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sábado, 14 de março de 2020

Simon Schwartzman resenha Mussolini, de Antonio Scurati (OESP)

Mussolini

By Simon on Mar 13, 2020 06:57 am
(Publicado no O Estado de São Paulo, 13/03/2020)
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Para entender os movimentos de extrema direita que ocorrem hoje, a leitura de “M – O Filho do Século” de Antonio Scurati, recém-publicado pela Editora Intrínseca, que conta a história do surgimento do fascismo na Itália, é leitura obrigatória. É um romance documental, que faz lembrar o “Romance de Perón” de Tomás Eloy Martinez, publicado em 1998 pela Companhia das Letras, que merece uma reedição.
O fascismo surge das cinzas ainda quentes da Primeira Guerra Mundial, com seus onze milhões de mortos. Vitoriosa, mas economicamente arrasada, a Itália se divide entre um governo liberal, que tenta reconstituir a economia, e um forte movimento socialista que ganha cada vez mais força no campo e nas cidades.  Todos anseiam pela paz, mas Mussolini, que havia começado sua carreira como editor do jornal do Partido Socialista, Avanti!, e sido expulso do partido por defender a entrada na Itália na Guerra, decide abraçar a morte, a violência e o nacionalismo como formas de ação política e busca do poder. 
Seus principais parceiros, no início, são os remanescentes de uma tropa de elite desmobilizada, os Arditi, treinados para assassinar os inimigos, que depois da guerra se sentem frustrados e marginalizados. Scurati os descreve como passando o tempo embriagados, nos bordéis, armados com punhais e envolvidos em atividades criminosas. São eles que Mussolini conquista com seu novo jornal, O Povo da Itália, cujo tema principal é o ataque aos que se opuseram à participação italiana da guerra,  e os organiza com a criação em 1919 do Fasci Italiani di Combattimento, os Grupos Italianos de Combate, simbolizados por uma caveira, que dão início o movimento e do Partido Fascista.
No início, Mussolini e suas milícias paramilitares são olhados com desprezo tanto pelos liberais, que controlam o governo nacional, como pelos socialistas, que cada vez mais controlam os governos locais e ganham espaço no Parlamento. A economia do país continua estagnada, a Itália não consegue participar da partilha do mundo colonial feita pelas potências europeias e os Estados Unidos, e o exemplo da revolução russa inspira entre os socialistas a ideia de que a hora da revolução italiana também está próxima. Mussolini, no início, ainda tentou manter um discurso a favor dos operários e camponeses, e compartilhava, com os setores mais radicais do partido socialista, a ideia de que o regime político liberal não servia para nada, os políticos eram, na melhor hipótese, incapazes, e na pior, corruptos, e só uma revolução poderia resolver os problemas do país. Ambos acreditavam, com Marx e os anarquistas, que a violência era a parteira da história.
Com o país paralisado por greves e ocupações sucessivas de terras e fábricas, os fascistas decidem se colocar como defensores da ordem e, financiados por fazendeiros e empresários, partem para atacar com violência e desmantelar os movimentos e organizações de esquerda, ao mesmo tempo em que, pelo jornal, Mussolini sobe o tom na defesa da violência e do nacionalismo como os únicos caminhos para fazer a Itália voltar aos tempos gloriosos do Império de dois mil anos atrás. Na primeira eleição que em que participam, em 1919, os socialistas e o Partido do Povo Italiano, católico, conquistam a maioria, e os fascistas ficam totalmente marginalizados. Nos dois anos seguintes, que ficaram conhecidos como o “Biênio Vermelho”, a crise econômica se aprofunda, as greves e ocupações de fábricas e fazendas se multiplicam o desemprego continua e os fascistas intensificam sua violência, com assassinatos de líderes populares e destruição das sedes das organizações locais. 
Na eleição de 1921, os fascistas se aliam aos liberais e ganham, deixando os vários partidos da esquerda na oposição. No governo, a crise econômica persiste, e Mussolini continua incentivando o terrorismo, com as milícias agora organizadas em esquadrões dos camisas negras. Em 1922 organiza a “marcha sobre Roma”, em que as milícias avançam sobre a capital exigindo que Mussolini seja nomeado primeiro ministro. O governo hesita, teria sido fácil desmantelar a milícia se o exército decidisse agir, mas todos temem a confrontação.  Na chefia de governo, Mussolini trabalha para desmontar as instituições democráticas, criando dentro do governo uma polícia secreta copiada da Cheka de Stálin, para dar continuidade à violência, e em 1925 assume o poder como ditador.
Mussolini não estava sozinho em seu assalto à democracia, que incluía gestos teatrais,  acordos por debaixo dos panos, o uso descarado da violência contra os opositores, o uso sistemático da mentira e a traição constante a antigos companheiros.  Tinha a simpatia de empresários, como Gianni Agnelli, dono da FIAT, e intelectuais e artistas brilhantes e famosos, como o filósofo Benedetto Croce, o maestro Arturo Toscanini, e a amante, a aristocrática intelectual judia Margherita Sarfatti. Para eles, o Duce tinha seus defeitos, mas havia uma causa maior, a recuperação econômica e renovação da Itália, que tudo justificavam. Deu no que deu.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

