoma. Como antídoto e válvula de escape para a frustração profissional, muitos obtêm maiores êxitos se dedicando à literatura, à pintura ou a outras artes.

Somente uma profunda reforma estrutural, administrativa e de gestão de recursos humanos – só discernível em um futuro governo de corte conservador – pode salvaguardar a grandeza do Itamaraty. Seu reerguimento e valorização, com o consequente resgate da capacidade de formular uma agenda internacional pró-ativa e de articular uma grande estratégia coerente e integrada, por meio da qual possamos nos antecipar a novas circunstâncias e desafios, são fundamentais para assegurar a defesa do interesse nacional e auxiliar na missão de retomada do crescimento.

Como aduzi em artigo publicado nesta Gazeta em novembro de 2024, intitulado “Como salvar o Itamaraty das garras do lulopetismo”, os serviços diplomáticos das chancelarias mais eficientes do mundo não adotam modelo sequer vagamente próximo ao do Itamaraty, cujos competentes quadros, que perfazem um dos melhores capitais humanos disponíveis na administração pública brasileira, veem-se na contingência de se movimentar, internamente, em um ambiente de modus operandi mais similar ao de um clube de amigos que ao de uma burocracia estatal de inspiração weberiana, pois o modelo organizacional vigente é em si uma cadeia de incentivos à politicagem em detrimento do desempenho.

A defasada estrutura da carreira, contudo, serve perfeitamente ao propósito de ideologização do sistema de promoções e de remoções implementado pelas gestões lulopetistas. Como o processo de promoções não é público, não produz registros e não é informado por ferramentas formais de avaliação de desempenho, ele é um instrumento sob medida para a viabilização de favorecimentos de todo tipo, com ênfase naqueles que privilegiam laços pessoais e de afinidade ideológica.

Trata-se de uma estrutura fundamentalmente distinta de todas as demais carreiras de Estado civis, nas quais a progressão funcional ocorre com base no cumprimento de requisitos previstos em lei e regulamentados por outros atos normativos, e não a partir de preferências pessoais e de proximidade com o núcleo de poder institucional. A atual estrutura, ao não atender aos interesses nacionais e aos profissionais da ampla maioria dos diplomatas, prejudica a realização da missão constitucional do Itamaraty.

A essa luz, confio em que a reforma da carreira diplomática deverá perfazer prioridade administrativa de um futuro governo conservador cioso da importância de contar com um material humano motivado e prestigiado para a implementação de seu programa de política externa.

Sem essa reforma, continuaremos exercendo o papel de coadjuvante de luxo, aplaudindo as iniciativas de países mais arrojados, mas exercendo pouca ou nenhuma influência na elaboração das políticas globais. Que a desconstrução a que foi submetido o Itamaraty possa se converter em oportunidade para resgatar o orgulho e a dignidade da política externa brasileira.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Enquanto os EUA mudam de estratégia, a diplomacia do Brasil está presa nos anos 1990 - Marcos Degaut (Gazeta do Povo)

Enquanto os EUA mudam de estratégia, a diplomacia do Brasil está presa nos anos 1990

Lula recebeu Nicolás Maduro em 2023: diplomacia parada no tempo.
Lula recebeu Nicolás Maduro em 2023: diplomacia parada no tempo. (Foto: EFE/André Coelho)

Na primeira parte deste artigo, analisei os princípios que estruturam a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos: o abandono das ilusões hegemônicas do pós-Guerra Fria, a acomodação pragmática entre grandes potências, a revalorização do Hemisfério Ocidental e o retorno explícito à lógica do poder, da hierarquia e das escolhas duras.

 Essa reorientação estratégica dos EUA, que reposiciona a América Latina no centro do cálculo geopolítico de Washington, evidencia, por contraste brutal, o grau de desorientação da política externa brasileira sob o governo Lula, que se revela não apenas anacrônica, mas estruturalmente incapaz de operar em um sistema internacional que premia o planejamento e pune o improviso.

Em um sistema internacional que voltou a operar segundo lógica de poder, competição geoeconômica e hierarquias regionais claras, o Brasil insiste em uma diplomacia conceitualmente ultrapassada, operacionalmente frágil e estrategicamente subserviente. A diplomacia lulopetista é mero invólucro, pois não dispõe de uma política externa consubstanciada em uma grande estratégia, mas exclusivamente de uma práxis diplomática formal que consiste em slogans, maneirismos afetados e apego desorientado a representações abstratas de poder que encontram cada vez menos respaldo na realidade objetiva. Não se trata de erro pontual ou ruído tático, mas de incapacidade estrutural de formular interesses nacionais coerentes e de convertê-los em ação diplomática consistente.

