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sábado, 21 de agosto de 2021

Biografia situa Henry Kissinger entre o homem bélico e diplomata habilidoso, Barry Gewen - Martim Vasques da Cunha (OESP)

 Biografia situa Henry Kissinger entre o homem bélico e diplomata habilidoso

Kissinger é considerado pela esquerda moderada como criminoso de guerra e pela direita razoável um pensador refinado enquanto a direita nacionalista o chama de comunista rendido e a esquerda radical o ofende com um 'infiltrado imperialista'

Martim Vasques da Cunha*, Especial para o Estadão

21 de agosto de 2021 | 15h00


Na semana em que foi anunciada a vitória de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos, numa acirrada eleição que mudou o Ocidente para sempre, o escritor americano Walter Kirn – conhecido pelo público por ser o autor do livro que deu origem ao filme homônimo com George Clooney, o ácido Amor Sem Escalas (2009) – escreveu no Twitter que, na verdade, o vencedor se chamava Henry Kissinger.

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Henry Kissinger, diplomata nascido na Alemanha, que teve importante papel nos EUA  

Foto: Gary Cameron/Reuters

 

Para quem não é um ‘millenial’ e ainda tem boa memória, o nome de Kissinger geralmente é confundido com o trocadilho infame de “Henry Killinger”. Considerado pela esquerda moderada como um “criminoso de guerra” e pela direita razoável como um “pensador refinado e um diplomata brilhante” (enquanto a direita nacionalista o chama de “comunista rendido” e a esquerda radical o ofende com um “infiltrado imperialista”), o autor do colossal Diplomacia (1994) – um tomo de mais de mil páginas que praticamente explica o surgimento da Nova Ordem Mundial que conhecíamos antes da peste do coronavírus – ganhou essa reputação graças ao fato de que foi, entre 1968 e 1975, o Secretário de Estado e Consultor de Segurança de ninguém menos que Richard Nixon e do sucessor deste último após o escândalo Watergate, Gerald Ford. 

Nesses anos, foi obrigado a lidar com assuntos mais do que urgentes como a Guerra Fria, o poder nuclear da União Soviética e – last but not least – o conflito no Vietnã. Como se esses problemas não fossem suficientes, ele também teve de administrar (segundo alguns, “ordenar” é a palavra exata) a interferência à soberania nacional de país latino-americanos, como o Chile em 1974 (com a queda de Salvador Allende) e o financiamento da “Guerra Suja” ocorrida em uma Argentina dominada pelo exército militar.

Por causa deste extenso currículo, Kissinger se tornou um personagem digno de biografias e tratados que tentam analisá-lo na sua ambiguidade (um termo muito importante para entender corretamente suas ações, de acordo com o próprio). Temos todo um mercado editorial sobre esse homem, desde o polêmico The Trial of Henry Kissinger (2001), do falecido Christopher Hitchens, passando pela primeira parte da biografia de Niall Ferguson, Kissinger 1923-1968: The Idealist (2015), até chegar ao produto mais recente – o complexo e instigante The Inevitability of Tragedy: Henry Kissinger and His World, do editor da prestigiada New York Times Book Review, Barry Gewen.

Na sua estreia literária, ocorrida após trinta anos retocando os textos dos outros, Gewen provocou um certo rebuliço ideológico entre seus pares. Notório por ser um progressista de quatro costados (afinal, ninguém trabalha por acaso no New York Times), ele os surpreendeu por escrever um livro que tentava compreender um sujeito que, para este “círculo dos sábios”, era mais do que alguém nefasto. Era o próprio mal encarnado.

Gewen se recusa a ir por essa vereda – mas não pelos motivos sorrateiros atribuídos a ele. Como o próprio subtítulo indica, não se trata de uma biografia, e sim de um ensaio que reflete sobre o “mundo” onde Kissinger nasceu e se formou: a Alemanha entre as duas guerras mundiais, mais precisamente a Alemanha de Weimar que depois seria a de Adolf Hitler. A partir daí, o que temos é uma excelente síntese da história das ideias políticas do século 20, centralizadas em três figuras essenciais para a educação do futuro diplomata do governo Nixon: Leo Strauss, Hannah Arendt e Hans Morgenthau.

Mesmo tendo pouco contato pessoal com os dois primeiros nomes, Kissinger foi um dos alunos favoritos do terceiro, hoje considerado o papa do “realismo político”. Apesar de ser divulgado por seus apoiadores como uma novidade do século 20, esse pensamento que fez fama na cátedra das Relações Internacionais é apenas uma variação do velho e bom Leviatã (1651), de Thomas Hobbes. Porém, há uma diferença: se, com Hobbes, a reflexão sobre o poder tinha como base o trauma das guerras civis inglesas do século 17, Morgenthau e Kissinger (junto a Strauss e Arendt) perceberam o problema sobre quem comanda de fato o Estado sob as sombras totalitárias do nazismo e do comunismo.

Para ambos, o início dessas moléstias coletivas não foram as benesses da democracia liberal – e sim justamente os seus excessos. Daí a desconfiança suprema em relação a este modelo de governo, justamente para preservá-lo – o que, segundo Gewen, esclareceria as intervenções de Kissinger em países como Chile e Argentina (para os defenderem da “ameaça vermelha”) e da intricada estratégia de détente, com exaustivas negociações para se alcançar o “equilíbrio” com o Vietnã e a União Soviética, apesar dos constantes (e mortíferos) bombardeios no Camboja e em Saigon.