A semente do fascismo assume varias formas: primeiro se intimidam escritores, depois se queimam os livros...

Numa terceira etapa, ocorrem perseguições, prisões e condenações.
No caso de Trump, supremacistas brancos se sentiram autorizados a atacar manifestantes pacíficos.
No caso da Justiça americana, o atropelador serial foi condenado a 400 anos de prisão.
E no Brasil?

Feira literária cancela convite à Miriam Leitão
 A organização da 13ª Feira do Livro de Jaraguá do Sul (SC) anunciou ter cancelado a participação da jornalista Míriam Leitão no evento. Ela faria uma palestra no dia 15 de agosto. Uma petição com mais de 3 mil assinaturas foi encaminhada à feira pedindo o cancelamento da participação de Míriam e também do sociólogo Sérgio Abranches. Num dos trechos, ao se referir à jornalista, o documento diz que o repúdio é por “seu viés ideológico”. Míriam lamentou:
—Fomos convidados, Sergio e eu, para falar da nossa formação como escritores, dos nossos livros e dos livros que nos marcaram. A mesa “Biblioteca afetiva” nos entusiasmou: iríamos falar do que amamos tanto. Infelizmente, a intolerância foi mais forte, desta vez. Mas o livro sempre vencerá.
O coordenador geral da feira, João Chiodini, disse que a decisão de desconvidar a jornalista e o sociólogo foi tomada “com vergonha”, mas “para garantir a segurança dos convidados”.
— Logo depois que anunciamos (os nomes), recebi ligações, mensagens e comentários nas redes dizendo que os dois seriam recebidos com ovadas. É a primeira vez que isso acontece em 12 anos de evento —disse Chiodini.
As últimas edições da feira tiveram presenças diversas, do cantor Lobão à filósofa Márcia Tiburi, além do cartunista Ziraldo, do historiador Laurentino Gomes e do escritor Luiz Fernando Veríssimo. Para a edição deste ano está confirmada a presença da escritora Martha Medeiros e do escritor Paulo Lins.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

O novo nacionalismo, diferente de um século antes - Branko​ Milanović (Nueva Sociedad)

