Sergio Florencio deixa a geopolítica de lado e nos faz rir em torno das agruras de um general no comando de uma embaixada:
Um diplomata, um General e o Febeapá
Sergio Florencio
Acolhida
Era manhã de segunda feira do ano de 1972. Um jovem diplomata de vinte e sete anos tinha chegado a Georgetown no dia anterior. Foi se apresentar ao Embaixador - um General linha dura, ex- Comandante do Primeiro Exército, no Rio de Janeiro.
-Que dia você chegou?
-Ontem à tarde.
-E por que não me ligou? Sabia que era sua obrigação me ligar?
-Sim, sabia. Era domingo. Devia estar com a família. Não quis incomodar.
-Isso não é explicação.
-E onde está hospedado? Park Hotel?
-Não. O taxista, que me trouxe do Aeroporto, sugeriu outro hotel. Bem próximo do Park Hotel, mais divertido, mais barato, e também com piscina.
-E que hotel é esse?
-Happy Days Hotel.
-Isso não é hotel. Isso é um puteiro!
-Que pena. Não sabia.
-Está fazendo gracinha?
-Não. Fiz um comentário.
-Pode se retirar.
Pedro II Condenado
Foi assim o amigável primeiro encontro com o General – Embaixador, que dirigia a Embaixada como comandava um quartel. Logo nos primeiros dias soube que brigou com um Oficial de Chancelaria (Ofchan) porque esse elogiou o Colégio Pedro II, onde havia estudado. O General replicou que o melhor ensino do Brasil era no Colégio Militar, e podia provar, porque lá estudou desde o CAD -Curso de Admissão até ingressar na AMAN – Academia Militar das Agulhas Negras. O Ofchan ficou calado. O General, de índole assertiva, não acreditava no ditado popular “quem cala consente”. Exigiu definição. Silêncio. A partir o Ofchan daí virou desafeto.
Yogue na praça
Outro funcionário do quadro do Itamaraty era um divertido Assistente de Chancelaria, cargo administrativo logo abaixo de Oficial de Chancelaria na hierarquia. Negro, baixinho, magrinho, muito espirituoso, tinha a Yoga como religião. O General não gostava nada daquele sorriso irônico de Daniel. Devia pensar que escondia sarcasmo contra sua autoridade, no que não deixava de ter alguma razão.
Mas tudo ia bem para o lado do Daniel até um incidente fortuito na praça em frente à Embaixada. Um amigo guianense do nosso funcionário pediu que ele demonstrasse umas posições de Yoga. Daniel explicou que era preciso estar num recinto mais reservado. O amigo insistiu, Daniel resistiu mas acabou cedendo ao pedido. Ficou ereto, de cabeça para baixo, durante um bom tempo no centro da praça pública. Parecia um poste, era o homo erectus. Mas o exercício físico-espiritual coincidiu com o olhar militarizado do General-Embaixador. Chegou perto de seu funcionário, deu um grito “Componha-se!” De cabeça pra baixo, Daniel levou um susto do outro mundo, quase caiu, misturou Yoga com contorcionismo e se postou diante do General indignado, agressivo com a conduta indigna de um subordinado. A partir dali conquistou a antipatia do chefe.
A primeira vez que conheci Daniel, meu grande amigo até hoje, ele sorriu e disse que queria fazer uma pergunta fundamental sobre meu currículo. Comecei a rir com aquele início inesperado de conversa. Ele estava sério, e acrescentou, pausadamente. É a pergunta mais importante para quem trabalha nessa Embaixada.
-Você estudou no Colégio Militar?
- Não, disse eu.
-Tá ferrado, Secretário. Você entrou no Quartel errado!
Ri muito. Algum tempo depois, me lembrei daquela música “O que dá pra rir dá pra chorar”. Daniel tinha razão.
O Presidente de pijama
Comecei a fazer o trabalho burocrático da Embaixada e a participar das reuniões do General com autoridades locais e com outros embaixadores. Quando saiamos de um coquetel com a presença do Presidente da República, entrávamos no carro oficial, dois comentários eram recorrentes.
-Esses negros não têm vergonha. Viu como o Presidente do país estava vestido? De pijama! Onde já se viu uma coisa dessas! Falta de compostura.
O pijama que ele mencionava, na verdade era o traje nacional da Guiana e de outros países do Caribe e da América Central - a famosa Goiabeira. Era uma espécie de blusa ou camisa, em geral branca, de manga comprida ou curta, com diferentes rendas ou desenhos. Comecei a dar essa explicação óbvia, mas ele nem quis saber.