Para compreender a gravidade desse descompasso, é preciso esclarecer o que está em jogo. Grande estratégia não é diplomacia cotidiana, nem soma de políticas setoriais, tampouco retórica diplomática ou ativismo internacional difuso. Trata-se do arcabouço intelectual e político que integra meios e fins do Estado, articulando poder militar, capacidade econômica, base produtiva, política externa, tecnologia e coesão interna em torno de interesses nacionais hierarquizados no longo prazo. É a arte de alinhar recursos limitados a objetivos essenciais em um ambiente de competição permanente – e, sobretudo, de fazer escolhas.

A grande estratégia existe para responder a perguntas basilares: o que é vital, o que é secundário e o que pode ser sacrificado. Ela define onde engajar, onde conter, onde acomodar, onde recuar, onde alocar recursos. Sem esse quadro, o Estado se torna refém de agendas dispersas, pressões circunstanciais e impulsos ideológicos. Não por acaso, potências que falham em sua formulação tendem a desperdiçar recursos, perder autonomia e reagir aos acontecimentos em vez de moldá-los. No caso do Brasil lulopetista, sobretudo no atual contexto de transformação das forças que regem a ordem internacional, a ausência de uma grande estratégia tende a aprofundar a irrelevância do País em temas geoeconômicos, tecnológicos e militares, sem prejuízo de outros.

Não há, no Brasil de Lula, um projeto que integre desenvolvimento, defesa, economia, segurança, indústria, comércio exterior e inserção internacional. O país opera por reflexos, slogans e improvisos, reagindo tardiamente aos movimentos alheios em vez de moldar o próprio entorno estratégico.

É exatamente essa lacuna que define a política externa brasileira atual. Enquanto Washington redefine prioridades, aceita limites e reorganiza sua projeção global com base em critérios objetivos de poder e risco, Brasília continua a agir como se o mundo ainda fosse regido pelo multilateralismo abstrato dos anos 1990. A diplomacia brasileira permanece ancorada em noções vagas de “multilateralismo”, “diálogo intercultural” e “Sul Global”, conceitos que não são traduzidos em interesses nacionais claramente definidos, nem em ganhos concretos de poder, influência ou segurança.

Os formuladores e executores da política externa não se deram conta de que a autonomia estratégica com a qual o Brasil – e, grosso modo, os demais países latino-americanos, conforme destaquei na primeira parte deste artigo – contou nos últimos 35 anos não existe mais. Ela decorreu, em ampla medida, do relativo desengajamento dos EUA do Hemisfério Ocidental entre o fim da Guerra Fria e o início do atual mandato de Trump, tendo sido pessimamente empregada por todos os governos de esquerda da região. Na ordem que ora se conforma, o custo de se opor aos interesses estratégicos americanos na região é brutalmente superior àquele das últimas três décadas.

A operação militar na Venezuela expõe essa nova realidade: à luz da NSS 2025, a captura de Maduro não deve ser vista, exclusivamente, sob a lente primária da mudança de regime, do combate ao tráfico internacional de drogas, do fortalecimento do controle migratório norte-americano, da defesa da democracia ou mesmo da custódia virtual de reservas petrolíferas correspondentes a 303 bilhões de barris, mas sim da perspectiva de que Caracas operava como um hub de interesses antagônicos aos de Washington na América Latina: uma plataforma operacional chinesa, russa e iraniana para a promoção multissetorial de ações e projetos que ameaçavam (e ameaçam) interesses que o governo dos EUA considera vitais. Não que, à queda de Maduro, faltem sucessores regionais que se proponham a dançar e proferir diatribes e ameaças aos EUA e seu governo, como atestam as recentes declarações dos presidentes colombiano Gustavo Petro e cubano Miguel Díaz-Canel. Creio não convenha especular se os mandatários são inconsequentes, loucos ou ambas as coisas.

A ausência de grande estratégia torna-se particularmente visível na América do Sul. O Brasil, historicamente o principal polo de gravidade regional, abdicou de exercer liderança estratégica, por temor ou simples incapacidade. Em vez de estruturar um espaço regional minimamente coeso – política, econômica e geopoliticamente – optou por uma diplomacia passiva, reativa e autocentrada. Sem objetivos claros, o país confunde peso econômico e demográfico com influência e militância ideológica com liderança. O resultado é um vácuo de poder ocupado por atores externos e por rearranjos regionais dos quais o Brasil participa apenas marginalmente.