Esta vez es diferente 

Se vuelve a hablar de fascismo, de nacionalismo, de lucha de clases. Pero las comparaciones simplistas de la política actual con los inicios del siglo XX son erróneas.
Nueva Sociedad, Julio 2019
Esta vez es diferente
Hace varios días, mientras revisaba mi «biblioteca», reparé en Reflexiones sobre la violencia de Georges Sorel, que había comprado y leído un cuarto de siglo atrás. Revisé mis anotaciones sobre el libro y partes del texto sin ninguna intención en particular, sino más bien como una forma de recordarme el extraño pero clarividente cóctel intelectual de nacionalismo o marxismo arrogante (según sea el caso), desprecio por los valores «pequeñoburgueses» y elogio de la violencia que hace Sorel.
Reflexiones sobre la violencia se publicó en 1907 y representa, como han observado muchos, una anticipación un tanto inquietante del siglo europeo siguiente, dominado alternativamente por guerras entre naciones y entre clases. Pero releer a Sorel en 2019 me sugirió otra visión: qué diferente es el mundo actual, a pesar de lo que muchos argumentan, del que él describió, que iba a durar casi un siglo.
Hay tres motores principales en Sorel: la lucha de clases, liderada por un proletariado organizado y sus sindicatos; la lucha nacional, impulsada por los objetivos mutuamente incompatibles de las elites nacionalistas; y el uso de la violencia como una herramienta política legítima a menudo necesaria para precipitar los procesos deseados –pero en cualquier caso, históricamente predeterminados–. Dentro de esa matriz, se puede situar cómodamente el fascismo (como lo reconoció de hecho Mussolini) o el comunismo soviético, como lo ilustra el elogio a Lenin escrito por Sorel en 1918.
Aunque a muchos de los críticos «antipopulistas» de la actualidad les gusta comparar los movimientos populistas que se registran desde Hungría hasta Suecia con el fascismo, una lectura detenida del libro de Sorel muestra claramente lo diferentes que son los mundos de ayer y de hoy.
Políticamente relevante
Analicemos cada uno de los tres temas claves de Sorel. La lucha de clases casi ha desaparecido de las sociedades desarrolladas contemporáneas. Sin duda las personas continúan diferenciándose por sus posiciones en el sistema de producción, como afirman los marxistas, pero esto ya no es un clivaje tan políticamente relevante como lo fue alguna vez.
Los sindicatos y la huelga general (las ideas por las que se conoce mejor a Sorel) viven un declive de largo plazo. Los sindicatos tienen dificultades para organizar a los trabajadores dispersos y son muy fuertes en sectores estatales, como la salud y la educación, pero no en los sectores privados de la economía, donde originalmente se constituyeron para defender los derechos de los trabajadores. Y la «huelga general» prácticamente ha desaparecido del vocabulario político.
Este año pasé un tiempo en Barcelona y presencié varias jornadas de lo que se llamó huelgas, e incluso una huelga general (vaga general). Pero pronto me di cuenta de que su función era puramente ritual: muy pocas personas se pliegan a ellas, las alteraciones son mínimas y los efectos son probablemente nulos. El papel de las huelgas, como el de las festividades religiosas, es fomentar la participación en un ritual sin esperar ninguna respuesta en la vida real. (Esto, obviamente, se ajusta más a una religión que a un movimiento cívico o de trabajadores).
Sin duda, el nacionalismo está vivo. Pero a diferencia de los nacionalismos fascistas (y del de Sorel), el nacionalismo actual en la Unión Europea no enfrenta a la clase dominante de una gran potencia contra otra, sino a los «descontentos» nacionales contra sus propias elites urbanas y contra los inmigrantes. Es una ideología perniciosa, pero su nivel de amenaza y peligrosidad es mucho menor que a principios del siglo XX.
La función del nacionalismo actual es justificar no que los franceses vayan a la guerra contra los alemanes, sino que la policía proteja las fronteras de Francia contra los migrantes africanos. No convoca a la guerra sino a salvaguardar «valores». Es defensivo, no ofensivo. Es un nacionalismo de «perdedores» y no –como lo expresó Vilfredo Pareto en la misma época que Sorel– de «leones».
(Este es al menos el caso de varios nacionalismos de Europa occidental, muy diferentes de sus predecesores fascistas. Sin embargo, no significa excluir el conflicto entre las tres superpotencias nucleares –Estados Unidos, China y Rusia–, que registran actualmente una ola de nacionalismo más o menos marcial).
El tercer elemento es la violencia. No hay similitud entre la violencia europea antes de la Primera Guerra Mundial –y sobre todo la violencia entreguerras— y la Europa de hoy. Más allá de una docena de víctimas del movimiento de los «chalecos amarillos» franceses debido al uso desproporcionado de violencia por parte de la policía y a accidentes de tránsito, y de transeúntes inocentes que murieron víctimas de actos descentralizados de ira (terrorismo), ni una sola persona fue asesinada por razones políticas durante la campaña por la independencia de Cataluña, la crisis económica en Grecia y las perturbaciones políticas en Italia, Alemania, Polonia, Hungría, los países nórdicos, etc.
El sistema político ha mostrado una extraordinaria flexibilidad y solidez. La violencia como instrumento político legítimo perdió su valor en los países europeos avanzados. (De nuevo, esto podría no ser válido para otros países y regiones).
Profundos cambios sociales 
Por lo tanto, vemos que las comparaciones fáciles de la política europea actual con la de la primera parte del siglo XX son erróneas. Nuestra inquietud con los procesos que se dan hoy proviene de aquello «desconocido» que enfrentamos cuando el espacio político experimenta una reconfiguración que es, a su vez, reflejo de profundos cambios sociales: el declive de la clase obrera y los sindicatos, la práctica desaparición de la religión de la vida pública, el auge de la globalización, la mercantilización de nuestra vida privada y el surgimiento de una conciencia ambiental. 
Creo que el clivaje estándar entre izquierda y derecha, que se remonta a la Revolución Francesa, ya no es tan útil como solía ser. Los nuevos clivajes podrían oponer a aquellos que se benefician de la apertura contra quienes quedan fuera: la burguesía urbana neoliberal contra las personas ligadas a los modos de vida nacionales. Pero esto no es equivalente al conflicto entre fascistas, comunistas y liberales.
Es, de hecho, una nueva política, y el uso de términos viejos e inapropiados –sobre todo, para atacar a adversarios políticos tildándolos de fascistas– no tiene sentido. Sencillamente, no describe de manera adecuada nuestra vida política. Quienes hablan a la ligera de fascismo deberían estudiar la ideología y la práctica del fascismo realmente existente y tratar de encontrar mejores etiquetas para nuestro complejo mundo político. 