No fundo, argumenta Gewen, o que impulsionaria a política de Kissinger é a noção aguda de uma ambiguidade que, se não for respeitada, terminará naquilo que seria a “inevitabilidade da tragédia”. Na política, de acordo com esse raciocínio, não há imperativos morais; há apenas o encontro com o desconhecido e ali, dentro de variáveis extremamente nebulosas, qualquer escolha corre o risco de ser não só a errada, mas sobretudo a mais letal de todas.

Isso não significa que Henry Kissinger é incapaz de ter uma ética. Sem dúvida, como todo o diplomata, ele possui princípios morais. O único problema é que ele os oculta com tamanha insistência para si mesmo que mal pode conhecê-los na realidade. Gewen evita o clichê de qualificá-lo como um político “maquiavélico”, mas também não cai na benevolência de um Niall Ferguson que o classifica como um “idealista” kantiano, afoito para implementar a “paz perpétua”, custe o que custar. A tragédia da política se torna inevitável, nesse caso, simplesmente porque os intérpretes deste “superkraut” (como a revista Time o chamou no auge da sua celebridade) jamais perceberam que, antes de tudo, ele faz parte de uma longa (e pouco divulgada) tradição histórica: a de ser um cortesão do poder.

Surgida no Renascimento, com a publicação do livro intitulado justamente O Cortesão (1528), escrito por Baldassare Castiglione, tal corrente de pensamento, se podemos chamá-la assim, promove uma forma de trilhar os labirintos da política por meio de uma “poética da dissimulação”, na qual o sujeito precisa usar constantemente uma máscara para agradar o governante e sua súcia, não só para preservar a própria vida, mas também a sua sobrevivência material. A consequência direta disso é a ausência de sinceridade e de qualquer decisão moral ao dizer a verdade quando ela se tornou a única alternativa possível, mesmo que ela seja amarga para o político que está no comando de uma nação. O disfarce, aqui, pode ser o discurso cifrado, a ironia, o humor jocoso, quando não o próprio elogio feito com segundas intenções. Enfim, tudo aquilo que jamais teve relação com a nobreza da tragédia.

Eis aí o equívoco maior de Barry Gewen ao compreender Kissinger. Não há nenhuma inevitabilidade de um destino cruel se o sujeito que pratica este tipo de política jamais permitiu, dentro do seu coração, a comunicação da verdade, principalmente para si mesmo – e para seus semelhantes. A tragédia precisa dessa purgação, pois seu impulso é uma reviravolta moral que faz o sujeito fascinado pelo poder entender que, ao fim e ao cabo, isto vale muito pouco na vida de uma pessoa realmente autêntica.

Não foi o caso de Henry Kissinger. Ele sempre gostou de ser uma “eminência parda”, mesmo nos anos em que não estava mais na Casa Branca. Foi ouvido por Reagan (a quem desprezava), Bush pai e filho, Bill e Hillary Clinton, e Barack Obama, mas jogado de escanteio por Donald Trump. Agora, com Joe Biden, ele tem uma segunda chance de voltar a ser um cortesão, com toda a sua graça e fleuma, senão fisicamente, pelo menos em espírito. Não é por acaso que, um dia após a posse do novo presidente americano, um comboio militar entrou na região noroeste da Síria, um país que até então tinha uma intervenção suave no governo anterior, em especial porque a ditadura de Bashar Al Assad era um obstáculo para o ressurgimento do Estado Islâmico. Motivo? “Preservar a democracia naquele local”. 

Com essa justificativa, é evidente que não há mais a ambiguidade da política quando a dissimulação volta em cena – conforme se comprovou na semana passada, com a saída das tropas americanas em Cabul, no Afeganistão, numa desastrosa retirada semelhante ao que ocorreu em Saigon, no ano de 1975, uma operação que também teve a impressão digital de Kissinger. E assim ficamos com o gosto do trágico na boca ao percebermos que, afinal de contas, Walter Kirn estava completamente certo quando escreveu que este cortesão de poder foi o verdadeiro vencedor naquelas eleições de 2020 que mudaram o Ocidente para sempre. Quem viver, verá.

*MARTIM VASQUES DA CUNHA É AUTOR DE ‘O CONTÁGIO DA MENTIRA’ (ÂYINÉ, 2020)


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O caminho do Brasil para o hitlerismo tropical - Martim Vasques da Cunha

Em 2008, 11 anos antes do Brasil encontrar-com um “estúpido criminoso” — que é como Voegelin chamava Hitler —, guindado à presidência em 2018 por um conjunto excepcional de circunstâncias (como foram as que cercaram Hitler em sua ascensão fatídica ao poder), Martim Vasques da Cunha já resumia, através de uma análise da vida e da obra do filósofo alemão antinazista, as características principais das personalidades que justamente permitiram a ascensão de um estúpido criminoso ao poder, empenhado ativamente numa obra de destruição. É a isso a que estamos assistindo atualmente no Brasil: Martim Vasques da Cunha apenas antecipou, involuntariamente, o Sonderweg brasileiro, o caminho especial do Brasil para a vergonha e o opróbrio.
Paulo Roberto de Almeida

