Polarização

Polarização

Considerações sobre as recentes disputas eleitorais nas duas grandes democracias do hemisfério.

A expansão das franquias eleitorais se fez mediante um processo concomitante à consolidação de regimes democráticos nos principais países ocidentais. Desde a emancipação americana, em 1776, continuada pelo estabelecimento da constituição da Filadélfia em 1787, passando pela revolução francesa de 1789 e pelas diversas constituições republicanas e monárquicas que se seguiram, assim como pela ampliação dos direitos de voto na Grã-Bretanha de meados do século XIX, baseada no direito costumeiro progressivamente construído pela Magna Carta (1215), pelo Bill of Rights (1689) e pelas reformas eleitorais a partir de 1832, eleições abertas, censitárias ou igualitárias, têm sido o principal instrumento de formação de governos legítimos nas grandes democracias do Ocidente. A primeira e, aparentemente, a mais estável democracia republicana da era contemporânea, tem sido pautada, desde a origem, pelo princípio da igualdade formal dos cidadãos eleitores, consagrada na única carta constitucional até aqui mantida relativamente similar ao modelo desenhado pelos “pais fundadores”, ainda que o direito universal ao voto livre tenha sempre enfrentado obstáculos procedimentais importantes.

No Brasil, eleições para as câmaras municipais vêm sendo realizadas desde os primeiros anos da colonização, mas de ordinário reservadas aos “homens bons”, o que de certo modo foi preservado até a “Constituição da mandioca”, nas eleições gerais do período imperial, e mesmo na primeira fase do regime republicano. O sistema foi modernizado, inclusive pela admissão do voto feminino, pouco depois da Revolução de 1930, mas sua universalização verdadeira só ocorreu após a inclusão dos eleitores analfabetos na redemocratização pós-ditadura militar. Sua fiabilidade operacional, por meios eletrônicos, desde os anos 1990, colocou o Brasil à frente das principais democracias da atualidade, inclusive da mais antiga democracia republicana.

Brasil e Estados Unidos passaram, recentemente, por contendas eleitorais duramente disputadas. Isso representa uma característica eventual, uma possibilidade ocasional, em regimes democráticos enfrentando fases marcadas por intensas lutas no “mercado do poder” de suas respectivas vidas políticas, ou seja, o embate entre forças políticas organizadas em torno de algum personagem carismático. Essa disputa tem sido identificada, no caso do Brasil, entre forças tradicionais conservadoras ou centristas e a emergência das correntes de esquerda representadas sobretudo pelo PT e, dentro dele, pela figura de Lula; mais recentemente, foi entre esse polo de poder e a contestação de grupos mais estridentes de extrema-direita identificados com o chamado “bolsonarismo”, seja o “pai fundador”, sejam seus familiares. No caso dos EUA, o progressismo sindicalista vinha sendo representado pelo partido Democrata, ao passo que a direita e o conservadorismo estiveram mais bem identificados com o partido Republicano, este dominado, desde dez anos aproximadamente pela figura carismática de Donald J. Trump.

Cabe registrar, antes de qualquer comentário específico sobre os recentes processos eleitorais no Brasil e nos EUA, que a polarização política, isto é, a fratura entre duas fortes correntes nacionais, não é inédita em disputas eleitorais, seja em democracias avançadas, seja em países de desenvolvimento econômico ou político mais incipiente. Países de tradições classistas ou sindicais mais pronunciadas, como na Europa ocidental, exibem, desde o século XIX, tais embates entre a esquerda e a direita, que encarnam, de um lado, o legado liberal-conservador que remanesce desde praticamente o Ancien Régime, e a contestação de tipo social-democrática (socialista ou marxista) que se fortaleceu a partir do final do século XIX. Ela ainda representa um polo progressista bastante forte nessas democracias, existente em regimes republicanos ou monárquicos, mas em ambos de base predominantemente parlamentarista, ao contrário dos presidencialismos de quase todo o hemisfério americano, latino ou anglo-saxão.

A polarização política foi bem mais pronunciada no caso do presidencialismo do Brasil, inicialmente no embate entre “tucanos” (do PSDB) e lulopetistas, mas na fase recente, entre esta última corrente, mais bem encarnada na figura carismática de Lula – cujo alcance popular e cuja adesão eleitoral são bem maiores do que as do seu partido – e esse difuso grupo identificado com o “bolsonarismo”; este, no entanto, não possui qualquer doutrina política identificável, a não ser uma confusa incorporação de slogans (mais do que “teses”) das franjas lunáticas da extrema-direita, defendendo a luta contra o multilateralismo, o globalismo, o progressismo de maneira geral. No caso dos EUA, a “polarização” sempre foi mais bem representada pela alternância entre os dois partidos tradicionais, um bipartidarismo quase secular, o que é, aliás, um cenário político mais próximo – ainda que com tonalidades ideológicas diferentes – do observado nos modelos políticos da Europa continental, um panorama que assiste, desde décadas, à alternância entre forças liberal-conservadoras – grosso modo, de direita – e aquelas identificadas com os diversos polos progressistas (socialdemocracia, esquerda socialista).

