Autobiografia de um fora-da-lei, 8: Canudos, um crime que atingiu precocemente minha reputação
Por Paulo Roberto de Almeida
Revista Será!, ago 21, 2026
Sobre Canudos, uma ferida ainda não devidamente cicatrizada.
Minha lógica, como já revelado reiteradamente nesta autobiografia, é a de que o poder do Estado, isto é, o meu próprio poder, deve prevalecer em todas as circunstâncias, acima de quaisquer interesses particulares ou disposições pessoais, mesmo por parte de indivíduos que estejam a meu serviço (o que aliás ocorre muito frequentemente entre aqueles que deveriam supostamente defender as leis).
Enquanto eu ainda era português, ou misturado com certos povos e raças das mais distantes partes do globo (por onde acostaram meus indômitos navegadores, se amancebando com as nativas), essa lógica tinha difícil aplicação, pois havia casos nos quais pretensos servidores das minhas leis e das minhas ordens delas ousavam se aproveitar para servirem a si próprios. Em alguns casos se tratava apenas de má interpretação da minha vontade, noutros de pura gana e cobiça. Depois, ao estabelecer minhas próprias regras, ainda tive de suportar os interesses portugueses durante quase uma década: pagamento pela minha independência – como seu tivesse a obrigação de comprá-la –, incorporação dos tratados iníquos aceitos por Portugal no Ancien Régime, falência completa do meu primeiro banco, já dilapidado pela família reinante antes de partir, e, finalmente, algumas outras maquinações que tinham mais a ver com Portugal, e sua periclitante questão sucessória, do que com as necessidades da minha pátria em definitivo.
Ao me tornar legitimamente brasileiro, já na quarta década do século XIX, mas com dirigentes das mais diferentes qualidades que se sucediam esporadicamente, espoucaram umas e outras revoltas aqui e ali, as quais tive de responder da maneira mais severa possível, embora os gaúchos me tenham dado mais trabalho, por praticamente dez anos. A questão farroupilha me foi especialmente delicada pois que eles preferiam um regime republicano, ao qual eu também me inclinava, mas eu não podia permitir o fracionamento da nação, sobretudo em face de vizinhos extraordinariamente relutantes ao nosso sistema monárquico imperial, que eles consideravam deliberadamente imperialista.
De fato, andamos intervindo algumas vezes nas querelas internas dos uruguaios – que já tinham pertencido ao Império –, pois que blancos e colorados viviam às turras, no meio das quais roubavam gado dos nossos criadores dos pampas. Isso até serviu de pretexto para que tropas do Napoleão do Prata, o tal de Solano Lopez, decidissem intervir nas nossas terras do Mato Grosso, de acesso muito difícil e, também, atravessassem a Argentina para nos atacar nas lonjuras sulinas. Até apreenderam um barco levando nacionais para o Mato Grosso, pelo rio Paraguai. Foi aí que começou a maldita guerra, a da Tríplice Aliança – o que era raro – entre o Brasil, a Argentina e o Uruguai contra os reais agressores, o que nos levou, sobretudo nossas forças, a cinco anos de contenda, até liquidar fisicamente o ditador paraguaio. Muito depois, historiadores enviesados nos acusaram de crimes de guerra, quando foi o ditador que levou mulheres e crianças para as frentes de batalha, ou que a Inglaterra é que tinha provocado o conflito, o que é simplesmente ridículo; até protegemos o Paraguai dos ambiciosos argentinos.
Esse episódio nunca deixou os anais da nossa história militar, mas ele não teve a dimensão horrenda que teve uma outra ocorrência militar, contra os meus próprios súditos e cidadãos, que deslustrou terrivelmente a reputação do Exército, a entidade mais autoritária de nossas forças armadas, sobre a qual os próprios militares não gostam muito de falar. Eu me refiro à guerra contra a “Troia de Barro”, o povoado de Canudos, na primeira década da República, uma atrocidade das mais bárbaras, que só ficou realmente conhecida por causa de um repórter com alma de militar, que enviou relatos diretamente do terreno desértico, onde tropas muito mal preparadas enfrentavam algumas centenas de camponeses pobres naquele fim de mundo do norte da Bahia, a maior parte dos quais, inclusive o líder messiânico que lhes encantava com sermões milenaristas, acreditava que ainda se vivia no regime monárquico, e que o bom imperador poderia lhes vir em socorro.
As tropas do exército republicano, acreditando por sua vez que ainda combatiam mais um complô monarquista, como na revolta da Armada alguns anos antes, investiram cinco vezes com fúria inaudita contra os pobres dos crentes, que só lutavam com espingardas de espoleta, foices e facões, os mesmos usados em sua dura labuta naquelas terras desoladas. A guerra de extermínio contra o povo ignorante do interior da Bahia teria passado em branco nos registros da história, não fosse pelo registro jornalístico daquele repórter, com pretensões de ser um homem de ciência, que reuniu suas matérias na terceira parte de um livro sobre aqueles sertões quase desconhecidos do Brasil e, obviamente, do mundo. Sua história começava por descrever a terra árdua na qual os combates se desenrolaram do final de 1896 ao final de 1897, um agreste seco e desprovido de terras mais favoráveis a uma agricultura extensiva. Depois ele se dedicou ao estudo do “homem” de Canudos, representado por alguns milhares de fiéis que seguiam as prédicas do beato Antonio Conselheiro, que fazia predições sobre o fim do mundo, quando o sertão viraria mar e o mar se transformaria em sertão. Na terceira parte, ele fala da luta, desigual, cruel, quase bárbara, que ainda assim exigiu cinco expedições de forças cada vez mais equipadas com armas mais poderosas, ainda assim canhões puxados a burros, com ordens para exterminar os moradores do pequeno e miserável reduto, que não queriam se entregar.