Eric Voegelin e a coragem da filosofia by MVC


Eric Voegelin e a coragem da filosofia

MVC

MVC

Jan 24, 2018 · 20 min read


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The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.
W.B. Yeats, “The Second Coming”
Conta-se que o filósofo grego Anaxágoras caminhava por uma estrada quando encontrou um homem agonizante. Este lamentou o fato de estar distante de sua pátria na hora da morte. Para tranqüilizá-lo, Anaxágoras disse-lhe: “Não se preocupe, meu caro. A descida ao inferno é a mesma de qualquer lugar”.
A historieta é dura sem dúvida — pois o inferno, seja na antiguidade clássica, seja no nosso mundo de esvanecentes valores cristãos, é o julgamento da nossa rejeição eterna e irrevogável do mundo como é –, e alude à coragem que todos temos de ter se queremos conhecer a realidade.
Porém, antes de mais nada, o que é essa tal “realidade”? Não temos a pretensão de responder aqui a esta pergunta, mas, para ir à raiz do problema, basta que nos perguntemos: O que entendemos por realidade? Como a compreendemos? Esse foi, em todos os tempos, um problema constante, que só pode encontrar alguma solução se o homem der ouvidos a esse fundo insubornável do ser de que fala Ortega y Gasset, ao mais íntimo dos seus pensamentos naquele momento em que enfrenta o seu reflexo no espelho e tenta reconhecer a própria face.
É daí que me dirijo a você, leitor. Não sou filósofo, e muito menos um condutor de homens. Sou, no máximo, um cidadão que, por um comichão na consciência, tenta observar as coisas como são e por isso chegou a algumas conclusões perturbadoras. Por isso, gostaria de que me lesse, não como quem traz respostas para todos os problemas, mas apenas como alguém que reflete sobre o que todos sabem, mas talvez tenham medo de dizer. E aqui procurarei que essa voz não seja apenas minha; através dela, queria transmitir a de outra pessoa, a do homem que tentarei apresentar aqui: Eric Voegelin.
Voegelin nasceu em Colônia, na Alemanha, a 3 de janeiro de 1901, e faleceu em Stanford, na Califórnia, a 19 de janeiro de 1985. É um dos maiores filósofos do século XX, mas permanece ignorado em boa parte dos meios acadêmicos nacionais. Por quê? Bem, na verdade, não há mistério nisso: é um autor difícil por ser duro como poucos, rigoroso como um verdadeiro filósofo deve ser e, como se não bastasse, escreve com uma facilidade que desnorteia os que pensam que a filosofia deve ser transmitida como um código secreto para iniciados. Além disso, não brinca com as coisas sérias da vida.
Pelos locais de nascimento e morte, já percebemos que não morreu na terra natal. Em 1938, teve de fugir da Viena, onde tinha estudado e depois começado a carreira universitária, devido ao Anschluss, a anexação da Áustria pela Alemanha governada pelo Partido dos Trabalhadores Nacional-Socialistas. Nessa altura, era já persona non grata para os nazistas: em 1933, quando eles haviam chegado ao poder, publicara dois estudos que criticavam as raízes ideológicas do partido — Raça e Estado e O Estado autoritário.
Em Viena, tinha sido discípulo de Hans Kelsen, o filósofo do Direito positivista que, ironicamente — porque as suas teorias serviram para fundamentar doutrinalmente o sistema legal nazista — , também tivera de fugir por ser de ascendência judaica. Voegelin não era judeu nem socialista, e também não tinha a intenção de ser um opositor político do nazismo; era contrário a qualquer ideologia por motivos estritamente intelectuais e espirituais, pois num momento em que ninguém mais tinha coragem de admiti-lo, já sabia que era insustentável para qualquer um que quisesse manter um mínimo de honestidade moral.
Depois de uma breve passagem, pela Suíça, chegou aos Estados Unidos, onde recomeçou a carreira acadêmica como filósofo, fixando-se na Universidade de Louisiana, em Baton Rouge. Era um fim de mundo acadêmico, convenhamos, mas permitiu-lhe preparou-se durante vinte anos para o trabalho de toda a vida — desmascarar o mecanismo que permite às ideologias políticas corromper uma nação inteira.
Ali começou por escreveu um tratado de 3.200 páginas sobre a História das idéias políticas, que abandonou e que só viria a ser publicado postumamente. A seguir, dedicou-se a pesquisar os símbolos religiosos de Israel e da filosofia grega, e publicou parte dos resultados deste trabalho no livro A nova ciência da política, de 1953, que lhe valeu uma reportagem na Time e o transformou em um nome celebrado nas universidades americanas. Mesmo assim, Voegelin não se acomodou sobre os louros; começou a redação do grande tratado Ordem e História, iniciado em 1955 e só terminado no final da vida.
Contudo, em 1958, treze anos depois do fim da Segunda Guerra, suas atividades acadêmicas nos Estados Unidos foram interrompidas quando a Ludwig-Maximilian Universität de Munique o convidou a assumir a cátedra de ciências políticas, que tinha sido a de Max Weber e estava vaga havia vinte anos. Ali, Voegelin acrescentou um trabalho administrativo às responsabilidades acadêmicas, fundando o Instituto de Ciência Política. Por fim, em 1969, voltou para os Estados Unidos, desta vez para trabalhar em Stanford, onde permaneceria até a morte.
