terça-feira, 4 de agosto de 2026

É possível distinguir o antipetismo do fascismo ordinário de 1/3 da população? - Paulo Roberto de Almeida

É possível distinguir o antipetismo do fascismo ordinário de 1/3 da população?

Paulo Roberto de Almeida

Diferentes medidas dos institutos de pesquisa de opinião revelam aspectos diversos dos sentimentos dos eleitores e da população em geral com respeito às tendências politicas que dividem os brasileiros, com aparentemente uma divisão fundamental entre dois polos, comumente chamados de Direita e Esquerda. Tipologicamente, ao assimilar essas correntes, ou movimentos, à bipartição clássica que vem da Revolução francesa, estaríamos em face das mesmas grandes linhas que dividem, no mundo como um todo, a opinião pública que participa ou toma partido na política na maioria dos países entre, de um lado, o grupo que privilegia a igualdade, a distribuição igualitária de bens públicos, a ação corretora do Estado nos fatores da desigualdade entre os indivíduos que formam a sociedade, e, de outro lado, aqueles que defendem a individualidade dos direitos, a ordem e a defesa da propriedade privada, a não interferência do Estado no âmbito da iniciativa individual, em suma, um quadro geral que não diferenciaria muito o Brasil de muitos outros países da comunidade internacional.

Seria esse o caso do Brasil, mais um exemplo de distinção típica e similar a outros casos nacionais, de divisão da população entre Direita e Esquerda? Não creio que o molde geral se ajuste inteiramente ao caso brasileiro, dado o personalismo e a “afetividade” que cercam boa parte do jogo politico em nosso país. A formação oligárquica tradicional nas estruturas politicas ou a identificação pessoal com poderosos, ou com personalidades dotadas de certo carisma pessoal, podem entrar nesse jogo, ao obstruir escolhas aparentemente racionais que estão na base das identidades opostas assimiladas a escolhas opostas no leque politico que vai da Direita à Esquerda nas escolhas eleitorais regulares.

Não creio, pessoalmente, que exista um cálculo político e econômico que dívida ideologicamente a população brasileira entre esses dois campos politicos identificados racionalmente com dois modelos opostos de sociedade. A simplificação jornalística ou a aproximação do caso brasileiro a outros modelos político-ideais existentes em determinados países pode levar a essa tendência à divisão mais ou menos clara entre Direita e Esquerda em nosso país. De forma geral, as oligarquias que tradicionalmente dominaram as instituições de comando politico no Brasil tendem a ser naturalmente conservadoras, influenciando as escolhas eleitorais da população, que também tende a se afeiçoar a determinados líderes políticos que encarnam sentimentos de identificação, abrindo, portanto, maior espaço a manifestações populistas ou demagógicas em parte do eleitorado. Mas esse tipo de expressão política pode se exercer tanto à Direita quanto à Esquerda.

Esse elemento afetivo pode, portanto, se manifestar de maneira mais afirmada em parte da população, dai certos sentimentos menos politicamente determinados e mais ocasionalmente identificados a personalidades, o que acaba produzindo fenômenos temporários ou mais resilientes de adesão politica. A nostalgia monárquica que ainda permeia uma pequena parte da população pode ter mais origem na figura de D. Pedro II do que propriamente um preferência pela instituição da monarquia em si. No decurso da República foram inúmeras as ocorrências de adesão espontâneas ou habilmente manipuladas a certos lideres dotados de algum carisma pessoal. O varguismo, o lacerdismo, o ademarismo, o juscelinismo, o janismo, o brizolismo podem ser assimilados a correntes de opinião que ultrapassam o cálculo politico racional, desde os anos 1930 atta República de 1946.

O regime militar interrompeu por duas décadas o jogo normal da política, ao cassar parte do direito de voto da população; na redemocratização a figura de Lula encarnou boa parte das aspirações populares por uma vida melhor, presente na vida nacional no último meio século. O lulopetismo tornou-se um fenômeno e um movimento, dentro do espectro que se poderia identificar com uma possível esquerda nacional (pelas próprias declarações dessa corrente e pelo carisma do personagem), mas que também suscitou forte oposição na classe média e nos setores conservadores, dadas as seguidas demonstrações de corrupção no trato dos negócios públicos. 

De certa forma, o PT, por um conjunto de fatores — a condução gramsciana do partido, mas sobretudo o carisma do personagem —se converteu no único partido estruturado no país, dada uma evolução peculiar das demais agremiações que se converteram em núcleos caciquistas de disputa e apropriação de recursos públicos de maneira profissional e institucionalizada, fenômeno que também alcançou o PT, mas de forma orgânica. A corrupção política nos partidos tradicionais sempre foi uma característica mais individual, artesanal, na tipologia marxista; ela se converteu em prática “industrial”, corporativa, no caso do PT, o que o habilitou a dispor de um núcleo significativo de votos entre os eleitores dependentes do assistencialismo estatal e a fração naturalmente “progressista”, “distributivista” dentre os eleitores. O crescimento da corrupção dez emergir um sentimento antipetista relativamente forte em vários estratos do eleitorado.

Fenômenos peculiares à história politica nacional, ainda vinculados às duas décadas de regime militar — que também correspondeu a um período de crescimento dinâmico da economia, antes de criar as fontes de uma estagnação quase permanente — fizeram emergir uma nova corrente, também personalista, dotada de atributos variados, mas caracteristicamente antipetista e antilulista, temporariamente identificada ao bolsonarismo. Ele tem características tipicamente fascistas, mas o varguismo também as tinham, e a despeito disso foi apropriado pela esquerda, pelo seu lado sindicalista populista. 

Nos dois casos, petismo e antipetismo, hoje mal identificado ao bolsonarismo (por circunstâncias muito peculiares), são duas forças importantes na política brasileira, ambas dispondo de quase um terço do eleitorado, mas também concentrando um volume significativo de rejeição recíproca. O personalismo do jogo eleitoral, mais do que o “fascismo” ordinário de uma parte da população, ou o “esquerdismo” de outra, pode talvez explicar o impasse do  atual ciclo eleitoral, visto nos meios jornalísticos (até “sociológicos) como sendo a “polarização” da sociedade. 

Não existem respostas fáceis aos dilemas da politica brasileira, e não sabemos ainda se a “polarização” atual — com apenas um dos representantes na disputa real — vai se manter, pois a deterioração do ambiente político tende a se generalizar, com a “democratização” da corrupção atingindo praticamente todos os partidos, causando provavelmente um crescimento da abstenção e da rejeição ao jogo politico. A conjuntura requer nova análise dotada de maior sofisticação do que esta modesta aproximação a um fenômeno relativamente inédito na política nacional

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 4/08/2026

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