Este artículo es una publicación conjunta de Social Europe y el IPS-Journal
Traducción: Carlos Díaz Rocca 

sexta-feira, 29 de março de 2019

Para chanceler atual, fascismos eram de esquerda; Prof. Barbosa: "fraude historica"

Historiadores criticam Ernesto Araújo por dizer que fascismo e nazismo eram de esquerda

Regimes totalitários na Itália e na Alemanha se diziam justamente contrários à esquerda, ao comunismo e ao socialismo, reforçam historiadores. Procurado, ministro não quis comentar.

Ministro Ernesto Araújo diz que fascismo e nazismo eram de esquerda e gera polêmica
Ministro Ernesto Araújo diz que fascismo e nazismo eram de esquerda e gera polêmica 
Uma declaração do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, provocou críticas de historiadores no Brasil e no exterior. O ministro disse que dois regimes totalitários, o fascismo e o nazismo, eram de esquerda. 
A declaração foi dada em uma entrevista numa rede social. O ministro das Relações Exteriores disse que o fascismo e o nazismo foram movimentos de esquerda. 
"É uma coisa que eu falo muito e é muito uma tendência da esquerda. Ela pega uma coisa boa, sequestra e perverte, transforma em uma coisa ruim. Acho que é mais ou menos o que aconteceu sempre com esses regimes totalitários. Por isso que eu digo também que... quer dizer, isso tem a ver com o que eu digo, que fascismo e nazismo são fenômenos de esquerda, não é?" 
Esta é a primeira vez que Ernesto Araújo fala isso como ministro de Estado, mas ele já tinha dito algo semelhante antes de ser indicado para comandar o Itamaraty. 
Em um artigo escrito em 2017, Araújo disse que o nazismo e fascismo são pensamentos de esquerda. Ernesto Araújo escreveu que, na década de 1920, "o socialismo se dividiu em duas correntes, uma que permaneceu antinacionalista; e outra que, para chegar ao poder, na Itália e na Alemanha, sequestrou o nacionalismo, deturpou e escravizou o sentimento nacional genuíno para seus fins malévolos, gerando o fascismo e o nazismo". 
O artigo ficou mais conhecido durante a campanha eleitoral do ano passado. Em entrevista ao jornal "O Globo" em setembro, o embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, afirmou que "é uma besteira argumentar que o fascismo e o nazismo são movimentos da esquerda". 
"Isso não é fundamentado, é um erro, é simplesmente uma besteira", acrescentou. 
E concluiu: "O Estado alemão tem a missão de informar sobre o nazismo, para nunca mais deixar nada parecido acontecer na Alemanha ou no mundo". 
Peter Carrier é pesquisador na Alemanha e autor de um relatório da Unesco sobre o holocausto. Ele disse ao Jornal Nacional que é historicamente incorreto associar o nazismo como um movimento de esquerda. E que na própria fundação do movimento nazista, nos anos 1920, eles já se declaravam contra o marxismo e contra a União Soviética. 
Segundo o pesquisador, a fala do ministro contribui para falsificar a história. 
Para Ruth Bem-Ghiat, historiadora especializada em fascismo e autoritarismo pela universidade NYU, de Nova York (EUA), o ministro tem que reler os livros de história. E que faz parte de determinadas correntes políticas adotar uma versão que seja mais adequada aos seus interesses e que dizer que esses movimentos são de esquerda é simplesmente um "absurdo". 
Para Antonio Barbosa, historiador da Universidade de Brasília (UnB), falar que o nazismo é um fenômeno de esquerda é uma "fraude". 
"Uma fraude intelectual e uma releitura completamente equivocada da própria história. É como se fosse negar o fato histórico que aconteceu na Alemanha nos anos 1930, nos anos 1940. Esse é o primeiro ponto. O segundo é que o nazismo se justifica como a oposição mais vigorosa ao socialismo, à esquerda, ao comunismo. [...] No caso da política externa, isso é extremamente perigoso porque mostra ao mundo uma visão sectária, radicalmente sectária no brasil, o que não é bom para o país", afirmou. 
Procurado, o ministro Ernesto Araújo não quis responder as críticas dos historiadores.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Manifestos academicos: sempre contra o fascismo, poucos contra a roubalheira