- Lá vem você, como seus coleguinhas, com essas explicações sem sentido. Para mim o Presidente estava de pijama! Um absurdo.
Outra cena muito comum era quando o General entrava no carro oficial e dava ordem para o motorista seguir para casa. “Home!” Olhava para mim e dizia sorrindo. “Viu como meu inglês tá bom!” Eu comecei a ver um certo humor no General.
Traduz, Pimentel!
Como Embaixador, o General era obrigado a oferecer jantar na Residência, em algumas datas nacionais. Nessas ocasiões, depois do jantar e dos drinks, os diplomatas ficavam conversando e com frequência passavam do horário estabelecido pelo General – rígidas 22 horas. Acontecia então algo inesperado para mim, recém-chegado a Georgetown, mas que virou uma espécie de Protocolo do General.
Aqui preciso interromper e explicar que, nos anos 1970, num país pobre como a Guiana, aparelho de ar-condicionado era objeto de luxo, muito caro, nem sempre acessível. A residência do Brasil não tinha ar-condicionado, era uma casa ampla, gostosa, com janelas enormes, justamente para trazer alguma brisa fresca. Janelas abertas era, a assim, obrigatório, sob pena de sujeitar diplomatas a suar o pão que o diabo amassou.
Quando o antigo relógio de parede tinha seus ponteiros se aproximando das 22 horas, o General interrompia qualquer conversa, com qualquer convidado, e iniciava sua rotina nos jantares oficiais. Começava a fechar janelas. Contam as más línguas que a primeira vez que isso ocorreu, foi um alvoroço. Ninguém tinha observado o gesto inusitado do General. Todos continuaram conversando, muito depois do horário regulamentar das 22 horas. Convidados conversando, o General fechando janelas e a temperatura subindo, subindo. Um gramático diria aqui – era o gerúndio da canícula.
Foi então que um diplomata mais atento descobriu a pólvora. Viu o General fechando janelas. Brincalhão, naquele calorão, falou aos amigos, sorrindo. “Vocês não entenderam nada. Era Ordem Unida à tropa. Bater em retirada!” A partir dessa noite, nos jantares na residência do Brasil em Georgetown, quando os ponteiros se aproximavam das 22 horas, o diplomata brincalhão circulava rapidamente dizendo. “Atenção! O Marechal Relógio deu ordens ao General. Retirar Tropa!”
Outro episódio muito revelador da irreverência autoritária do General ocorreu na data nacional brasileira, quando ele oferecia um jantar formal. Os pratos com os diversos tipos de comida foram servidos numa gende mesa central. O General ficou postado na parte final da mesa e começou a notar alo que chamou sua atenção. Os convidados se serviam normalmente, mas quando estavam em frente de um prato, paravam, olhavam e seguiam em frente não se serviam. Era um prato brasileiro famoso – o Tutu de Feijão.
Aquela atitude de desprezo por um ícone da cozinha brasileira começou a ser sentido pelo General como uma rejeição a nosso país. Isso mexeu com seus brios nacionalistas. O jantar transcorreu em clima ameno, até que chegou a hora do discurso. O General falava em português e o Pimentel, diplomata brasileiro em Georgetown traduzia. Terminados os agradecimentos de praxe, o General entrou propriamente na substância, no sentido literal mesmo. Fez um entusiástico elogio ao Tutu de Feijão, desde sua origem – a Feijoada, prato rejeitado pelas elites, apreciados pelos escravos, até ganhar personalidade própria, apreciada pela sociedade brasileira, como Tutu de Feijão.
Tudo ia muito bem, no melhor dos mundos. Alguns convidados demonstravam visível surpresa com a origem antropológica da feijoada. Nasceu entre os escravizados, se transformou em iguaria das elites e, enfim, em prato apreciado pelo conjunto da sociedade.
Mas aquela era uma paz aparente. Submersa, havia uma rebeldia indignada com o desprezo dos convidados diante do nosso Tutu.
-Não posso deixar de manifestar minha crítica a todos vocês. Não posso aceitar o desprezo de todos diante do nosso Tutu. Vocês, que olharam para ele, provavelmente acharam muito feio e nem provaram, não sabem o que perderam.
Pimentel pediu para o General interromper a fala para a tradução. Inconscientemente, talvez quisesse desviar o foco do General que, naquela altura, estava fixado na crítica aos convidados. Nosso diplomata dourou a pílula. Não traduziu para o inglês o “desprezo pelo nosso Tutu”. Preferiu falar da “curiosa atitude de todos ao passar pelo prato de Tutu”. O General não falava quase nada de inglês. Mas achou estranho o tom plácido do inglês de Pimentel. Esqueceu e continuou sua investida contra convidados já um pouco transformados em adversários ou rivais de um prato-símbolo de nossa nacionalidade.
