Marc Bloch (1886-1944) no Panthéon
Por Daniel Afonso da Silva, pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP

In memoriam de Carlos Guilherme Mota (1941-2026), Fernando Antonio Novais (1933-2026) e João Adolfo Hansen (1942-2026). Historiadores maiores, professores totais e mestres inesquecíveis de todos nós.
Amanheceu ameno aquele 16 de junho de 1944 em Lyon. Céu límpido, vento fresco, 13ºC, brisa ao longe, apreensão ambiente e humor desconexo. Jornais clandestinos noticiavam os sucessos crescentes dos aliados. A Overlord alcançava em triunfos em todas as partes. A Supreme Allied Commander mobilizara 156 mil soldados diretos, 195 mil soldados em retaguarda, 11 mil aviões, 7 mil navios e milhares de marinheiros e aviadores no desembarque na Normandia. O Dia D, Jour J, D-Day, fora um acontecimento esplendoroso. O presidente Franklin Delano Roosevelt excedia-se em regozijo em Washington. O primeiro-ministro Winston Churchill, desde Londres, acreditava, enfim, ser o início do fim. O seu “Now this is not the end. It is not even the beginning of the end. But it is, perhaps, the end of the beginning” [Agora, este não é o fim. Não é sequer o começo do fim. Mas é, talvez, o fim do começo] de 1943 era coisa do passado. O camarada Joseph Stalin delirava em êxtase em Moscou. O general Charles de Gaulle conseguira, enfim, inspiração para respirar esperançado.
Hitler e o Reich iam cercados em todos os fronts. Toda a embarcação nazista fazia água. Com vazantes imensas e abundantes e capacidade diminuta e cada vez menor de contenção.
A Wehrmacht tinha sido quase integralmente evacuada do Norte da África, do Mediterrâneo e parte do Sul da Europa. Mussolini e seus fascistas prosseguiam seus desvarios na República de Saló ao Norte da Itália após Hitler, em pessoa, tê-lo mandado buscar em Roma. Mas a libertação de Roma e do resto do país era questão de dias, meses e detalhes. Italianos espalhados por todos os continentes começavam a avistar dias bons.
O calvário diabólico do front germano-soviético a Leste era assunto pessoal de Hitler e Stalin, que, na impressão do grande historiador britânico Norman Davies, não passavam de “bandits” [bandidos], criminals[criminosos], “outlaws” [foras da lei], “robbers”[assaltantes], “thugs” [marginais], gangsters, “crooks” [vigaristas].
A inclemência das 144 bombas V-1 – Vergeltungswaffen 1 – sobre o Reino Unido, sendo 73 descarregadas sobre a área metropolitana de Londres, naqueles dias 15 e 16 de junho de 1944, fizeram, sim, muito mal à gente de Buckingham Palace e de Westminster. Mas a resiliência e altivez dos ingleses e de seu British Bulldog, Winston Churchill, seguiam largamente inquebrantáveis.
Do outro lado do mundo, as investidas do general Douglas MacArthur também arpejavam frescor. O Comitê Francês de Libertação Nacional – dito Comitê De Gaulle – transbordava por todos os continentes, fazendo da reação ante o Reich um movimento, um sentimento e uma sensação verdadeiramente mundiais.
A gente de Lyon transitava quase – ou perto de quase – aliviada. O racionamento seguia severo. Escassez e fome ainda tomavam conta. Insumos básicos para primeiras necessidades faltavam endemicamente. Café, manteiga, açúcar e combustível eram distribuídos em porções minoradas. Sem o Black Market, excedências eram impossíveis. Bondes e trens funcionavam com limitações. Cafés, cinemas e teatros eram mantidos abertos, mas sob rigorosa censura, repressão, indução e constrangimentos.
Klaus Barbie (1913-1991) era o plenipotenciário de Hitler na região. Seu codinome, malgré lui, era o odioso “Carniceiro de Lyon”.
Ele chefiava a polícia secreta nazista na cidade desde 1942 e agia indisfarçadamente como um sádico ardiloso e contumaz. Coordenava, observava e executava pessoalmente prisões, interrogatórios, torturas e deportações. Seu maior trunfo tinha sido a interceptação, seguida do assassinato, de Jean Moulin (1899-1943), líder da resistência francesa na região.
Carl Oberg (1897-1965) e Helmut Knochen (1910-2003) – respectivamente alto comandante da SS e coordenador de segurança do Reich na França – supervisionavam com acuidade essas ações inomináveis de Barbie em Lyon.
