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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Brasil – a verdadeira soberania - Carlos Alberto Di Franco (O Estado de S. Paulo + Madame IA)

Reproduzo, pelo significado de interesse nacional a exposição de Carlos Alberto Di Franco. Grato a Flavio Miragaia Perri a transcriçao deste artigo.


Brasil – a verdadeira soberania

Carlos Alberto Di Franco 

O Estado de S. Paulo, 22 de jun. de 2026

O Brasil atravessa um momento decisivo. O País vive uma perigosa combinação de paralisia institucional, radicalização política e ausência de um projeto nacional consistente. O debate público foi capturado pela lógica simplificadora da polarização. De um lado e de outro, multiplicam-se discursos inflamados, slogans vazios e disputas que alimentam ressentimentos, mas não oferecem soluções.

Ao mesmo tempo, cresce na sociedade um sentimento silencioso, porém cada vez mais perceptível: o desejo de uma liderança madura, equilibrada e capaz de olhar além do calendário eleitoral. O Brasil precisa reencontrar um rumo. Precisa recolocar o desenvolvimento, a segurança e a prosperidade no centro da agenda nacional.

O recente tarifaço imposto pelos Estados Unidos reacendeu, à direita e à esquerda, um debate superficial sobre soberania nacional. Mais uma vez, políticos transformaram um tema sério em instrumento de propaganda. A soberania passou a ser tratada como peça de marketing eleitoral. Discursa-se muito e governa-se pouco.

Mas a verdadeira soberania não se mede pela retórica. Ela se expressa na capacidade de uma nação proteger seus cidadãos, garantir sua segurança, explorar suas riquezas de forma responsável e criar condições para o crescimento econômico.

Sob essa perspectiva, o Brasil enfrenta dois graves problemas de soberania.

O primeiro é o avanço avassalador do crime organizado. Facções criminosas deixaram de ser apenas organizações dedicadas ao tráfico de drogas. Transformaram-se em estruturas sofisticadas de poder, com presença em diversas regiões do País, influência econômica crescente e capacidade de infiltração em setores do Estado. Em muitas localidades, o crime organizado já exerce funções que deveriam ser exclusivas do poder público.

O cidadão comum percebe essa realidade diariamente. A população convive com o medo, com a violência e com a sensação de abandono. A soberania de um país é profundamente ferida quando seus habitantes deixam de ser protegidos pelo Estado e passam a viver sob a ameaça permanente de organizações criminosas.

O segundo problema é o bloqueio sistemático ao desenvolvimento nacional. O Brasil tornou-se refém de uma burocracia sufocante, de um emaranhado regulatório irracional e da ação de grupos organizados que frequentemente atuam contra projetos estratégicos para o País.

Essa realidade se manifesta com especial intensidade na Amazônia. A região concentra riquezas minerais, energéticas e ambientais extraordinárias. Possui potencial para gerar emprego, renda, inovação tecnológica e desenvolvimento sustentável em larga escala. No entanto, sucessivos obstáculos ideológicos e burocráticos impedem que o Brasil aproveite plenamente suas próprias oportunidades.

Não se trata de defender devastação ambiental nem de desprezar a importância da preservação. Mas preservar não pode significar condenar milhões de brasileiros à pobreza, nem transformar a Amazônia num imenso santuário intocável administrado, na prática, por interesses externos.

O Brasil precisa exercer sua autoridade sobre o próprio território. A exploração responsável das riquezas minerais, a produção de energia, a abertura de infraestrutura logística, a ampliação da conectividade e a geração de empregos são instrumentos legítimos de soberania nacional. País algum se desenvolveu renunciando ao uso racional de seus recursos naturais.

Os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. Nos últimos 14 anos, 111 países cresceram mais do que o Brasil. Estudos do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional mostram que, entre 123 países analisados, apenas 11 registraram desempenho inferior ao brasileiro. Em outras palavras, cerca de 90% do mundo avançou mais rapidamente do que nós.

O resultado está à vista. Crescemos pouco, investimos pouco e oferecemos poucas perspectivas às novas gerações. Milhões de jovens brasileiros olham para o futuro com insegurança. O País, que poderia ser uma potência global, contenta-se com desempenhos modestos.

O Brasil precisa de líderes que pensem grande, compreendam a complexidade nacional e sejam capazes de formular um projeto consistente de longo prazo. Governar não é administrar crises sucessivas. Governar é construir futuro.

O estadista não alimenta divisões artificiais. Não governa para as redes sociais nem para as próximas eleições. Governa para a próxima geração. Sabe que a prosperidade nasce da liberdade econômica, da segurança jurídica, da educação de qualidade e da valorização do trabalho.

O Brasil dispõe de território, recursos naturais, capacidade produtiva, talento humano e força empreendedora para ocupar posição muito mais relevante no cenário internacional. O que falta não são riquezas. Falta liderança.

A verdadeira revolução de que o País necessita não é ideológica. É uma revolução de responsabilidade, de competência e de visão estratégica. Uma revolução que enfrente o crime organizado com firmeza, liberte o potencial econômico da Amazônia e devolva aos brasileiros a confiança no futuro. O Brasil precisa de um estadista. •

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Comentários Madame IA: 

Brasil – a verdadeira soberania - Carlos Alberto Di Franco (O Estado de S. Paulo): 