O contraste com países vizinhos é eloquente. Enquanto governos sul-americanos, guinando para a direita, como exposto em artigo nesta Gazeta, reorganizam alianças, explicitam orientações programáticas e constroem coalizões políticas regionais com objetivos definidos, o Brasil se isola, preso a uma visão consensualista que já não encontra eco no continente. A integração regional, antes instrumento potencial de projeção estratégica, sobretudo no que diz respeito à sua vertente infraestrutural, foi reduzida a um ritual diplomático sem capacidade de coordenação real.

No novo contexto hemisférico, a postura brasileira é especialmente custosa. A estratégia americana não é neutra, tampouco inclusiva. Ela opera por alinhamentos seletivos, coerção econômica, pressão regulatória e demonstração de força militar. Países que não se posicionam claramente deixam de ser sujeitos da política regional e passam a ser tratados como objetos de gestão estratégica.

Washington concebe o hemisfério ocidental como área vital a ser protegida da presença estratégica de potências extra-hemisféricas. Infraestrutura, energia, logística, telecomunicações, minerais críticos e cadeias de suprimento passaram a ser tratados como ativos de segurança nacional. Essa lógica redefine as regras do jogo, especialmente para o Brasil. Ignorar essa mudança não preserva autonomia. Ao contrário, expõe o país à pressão externa sem instrumentos de barganha.

Essa deficiência estrutural também explica a relação desequilibrada do Brasil com a China. Sob Lula, Pequim deixou de ser apenas um parceiro comercial relevante e passou a ocupar posição central na inserção internacional brasileira, sem que isso tenha sido enquadrado por uma estratégia de balanceamento, atração de investimentos, transferência de tecnologia, diversificação ou proteção de interesses sensíveis.

Hoje, mais de 30% das exportações brasileiras têm como destino o mercado chinês, concentradas em commodities de baixo valor agregado. O Brasil importa, por sua vez, bens industriais, tecnologia e insumos estratégicos. Trata-se de uma relação estruturalmente assimétrica, na qual o país aceita passivamente uma dinâmica baseada na exportação de commodities e na dependência tecnológica, que cria e amplia vulnerabilidades, como a reprimarização da economia e a fragilização da base industrial.

Ao mesmo tempo, Pequim amplia sua presença no território brasileiro em setores estratégicos como energia, portos, ferrovias, telecomunicações e tecnologia digital. Do ponto de vista norte-americano, esses investimentos já não são vistos apenas como negócios, mas como vetores de influência geopolítica e vulnerabilidade estratégica. Essa percepção orienta políticas industriais, sanções, controles de exportação e pressão diplomática.

Ainda assim, o governo evita qualquer política de diversificação séria, proteção de setores sensíveis ou condicionamento estratégico da relação bilateral. Não há balanceamento, não há linhas vermelhas, não há estratégia, apenas acomodação. Age como se a geopolítica fosse um ruído externo irrelevante, quando, na realidade, ela já molda decisões comerciais, financeiras e tecnológicas em escala global.

Essa ambiguidade não produz autonomia. Produz vulnerabilidade. Uma grande estratégia teria imposto limites, definido setores críticos, protegido capacidades nacionais e condicionado a cooperação econômica a objetivos políticos, comerciais, tecnológicos e industriais claros. Nada disso ocorreu.

Em vez disso, o Brasil naturalizou uma relação assimétrica, evita qualquer posicionamento firme em temas sensíveis aos interesses chineses e abdica, na prática, de autonomia estratégica, tudo isso sob o discurso genérico do pragmatismo. Ao não definir uma estratégia própria para lidar com a China, o Brasil se torna progressivamente dependente de decisões tomadas fora de seu controle.

O mesmo padrão se repete na diplomacia ambiental. Elevada a eixo central da projeção internacional do governo, a agenda climática é tratada como fim em si mesma, e não como instrumento de poder. Compromissos amplos são assumidos, constrangimentos externos são aceitos, mas esses ativos políticos não são convertidos em vantagens estratégicas duráveis, investimentos estruturantes ou fortalecimento da posição internacional do país. Uma grande estratégia teria transformado capital ambiental em poder; a atual diplomacia limita-se a acumular constrangimentos e sair em fotos ao lado de companhias, digamos, questionáveis.