Recebi, de uma das associações de pesquisa acadêmica da qual sou membro, uma carta muito gentil, oferecendo-me um texto de um manifesto em favor da democracia e contra o fascismo, consultando-me se eu estava de acordo em assinar o manifesto redigido pela diretoria.
Achei correto o gesto, em lugar de simplesmente divulgar o texto em nome da Associação ou em nome de todos os membros, pois isso constituiria uma violência política.

A carta segue abaixo, seguida do próprio manifesto, do qual retirei o nome da associação, e os nomes dos primeiros subscritores.
Respondi o que segue mais abaixo, e recebi nova carta comentando minhas preocupações.
Transcrevo igualmente essa nova carta e a minha resposta in fine.
Paulo Roberto de Almeida
Sabará, 23/10/2018

           1) Carta da Associação (22/10/2018):

Queridos associados,
A atual diretoria da ABPXX redigiu um manifesto em defesa da democracia, que segue em anexo.
Compartilhamos tal manifesto com os nossos associados para que aqueles que concordem com a redação e com a mensagem que nele está contida possam também assiná-lo antes de sua divulgação - que pretendemos fazer na terça-feira pela manhã, em nosso site e nas redes sociais. Para isso, basta nos enviar um email com sua concordância.

Diretoria ABPXX - 2017/2019

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2) Manifesto da Diretoria da Associação 

MANIFESTO EM DEFESA DA DEMOCRACIA 
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM XXXXX
Diretoria da ABPXX – 2017/2019 

Diante do atual cenário que está posto no Brasil, com o acirramento das contradições, do ódio social e de afronta à democracia, relembramos alguns artigos da nossa Constituição: 

Constituição da República Federativa do Brasil (1988) 
Art. 3o Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;

II - garantir o desenvolvimento nacional;

III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. 

Art. 5o Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição; 
II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei; 
III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;

IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; 

A Diretoria da Associação Brasileira de Pesquisadores em Xxxxxx (ABPXX – 2017/2019) repudia qualquer forma de violação da Constituição Brasileira. Defendemos os seguintes pontos: 
     Democracia plena

–    Liberdade de expressão e pensamento

     Construção de uma sociedade justa e soberana 
     Igualdade de gênero

–    Respeito à diversidade 

Combatemos em todos os sentidos: 
     O fascismo e o autoritarismo

     As diversas formas de discriminação e preconceito

     A violação dos direitos fundamentais da pessoa humana 
     O ódio social e a tortura

–    A difusão da violência e da mentira 

As Instituições de Pesquisa são espaços de reflexão, da diversidade e de construção do conhecimento. Jamais teremos uma sociedade justa e soberana cerceando o pensamento crítico e a liberdade de expressão dos professores e professoras nas suas atividades acadêmicas. Neste momento de segundo turno das eleições brasileiras, reforçamos nosso compromisso com a defesa da democracia e da nossa jovem Constituição. A ABPXX se manifesta reafirmando seu viés humanitário. 
Assinam este manifesto

[Seguem nomes...]

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3) Carta de Paulo Roberto de Almeida (22/10/2018): 

Em seg, 22 de out de 2018 às 04:30, Paulo Roberto de Almeida <xxxx@xxxxx> escreveu:

O manifesto em favor de princípios e valores democráticos me parece realmente equilibrado e até mesmo sensato. A oportunidade de sua divulgação, contudo, será imediatamente considerada como sendo em favor de uma candidatura e em oposição à do adversário. Ainda que as preocupações sejam legítimas, não me parece que nossa Associação deva tomar posição agora, ou seja no momento pré-eleitoral, pois seria entendido como apoio à eleição de um contra outro, o que ofenderia o direito de sócios de defenderem uma Associação absolutamente neutra quanto a escolhas eleitorais, o que possivelmente também vai contra seus estatutos.
Sou a favor de uma manifestação desse tipo na conjuntura pós-eleitoral, como uma espécie de alerta preventivo contra deformações políticas das instituições e práticas democráticas.
Antes, me parece que o posicionamento estaria baseado em meras suposições, que podem ou não se confirmar.
Depois representaria um alerta preventivo de conformidade com nossos princípios e valores, sem o ônus de confrontar pelo menos uma parte dos associados.