Diagnóstico Crítico da Paralisia Nacional e a Ilusão da Retórica
O artigo do jornalista Carlos Alberto Di Franco, reproduzido no blog do embaixador Paulo Roberto de Almeida, apresenta um diagnóstico severo e estruturado sobre o atual estado de letargia em que o Brasil se encontra, chamando a atenção para a perigosa combinação de paralisia institucional, radicalização política e ausência de um projeto nacional consistente. A crítica central do autor foca em como o debate público nacional foi completamente sequestrado por slogans vazios e por uma polarização eleitoreira que atende a conveniências partidárias, mas falha gravemente em prover respostas aos dilemas estruturais do país. Nesse cenário de beligerância estéril, o conceito de soberania é frequentemente degradado, transformando-se em mero instrumento de propaganda ideológica e marketing político, tanto à esquerda quanto à direita, especialmente após eventos de impacto internacional como o recente tarifaço imposto pelos Estados Unidos. Di Franco contrapõe essa conduta demagógica à realidade pragmática, argumentando que a verdadeira soberania não reside no gogó diplomático ou em discursos nacionalistas inflamados, mas sim na eficiência real do Estado em proteger seus cidadãos, garantir segurança jurídica e promover um ambiente de prosperidade econômica sustentável. [1, 2, 3, 4]
O Avanço do Crime Organizado como Estado Paralelo
No topo das ameaças reais à soberania territorial e civil, a análise destaca o avanço avassalador das facções criminosas no território brasileiro, apontando que estas deixaram de atuar puramente como cartéis de tráfico para se converterem em estruturas sofisticadas de poder com capacidade de infiltração em setores do Estado. O texto adota uma postura contundente ao demonstrar que, em diversas regiões do território nacional, o crime organizado já assumiu funções que deveriam ser prerrogativas exclusivas do poder público, submetendo a população a uma rotina de medo, violência e completo desamparo. Esse fenômeno representa a falência da soberania na sua dimensão mais elementar, uma vez que o monopólio legítimo da força foi quebrado pelo crime, ferindo de morte o contrato social e a capacidade do governo de exercer autoridade efetiva sobre suas próprias fronteiras e comunidades. [1, 2, 3]
O Bloqueio Regulatório e o Potencial Sufocado da Amazônia
O segundo grande entrave à soberania nacional detalhado na publicação diz respeito ao bloqueio sistemático do desenvolvimento, gerado por uma burocracia sufocante, um emaranhado regulatório irracional e a ingerência de grupos ideológicos. O principal front desse embate é a região amazônica, detentora de um potencial gigantesco em recursos minerais, energéticos e ambientais. A crítica do autor direciona-se contra as correntes que, sob o pretexto da preservação, acabam por transformar a região em um santuário intocável que, na prática, é administrado por interesses externos, condenando milhões de habitantes locais à miséria extrema. Di Franco defende firmemente que o uso racional, tecnológico e sustentável dos recursos naturais é o caminho legítimo para afirmar a soberania sobre o território, uma vez que a vulnerabilidade socioeconômica abre margem para pressões internacionais geopolíticas indesejadas. [1, 2, 3, 4]
O Declínio Econômico Comparativo e a Urgência do Estadismo
Para fundamentar empiricamente o declínio do país, a análise recorre a dados alarmantes baseados em estudos do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, os quais revelam que nos últimos quatorze anos cerca de noventa por cento do mundo avançou mais rapidamente do que o Brasil. Esse fraco desempenho econômico crônico joga uma sombra de forte insegurança sobre o futuro das novas gerações de jovens, que se deparam com um mercado estagnado e sem perspectivas de mobilidade social. Di Franco conclui seu manifesto cobrando uma mudança profunda no perfil da governança nacional, afirmando que o país carece desesperadamente de um estadista que pense grande e governe voltado para a próxima geração, e não para as redes sociais ou para o próximo calendário eleitoral. A verdadeira transformação exigida não passa por revoluções de viés ideológico, mas sim por um choque de competência, liberdade econômica, segurança jurídica e responsabilidade estratégica de longo prazo. [1, 2, 3]


domingo, 21 de junho de 2026

O Brasil caminha para um declínio econômico de meio século? - Paulo Roberto de Almeida; + comentários de Madame IA

   

O Brasil caminha para um declínio econômico de meio século? 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Reprodução de uma postagem no blog Diplomatizzando em março de 2006, com uma nova introdução e posicionamento com respeito à dúvidas de que possamos superar a presente letargia, de mais de 4 décadas. 

Já que estamos “comemorando” os primeiros 20 anos do blog Diplomatizzando – e já antecipo que não teremos outra “comemoração” 20 anos à frente –, permito-me reproduzir uma postagem de março de 2006, pouco antes, portanto, do "nascimento do blog em questão (que foi em 17 de junho daquele ano) que tem a ver com minhas angústias ANTES, durante e DEPOIS, ou seja, nos últimos 20 anos, em face do aparente declínio, ou semi-estagnação, da economia brasileira, naquela altura já configurada nos 20 anos anteriores, isto é, desde os anos 1980, mas que eu acreditava que se manteria por mais 20 anos à frente, dada as características de nossas políticas econômicas – macro e setoriais. Creio que se possa afirmar que se trata de um fato verificável: o Brasil não cresce dinamicamente há mais de 40 anos; ele se arrasta, abaixo da América Latina, do mundo, e três ou quatro vezes menos que os emergentes dinâmicos da Ásia Pacífico, os chamados "tigres asiáticos" (que também passaram por crise profundas nesse período de quase meio século, mas que se restabeleceram e que continuam dinâmicos.

Eu parti de fatos conjunturais – o dinamismo econômico britânico na era Tatcher, que depois se desfez –, mas enfoquei traços estruturais e institucionais no caso brasileiro, que explicam nosso fraco desempenho, desde as grandes crises dos anos 1980.

Vamos ver o que eu dizia então, e o que ainda pode ser válido para os dias que correm, ou seja, meados de 2026.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 21 junho 2026

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sábado, 28 de maio de 2011

A decadência econômica brasileira: um trabalho perdido

 

Já que estamos falando de problemas brasileiros para crescer, vamos dramatizar o quadro.

Não que eu queira ser pessimista, mas por puro acaso.

Eu estava compondo uma lista de livros sobre relações internacionais e de política externa do Brasil, e dentro dela os livros escritos por diplomatas (em qualquer gênero, aliás), quando deparei com este registro, de um trabalho que já não me lembrava mais ter escrito:

 

1557. “A decadência econômica brasileira: uma inevitável tendência pelos próximos vinte anos?”

Brasília, 7 de março de 2006, 5 p.

Publicado no blog do Instituto Millenium em 8.03.06 (link). Reproduzido no site do Instituto Internacional de Planejamento Educacional (link).

Desparecidos nestes links nos dois sites.

Relação de publicados nº 630.

 

Procurei nos links, e eles obviamente já não funcionavam mais. Por isso vai aqui postado gentilmente.

Não, não sou pessimista, apenas realista...

Paulo Roberto de Almeida

 

A decadência econômica brasileira: uma inevitável tendência pelos próximos vinte anos?