Voegelin aceitou o desafio de voltar para a Alemanha — apesar da posição de destaque no meio acadêmico conquistada a duras penas — por um motivo simples: era a oportunidade de, vinte anos depois, acertar as contas com os fantasmas do nazismo.
Quando chegou, o país estava em pleno processo de “desnazificação”. Oficialmente, tratava-se uma “condenação do passado nazista” feita pelo povo e pelo governo de Konrad Adenauer, que girava em torno da noção de culpa coletiva. O termo soava bem num país ocupado por quatro potências ocidentais e dividido por um muro, mas realmente “desnazificava” o país? Essa “revisão” do passado assegurava uma mudança real para o presente e o futuro?
Voegelin responderá decididamente que não. Em 1964, deu uma série de palestras sob o título de “Hitler e os alemães” que foram um enorme sucesso de público[1]. Conforme o filósofo tinha pretendido, esse público estava composto na sua maioria por estudantes, que eram o seu alvo preferencial por já correrem o risco de perder a noção do que fora viver nos tempos de Hitler. E as perguntas que lhes fez não diziam respeito a pretensas culpas coletivas, mas atingiam aquele fundo insubornável do ser: como fora possível que semelhante corrupção espiritual tivesse atingido todos os níveis da sociedade, da política à intelectualidade, do mundo dos negócios à moral? E essa corrupção não continuaria a atuar na mente da jovem geração, mesmo vinte anos depois do desaparecimento do nazismo?
De acordo com a retórica da culpa coletiva, todos os alemães seriam culpados pelo nazismo. Que sentido fazia isso? Os membros do partido teriam a mesma responsabilidade que os que tinham votado em Hitler por acharem que seria o salvador do mundo? E os que não queriam saber de política e desejavam apenas escapar ao pesadelo da ruína econômica após a Primeira Guerra Mundial? Tudo isso não passava de uma paródia de expiação, que mascarava algo muito mais importante: a responsabilidade individual.
De fato, a “desnazificação” não atingia os altos escalões do poder público. Membros importantes da antiga burocracia nazista — simples “funcionários” ou “burocratas”, dizia-se, sem responsabilidade pelas decisões criminosas e por isso mesmo incapazes de perturbar alguém — permaneciam em cargos chave do novo governo. Um caso clamoroso era o de Hans Globke, que despertou as mais ferozes indignações de Voegelin e da filósofa Hannah Arendt.
Em 1958, Globke era o braço direito de Adenauer, ocupando o cargo de “subsecretário de Estado e chefe da divisão pessoal da Chancelaria da Alemanha Ocidental”. Vinte e seis anos antes, fora um dos funcionários mais respeitados do Ministério do Interior do Terceiro Reich. Quando surgiu o escândalo em torno do seu passado, Globke apressou-se a afirmar que apenas procurara tomar “medidas mitigadoras”. Curiosas medidas, aliás… Em primeiro lugar, fora o autor da lei segundo a qual todo judeu deveria ter como segundo nome “Israel” e usar uma estrela de Davi amarela a fim de mostrar que não tinha “ascendência ariana”; e isso foi em 1932, quando “a subida de Hitler não era uma certeza, mas apenas uma forte possibilidade”. Mais tarde, já no ministério, criara a lei que obrigava moças tchecas que pretendessem casar com soldados alemães a exibir fotos em que apareciam vestidas de maiô, para comprovar os dados antropométricos arianos (talvez fosse mesmo uma mitigação, pois antes se exigiam fotos em que apareciam nuas).
Isso já fora denunciado por Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém, o livro-reportagem publicado em 1962 que narrava o julgamento de Adolf Eichmann, acusado pelo governo de Israel de ser o “arquiteto da Solução Final”. Arendt se perguntava se Eichmann, um burocrata arrivista, seria o monstro de que tanto se falava. E chega à conclusão de que não: tratava-se de um “homem-massa”, sem vida interior, sem convicções pessoais, imbuído apenas do intuito de seguir o rebanho — mesmo que este praticasse assassinato em quantidades industriais. De quem era a responsabilidade? Dos alemães? Dos judeus? Do Ocidente? Talvez de todos, desde que isso não mascarasse o fato de que, antes de mais nada, o verdadeiro responsável por suas ações era o próprio Eichmann.
A conclusão que se impunha era que o verdadeiro processo de “desnazificação” não se podia obter por meio de um processo legal ou político; era necessária uma reviravolta da consciência, uma revolução do espírito — uma conversão pessoal que tinha de começar com uma “descida aos infernos”. E essa foi a tarefa que Voegelin se impôs ao chegar à Alemanha em 1958: fazer a sua terra natal compreender que, para “dominar” o passado, tinha antes de mais nada de “dominar” o presente.
Para isso, Voegelin recupera e propõe no conjunto da sua obra duas noções praticamente esquecidas no ambiente acadêmico: a do homem maduro e a do princípio antropológico.
