Sobre os “boiolas” do Itamaraty
(Desculpem a grosseria, não é minha)
Um sujeitinho de sobrenome Figueiredo, descendente do último ditador militar do regime de 1964-1985, ignorante como só conseguem ser aqueles convencidos de que encarnam a ditadura falida pela conexão familiar, auxiliar e companheiro do Bananinha 03 nos EUA, ambos açulando a sanha trumpista contra o povo e as empresas brasileiras exportadoras para o nosso segundo maior parceiro comercial, achou que desvendava uma grande descoberta ao manifestar, num video, uma mentira monumental. Disse ele:
“— No Itamaraty só tem boiola” (usando um depreciativo comum entre supostos machões para referir-se aos gays).
Como estive na ativa do serviço exterior por mais de quatro décadas, tendo feito amizade com muitos gays do Itamaraty, todos eles de altissimo nivel, posso dizer que se trata de um imenso exagero e de uma gigantesca inverdade. A acusação ferina do enrustido Paulo Figueiredo seria apenas ridícula, se não fosse também uma frustrada tentativa de desmerecer o trabalho dos diplomatas em geral e dos nossos colegas gays em particular, vários chefiando embaixadas, talvez até em posições ainda mais altas (honni soit qui mal y pense)..
O Itamaraty talvez não tenha um número de gays superior à média da sociedade brasileira, e mesmo que a proporção seja ligeiramente superior à da população em geral isso apenas revela o machismo ainda imperante em nossa sociedade, uma vez que os gays podem ter buscado no serviço exterior uma espécie de refúgio contra as pressões do meio social (por vezes até da familia), libertando-se de um ambiente restrito para viver calmamente suas preferências e modos de vida, sem ter de se resguardar da hostilidade aberrante que ainda viceja em largos estratos da sociedade.
De algumas décadas para cá, alguns anos depois da redemocratização, os preconceitos que ainda existiam no Itamaraty contra os gays diminuiram bastante, como de resto no conjunto da sociedade. Mas no Itamaraty eles podiam ser especialmente fortes em razão da forte repressão existente nos meios militares, em especial durante a execrável, nojenta e assassina ditadura militar. O Itamaraty “importou” nessa época alguns dogmas idiotas dos milicos (supostamente todos machões), sobretudo uma aversão à admissão de gays e sua eventual exclusão por meios torpes quando “descobertos” em suas preferências sexuais. A burrice militar (e nos meios de “inteligência”) acreditava que os gays seriam mais suscetíveis de serem convertidos em espiões a soldo sob ameaça de terem revelada sua condição, quando a realidade é exatamente o contrário; os serviços de inteligência “obtêm” muito mais agentes e colaboradores entre os “homens” dado o uso mais que frequente de iscas femininas no trabalho de sedução e convencimento.
Como eu ingressei no serviço diplomático em plena ditadura militar posso aqui testemunhar minha experiência. Naquela época (1977) havia um examinador na banca de entrevistas conhecido por seu faro especial para detectar gays, vetando-os sistematicamente (alguns passavam, mas eram detectados depois). Pelo seu tino antigay, ele passou a ser conhecido como “Deer Hunter”, do nome de um famoso filme daqueles anos (mas que no Brasil teve outro nome).
Sei, por experiência propria, de vários gays que se viram obrigados a se casar (com mulheres forçosamente), para se exibirem durante alguns anos antes de assumir sua condição normal. Um deles, chegou a ser reprovado na banca pelo menos dois anos seguidos, mas aparecendo depois legalmente acompanhado de uma delicada senhora (parece que permanece até hoje, mas vários terminaram a fantasia, assim que a sociedade e o próprio Itamaraty evoluiram um pouco).
Todos os gays que conheci, e dos quais me tornei amigo, sempre se revelaram dotados de uma inteligência, cultura e sensibilidade superiores à média encontrada na sociedade (suponho que seja uma decorrência das próprias estratégias de defesa contra meios eventualmente hostis). Se algum tentou se aproximar por outras razões que o meu gosto pelas mesmas características, jamais repudiei tais gestos: apenas ignorava os acenos, comportando-me exatamente como acredito que faço com colegas e conhecidos no duplo trabalho que sempre exerci: acadêmico e diplomático.
Volto ao idiota amigo dos bolsonaristas (só tem machão entre essa escória?) para reafirmar que no Itamaraty não tem uma maioria de boiolas; na verdade, eles são uma minoria, mas se fossem uma maioria o Itamaraty seria, provavelmente, melhor, mais culto, mais inteligente, mais sensivel, quem sabe até mais “humano”?
Acho que um comentário desse tipo (o dele, cabalmente idiota, e mesmo o meu) é totalmente dispensável, pois que irrelevante para o trabalho do diplomata, geralmente descrito pela tripla função: informar, representar e negociar. Eu sempre achei essa “trindade” (pouco santa) insuficiente, e acrescentaria em primeiro lugar a função de pensar, o que traduz a minha revolta contra o dogma imbecil dos militares, embutido à força nos diplomatas durante os 21 anos de ditadura, representado pelo binômio (que eu nunca respeitei) da “hierarquia e disciplina”, uma violência contra os seres pensantes que somos (e os gays talvez o sejam mais do que a média da sociedade).
Encerro dizendo que toda essa história absolutamente idiota não tem nenhuma importância para a sociedade e para o Itamaraty, mas ela tem um grande ensinamento para todos os eleitores: NÃO VOTEM em bolsonaristas e em aderentes à extrema-direita e à direita burra, estúpida e preconceituosa, pois eles são asquerosos nesse tipo de reacionarismo abjeto.
Gays do Brasil e do Itamaraty; uni-vos contra a escória da política brasileira (e de outros paises também): vocês estarão bem melhor com menos gente dessa laia do Paulo Figueiredo e dos Bolsonaros (ops, teve um certo deslize do ponto de vista do capitão asqueroso) como representantes e mandatários de um país que se pretende aberto e tolerante como deveria ser o Brasil (mas que infelizmente não é).
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 20/08/3026
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