Com o bloqueio integral de Paris, Lyon era o símbolo e a capital da resistência francesa. Todos os olhos, aliados e do eixo, moviam-se, naturalmente, para lá.
A liberação de Paris, naquele 16 de junho de 1944, era questão de dias ou semanas. O general Dwight D. Eisenhower (1890-1969) seguia seguro disso. O marechal Arthur Tedder (1890-1967) não tinha dúvidas sobre isso. O general Bernard Montgomery (1877-1976) queria e agia intensamente para isso. O marechal Trafford Leigh-Mallory (1892-1944) desdobrava-se diuturnamente nesse propósito. Enquanto o almirante Bertram Ramsay (1883-1945) dava retaguarda a todos esses avanços.
O que afligia Hitler. Constrangia Oberg e Knochen. Enfurecia Barbie. Martirizava mentalmente a cúpula do Reich. E avariava as bússolas, relógios e mapas do eixo.
Nada estava definido.
Nada ganho nem perdido.
Mas alguma desesperação tomava conta dos ocupantes nazistas na França, em Paris e em Lyon.
O Rhône e o Saône fluíam insones na área central lionesa. Como insones também seguiam os prisioneiros encarcerados na École de Santé Militaire e no Forte Montluc. Entre eles, Marc Bloch (1886-1944).
Interceptado no 8 de março anterior pelos agentes da Gestapo, Marc Bloch previa seu desfecho humano rondando as casas. Brutal e vastamente torturado por horas, dias e semanas a fio, a sua condição de resistente e judeu – não necessariamente nessa ordem – dava-lhe a certeza de seu fim. Fim de tudo e fim da partida.
Naquela sucessão de avanços dos aliados, Hitler caíra em desespero e Barbie, mais e mais sedento por sangue. Marc Bloch sentia as virações dessa mistura de ira e alucinação de maneira palpável.
Os responsáveis pela repressão marchavam mais nervosos e impacientes no Forte Montluc. Fumavam e bebiam descontroladamente. Falavam alto, desesperados e sem discrição. Hesitavam diante das novas de Washington, Londres, Moscou e Berlim. Conseguintemente, no cárcere, com outros vinte e sete prisioneiros, todos judeus e resistentes ou resistentes e judeus, Marc Bloch impunha-se como reserva moral e pacificador de infortúnios. Seu cotidiano envolvia lições de vida e de história aos companheiros de masmorra. Seu mantra era o civismo e a altivez sem falha. Sua meta, deixar claro que nada mais honorífico a um resistente que morrer por sua pátria, morrer pela França, morrer por uma certa ideia de civilização humana.
Herói da Grande Guerra e detentor da Legião de Honra da França, ele trazia na postura, na alma, nos gestos e no semblante a significância integral e espiritual da expressão patriotismo. Capitão nas fileiras do marechal Philippe Pétain (1856-1951), sob as ordens do presidente Raymond Poincaré (1860-1934) e do primeiro-ministro Georges Clemenceau (1841-1929), ele mantinha vivas nas retinas as barbaridades desumanas das carnificinas de Verdun, La Marne e La Somme. Batalhas inesquecíveis. Guernica à francesa.
Não lhe mancava, contudo, a tenência. Ele tinha visto ao morte face-à-face e saíra vivo na Grande Guerra. Sobrevivera ao Armagedon. Fizera um banquete diante dos inimigos. Superara o vale de sombras e morte. Conhecia, portanto, bem de perto o Apocalipse. Não era mais noviço nessa experiência-limite. Tinha intimidade com o impensável. E, por tudo, trazia no corpo as cicatrizes da honra e na mente o espírito de gratidão de ser francês, ter lutado pela França e ter vencido o combate da Primeira Guerra.
Mas, agora, na Segunda, a sua mensagem aos mais jovens, naquela balsa da morte, sem destino nem futuro, no Forte Montluc, era de tranquilidade. “N’aie pas peur. Ils vont nous fusiller. Ils ne vont pas nous faire de mal” [Não tenha medo. Eles vão nos fuzilar. Não vão nos fazer sofrer].
Não se sabe terem sido estas as suas últimas palavras. Mas fora seguramente o seu gesto final. Como última ceia. Última mirada. Última intenção. Esmerada na conduta mais digna de “tomber debout” [cair em pé] e “tomber sereinement” [cair sereno]. Sempre de cabeça erguida e consciência mansa.
Nada mais nobre, sentia ele como soldado, que morrer pela pátria, sua França. Nada mais digno, sabia ele como pensador, que estar a priori no bom lado da história. Nada mais redentor, unindo o soldado ao pensador, que cumprir o ofício, completar a carreira e manter a fé.
