domingo, 9 de agosto de 2026

Um sabor de anos 1930 a esta altura da geopolítica mundial? - Paulo Roberto de Almeida

Um sabor de anos 1930 a esta altura da geopolítica mundial? “Possibilidades econômicas para os nossos netos” foi o título de um artigo mais filosófico do que econômico que o já famoso economista britânico John Maynard Keynes publicou em junho de 1930, declarando seu relativo otimismo no longo prazo em meio às angústias da crise econômica já convertida em mundial, depois da quebra da Bolsa de NY, em outubro de 1929. Keynes estava preocupado com uma solução imediata, ou seja, a curto prazo, dos enormes problemas econômicos criados pela grande crise, pois dizia que “a longo prazo todos estaremos mortos”, isto é, não adiantava esperar benesses no futuro distante, e sim trabalhar para que os problemas presentes fossem resolvidos de modo expedito. Tanto foi assim que escreveu uma carta ao candidato Franklin D. Roosevelt, antes que ele vencesse e tomasse posse nos EUA, oferecendo “soluções” para a crise da Depressão e do desemprego. Não existem evidências de que Roosevelt tenha seguido qualquer recomendação de Keynes quando começou a formular e implementar políticas “keynesianas” antes que o britânico publicasse o seu famoso “Teoria Geral” em 1936 (que não é bem uma teoria, muito menos geral). Permito-me relembrar que o Brasil de 1931 saiu relativamente rápido da crise de 1929, tendo começado a aplicar precocemente medidas “keynesianas” avant la lettre, sem que o conservador primeiro ministro da Fazenda do governo provisório de Vargas, um banqueiro paulista (antes de Oswaldo Aranha ocupasse a função no final de 1931), fizesse qualquer referência às ideias do professor de Cambridge. Esta introdução histórica vai no sentido contrário ao otimismo do economista britânico em 1930, pois acredito que estamos pior no curto prazo e sem possibilidades econômicas positivas para os nossos netos no longo prazo. A razão é que vejo um desmantelamento quase completo da ordem econômica e politica criada por nossos avós 80 anos atrás, sem qualquer visão ou mera possibilidade de correção no curto ou médio prazo, em virtude dos terríveis golpes assestados contra os sistemas multilaterais nos planos político e econômico por dois autocratas desvaiarados desde vários anos. O desastre começou com a resolução de Putin de tentar recriar o espaço geopolítico conquistado pelos seus antecessores czaristas e soviéticos, anunciada desde 2005-2007 — quando ele falou da “maior catástrofe do século XX” como sendo a implosão do império soviético. Já em agosto de 2008 ele passou à ação, invadindo o norte da Georgia; recrudesceu em 2010, apoiando comunidades russas na Transnístria, Moldova do norte, fronteira com a Ucrânia; lançou sua grande ofensiva contra o maior país da Europa Ocidental, fomentando revoltas no Donbas (Ucrânis oriental) e invadindo e anexando ilegalmente a peninsula ucraniana da Crimeia em fevereiro de 2014. Foram suas primeiras violações da Carta da ONU, fracamente respondidas pelas potências ocidentais, e totalmente ignoradas pela diplomacia brasileira (em desrespeito às suas tradições e fundamentos doutrinais). O desastre continuou sob Trump 1 (2017/2020), que desrespeitou de forma unilateral e brutalmente a cláusula de nação mais favorecida, e que continuou, sob Trump 2 (2025-202?), a desmantelar o sistema multilateral de comércio com suas medidas unilaterais de insanidade tarifária. A terceira grande potência econômica, a China, observa esse duplo trabalho de destruição, colabora com o primeiro — em virtude de sua “aliança sem limite” com o tirano de Moscou — e assiste de maneira displicente ao segundo, certa de que tudo o que os dois autocratas fazem a beneficiará no médio e no longo prazo. Mas o recrudescimento brutal dos ataques dos dois desvairados autocratas a seus supostos “inimigos” respectivos traz um sabor de “anos 30” aos tempos atuais, como mencionei no titulo desta nota. Não vejo condições de se retornar ao “status Social quo ante”, mesmo no desaparecimento dos dois citados autocratas (que espero no mais curtíssimo prazo). A razão é que as instituições econômicas e políticas foram tão abaladas pelos dois dirigentes demenciais, que será preciso um enorme trabalho de reconstrução geopolitica para colocar novamente o mundo numa ordem aceitável nos termos requeridos pela terceira grande potência militar e segunda econômica, assim como pela meia grande potência econômica da UE, pelos outros grandes parceiros do G7 — Japão, Reino Unido, Canadá — e por alguns outros membros do G20, entre eles o Brasil, cujo governo atual anda pendendo para o lado de uma fantasmagórica “nova ordem global multipolar, propista pelas duas grandes autocracias antiamericanas. Não creio que nós, ou nossos netos já presentes, enfrentaremos um novo conflito global — que desta vez poderia representar um enorme desafio civilizatório, de natureza nuclear —, mas acredito que conviveremos com esse caos relativo no curto e no médio prazo. Sorry pelo pessimismo relativo, mas no mundo tudo é relativo, como poderia dizer um outro grandd pensador. O problema é que os dois perturbadores da ordem global não pensam muito, ou pensam errado. Nossos netos não terão o mundo benfajezo imaginado por Keynes em 1930. Paulo Roberto de Almeida Brasília, 9/08/2026

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