O “homem maduro” corresponde ao spoudaios de Aristóteles, a pessoa que desenvolveu ao máximo as suas potencialidades e, em conseqüência, aprendeu que governar e comandar os outros é antes de mais nada governar e comandar-se a si mesmo, especialmente no domínio das paixões e dos sentimentos. Conhece a profundidade da sua alma e da dos seus semelhantes porque desceu ao inferno do conhecimento próprio e de lá voltou. Neste sentido, não é apenas alguém que manda, mas alguém que representa os anseios mais íntimos dos homens de carne e osso que compõem a sociedade; não é um chefe político ou institucional, mas um líder autêntico, com liderança existencial, pois chega a ser o reflexo da sociedade que governa. Tudo isso pode ser resumido na seguinte sentença: a sociedade é a alma do homem escrita por extenso. Voegelin recuperará essa noção de Platão e a chamará de princípio antropológico.
Ora bem, nas suas palestras sobre “Hitler e os alemães” Voegelin começa apresentando uma carta escrita por um jovem acadêmico à famosa revista Der Spiegel:
“Quando lemos que Hitler foi um amador, ‘abaixo da média dos homens’, perguntamo-nos automaticamente como então ele foi capaz de modelar uma época. Reconheço que ele era um ‘jogador’, mas um jogador que ofuscou os outros. […] E o seu único crime foi o de ser um jogador que perdeu, e que levou consigo todo um povo, de maneira que afundou com ele. Entretanto, toda a política é um jogo e os ganhos aumentam quando as apostas são altas. Hoje já não podemos e não queremos jogar; portanto, também nos é impossível ganhar — a não ser o tão cotado padrão de vida. Mas talvez estejamos perdendo mais, mesmo sem Hitler”.
Aqui estão prefigurados muitos dos clichês que, inquietantemente, voltamos há pouco a ouvir repetidos na imprensa e na academia: o de que Hitler, no fim das contas, era um grande líder, o de que a política é um jogo, e o de que sua única culpa foi perder. Nem se menciona que o nazismo e o seu líder tinham um projeto de eliminação sistemática de toda uma raça e, nas palavras de Churchill, de toda a civilização.
Voegelin apresenta outro exemplo, extraído de um acadêmico que faz a seguinte descrição física e psicológica de Hitler:
“Hitler fascinava as pessoas com seus olhos azuis profundos, ligeiramente esgazeados, quase radiantes. Muitos que se encontravam com ele eram incapazes de resistir a seu olhar”.
E, com palavras mais reveladoras:
“É quase impossível comunicar aos que nunca o conheceram o impacto pessoal de Hitler […]. Havia, no entanto, muitas pessoas sobre quem isso não tinha absolutamente nenhum efeito. Certa vez um coronel me descreveu que, quando estava conversando com Hitler, sentiu uma aversão crescente ao homem enquanto este o fitava de perto (vale notar que Hitler dispensou esse coronel e outros muitos rapidamente). A reação reversa foi provocada numa requintada proprietária da Pomerânia de ascendência aristocrática e convicções cristãs, que detestava Hitler. Encontrou-o por acaso no passeio de madeira de uma praia do Mar Báltico, foi atingida por um breve momento pelo olhar dele e declarou, como fulminada por um raio, que embora ainda não gostasse dele, sentia que ele era um grande homem. Aqueles a quem Hitler tolerava perto dele eram, é claro, mais do que tocados pelo seu olhar, e eram transformados em seus satélites voluntários”.
Nestes parágrafos quase hagiográficos, o Führer aparece como um “enigma”, como se tivesse uma “aura” incomum que o transformasse em um homem situado “além do bem e do mal”. É verdade que o seu autor, Percy Schramm, tinha feito parte do Supremo Comando das Tropas de Guerra; mas já agora, devidamente munido do seu “certificado de desnazificação”, era um acadêmico de renome e ganhador da Ordem do Mérito — a maior honra que, na Alemanha pós-guerra, se podia conferir a um civil.
Esse tipo de mitificação, diz Voegelin, mascara um fato relevante para qualquer análise política decente: o da representação social. Se as pessoas viam essa “aura” em Hitler, por mais que antipatizassem com a sua causa, as suas idéias ou mesmo a sua pessoa, era porque desejavam participar dela, ver essa “aura” refletida nelas mesmas. O jornalista Konrad Heiden descreveu isso com precisão já em 1933, quando ainda ninguém previa as dimensões que o nazismo viria a assumir:
“Com uma confiança ímpar, Hitler expressou o pânico sem palavras das massas confrontadas por um inimigo invisível e deu um nome ao espectro sem nome. Ele era um fragmento puro da própria alma da massa moderna […]. Alguém se perguntará quais foram as artes pelas quais ele conquistou as massas; na verdade, ele não as conquistou, apenas as retratou e as representou”.
Essa intuição brilhante, que Heiden captou no calor da hora, mostra o fundo da “aura” e do “enigma” de Hitler. Não havia ali nada da liderança do “homem maduro”, mas apenas um homem-massa imbuído de um intenso complexo de inferioridade e da intensidade que conferem a angústia e o ódio. O próprio estilo repleto de clichês dos “hagiógrafos” manifesta esta realidade, pois a primeira manifestação da corrupção social está na corrupção da linguagem, que se torna uma “língua de madeira”, rígida, repetitiva e vazia de sentido real, como a que caracterizou igualmente o governo totalitário soviético.