Paulo Roberto de Almeida

 

Peço desculpas aos meus leitores pelo tom passavelmente pessimista, quando não francamente niilista, do título deste artigo, mas é que não pude evitar certa sensação de desalento (e talvez também de inveja) ao ler sobre o recente e espetacular recorde na captação de investimentos estrangeiros diretos pela Grã-Bretanha no decorrer de 2005. Nada menos do que US$ 209 bilhões, ultrapassando em muito o segundo colocado, os EUA, que figuram há muitos anos no primeiro lugar, tanto como receptor quanto como principal investidor, seguido, nos últimos dez anos, pela China, como segundo colocado do lado da captação (com cerca de US$ 60 bilhões) e primeiro dos países emergentes. Comparados aos pouco mais de US$ 15 bilhões obtidos pelo Brasil em 2005, a cifra é realmente impressionante para qualquer país engajado no processo de globalização. Mesmo descontando-se, da cifra britânica, US$ 100 bilhões relativos a operações da Shell, que concentrou suas operações a partir da Holanda, remetendo então recursos aos sócios ingleses, ainda assim a Grã-Bretanha ultrapassa os EUA, que “só” atraíram 106 bilhões de dólares em 2005.

Trata-se de um notável feito da economia britânica, hoje, inquestionavelmente, o melhor lugar europeu – e provavelmente mundial, pelo lado financeiro – para se fazer negócios e desenvolver novos projetos, nas diversas áreas da nova e da velha economia, quer seja a indústria manufatureira, quer sejam os “novos serviços”, um conglomerado de atividades que junta tecnologias da informação e pesquisa de ponta em nano ou em biotecnologia. Ele é tanto mais notável em vista do fato de que, duas décadas atrás, a Grã-Bretanha era um dos piores lugares do mundo para se começar novos negócios ou mesmo para manter os existentes. Como isso foi possível?

Lembro-me de que quando eu estava terminando minha tese de doutoramento, em 1984, uma digressão aborrecidamente sociológica sobre os desempenhos capitalistas em escala comparada, a Grã-Bretanha era o protótipo mesmo da decadência econômica, o exemplo acabado de declínio industrial, um modelo notório do atraso tecnológico, da desesperança científica – com sua exportação contínua de cérebros para os EUA – e do desalento político, de que eram testemunhos os freqüentes movimentos grevistas, que conseguiam paralisar até mesmo o enterro dos mortos (um serviço obviamente estatal). Em escala e em estilo talvez diferentes de um outro notável exemplo de decadência, o da Argentina, mas numa dimensão provavelmente comparável à da nação “peronista”, pela amplitude e profundidade do declínio econômico auto-infligido, a Grã-Bretanha, promotora e pioneira da primeira revolução industrial e centro indisputável das finanças internacionais nos 150 anos que seguem aos conflitos napoleônicos, tinha sido vítima, durante todo o século XX, mas mais especialmente no decorrer dos anos 60 e 70 desse século, de um dos mais acabados processos de decadência econômica a que nos foi dado assistir na história econômica mundial.

Lembro-me também que minha bibliografia sobre o “caso” inglês vinha marcada pelos conceitos de “decline”, “fall”, “end” e vários outros do gênero. Naqueles tempos – final dos anos 1970 e início da década seguinte – não parecia haver nenhum limite para a extensão da decadência britânica. Ela era feita de baixo crescimento, inflação, déficits orçamentários e de transações correntes, desvalorização da libra, “sucateamento” da indústria e dos transportes, deterioração dos serviços públicos – notadamente nas áreas da saúde e da educação –, aumento da violência nas metrópoles, enrijecimento dos conflitos sociais, empobrecimento dos equipamentos urbanos, desemprego mais do que residual ou setorial e desesperança geral na sociedade, em especial na juventude. O cenário estava mais para “Laranja Mecânica” do que para “A Wonderful World”, mais para George Orwell do que para Winston Churchill e seu otimismo inveterado quanto ao futuro do império, que aliás já não existia mais, tendo sido irremediavelmente deixado num passado distante de glórias irrecuperáveis.

E, no entanto, vinte anos depois, o que ocorreu? Um notável “renascimento” da indústria e dos negócios na Grã-Bretanha – mais notavelmente ainda na Irlanda vizinha, não esquecer –, um surto de progresso e de modernização que não deixa nada a invejar nos melhores centros da tecnologia mundial, uma recuperação econômica segura, que fez do país o mais dinâmico membro – com a Irlanda – da União Européia, exibindo, ao mesmo tempo, as maiores taxas de crescimento e as menores de desemprego e inflação. Trata-se, como já dito, do melhor lugar para se fazer negócios no continente – mas a Grã-Bretanha sempre brincou com a idéia de que o continente é que vivia “isolado” –, o que vem apoiado no fato de que os investimentos estrangeiros, inclusive dos emergentes da Ásia, têm-se concentrado na ilha. Como foi isso possível, volto a perguntar?

Não pretendo retomar aqui a história da “batalha ideológica” do século XX, já enfaticamente tratada no livro – e vídeo – conjunto de Daniel Yergin e Joseph Stanislaw sobre a luta pelo controle e administração dos commanding heights da economia. Essa batalha política entre os modelos de comando centralizado e de administração pelo mercado se encerrou e não é preciso dizer quem venceu. A Inglaterra lutou o bom combate e conseguiu reverter sua terrível decadência econômica e política. Antes disso, porém, a batalha foi dura: ela teve, primeiro, de ser levada nos “corações e mentes” dos cidadãos britânicos, nos súditos da rainha, para convencê-los de que a decadência não era inevitável ou uma fatalidade do destino, de que era possível, sim, colocar um ponto final na descida para o declínio social e começar lentamente a obra de recuperação. Depois foi preciso se desfazer de velhos mitos – e não apenas mitos, já que respondendo a construções históricas de seu passado mais ou menos “fabiano” – ligados aos papéis respectivos do Estado e do mercado no provimento de emprego e bem-estar social, de modo geral. Foi uma tremenda “reversão de expectativas”, como diria, em relação ao Brasil, o economista Roberto Campos:

Margareth Tatcher teve de sustentar lutas políticas e batalhas literais contra os interesses corporativos consolidados no antigo modelo de “welfare state”, que de “welfare” já não tinha nada e cujo “estado” era um corpo disforme, esgarçado entre as tendências protecionistas da velha indústria, os protestos enraivecidos (mas puramente de retaguarda) dos sindicatos dos setores estatizados e o desalento geral da maioria da população. Foi uma luta terrível para livrar a Grã-Bretanha do “pacto perverso” entre o Labour e a TUC – Trade Union Congress, a confederação sindical – que, durante a maior parte do pós-Segunda Guerra, tinha conduzido o país direto para a decadência, ao garantir aumentos reais de salários para os setores assim protegidos e ao repassar os custos para o conjunto da sociedade. Foi como se, no Brasil, a CUT e a FIESP, por hipótese no exercício do poder central, tivessem “complotado”, durante anos a fio, para se concederem e assim garantirem, reciprocamente, aumentos generosos de preços e de salários, repassando em seguida a conta para os contribuintes e consumidores, o que aliás não deixou de existir, de certo modo, durante as fases de alta inflação no Brasil. Trata-se da mais segura receita para inviabilizar qualquer processo de crescimento com estabilidade que se possa conhecer e ela foi seguida, conscientemente ou não, por vários governos britânicos durante boa parte da segunda metade do século XX na Inglaterra.

Pois bem, isso agora acabou, e a Grã-Bretanha renasce de sua antiga decadência, renovação tanto mais segura de continuar que o “novo Labour” aderiu ao processo e ao modelo iniciados por Lady Tatcher e deles não pretende se desvencilhar. Um pouco, aliás, como vêm fazendo os socialistas e democratas chilenos, que herdaram do período militar uma gestão mais ou menos em ordem e uma economia em franco crescimento nos quadros da globalização e da liberalização comercial. Alguma lição a tirar?

Claro que sim, e a primeira lição a tirar seria, além da inveja, desejar sorte e sucesso continuado a britânicos e chilenos, que podem desfrutar de baixo desemprego, estabilidade de preços, aumento razoável das expectativas de bem-estar, diminuição das “deseconomias” e das externalidades negativas associadas à má gestão da economia, melhora, ainda que gradual, nos padrões gerais dos serviços públicos – ou privados, não importa muito a forma de provimento – relativos à saúde, educação, facilidades urbanas em transporte, segurança etc. Enfim, sem ser preciso nenhuma revolução ou mudança dramática na situação corrente, deve ser melhor viver numa sociedade que conhece progressos incrementais nas condições de vida do que numa outra que, por hipótese, afunde progressivamente na delinqüência, no desemprego, na inflação, na deterioração dos equipamentos sociais, na compressão do poder de compra, na desesperança trazida pela sensação de aumento na corrupção política, enfim, que se debata com vários males de que padecem hoje muitos países ao redor do mundo.

E o que tem nosso país a ver com isso tudo? O Brasil conhece alguns desses males e, felizmente, está ao abrigo de outros, como poderia ser a inflação galopante que ameaça, mais uma vez, a vizinha Argentina, ou a instabilidade política, que já arrastou mais de um presidente para fora dos palácios presidenciais em outros países da região. Mas, nós acabamos de nos converter, junto com o infeliz Haiti, em campeões do baixo crescimento e da carga fiscal, aqui exclusivamente. Mais ainda, conhecendo a trajetória das contas públicas nos próximos anos, não hesito em dizer que teremos anos negros pela frente e, conhecendo também as atuais condições para a atividade empresarial e o ambiente geral dos negócios, tampouco hesito em dizer que o Brasil reúne, sem sombra de dúvida, todos os requisitos para NÃO CRESCER no futuro previsível.

Se essa trajetória não for revertida, a conclusão inevitável me parece ser apenas esta: caminhamos inevitavelmente para a decadência econômica, o baixo crescimento continuado, o desemprego mantido em altas taxas, a desesperança social convertida em humor nacional e o desalento generalizado quanto à capacidade dos nossos políticos em mudar esse quadro de declínio. O Brasil, por certo, não é um país decadente, em espírito ou disposição para a luta, mas ele parece hoje paralisado por um modelo de organização “estatal” da economia que nos garante, apenas e tão somente, isso que vemos: baixo crescimento, incapacidade de investimentos, “despoupança” líquida dos recursos do setor privado por uma máquina estatal prebendalística e perdulária, comportamentos rentistas das corporações que “assaltaram”, literalmente, o Estado, enfim, um quadro negativo de “deseconomias” de escala que nos garante apenas o que já foi mencionado, ou seja, baixo crescimento e perspectivas sombrias para o futuro.

A julgar pela história exemplar de decadência continuada – em certas épocas, mais do que agravada – dos dois casos mais notórios de baixo desempenho econômico no século XX, a Grã-Bretanha e a Argentina, estamos ainda longe de termos atingido o “auge” do declínio. Em outros termos, ainda teremos muitos problemas pela frente, com um espaço ainda aberto para um desempenho ainda mais medíocre da economia e uma deterioração ainda mais sensível dos costumes políticos. Talvez tenhamos de passar, realmente, por vinte anos de decadência, como no exemplo britânico, antes de sequer pensar no caminho da recuperação. Pelo menos é isso que eu concluo, ao constatar, em pesquisas de opinião, que o brasileiro médio ainda confia no Estado como um provedor de “soluções” a seus problemas cotidianos. Pode até ser, mas certamente não será esse Estado que aí se encontra. Reverter esse quadro vai ser difícil, mas não impossível, uma vez que já começamos a reconhecer o problema.

O próprio fato de se poder apontar para a decadência econômica inevitável do Brasil, como acabo de fazer, talvez já seja o primeiro passo para a necessária tomada de consciência e de posição, num sentido contrário à tendência declinista hoje detectada. Esperemos que não tenhamos de esperar por vinte anos, ou mais, de decadência, antes de conhecer uma reversão de tendência. Estou sendo muito pessimista? Talvez, mas não vejo motivos para muito otimismo no momento e nas condições presentes... 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 7 de março de 2006. Texto

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5361, 21 junho 2026, 7 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (21/06/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/o-brasil-caminha-para-um-declinio.html).