Além disso, a diplomacia ambiental brasileira padece de um erro de cálculo geoestratégico grosseiro, pois confere às concepções ambientais de determinados países europeus relevância objetiva inspirada principalmente na autoatribuída “superioridade moral” que tais países proclamam. Utilizar metas propostas por potências europeias para fins de benchmarkambiental em diversos setores é, na melhor das hipóteses, um contrassenso, e, na pior, uma piada grotesca, particularmente para um país que, como o Brasil, precisa se reindustrializar.

A participação do setor industrial nas economias dos países da zona do euro, que em 2000 correspondia a 20%, foi, em 2024, de 13%. Somente entre 2023 e 2024, a produção industrial dos países da zona do euro teve queda de 2,2%. O carro-chefe desse espetáculo de zelotismo autocongratulatório e destruidor da economia real é a Alemanha, cuja produção industrial despencou 12% (!) entre 2019 e junho de 2025. É nesse exemplo de suicídio econômico que a diplomacia ambiental brasileira parece se inspirar.

Somados, esses elementos revelam uma política externa sem arquitetura, sem hierarquia de interesses e sem visão de longo prazo. Em um sistema internacional marcado por competição entre grandes potências, instrumentalização da economia e reorganização de esferas de influência, o Brasil opera como se a simples participação em fóruns multilaterais fosse suficiente para garantir relevância.

A ausência de grande estratégia se manifesta de forma especialmente grave na área de defesa. O discurso oficial fala em autonomia estratégica, mas os investimentos são insuficientes, o planejamento é fragmentado e as capacidades militares não estão articuladas a uma visão geopolítica coerente.

O Atlântico Sul, vital para o comércio exterior, para a segurança energética, para as comunicações submarinas e para a soberania nacional, permanece insuficientemente protegido. O crime organizado transnacional – conectado a rotas globais de tráfico, lavagem de dinheiro e contrabando – avança mais rapidamente do que a capacidade estatal de resposta.

Em um cenário no qual os EUA reforçam sua presença naval no Caribe, reavaliam o controle de rotas estratégicas e tratam o hemisfério como área prioritária, essa fragilidade brasileira não é teórica, mas risco estratégico concreto. Falar em soberania sem capacidade dissuasória deixou de ser ingenuidade. Tornou-se imprudência.

A nova NSS dos EUA deixa claro que o tempo da ambiguidade estratégica acabou. Potências estão escolhendo prioridades, delimitando espaços de interesse e exigindo posicionamentos mais claros de seus entornos estratégicos. Nesse mundo, o Brasil surge como um ator paradoxal: grande demais para ser ignorado, mas cada vez mais irrelevante por falta de visão estratégica, em contexto no qual a ausência de uma grande estratégia não é neutralidade sofisticada – é vulnerabilidade estrutural. E vulnerabilidade, em um sistema governado por poder, raramente permanece sem custo e consequências.

Parte central do problema reside em uma diplomacia anacrônica, inadequadamente estruturada no que diz respeito à carreira, aparelhada, que se move por inércia, hermética, avessa à modernização, presa a tradições que já não resistem ao peso do tempo, resistente a revisar seus pressupostos e enlevada por sua autopercepção de ser um centro de excelência. O mundo mudou, a estratégia americana mudou, a competição entre grandes potências se intensificou, mas o discurso brasileiro permanece ancorado em um ambiente internacional que já não existe e a práticas, métodos e conceitos ultrapassados.

Política externa não se faz no vácuo. Um país com o peso geopolítico do Brasil não pode se contentar com uma diplomacia reativa e conformista sempre a reboque dos acontecimentos, que pouco influencia as relações internacionais, mas sofre em demasia os efeitos das políticas dos global players.

Tradições e práticas diplomáticas só fazem sentido e mantêm sua legitimidade quando são manifestamente convergentes com o interesse nacional mais amplo, alicerçadas em diretrizes de política externa que estejam alinhadas a uma grande estratégia de nação. A adesão cega a “tradições” trai o próprio conceito de diplomacia estratégica e prejudica toda a nação.

O balanço final é severo. Enquanto as grandes potências voltam a pensar o mundo em termos de poder, território, hierarquia e interesse nacional, a política externa de Lula revela-se incapaz de operar nesse ambiente. Não por falta de recursos, peso econômico ou relevância regional, mas por um déficit estrutural de pensamento estratégico e por sua lógica intrínseca de parasitação do Estado.

Isso se traduz em dependência geopolítica, fragilidade econômica, perda de influência regional e redução da capacidade de proteger interesses nacionais vitais. Em um hemisfério que deixou de ser periférico para voltar ao centro do cálculo geoestratégico, o custo para o Brasil, nesse cenário, é de uma crescente marginalização.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.


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