Filho de pais alsacianos que trocaram a Alemanha pela França após a debacle de 1871, Marc Bloch nasceu em Lyon em 1886. Seguiu a formação e a profissão, historiador e professor de História. Frequentou e transitou pela excelência da École Normale Supérieuredos seus tempos mais áureos da Terceira República Francesa. Tornou-se medievalista e, conseguintemente, ascendeu a professor. Primeiro em Strasbourg. Depois em Paris, à Sorbonne.
O seu artigo Réflexions d’un historien sur les fausses nouvelles de la guerre, de 1921, escrito quando os combatentes ainda retornavam do chão de ruínas da Grande Guerra, teve impacto abrangente e impactante sobre toda a reflexão militar posterior. Virou leitura obrigatória na Escola de Preparação de Oficiais, na Escola de Guerra, na Escola Especial Militar de Saint-Cyr e na Escola Naval. O professor Charles de Gaulle conhecia-o bem e ensina história aos aspirantes a militares baseado nesse texto.
Seu Les Rois thaumaturges: Étude sur le caractère supernaturel attribué à la puissance royale particulièrement en France et en Angleterre representou inquestionáveis turning points no fazer histórico e historiográfico francês, europeu e mundial desde a sua publicação em 1924. Adicionado, depois, a Les caractères originaux de l’histoire rurale française de 1931 e a La société féodale: la formation des liens de dépendancede 1939. Todos clássicos desde a nascença.
A fundação – de braço com Lucien Febvre (1878-1956) – da revista Annales, em 1928-1929, e, depois, da Escola com o mesmo emblema, marcou à vida a operação historiográfica no mundo inteiro. Conferindo dignidade, dinâmica e organicidade ao estudo da História. Firmando-a, definitivamente, como campo. Não necessariamente como Ciência. Mas como algo diferente. Nem superior nem inferior às Ciências tampouco àquelas disciplinas sem musa, emergidas recentemente, a partir do século 18, e nominadas universitariamente de Economia, Ciência Política, Sociologia, Antropologia, Psicologia etc.
Com Annales volta-se a perceber que História, antes de tudo, é um saber muito antigo. Tão antigo quanto a Filosofia, as Letras, as Artes. Quem sabe, até um pouco de cada uma delas. Fruto da sapiência infinita de gente da qualidade de Heródoto, Plotino, Quintiliano, Aristóteles, Plutarco, que pretendiam o saber total.
Se Annales e Marc Bloch forjaram uma mensagem inquebrantável para a razão da História foi essa: campo do saber total. Indisponível, porquanto, a meras Ciências. Por mais sofisticadas que sejam. Com Annales, Febvre e Bloch sobressaiu o método e a cientificidade. Desfazendo-se o mal-entendido perpétuo – que, lastimavelmente, ainda hoje perpetua-se em rodas de “entendidos” – de acreditar-se que uma não necessariamente Ciência, no caso, a História, não tenha uma verdadeira e rigorosa cientificidade – leia-se racionalidade.
Teria dito Lucien Febvre em vários lugares: a cientificidade da História é fundamental, mas a inteligência e o talento do historiador são essenciais. Uma mensagem que dizia tudo e superava todo mal-estar das querelas entre Ciências Humanas e Humanidades, Ciências e História.
Foram eles, Bloch-Febvre, que, ao fim das contas, conseguiram demarcar questões nada triviais de ontologia, epistemologia, metodologia e deontologia. Foram eles que promoveram e incentivaram conexões profundas da História com praticamente todos os campos do saber. Almejando nada menos que o mínimo que a História pode aspirar: apreender, compreender e explicar a totalidade da complexidade do fluxo da vida. Algo, por certo, inalcançável. Mas desejado, como ambição, projeto e síntese do ofício do historiador, onde Marc Bloch aglutinou a condição de spalla e chefe de orquestra.
Fora desse ofício apaixonante, Marc Bloch também tinha vida. E vida agitada.
Tomou Simone Vidal (1894-1944), enfermeira francesa voluntária na Grande Guerra, por esposa, amor e confidente. Acompanhou ao seu lado, com realismo e contrição, a ascensão dos extremos dos anos de 1920 e 1930. Anteviu sobre a pertinácia de Hitler. Denunciou, em segredo e em plateia, a ingenuidade do idealismo dos demais europeus e norte-americanos. Esteve bem mais próximo de realistas da qualidade de seu colega inglês Edward H. Carr que dos idealistas que se reuniram em Munique naqueles dias funestos de 1938.