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O Brasil caminha para um declínio econômico de meio século? - Paulo Roberto de Almeida: 


Capítulo 1: O Diagnóstico do Declínio Estrutural de Meio Século
O artigo escrito pelo diplomata e professor Paulo Roberto de Almeida, intitulado O Brasil caminha para um declínio econômico de meio século?, publicado em seu blog Diplomatizzando em vinte e um de junho de dois mil e vinte e seis, apresenta uma análise profundamente cética e detalhada sobre a trajetória macroeconômica brasileira. O autor utiliza o marco comemorativo de vinte anos de existência de sua página na internet para resgatar e endossar um ensaio de sua autoria elaborado originalmente em março de dois mil e seis. Na visão retrospectiva e crítica do acadêmico, o cenário de semi-estagnação e letargia que ele projetava há duas décadas não apenas se confirmou, como se consolidou em um fato empírico verificável: o país acumula mais de quarenta anos de incapacidade de crescimento dinâmico, arrastando-se economicamente abaixo da média da América Latina e do mundo.
A argumentação de Almeida baseia-se na comparação do fraco desempenho brasileiro com o dinamismo de economias que passaram por reformas estruturais profundas. Ele evoca o exemplo histórico do renascimento econômico da Grã-Bretanha a partir da era comandada por Margaret Thatcher, quando o país reverteu uma decadência industrial e inflacionária severa ao combater privilégios corporativos e redefinir os papéis do Estado e do mercado. Ao traçar um paralelo com o ambiente doméstico, o autor diagnostica que o Brasil falha sistematicamente em ingressar na modernidade global devido à manutenção de políticas econômicas obsoletas e à resistência de corporações que capturaram as estruturas estatais para a preservação de vantagens setoriais.
Capítulo 2: A Decodificação do Pacto Prebendalístico e do Peso Fiscal
A análise crítica do texto exige a decodificação de conceitos da ciência política e da economia utilizados pelo diplomata para descrever a paralisia institucional brasileira. Ao classificar a máquina governamental como uma estrutura estatal prebendalística e perdulária, Paulo Roberto de Almeida aponta diretamente para o patrimonialismo e para o uso de cargos e recursos públicos como moedas de troca política, o que anula a capacidade de investimento do Estado. O termo prebendalismo, neste contexto, define o arranjo em que o orçamento público é distribuído para satisfazer o apetite de clientelas partidárias e oligarquias financeiras, gerando o que ele qualifica como uma despoupança líquida dos recursos do setor privado. O Estado, em vez de atuar como indutor do desenvolvimento, drena a riqueza gerada pelos setores produtivos para sustentar sua própria burocracia ineficiente.
Outra expressão codificada que demanda esclarecimento é o comportamento rentista das corporações que assaltaram o Estado. Com esta metáfora contundente, Almeida expõe a aliança perversa entre frentes sindicais e associações empresariais protecionistas que buscam subsídios, desonerações exclusivas e reajustes salariais acima da produtividade. Na visão do autor, esse mecanismo funciona como um complô que repassa integralmente a conta da insolvência fiscal para os contribuintes e consumidores através de uma carga tributária escorcorante. Ele ressalta que o Brasil se converteu no campeão mundial exclusivo do binômio alarmante composto por baixo crescimento econômico e alta carga fiscal, eliminando qualquer previsibilidade ou segurança jurídica para a atividade empresarial de longo prazo.
Capítulo 3: A Falência das Expectativas e a Ilusão do Provedor Estatal
No encerramento de sua exposição, o professor manifesta um desalento realista quanto à capacidade da classe política atual em promover uma reversão de expectativas na sociedade. Ele alerta que o país reúne todos os requisitos técnicos para não crescer no futuro previsível, agravando a deterioração dos costumes políticos e alimentando um sentimento de desesperança convertido em humor nacional. A maior barreira cultural para a superação desse declínio crônico, segundo o autor, reside no fato de que o brasileiro médio ainda mantém uma confiança anacrônica no Estado como o provedor absoluto de soluções para as demandas cotidianas. Almeida conclui que este modelo paternalista está esgotado e que o reconhecimento da decadência iminente constitui o primeiro e indispensável passo para uma tomada de consciência crítica pela cidadania.

 

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Brasil, China e a arquitetura da governança global - Paulo Roberto de Almeida (Seminário do Cebri, 2010) ; + Madame IA

O que eu pensava das relações Brasil-China, 16 anos atrás (antes de partir para a China para um séjour de sete meses aproximadamente):

2123. “Brasil, China e a arquitetura da governança global”, Shanghai-Paris-Rio de Janeiro, 09-14/03/2010, 21 p. Ensaio preparado para o Seminário do Cebri no Rio de Janeiro (17.03.2010; auditório da Fecomercio - Rua Marquês de Abrantes, 99 ‐ Flamengo); Painel II: Percepções acerca dos Estados emergentes. Em revisão. Debate filmado e colocado no site do Cebri.
Vários videos curtos colocados no YouTube do Cebri. Minha exposição inicial, antes do debate, está nestes dois videos, consecutivos:
http://il.youtube.com/watch?v=xaxK48SXSfE 

http://il.youtube.com/watch?v=_56MrAD5RgY

mas, existem vários outros:

http://il.youtube.com/watch?v=hMDz-olRVzU

 http://il.youtube.com/watch?v=bsemFkSElWA

 http://il.youtube.com/watch?v=anY7A0ZnR5I

 http://il.youtube.com/watch?v=T6G-QDI_HiQ

 http://il.youtube.com/watch?v=Fv0P2S62TRc

 http://il.youtube.com/watch?v=rbZZP4LTVgA  

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Comentário de Madami IA sobre minha postura:


Von Blog: Clausewitz e a estratégia blogueira da defesa - Paulo Roberto de Almeida: 

