O mais idiota dos colapsos imperiais da História: ou como destruir um império ainda jovem em menos de oito anos.
Paulo Roberto de Almeida
Este jornalista americano, Ryan Cooper, caracterizou exatamente, logo ao início da aventura trumpista, no começo do seu segundo mandato, a história recente do que foram, antigamente, os Estados Unidos da América, agora transformado num decadente, patético e declinante império de apenas 250 anos. Pouco nos registros históricos: Roma durou seis séculos, o império otomano também, o dos Habsburgos um pouco menos, mas o americano não conseguiu ultrapassar cem anos, desde 1917, quando tropas americanas desembarcaram no norte da França, para ajudar a combater os soldados do Império alemão, o segundo Reich. 1917 foi exatamente quando DJT começou a presidir um império hesitante, mas ainda vigoroso. Trump deu início à auto-desescalada, agora acelerada, graças à sua ignorância prepotente, e ao cálculo mal feito de seu amigo israelense. Eis o artigo, de título esplendoroso:
Ryan Cooper:
“Musk and Trump Are Causing the Dumbest Imperial Collapse in History”
The American Prospect, February 19, 2025
Agora que Musk já voltou a cuidar de seus negócios, o papel de provocar o mais idiota dos colapsos imperiais passou a ser desempenhado pelos guardas revolucionários da República Teocrática do Irã.
Não é irônico? E quem diria?
Xi Jinping assiste impassível a tudo isso, sabendo que não precisa fazer nada: uma hegemonia universal que ele não deseja, ou que não planejou, lhe está sendo oferecida gratuitamente.
Putin, por sua vez, assiste a tudo isso muito desesperado: o bobalhão “transacional”, conquistado décadas atrás pelo KGB (hoje administrado pelo FSB e seu chefe mafioso e cleptocrático) está destruindo não apenas uma República de 250 anos, mas levando também consigo o seu império despótico multissecular.
Nos anos 1930, as turbulências inter-imperiais conduziram, pela estranha aliança entre dois tiranos, Hitler e Stalin, à mais terrivel das conflagrações da História em escala mundial. Improvável que isto volte a acontecer: os dois atuais produtores de instabilidade não conseguirão produzir nova catástrofe, não porque não queiram, mas porque seus respectivos chefes militares lhes denegarão o acesso ao botão nuclear.
E quanto ao nosso Brasil?
Como potência média, devemos ater-nos à nossa circunstância orteguiana, que é constituída pela América do Sul, que Trump pretenderia converter no seu domínio hemisférico. Mas isso não vai acontecer: Canadá, México e Brasil nunca consentirão em se tornar colônias de um império temporariamente afetado por um desequilibrado narcisista maligno, psicopata e doentio.
Embora, no caso do Brasil, podemos ser afetados por dois fatores indesejáveis: por um lado, uma vontade infantil, mas motivada por um anacrônico anti-imperialismo antiamericano, de construir, segundo propostas de um outro império disfuncional, uma “nova ordem global multipolar”, e, por outro lado, a estúpida servidão voluntária de quem pretende ser submisso ao império do Norte, dirigido no momento pelo já citado psicopata megalomaníaco.
Deveríamos ater-nos aos fundamentos doutrinais de nossa diplomacia, que sempre recomendou preservar nossa autonomia decisória em política externa e não nos envolvermo-nos nos conflitos entas grandes potências. Rio Branco (os dois, mas sobretudo o pai), Rui Barbosa, Oswaldo Aranha, San Tiago Dantas precisam ser lidos, conhecidos, por quem pretenderia comandar o Brasil.
É a minha recomendação.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 1/08/2026
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