Schramm acrescenta, ainda no tema do “enigma de Hitler” e baseado em testemunhos dos que cercavam o Führer, que este só contava aos que lhe estavam próximos o estritamente necessário, mesmo nos momentos decisivos da Segunda Guerra. Essa atitude enigmática é às vezes mencionada, mesmo hoje, como uma “técnica de liderança”. Voegelin, pelo contrário, chega a uma conclusão muito mais banal e concreta:
“O problema obviamente escapou a Schramm, pois esse sonegar informações, mesmo aos membros do Estado Maior e do Almirantado, tinha uma razão institucional. Nos últimos anos, Hitler não contou com nenhum Estado Maior para conduzir a guerra, mas tomou as rédeas do exército em suas próprias mãos, pois temia ser posto sob pressão se tivesse de enfrentar um grupo de seis ou sete generais e almirantes com visão de jogo. Assim, lidava com eles apenas individual e pessoalmente, e esse contato isolador, em que nenhuma pessoa sabia qual era o plano todo, era uma tática deliberada e um instrumento de estabelecimento da ditadura”.
Com efeito, esse reservar para si a informação de conjunto é uma das técnicas clássicas de manipulação do poder. Novamente, não aí nenhum tipo de liderança, mas apenas uma imposição da ambição pessoal.
Uma segunda amostra dessa manipulação surge da análise do relacionamento do Führer com a sua “comitiva”. Para Schramm, como para outros, a “culpa de tudo” não estaria em Hitler, mas sim naqueles que o cercavam. Ele, homem imbuído de um sonho grandioso, teria sido influenciado por asseclas criminosos e incompetentes; se tivesse podido traduzir na prática os seus ideais, o nazismo teria tido outro destino histórico.
Ora, é mais do que sabido que a ordem decisiva para a última fase da “Solução Final” — a do extermínio em massa dos judeus — veio do próprio Hitler. O que nos leva à teoria oposta, também apresentada com certa freqüência: a “culpa de tudo” teria sido exclusivamente do Führer, não do partido nem do governo nem do povo. Sabemos aonde conduz esse raciocínio: à afirmação de que “o nazismo foi desvirtuado por Hitler; sem ele, seria outra coisa, muito mais bonita” (É interessante notar que se usa o mesmo procedimento para o comunismo, apenas trocando “Hitler” por “Stalin”).
As duas teorias são nitidamente insuficientes. Se aplicarmos o princípio antropológico, o de que o líder representa os anseios dos seus adeptos, veremos que Hitler se cercava de uma comitiva incompetente porque ele próprio era incompetente. Por ser o representante do homem-massa inferiorizado, as suas palavras só encontravam eco em uma “pseudo-elite” intelectual e militar que, no fim, não passava de uma “massa inferiorizada”, de uma “ralé”.
Voegelin apresenta seis parâmetros para analisar o “caso de amor” de Hitler com sua comitiva:
“(1) Hitler estava a par da inadequação de seu círculo. (2) Hitler era, no entanto, obcecado com a ‘camaradagem’ e a ‘lealdade’. Desaprovava veementemente as mudanças que Mussolini fazia em sua guarda, as trocas de ministros. (3) Ele era conservador em seus hábitos de vida e dificilmente rompia relações com pessoas com quem crescia. (4) Teria ocorrido uma mudança, no entanto, se tivesse sido capaz de ver os seus homens como eramrealmente, de discernir quem dentre eles era incompetente ou tinha sérias deficiências de caráter. Eis a contradição: por um lado, ele tinha consciência da inadequação desse círculo; por outro, não era capaz de detectar-lhes a incompetência, as deficiências de caráter. (5) Portanto, não tinha precisamente aquilo pelo que muitas vezes foi louvado: o conhecimento da natureza humana. (6) Hitler conseguia suprimir um julgamento inteiramente correto, mas que não lhe era conveniente, a fim de justificar pessoas que lhe pareciam úteis e devotadas”.
É especialmente importante aqui a expressão “como eram realmente”. A incompetência de Hitler e de sua comitiva devem-se simplesmente a que não foram capazes de ver a realidade. Por isso, não formaram uma “elite”, uma minoria seleta que sabe que primeiro a realidade tem de ser estudada com amor para só depois se tornar dócil; formaram uma “ralé” que acreditava que a realidade estivesse aos seus pés apenas por serem eles quem eram. E se as coisas davam errado, limitavam-se a negar toda a responsabilidade, lançando as culpas, conforme o caso, ora no Führer, ora na sua comitiva. Mas quem se recusa a ver as conseqüências do real, não merece outro nome que o de estúpido.
Antes de mais nada, devo dar um esclarecimento. O leitor talvez se tenha surpreendido com as palavras “ralé” e “estúpido”, e pense que são insultos vulgares. Não são. Na verdade, são termos técnicos e rigorosos, que classificam um determinado comportamento diante do real. Além de que um insulto preciso às vezes pode ser um excelente diagnóstico.
Comecemos com o termo “estupidez”. Voegelin faz um resumo delicioso de como essa palavra é usado desde o início dos tempos, da Bíblia até a mais recente literatura moderna, passando pela filosofia grega. Os israelenses chamam o homem que cria desordem na sociedade de “tolo”, nabal, pois não é um “crente”, não aceita a revelação de Deus; Platão usa outro termo, amathes, o homem irracional, que não se curva à razão e, portanto, tem uma imagem defeituosa da realidade. Para São Tomás de Aquino, o “tolo” é o stultus, o estulto, que não compreende nem a revelação, nem a razão, e mesmo assim tenta mudar a realidade, tendo como resultado óbvio produzir o caos. Por fim, na literatura moderna Voegelin encontra no escritor austríaco Robert Musil as expressões “estúpido”, “idiota” e “néscio”, que retratam o mesmo tipo humano.