A Trincheira Clausewitziana contra as Imposturas Intelectuais
No ensaio intitulado "Von Blog: Clausewitz e a estratégia blogueira da defesa", o embaixador e cientista político Paulo Roberto de Almeida estabelece um paralelo inventivo e rigoroso entre a teoria militar clássica e a atuação no debate público digital. Escrito originalmente em 2010 e revisitado no contexto do vigésimo aniversário de seu blog Diplomatizzando, o texto utiliza as formulações do general prussiano Carl von Clausewitz para justificar a existência de seu espaço virtual como uma ferramenta de resistência e combate cultural. A análise a seguir decompõe os pilares dessa argumentação e avalia criticamente suas implicações conceituais e éticas.
A Doutrina da Defesa e a Descentralização Meritocrática
O argumento central do autor repousa sobre dois conceitos fundamentais extraídos da obra de Clausewitz: a primazia da postura defensiva e a necessidade da meritocracia no desenvolvimento estratégico. Almeida recupera a premissa clausewitziana de que uma preparação defensiva de excelência constitui, por si só, uma sólida estratégia de dissuasão capaz de pavimentar o caminho para a vitória. Ao transpor essa lógica para o universo dos blogs, o diplomata passa a enxergar sua página não como um mero diário de opiniões, mas como uma verdadeira trincheira armada contra o avanço do que ele define como insensatez, burrice, fraude deliberada e desonestidade intelectual.
Adicionalmente, o texto destaca a visão progressista de Clausewitz em oposição ao monopólio aristocrático dos postos de comando no exército prussiano da época. O autor traça uma analogia direta entre o combate ao "pedigree" nobiliárquico ineficiente e a democratização do debate propiciada pela internet. Na visão de Almeida, o ambiente blogueiro rompe com os privilégios das elites institucionais, permitindo que a relevância e a autoridade sejam conquistadas estritamente pelo mérito da argumentação, pela densidade do conhecimento exposto e pelo rigor analítico.
Valores Universais e o Combate à Mediocridade Pública
Na delimitação do seu "teatro de operações", o embaixador confere um forte teor ético e moral às suas manifestações públicas. Ele define que a finalidade última de sua trincheira virtual é a proteção de princípios democráticos e humanitários fundamentais. O autor é categórico ao classificar a defesa de regimes ditatoriais e a aplicação seletiva dos direitos humanos como atitudes moralmente abjetas e dignas de repúdio.
Reconhecendo as limitações de sua força material por não possuir exércitos ou tropas à disposição, Almeida aponta que suas únicas armas são dois computadores e sua capacidade de articulação intelectual. O poder de persuasão de sua escrita, portanto, não emana da coerção ou da dissuasão bélica, mas sim do compromisso com a exposição de evidências factuais, a aplicação da lógica elementar e a busca pelo que Maquiavel denominava la verità effetuale delle cose — a verdade efetiva das coisas. O blog assume, assim, a identidade de um bastião voltado à transparência e ao enfrentamento da mentira nos assuntos de interesse público.
Análise Crítica do Posicionamento Estratégico
Sob uma perspectiva crítica, a construção discursiva de Paulo Roberto de Almeida revela-se altamente eficaz na autojustificação do papel do intelectual na era digital, mas também carrega tensões inerentes à metáfora militar escolhida. Ao enquadrar o debate de ideias sob a ótica estrita da guerra clausewitziana, o autor assume uma postura de polarização epistemológica na qual o interlocutor divergente corre o risco de ser sumariamente rotulado como "inimigo" ou portador de "má-fé" e "estupidez". Essa abordagem combativa, embora compreensível dentro de um espírito de resistência a narrativas autoritárias, pode eventualmente enrijecer o espaço de mediação e o pluralismo que caracterizam as democracias saudáveis.
Por outro lado, o mérito inegável do texto reside na sua defesa intransigente da racionalidade e do rigor factual em um ecossistema digital crescentemente marcado pela desinformação e pelo esvaziamento do debate público. Ao reivindicar Maquiavel e Clausewitz, Almeida eleva o padrão das discussões na blogosfera, demonstrando que a agilidade e a fragmentação da internet não precisam resultar no sacrifício da profundidade intelectual. A longevidade de seu projeto editorial, mencionada nas notas periféricas da página, serve como um testemunho prático da eficácia de sua estratégia defensiva, consolidando o espaço como um ponto de referência para o pensamento independente e de oposição à mediocridade política e cultural.

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Brasil, China e a arquitetura da governança global - Paulo Roberto de Almeida (Seminário do Cebri, 2010): 

O Prisma Retrospectivo das Relações Bilaterais
No ensaio "Brasil, China e a arquitetura da governança global", concebido originalmente em março de 2010 para um seminário do Centro de Debate de Relações Internacionais (Cebri), o embaixador Paulo Roberto de Almeida formaliza suas percepções sobre o acoplamento estratégico entre Brasília e Pequim. O texto ganha relevância renovada ao ser revisitado pelo autor sob o distanciamento histórico atual, permitindo contrapor o otimismo geopolítico que ditava o início da década de 2010 à realidade empírica contemporânea das relações internacionais. A análise a seguir decompõe os eixos desse estudo de caso e examina criticamente o posicionamento do diplomata face à evolução da governança global. [12]
O Contexto dos Emergentes e a Projeção de Governança
A estrutura do documento original reflete a efervescência teórica daquela conjuntura, na qual o Brasil despontava como uma liderança regional ativa e a China consolidava sua transição para o centro do tabuleiro econômico mundial. Inserido em um painel explicitamente dedicado às percepções sobre os Estados emergentes, o trabalho de Almeida investigava como a ascensão paralela dessas duas potências poderia redesenhar a arquitetura das instituições multilaterais, até então centralizadas no eixo transatlântico. [1]
O diferencial da análise do autor reside no fato de ter sido formulada imediatamente antes de sua imersão em solo chinês para uma residência de sete meses, o que confere ao escrito o valor de um prognóstico testável. O núcleo de sua hipótese girava em torno da capacidade de cooperação mútua desses atores na reforma de órgãos como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o Conselho de Segurança das Nações Unidas. [1]
Avaliação Crítica do Alinhamento Pragmático
Ao analisar o conteúdo sob uma perspectiva crítica, evidencia-se um choque entre o pragmatismo diplomático convencional e os desdobramentos de longo prazo das ambições de superpotência da China. Em 2010, o discurso oficial brasileiro tendia a enxergar as relações com Pequim de forma estritamente simétrica, idealizando uma frente unida dos países em desenvolvimento para democratizar o poder global. O ensaio de Almeida, embora inserido nessa atmosfera de concertação multilateral, destaca-se por tentar mapear as fraturas institucionais reais que tal engajamento acarretaria.
A contradição que se extrai do balanço histórico é que a prometida "arquitetura de governança global comum" converteu-se, gradualmente, em um sistema de assimetria profunda. Enquanto o Brasil enfrentou períodos de instabilidade política e estagnação econômica nas últimas décadas, a China transitou de uma potência manufatureira para uma liderança assertiva na governança digital, tecnológica e de infraestrutura global por meio de projetos expansivos unilaterais. Essa disparidade acabou por subordinar a agenda multilateral latino-americana aos interesses de suprimento de commodities e de segurança alimentar do mercado chinês, esvaziando o idealismo de uma governança compartilhada equitativamente.
O Valor do Registro Histórico no Debate Digital
O resgate dessa publicação serve como uma validação da utilidade dos acervos intelectuais no ambiente digital, funcionando como o que o embaixador qualifica de quilombo de resistência racional. Ao manter públicos os registros em áudio, vídeo e texto de suas formulações passadas, o autor submete sua própria trajetória analítica ao crivo do tempo. [1]
Essa atitude contrapõe-se à volatilidade do debate contemporâneo nas redes, reafirmando o compromisso com o método empírico recomendado por pensadores liberais clássicos. Em termos de relações internacionais, o ensaio de 2010 permanece pedagógico não necessariamente pelas previsões que se confirmaram, mas por ilustrar os limites do voluntarismo diplomático frente ao realismo econômico que dita a dinâmica das superpotências.