No caso do Brasil, a “polarização” foi basicamente estimulada pelo próprio PT, numa tentativa de monopolizar toda a esquerda – mesmo contra os partidos trabalhistas da República de 1946 – e para se demarcar dos conservadores, que na verdade sempre dominaram o poder legislativo por excelência, em face da alternância entre presidentes de tendências populistas ou centristas. A ditadura militar acentuou certa polarização no cenário político, entre “socialistas” e “direitistas”, o que reforçou o discurso lulopetista do “nós e eles”, do “povo vs. elites”. Já a experiência histórica americana não se encaixa muito bem nessa oposição ideológica, bem mais europeia ou latino-americana, pois o bipartidarismo tradicional seguia linhas socioeconômicas ou regionais, com adesões políticas mais firmes no eleitorado-padrão (mas que também foi sendo transformado aos poucos por influxos imigratórios mais intensos nas últimas décadas).

Pode-se dizer que uma espécie de “polarização” parcialmente carismática acabou sendo introduzida pela figura de Trump, que aparece num momento de maior fragmentação do cenário geopolítico internacional, com o desafio montante de uma segunda grande potência econômica, que passou a representar um contraponto à hegemonia americana, triunfantemente unipolar no momento da implosão do comunismo da primeira Guerra Fria, mas logo em seguida contestada por um poder supostamente “comunista”, em irresistível ascensão nesta “segunda Guerra Fria”. O movimento MAGA, encarnado por Trump e seus seguidores imediatos, não é exatamente um “canto de cisne” de uma potência em declínio, pois que os EUA apresentam uma produtividade e uma capacidade de inovação – sem precisar aventar o poderio militar – bem superiores aos níveis registrados na Europa ocidental das últimas décadas, mas o substrato da “mensagem” trumpista, personalista – se ela existe, parcialmente representada pelo programa “Mandate for Leadership”, de 2025 – é a de um desmantelamento completo do sistema multilateral criado pelos próprios EUA ao final da IIGM, em especial do sistema multilateral de comércio e do “guarda-chuva” militar americano em favor dos europeus, no quadro da Otan.

O principal resultado do programa trumpista de “fazer a América grande de novo” foi a deterioração da situação econômica interna dos EUA – sobretudo pela insanidade tarifária, que impulsionou a inflação doméstica –, seguida pela total perda de credibilidade da grande potência ocidental pela escolha dos adversários errados em conflitos errados. Trump – por motivos que no futuro podem ser esclarecidos – escolheu claramente o lado de Putin na guerra de agressão do ditador russo contra a Ucrânia, e o lado de Netanyahu, numa guerra de escolha contra o Irã, o que acabou por agravar a situação econômica não apenas do eleitorado americano, mas de grande parte do mundo, pela elevação dos preços do petróleo e derivados (sem mencionar as tentativas de anexação do Canadá, da Groenlândia e do Panamá, e a invasão e tutela sobre a Venezuela e seu petróleo). A arrogância trumpista parece refletir uma arrogância invejada, a de Putin, que está destruindo a economia (e a demografia) russa na sua guerra de escolha contra a Ucrânia, personalidade autocrática que Trump visivelmente admira, além do líder chinês, em princípio o “inimigo principal”, mas respeitado pelo patológico narcisista norte-americano.

Similaridades entre os recentes processos eleitorais no Brasil e nos EUA, em torno de uma aparente “polarização”, são superficiais e sem identidades substanciais entre a natureza dos resultados em cada um dos países. Uma comparação pode, no entanto, ser feita, quanto à forma pela qual o incumbente americano e o desafiante brasileiro foi decisivamente derrotado ao cabo dos respectivos pleitos. No caso brasileiro, a rejeição dos dois candidatos era inegavelmente alta, mas não foi Lula quem venceu o embate, e sim foi o desafiante que perdeu, por seus enormes erros de posicionamento e os grandes equívocos da campanha no segundo turno. No caso dos EUA, não foram os Democratas que infligiram uma tremenda derrota a Trump, e sim o próprio incumbente, quem “fabricou” imensas perdas para o Partido Republicano, em quase todos os estados e distritos, muitos deles ainda dependentes de procedimentos eleitorais disfuncionais.

Trump possui programas e políticas inadequadas ou totalmente equivocadas para os desafios atuais dos EUA, que ele resume à “reindustrialização” (impossível) e à imigração, ambos problemas atacados pela via de métodos errados e inconsequentes. Lula 4, do seu lado, possui os mesmos problemas que já eram os de Lula 3 (e de Dilma 2): gastos estatais em nítida ascensão, insustentáveis no médio prazo, e uma visão anacrônica do sistema internacional, como sempre foi a do lulopetismo diplomático. Diferenças e aproximações à parte, entre cada uma das duas experiências eleitorais recentes, nos EUA e no Brasil, dois elementos substanciais precisam ser enfatizados: Trump representa uma diminuição ainda mais pronunciada dos fundamentos da governança interna e uma contínua perda da credibilidade externa do seu país, ao passo que Lula confirma a manutenção dos elementos básicos do regime democrático e uma reafirmação (ainda que parcialmente equivocada) da credibilidade diplomática do Brasil. O mundo (ou pelo menos parte dele) fez o “L”. Trata-se de uma imagem muito positiva para o Brasil. Esperemos que ela não seja afetada pela má condução dos assuntos econômicos domésticos. Inshalá…

Brasília, 5528: 5 de novembro de 2026.