Com o mesmo espírito sereno e sagaz, acompanhou a erosão de uma certa ideia de Modernidade. Afrontou a fúria dos totalitários ante o Ocidente. Condenou a impunidade diante dessa fúria. Previu as investidas ignóbeis ante os judeus e à própria civilização humana. Abraçou-se aos melhores de seu tempo. Obrigou-se a seguir a consagração do Reich, a voracidade da blitzkrieg e a queda da França em 1940. Foi-lhe horrível. Mas, também, déjà vu.
Amputado de seu próprio país, foi alcançado instantaneamente pelas listas do estatuto dos judeus logo nos primeiros passos ignominiosos do governo de Vichy. Obrigou-se a amaldiçoar o marechal Pétain, seu comandante e herói com ele da Grande Guerra. Foi cassado de seu posto de professor na Sorbonne. Teve confiscados o seu apartamento e a sua biblioteca com milhares de livros em Paris. Assistiu desassombrado a marcha dos nazistas pela capital. Sentiu o desolo de viúva na presença tranquila de Hitler diante da Torre Eiffel e dos nazistas ocupando tudo por Paris. Soterrou-se em desgosto ao notar a sua cidade-luz germanizando-se. Enojou-se ao ouvir homens, mulheres e crianças sendo violentados em sua dignidade, decência e nacionalidade. Sentiu-se, pela primeira vez na vida, estar diante de um muito que era demais.
Pai de seis filhos e eterno marido de Simone Vidal, buscou amparo em Montpellier, zona ainda livre de ocupação. Conseguiu aí algum respiro e alguma ocupação. Voltou a lecionar. Vivia-se a transição de 1940 para 1941. Tudo eram sombras. Seus mundos desapareciam sob seus olhos e sob seus pés. Não sabia onde mirar nem caminhar. Única solução, digna ao seu turno, foi guerrear.
Inicialmente pela História. Foi quando escreveu e legou o seu memorável Apologie pour l’histoire ou métier d’historien, publicado postumamente, em 1949, com aquela nota inesquecível de Lucien Febvre, de 1941, que traduz tudo ao dizer:
“Combatemos longamente, em conjunto, por uma história maior e mais humana. A tarefa comum, no momento que escrevo, decerto sofre ameaças. Não por nossa culpa. Somos os vencidos provisórios de um injusto destino. Tempo virá, estou certo, em que nossa colaboração poderá verdadeiramente ser retomada: pública, como no passado, e, como no passado, livre. Por ora, é nestas páginas, todas repletas de sua presença, que, de minha parte, ela prosseguirá. Manterá com isso o ritmo, que foi sempre seu, de um acordo fundamental, vivificado, na superfície, pelo proveitoso jogo de nossas afetuosas discussões”.
Essa nota foi um recado privado a Bloch. Quando Febvre o fez, Bloch já tinha ingressado na Resistência. Oficial de reserva, Bloch seguiu o seu dever. Caiu clandestino e, por codinome, escolheu Narbonne.
Às rápidas, tornou-se chefe do movimento de franco-atiradores na região de Lyon, sua terra natal. Não menos rapidamente, documentou o seu diagnóstico de tudo, também publicado postumamente, como Étrange Défaite aquela queda da França. Onde, em sua convicção, “nous chefs n’ont pas su penser cette guerre. En d’autres termes, le triomphe des Allemands fut, essentiellement, une victoire intellectuelle et c’est peut-être ce qu’il y a là de plus grave” [Os nossos líderes não souberam pensar esta guerra. Em outros termos, o triunfo dos alemães foi, essencialmente, uma vitória intelectual e é talvez nisso resida o mais grave].
Vivia-se 1943 quando ele entrou em fase com Jean Moulin em Lyon e com o general Charles de Gaulle em Londres. Por sua excelência, nessa sinergia, tornou-se rápido integrante do diretório regional dos movimentos unidos pela resistência. Uma entidade importante, decisiva e fundamental para a resistência interna contra o Reich.
Fernand Braudel (1902-1985), retornado do Brasil e da Universidade de São Paulo, feito oficial do exército francês pela resistência, capturado pelos nazistas e recolhido ao isolamento de campos de concentração, diria, sem parcimônia, que “Bloch est celui qui organise. Un peu le chef d’état-major” [Bloch é quem organiza. Ele é meio que o chefe do estado-maior]. Lucien Febvre acentuaria que “Car nous aurons eu de drôles de vies, à tout prendre: en un certain sens du mot drôle…” [No fim das contas, nós tivemos vidas engraçadas: num certo sentido da palavra engraçado]. Eles previam que o fim de Bloch ia próximo.