quarta-feira, 10 de junho de 2026

Meus chutes geopolíticos - Paulo Roberto de Almeida

Meus chutes geopolíticos

Paulo Roberto de Almeida 

O mundo já era multipolar, sempre foi, mas agora está quase virando bipolar, como na primeira Guerra Fria; só que lá, a parte medíocre — a despeito dos mísseis nucleares — era a URSS, uma nulidade econômica, politica e cultural.

Hoje, a parte medíocre são os EUA, já eram antes de Trump, mas esse idiota acelerou tremendamente o processo. Os EUA não são uma nulidade econômica (ainda), mas já o são na parte diplomática, cultural e na total falta de credibilidade global, ao serem dirigidos por um debil mental, cercado por incompetentes submissos. 

Isso facilita muito a ascensão da China, mas me surpreende muito uma outra incompetência: a de analistas e de jornalistas reputados, que atribuem parte do sucesso da China ao Brics, o que me parece uma idiotice sem tamanho. A China não deve NADA ao Brics em sua tremenda ascensão. O Brics é um monstro metafísico, uma espécie de Frankenstein nouvelle manière, que é mero teatro para enganar ingênuos e desinformados.

Mas tem muita gente na chamada “comunidade epistêmica” dos internacionalistas que acredita piamente no tal de Brics e numa outra entidade diáfana chamada pomposamente de “Sul Global”, outra coisa inexistente.

Os diplomatas profissionais do Itamaraty, extremamente preparados e competentes, são praticamente obrigados a rechear insossos discursos oficiais para os true belivers do Planalto com essas nulidades conceituais do Brics e do Sul Global, como se eles tivessem qualquer importância do ponto de vista de um processo de desenvolvimento econômico racional do Brasil, que poderia, e deveria, dispensar completamente essas nulidades.

Creio que vários diplomatas concordam comigo, mas eles não podem aderir às minha “heresias geopolíticas”, por medo das reprimendas que podem vir do alto.

O que mais me angustia não é exatamente o fato de que o Brasil não perder nenhuma oportunidade de perder oportunidades, como dizia um diplomata “maldito”, Roberto Campos. A perda de tempo pode ser recuperada em algum momento. Mas o que me deixa triste, mesmo, são burrices sendo erigidas em diretrizes diplomáticas. Lamento por meus colegas.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 10/06/2026


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Relatório sobre a Liberdade de Imprensa, da Repórteres Sem Fronteira

Relatório sobre a Liberdade de Imprensa, da Repórteres Sem Fronteira

Liberdade de Imprensa: em queda no mundo, em melhoria no Brasil, mas ainda num indicador muito abaixo do necessário e PELA PRIMEIRA VEZ, à frente dos EUA (mas isso também não vale, pois com DJT qualquer republiqueta fica com melhor nota).

A liberdade de imprensa no Brasil melhorou, segundo levantamento da organização não governamental Repórteres Sem Fronteiras. Entre os 180 países avaliados, o Brasil ficou na 52ª posição e ultrapassou os Estados Unidos pela primeira vez. No mundo, a liberdade de imprensa caiu para os níveis mais baixos em 25 anos, desde que o ranking começou a ser publicado. A organização não governamental Repórteres Sem Fronteiras mede a liberdade de imprensa com base no contexto político, econômico e sociocultural do país, nas condições de segurança e nas leis que regulam o trabalho jornalístico.

https://www.youtube.com/watch?v=tSVy2alERr0 (CNN);
https://www.youtube.com/watch?v=QjQEpV1fl34 (G1);
https://www.youtube.com/watch?v=9To554-WOTg (TV Cultura);
https://www.youtube.com/watch?v=80ePmpzOcWY (Euronews);

Esta informação é precisa e atual, conforme os dados divulgados pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) nesta quinta-feira, 30 de abril de 2026.
Abaixo, apresento uma análise detalhada e crítica sobre os dados do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2026:


1. O Desempenho do Brasil: Ascensão e Contraste:
- Posição Histórica: O Brasil alcançou a 52ª posição entre 180 países.
- Ultrapassagem dos EUA: Pela primeira vez na série histórica do ranking, o Brasil superou os Estados Unidos, que caíram para a 64ª posição.
- Evolução Recente: O país consolidou uma trajetória de recuperação expressiva, subindo 11 posições em relação a 2025 e acumulando uma alta de 58 colocações desde 2022.
- Contexto Sul-Americano: Na região, o Brasil agora ocupa a segunda melhor posição, atrás apenas do Uruguai (48º).


2. A Crise Global da Liberdade de Imprensa:
- Nível Crítico: A RSF alerta que a liberdade de imprensa no mundo atingiu seu nível mais baixo em 25 anos.
- Situação dos Países: Pela primeira vez, mais da metade das nações avaliadas (52,2%) encontra-se em situação classificada como "difícil" ou "muito grave" para o exercício do jornalismo.
- Deterioração nos EUA: A queda norte-americana é atribuída a uma crise de confiança pública e à hostilidade institucional renovada sob o segundo mandato de Donald Trump, com ataques sistemáticos a jornalistas e uso da máquina pública contra veículos de comunicação.