-Vou dizer uma coisa a todos vocês. Com toda sinceridade.
Nesse momento, os convidados - acostumados com as boas maneiras e a gentileza do tradutor amigo de todos – notaram nele um suspiro profundo e uma vermelhidão no rosto. O General continuou a Marcha da Sinceridade.
-Com toda sinceridade. Vocês não sabem o que perderam, meus amigos. Uma iguaria nacional! O Tutu é o manjar dos Deuses!
Mais uma vez, Pimentel pediu tempo para traduzir. Afinal, eram apenas elogios. Mas o General começou a atravessar o Rubicão.
-Noto que não consigo convencer vocês. Pois bem. Vou lembrar um ditado muito popular no Brasil. Só no Brasil! E vou fazer uma comparação do desprezado Tutu com personagem desse ditado popular. Meus amigos – o General nunca deu importância à flexão de gênero – o Tutu é como nossa Raimunda – feia de cara, mas boa de bunda.
Pimentel ficou atônito. Não podia acreditar no que estava ouvindo. O General parou de falar. O tradutor não entrava em cena. Até que veio uma Ordem Unida.
-Traduz, Pimentel!
Nosso diplomata só tinha uma certeza. Nunca traduziria, ao pé da letra, a barbaridade dita pelo General. E começou a florear a bomba .
-We have in Brazil a very nice young lady called Raimunda. Like Brazilian black beans, she is very popular, very pretty and very nice.
O General não falava inglês. Mas sabia o significado de algumas palavras. Ouviu o nome da Raimunda, e logo em seguida palavras que conhecia, como popular, pretty e nice. Sentiu que nosso tradutor omitiu muita coisa.
-Traduz de novo, Pimentel. Acho que você não traduziu o que eu disse.
Lógico que o diplomata não ia peitar o General. Ele estava no comando, em seu território e tinha a faca e o queijo na mão. Sobretudo a faca, pensou. Tentou nova fórmula. Ampliou o texto, usou palavras menos óbvias. A esperança era enrolar o General e seu limitado inglês.
- Let me tell you a very curious Brazilian story about Tutu and Raimunda. Tutu is like Raimunda. I will repeat very clear to all of you, dear friends. Tutu is like Raimunda.
Nesse delicado momento da vida de um diplomata, Pimentel se lembrou de negociações na ONU. A persuasão pela repetição. A convicção pela repetição. E lá foi nosso tradutor, escanteado no ringue, vítima de soco no queixo de um irado General. Partiu para um blitzkrieg – muitas palavras, pronunciadas rapidamente, acompanhadas do refrão de agrado do Chefe. Tutu is like Raimunda.
-Our Ambassador said. Let me be very frank. And I repeat – let me be very frank. Our Ambassador said. Tutu is like Raimunda. And I repeat to you all. Tutu is like Raimunda. A handsome, good looking, wonderful lady, very representative of the beauty of a Brazilian woman. My ultimate message to you all, friends of our dear Ambassador, friends of Brazil, is the following. Tutu and Raimunda have so much in common, you can´t imagine the ultimate result of such deep identity. They both became symbols of a multi-cultural , multi-ethnic society, a mixed-race people. Tutu and Raimunda are a combination of black beans (Tutu) with a white woman (Raimunda). Our ambassador is very pleased with your presence here and thank you all. You made this celebration an unforgettable evening!
O General ficou silente por alguns minutos. Mas logo retomou o ataque.
- Pimentel, repete a tradução. Mas a tradução do que eu disse!
Naquele momento, um amigo uruguaio, muito versado em portunhol, juntou um pequeno grupo de diplomatas, e explicou em inglês.
-Vocês não entenderam o drama do querido Pimentel. O General está forçando nosso amigo a traduzir uma frase ultrajante. Nem vou repetir para vocês. E o General vai passar a noite repetindo. Traduz Pimentel! Mas eu tenho a solução salomônica. No inglês compreensível para o General, vamos repetir “Very well, Ambassador”. Em inglês menos compreensível, vamos acrescentar. “Pimentel. You are our hero”. Mais importante de tudo. Vamos começar a aplaudir um aplauso sem fim. Tão alto que vai silenciar o grito de guerra do General “Traduz de novo, Pimentel!”
Moral da história. A batalha do General com o diplomata terminou com efusivos aplausos e abraços entre todos. E a doce ilusão do General de ter vencido a guerra.
Reflexões do General no Febeapá
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