Capturado pela Gestapo no 8 de março de 1944 após delação de falsos companheiros, Marc Bloch foi conduzido à temida École de Santé Militaire de Lyon. Nessa lúgubre habitação, ele foi longa, bruta e barbaramente interrogado e torturado. Em seguida, foi transladado para o austero, mas não menos soturno, Forte Montluc.
Na manhã do 16 de junho de 1944, com seus companheiros de martírio, foi levado para Saint-Didier-de-Formans, departamento de Ain, 30 quilômetros ao Norte de Lyon, onde foi fuzilado.
Tombava um homem. Erguia-se uma moldura.
François Furet (1927-1997) grafaria, apropriadamente, em vários de seus escritos formidáveis, quase todos inspirados na bravura de Marc Bloch, que “Faire de l’histoire, c’est raconter une histoire” [Escrever história é antes de tudo contar uma história].
Vendo em perspectiva, a esfinge da vida e da obra do fundador da École des Annales talvez adorne esse adágio com bemóis mais eloquentes que, numa lançante, podem recomendar que, mais que contar, escrever História – e História que vai ficar – supõe também e sobretudo vivê-la. Coisa que ele fez até o seu último suspiro.
Quem sabe a sua maior desilusão em vida foi que a sua geração não conseguir soterrar a assombração da guerra. A Grande Guerra era para ser a última. Mas não foi. Veio a outra. A drôle de guerre. Como perdoar as elites francesas e europeias por permitir aquele novo Armagedon, perguntava-se em Étrange Défaite.
Cidadão, portanto, patriota, em tudo, historiador total: Marc Bloch. Que, por tanto e por tudo, vem de receber a maior honraria que um cidadão francês pode receber: o ingresso no Panthéon – Aux Grands Hommes la Patrie Reconnaissante [Aos grandes homens, a pátria agradecida].
Quando Pierre Nora (1931-2025) começou a republicar a sua obra pela editora Gallimard, ao longo dos anos de 1980, o público caiu em êxtase. Mesmo historiadores profissionais e acadêmicos eruditos, na França e fora, ignoravam a existência de Marc Bloch. Foi o início da reabilitação dessa personagem incontornável da intelligentsia mundial.
A republicação de Étrange défaite, na viragem para 1990, ultrapassou fronteiras universitárias, alcançou o público em geral e causou sensação. A clarividência de suas análises ombreava e superava o que de melhor havia-se escrito e dito sobre a guerra, a ocupação e a resistência – assuntos permanentemente vivos no imaginário francês que jamais se recompôs da humilhação de 1940.
Alguns anos depois, em inícios do século 21, René Remond (1918-2007), Jacques Le Goff (1924-2014) e o próprio Pierre Nora reivindicaram publicamente a entronização de Marc Bloch no Panthéon. Reconheceram-no o maioral da área de História, por sua história, por seu talento, por sua coragem. Erigiram-no ao melhor entre todos. O único historiador verdadeiramente total. Em teoria, conteúdo e prática. O único a fazer História em seus múltiplos significados.
Passados muitos anos, o presidente Emmanuel Macron atendeu à demanda dos historiadores ilustres e anunciou a concessão da honraria ao casal Bloch, Marc e Simone.
O cerimonial do Élysée justificou a decisão pelo fato de que “Marc Bloch fait écho à l’héritage des Lumières, une façon de concevoir l’homme centré non pas sur le repli identitaire mais sur l’ouverture à l’autre, sur l’altérité” [Marc Bloch faz eco ao legado do Iluminismo, uma maneira de conceber o ser humano centrada não no fechamento identitário, mas na abertura ao outro, à alteridade].
Patrick Boucheron acentuou, apropriadamente, que não existe panteonização inocente. Não existe mesmo. O presidente Macron tem lá seus interesses. Que são complexos. Mas eles, aqui, não importam. Importa que Marc Bloch, vulto da França, da Europa e de uma certa ideia de decência e dignidade humana, ingressou no santuário dos grandes naquela terça-feira ensolarada do 23 de junho de 2026 em Paris. Tornando-se o primeiro professor de História e primeiro historiador profissional a receber essa distinção. Passando, assim, a integrar um lugar que, a rigor, sempre foi seu e muito seu: a História.
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PS: versão preliminar deste texto saiu em A Terra é redonda do dia 22/06/2026, às vésperas da recepção oficial de Marc Bloch (1886-1944) no Panthéon em Paris, e, adiante, foi enriquecido pelos comentários, reações e correções, que sensivelmente agradeço, de Alya Aglan, Paola Giacomoni, Patrick Boucheron e Paulo Roberto de Almeida.
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