Qualquer um de nós já sentiu o momento em que se depara com a estupidez do próximo como um dos tormentos mais angustiantes de sua vida. Ortega y Gasset define certeiramente a distinção entre o tonto e o “perspicaz”: o segundo sempre se surpreende a dois passos de se tornar um tonto (e aí está o início da inteligência), ao passo que o primeiro jamais suspeita de si mesmo, sempre se considera “discreto” e se instala na sua torpeza e tranqüilidade de “néscio”. Não há como tirar o tonto da sua tontice; aliás, como bem diz Ortega, a diferença entre um “néscio” e um homem “mau” é que o mau descansa às vezes, o néscio nunca.
Voegelin toma de Musil os conceitos de “estupidez simples” e “estupidez inteligente”. O “estúpido simples” é alguém que erra por ignorar o que acontece, por mera desinformação; já o “estúpido inteligente” é alguém que insiste no erro por acreditar que sempre tem razão. Do resumo histórico que o filósofo faz, ressalta uma constante que caracteriza o “estúpido inteligente”: a negação deliberada da razão, que lança o ser humano na bestialidade, mesmo que esta assuma as formas aparentemente sofisticadas da técnica ou da ideologia. O estúpido não quer conhecer, prefere permanecer na negação da realidade. No fim das contas, pensa com o poeta alemão Novalis (muito admirado pelos nazistas): “o mundo será como eu quero que ele seja”. Por não respeitar a realidade como ela é, violenta-a de uma forma ou de outra; mas, como ela é “insubornável”, cedo ou tarde ela se vingará, pregando-lhe uma peça. E como resultado o estúpido assume uma atitude de revolta contra tudo e contra todos.
Ao binômio de Musil, Voegelin acrescenta mais um termo para descrever “Hitler e os alemães”: o de “estupidez criminosa”. Se o estúpido inteligente insiste no erro, o criminoso está disposto a fazê-lo custe o que custar. A sua vontade racional é substituída por um desejo de poder alucinado, que acaba encontrando satisfação somente na destruição do seu semelhante; as aparentes “razões” que invoca para fazê-lo — de raça, de credo, de cor ou de sexo –, não passam de pretextos.
Hitler foi exatamente isso: um estúpido criminoso, o exato oposto do spoudaios, do homem maduro defendido por Aristóteles. Contudo, permaneceu um ser humano: não é possível perder a razão ou o próprio espírito só porque queremos: eles continuam a fazer parte da constituição humana. Como diria Voegelin: “Foi de uma humanidade em forma absolutamente humana, porém a humanidade mais notavelmente desordenada e doente: uma humanidade pneumopatológica”. O estúpido, e mais ainda o estúpido criminoso, não é um “psicopata”, mas algo mais profundo: sofre de uma doença do espírito, de uma pneumopatologia, que nasce da vontade humana mas acaba por enraizar-se em todo o ser da pessoa.
Musil criou também a distinção entre “primeira realidade” e “segunda realidade”. A primeira é a realidade captada pela apreensão concreta das coisas, entendida pela razão e refletida no bom senso, em que todos vivem e se comunicam; a segunda é a pseudo-realidade criada como alternativa pelo espírito doente, em que ele tentará viver e expressar-se independentemente dos desejos dos seus semelhantes. Quando ocorre o choque inevitável entre as duas, nasce a mentira erigida num sistema em que todos os dados incompreensíveis da “primeira realidade” têm de encontrar uma explicação exata na “segunda realidade”. E nesse momento ocorre uma desumanização: o ser humano, esse algo concreto e inesgotável, feito de carne e espírito, é transformado em um mero conceito, uma simples abstração — uma “estatística”. Daí para o genocídio é apenas um passo.
Este foi o caso da Alemanha na época em que foi representada política e existencialmente por Adolf Hitler. Não houve nenhuma “aura”, nenhum “enigma”, muito menos uma “personalidade demoníaca”: tratava-se somente de uma nação de estúpidos governada por um estúpido criminoso. No choque entre a primeira realidade e a segunda, a “elite” da nação abdicou do espírito e decidiu deixar-se escravizar pelo desejo de poder, tornando-se “ralé” submetida à “autoridade da ignorância”. Essa “ralé” só estava aberta à vontade do Führer, e isso porque também ela estava imersa na mesma doença espiritual.
Para mostrar com clareza o que caracteriza a “ralé”, Voegelin usa um episódio do Dom Quixote. Como todos sabem, o cavaleiro espanhol é a personificação do homem que vive na “segunda realidade”, confundindo moinhos com monstros e camponesas com nobres donzelas. A certa altura do romance, o Quixote é libertado de uma gaiola de madeira pelo cônego, que o acompanha até a sua casa e procura convencê-lo de que suas aventuras não passam de rematada loucura. O cavaleiro responde-lhe que suas aventuras são tão reais como as que compõem os livros de cavalaria da época; o verdadeiro louco, diz, seria o cônego, que não acredita nesses livros “apesar de terem sido publicados com a licença do rei”. Aqui temos o raciocínio característico da “autoridade da ignorância”: aceita-se incondicionalmente a mentira porque “a autoridade” (que pode ser do rei, do Führer ou da “maioria”, tanto faz) a aprova.