O livro do repórter Euclides da Cunha – que ainda se meteu em outras aventuras pela Amazônia, a serviço do Barão do Rio Branco, e que tinha pretensões à Academia de Letras – se tornou um marco na literatura nacional, a despeito de carregar equívocos cientificistas que não deslustraram sua linguagem vibrante, tomando a causa dos seguidores do beato messiânico e pintando em cores vibrantes a resistência de mais de vinte mil residentes de Belo Monte, todos massacrados pelos soldados do Exército num dos maiores crimes que já possam ter cometido os militares contra o meu próprio povo. A obra, maçuda, continuou frequentando listas de leituras obrigatórias para a intelectualidade nacional e recebeu traduções primeiro em espanhol, depois em inglês, francês e em outras línguas. Um conhecido escritor peruano, Vargas Llosa, decidiu romancear o relato pretensamente científico de Euclides sob a forma de uma obra de ficção histórica, La guerra del fin del mundo (1981), que pode lhe ter garantido o futuro prêmio Nobel.
O que mais me chocou, no imediato seguimento do massacre de Canudos, foi a tentativa dos militares de procurar se salvar do opróbio que lhes deveria ter impregnado a consciência, mas do qual eles tentaram se safar, se apresentando como salvadores da República contra uma pretensa nova revolta monarquista. Esta só existiu na imaginação dos golpistas de 1889 e dos autocratas dos primeiros anos de um regime que eu acreditava ser o melhor para o país, mas que começou por duas ditaduras e por um crime horroroso, ainda mais indesculpável, pois que eles tentavam se livrar do vexame causado pela derrota das quatro primeiras expedições contra os pobres dos sertões da Bahia. No seguimento dessa história, outras ainda mais escabrosas se seguiriam, como o combate contra outros camponeses pobres, os do Contestado, nos limites da Paraná com Santa Catarina, acerca do qual, também vergonhoso para a “minha” República, procurarei falar em outra ocasião.
O que cabe registrar, para que fique claro para todos os leitores desta minha modesta e sincera autobiografia, é que eu prezo o poder do Estado, o meu próprio poder, mas pretendo que ele se exerça nos limites das leis, que são determinadas pelos meus súditos ou cidadãos, e que também desejo que esse poder se comporte dentro das boas virtudes republicanas, pelas quais eu me guio, ainda que eu tenha tido, por vezes, de recorrer a outros poderes quando turbulências e lutas políticas ameaçavam a estabilidade do Estado e o bem-estar dos meus conterrâneos. O que me cabe agora constatar é que paixões e interesses de grupos e clãs teimam em perturbar a ordem e a segurança da cidadania, e que os militares, sem que eu lhes pedisse, interviram mais do que o necessário nesses entreveros entre grupos políticos. Eles ultrapassaram várias vezes os limites constitucionais que estipulam muito claramente que eles deveriam estar devotados à defesa da nação, não a um entendimento especioso da tal “preservação de lei e da ordem”, que eles determinam como deve ser, no seu estilo truculento. Ainda recentemente tentaram fazê-lo.
Canudos foi o primeiro exemplo fático, brutal, de como corporações muito donas de si são capazes de atuar segundo concepções próprias de como se deve comportar o Estado do qual se apropriam ao menor sinal de turbulência, o que é próprio das instituições que devem lidar com os interesses gerais de indivíduos e grupos muito diferentes entre si, o que pode ocorrer também nos próprios núcleos familiares. Paixões e interesses são próprios das comunidades, até das mais homogêneas socialmente, e cabe ao Estado, representado por cidadãos eleitos, decidir sobre suas querelas internas. As Forças Armadas foram sempre muito afoitas em aplicar seus dogmas da hierarquia e da disciplina às mais ordinárias das rebeldias sociais, até mesmo dentro de suas próprias fileiras, combatendo protestos legítimos, derrubando presidentes, ajudando a construir uma ditadura, ou até instalando uma sua própria, achando que poderiam edificar um país melhor do que os civis: trouxeram dores e sofrimentos, mesmo que não tenham repetido uma tragédia como a de Canudos.
Essa história andava esquecida nos manuais estudantis. Eu pretendi relembrá-la nesta minha autobiografia sincera, para que não se diga que eu sou um fora-da-lei por vontade própria. Por vezes, meus subordinados ultrapassam os poderes que eu gentilmente lhes concedo para ver se eles conseguem bem administrar esta nação, que dizem ser de futuro (não sei quem disse isso, mas vou tentar recuperar entre as minhas memórias diligentemente anotadas). Até a próxima…
Paulo Roberto de Almeida (pelo Estado)
Brasília, 5430: 9 agosto 2026, Revisão, 16/08/2026, 4 p.
Nenhum comentário:
Postar um comentário