3. Decodificação dos Fatores de Melhora no Brasil:
De acordo com os relatórios da Agência Brasil e do G1, a ascensão brasileira é explicada por:
- Estabilidade Institucional: A retomada de relações menos conflituosas entre o governo federal e a imprensa.
- Segurança: A ausência de assassinatos de jornalistas no último período avaliado e a criação de novos mecanismos de proteção à atividade.
- Combate à Desinformação: Iniciativas governamentais e da sociedade civil voltadas à integridade da informação.


4. Ponto Crítico: O "Assédio Judicial":
Apesar da melhora no ranking, a RSF e veículos como o Estadão ressaltam que o Brasil ainda enfrenta desafios estruturais. O país permanece classificado em uma zona de "situação sensível" devido ao uso crescente do assédio judicial contra repórteres e veículos independentes, onde processos em massa são utilizados para asfixiar financeiramente e intimidar o trabalho jornalístico.
O avanço brasileiro, portanto, deve ser lido como uma exceção em um cenário global de retrocesso, mas que ainda carece de reformas legislativas para proteger o jornalismo de abusos do Poder Judiciário.

Fonte (IA Gemini):
https://share.google/aimode/RDlj6653I2Vfu3ryY

sexta-feira, 24 de abril de 2026

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A China e a América Latina (e o Brasil) - Rubens Barbosa ( OESP)

Opinião: 

A China e a América Latina

No caso do Brasil, a nova política externa dos EUA não colocou em questão as políticas do governo brasileiro em relação a Pequim


Por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 10/02/2026


Em novembro passado, poucos dias depois da divulgação da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA – na qual a América Latina aparece como a principal prioridade de Washington, o governo chinês anunciou uma nova política para a região.

O documento apresenta três aspectos: 1) a América Latina como uma terra cheia de vigor e esperança; 2) as relações da China com a América Latina em desenvolvimento vigoroso; e 3) o trabalho conjunto para implementar os “programas para a formação de uma comunidade com futuro compartilhado”.

Os programas mencionados visam à ampliação da cooperação, tendo como objetivo o “desenvolvimento, a implementação de civilização, da paz e da conectividade entre povos”.

O programa de desenvolvimento busca a implementação da Iniciativa para o Desenvolvimento Global, que inclui ações conjuntas em áreas como o Cinturão e Rota e cooperação nas áreas de comércio e investimento, financeira, campo de energia e de recursos, na infraestrutura, na indústria de manufatura, na indústria agrícola, em inovação e tecnologia, espacial, marítima, inspeção e quarentena aduaneiras, entre agências de promoção de comércio e investimento, associações empresariais na proteção ambiental, mudanças climáticas e redução de desastres naturais, fiscal e regulamentação de mercado.

O programa de civilização proposto pelo governo chinês visa à implementação da Iniciativa para a Civilização Global, que significa o aprofundamento do intercâmbio e aprendizagem mútua entre civilizações da China e da América Latina e do Caribe, educação e formação de recursos humanos, esporte, intercâmbio e cooperação nas áreas de imprensa, publicação, rádio, filme e televisão, intercâmbio acadêmico e de think tanks. O programa de paz busca levar adiante a Iniciativa para a Segurança Global, intercâmbio e cooperação militares, cooperação judiciária e policial, ações contra a corrupção e de repatriação de fugitivos, recuperação de ativos, segurança cibernética, não proliferação e controle de exportação. O programa de conectividade entre os povos prevê ações para fortalecer a governança e o desenvolvimento sociais, cooperação na redução da pobreza, saúde, consular, turística, intercâmbios entre entidades subnacionais e entre os povos.

Enquanto a China oferece uma proposta visando a uma diplomacia independente de paz e cooperação, sugere a prática de valores comuns da humanidade e apresenta uma ampla plataforma inclusiva de aproximação em praticamente todas as áreas com a América Latina, buscando a melhoria de suas condições de vida e a presença da região no mundo, na Estratégia de Segurança Nacional, Washington coloca os EUA em primeiro lugar. E, para a defesa de seus interesses, dá prioridade às relações com a América Latina sobre todas as outras regiões. A preocupação com a China na região está presente quando o documento acentua que qualquer tipo de ajuda dos EUA aos países da região deve estar condicionado à redução gradual da influência externa adversária, mencionando especificamente instalações militares, portos, infraestrutura e mesmo a aquisição de ativos estratégicos, entre outros, e com ameaça velada aos países do hemisfério ao afirmar que “a escolha que todos os países devem enfrentar é se querem viver num mundo liderado pelos EUA, com países soberanos e economias livres, ou num mundo paralelo no qual são influenciados por países do outro lado do mundo”.

Considerando a América Latina como seu “quintal”, a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA afirma, de acordo com a teoria do realismo flexível, “queremos garantir que o Hemisfério Ocidental permaneça razoavelmente estável e bem governado o suficiente para prevenir e desencorajar a migração em massa para os EUA; queremos um hemisfério cujos governos cooperem conosco contra narcoterroristas, cartéis e outras organizações criminosas transnacionais; queremos um hemisfério que permaneça livre de incursões estrangeiras hostis ou da apropriação de ativos-chave, e que apoie cadeias de suprimentos críticas; e queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos importantes. Em outras palavras, vamos afirmar e fazer cumprir um ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe”. Para as Américas, trata-se da volta da Doutrina Monroe (1823 – América para os Americanos), com a clara intenção de exercer seu poder em uma área que consideram sua zona de influência.

No caso do Brasil, levando em conta sua dependência comercial e econômica da China e o viés antiamericano do PT ao longo dos 20 anos em que o partido exerceu o poder, a nova política externa dos EUA, que começou a ser desenvolvida na Venezuela, em Cuba e no Panamá para afastar a influência da China, até aqui, não colocou em questão as políticas do governo brasileiro em relação a Pequim. Os entendimentos sobre terras raras com o Brasil colocam desafios concretos à política externa. Em março próximo, depois de visitar a Ásia, o presidente Lula deverá visitar oficialmente os EUA e manter entendimentos com Trump. A preocupação do governo do PT é manter o melhor diálogo com Trump e evitar possível interferência do governo norte-americano nas eleições presidenciais de novembro.

 

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

 

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/a-china-e-a-america-latina/

 

 

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