Uma “ralé” comandada por um “estúpido”, intoxicada por uma doença erigida em sistema legal: essa estupidez institucionalizada gera uma situação de sonâmbulos conduzidos por outros sonâmbulos. Houve, entretanto, alguns que se ergueram contra essa “opção preferencial pelo desastre” e cumpriram a famosa frase do filósofo inglês Richard Hooker: ao menos “a posteridade saberá que não deixamos, pelo silêncio negligente, que as coisas se passassem como um sonho”.
O mito de que não houve resistência ao nazismo mostra-se cada vez mais infundado. Já mencionamos as obras do próprio Voegelin ou o de Robert Musil, que, ainda em 1937, deu uma conferência pública chamada “Da estupidez”. Mas existiram vários tipos de resistência, como o dos prelados Faulhaber ou Von Galen (que os nazistas não ousaram prender), de católicos como Fritz Gehrlich e Alfred Delp (executados), dos pastores Dietrich Bonhöffer (preso e executado) e Martin Niemöller (a princípio fascinado pelo nazismo, mas que percebeu a armadilha e foi preso), de intelectuais como Hermann Broch e Thomas Mann (exilados nos EUA) — e, é claro, dos irmãos Hans e Sophie Scholl.
Em fevereiro de 1943, os Scholl — que tinham formado com mais três amigos um grupo clandestino chamado “Rosa Branca” — distribuíram nos corredores da universidade de Munique milhares de panfletos em que denunciavam a loucura da guerra e a existência de campos de concentração. A Gestapo, com eficiência alemã, caçou-os e prendeu-os quase que imediatamente. Depois de uma farsa de julgamento, os Scholl foram condenados à morte e levados à guilhotina; Sophie tinha 21 anos e Hans, 25 anos. A evocação dos dois não é casual: o próprio Voegelin batizou o Instituto de Ciência Política de Munique, que fundou e onde deu as suas palestras sobre “Hitler e os alemães”, de Geschwister-Scholl-Institut (Instituto Irmãos Scholl); para o filósofo de Colônia, uma política autêntica tem de estar sob a égide da coragem.
A conclusão de Voegelin é um chamado à responsabilidade individual e a uma qualidade completamente insuspeitada neste contexto: a humildade. Porque a humildade é exatamente aquilo que afirmamos no início deste artigo: confiar na realidade. A coragem de confiar no real é a única garantia que permite superar a estupidez institucionalizada, tornar-se um homem maduro e encontrar essa realidade que fundamenta o encontro com todas as outras realidades: a vida do espírito. São necessários anos e anos de dedicação, e é necessária também uma reviravolta interior para perceber as coisas por esse novo olhar. Mas o começo de tudo está em perceber que estamos sempre a dois passos de nos tornarmos estúpidos.
Enfrentar-se com essa clareza é uma espécie de descida aos infernos; mas não esquecemos que o estúpido também desce, e de maneira muito pior: no caso de Hitler, basta ler os últimos relatos de sua vida no fétido bunker onde escolheu morrer. Uma frase publicitária da época, profundamente irônica, afirmava: “Hitler no bunker — esse, sim, é o verdadeiro Hitler!” E o que era? Segundo Joachim Fest, um homem consumido pelo ódio à humanidade, cristalizado nos seus padrões de pensamento, dominado por uma força irracional orientada somente para a destruição. É interessante confrontar esta atitude com a de Winston Churchill, a “nêmesis de Hitler”, que descreve assim os seus “anos de ostracismo” na década de 30:
“Todo profeta deve provir da civilização, mas todo profeta tem de ir para o deserto. Deve ter uma impressão profunda de uma sociedade complexa e de tudo o que ela tem para dar, e depois atravessar períodos de isolamento e meditação. É mediante esse processo que a dinamite psíquica é feita”.
spoudaios, o homem que “desceu ao inferno” do autoconhecimento e de lá voltou, é precisamente esta “dinamite psíquica”. Esta é a lição que Eric Voegelin deixou para todas as jovens gerações: a de que a tarefa da filosofia é cultivar a coragem e confiar no real, sempre de acordo com o aviso do profeta Ezequiel: “Filho do homem, te pus como sentinela para a casa de Israel. Assim, quando ouvires uma palavra da minha boca, hás de avisá-los da minha parte. Quando eu disser ao ímpio: ‘Ímpio, certamente hás de morrer’ e tu não o desviares do seu caminho ímpio, o ímpio morrerá por causa da sua iniqüidade, mas eu requererei o seu sangue de ti. Por outra parte, se procurares desviar o ímpio do seu caminho, para que se converta, e ele não se converter do seu caminho, ele morrerá por sua iniqüidade, mas tu terás salvo tua vida” (Ez 33:7–9).


Palestra que dei em 2008 sobre “Hitler e os Alemães” no FORTE 2008, idealizado pela Febratel — Federação Brasileira de Telecomunicações.

[1] Hitler e os Alemães foi publicado no Brasil em 2008, com tradução de Elpídio Dantas da Fonseca, pela editora É Realizações, que também lançou Reflexões Autobiográficas, também de autoria de Voegelin. Todos os trechos em português desse livro específico vieram dessa tradução.
[Ensaio previamente publicado no segundo número da revista Dicta&Contradicta, em dezembro de 2008.]