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4) Carta resposta da Associação (23/10/2018): 

Prezado Professor Paulo

Partilhamos de algumas de suas dúvidas e sentimentos e estamos discutindo entre a diretoria esse manifesto a alguns dias. Mesmo sabendo do risco que corremos, tomamos essa decisão por achar que a ameaça é maior do que as conveniências que a neutralidade poderia nos trazer. Temos evitado nos pronunciar sobre várias atitudes que, a nosso ver tem se caracterizado como ameaças constantes à democracia. No caso, mesmo correndo o risco de sermos condicionados a uma candidatura, achamos importante frisar o conjunto de valores que nos norteiam antes, durante e depois de um processo eleitoral.

Por fim, lamentamos muito a situação de termos que escrever um manifesto que diz que certas falas e posições não são aceitáveis, a reiteração destas ao longo do tempo, nos trás a incômoda sensação de que esses valores democráticos podem ser substituídos entre nós.

Na certeza de que temos muito mais em comum do que em desacordo, esperamos que nossa posição possa ser genuinamente considerada, por você, como parte de uma das funções fundamentais de nossa associação.

Respeitosamente 
Diretoria ABPXX - 2017/2019

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5) Nova carta de Paulo Roberto de Almeida (23/10/2018):

Partilho de todas essas preocupações, tanto é que pretendo votar nulo, branco ou abster-me neste segundo turno.
Mas permito-me levantar uma simples constatação de natureza talvez impressionista.
O manifesto, como dezenas de outros pronunciamentos vindos de meios acadêmicos ou pretensamente intelectuais, parte de percepções, hipóteses, possibilidades, suposições, tomando como base declarações, frases, posturas infelizes ou declaradamente antidemocráticas exaradas por um candidato execrável, autoritário e preconceituoso, e com dezenas de outras más qualidades, que podem, ou não manifestar-se concretamente no período executivo (supondo-se que ganhe).
Pois bem, do outro lado temos o patético representante de um condenado por corrupção e de um partido que concretamente roubou despudoradamente o Brasil e os brasileiros (portanto, cada um de nós), incapaz de uma autocrítica e deliberadamente defensor das mais deploráveis ditaduras da região e alhures.
Ou seja, de um lado percepções e ameaças, do outro fatos concretos de roubo, corrupção e posturas reais antidemocráticas. No meio, essa manifestação pendendo indiretamente para um dos lados.
Considero pessoalmente as instituições brasileiras relativamente fortes para resistir a tentações autoritários, mas considero também a opção por um Estado atuante a condição ideal para a continuidade de roubos e malversações como já evidenciado pelo partido mais corrupto que já ocupou o poder.
O manifesto não vai mudar a realidade eleitoral: apenas transmitir uma paranoia seletiva de pessoas que não querem aceitar que o Brasil foi levado à grande destruição econômica por aqueles mesmos que agora pretendem retomar o poder.
Continuo argumentando pelo lançamento de um manifesto até mais forte no período posterior ao segundo turno.
Atenciosamente, 
Paulo Roberto de Almeida 
23/10/2018


PS.: Como por ocasião do processo de impeachment, e antes, de todos as últimas eleições desde 2002, teremos dezenas de manifestos de associações acadêmicas, pedindo repúdio aos neoliberais, agora aos fascistas, e manifestando apoio aos progressistas.
Considero tudo isso normal, e compatível com a miséria intelectual que caracteriza hoje a academia brasileira.
O que eu NÃO considero normal são reitores de universidades públicas virem a público em defesa de candidatos, pois isso contraria a própria ideia de universidade, que deveria ser, em princípio, universal, e não partidária. Para mim, esses reitores deveriam ser objeto de uma sanção moral dos respectivos Conselhos Universitários, pois partidarização de uma instituição que deveria ser apartidária.
Miséria da academia, realmente.
Paulo Roberto de Almeida 
Sabará, 23/10/2018

domingo, 24 de setembro de 2017

Right-Wing Collectivism: The Other Threat to Liberty - Jeffrey Tucker

Right-Wing Collectivism: The Other Threat to Liberty  
Kindle Edition


Um livro preocupante. Na Alemanha, um partido de extrema-direita entra no parlamento, pela primeira vez desde a Primeira Guerra Mundial, em especial entre 1930 e 1945. Nos EUA, nazistas marcham pelas ruas de Charlottesville, e fascistas se agitam em vários outros lugares, inclusive se regojizando pela eleição de um dos seus à presidência.
No próprio Brasil, um candidato declaradamente de direita -- mas mais apropriadamente fascista, saudosista da ditadura militar -- recolhe apoios em diversos setores da sociedade. Pessoas que se pretendem anti-petistas -- algumas até que se acreditam "liberais" ou "conservadoras" -- apoiam abertamente o candidato direitista que possui tantos neurônios quanto a petista derrocada da presidência.
Preocupante, na verdade, é a situação. O livro é um alerta.
Prefaciado por Deirdre McCloskey, a economista liberal do momento...
Cabe ler...
Paulo Roberto de Almeida 


Presentation:
 

The rise of the so-called alt-right is the most unexpected ideological development of our time. Most people of the current generation lack a sense of the historical sweep of the intellectual side of the right-wing collectivist position. Jeffrey Tucker, in this collection written between 2015 and 2017, argues that this movement represents the revival of a tradition of interwar collectivist thought that might at first seem like a hybrid but was distinctly mainstream between the two world wars. It is anti-communist but not for the reasons that were conventional during the Cold War, that is, because communism opposed freedom in the liberal tradition.

Right-collectivism also opposes traditional liberalism. It opposes free trade, freedom of association, free migration, and capitalism understood as a laissez-faire free market. It rallies around nation and state as the organizing principles of the social order—and trends in the direction of favoring one-man rule—but positions itself as opposed to leftism traditionally understood.

We know about certain fascist leaders from the mid-20th century, but not the ideological orientation that led to them or the ideas they left on the table to be picked up generations later. For the most part, and until recently, it seemed to have dropped from history. Meanwhile, the prospects for social democratic ideology are fading, and something else is coming to fill that vacuum. What is it? Where does it come from? Where is it leading?

This book seeks to fill the knowledge gap, to explain what this movement is about and why anyone who genuinely loves and longs for liberty classically understood needs to develop a nose and instinct for spotting the opposite when it comes in an unfamiliar form. We need to learn to recognize the language, the thinkers, the themes, the goals of a political ethos that is properly identified as fascist.

"Jeffrey Tucker in his brilliant book calls right-wing populism what it actually is, namely, fascism, or, in its German form national socialism, nazism. You need Tucker’s book. You need to worry. If you are a real liberal, you need to know where the new national socialism comes from, the better to call it out and shame it back into the shadows. Now."
— Deirdre McCloskey

  • File Size: 1977 KB
  • Print Length: 192 pages
  • Simultaneous Device Usage: Unlimited
  • Publisher: Foundation for Economic Education (September 19, 2017)
  • Publication Date: September 19, 2017
  • Sold by: Amazon Digital Services LLC
  • Language: English
  • ASIN: B075MRH3W5

More about the author

Biography

Jeffrey Tucker is Director of Content for the Foundation for Economic Education. He is also Chief Liberty Officer and founder of Liberty.me, Distinguished Honorary Member of Mises Brazil, research fellow at the Acton Institute, policy adviser of the Heartland Institute, founder of the CryptoCurrency Conference, member of the editorial board of the Molinari Review, an advisor to the blockchain application builder Factom, and author of five books, most recently Right-Wing Collectivism: The Other Threat to Liberty, with an preface by Deirdre McCloskey (FEE 2017) . He has written 150 introductions to books and many thousands of articles appearing in the scholarly and popular press.

He created the first commercial service of online book distribution that published entirely in the commons (The Laissez Faire Club) and he was an early innovator in online distribution of literature during his tenure as builder and editor of Mises.org from 1996 until 2011. He created the first live classroom in the liberty-oriented ideological space and assembled the official bibliography of famed economic writer Henry Hazlitt, a project that included more than 10,000 entries. Early in his career, following his degree in economics and journalism, he served as research assistant to Ron Paul at his private foundation.

Jeffrey Tucker gave the Franz Čuhel Memorial Lecture at the Prague Conference on Political Economy in 2017, has been a two-time featured guest on John Stossel’s show, interviewed on Glenn Beck’s television show, spoken at Google headquarters, appeared frequently on Huffington Post Live and Russia Today, been the two-time Master of Ceremonies at Libertopia, been featured at FreedomFest and the International Students for Liberty Conference, the featured speaker at Liberty Forum three years, keynoted the Young Americans for Liberty national convention, has spoken at many dozens of colleges and universities in the U.S. and around the world including Harvard University and Boston University, has been quoted in the New York Times and Washington Post, appears regularly in Newsweek and many other popular venues, and is in constant demand as a headline speaker at libertarian, technology, and monetary conferences around the world.

His books are: Bourbon for Breakfast: Living Outside the Statist Quo (2010), It’s a Jetson’s World: Private Miracles and Public Crimes (2011), Beautiful Anarchy: How to Create Your Own Civilization in the Digital Age (2012), Freedom Is a Do-It-Yourself Project (2013), Sing Like a Catholic (2009), Right-Wing Collectivism (2017). Four of his books have been translated into many languages.

Publishing site: http:fee.org
Email: jeffrey.a.tucker@gmail.com
Skype: Jeffrey.A.Tucker
Twitter: JeffreyATucker
FB Official: jeffreytucker.official
G Plus: Jeffrey.A.Tucker@gmail.com

 










Reviews:

on September 19, 2017
Format: Kindle Edition

Jeffrey Tucker was a confirmed man of the American Right. Cutting his teeth on an early Ron Paul, helping to build the Ludwig von Mises Institute,
(LvMI) and generally engaging in Rothbardian mischief throughout the 90s and into the 00s, Tucker began a slow but unavoidable sea change. He didn't move Left, as some have accused dismissively. He became much more intellectually powerful. He embraced an unabridged anarchism, stateless utterly worldview. He began this evolution very publicly, curating what was the most engaging and interesting liberty-related website for many years, Mises.org (it retains much of Tucker's vision, but has since gone its own way). His books celebrated seemingly profane and banal subjects, such as shaving and hacking a shower head, replacing typical tomes written in the usual way about the usual subjects. By the present decade, he was free from LvMI altogether, and sought to rebuild Laissez Faire Books from the dead. He also jumped into the market, leaving pure theory behind to start Liberty.Me, a social media platform for the liberty space. All along, he further branched out, embracing cryptocurrencies and other new and excited innovations. He was often first to these adoptions, cluing-in a whole milieu. Roughly three years ago, Tucker began to express in essay form what he saw as a troubling phenomenon, Brutalism. It was his pushing blunt architectural forms into a metaphor for the civil war brewing in libertarian movements. He was challenged. He was called out. Lesser bulbs went after him, but Tucker left personal squabbles behind. When the Trump phenomenon and things AltRight ascended, it was Tucker who again was out early with heavy warnings. Well, now the AltRight is a force, just how much is debatable, in US politics, and AltRighters are for sure poaching from libertarian ranks. How did this happen? If the two are so very distinct, so utterly different, why is there this very obvious pipeline? Tucker explores the intellectual rationale and genesis of this 'new' fascism, old wine in new bottles. Read Tucker. I'd say heed Tucker, but that's the choice you're going to have make on your own. And I mean it.
on September 21, 2017
Format: Kindle Edition|Verified Purchase

Jeffrey Tucker is first and foremost a good person; second, a person of principle. This book is a wake up call and a kick in the a** for lovers of freedom and individuals. This book is a spoonful of that good stuff--reason. Tucker looks at the world of freedom and authority. He doesn't pull punches whether right or left authoritarianism. It just so happens the emperor with no clothes, and the base dressing him are righties. Get it, Tucker is addressing the Klan in the closet, the Nazi neighbor, the white pride putz because they're feeling vindicated by the 2016 election of a racist. The book points these events out, and shows how history is there, and how right-wing collectivism is nothing new--that it's been resting long enough that the townsfolk barely recognize it when it walks out of the woods.
After all the Trump apologism from certain folks at Mises, neo-Confederate Paleo-conservatives, and "Blood and Soil" dog whistlers, it is refreshing to pick up a book that challenges political power. Libertarians have a struggle on their hands, and Tucker has painted its picture, has made copies, and has nailed them to every freedom lovers front door. Read up.